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quarta-feira, 28 de junho de 2023

TV GGN: Como a golpista Revista Veja se uniu a Arthur Lira e Ricardo Barros (Centrão) para derrubar a ministra da saúde Nísia Trindade para entregar a pasta ao Centrão

 

Da TV GGN:

O jornalista Luis Nassif conta como a Revista Veja se aliou a Arthur Lira para manchar a imagem da Ministra da Saúde Nísia Trindade. De acordo com as notícias, Lira quer comandar o Ministério. Nassif também explica que se Lula ceder a Saúde para o centrtão, significa o fim do governo.



segunda-feira, 26 de junho de 2023

A dobradinha da sempre tendenciosa Veja com Centrão, por Luís Nassif

 

Parceria lança suspeitas sobre as relações de André Esteves, presidente do BTG e controlador da Abril, com Arthur Lira, presidente da Câmara.



Jornal GGN. - Duas reportagens de Veja, ontem, não deixam dúvidas sobre a armação do Centrão para se apossar do Ministério da Saúde. Não há nenhuma sutileza, nenhum disfarce: é lobby na veia, repetindo o período do chamado “jornalismo de esgoto”.

A primeira, aponta irregularidades em uma pesquisa da Fiocruz, feita com verbas públicas. Segundo a CGU (Controladoria Geral da União), em pleno período dominada pelo fascismo da Lava Jato, a Fiocruz teria entregue uma pesquisa que impedia comparações com pesquisas anteriores.

Fiocruz é a fundação por excelência da saúde pública brasileira. Sua pesquisa obedeceu a todos os princípios aplicados em pesquisas acadêmicas. E constatou que não havia epidemia de crack no país. A CGU, em um período em que fiscais sem compromisso com a imagem da corporação, chegaram a analisar pedagogicamente currículos de universidades federais, concluíram que, como a metodologia das pesquisas não batiam, a da Fiocruz estaria errada.

Tudo isso serviu de pano de fundo para Veja acusar a Fiocruz de irregularidades e, no momento seguinte, publicar outra reportagem anunciando um certo professor Luizinho, como o próximo Ministro da Saúde. Fica claro uma parceria da revista com o Centrão, lançando suspeitas sobre as relações de André Esteves, presidente do BTG e controlador da Abril, com Arthur Lira, presidente da Câmara, certamente imaginando os tempos em que a revista tinha peso político para demitir Ministros, em parceria com Carlinhos Cahoeira.

É a chamada guerra impossível, que poderá significa o fim do reinado de Lira. Se abrir mão do Ministério da Saúde para o Centrão, o governo Lula simplesmente acaba. A não ser que se acredita na síndrome do suicídio político, Lula jamais tomaria essa decisão.

Chama atenção nas matérias, no entanto, o nome do deputado Ricardo Barros, do Paraná. Barros foi responsável por colocar na Saúde o esquema mais criminoso da história, desde seus tempos de Ministro do governo Temer.

Seu golpe predileto era romper contratos de medicamentos de alto custo e gerar uma escassez. Com base nela, adquiria medicamentos sem licitação. Em pelo menos um caso, o medicamento, chinês, não tinha nenhuma eficácia, levando crianças à morte.

Seu esquema permaneceu no governo Bolsonaro. O fato de até agora não ter sido condenado é o sinal mais rotundo do fracasso da Justiça brasileira, e de um Ministério Público que só sabia atuar politicamente.

Abaixo, algumas das denúncias publicadas no Jornal GGN

1 – Compra na excepcionalidade é a porta para a corrupção na Saúde, diz Silvia Brandalise

2 – Xadrez de Ricardo Barros, remédio chinês em crianças com leucemia, por Luis Nassif

3 – Barros mostra conexão umbilical perigosa com Bolsonaro

4 – Justiça autoriza que amigo de Ricardo Barros seja conduzido à CPI “debaixo de vara”

5 – Sócio da Belcher confirma aproximação com Ricardo Barros

6 – Os detalhes do golpe de Ricardo Barros em crianças com câncer

7 – Especial Ricardo Barros 1 – o golpe da gigante sul-africana

8 – Ricardo Barros não aprendeu a lição de Eduardo Cunha, por Luis Nassif

9 – “Bolsonaro nunca afirmou que eu estava envolvido no caso Covaxin”, diz Ricardo Barros

10 – Sob Ricardo Barros, empresa investigada ganhou 70% a mais em contratos com a Saúde

sexta-feira, 4 de março de 2022

O estranho caso da falta de remédio para câncer (envolvendo os interesses milionários de Ricardo Barros e militares atrelados a Bolsonaro, por Luis Nassif

 

O que ocorreu com a licitação? Criou-se a carência, a centralização da compra mas, no final, recorreu-se a um laboratório público que, segundo o JN, recebeu a encomenda de última hora. Qual a razão da licitação ter sido suspensa?


Do Jornal GGN:

No ano passado, relatamos o golpe do Ministério da Saúde com as compras emergenciais no Xadrez do mais escabroso crime de corrupção., cometido na gestão de Ricardo Barros no Ministério da Saúde. Em janeiro, mostramos a repetição do golpe com a iumonoglobulina. Agora, o Jornal Nacional mostra o que pode ser a reedição do mesmo golpe com o mesilato de inatilube. Repetiu-se o golpe com a imonuglobulina?

Faltam dados para concluir.  Segundo o JN, 11 mil pessoas dependem do medicamento para tratamento de câncer.

