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terça-feira, 22 de dezembro de 2020

Previdência privada: bancos urubus abocanham até 40% de sua poupança

 

Você poupa a vida toda, o banco lucra e entrega uma aposentadoria ridícula

Amarildo/Serjusmig - Alan Santos/PR
Paulo Guedes, o banqueiro Ministro da Economia, defende a capitalização da previdência, nos moldes que condenaram à miséria milhões de chilenos idosos

Você compra uma previdência privada em algum banco e poupa mensalmente uma parte do seu dinheiro por anos a fio, pensando que sua aposentadoria está garantida. Sinto lhe informar que, quando você for conferir o valor a receber, terá a nítida sensação de que foi enganado.

E o fato é que você e alguns milhões de brasileiros estão sendo enganados mesmo. Nunca lhe mostraram o impacto negativo das taxas de administração cobradas pelo banco, nem o verdadeiro assalto que é calcular seu benefício a taxa de juros de 0%, como fazem os bancos normalmente.

Acompanhe as contas e confira. A previdência privada é ótima para os bancos e péssima para os clientes. Os banqueiros lucram e você passa dificuldades na velhice.

Taxa de administração subtrai 30% de sua poupança

Pesquisei os sites das três maiores gestoras de planos de previdência, vinculadas aos três maiores bancos brasileiros, cujos nomes todos sabem. Juntos, os três administram quase 80% (R$ 780 bilhões atualmente) dos ativos da previdência privada.

São dezenas de modalidades de planos de previdência, que cobram taxas de administração entre 0,7% a 3% ao ano. Este percentual é cobrado anualmente, sobre toda a poupança acumulada pelo cliente. Isto significa que, se você tiver R$ 10 mil e o banco descontar 2%, você fica com R$ 9.800 ao final do ano e o banco com R$ 200. No ano seguinte, você poupa mais R$ 5 mil, o banco cobrará mais 2% sobre os R$ 9.800 do ano anterior e também sobre os R$ 5 mil que você depositou. E assim o banco segue subtraindo sua poupança e engordando o lucro dele.

Ah, mas o banco propagandeia que cobra taxa de carregamento 0% e esconde a taxa de administração. E faz isso de caso pensado, já que a taxa de carregamento é muito menos onerosa, pois incide só uma vez sobre cada contribuição mensal, enquanto a taxa de administração, extorsiva, incide sobre o patrimônio acumulado.

Vou fazer as contas com uma taxa de administração de 1,5% ao ano, um percentual médio adotado pelos bancos. Considerei uma mulher, a quem chamo de Ana, que contribui com R$ 300 por mês, começando aos 25 anos e terminando aos 62 anos, quando se aposenta. Ana contribui religiosamente durante 37 anos. Seu patrimônio valoriza 4% anuais além da inflação, o que corresponde a uma taxa de juros de 4% ao ano, a chamada taxa de juros atuarial.

Com uma taxa de administração de 0% e taxa de carregamento de 0%, Ana teria poupado R$ 299.482,25 ao fim de 37 anos. Mas, com taxa de administração de 1,5% e carregamento 0%, ela acumulará somente R$ 213.068,53. Em outras palavras: o banco ficou com 29% do patrimônio dela, só para administrar seu dinheiro. Um lucro fenomenal para o banco, um prejuízo monstruoso para o cliente.

Se aplicarmos esta taxa de 1,5% sobre o patrimônio total administrado pelos 3 maiores bancos (R$ 780 bilhões), eles abocanharão, em 2020, a fortuna de R$ 11,7 bilhões! Imaginem este lucro ano após ano.

Na hora da aposentadoria, a tungada é ainda maior: 40% – Ana, a nossa perseverante cliente, vai buscar a sua aposentadoria vitalícia e o banco lhe dirá que tem direito a R$ 705,47 mensais. Depois de 37 anos poupando, sem falhar um mês sequer. Ela reclama do valor, o banco diz que é isto mesmo, mas não lhe conta que calculou este benefício à taxa de juros de 0% ao ano. Ana acha estranho, mas não sabe como reclamar.

Quando calcula a aposentadoria a taxa de juros de 0%, o banco projeta que o dinheiro acumulado por Ana não renderá nada pelos próximos 25 anos em que ela receberá seu “benefício”. Na verdade, o dinheiro renderá acima da inflação, mas tudo o que render ficará no bolso do banqueiro.

Se fosse calculada à taxa de juros de 4% ao ano, o mesmo rendimento auferido durante os 37 anos anteriores, a aposentadoria de Ana seria de R$ 1.175,78. Ou seja, o banco ficou com 40% da poupança de Ana e só lhe devolveu 60%.

Entendeu por que querem privatizar a previdência social? – Paulo Guedes, o banqueiro ministro da Economia, defende a privatização (ou capitalização) da previdência. Ao fazer isto, não está pensando no bem-estar da população, mas no lucro dos banqueiros. Em 1983, este cidadão ajudou a privatizar a previdência chilena, o que condenou à miséria milhões de chilenos idosos.


