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sexta-feira, 13 de setembro de 2019

Bolsonarista, olavista e, portanto, pouco dado a leituras sérias, Ernesto Araújo mistura Gramsci com “alarmismo climático” e é ridicularizado por colunista do Washington Post



"Não sabemos se ele alguma vez leu sobre teorias críticas neomarxistas além do que está escrito na Wikipedia", disse colunista norte-americano


Foto: AFP
Jornal GGN O ministro de Relações Exteriores, Ernesto Araújo, participou de um dos principais “think tanks” conservadores dos Estados Unidos, a Heritage, nesta quarta-feira (11), carregando no discurso ideológico e criticando a imprensa brasileira por “alarmismo climático” contra o governo de Jair Bolsonaro. Em resposta, o colunista do The Washington Post, Ishaan Tharoor, disse que falas de Araújo era uma “lengalenga sem fim de vitimização de alguém que está no poder”.
Em seu discurso ideológico, Araújo chegou a dizer que o boicote a produtos brasileiros como forma de protesto pelas queimadas na Amazônia do governo Bolsonaro era um tipo de “justiça social” que já foi usada “como pretexto para ditadura” e que estão hoje fazendo o mesmo “com o clima”, ao se referir ao meio ambiente.
“Parece a justiça stalinista para mim: acusar, executar. Aí você diz: onde está a justiça? Onde está o Estado democrático? As pessoas respondem ‘crise climática, cale-se'”, falou o representante do Itamaraty. A fala ocorre, ainda, menos de duas semanas antes da participação do mandatário brasileiro na Assembleia Geral da ONU, em Nova York, onde deve ser questionado sobre a situação da Amazônia.
Em outros momentos, Araújo usou narrativas de Olavo de Carvalho para criticar a “esquerda”, o “marxismo cultural” e para falar de “globalismo”. Disse que tanto Bolsonaro quanto o polêmico presidente dos EUA, Donald Trump, são a “insurgência universal contra a besteira”, assim como os defensores do Brexit, na Inglaterra, juntos, segundo ele, em uma “revolta contra a ideologia” da esquerda.
Isso ocorre, segundo Ernesto Araújo, diante da “percepção” destes presidentes de “que estávamos sendo desprezados por uma elite que tenta nos governar em nome da justiça social, ou da integração europeia, ou de um mundo sem fronteiras ou do progresso”, afirma, reunindo em uma mesma frase críticas às políticas sociais e imigração.
Ainda misturou em uma mesma fala o que chamou de “alarmismo climático” sobre o que está ocorrendo com o desmatamento da Amazônia com falta de “debate democrático” e que “nem comer carne é permitido mais”. Fez críticas a Antonio Gramsci, Bertolt Brecht e Rosa Luxemburgo. E afirmou que o “clima” e a defesa ambiental “se tornou o silenciador do debate”.
Diante de todas estas falas, o colunista do jornal The Washington Post dirigiu duras críticas ao representante brasileiro e mostrou-se perplexo: “Isso é incrivelmente ideológico para um chanceler no exterior”. Em suas redes sociais, Ishaan Tharoor, afirmou que estava impressionado com a incoerência das falas de Araújo.
“Agora ele está falando algo sobre o socialismo do século 21 ser (Antonio) Gramsci conhecer os cartéis de drogas. E agora está citando (Herbert) Marcuse e todos os membros da Escola de Frankfurt”, disse o jornalista. “Isso é incrível. Não sabemos se ele alguma vez leu sobre teorias críticas neomarxistas além do que está escrito na Wikipedia”, completou.
Para Tharoor, a própria direita norte-americana “jamais se importaria com essas pessoas ou envolveria suas ideias, ainda que absurdamente, em um discurso de política externa” e que ninguém na Heritage, o think tank conservador, se importava com isso.
A íntegra do discurso do ministro de Relações Exteriores de Jair Bolsonaro, Ernesto Araújo, pode ser acompanhado aqui:


Leia abaixo as publicações do jornalista:

O GGN prepara uma série de vídeos que explica a influência dos EUA na Lava Jato. Quer apoiar o projeto? Clique aqui.

terça-feira, 13 de agosto de 2019

O ditador, a sua ‘obra’, e o grande blefe do senhor Guedes que trabalho patra o sistema Pinochet, por José Luís Fiori



A experiência do Chile pode servir de advertência às lideranças políticas, sociais e econômicas brasileiras, que não queiram repetir no Brasil a tragédia do “fascismo de mercado” do ditador Augusto Pinochet.