O golpe é conhecido, repetido e tolerado:

1. Seleciona-se um medicamento de alto custo, para doenças especiais.

2. Cria-se uma escassez, reduzindo as compras ou esperando o contrato terminar.,

3. Depois, abre-se espaço para uma compra extraordinária, atropelando os controles do Tribunal de Contas da União.

No caso do mesilato, desde 2019 já havia falta no mercado, conforme alerta da Associação Brasileira de Linfoma e Leucemia (ABRALE). Em abril do ano passado, o Ministério da Saúde anunciou que mudaria o processo de compras do Glivec, cujo princípio é o Mesilato de Imatinibe, e passaria a comprar de forma centralizada. Anunciou-se que a licitação seria assinada até o final da semana.

No dia 23 de agosto, foi assinado um contrato de aquisição com a Bristol-Myers Squibb, fornecedora tradicional da rede púbica. A previsão de entrega era para final de setembro. 

Segundo o Portal de Transparência do governo federal, a compra foi efetuado pelo Departamento de Logística do Ministério da Saúde, sob comando de militares trazidos pelo general Eduardo Pazuello.  O responsável pela compra é Eduardo Seara Machado Pojo do Rego. Ele foi secretário adjunto de Gestão de Saúde do Distrito Federal, e alvo da Operação Falso Negativo. Servidor concursado do Ministério da Saúde, chegou a ser preso na operação, recentemente foi aprovado em processo seletivo dio Ministério da Economia, como membro da Secretaria de Gestão.

A compra foi no valor de R$ 124 milhões, com dispensa de licitação. Mas foi feita do Instituto Vital Brazil, um laboratório público.

O que ocorreu com a licitação? Criou-se a carência, a centralização da compra mas, no final, recorreu-se a um laboratório público que, segundo o JN. recebeu a encomenda de última hora. Qual a razão da licitação ter sido suspensa?

quinta-feira, 26 de agosto de 2021

Do Meteoro Brasil: na CPI da Covid depôs o laranja de Banco de Mentirinha (Fib Bank) de um amigo de Ricardo Barros, usado para viabilizar desvios de verbas públicas

 

Do Canal Meteoro Brasil:

Para conseguir vender vacinas inexistentes ao governo, a Precisa Medicamentos contou com os serviços do FIB Bank. Ao checar o histórico deste banco, a CPI pode ter descoberto uma espécie de central da corrupção...





terça-feira, 6 de julho de 2021

Vídeo do Canal Meteoro Brasil: Regina Célia na CPI e as contradições do Ministério da Saúde no caso da vacina Covaxin - Um Resumo

 

Vídeo do Canal Meteoro Brasil:

Regina Célia é a fiscal do esquisitíssimo contrato da Covaxin. Ela foi indicada para a função por Ricardo Barros, denunciado como o mentor do esquema. Regina disse à CPI que não havia nada demais no contrato, mas que se houvesse a responsabilidade não seria dela.




segunda-feira, 5 de julho de 2021

O que falta apurar na máfia das vacinas, por Luis Nassif

 


Houve avanços nas investigações sobre a máfia das vacinas incrustada no Ministério da Saúde. Ontem, o Fantástico passou uma reportagem grande sobre o tema. Apesar dos recursos fartos, não avançou em muita coisa para explicar o que está ocorrendo com as vacinas.

Descrevemos o golpe na reportagem Xadrez para Entender a História do Cabo das Vacinas. Falta esclarecer os seguintes pontos:

1. Em que consistia o golpe, já que o pagamento seria contra a entrega de vacinas, que a americana Davati não possuía?

Uma hipótese seria a da Davati juntar uma demanda grande, nos contatos conseguidos por seus intermediários, e depois sair atrás de qualquer xepa no mercado internacional.

Outra possibilidade é dos clientes apresentarem cartas de crédito, que seriam descontadas dando tempo para a Davati subir na poeira. Ontem, reportagem da Folha mostrou que a Davati foi criada em 2016, sem histórico nenhum na compra de remédios.

2. O esquema Davatti

Até agora, mesmo com toda sua enorme estrutura, o Fantástico apenas repetiu o que já sabíamos sobre a Davati. Mas é evidente que ela montou um esquema internacional para jogadas no mercado das vacinas. Esse esquema precisa ser destrinchado.

3. O representante comercial da Davati.

Nada se falou ainda do pivô de toda essa história, o representante comercial da Davati no Brasil. É ele quem mantem contato com Luiz Miranda e, depois, com a Senah e o cabo Domingueutti.

4. A participação do deputado Luiz Miranda.

No xadrez desenvolvemos uma hipótese, a partir da revelação de que ele mantinha conversas habituais com o representante da Davati no país. Mas tentou também vender vacinas e foi impedido pelo esquema Ricardo Braga? Nesse caso, a postura do irmão teria que ser revista.

5. As relações entre a Secretaria Nacional de Assistência Humanitária e Flávio Bolsonaro.

Pelas fotos divulgadas, é óbvio que o bispo da tal Senah é ligado ao bolsonarismo. Mas, até agora, não se levantou a atividade da tal associação, a maneira como atua e como se aproximou do bolsonarismo.

6. O histórico da Precisa e da Global na gestão Mandetta-Pazuello

Ambas as empresas foram participantes dos principais golpes aplicados pelo deputado Ricardo Barros, quando Ministro da Saúde do governo Temer. Pouco se sabe até agora, das tentativas bem-sucedidas no governo Bolsonaro. O que se tem de concreto é sua participação na compra de uma das vacinas chinesas.

7. A participação do general Pazuello.

Ainda não está claro se Pazuello foi um Ministro que não conseguiu segurar a onda, ou se foi cúmplice das esbórnias, representante os militares que levou ao Ministério. Como, aparentemente, parte da conta penal irá para ele, poder ser que se sinta estimulado a contar o que sabe.

quinta-feira, 1 de julho de 2021

Xadrez de Ricardo Barros e seus absurdos para corromper e sugar do Ministério da Saúde e o remédio chinês em crianças com leucemia, por Luis Nassif

  "(...) Ricardo Barros, um deputado paranaense com histórico de atuação suspeita – porém localizada – descobriu o butim do setor público e da nacionalização da sua atuação: a compra de medicamentos, valendo-se do expediente de gerar situações de emergência para justificar compras sem licitação."