José Ricardo Sasseron foi diretor de Seguridade da Previ, presidente da Anapar e diretor do SEEB São Paulo.

sexta-feira, 17 de janeiro de 2020

Modelo chileno de aposentadoria tão amado por Paulo Guedes e que Bolsonaro quer copiar, será reformado no país após protestos da população


Jornal GGN – O presidente chileno, Sebastián Piñera, decidiu reformar o sistema previdenciário depois dos protestos em massa. Segundo o anúncio feito na quarta (15), o governo irá criar um fundo solidário e aumentar a participação dos empregadores de duas formas. A estimativa é a de que os benefícios cresçam em 30%.
O presidente enviará ao Congresso um projeto que fará o sistema de aposentadoria, hoje capitalizado, se sustentar em três pilares: um financiado pelo Estado; outro, o Pilar Individual de Poupança, com contribuição dos trabalhadores e empregadores; e, por último, o Pilar de Poupança Coletiva e Solidária, sustentado por empregadores com uma contribuição inicial do Estado.
Os empregadores terão de aumentar a participação em 6%, sendo 3% adicionais para o fundo coletivo solidário, e outros 3% para a poupança individual. Os valores serão adicionados aos atuais 10% de colaboração, para complementar a renda do aposentado.
O Fundo de Poupança Coletiva e Solidária tem tem uma contribuição do Estado, que irá se somar à aposentadoria que o trabalhador financia com recursos próprios, com o objetivo de beneficiar mulheres, a classe média e idosos com forte dependência, informou O Globo.
Segundo o presidente, o “Chile tem sido injusto com nossos adultos mais velhos”. “Esta nova reforma representa uma mudança estrutural e cria um novo sistema de aposentadoria.”
Em 2019, o GGN foi ao Chile com a repórter Patricia Faermann para entender como funciona o modelo de previdência capitalizada, que inspira o governo Bolsonaro. O ministro Paulo Guedes já afirmou que ainda não desistiu de aprovar a capitalização da aposentadoria dos brasileiros. Confira abaixo o documentário sobre o tema:


terça-feira, 13 de agosto de 2019

O ditador, a sua ‘obra’, e o grande blefe do senhor Guedes que trabalho patra o sistema Pinochet, por José Luís Fiori



A experiência do Chile pode servir de advertência às lideranças políticas, sociais e econômicas brasileiras, que não queiram repetir no Brasil a tragédia do “fascismo de mercado” do ditador Augusto Pinochet.