O ditador, a sua ‘obra’, e o grande blefe do senhor Guedes

por José Luís Fiori

Bem antes das urnas eletrônicas, o Brasil viu um rinoceronte conquistar 100 mil votos e um chimpanzé chegar aos 400 mil. Nasceu assim, em 1959, o voto protesto, que colocou o Rinoceronte Cacareco como vereador de São Paulo. Anos depois, em 1988, o Macaco Tião ficou em terceiro na disputa pela prefeitura do Rio de Janeiro. (IG São Paulo, https://ultimosegundo.ig.com.br, 21/09/2014)
É comum entre os economistas neoliberais elogiar o Chile e considerá-lo um modelo econômico que deve ser imitado. Mais do que isto, no Brasil do capitão Bolsonaro, é costume elogiar a ditadura do general Augusto Pinochet (1973-1990), que concedeu um poder quase absoluto a um grupo de jovens economistas – liderados pelo superministro Sergio de Castro – para aplicar, ainda na década de 70, o primeiro grande “choque neoliberal” do mundo. Este transformou o Chile num verdadeiro “laboratório de experimentação” e numa espécie de “modelo de exportação” e propaganda das políticas e reformas liberais defendidas pela “Escola de Chicago”, que era o templo mundial do ultraliberalismo econômico naquela época. No entanto, a verdadeira história dessa “experiência econômica” chilena costuma ser falsificada, para induzir uma comparação que é inteiramente espúria, e um engodo que é inteiramente ideológico. Senão vejamos, ainda que de forma extremamente sintética, alguns dados importantes dessa história, começando por algumas informações mais elementares, porém indispensáveis para quem se proponha a fazer comparações entre economias e entre países.
No dia do golpe de Estado que derrubou o presidente Salvador Allende – 11 de setembro de 1973 –, o Chile tinha apenas 10 milhões de habitantes, cerca de 1/21 da população brasileira, e tinha um PIB de U$ 16,85 bilhões, uma partícula de 1/130 do PIB brasileiro atual. O Chile não possuía petróleo nem autonomia energética, estava longe da autossuficiência alimentar, e além disso, não tinha indústria pesada, nem dispunha de setor produtivo estatal relevante que não fosse na indústria do cobre.
A economia chilena era quase inteiramente dependente da produção do cobre, e além deste, só exportava madeira, frutas, peixes e vinhos. Ou seja, dependia inteiramente das suas importações de petróleo e derivados, de produtos químicos, de materiais elétricos e de telecomunicações, de máquinas industriais, de veículos, de gás natural e de alimentos, quase tudo que era essencial para a reprodução simples da sociedade chilena. Por fim, o Chile era um país isolado, talvez o mais isolado do mundo, com pequena expressão demográfica, e nenhuma relevância militar ou geopolítica que não fosse para a Argentina, na Patagônia, e para a Bolívia e o Peru, na região do Atacama.
Pois bem, foi nesse pequeno país, com características econômicas, demográficas e geopolíticas extremamente simples, que se utilizou pela primeira vez o pacote das tais reformas que depois viraram um “mantra” repetido pelos governos neoliberais, em todo o mundo: flexibilização ou precarização do mercado de trabalho; privatização do setor produtivo estatal; abertura e desregulação de todos os mercados, e em particular, do mercado financeiro; abertura comercial radical e fim de todo tipo de protecionismo; privatização das políticas sociais de saúde, educação e previdência; e finalmente, privatização inclusive dos serviços públicos mais elementares, tipo água, esgoto, e de fornecimento de energia e gás. No caso do Chile, este programa foi aplicado durante os 17 anos da ditadura militar, sem enfrentar nenhum tipo de oposição política ou parlamentar, e com total apoio de um ditador que assassinou 3.200 opositores, prendeu e torturou 38 mil pessoas e obrigou ao exílio mais de 100 mil chilenos. Para não falar do fato de que, de 1973 a 1985, o governo militar impôs “toque de recolher”, ou “toque de queda”, das 10 horas da noite às 6 horas da manhã, valendo para todos os chilenos, e não apenas para 30 ou 40 portadores de tornozeleiras eletrônicas. Ou seja, durante 12 anos, toda a população chilena foi obrigada a ficar fechada em suas casas, todas as noites, como se estivesse internada num campo de concentração, e se alguém fosse surpreendido na rua no horário proibido, podia ser preso ou fuzilado, sem direito de apelação. No entanto, apesar de tudo isto, os resultados econômicos das políticas e reformas neoliberais dos “Chicago Boys” do ditador Pinochet foram absolutamente medíocres, para não dizer que foram catastróficas, ao contrário do que pensa o “superministro” de Economia do capitão, e do que diz toda a imprensa conservadora.
Para entender esse blefe ou engodo, vejamos alguns fatos e números mais importantes, para não cansar os que não gostam muito de cifras e estatísticas econômicas e sociais. Mas antes de entrar nos números, é fundamental que os leitores separem o que foi a história da ditadura, entre 1973 e 1990, daquilo que ocorreu depois do fim da ditadura, entre 1990 e 2019. Além disso, dentro da história econômica da ditadura, é necessário distinguir dois grandes períodos: o primeiro, que foi de 1973 a 1982, e o segundo, de 1982 até 1990.
Pois bem, foi no primeiro destes dois períodos econômicos da ditadura que os “Chicago Boys” do general Pinochet aplicaram seu grande choque neoliberal, que culminou com uma crise catastrófica, em 1982, e obrigou o governo militar a estatizar o sistema bancário chileno, demitir o seu superministro da Economia e reverter várias das reformas que haviam sido feitas. Como aconteceu, por exemplo, com a volta atrás da desregulamentação do setor financeiro e da própria política cambial que vinha sendo praticada pelo Banco Central do Chile. Para que se tenha uma ideia da magnitude desse desastre neoliberal, basta dizer que, em 1982, o PIB chileno caiu 13,4%, o desemprego chegou a 19,6% e 30% da população chilena se tornou dependente dos programas de assistência social que foram criados ad hoc, para enfrentar a crise. E assim mesmo, quatro anos depois, já em 1986, o PIB per capita chileno ainda era de apenas US$ 1.525, inferior ao patamar que havia alcançado em 1973.
No final da ditadura, o PIB real per capita médio do Chile havia crescido apenas 1,6% ao ano, um resultado muito próximo da estagnação econômica, ao qual se deve somar uma taxa de 18% de desemprego, e de 45% da população situada abaixo da linha de pobreza. No ano de 1990, o PIB per capita médio dos chilenos, calculado com base na paridade do poder de compra, era de apenas US$ 4.590, inferior ao do Brasil, que naquele momento, depois da “década perdida” de 1980, ainda era de US$ 6.680. Considerar isto um “sucesso” é, no mínimo, um caso de desfaçatez intelectual, quando não de deslavada propaganda ideológica.