A organização que se apossou do Ministério da Saúde, sob o comando do deputado Ricardo Barros (PP-SC), com participação efetiva de Flávio Bolsonaro, tem antecedentes dramáticos, iniciados no interregno de Michel Temer.

A mídia ainda estava toda focada na criminalização do PT e empenhada em blindar Temer. A ponto de desqualificar gravações e filmagens mostrando o homem de confiança de Temer recebendo – e transportando – 500 mil reais em propinas pagas pela JBS. A Controladoria Geral da União e a Polícia Federal tinham como prioridade caçar reitores no campus e bois no pasto.

Nesse ambiente de plena blindagem, Ricardo Barros, um deputado paranaense com histórico de atuação suspeita – porém localizada – descobriu o butim do setor público e da nacionalização da sua atuação: a compra de medicamentos, valendo-se do expediente de gerar situações de emergência para justificar compras sem licitação.

Em jogo, obviamente, a vida de pessoas. Na história abaixo, mais do que isso: suas jogadas afetaram a vida de pelo menos 4 mil crianças brasileiras, vítimas de leucemia.

Entenda o jogo das quadrilhas que passaram a dominar a saúde:

Passo 1 – o remédio chinês sem eficácia

Ricardo Barros assumiu o Ministério da Saúde de Temer em 12 de maio de 2016. Em novembro de 2016, o Ministério da Saúde solicitou parecer à consultoria jurídica sobre a viabilidade de compra do medicamento com inexigibilidade (sem licitação) para atendimento de crianças com leucemia. Em dezembro de 2016 a consultoria emitiu parecer mostrando a impossibilidade da inexigibilidade, já que havia outros fornecedores no mundo.

Em janeiro de 2017, o Ministério da Saúde, de Barros, fez uma rápida verificação de preços de um medicamento crucial, para tratamento de crianças com leucemia. Limitou-se a uma pesquisa de preço entre quatro laboratórios estrangeiros. E fechou com o laboratório chinês Beijing SL Pharmaceutica

No dia 24.01.2017, a pedido do Ministro Barros, a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) enviou um parecer de três páginas determinando a compra de 30.660 fracos de L-asparaginasem. Não apenas isso. O documento determinava que, a partir dali, todos os pacientes em tratamento por Leucemia Lifoblástica Aguda (LLA) no Brasil passariam a receber a Leuginase.

Peça 2 – o questionamento do Centro Boldrini

Em junho de 2017, um trabalho do Centro Boldrini – referência na América Latina para tratamento de câncer infantil – atestou a ineficácia do medicamento. Não apenas isso. Também inibia os efeitos de antibióticos utilizados no tratamento da doença. A diretora do hospital, Silvia Brandalise, foi taxativa: “Não uso nem para experimentar em animais. Ele só tem 30% de ação. Desse remorso eu não morro”.

Não era um julgamento qualquer. Em 2014, dra. Silvia foi homenageada pelo Conselho Federal de Medicina com a Comenda Zilda Arns – Medicina e Responsabilidade Social, por seu trabalho no Centro Boldrini.

Boldrini entrou com ações na Justiça para obrigar o Ministério a fornecer 150 frascos por mês do fornecedor anterior. Segundo ela, anualmente cerca de 4 mil crianças brasileiras eram diagnosticadas com LLA, dependendo de medicamentos que não são fabricados no país.

O empenho de Ricardo Barros, em favor do medicamento chinês, foi ostensivo. Chegou a insinuar que a diretora do Boldrini tinha “algum interesse” na compra do medicamento Aginasa alemão:

Segundo a Folha,

“O ministro afirmou que a presidente do Boldrini deve “cuidar bem dos seus clientes” e parar de “perturbar o sono de mães” de crianças com câncer. “Já faz um ano isso (que o LeugiNase é distribuído), não houve nenhum efeito adverso, não aconteceu nada de errado com a aplicação do medicamento, e ela insiste. Então fica para mim a impressão de que ela não tem nada contra o medicamento chinês, que ela tem a favor do que ela defende”.

Reportagens no Fantástico trouxeram informações relevantes, que desmentiam Barros.  Foi entrevistada Gisélia Ferreira, farmacêutica concursada do Ministério da Saúde. Até fins de 2016 ela participava do grupo que analisou a compra da asparaginase fabricada na China. E a conclusão era a de que faltavam estudos que comprovassem a qualidade e a eficácia do medicamento.

Peça 3 – driblando a Justiça

No dia 2.05.2017, com base nos alertas da dra. Silvia, o Conselho Federal de Medicina oficiou o Procurador Geral da República para investigar a falta de segurança do medicamento chinês.

Mesmo assim, Barros recomendou que hospitais e Estados não interrompessem o tratamento com L-asparaginase porque a sentença, dizia ele, era de “cunho gerencial”. No dia 09.07.2017, segundo o Fantástico, o Ministério anunciou que não compraria mais os medicamentos denunciados, depois que o Ministério Público Federal pediu o recolhimento dos lotes de Leuginase distribuídos em hospitais públicos e a volta da asparaginase fabricada no Japão.

A Boldrini decidiu, então, importar, por conta própria, 500 frascos do fornecedor alemão afastado pelo esquema de Ricardo Barros, mas com prazo de 3 meses para entrega. Apenas em janeiro de 2018, os produtos importados diretamente começaram a chegar, comprometendo o tratamento de 90 crianças.