O ditador, a sua ‘obra’, e o grande blefe do senhor Guedes

por José Luís Fiori

Bem antes das urnas eletrônicas, o Brasil viu um rinoceronte conquistar 100 mil votos e um chimpanzé chegar aos 400 mil. Nasceu assim, em 1959, o voto protesto, que colocou o Rinoceronte Cacareco como vereador de São Paulo. Anos depois, em 1988, o Macaco Tião ficou em terceiro na disputa pela prefeitura do Rio de Janeiro. (IG São Paulo, https://ultimosegundo.ig.com.br, 21/09/2014)
É comum entre os economistas neoliberais elogiar o Chile e considerá-lo um modelo econômico que deve ser imitado. Mais do que isto, no Brasil do capitão Bolsonaro, é costume elogiar a ditadura do general Augusto Pinochet (1973-1990), que concedeu um poder quase absoluto a um grupo de jovens economistas – liderados pelo superministro Sergio de Castro – para aplicar, ainda na década de 70, o primeiro grande “choque neoliberal” do mundo. Este transformou o Chile num verdadeiro “laboratório de experimentação” e numa espécie de “modelo de exportação” e propaganda das políticas e reformas liberais defendidas pela “Escola de Chicago”, que era o templo mundial do ultraliberalismo econômico naquela época. No entanto, a verdadeira história dessa “experiência econômica” chilena costuma ser falsificada, para induzir uma comparação que é inteiramente espúria, e um engodo que é inteiramente ideológico. Senão vejamos, ainda que de forma extremamente sintética, alguns dados importantes dessa história, começando por algumas informações mais elementares, porém indispensáveis para quem se proponha a fazer comparações entre economias e entre países.
No dia do golpe de Estado que derrubou o presidente Salvador Allende – 11 de setembro de 1973 –, o Chile tinha apenas 10 milhões de habitantes, cerca de 1/21 da população brasileira, e tinha um PIB de U$ 16,85 bilhões, uma partícula de 1/130 do PIB brasileiro atual. O Chile não possuía petróleo nem autonomia energética, estava longe da autossuficiência alimentar, e além disso, não tinha indústria pesada, nem dispunha de setor produtivo estatal relevante que não fosse na indústria do cobre.
A economia chilena era quase inteiramente dependente da produção do cobre, e além deste, só exportava madeira, frutas, peixes e vinhos. Ou seja, dependia inteiramente das suas importações de petróleo e derivados, de produtos químicos, de materiais elétricos e de telecomunicações, de máquinas industriais, de veículos, de gás natural e de alimentos, quase tudo que era essencial para a reprodução simples da sociedade chilena. Por fim, o Chile era um país isolado, talvez o mais isolado do mundo, com pequena expressão demográfica, e nenhuma relevância militar ou geopolítica que não fosse para a Argentina, na Patagônia, e para a Bolívia e o Peru, na região do Atacama.
Pois bem, foi nesse pequeno país, com características econômicas, demográficas e geopolíticas extremamente simples, que se utilizou pela primeira vez o pacote das tais reformas que depois viraram um “mantra” repetido pelos governos neoliberais, em todo o mundo: flexibilização ou precarização do mercado de trabalho; privatização do setor produtivo estatal; abertura e desregulação de todos os mercados, e em particular, do mercado financeiro; abertura comercial radical e fim de todo tipo de protecionismo; privatização das políticas sociais de saúde, educação e previdência; e finalmente, privatização inclusive dos serviços públicos mais elementares, tipo água, esgoto, e de fornecimento de energia e gás. No caso do Chile, este programa foi aplicado durante os 17 anos da ditadura militar, sem enfrentar nenhum tipo de oposição política ou parlamentar, e com total apoio de um ditador que assassinou 3.200 opositores, prendeu e torturou 38 mil pessoas e obrigou ao exílio mais de 100 mil chilenos. Para não falar do fato de que, de 1973 a 1985, o governo militar impôs “toque de recolher”, ou “toque de queda”, das 10 horas da noite às 6 horas da manhã, valendo para todos os chilenos, e não apenas para 30 ou 40 portadores de tornozeleiras eletrônicas. Ou seja, durante 12 anos, toda a população chilena foi obrigada a ficar fechada em suas casas, todas as noites, como se estivesse internada num campo de concentração, e se alguém fosse surpreendido na rua no horário proibido, podia ser preso ou fuzilado, sem direito de apelação. No entanto, apesar de tudo isto, os resultados econômicos das políticas e reformas neoliberais dos “Chicago Boys” do ditador Pinochet foram absolutamente medíocres, para não dizer que foram catastróficas, ao contrário do que pensa o “superministro” de Economia do capitão, e do que diz toda a imprensa conservadora.
Para entender esse blefe ou engodo, vejamos alguns fatos e números mais importantes, para não cansar os que não gostam muito de cifras e estatísticas econômicas e sociais. Mas antes de entrar nos números, é fundamental que os leitores separem o que foi a história da ditadura, entre 1973 e 1990, daquilo que ocorreu depois do fim da ditadura, entre 1990 e 2019. Além disso, dentro da história econômica da ditadura, é necessário distinguir dois grandes períodos: o primeiro, que foi de 1973 a 1982, e o segundo, de 1982 até 1990.
Pois bem, foi no primeiro destes dois períodos econômicos da ditadura que os “Chicago Boys” do general Pinochet aplicaram seu grande choque neoliberal, que culminou com uma crise catastrófica, em 1982, e obrigou o governo militar a estatizar o sistema bancário chileno, demitir o seu superministro da Economia e reverter várias das reformas que haviam sido feitas. Como aconteceu, por exemplo, com a volta atrás da desregulamentação do setor financeiro e da própria política cambial que vinha sendo praticada pelo Banco Central do Chile. Para que se tenha uma ideia da magnitude desse desastre neoliberal, basta dizer que, em 1982, o PIB chileno caiu 13,4%, o desemprego chegou a 19,6% e 30% da população chilena se tornou dependente dos programas de assistência social que foram criados ad hoc, para enfrentar a crise. E assim mesmo, quatro anos depois, já em 1986, o PIB per capita chileno ainda era de apenas US$ 1.525, inferior ao patamar que havia alcançado em 1973.
No final da ditadura, o PIB real per capita médio do Chile havia crescido apenas 1,6% ao ano, um resultado muito próximo da estagnação econômica, ao qual se deve somar uma taxa de 18% de desemprego, e de 45% da população situada abaixo da linha de pobreza. No ano de 1990, o PIB per capita médio dos chilenos, calculado com base na paridade do poder de compra, era de apenas US$ 4.590, inferior ao do Brasil, que naquele momento, depois da “década perdida” de 1980, ainda era de US$ 6.680. Considerar isto um “sucesso” é, no mínimo, um caso de desfaçatez intelectual, quando não de deslavada propaganda ideológica.

