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terça-feira, 13 de setembro de 2016

Aquarius, um filme-denúncia atual e uma fresta para o futuro


Kleber Mendonça abre, em praça pública, a estrutura apodrecida de um certo Brasil. É filme de resistência e mudança — uma tempestade que a Casa Grande fez de tudo para evitar, mas está prestes a cair
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Por Cristina Martins Tavelin, no Outras Palavras
Em algumas passagens da História, a escuridão é tão densa que mal se pode imaginar uma brecha por onde entre luz. Apenas quando a estrutura já podre apresenta, na superfície, os sinais da destruição plantada há tempos, é que finalmente o primeiro raio atravessa o presente para ressignificar o passado e apontar o futuro.
Com Aquarius, Kleber Mendonça Filho vem com um machado para abrir, em praça pública, a estrutura já oca de uma certa História do Brasil. Não à toa, o final desse filme leva o espectador a uma espécie de êxtase inominável. Algumas obras antecedem novas conjunturas que ainda não podem ser traduzidas em palavras, e Aquarius carrega consigo essa marca do que está por vir.
Construído em três capítulos, trata de uma memória palpável e viva. O início, no ano de 1980, traz as cores, as dores e um resto de esperança herdada dos anos 70. Família reunida, crianças brincando no quintal e a jovem protagonista Clara que acaba de atravessar um câncer constroem esse primeiro momento — com uma fotografia notável –, o qual servirá de base e contraste para as passagens seguintes.
Anos depois, no mesmo apartamento do prédio Aquarius, a jornalista Clara explica o porquê gosta de colecionar discos de vinil: eles contam uma história, assim como as fotografias tão táteis e presentes durante o longa. Também aí se inicia a insistência para a venda do apartamento por parte dos emissários de uma construtora.
Quando percebe, Clara já está imersa em uma disputa diária com esse inimigo sem rosto, o qual instala-se no apartamento de cima, dá festas, passa a rondar a sua vida e falar com os seus filhos. Assim como as sociedades anônimas não têm uma identidade específica no fluxo do capital, o inimigo de Clara não tem corpo ou face.
A questão do corpo se apresenta de forma mais evidente em outra passagem. A rejeição sofrida pelo parceiro após o baile reduz à insignificância a história da personagem, onde as cicatrizes são vistas apenas como indícios de uma ausência. Sobre o corpo de Clara, vale ainda ressaltar outro detalhe: a forma como usufrui do prazer do sexo.
Ao analisar a moral cristã em História da Sexualidade, Foucault aponta seu cerne na ideia de que “a carne é a subjetividade do corpo” e precisa ser controlada no caminho para a salvação. O poder pastoral se realizou por meio dessa subjetividade. Clara vai em oposição a essa moral, à obediência enraizada que define até hoje a política como uma relação de submissão.
Um dos emissários da construtora, Diego — formado nos Estados Unidos, racista, meritocrático até o osso — está inserido nos negócios por ser neto de uma pessoa influente, o que traduz muito bem a forma como as relações de poder se dão no Brasil. Esse mesmo tema perpassa O Som ao Redor, mas agora com um toque possivelmente mais “moderno” ao ter uma grande empresa por trás. Impossível não lembrar do episódio de Fausto, em Goethe, quando a modernidade esmaga o casal de idosos sem nenhum remorso ao passar por cima de sua casa.
De O Som ao RedorAquarius também traz uma Recife em transformação, onde a nova estética se assenta às custas da memória. A cicatriz urbana se instala em edifícios de alto padrão e condomínios cercados por medo.
Os insetos, os emissários da construtora, a curiosidade e a angústia causadas pelo enigma dos apartamentos de cima: pontos que remetem brevemente à tensão das obras de Kafka, onde o protagonista nem ao menos consegue entender o que se passa, mas entra no fluxo dos acontecimentos. Também de Kafka pode-se trazer a ênfase nos gestos, em mãos que tateiam o nada ou deslizam junto ao véu fantasmagórico despencando do edifício.
De todos os méritos de Aquarius, talvez o maior seja o de não se submeter a nada. Pelo contrário, uma mulher forte — um devir feminino — encara essa rede indefinida para manter a própria sanidade. A única alternativa é o enfrentamento, pois algumas estruturas não têm mais salvação. Assim fica mais simples entender o êxtase coletivo ao final da exibição. Aquarius é um filme de resistência e de mudança — uma tempestade que a Casa Grande fez de tudo para evitar, mas que está prestes a cair.