No dia 24.09.2017, o juiz federal Rolando Valcir Spanholo, do Distrito Federal, proibiu o governo de continuar a comprar e distribuir o LeugiNase. Argumentava de que não havia provas de que o remédio fosse eficaz em humanos.

Usou imagens fortes, da lavra da dra. Silvia:

“O mais importante, todavia, ressalta que não é a falta de produção nacional, mas a não observância dos requisitos mínimos de eficácia e segurança de um medicamento distribuído para a população. Se caracteriza como grave imperícia médica e grave improbidade administrativa, se distribuir um medicamento sem estas prerrogativas fundamentais. Na vida não há recall”.

Mas Barros recusou-se a cumprir as medidas judiciais. Simples assim, recorrendo a um estratagema banal. Abriu um novo pregão, vencido por outro medicamento chinês (Leucospar), do laboratório Xetley, do mesmo distribuidor da LeugiNase.

No dia a dia dos tratamentos, o quadro era tenebroso. Conforme a dra. Silvia Brandalise:

“Hoje, com protocolos modernos, as chances de cura da leucemia linfoide aguda da criança giram ao redor de 80% dos casos. Com a possível redução da ação da Leuginase®, cairão para níveis abaixo de 50%. É um crime hediondo deixar de usar um produto seguro por outro desconhecido. Mortes secundárias a recidivas serão registradas”.

Peça 4 – a montagem da organização na Saúde

A operação Covaxim-Biotech, conduzida por Ricardo Barros – agora, na condição de líder do governo Bolsonaro – contou com participação direta dos Bolsonaro, não apenas do pai, assinando a Medida Provisória que permitiu a compra, e chegando a ligar ao primeiro ministro da Índia, quanto Flávio Bolsonaro, o representante comercial da família, recorrendo ao BNDES para obter financiamentos para Precisa (a intermediária da compra) e celebrado o contrato no Twitter.

Esses movimentos não passaram despercebidos de especialistas da área.

No dia 5 de fevereiro, o médico e advogado Daniel Dourado alertava no Twiter:

O médico Paulo Lotufo reforçava a mesma suspeita.

Naquele dia, a Folha deu a notícia de que o Ministério da Saúde estava nas “últimas negociações” para adquirir 20 milhões de vacinas Covaxin. Na reportagem, o Ministério garantia a compra da Covaxin e condicionava a compra da Sputnik aos preços oferecidos.

No dia 12 de fevereiro, o presidente da Câmara passou a pressionar pessoalmente a Anvisa, exigindo rapidez para a aprovação das vacinas. A declaração ocorreu em meio a disputas com técnicos da Anvisa, que queriam que Bolsonaro vetasse o dispositivo da MP 1003/20, que exigia que, em apenas cinco dias, a Agencia concedesse autorização para a importação de vacinas.

Peça 5 – a hipótese mais plausível para o escândalo

Gradativamente, vai sendo desenrolado o fio da instabilidade no Ministério da Saúde desde o início da pandemia.

A narrativa mais provável é a seguinte, conforme um observador atilado do submundo da contravenção brasiliense:

Explicamos  em 29 de agosto de 2020, no “Xadrez de como Bolsonaro herdou a rede neopentecostal de Eduardo Cunha, a apropriação por Bolsonaro de todo o esquema do ex-deputado Eduardo Cunha, o mais influente membro do Centrão.

“Quando Bolsonaro ganhou, esse pessoal tinha já uma expertise em ganhar dinheiro misturando atividades privadas ilícitas (ou semi-ilícitas) com corrupção pública. Tinham estado em praticamente todos os governos federais. Tinham o controle absoluto da máquina pública em vários estados. Por exemplo, Distrito Federal.  Sabiam quais as áreas mais vulneráveis para serem atacadas para saque. Uma dessas áreas sensíveis é a saúde pública. Envolve orçamentos bilionários e não há uma padronização de preços. Remédios, insumos, equipamentos, tudo pode ser comprado por x, ou por 2x, sem que alguém possa de imediato afirmar que se trata de corrupção.

O esquema começou a funcionar ainda na gestão do ex-Ministro Luiz Henrique Mandetta, com a indicação – pelo Centrão – de um tercerizado diretamente ligado a Ricardo Barros. Aparentemente, Mandetta, apesar de adepto do plano de destruição do SUS, talvez fosse um empecilho para esses planos de saque.

A mesma dificuldade com o Nelson Teich, que era um gerente da iniciativa privada.

Aproveitaram as divergências com a visão de pandemia do Bozo e tiraram os dois. Para a base bolsonarista não houve prejuízo, pois sempre poderiam ser apresentadas outras desculpas para as mortes.

Ficou Pazuello. Aí entrou essa associação insólita do milicianismo bolsonarista com os tradicionais corruptos de sempre. Essa parece ser a explicação mais plausível para o fato do Ministério da Saúde ter sido o mais militarizado de todos.  Na denúncia dos Miranda, sempre aparece algum oficial na cadeia de comando envolvido nos rolos. Já teve aquele episódio grotesco da tentativa de corrupção com as reformas do prédio do RJ.

Parece de fato  a atuação de uma quadrilha”.

quarta-feira, 30 de junho de 2021

Do El País: CPI da Pandemia- Ricardo Barros tem nas mãos fatura que Bolsonaro não tem como pagar

 El País:

Sob tsunami de denúncias no caso Covaxin, deputado se move com a tranquilidade de quem é peça-chave no arranjo do Centrão que sustenta o Governo na Câmara e alimenta os sonhos do mandatário para 2022


Ricardo Barros e o ministro da Economia, Paulo Guedes.ADRIANO MACHADO / REUTERS



Artigo de Flávio Freire

O deputado Ricardo Barros (PP-PR) ainda compunha as fileiras do extinto PFL quando deu as costas para seus colegas e foi o único representante do partido a votar contra a emenda que acabou por autorizar a reeleição durante o primeiro Governo de Fernando Henrique Cardoso (1994-1998). Até hoje não esconde o feito com estratégico orgulho, como fez recentemente em uma postagem em sua conta no Twitter. Alçado no ano passado por Jair Bolsonaro à condição de líder do atual Governo, Barros, que já havia sido líder da Gestão de FHC e vice-líder nas administrações de Lula e Dilma, além de ministro da Saúde no polêmico mandato de Michel Temer, abraçou no ano passado a empreitada política camuflado aos interesses do novo chefe.