Agora bem, o que também nunca é dito pelos economistas neoliberais é que foi só depois do fim da ditadura, no período de quase 30 anos, entre 1990 em 2019, e em particular durante os 20 anos dos governos da “concertação” de centro-esquerda, formada por partidos de tendência social-democrata, que o PIB chileno de fato cresceu a uma taxa média de 7%, na década de 90, e de aproximadamente 4,6% durante todo o resto do período democrático. Foi nesse período, e sob esses governos de centroesquerda, que a renda média dos chilenos quintuplicou, alcançando o patamar atual dos US$ 25 mil, a maior da América Latina, enquanto o PIB chegava a US$ 455,9 bilhões, já no ano de 2017. Nesse período, os governos da concertação de centro-esquerda promoveram várias reestruturações tributárias que permitiram aumentar o investimento social do Estado, com a criação do seguro-saúde universal, o seguro-desemprego e o Pilar da Solidariedade. Como consequência, a presença do Estado chileno voltou a crescer, sobretudo na área da infraestrutura e das políticas sociais de proteção, saúde e educação. E quando os analistas falam de um “milagre chileno”, referem-se a esse período democrático, e sobretudo aos governos de centro-esquerda que lograram reduzir o desemprego deixado pela ditadura, de 18% para 6 ou 7% em média, reduzindo a população situada abaixo da linha de pobreza, de 45 para 11%, o que transformou o Chile no país com o mais alto IDH da América Latina, e 38º na escala mundial.
Por fim, pouco a pouco, o legado mais dramático deixado pelas políticas e reformas neoliberais dos “Chicago Boys” do general Pinochet vem sendo revertido, como já aconteceu com a nova legislação trabalhista, que devolveu, pelo menos em parte, o poder de negociação que os sindicatos chilenos haviam perdido durante a ditadura militar. Além disso, os governos de centro-esquerda aumentaram significativamente os gastos públicos em saúde, criando o “Sistema de Garantia Explícita”, com o objetivo de expandir e universalizar sobretudo o FONASA, o braço público do Sistema Nacional de Serviços de Saúde chileno.
No entanto, não há dúvida de que a reversão mais importante ocorreu no campo da educação, em particular no campo do ensino universitário. A maioria dos brasileiros ainda não sabe, nem muito menos o “moleque do senhor Guedes” que oficia de ministro de Educação do capitão, que o fim da gratuidade do ensino superior decretada pela ditadura militar chilena, no início dos anos 1980, acabou em janeiro de 2018, quando o Congresso Nacional chileno aprovou uma lei que reestabeleceu a gratuidade universal do ensino universitário do país, incluindo todas as universidades, públicas e privadas, algo sem precedente na história acadêmica da América Latina.
A comemorada privatização e capitalização da Previdência Social, criada pelos “Chicago Boys” do general Pinochet, na verdade se transformou num pesadelo para a maioria dos aposentados e dos idosos chilenos. Ao contrário do que propaga o senhor Guedes e seus apaniguados, a média das aposentadorias chilenas é hoje de 33% do salário recebido pelo trabalhador antes da aposentadoria, e 91% da população aposentada recebe em média a ridícula quantidade de US$ 200 ao mês, o que obriga 60% dos pensionistas a receber um complemento estatal, aprovado pelo governo Bachelet em 2008, para poder sobreviver. Por isso talvez o Chile tenha hoje uma das maiores taxas de suicídio de idosos em todo mundo, e uma pesquisa de opinião pública, aplicada em 2018 – do CADEM – constatou que 88% da população chilena está insatisfeita e quer reverter e mudar o sistema atual de capitalização de Previdência.
Por fim, cabe sublinhar que mesmo durante a ditadura militar, jamais foi cogitada a privatização do cobre e da CODELCO, a única grande empresa estatal chilena, e a maior empresa produtora de cobre do mundo.
Resumindo nosso argumento:
  1. Os resultados econômicos da ditadura do general Pinochet e dos seus “Chicago Boys” foram economicamente medíocres e socialmente catastróficos.
  2. O verdadeiro “milagre chileno” – se é que houve – ocorreu depois da ditadura, no período democrático, e em particular durante os governos de centroesquerda naquele país na maior parte do período entre 1990 e 2019. E é uma perfeita asnice intelectual atribuir a estabilidade macroeconômica chilena atual ao “banho de sangue”’ promovido pelo general Pinochet, entre 1973 e 1990.
Mas apesar de que seja uma verdadeira aberração lógica comparar a economia brasileira com a economia chilena, a experiência do Chile pode servir de advertência às lideranças políticas, sociais e econômicas brasileiras, que não queiram repetir no Brasil a tragédia do “fascismo de mercado” do ditador Augusto Pinochet, uma das grandes excrecências humanas do século XX.
Ainda é tempo de impedir que o fanatismo ideológico do senhor Guedes destrua 90 anos de história da economia brasileira, para atender ao interesse de um pequeno grupo de banqueiros, financistas e agroexportadores, passando por cima do interesse do “resto” da sociedade brasileira.
Agosto de 2019
José Luís Fiori – Professor permanente do Programa de Pós-Graduação em Economia política Internacional, PEPI, coordenador do GP da UFRJ/CNPQ, “O poder global e a geopolítica do Capitalismo”; coordenador adjunto do Laboratório de “Ética e Poder Global”; pesquisador do Instituto de Estudos Estratégicos do Petróleo, Gás e Biocombustíveis, INEEP. Publicou “O Poder global e a nova geopolítica das nações”, Editora Boitempo, 2007; “História, estratégia e desenvolvimento”, Boitempo, em 201 ; e, “Sobre a Guerra”, Editora Vozes Petrópolis, 2018.