Agora bem, o que também nunca é dito pelos economistas neoliberais é que foi só depois do fim da ditadura, no período de quase 30 anos, entre 1990 em 2019, e em particular durante os 20 anos dos governos da “concertação” de centro-esquerda, formada por partidos de tendência social-democrata, que o PIB chileno de fato cresceu a uma taxa média de 7%, na década de 90, e de aproximadamente 4,6% durante todo o resto do período democrático. Foi nesse período, e sob esses governos de centroesquerda, que a renda média dos chilenos quintuplicou, alcançando o patamar atual dos US$ 25 mil, a maior da América Latina, enquanto o PIB chegava a US$ 455,9 bilhões, já no ano de 2017. Nesse período, os governos da concertação de centro-esquerda promoveram várias reestruturações tributárias que permitiram aumentar o investimento social do Estado, com a criação do seguro-saúde universal, o seguro-desemprego e o Pilar da Solidariedade. Como consequência, a presença do Estado chileno voltou a crescer, sobretudo na área da infraestrutura e das políticas sociais de proteção, saúde e educação. E quando os analistas falam de um “milagre chileno”, referem-se a esse período democrático, e sobretudo aos governos de centro-esquerda que lograram reduzir o desemprego deixado pela ditadura, de 18% para 6 ou 7% em média, reduzindo a população situada abaixo da linha de pobreza, de 45 para 11%, o que transformou o Chile no país com o mais alto IDH da América Latina, e 38º na escala mundial.
Por fim, pouco a pouco, o legado mais dramático deixado pelas políticas e reformas neoliberais dos “Chicago Boys” do general Pinochet vem sendo revertido, como já aconteceu com a nova legislação trabalhista, que devolveu, pelo menos em parte, o poder de negociação que os sindicatos chilenos haviam perdido durante a ditadura militar. Além disso, os governos de centro-esquerda aumentaram significativamente os gastos públicos em saúde, criando o “Sistema de Garantia Explícita”, com o objetivo de expandir e universalizar sobretudo o FONASA, o braço público do Sistema Nacional de Serviços de Saúde chileno.
No entanto, não há dúvida de que a reversão mais importante ocorreu no campo da educação, em particular no campo do ensino universitário. A maioria dos brasileiros ainda não sabe, nem muito menos o “moleque do senhor Guedes” que oficia de ministro de Educação do capitão, que o fim da gratuidade do ensino superior decretada pela ditadura militar chilena, no início dos anos 1980, acabou em janeiro de 2018, quando o Congresso Nacional chileno aprovou uma lei que reestabeleceu a gratuidade universal do ensino universitário do país, incluindo todas as universidades, públicas e privadas, algo sem precedente na história acadêmica da América Latina.
A comemorada privatização e capitalização da Previdência Social, criada pelos “Chicago Boys” do general Pinochet, na verdade se transformou num pesadelo para a maioria dos aposentados e dos idosos chilenos. Ao contrário do que propaga o senhor Guedes e seus apaniguados, a média das aposentadorias chilenas é hoje de 33% do salário recebido pelo trabalhador antes da aposentadoria, e 91% da população aposentada recebe em média a ridícula quantidade de US$ 200 ao mês, o que obriga 60% dos pensionistas a receber um complemento estatal, aprovado pelo governo Bachelet em 2008, para poder sobreviver. Por isso talvez o Chile tenha hoje uma das maiores taxas de suicídio de idosos em todo mundo, e uma pesquisa de opinião pública, aplicada em 2018 – do CADEM – constatou que 88% da população chilena está insatisfeita e quer reverter e mudar o sistema atual de capitalização de Previdência.
Por fim, cabe sublinhar que mesmo durante a ditadura militar, jamais foi cogitada a privatização do cobre e da CODELCO, a única grande empresa estatal chilena, e a maior empresa produtora de cobre do mundo.
Resumindo nosso argumento:
  1. Os resultados econômicos da ditadura do general Pinochet e dos seus “Chicago Boys” foram economicamente medíocres e socialmente catastróficos.
  2. O verdadeiro “milagre chileno” – se é que houve – ocorreu depois da ditadura, no período democrático, e em particular durante os governos de centroesquerda naquele país na maior parte do período entre 1990 e 2019. E é uma perfeita asnice intelectual atribuir a estabilidade macroeconômica chilena atual ao “banho de sangue”’ promovido pelo general Pinochet, entre 1973 e 1990.
Mas apesar de que seja uma verdadeira aberração lógica comparar a economia brasileira com a economia chilena, a experiência do Chile pode servir de advertência às lideranças políticas, sociais e econômicas brasileiras, que não queiram repetir no Brasil a tragédia do “fascismo de mercado” do ditador Augusto Pinochet, uma das grandes excrecências humanas do século XX.
Ainda é tempo de impedir que o fanatismo ideológico do senhor Guedes destrua 90 anos de história da economia brasileira, para atender ao interesse de um pequeno grupo de banqueiros, financistas e agroexportadores, passando por cima do interesse do “resto” da sociedade brasileira.
Agosto de 2019
José Luís Fiori – Professor permanente do Programa de Pós-Graduação em Economia política Internacional, PEPI, coordenador do GP da UFRJ/CNPQ, “O poder global e a geopolítica do Capitalismo”; coordenador adjunto do Laboratório de “Ética e Poder Global”; pesquisador do Instituto de Estudos Estratégicos do Petróleo, Gás e Biocombustíveis, INEEP. Publicou “O Poder global e a nova geopolítica das nações”, Editora Boitempo, 2007; “História, estratégia e desenvolvimento”, Boitempo, em 201 ; e, “Sobre a Guerra”, Editora Vozes Petrópolis, 2018.

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terça-feira, 23 de julho de 2019

Fundamentalismo e o Caixa dois norte-americano por trás da Extrema Direita Europeia



Da Grã-Bretanha à Hungria e à Itália, a extrema direita está em ascensão. Investigações do site openDemocracy abertas no ano passado revelaram o papel vital dos conservadores cristãos dos EUA.