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Tão logo tomou corpo, um ano atrás, o debate acerca da tentativa de reeleição de Rodrigo Maia e Davi Alcolumbre para, respectivamente, as presidências da Câmara e do Senado, por exemplo, Barros ainda se mostrava contrário ao instituto da reeleição, seja qual fosse a instância. Reforçando a artilharia que a família Bolsonaro despejava principalmente contra Rodrigo Maia, o deputado do Progressista fazia ali a primeira lição de casa, e atuou nos bastidores numa ação de desgaste do colega que tentava ser reconduzido à presidência da Casa. Era irredutível, e a reeleição, dizia ele, não passaria de jeito algum.

Bastou assumir a liderança do Governo na Câmara em outubro de 2020 para o deputado abrir os braços e dar outra configuração à própria tese quando perguntado sobre o projeto de Bolsonaro em se manter mais quatro anos no poder: “É um caminho natural o apoio do Centrão (para a reeleição)”, disse, confortavelmente, sobre o provável apoio dos partidos que dão sustentação ao Governo no Congresso.

Abraço do Centrão

Está nesse abraço com o Centrão, visando 2022, segundo análises elaboradas por integrantes do Governo e parlamentares, principalmente de oposição, o motivo pelo qual o presidente parece ter ignorado a denúncia do servidor público Luis Ricardo Miranda e seu irmão, o deputado Luis Miranda, que envolveram o nome de Barros em um esquema supostamente fraudulento para compra da vacina indiana Covaxin em plena pandemia que matou mais de 510.000 pessoas no país. Nesta terça, as acusações ganharam nova temperatura quando a revista Crusoé traz um relato no qual o próprio Barros aparece oferecendo propina ao deputado Miranda em troca de que ele e o irmão parassem de atrapalhar o acerto com a Covaxin. Já Folha de S. Paulo traz a denúncia de um representante da empresa Davati Medical que disse ter ouvido de um indicado de Barros no Ministério da Saúde que só aceitaria fechar negócio por um imunizante se topasse pagar uma propina de um dólar por dose.

Pelos corredores do Planalto do Palácio a voz corrente é a de que Bolsonaro, em colóquios regados a expressões de apelo popular, estaria numa “sinuca de bico”. O que explicaria o cavalo de pau que o presidente deu em seu discurso quando a crise da vez no Governo esbarra na sua principal bandeira eleitoral. Se antes dizia com todas as letras não haver corrupção na sua gestão, o mandatário agora usa de um artifício comum no ambiente político: “Não tenho como saber o que acontece em todos os ministérios”. Rendeu-se ao peso do abacaxi e nesta terça viu o Ministério da Saúde cancelar o contrato com a fabricante indiana do imunizante, uma tentativa de redução de danos diante do escândalo.

Numa análise fria dos acontecimentos, de acordo com interlocutores, o presidente avaliava de forma meticulosa como agir no caso da Covaxin. Sabe que Barros, seu amigo de partido quando os dois integravam o PP, tem nas mãos uma fatura político-eleitoral importante que o blinda de uma fritura. Para o presidente, pagá-la ou não é o que vai ajudar a desenhar seu futuro próximo. A amigos próximos, Barros estaria aguardando calmamente como o intempestivo presidente vai reagir ao longo dessa semana, considerada quente com o caminhar da CPI da Pandemia. Enquanto isso, teses conspiracionistas colocam em lados opostos Barros e o atual presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), já apontado como quem estaria por trás da denúncia feita por Miranda contra o líder do Governo bolsonarista na Câmara.

A dúvida de como Barros pode agir diante de uma eventual degola explicaria, segundo relatos, o fato de Bolsonaro ter reagido apenas com “isso é rolo do Barros” quando alertado sobre possível fraude em um contrato milionário para compra da Covaxin, vacina intermediada pela Precisa Medicamentos. A Precisa pertence a Francisco Maximiano, nome próximo ao deputado desde que dava seus primeiro passos na política em Maringá, cidade onde seu clã domina o espaço político. O presidente não acionou os órgãos que, neste caso, deveriam se debruçar sobre a denúncia. Na contramão, procurou desqualificar quem tinha informações sobre um eventual esquema de corrupção no seu governo. Homem forte do Governo, Barros parece blindado pela razão óbvia de como funciona a dinâmica da política nacional.

“O presidente tem um grande problema pela frente. Se tirar o Barros da liderança, ele sabe que pode perder o apoio dos partidos com os quais Barros faz intermediação. Além disso, ficaria frágil o discurso que ainda cola em seus eleitores, de que não há nem nunca houve corrupção no Governo”, diz um governista com trânsito no Ministério das Relações Institucionais. Mesmo três dias depois de Barros pôr os pés em areia movediça, Bolsonaro não veio ainda a público negar que tenha citado o seu líder na Câmara aos irmãos Miranda. Coube ao próprio ir às redes sociais para negar envolvimento com possíveis fraudes, e se colocar à disposição das autoridades para dar sua versão, o que ainda não aconteceu.