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quinta-feira, 8 de agosto de 2019

Educação perde quase R$ 1 bi para governo garantir a destrutiva reforma da Previdência



GGN:

Bolsonaro entrega ao Congresso projeto de lei que libera R$ 3 bi em verbas para emendas parlamentares, um terço deve sair do orçamento do ME
Jair Bolsonaro durante reunião com presidentes do Senado e Câmara, Davi Alcolumbre e Rodrigo Maia. Foto: Carolina Antunes/PR
Jornal GGN – O presidente Jair Bolsonaro entregou ao Congresso Nacional um projeto de lei que libera R$ 3 bilhões em verbas extras dos ministérios para o pagamento de emendas parlamentares.
Segundo descrição, o texto do governo “abre aos Orçamentos Fiscal e da Seguridade Social da União, em favor de diversos órgãos do Poder Executivo, crédito suplementar no valor de R$ 3.041.594.744,00, para reforço de dotações constantes da Lei Orçamentária vigente”.
O projeto responde a uma demanda de parlamentares para a aprovação da reforma da Previdência, porque garante os recursos necessários às emendas parlamentares, prometidos pelo Palácio do Planalto aos deputados durante a votação em primeiro turno.
As emendas parlamentares são recursos previstos no Orçamento da União para serem entregues à deputados e senadores. Os recursos são aplicados pelos parlamentares em seus redutos eleitorais, na promoção de obras em infraestrutura ou saúde.
Segundo apuração do jornal Valor, R$ 926 milhões, ou quase um terço dos R$ 3 bilhões que Bolsonaro pretende remanejar dos ministérios, devem sair do orçamento do Ministério da Educação (MEC).
O montante estava congelado desde fevereiro e havia promessa do governo de que seria liberado aos ministérios conforme a melhora na economia. Mas agora, se o projeto for aprovado no Congresso, será destinado às emendas parlamentares.
A matéria do Valor lembra que os R$ 926 milhões representam 16% do total já bloqueado no MEC pelo governo Bolsonaro, que soma R$ 5,8 bilhões. O contingenciamento atingem educação infantil, bolsas na educação superior e básica e funcionamento de instituições federais de ensino.

Velha política

Às vésperas da votação em primeiro turno da reforma da Previdência na Câmara dos Deputados, Bolsonaro liberou R$ 1,574 bilhão em emendas parlamentares.
Em maio, o jornal Folha de S.Paulo divulgou uma reportagem, após conversar com deputados e líderes da Câmara, sob a condição de anonimato, mostrando que o governo havia prometido direcionar verbas de Orçamento (por meio de emendas parlamentares) em troca de apoio à reforma da Previdência.
Na mesma semana que a notícia correu, o ministro da Casa Civil, Onyx Lorenzoni, iniciou uma ronda com líderes partidários para selar o acordo. Segundo informações do jornal O Globo, o próprio Onyx havia prometido destinar R$ 10 milhões para cada deputado, inclusive novatos, pela votação da proposta na Comissão Especial, o que aconteceu na semana passada. Para garantir a adesão dos parlamentares até o final da tramitação na Câmara, o governo prometeu também a liberação de mais R$ 10 milhões pelo avanço da proposta no plenário e outros R$ 20 milhões seriam entregues no fim do ano.
A ONG Contas Abertas divulgou para o mesmo jornal um levantamento mostrando que, só nos primeiros cinco dias de julho, pouco antes e durante o primeiro turno da votação da PEC da Previdência, o governo empenhou em emendas parlamentares R$ 2,551 bilhões. O montante é maior do que o empenhado entre janeiro e junho: R$ 1,77 bilhão.
Ainda segundo a ONG, o valor de emendas empenhado pelo governo Bolsonaro no mês de julho também é o mais alto empenhado para os meses de julho desde 2016.

Crime de responsabilidade

O PSOL, partido de oposição ao governo e contrário à reforma da Previdência, acusa a gestão Bolsonaro de cometer crime de responsabilidade na liberação de emendas parlamentares em um momento decisivo na tramitação da reforma da Previdência no Congresso.
Do valor liberado pelas portarias divulgadas em uma edição extra do Diário Oficial da União, em 8 de julho, mais de R$ 444 milhões “não têm autorização legislativa, o que é irregular e pode ser enquadrado em crime de responsabilidade”, aponta o partido.
A sigla explica que as despesas públicas da União dependem de autorização expressa do legislativo, e isso acontece por meio da Lei Orçamentária.
“Dentro dela [da Lei Orçamentária] temos emendas de bancada, individuais e de comissão. Assim, o governo pode executar uma emenda na sua totalidade, mas não pode extrapolar o valor autorizado pelo legislativo. Isso é crime”, pontua o PSOL.
O partido destaca que a Comissão de Seguridade Social havia aprovado duas emendas, (números 50210003 e 50210004), nos valores de R$ 602 milhões e R$ 2 milhões, respectivamente. Entretanto, através das novas portarias, o governo Bolsonaro liberou valores que ultrapassam esses montantes, usando as mesmas emendas.

quarta-feira, 7 de agosto de 2019

Desgoverno Bolsonaro: um roteiro de filme B com duas regularidades, por Bruno Lima Rocha



A agenda de Paulo Guedes, ou melhor, as medidas tomadas com base na experiência dos Chicago Boys de Pinochet, só podem ser executadas em regime de exceção, ou no meio de uma enorme confusão 


