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quinta-feira, 14 de março de 2019

Do Justificando e Instituto Eu Sou da Paz: Pesquisa revela forte conexão entre o mercado legal de armas e seu uso em crimes


Pesquisa revela forte conexão entre o mercado legal de armas e seu uso em crimes

Em GO, 71% das armas apreendidas são de fabricação nacional e ao menos 43% têm origem legal; perfil é semelhante ao encontrado em outras regiões do Brasil
De cano curto (74%), calibre permitido (75%) e fabricada no Brasil (71%): este é o perfil das armas apreendidas no crime em Goiás, mesmo perfil encontrado pelo Instituto Sou da Paz em análises de apreensões em outras regiões do Brasil, como Nordeste e Sudeste.
O relatório “De onde vêm as armas e munições apreendidas no estado de Goiás?” também identificou que, no estado, 43% das armas rastreadas tinham proprietário legal. Tanto a vinculação com o mercado legal quanto a origem nacional contrariam o senso comum de que a as armas do crime sejam oriundas de tráfico internacional.
Além disso, o estudo indicou que 73% das armas haviam sido fabricadas antes da aprovação da Lei 10.826/2003, conhecida como Estatuto do Desarmamento, o que mostra que o descontrole de armas da década de 1990 produz impactos na violência do Brasil hoje.
O novo estudo do Instituto Sou da Paz analisou 8.912 armas e 21.441 munições apreendidas no estado gerando dados comparáveis com outras regiões do país.[1]
  1. Goiás, Nordeste e Sudeste: maioria das armas são curtas e fabricadas no Brasil
Das 8.912 armas apreendidas em Goiás entre junho de 2016 e dezembro de 2017, 84% eram de fabricação industrial, enquanto simulacros e armas de pressão somaram 9% e armas de fabricação artesanal 7%.
Entre as armas de fabricação industrial, os revólveres representaram mais da metade (53%), as pistolas somaram 17% e as espingardas 16%. As armas de maior poder de fogo, como fuzis e submetralhadoras, foram apenas 2% do total. Em grandes categorias, foram usadas majoritariamente armas de cano curto (70%), de calibre permitido (75%) e de fabricação nacional (71%). Apenas o conglomerado empresarial brasileiro que controla as marcas Taurus, Rossi e CBC somou 67% do total, contrariando o senso comum de que a maioria das armas apreendidas seriam oriundas de grandes rotas de tráfico internacional.
A tabela abaixo mostra que o perfil verificado em Goiás é semelhante ao observado em todas as regiões estudadas até hoje.
LocalCano CurtoCalibre permitidoFabricação nacionalArmas industriaisAno de apreensão
Goiás74%75%71%7.4832016 e 2017
São Paulo (cidade)94%77%78%10.6662011 e 2012
Sudeste77%70%61%49.2482014
Nordeste57% a 99%74% a 96%76% a 95%*2015 e 2016
*O universo varia de acordo com a variável por causa da diferença na qualidade dos dados entre os estados
  1. Goiás, São Paulo e Ceará: maioria das armas fabricadas antes da Lei 10.826/2003
Para compreender qual a idade média das armas de fogo apreendidas em Goiás, analisamos o ano de fabricação de 1.492 armas das marcas Taurus e Rossi com numeração preservada. O resultado indicou que 73% delas haviam sido fabricadas antes da aprovação da Lei 10.826/2003, conhecida como “Estatuto do Desarmamento”, quando a compra era facilitada, o que faz aumentar a preocupação do impacto do Decreto 9.685/2019 que acaba de retroceder nesta política ao flexibilizar critérios importantes de compra e estender a duração dos registros.
PeríodoGoiásSão Paulo (Capital)Ceará
1950-19596%2%–
1960-196915%7%–
1970-197916%6%–
1980-198916%14%17%
1990-199920%25%36%
2000-20099%36%19%
2010-201618%11%29%
Universo1.492 apreendidas
em 2016 e 2017
3.131 apreendidas
em 2011 e 2012
1.577 apreendidas
em 2016 e 2017