Na noite desta segunda-feira, Barros respondeu ao EL PAÍS pelo WhatsApp. Numa troca de mensagens sem réplica, não descartou a a possibilidade de Bolsonaro tê-lo citado na conversa com os irmãos Miranda. Em sua defesa, acredita apenas que não se trataria de uma menção relacionada à Covaxin. Preferiu deixar no ar que, se Bolsonaro o enxerga como um político com seus “rolos”, é coisa do passado. “Pelas informações divulgadas até o momento a respeito do suposto diálogo, o caso em questão seria sobre a empresa Global e a compra de medicamentos não entregues”, disse.

O Ministério Público Federal acusa o deputado de ter beneficiado a Global Gestão em Saúde quando ele era ministro no Governo Temer. A empresa ofereceu o menor preço mas não entregou os medicamentos que seriam destinados a pacientes com doenças raras. O Governo desembolsou 19,9 milhões de reais e até hoje os remédios não chegaram às prateleiras. “Na minha gestão promovi uma economia superior a 5 bilhões de reais ao sistema de saúde (...) São processos que afrontam grandes interesses”, disse o deputado a este jornal. O caso que ganhou o noticiário entre 2016 e 2018 tem forte contorno na atual crise uma vez que Maximiano é sócio tanto da Global como da Precisa, empresa alvo da CPI da Pandemia onde os irmãos Miranda apontaram Barros como a autoridade que estaria fazendo pressão para o Governo dar celeridade ao contrato mesmo, segundo eles, diante de irregularidades.

Barros se defende: “Embora a Global seja sócia da Precisa Medicamentos, esse processo em nada se relaciona com a aquisição de vacinas da Covaxin”, diz ele. “Estou à disposição para prestar esclarecimentos, inclusive na CPI”. O deputado garantiu também não ter relações com Maximiano: “Não sou próximo do senhor Francisco Maximiano e não atuei em favor da Precisa”, completou.

A comissão está ávida por mais informações. Nesta quinta-feira, pretende ouvir Maximiano para que ele dê explicações sobre o contrato de compra de 20 milhões de doses do imunizante produzido pelo laboratório indiano Bharat Biotech, agora suspenso. Ele teria chegado nesta segunda-feira do exterior, informação desencontrada com a primeira notícia pós-escândalo, de que ele havia desembarcado no Brasil no último dia 15, vindo da Índia. O acordo da Precisa chegou a ser fechado com o Ministério da Saúde, mesmo com o valor do imunizante oferecido —15 dólares, valor superior ao que estava sendo oferecido pelos imunizantes da Pfizer e da Coronavac — e também na celeridade da negociação, tida como “atípica” pelo servidor. Além disso, o material que chegaria no Brasil estaria perto do prazo de validade.

“A nossa preocupação é que esse tipo de denúncia não trave uma área da saúde muito importante, que é o da logística, o que prejudicaria processos importantes que estão em andamento e não têm relação alguma com o que está acontecendo”, diz Nelson Mussolini, presidente do Sindicato da Indústria de Produtos Farmacêuticos do Estado de São Paulo (Sindusfarma), que hoje representa 95% do mercado. A Precisa e a Global não fazem parte do quadro de sócios do sindicato.

Chegada à conclusão de que haveria um esquema contra os cofres públicos e ainda colocaria no mercado uma vacina não aprovada, o Governo terá que reverter sua posição de blindagem de Barros. Um dos pontos-chave a ser explorado na investigação tem relação direta com a medida provisória editada pelo Governo Bolsonaro em 6 de janeiro, a qual permite a compra emergencial de vacinas contra a covid-19, mas sem possibilidade de adquirir as vacinas da Pfizer e da Janssen. Toda a articulação para a aprovação da MP no Congresso foi capitaneada por Ricardo Barros, segundo seus próprios pares na Casa.

Ao EL PAÍS, o deputado e ex-ministro da Saúde, Alexandre Padilha, é enfático. “A MP assinada por Bolsonaro em 6 de janeiro foi feita para permitir o esquema na compra de vacina, e não à toa, em 7 e 8 de janeiro, o embaixador do Brasil na Índia apresenta uma empresa [a Precisa] para ser intermediária do laboratório indiano nesse esquema. E não à toa, essa MP faz uma regra que permite o pagamento antecipado dos recursos, inclusive estabelecendo que a empresa não possa ser punida mesmo não entregando o volume integral do material”.

Uma fonte da área de saúde, que tem negócios com o Governo federal há mais de dez anos e que prefere o anonimato sob argumento de que exposição neste momento pode prejudicar mesmo quem atua de forma lícita, diz sempre ter estranhado a evolução da Precisa nos contratos com o atual Governo. De 2019 para cá, a empresa fechou ou intermediou acordos com o Ministério da Saúde que somam 1,6 bilhão de reais. Antes de Bolsonaro, a Precisa assinou apenas um contrato na esfera federal, de 27,4 milhões de reais. Em carta aos senadores da CPI, o empresário já avisou que não pretende fazer uma caça às bruxas em seu depoimento: “É inequívoco que o investigado Francisco Maximiano não tem qualquer fato a depor perante essa CPI contra o atual Governo”.

A denúncia dos irmãos Miranda contra Barros deve remeter o deputado a uma nova peleja para tentar enterrar denúncias que envolvam esquemas de corrupção. E vai novamente colocar à prova seu jogo de cintura para evitar manchas na biografia dos Governos para quem atua. Agora, mais que nunca, terá que livrar a própria pele. Não é de hoje que o deputado se mostra experiente para tratar do tema. Em 2001, Barros conseguiu cooptar 20 deputados para que eles retirassem suas assinaturas do requerimento de criação da chamada CPI da Corrupção. Com isso, livrou o governo tucano de um escrutínio que tinha tudo para jogar ainda mais para baixo a popularidade já em queda de FHC naquele fim de mandato. “O Ricardo [Barros] é daqueles políticos que sabem jogar o jogo do Congresso, seja para o lado que for, e depois cobra a fatura”, diz um tucano que fez parte da bancada de apoio dos dois Governos de Fernando Henrique, entre 1995 e 2002.