Desgoverno Bolsonaro: um roteiro de filme B com duas regularidades

por Bruno Lima Rocha

Entramos no mês de agosto de 2019, avança a liquidação da Previdência Pública e o desgoverno continua a todo o vapor. Parece redundante afirmar, mas de fato, desinformação, mistificação do debate político e a idiotia abundante se tornaram armas de dominação. A outra constatação parece ser ainda mais apavorante. Quanto mais eu assisto e leio a respeito do vale tudo eleitoral dos Estados Unidos, especialmente no caldo de cultura que deu a vitória a Donald Trump em 2016 e do papel de figuras execráveis como Roger Stone e Steve Bannon, mais me convenço da evidente mistificação da política e do uso do recalque (dos recalques) da direita branca republicana aplicada no Brasil.
O papel de analista, especificamente de cientista político, implicaria no acompanhamento rotineiro dos atos de governo, da agenda do Executivo e alianças complexas. Eu gostaria de analisar detalhadamente os planos de execução de cada ministério do governo Bolsonaro, mesmo desconfiando que estes não passam de ações de curtíssimo prazo, indo ao sabor das intempéries verbais do mandatário e seus asseclas. O que se percebe são duas regularidades. Uma, a que é ditada ao sabor da verborragia e irresponsabilidade do presidente eleito nas circunstâncias de 2018. A segunda regularidade é a agenda de desmonte, como se promover a desestruturação do território brasileiro fosse sua meta final.
Recentemente estive em programa de debate televisivo (emissora local com outorga de educativa), diante de um economista neoliberal ocupando cargo de secretário de Fazenda municipal na Região Metropolitana. O condutor do programa nos perguntou se havia influência das falas de Bolsonaro nos atos de governo. Automaticamente o neoclássico disse que não e eu afirmei que sim. Trata-se dessa realidade paradoxal. Para os neoliberais, ultraliberais, para a ortodoxia econômica neoclássica a serviço da especulação, havendo programa de avanço de um capitalismo subalterno, está tudo bem. Para todos os demais, incluindo oportunistas da nova direita (agora pretensamente arrependidos) e liberais da política, Jair Messias passa de qualquer limite, estando em seu discurso uma ação autorizativa – de fato – do aparelho de Estado para qualquer ato de irracionalidade ou autoritarismo.
Já afirmei isso antes. A agenda de Paulo Guedes, ou melhor, as medidas tomadas com base na experiência dos Chicago Boys de Pinochet, só podem ser executadas em regime de exceção, ou no meio de uma enorme confusão. O economista Paul Krugman – outro dos arrependidos da globalização na Era Clinton – relaciona com a tese de doutorado de Henry Kissinger aquilo que a jornalista Naomi Klein apropriadamente denomina de Doutrina do Choque, também reconhecido como Capitalismo de Desastre, agora na etapa da Necropolítica, versão tropical.
Há uma agenda sim, de desmonte e desregulação, algo que vem latejando desde a legislatura anterior, a que toma posse no segundo governo Dilma, derrubado por estes mesmos parlamentares através do golpe jurídico do impeachment sem crime. A dimensão tropical do capitalismo de desastre é romper com os acórdãos pouco respeitados após a promulgação da Constituição de 1988, mas diante de uma visão catastrofista, exemplificada na política ambiental e no intento permanente do uso discricionário do aparelho de Estado ao bel prazer do presidente seus familiares diretos.
Bolsonaro é a versão extremada deste Brasil que rompe o pacto da Nova República, enquanto desorganiza até mesmo a agenda que avança na Era FHC – como o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA, criado em 1990, mas desenvolvido nos anos seguintes), a LDB da Educação (1996) e o Estatuto das Cidades (2001). Parece um roteiro de filme B, e é. A “grande esperança branca”, manipulando os mais primitivos instintos, destilando ódio, ratificando os sistemas de crenças mais perversos (como o instinto de morte), posicionando-se como “antissistema” (mesmo após sete mandatos como deputado federal, de 1991 a 2018) e no final, atendendo aos interesses mais indefensáveis da elite rentista, especuladores, entreguistas de todas as cores uniformes, além de fariseus. Até sua briga com a mídia hegemônica é previsível, imitando a Alt-Right dos EUA e dando vazão às tradições de “polemistas da conspiração” como Bem Shapiro e o impagável Rush Limbaugh. Ressalto o óbvio: o caos só pode existir na confusão coletiva. Esse é meu medo.
A confusão é tamanha que a agenda política também é ditada pelo palavrório de Jair, que tenta implantar um governo autoritário sem um regime para servi-lo. Não é à toa que seu apoio hoje se resume a 30%, e daí a sua escolha pela radicalização da insanidade.
Já o medo com a confusão estruturante se transforma em “esperança”, porque a adesão ao governo Bolsonaro foi um comportamento de manada da campanha virtual de 2018. E como tal não se sustenta. Não sem a Lava Jato marcando os tempos da política como uma áurea impoluta de um falso tenentismo de toga. Mais fácil afirmar que caminhamos para uma paralisia decisória e com o Exército Brasileiro não sendo mais um recurso de Poder Moderador, haja vista que também já incineraram seu capital político na desventura do Twitter de Eduardo Villas-Bôas e o papel ridículo de Hamilton Mourão jogando para a plateia de decrépitos maçons reacionários “explicando” paradigmas geopolíticos ratzelianos do século XIX. Será que ainda existem militares nacionalistas e com formação científica?!
É cedo para afirmar, mas arrisco dizer que este governo já não gera mais consenso de elite e tampouco acórdão por direita. Tampouco Bolsonaro tem muito capital político, embora tenha sido empossado com a legitimidade das urnas (deveras atingidas pela República de Curitiba e pelo Zapzap com servidores externos). Não governar plenamente tampouco é afirmar que esta administração acaba, pois enquanto Jair Messias falar e assinar atos administrativos tudo, absolutamente tudo pode acontecer.
Paulo Guedes ainda vai tentar algum “sopro de esperança” através de “voo de galinha” na política econômica, mas este deve durar o tempo necessário para liquidarem com a Previdência Pública do país, ou acabarem com o último sopro de orçamento sob o controle popular. É preciso estar preparado e com a plenitude das capacidades políticas revigoradas, até mesmo porque 30% não podem impor suas sandices e crueldades sobre a maioria do povo brasileiro.
Bruno Lima Rocha (blimarocha@gmail.com / estrategiaeanaliseblog.com / t.me/estrategiaeanalise) é pós-doutorando em economia política, doutor em ciência política e professor nos curso de relações internacionais, direito e jornalismo. É membro do Grupo de Pesquisa Capital e Estado (https://www.facebook.com/capetacapitaleestado/
Bruno Lima Rocha, 07 de agosto de 2019