O caixa dois norte-americano por trás da extrema direita europeia

Tradução de César Locatelli
Da Grã-Bretanha à Hungria e à Itália, a extrema direita está em ascensão. Investigações do site openDemocracy abertas no ano passado revelaram o papel vital dos conservadores cristãos dos EUA.
Matteo Salvini na Itália
Cinco anos atrás, Matteo Salvini despiu-se e posou seminu para uma série de fotos “sexy” que foram leiloadas no eBay. Na época, ele era um alto funcionário do partido separatista da Itália, o Lega Nord. Sua bizarra sessão de fotos aconteceu à margem de uma conferência da Frente Nacional na França. Os beneficiários do leilão incluíram parte de uma rede italiana antiaborto que se diz “inspirada” pela “herança da cultura cristã” e em resposta a uma “conspiração contra a vida”.
Hoje, o partido de Salvini se transformou em um dos movimentos nacionalistas mais proeminentes da Europa (agora conhecido apenas como Lega). O próprio Salvini se tornou o ministro do Interior da Itália e o político mais reconhecido do país, encorajado pelos impressionantes resultados nas recentes eleições para o Parlamento Europeu, em que seu partido obteve um terço dos votos italianos (cerca de cinco vezes mais do que os 6% recebidos em 2014).
Marine le Pen na França e Viktor Orbán na Hungria
Junto com Marine le Pen na França, líder do partido Frente Nacional ((agora renomeado como Rassemblement national – partido Reunião Nacional), o primeiro-ministro da Hungria, Viktor Orbán, e outros, Salvini está liderando um surpreendente ressurgimento da extrema direita da Europa. Em todo o continente, as mensagens desses populistas de direita estão cada vez mais engenhosas, suas máquinas partidárias são disciplinadas e suas políticas foram cuidadosamente elaboradas para atrair uma gama mais ampla de eleitores.
Brexit e Parlamento Europeu
Em 2013, um membro sênior do partido Conservador desprezou os ativistas anti União Europeia em seu próprio Partido Conservador como lunáticos (swivel-eyed loon). Três anos depois, veio o terremoto político do resultado do referendo Brexit – em que a franja se tornou a maioria. Hoje, os movimentos nacionalistas da Europa passaram por uma mudança comparável de velocidade e magnitude. No mês passado, eles ganharam coletivamente um número recorde de assentos no Parlamento Europeu.
“Salvar” as “raízes judaico-cristãs” da Europa
“É um sinal de uma Europa que mudou”, proclamou Salvini em uma conferência de imprensa triunfante em Milão, pouco depois do fechamento das pesquisas. Segurando um rosário, beijando um crucifixo e agradecendo ao “Imaculado Coração de Maria”, ele proclamou que está na hora de “salvar” as “raízes judaico-cristãs” da Europa. Na Hungria, seu aliado Orbán – autoproclamado defensor da democracia iliberal – saudou “uma nova era na política europeia”.
Esses movimentos não surgiram da noite para o dia, nem desaparecerão tão cedo. Desde meados de 2016, em conjunto com colegas do site openDemocracy, acompanhamos o crescimento dos movimentos nativistas [política que privilegia os habitantes nativos em oposição aos imigrantes] da Europa, desde a campanha Brexit, até o crescente domínio de Orbán sobre os controles do poder na Hungria, até as redes transnacionais que buscam bloquear ou reverter direitos das mulheres e de LGBTs. A estratégia deles começa por influenciar as eleições, os tribunais, a educação e os sistemas de saúde, bem como os formuladores de políticas e a opinião pública, e termina por tomar o poder.
Uma aliança global poderosa e bem financiada de conservadores e ultradireitistas
Começamos este trabalho de investigação quando notamos irregularidades no financiamento da campanha pró-retirada da Grã-Bretanha da União Europeia. Desde então, o quadro que surgiu é de uma aliança global poderosa e bem financiada de ultraconservadores e atores políticos de extrema-direita, muitos dos quais se unem em torno de uma cosmovisão economicamente libertária, mas socialmente conservadora.
A promoção da “vida”, da “família” e da “liberdade” de mercados
Essa visão política é explícita sobre a busca de afastar o poder das mulheres e das pessoas LGBT. Destina-se a promover a “vida” do nascituro (embora desconsiderando os riscos de abortos e gravidezes inseguros às vidas das mulheres); a “família”, que significa um retorno aos papéis tradicionais de gênero, sem qualquer espaço para as pessoas LGBT, e colocando as mulheres de volta ao lar, vistas como seu lugar “natural”; e a “liberdade” de mercados e instituições religiosas, especificamente cristãs, acima de todas as outras reivindicações de direitos ou liberdades.
Declaração de Manhattan
Essa tríade de “vida, família e liberdade” foi consagrada na Declaração de Manhattan, um manifesto escrito há quase uma década por ativistas americanos da direita religiosa. Signatários incluindo líderes ortodoxos, evangélicos e católicos comprometeram-se a agir em uníssono e determinaram que “nenhum poder na Terra, seja cultural ou político, nos intimidará para o silêncio ou a aquiescência”.
Vox, o partido de extrema direita espanhol e o partido Lei e Justiça da Polônia
Hoje, essa coalizão assumiu um tom decididamente transatlântico. Muitos dos líderes de extrema direita da Europa falam abertamente sobre a defesa da “Europa cristã”. Orbán acrescentou esta mensagem ao recente manifesto eleitoral europeu do seu partido, e Salvini frequentemente ataca a “ideologia de gênero”. Vox, o primeiro partido de extrema direita a ganhar assentos na Espanha Parlamento desde a ditadura de Franco, prometeu reverter as leis que punem a violência ligada a questões de gênero. O partido Lei e Justiça da Polônia está pressionando para proibir o aborto e estabelecer limites restritivos ao acesso das mulheres à contracepção.
A surpreendente velocidade de crescimento dos partidos nacionalistas de direita na Europa
Para aqueles europeus que gostam de ver o seu continente como o mundo mais secular e socialmente liberal, estes são desenvolvimentos preocupantes. Não é surpresa, talvez, que os países europeus sejam capazes de produzir movimentos nacionalistas de direita, mas é surpreendente a rapidez com que esses novos partidos cresceram e forçaram sua entrada no mainstream eleitoral – e é impressionante ver quantos estão adotando abertamente retórica religiosa e socialmente conservadora.