A atuação de Ricardo Barros na gestão de FHC foi o que alguns consideram como o passaporte para que ele se transformasse num vigoroso político de bastidores, daqueles que mostram resultados em sua base eleitoral dada sua fidelidade com o governo vigente. Foi ganhando espaço e prestígio entre seus pares, até que pulou do ninho tucano para a gestão petista mesmo depois dos primeiros anos de oposição ao Governo Lula. Barros e o então deputado Luiz Carlos Heinze eram os únicos entre os 42 deputados eleitos do PP em 2006 que não concordavam que o partido fizesse parte da coalizão ao Governo Lula. Já no segundo mandato petista, disse que não via constrangimento em assumir a vice-liderança de Lula. “No primeiro, fiz uma oposição ao Governo do PT. Agora é diferente, é um Governo de coalizão”, justificou na ocasião.

segunda-feira, 28 de junho de 2021

Xadrez dos jogos de poder em torno do impeachment de Bolsonaro. Por Luis Nassif

 

"Nos próximos meses, no embalo das novas formações políticas, visando o pós-bolsonarismo, ficarão mais nítidas as diferenças entre a centro-esquerda progressista e a centro-direita liberal. Ambas tratarão de avançar em discursos sociais. A diferença é que a centro-direita se limitará a demonstrações de bom mocismo, preservando a extraordinária concentração de renda no país, a continuação do desmanche do Estado e a privatização de estatais estratégicas."

Do Jornal GGN:



Dois episódios recentes, fundamentais, ditarão os cenários políticos futuros: as últimas pesquisas, mostrando a probabilidade de Lula ser eleito no 1o turno; o escândalo Biontech-Covaxim, expondo as relações políticas e de negócios entre a família Bolsonaro (representada por Flávio) e o Centrão (representado pelo líder do governo Ricardo Barros.

Entenda.

Peça 1 – a economia, o momento e o futuro

A pesquisa reflete o momento, os desastres continuados de Bolsonaro no combate à pandemia, seus arroubos e a permanência da crise econômica.

Há um conjunto de fatores pela frente, com vistas a 2022, cujos desdobramentos são de difícil aferição:

Recuperação relativa da economia – aumento das commodities, recuperação relativa da ociosidade da indústria poderão melhorar os indicadores de PIB. Por outro lado, permanece o enorme exército de desempregados.

Inflação em alta – a inflação está sendo pressionada pela soma de alta internacional das commodities e desvalorização cambial. Os últimos movimentos, de apreciação do câmbio poderá reduzir um pouco a pressão. Mas a elevação dos preços comprimiu as margens das empresas. Por isso, é pouco provável que a apreciação do câmbio se reflita sobre os preços.

Alta nos juros – a irracionalidade da política de metas inflacionárias levou o Banco Central a promover nova rodada de alta de juros, com impacto na recuperação da economia .

Efeitos da vacinação – em tese, deveria reduzir a incidência do Covid-19. Mas há sinais claros de entrada da terceira onda da pandemia, em um momento em que parcela pequena da população foi completamente vacinada.

Crise energética – a partir do segundo semestre haverá racionamento de energia ou, nos dizeres do governo, racionalização do consumo da energia. Haverá impacto óbvio nas tarifas de luz, impactando o Índice de Preços ao Consumidor Ampliado e, também, o custo de produção das empresas.

Há uma probabilidade menor de recuperação da economia. Mas há que se considerar que qualquer melhoria, por mais discreta que seja, muda relativamente os humores do eleitorado.

Os próximos movimentos políticos se darão em torno desse jogo de dados sobre o potencial eleitoral de Bolsonaro.

Peça 2 – a crise da Bharat Biotech

A sucessão de escândalos em torno da vacina, obrigará as instituições a tomarem posição. Bolsonaro está se tornando insustentável. O que o mantém são apenas os cálculos em relação a 2022, pela dificuldade de se avaliar os desdobramentos do que vier a acontecer.

1. Se Bolsonaro é mantido no cargo, chegará a 2022 como uma ameaça de continuidade. Essa perspectiva reforçará a ideia do pacto em torno de Lula, afastando a viabilidade da terceira via.

Pelo contrário, se Bolsonaro cai, há dois movimentos subsequentes.

2. O primeiro, a tentativa do Partido Militar de se recompor em torno do vice-presidente Hamilton Mourão. Impressiona pelo eventual potencial golpistas, jamais por fôlego político.

3. A segunda, a tentativa de empinar a candidatura de um terceira via, da centro-direita autoritária, com probabilidade de ser Ciro Gomes.

Uma terceira possibilidade – menor – seria o bom senso baixar em um país e se manter a ideia de um pacto mais amplo, ensaiado a partir do encontro de Fernando Henrique Cardoso e Lula.

Peça 3 – as disputas políticas

Nos últimos meses, esvaíram-se os últimos ecos da Lava Jato. Sérgio Moro foi jogado no lixo da história sem choro nem vela. Deltan Dallagnol, que um dia julgou se tornar mais popular que Lula, não provoca comoção nem em seu antigo exército de robôs vingadores. No TRF-3, as últimas eleições afastaram de cargos de comando os principais desembargadores avalistas de Sérgio Moro. No Supremo, Luiz Edson Fachin queda e Luis Roberto Barroso se cala, esboçando alguma ação apenas na defesa do voto eletrônico. Mas o Supremo, como um todo, avança para segurar os esbirros autoritários de Bolsonaro.