segunda-feira, 12 de setembro de 2016

A aula de história de Sônia Braga ao atual e golpista ministro da Cultura


Atual ministro da Cultura, Marcelo Calero definiu o protesto de Sonia Braga e do elenco do filme Aquarius no tapete vermelho do Festival de Cannes como “quase infantil”. A veterana atriz rebateu a crítica com uma aula de história

Sonia Braga Marcelo Calero cultura
A atriz Sônia Braga e Marcelo Calero, atual ministro da Cultura de Michel Temer

Do Pragmatismo Político:

A atriz Sônia Braga, estrela do filme Aquarius, de Kleber Mendonça Filho, rebateu as críticas do atual ministro da Cultura, Marcelo Calero, que definiu o protesto de elenco e equipe do filme no tapete vermelho do Festival de Cannes como “quase infantil”.
A veterana estrela do cinema respondeu a crítica com uma ‘aula de história’.
E tom professoral, Sônia resgata informações sobre a criação da Lei que regulamenta a profissão de artista no Brasil, promulgada em 1978; recorda seu papel de destaque na história do cinema brasileiro e declara que a ofensa do ministro aos artistas brasileiros “é inadmissível”.
No Facebook, a atriz escreveu: “O Ministro da Cultura ofendendo artistas é inadmissível. O senhor está nesse cargo para dialogar, para nos ajudar, para fazer a ponte com quem nos explora”. Ela cita ainda a luta para a conquista de melhores condições para os atores nacionais, lembrando que foi a maior estrela do cinema nacional nos anos 1970 e 1980, chegando a divulgar filmes no exterior.
“Naquela época, acredito, o senhor Marcelo ainda não havia nascido. Por isso, não deve ainda ter tido tempo de aprender sobre os nossos problemas e os nossos direitos. E pouco se importou, ou não notou, que uma atriz brasileira era campeã de bilheteria do cinema brasileiro e sustentou este título por 30 anos – também ganhando, com filmes brasileiros, além de projeção internacional, muitos prêmios no exterior, promovendo assim o nome de Brasil e de nossa cultura”, diz Sônia.
O diretor Kleber Mendonça também se pronunciou via Facebook. Ele compartilhou uma notícia do New York Times que dava “medalha de ouro da corrupção” ao presidente interino Michel Temer. “Talvez isso aqui redefina sua noção de o nosso país passar vergonha internacionalmente”, escreveu.

Entenda o caso

Durante o Festival de Cannes, realizado em maio, o cineasta Kleber Mendonça, a atriz Sonia Braga, Maeve Jinkings e outros integrantes do filme Aquarius exibiram cartazes com dizeres do tipo: “54 milhões de votos foram queimados”; “Nós resistiremos” e “O povo não pode aceitar um governo ilegítimo”.
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quarta-feira, 18 de maio de 2016

Sonia Braga e artistas protestam contra impeachment de Dilma em Cannes: "Golpe"

Elenco do filme "Aquarius" levantou cartazes com mensagens contra a atual situação política do Brasil durante festival

Atores e artistas brasileiros utilizaram o tapete vermelho do Festival de Cannes para protestar contra o presidente interino Michel Temer, que assumiu o País após o afastamento da presidente Dilma Rousseff. Durante as fotos, eles levantaram cartazes com mensagens contra o impeachment no Brasil.
Fonte: Gente. IG

Artistas protestam contra o governo Temer em Cannes
Reprodução/Facebook
Artistas protestam contra o governo Temer em Cannes

Os dizeres estavam escritos em inglês e cada ator segurava um cartaz. "O mundo não pode aceitar este governo ilegítimo", era possível ler em uma das placas. "Ocorreu um golpe no Brasil", lia-se em outra. Uma das faixas estava escrita em francês e comunicava que o País sofreu um golpe.
Entre os artistas estavam os atores Humberto CarrãoMaeve Jinkings e a atriz Sonia Braga. Eles estão no festival por conta do filme "Aquarius", do cineasta Kleber Mendonça Filho. O ato foi registrado pelas câmeras do festival. 
Confira o vídeo do protesto:  


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