Os fluxos financeiros
Parte da explicação para esse aumento, no entanto, tornou-se mais clara para nós quando começamos a rastrear os fluxos financeiros internacionais ligados a muitos dos grupos conservadores cristãos mais poderosos dos Estados Unidos. Vários dos ativistas norte-americanos que assinaram a Declaração de Manhattan, desde então, fizeram inúmeras viagens através do Atlântico, acompanhados de uma grande quantidade de dinheiro para apoiar seus esforços.
US$ 50 milhões de caixa dois
Uma recente investigação do openDemocracy concluiu que a direita cristã dos Estados Unidos gastou pelo menos US$ 50 milhões em caixa dois para financiar campanhas e apoio na Europa na última década. (Pelas medidas do financiamento político dos EUA, isso pode não parecer uma quantia enorme, mas pelos padrões europeus é formidável. O gasto total nas eleições europeias de 2014, por exemplo, por todos os partidos políticos da Irlanda combinados foi de apenas US$ 3 milhões.)
Esses números também são provavelmente a ponta do iceberg: nossa análise focou em apenas doze grupos de direitos cristãos norte-americanos, e havia muitos obstáculos à divulgação que limitavam as informações que poderíamos extrair. Instituições registradas como igrejas, por exemplo, não são obrigadas a publicar seus financiamentos no exterior. O maior gasto parece ser a Associação Evangélica Billy Graham, que gastou mais de US $ 20 milhões na Europa de 2008 a 2014, mas os registros não estão disponíveis para além desse período, então o valor real pode ser muito maior.
Heartbeat International
Além de revisar milhares de páginas de registros do Internal Revenue Service (a Receita Federal dos EUA) desses grupos na última década, trabalhamos com repórteres em toda a Europa para acompanhar o dinheiro aos beneficiários locais. Um dos grupos que analisamos, por exemplo, foi o Heartbeat International, fundado no início dos anos 70. Baseado em Columbus, Ohio, é visto como pioneiro do modelo controverso de “centros de crise de gravidez”, que desestimulam as mulheres a acessar o aborto legal e contracepção. A organização agora tem uma rede de “centros de ajuda de gravidez afiliados” em todo o mundo e parece ter gasto mais dinheiro na Itália do que em qualquer outro lugar na Europa.
As ligações com membros da administração Trump
Como seria de esperar, também encontramos ligações entre esses grupos e membros seniores ou conselheiros da atual administração dos EUA. Nenhum divulga seus doadores, e não há exigência legal para fazê-lo, mas, pelo menos, dois conhecem laços com famosos financiadores bilionários de causas conservadoras, incluindo os irmãos Koch e a família da secretária de educação de Trump, Betsy DeVos. Um dos grupos religiosos que pesquisamos, que injetaram US $ 12,4 milhões na Europa de 2008 a 2017, lista como seu principal conselheiro, Jay Sekulow, um dos advogados pessoais do presidente Trump.
Poderosos críticos ao Papa Francisco
Outro dos grupos norte-americanos que descobrimos que gastam dinheiro na Europa é o Instituto Acton. Com sede em Grand Rapids, Michigan, ele casa o liberalismo econômico com uma agenda social cristã conservadora. Seus documentos do fisco revelam que o grupo gastou pelo menos US$ 1,7 milhão desde 2008 na Europa, onde mantém um escritório em Roma e é ligado a poderosos críticos do Papa Francisco, inclusive através de outro polêmico think tank, o Dignitatis Humanae Institute, do qual O ex-estrategista de Trump, Steve Bannon, é um patrono.
Steve Bannon e a criação de “gladiadores modernos”
A Dignitatis recentemente divulgou notícias internacionais por causa dos planos de Bannon de usar um mosteiro do século XIII fora de Roma para treinar uma nova geração de Salvinis, Orbáns e Le Pens. “Vamos ter uma academia que reúna os melhores pensadores e que, na verdade, possa treinar…. o que chamamos de gladiadores modernos”, disse Bannon em uma entrevista em abril com Richard Engel, da NBC. Seus planos foram posteriormente frustrados quando o contrato de arrendamento do Instituto foi revogado pelo governo, citando várias violações contratuais. A revogação ocorreu após protestos dos moradores locais que questionaram a legalidade do contrato. Alguns dos documentos apresentados neste processo mostraram como o Instituto Dignitatis Humanae se baseou em Acton para apoiar sua requisição, detalhando as atividades conjuntas entre as duas organizações durante um período de cinco anos.
Contestadores da mudança climática, antiaborto, anti-LGBT, contra o Papa, contra o estado de bem-estar social…
O fundador da Acton, Robert Sirico, disse que o escritório de Roma havia participado desse processo sem o seu conhecimento, e que ele o instruiu a se distanciar de Dignitatis e Bannon. Mas a controvérsia em torno do envolvimento de Bannon deixa de abordar o ponto mais significativo sobre o trabalho de Acton. O think tank tem uma missão explícita de conjugar e apoiar valores do capitalismo de livre mercado e do conservadorismo social. Diferentemente dos EUA, na Europa, essa mistura de fundamentalismos muitas vezes contraditórios é um fenômeno relativamente novo, mas é uma aliança que consegue unir contestadores da mudança climática, ativistas antiaborto e ativistas anti-LGBT em ataques contra o papa “liberal”, por exemplo. Também explica o aumento da retórica contra o estado de bem-estar social que ouvimos no Congresso Mundial das Famílias, uma cúpula ultraconservadora cada vez mais influente, realizada este ano em Verona, onde um palestrante afirmou que “o único estado de bem-estar social que funciona na Itália é a família”. Esse tipo de retórica está ganhando força em lugares como a Itália e a Espanha, onde esses sistemas de benefícios e direitos há muito são populares e fortes.
África e América Latina
O apoio da direita religiosa americana a campanhas contra o aborto legal, direitos LGBT, educação sexual e outras causas na África e na América Latina foi bem documentado ao longo dos anos. Exemplos notórios como o projeto de lei “matar os gays” em Uganda e as leis antiaborto draconianas na América Latina deixaram um rastro de violência, trauma e repressão em ambos os continentes. Mas a escala da entrada dos conservadores religiosos norte-americanos na Europa não foi amplamente divulgada ou bem compreendida.
Trinta anos para a direita cristã conquistar a Casa Branca