Em todo esse movimento, foi mantido incólume a espinha dorsal da corrupção brasileira, o Centrão, a mais espúria força política do período pós-Constituinte. O grupo assumiu postos relevantes no governo FHC, quando houve a crise da energia, no governo Lula, depois do “mensalão”. E, quando extirpado do governo Dilma, promoveu o impeachment. 

Ontem, a CPI confirmou o que o GGN vem antecipando há semanas: o papel do Centrão e do líder do governo, deputado Ricardo Barros (PP-PR) no caso Covaxin-Biotech, talvez o maior escândalo da história da República, devido ao envolvimento direto do presidente da República no episódio.

Leia “O Xadrez de como o jogo das vacinas chegou ao centro da corrupção brasileira”.

O oportunismo da Lava Jato e Sérgio Moro de atuarem como atores políticos, acabou poupando o Centrão, com exceção do breve interregno da prisão de Michel Temer e da condenação de Eduardo Cunha. Nada aconteceu com Eliseu Padilha, Wellington Moreira Franco, Fernando Bezerra, Ricardo Barros.

Agora, o episódio liga o Centrão, articulado por Ricardo Barros, diretamente ao esquema Bolsonaro, representado por seu filho Flávio Bolsonaro. Ontem, a revista Veja mostrou que Flávio teve reunião virtual com o presidente do BNDES para interceder pelos donos da Precisa, a distribuidora de medicamentos por trás do escândalo Covaxim-Biontech.

O episódio pega a centro da corrupção política brasileira, com desdobramentos imprevisíveis. De qualquer modo, acendeu uma luz para iluminar o futuro. Daqui para frente, o desmanche do Centrão entra no foco de qualquer reforma política futura. E será peça central para a disputa em torno do impeachment de Bolsonaro.

Peça 4 – as disputas econômicas

O ponto central, para o pós-Bolsonaro, é a disputa econômica. O extraordinário poder acumulado pelo lobby financeiro levou  à tragédia atual. Valeram-se da crise do governo Dilma para impor o início do desmanche do Estado brasileiro, com a “ponte para o futuro”, a destruição de qualquer veleidade de estado social, com Lei do Teto, reforma da Previdência e reforma trabalhista e os obscuros negócios da privatização. E mantiveram intocado o controle do mercado sobre a política econômica

Nos próximos meses, no embalo das novas formações políticas, visando o pós-bolsonarismo, ficarão mais nítidas as diferenças entre a centro-esquerda progressista e a centro-direita liberal. Ambas tratarão de avançar em discursos sociais. A diferença é que a centro-direita se limitará a demonstrações de bom mocismo, preservando a extraordinária concentração de renda no país, a continuação do desmanche do Estado e a privatização de estatais estratégicas.

Haverá consenso apenas em relação às políticas de saúde, educacional e de renda básica.

Peça 5 – os prováveis atores políticos

O próximo tempo político provavelmente será ocupado por Lula e Ciro Gomes. O restante é perfumaria, Mandetta, Sérgio Moro, Dória, Huck.

Lula é o negociador nato, com todas as vantagens e desvantagens dessa posição. No grande pacto que pretende montar, como ficariam as relações com o mercado? Mudaria as políticas de câmbio e juros? Conseguiria implementar suas bandeiras de desenvolvimento social com as restrições monetárias e fiscais? A necessidade de manter a governabilidade permitiria reconstruir parte do estado social destruído? 

Tem a vantagem de um acervo de experiências bem sucedidas, e de experimentos mal sucedidos – com as lições de como corrigir erros. E, certamente, conseguirá reverter os maiores exageros do período Paulo Guedes, fortalecendo novamente as representações de trabalhadores, da indústria e do setor real.

Mas o grande pacto do passado – PT e PSDB – hoje é apenas simbólico, representado pelo encontro FHC-Lula, depois que o PSDB derivou irremediavelmente para a direita.

Ciro Gomes é um camaleão político de viés autoritário. Com exceção da idoneidade e do melhor preparo intelectual, é parecido com José Serra. Fareja determinadas bandeiras, de nicho ou mais amplas, e incorpora em seu discurso, sem se preocupar muito com a coerência.

Por exemplo, no auge dos abusos da Lava Jato, chegou a afirmar que, se sua casa fosse invadida, como foram as de tantas outras vítimas – inocentes ou não – da Lava Jato, receberia Moro à mala. Agora, vendo a bandeira do punitivismo sem dono, incorpora o moralismo exacerbado da Lava Jato, pretendendo herdar os lavajatistas órfãos.

No início do Real, tornou-se um defensor ultra-radical das políticas de câmbio e juros. Depois, se tornou um crítico visceral da política de câmbio e juros. Nos últimos tempos, de crítico severo de FHC tornou-se admirador.

Percebeu que o desenvolvimentismo estava órfão de candidatos e se aproximou dos principais pensadores. Depois, se tocou que a Terceira Via estava sem candidato e tratou de empinar seu papagaio em direção a ela e ao mercado. E, agora, soma seu caráter bélico a João Santana, marqueteiro especializado em destruir adversários e responsável pelos momentos mais ilegítimos da campanha de Dilma Rousseff e radicaliza um antipetismo anacrônico e iracundo.

O que seria o presidente Ciro? Em relação à economia manteria o desenvolvimentismo ou negociaria com o mercado? Qual seria reação teria se medidas suas fossem contidas pelo Supremo? A única certeza é que, pelo seu temperamento, jamais se abriria para a sociedade civil, movimentos sociais, associações empresariais, corporações públicas, fórum de prefeitos e governadores, já que é dono de convicções mutantes, porém inabaláveis em cada etapa da mudança.

Em suma, mesmo após o pesadelo Bolsonaro, há um longo caminho para a conquista da democracia e do pacto em torno de um projeto de desenvolvimento social.