sexta-feira, 12 de julho de 2019

A reforma da Previdência em favor dos bancos e contra a dignidade dos menos aquinhoados na visão do jurista Lênio Luiz Streck: um tiro no pé, danação — já se deram conta?



"A narrativa é que a reforma da Previdência trará um novo país. A narrativa sobre a reforma trabalhista também dizia que traria um “novo país”... só que aumentou o desemprego. Quem disse que a reforma da Previdência terá o condão de criar empregos? E desde quando esse tipo de reforma, ao lado de prejudicar milhões de pessoas, faz surgir, do nada, novos postos de trabalho? Esse é o busílis da questão. A Previdência é a nova panaceia. Qual será a próxima? Ou será que realmente se pensa que O Mercado, essa entidade metafísica, estará satisfeito?" - Lênio Luiz Streck

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Do site Consultor JurídicoConJur:



Tantos diálogos revelados e a reforma da Previdência vai passando de cambulhada. Aliás, parece que é favas contadas. A reforma é cheia de maldades. Reforma contra a população. Do vigilante ao policial, passando por professores e quejandos. Até pensão por morte, de um salário mínimo, será lixada. Portanto, para não dizer que não falei em Previdência, deixo registrada minha crítica e algumas sugestões.

A reforma pega todo mundo, alguém dirá, e esse é o lado bom. Resposta: não, todo mundo, não. Tem muita gente que não precisa se aposentar. O andar de cima não se preocupa com descontos e diminuições de benefícios. Os rentistas, banqueiros, grandes proprietários, apresentadores da Globo News etc.: estes se lixam para coisas mundanas como aposentadoria. Ou fingem.

O bicho pega, mesmo, é para a população pobre, porque 82% da conta será paga pelo Regime Geral da Previdência. Sim. Fato. Desse couro é que sairá a maior parte das correias.

O relatório do deputado Samuel Moreira, de forma inconstitucional, retira e reduz, de maneira muito dura, direitos previdenciários de servidores públicos civis, sem que fosse aprovado um único destaque em favor desses trabalhadores públicos, num verdadeiro rolo compressor antidemocrático. Trabalhadores públicos: são os vilões do templo. Os privilegiados. Vilões do novo tempo. Passaram o rodo. Só quem se deu bem foram os militares e os parlamentares. No restante, o pau comeu.

Pleitos justos e razoáveis dos servidores públicos civis relativos a regras de transição, ao cálculo da pensão por morte, à retirada do caráter confiscatório das alíquotas previdenciárias, ao cálculo dos benefícios previdenciários, dentre outros, não foram minimamente atendidos. Criou-se uma narrativa de que a reforma da Previdência salvará o Brasil. O Brasil é ANP e DNP (antes da nova Previdência e depois da nova Previdência).

Ora, prever uma suposta “regra de transição” em prejuízo apenas aos servidores públicos civis com pedágio de 100% — que dobra o tempo (sim, dobra o tempo) que resta para a obtenção da aposentadoria —, além da observância de uma idade mínima — que esvazia ainda mais a “transição” —, enquanto fixa regras bem mais suaves para os militares e os próprios parlamentares, da ordem, respectivamente, de 17% e 30%, vai contra qualquer discurso de tratamento igualitário ou “quebra de privilégios”, em total discriminação aos servidores civis. Poxa. O inferno são os outros; os privilegiados são os outros. Sempre os outros. Quando se trata da base eleitoral, aí não é corporativismo. Humpty Dumpty passou pela Escola de Chicago.