“Levou trinta anos para os direitistas cristãos chegarem onde estão agora na Casa Branca”, disse Neil Datta, secretário do Fórum Parlamentar Europeu sobre População e Desenvolvimento, em Bruxelas, reagindo à nossa pesquisa. “Sabíamos que um esforço similar estava acontecendo na Europa, mas isso deveria ser um alerta de que isso está acontecendo ainda mais rápido e em maior escala do que muitos especialistas jamais imaginaram”.
Coordenação Transatlântica
Pouco antes das recentes eleições europeias, Matteo Salvini subiu ao palco em Verona na conferência do Congresso Mundial das Famílias (WCF na sigla em inglês). Em seu discurso, ele ridicularizou as feministas como “interessante para os antropólogos estudarem” e prometeu “lutar contra a teoria do gênero até que ela mude”. A audiência incluía proeminentes ativistas cristãos conservadores e antiaborto dos Estados Unidos, membros do governo russo e da igreja Ortodoxa e representantes de vários partidos europeus de extrema-direita.
O apoio à “família natural”
Em meio a aplausos, uma corrente de políticos italianos se juntou para declarar seu apoio à “família natural”, definida exclusivamente como um homem e uma mulher casados, de preferência com muitos filhos. Seguindo a liderança de Salvini, eles condenaram a “crise de berços vazios” da Europa e moldaram sua guerra cultural contra os direitos das mulheres e das pessoas LGBT como uma solução econômica para os persistentes problemas de baixo crescimento e altas taxas de desemprego de seus países, particularmente entre os jovens.
A coordenação entre ultraconservadores dos EUA com a extrema direita da Europa
Esta foi a terceira vez que o OpenDemocracy mandou repórteres para o WCF, depois da Moldávia no ano passado e de Budapeste em 2017, no qual Orbán também falou. Mas este ano foi diferente. Descobrimos que havia uma imagem mais clara de como os ultraconservadores norte-americanos e seus amigos da extrema direita da Europa estão trabalhando juntos. Encontramos novas evidências daquilo que um grupo de eurodeputados descreveu como coordenação “profundamente preocupante” entre alguns desses movimentos. O mais evidente foi o intenso foco dessa aliança na conquista do poder político.
“Ao controlar o ambiente dos [políticos], você também os controla”
Um dos oradores mais eficazes foi Ignacio Arsuaga, líder do grupo CitizenGo, com sede em Madri. Fundada em 2013, depois de um WCF anterior na Espanha, a CitizenGo tinha a intenção de atuar como uma resposta conservadora às gigantescas plataformas de campanha progressistas on-line, como Avaaz e Change.org. A organização da Arsuaga é mais conhecida por suas petições on-line contra casamento entre pessoas do mesmo sexo, educação sexual e aborto – e por dirigir ônibus em cidades do mundo inteiro com slogans publicitários contra direitos LGBT e “feminazis”. Do palco, Arsuaga protestou contra herdeiros do [líder comunista italiano Antonio] Gramsci, marxistas culturais… feministas radicais… totalitários LGBT”. Ele declarou que “essa guerra cultural é uma guerra global”, e disse aos participantes reunidos para buscarem ambos os caminhos diretos para o poder, via “festas e representantes eleitos”, bem como caminhos indiretos – “controlando o ambiente… você também os controla”.
Um Super Comitê de Ação Política para levar eleitores à extrema direita
Em Verona, ficamos sabendo que a CitizenGo, que conta com o apoio dos ultraconservadores americanos e russos que fazem parte de seu conselho, pretendia desempenhar um papel muito mais ambicioso e influente nas eleições europeias do que nas campanhas anteriores. Agora procurava agir, nas palavras de um alto funcionário da Vox, como um Super Comitê de Ação Política (Super-PAC) para levar os eleitores à extrema direita. Arsuaga disse a um repórter, disfarçado de potencial  doador de recursos, sobre os planos do grupo de veicular anúncios de ataque na Espanha contra os adversários políticos do Vox nas últimas semanas antes das eleições nacionais em abril.
Táticas para burlar limites de financiamento de campanhas
Ele passou a descrever como seu grupo está progressivamente coordenado com movimentos de extrema direita em toda a Europa, e disse ao repórter como ele poderia contornar as leis de financiamento de campanha em seu país. Em vários países da Europa, as leis de financiamento de campanha limitam os gastos políticos durante os períodos de campanha, limitam a coordenação entre os diferentes grupos de campanha e normalmente exigem a transparência dos doadores. As novas táticas delineadas por Arsuaga para bombear fundos potencialmente ilimitados de grupos intermediários para as corridas políticas domésticas é um novo desenvolvimento extremamente preocupante.
Apoios internacionais de peso
A composição do conselho da CitizenGo ilustra a complexidade transnacional do apoio com que pode contar. Ele inclui um parceiro de negócios próximo de Konstantin Malofeev, às vezes chamado de “o Oligarca Ortodoxo”, que tem sido alvo de sanções dos EUA e da Europa por supostamente sustentar a república separatista pró-Rússia no leste da Ucrânia. Ele também inclui um político italiano, Luca Volonte, que está atualmente em julgamento em Milão, acusado de corrupção. Uma conexão norte-americana também é visível: Brianan Brown, chefe da Organização Nacional para o Casamento e proeminente ativista anti-LGBT que também lidera o grupo Organização Internacional para a Família que coordena o WCF, é membro do conselho.
ActRight: “quanto Obama pagou para Harvard admitir sua filha maconheira?”
Arsuaga da CitizenGo disse ao nosso repórter disfarçado que ele recebe conselhos “a cada dois meses ou mais” de um “especialista sênior” em captação de recursos e tecnologia, que é, ele disse, “pago por Brian Brown.” Esse especialista é Darian Rafie, parceiro de Brown em outro grupo norte-americano chamado ActRight, que se descreve como uma “central de ação conservadora”. ActRight recentemente encorajou as pessoas a “agradecer ao presidente Trump por parar a insanidade de transgêneros nas forças armadas”, e perguntou em um post no Facebook: “o quanto você acha Barack Obama pagou a Harvard para admitir sua filha maconheira?
Captar dados pessoais dos celulares de pessoas em um comício, por exemplo