Mas o pior nem é esse. Há mais: falo da inconstitucional desconstitucionalização de diversas normas, inclusive remetendo para lei complementar a obrigatoriedade de extinção de todos os regimes próprios de Previdência já existentes com a consequente migração obrigatória dos servidores para o Regime Geral de Previdência Social, gerido pelo INSS. O ultraliberalismo da nova ordem veio com a chibata em riste. E o látego pegou. Quem (sobre)viver sofrerá.

Direitos adquiridos? Essa palavra não existe para o relator nem para os deputados. Fazem blague, dizendo “privilégios adquiridos”. Estão matando o conceito de lei no tempo (pobre memória de Limongi França) e o princípio constitucional do ato jurídico perfeito.

Só que, na medida em que a narrativa — e, hoje, tudo é narrativa — vigente é a da ANP/DNP, criou-se igualmente a tese de que não se pode falar nada que contrarie a “nova Previdência”. Ser contra suas injustiças é, dizem eles, ser “contra o Brasil”. Em face de qualquer crítica, a resposta é: “então proponha!”. Certo. Trago algumas sugestões mais específicas.

Eis o resumo dos pontos que deveriam ser alterados:
  • regras de transição mais justas e isonômicas, que prevejam pedágios semelhantes aos conferidos também para militares e parlamentares;
  • regras mais razoáveis para o cálculo da pensão por morte, tendo em vista que a fixada no relatório pode reduzir em mais de 50% o atual valor concedido, deixando cônjuges, filhos e familiares desprotegidos;
  • retirada do caráter confiscatório das alíquotas, que, cumuladas com as do Imposto de Renda, podem reduzir, mensalmente, quase metade do salário dos servidores públicos;
  • manutenção do cálculo dos benefícios previdenciários em 80% das maiores contribuições;
  • supressão da desconstitucionalização que prevê, inclusive, a imposição de extinção dos regimes próprios de Previdência com a consequente migração obrigatória de todos os servidores públicos civis para o Regime Geral de Previdência Social, gerido pelo INSS;
  • supressão de dispositivo que atinge direitos adquiridos ao declarar nulas aposentadorias concedida a servidores públicos civis com base no arcabouço legislativo vigente, sobretudo até a Emenda Constitucional 20/1998, o que trará instabilidade e insegurança jurídica a milhares de aposentados.
Enfim, é o que tenho lido por aí. Tenho ouvido muitos discos (sou do vinil!), conversado com pessoas, respondido a whatsapps, encontrando vigilantes, policiais, juízes, promotores, professores... enfim, tenho discutido com parlamentares que acreditam que a redenção está aí: a reforma ou o armagedom. Até assinei uma petição pública tratando dos pontos acima.

Você sabia que o professor do fundamental ou segundo grau, com 25 anos de trabalho, perderá 30%? Para receber 100% de benefício, terá que trabalhar 40 anos? Não é uma maldade? Trabalha o tempo mínimo, ganha 60% do valor. A cada ano, mais 2%. Resultado: tem de trabalhar 40 anos para chegar a 100%. Alguém dirá: que bom. Mais trabalho, mais ganhos. A ver, no futuro.

As aposentadorias ligadas ao Regime Geral da Previdência terão redução de até 40%. Haverá corte de pensões. Viúvas podem perder 50% de seus benefícios. Essa pode ser a maior maldade. Porque onde o sapato aperta é nas viúvas que ganham o mínimo. Ou não é assim?

A narrativa é que a reforma da Previdência trará um novo país. A narrativa sobre a reforma trabalhista também dizia que traria um “novo país”... só que aumentou o desemprego. Quem disse que a reforma da Previdência terá o condão de criar empregos? E desde quando esse tipo de reforma, ao lado de prejudicar milhões de pessoas, faz surgir, do nada, novos postos de trabalho? Esse é o busílis da questão. A Previdência é a nova panaceia. Qual será a próxima? Ou será que realmente se pensa que O Mercado, essa entidade metafísica, estará satisfeito?

Cálculos mostram que ninguém se aposentará com totalidade de proventos. E a idade mínima é uma ficção, na conjugação com os percentuais a serem recebidos na aposentadoria.

Resumo da ópera: cada um de nós tem uma tia arrependida; cada um de nós tem parentes que, via neocaverna do uatisapi, viraram cientistas políticos espalhando fake news.

Bom, agora a reforma da Previdência, a nova Previdência, está pegando pesado. E as tias e os parentes, os neocientistas políticos, acham que isso tudo é fake news. Até verem seu holerite.

Não é verdade que a reforma prejudicará gente como eles. É, mesmo. Não é verdade (piscadela de olho!). Claro que não (nova piscadela de olho!). Afinal, se é bom para O Mercado, é bom para mim. Certo? Eu, que tenho um dinheirinho no banco, faço parte da elite financeira. Certo?

Frango, quando faz propaganda do frigorífico, só não sabe de uma coisa: que ele é um frango! Comunique-se, pois, a má notícia ao frango. As sombras não são sombras, gritava o filósofo na caverna... já os frangos são frangos, ainda que não saibam disso!

Lenio Luiz Streck é jurista, professor de Direito Constitucional e pós-doutor em Direito. Sócio do escritório Streck e Trindade Advogados Associados: www.streckadvogados.com.br.
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