Nosso repórter também falou diretamente com Rafie, um experiente político norte-americano que trabalhou para o Partido Republicano e um canal de mídia Tea Party, e que disse que estava envolvido na campanha de Trump. Ele discutiu seu relacionamento de longa data com a CitizenGo e se vangloriou de sua capacidade de usar a controversa tecnologia de geofencing [um serviço que capta o sinal de um dispositivo que entra em um determinado espaço] para coletar dados pessoais sobre possíveis eleitores reunidos em uma área específica, como um comício de campanha, por meio de seus telefones celulares.
Desenvolvimentos assustadores
Respondendo às nossas descobertas, o ex-senador democrata Russ Feingold, que trabalhou ao lado do senador John McCain nos esforços para reformar as leis de finanças eleitorais americanas, chamou esses desenvolvimentos de “assustadores”. Ele instou as autoridades e reguladores a “avançarem e não cometerem os mesmos erros que foram cometidos aqui nos Estados Unidos”.
A interferência estrangeira no referendo sobre o aborto na Irlanda
O papel crescente que a CitizenGo parece desempenhar ao dar apoio em espécie aos partidos de extrema-direita da Europa é uma nova aplicação de métodos utilizados há muito tempo por guerreiros da cultura internacionalmente conectados que empregam conhecimentos e dinheiro em suas campanhas globais. Por exemplo, durante o referendo histórico do aborto na Irlanda no ano passado, o openDemocracy relatou como os ativistas americanos de alt-right estavam visando os eleitores irlandeses com propaganda na mídia social. Também revelamos como os ativistas estrangeiros poderiam doar para campanhas e continuar a comprar anúncios de mídia social on-line – isso na mesma semana em que Mark Zuckerberg fez uma promessa pública aos membros do Parlamento Europeu de que o Facebook tinha proibido esses anúncios estrangeiros que tentavam interferir em eleições domésticas.
Grande variedade de fraudes nas eleições húngaras
O que está claro no padrão de conexões e apoio entre os ultraconservadores americanos e os grupos de extrema direita europeus é a disposição de ambos os lados de explorar brechas nas regulamentações e adotar métodos inescrupulosos, até mesmo ilegais. No mês passado, openDemocracy trabalhou com um órgão sem fins lucrativos chamado Unhack Democracy Europe para publicar um relatório apontando fraude generalizada pelo partido Fidesz de Viktor Orbán nas eleições húngaras de 2018, incluindo compra de votos, intimidação de eleitores, adulteração de votos postais, sumiço de votos e avarias no software da eleição. (O resultado dessa eleição foi dar a Orbán uma super-maioria parlamentar, o que lhe permitiu fortalecer ainda mais seu controle sobre o judiciário, a mídia e outros órgãos de poder.) O relatório prosseguiu para identificar maneiras pelas quais as eleições parlamentares europeias na Hungria era ainda mais vulnerável a tais abusos do que os nacionais. Unhack Democracy está agora compilando um relatório de acompanhamento sobre o que realmente aconteceu lá nas eleições europeias.
Vazamento interrompeu plano de dar mais poder a lobistas religiosos
Em outro trabalho, no período que antecedeu a votação em toda a Europa, o openDemocracy recebeu um relatório vazado de autoria do vice-presidente do Parlamento Europeu, um parlamentar irlandês sênior, que procurou facilitar uma maior influência para lobistas religiosos em Bruxelas. Esse controverso plano foi arquivado depois que os legisladores protestaram, mas com um bloco maior de membros populistas de direita agora no Parlamento, a proposta deve ressurgir.
A direita radical populista tornou-se a corrente em voga
Embora os partidos de extrema-direita da Europa tenham ficado bem aquém das previsões de que eles redesenhariam o mapa do poder político europeu, por conta de desempenho ruim na Alemanha, Holanda e Dinamarca, obtiveram ganhos significativos – especialmente na Itália, Hungria e França. “Em vez de uma vitória para a democracia”, concluiu o acadêmico holandês Cas Mudde, as eleições europeias mostraram como o populismo, e particularmente “a direita radical populista”, se tornou “a corrente em voga e normalizada”.
“Brexit, a Bíblia e Borders” (as fronteiras) poderiam “tornar a Europa grande novamente”
Na conferência do Congresso Mundial das Famílias, em Verona, na véspera dessas eleições, o clima foi tomado por júbilo. “É ótimo estar entre um grupo de radicais de extrema-direita”, brincou o escritor conservador cristão e personalidade do YouTube, Steve Turley. Proclamando um “despertar”, da América de Trump à Índia de Modi, Turley previu que os conservadores religiosos logo superariam os “secularistas” – simplesmente por superá-los na geração filhos. Outro americano, um advogado do Missouri e ativista republicano chamado Ed Marton, coautor de um livro chamado The Conservative Case for Trump, chegou ao pódio com um chapéu MAGA (Make America Great Again – Faça a América Grande de Novo) e proclamou que “Brexit, a Bíblia e as fronteiras” poderiam “tornar a Europa grande novamente”.
Fortes protestos em Verona
Mas nem tudo sairá como o desejado para Marton e seus colegas. Pela primeira vez na reunião do WCF, as multidões que protestavam do lado de fora eram muito maiores do que a plateia do lado de dentro. Mais de 30.000 manifestantes tomaram conta de Verona depois que o grupo feminista Non Una di Meno, inspirado pelo movimento pioneiro argentino Ni Una Menos (“Nem Uma a Menos”), convocou uma manifestação. As pessoas viajaram de toda a Itália e até da Bielorrússia, da Espanha, da Croácia e da Grã-Bretanha para participar.
“Este é apenas o começo”, diz ativista croata contra o movimento da extrema direita
No dia seguinte, um grupo menor de mulheres encenou um protesto silencioso vestido com as icônicas vestes vermelhas e capotas de The Handmaid’s Tale, de Margaret Atwood. Essas vestes foram usadas por mulheres que protestavam contra a reação contra os direitos reprodutivos nos EUA, assim como na Polônia, Austrália, Irlanda e Argentina. Conhecemos uma mulher da Croácia que disse que planejava participar de uma “caminhada pela liberdade” para combater uma “caminhada pela vida” anual contra o aborto quando ela chegasse em casa. “Este é apenas o começo”, ela nos disse.
Este artigo apareceu pela primeira vez na New York Review of Books e a versão aqui traduzida foi publicada no site openDemocracy.

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segunda-feira, 8 de julho de 2019

Do Jornal Francês Liberation: a Volta do Brasil Colonial, por Michel Cahen



 "Por que a elite conservadora não poderia tolerar uma política mais ou menos social-democrata? Por que esse conservadorismo profundo conseguiu conquistar uma massa heterogênea para a eleição de um aventureiro de extrema direita? Para entender, devemos voltar longe."



Do Liberation

O retorno do Brasil colonial

Por Michel Cahen , historiador da colonização portuguesa e diretor de pesquisa do CNRS na Sciences-Po Bordeaux
Para entender a ascensão de Jair Bolonaro ao poder, devemos recuar muito no início do século XIX, quando a independência do Brasil explodiu o Império Português. Desde então, o país mudou. Mas a elite nunca experimentou uma revolução efetivamente descolonizadora.
Em 1º de julho, Jair Bolsonaro completou os seis primeiros meses de seu governo. Os contratempos dos quais é o objeto são, em última análise, relacionados à natureza heterogênea da base social que foi construída, típica de um populismo de extrema direita: eixos não relacionados de agitação. com os outros, para satisfazer separadamente tais ou tais setores convergindo para um selvagem bonapartismo.
A partir de 2012, o início do mandato de Dilma Rousseff, fiquei impressionado com o ódio da elite conservadora pelo governo do Partido dos Trabalhadores (PT) desde 2003. Mas o contexto econômico muito favorável permitiu que o Presidente Lula satisfizesse e a elite e o povo. Assim, uma importante “classe média” emergiu, a mesma que, tocada pela crise, vendo um abismo aberto sob seus pés, estará no coração da base social de Bolsonaro. Foi o ódio que foi ainda mais incongruente quando, à medida que a crise econômica chegava ao país, a política de Dilma Rousseff tornou-se cada vez mais neoliberal.
Por que a elite conservadora não poderia tolerar uma política mais ou menos social-democrata? Por que esse conservadorismo profundo conseguiu conquistar uma massa heterogênea para a eleição de um aventureiro de extrema direita? Para entender, devemos voltar longe.
Em 7 de setembro de 1822, a independência do Brasil explodiu o Império Português. Tinha um carácter único: era o próprio Estado português, refugiado no Rio desde 1807, quando os exércitos napoleónicos invadiram Portugal, que se recusou a regressar – poderia ter sido desde 1811. Existe outra caso no mundo onde o soberano opta por permanecer em sua colônia mesmo que ele possa retornar para sua cidade natal?
A independência era mais uma revolta fiscal do que uma libertação nacional. Foi uma independência sem descolonização. Foram os colonos que tomaram o poder e criaram uma colônia autocentrada: o fato de o país ser independente não significa que não seja mais uma colônia.
Quando os colonos rodesianos recusaram, em 1965, a independência negra planejada por Londres e declararam uma independência branca, a Rodésia obviamente permaneceu uma colônia. A independência da América tem sido independência sem descolonização, criou estados coloniais. Demasiadas vezes, a independência e a descolonização são confusas. Mas o caso brasileiro é extremo, pois a independência foi proclamada pelo herdeiro do trono do país colonizador.
Este Império brasílico tornou-se paulatinamente brasileiro. A conclusão do processo pode ser datada de 1889, depois que um golpe conservador expulsou a Princesa Isabel, que havia abolido a escravidão no ano anterior, e proclamou uma República perfeitamente colonial. Ao contrário do que aconteceu nos Estados Unidos com a Guerra Civil Americana, não foi um setor industrial da burguesia brasileira que detinha o poder, mas a elite dos colonos coloniais . É ela quem vai devagar, sem quebrar, mudar para o plantio moderno, marginalizando o trabalho negro e importando milhões de europeus. Isso aconteceu em outros lugares da América, mas aqui temos dois recursos combinados. Por um lado, os “nativos” não eram mais do que uma pequena minoria da população, por causa de epidemias, massacres e miscigenação – eles estão agora entre 0,4% e 0, 6% da população, daí a fraqueza das lutas anticoloniais. Por outro lado, os negros formavam a grande maioria da população (são cerca de 52% hoje), daí um “medo estrutural” nessa elite branca aterrorizada pelo exemplo do Haiti.
Desde então, o Brasil mudou. Mas a elite nunca conheceu uma revolução descolonizadora, lentamente se tornou uma burguesia capitalista, especialmente latifundiária e não industrial, sem nunca deixar de ser uma elite colonial. O relatório da elite para o povo não é apenas a do capitalista do proletariado, mas ainda em grande parte a do mestre para o escravo, a da “Casa Grande” para “Senzala”. Uma medida que provocou o ódio contra Dilma Rousseff foi, em 2013, a lei que garante as empregadas de direitos sociais reais: feriado de domingo, contrato de trabalho, contribuições sociais, 44 horas por semana, pagamento de horas extras. Essa lei era um ultraje ao paternalismo autoritário da Senhora e do Mestre: o servidor era um proletário autônomo. Isso quebrou a relação da Casa Grande com a Senzala para substituir a relação patrão-empregado. Foi intolerável.
É insuportável para esta elite extremamente branca, quando as pessoas estão profundamente misturadas, aceitar reformas sociais até mesmo tímidas. É silencioso quando não pode fazer o contrário – a popularidade de Lula, uma economia florescente -, mas assim que a situação se agrava, exige a retomada de todos os seus privilégios, capitalista e colonial.
Insisto em “… e colonial”. Não é coincidência que a conquista colonial seja retomada. Jair Bolsonaro e sua família não só desprezam os nativos como um grande proprietário de terras pode desprezar os camponeses pobres, eles os desprezam como um desprezado colonizador uma raça inferior e conquistada. Jair Bolsonaro diz que quer forçar os nativos a “integrar”, isto é, a desaparecer como nações e sociedades distintas. Ele passou a delimitação de terras indígenas e quilombolas sob a jurisdição do Ministério da Agricultura, o Ministério de Grandes Proprietários Rurais.
Os índios são apenas uma pequena minoria, mas dificultam a ocupação de espaços muito pequenos no sul e, a fortiori, no norte. É intolerável para os agricultores não é tanto o tamanho, mas isso não é cultivada e operado maneira produtivista: são indígenas, de acordo com o desrespeito colonizador clássico para o colonizado naturalmente incapaz e lento, que não apenas um desprezo pela classe de administração. Essa elite não moderna recusa o menor questionamento de seu habitat. É consistente com a colonização do espaço brasileiro.
Acho que há muito disso na eleição de Jair Bolsonaro, além da crise econômica, a corrupção atribuída apenas ao PT, a notícia falsa, os neopentecostistas, problemas de segurança, setores militares de extrema-direita, racismo, homofobia … Se essas características contemporâneas tomaram forma, é porque a elite capitalista-colonial é, estruturalmente, mentalmente, incapaz de consentir com qualquer medida social.
A contradição, que pode ser explosiva entre os defensores do regime, é que, historicamente, o exército brasileiro tem se modernizado bastante (o que não significa se democratizar), enquanto essa elite profundamente conservadora continua sendo moldada por seu medo de maioria negra. É expresso pelo “BBB” – bala, boi e Bíblia.
Embora ultra-minoritária, a elite conseguiu construir temporariamente uma hegemonia política abrangendo vastos setores do povo. Muitos outros fatores explicativos já existiam anteriormente. Mas sua radicalização à direita foi, creio eu, o “plus” que permitiu que o resto se formasse, diante de um PT paralisado pelo encarceramento de Lula e por ter perdido toda a capacidade de mobilização popular.
Michel Cahen historiador da colonização portuguesa e diretor de pesquisa do CNRS na Sciences-Po Bordeaux