  1. Goiás, São Paulo e Ceará: a “arma do cidadão” envolvida em crimes
Para avançar na compreensão sobre a origem das armas apreendidas, o relatório apresenta resultados de um rastreamento das armas com numeração preservada no Sistema Nacional de Armas (SINARM) onde estão cadastradas apenas as armas de pessoas físicas que detêm registro para defesa pessoal, as armas de forças de segurança civis e de empresas de segurança privada.
No estado de Goiás, 64% das armas industriais apreendidas tinham numeração preservada, um porcentual representativo que fora de 50% na capital de São Paulo e de 78% no Ceará. Das armas rastreadas em Goiás, 2.073 (ou 43%) tinham um registro prévio no SINARM, o maior porcentual em comparação com a capital de São Paulo e o Ceará que obtiveram retorno, respectivamente, em 38% e 33% das armas consultadas.
Registros anterioresGoiásSão Paulo (Capital)[2]Ceará[3]
Total de armas industriais7.4834.2897.752
Rastreadas (numeradas e consultadas no SINARM)4.7752.0315.966
Armas registradas no SINARM2.0737741.984
Registradas/Total28%18%26%
Registradas/Rastreadas43%38%33%
Das armas com registro prévio em Goiás, 57% tinham sido registradas no próprio estado. As armas registradas no Distrito Federal somaram 11% e somando as de Goiás com os demais estados de divisa o porcentual chegou a 70%, indicando grande peso de dinâmicas regionais.
No caso do Ceará, as armas também tinham a maior parte dos seus registros prévios no próprio estado (44%), mas em segundo lugar apareciam as registradas em São Paulo (14%) e no Distrito Federal (8%). No caso da capital paulista, 87% das armas que tinham registro prévio e foram apreendidas em roubos e homicídios tinham origem no próprio estado.
Outro dado notável que se verificou em Goiás foi a predominância de registros anteriores de pessoas físicas (85%), número muito superior ao observado na capital paulista (57%), novamente contrariando impressões comuns de que a “arma do cidadão” não é a mesma usada para cometimento de crimes, quando na verdade é usada pelo próprio proprietário ou após roubos, furtos e desvios.
Detalhes do registroGoiásSão Paulo (Capital)Ceará*
Registrada no próprio Estado57%87%44%
Registrada por Pessoa Física85%57%s/i
Registrada por Pessoa Jurídica14%43%s/i
Universo2.0737741.984
* O rastreamento não diferenciou PF e PJ.
  1. Goiás e Rio de Janeiro: pioneiros na análise de munições apreendidas
Por fim, este relatório coloca o estado de Goiás entre os pioneiros que aderem à boa prática de coletar e divulgar os dados de apreensão de munições na gestão da sua segurança pública. Apesar de o controle de munições também ser uma atividade estratégica, essa ainda é uma política incipiente no Brasil. Até 2018, o único estado que fazia este levantamento e o publicava era o Rio de Janeiro por meio do Instituto de Segurança Pública[4].
Em Goiás, foram identificados os calibres de 13.882 munições apreendidas, sendo possível diferenciar os calibres comumente permitidos para uso civil, que somaram cerca de 50%, e os de uso mais restrito, que representam apenas 14%, havendo ainda uma grande parcela de 35% das munições sem este detalhamento. Em relação às marcas, a predominância foi da brasileira CBC (Companhia Brasileira de Cartuchos), responsável por 69% das apreensões ou quase a totalidade dos casos em que esta informação estava registrada.
Este perfil se diferencia daquele identificado no estado do Rio de Janeiro no que se refere à presença de calibres restritos. Em território fluminense, os calibres comuns em armas de uso permitido representaram 36% do total, fato consistente com o uso mais intensivo de armas de maior poder de fogo no Rio de Janeiro.
UFTipo de uso do calibreNacionalidadeTotal
PermitidoRestritos/iNacionalEstrangeiras/i
GO50%14%35%69%1%30%21.441
RJ36%64%–42%30%28%548.777
* Os dados de Goiás correspondem a 21.441 munições apreendidas entre jul/2016 e dez/2017
** Os dados do Rio de Janeiro correspondem a 548.777 munições apreendidas entre jan/2014 e jun/2017, exceto o dado de nacionalidade que se refere a 139.729 munições apreendidas em 2014.
  1. O que as análises indicam
            Os dados obtidos em Goiás reforçam que, apesar de pequenas peculiaridades regionais, o perfil das armas apreendidas no país é consistente: em sua maioria são armas de marcas brasileiras, de cano curto e calibre de uso permitido. As armas de maior poder de fogo, como fuzis e submetralhadoras, e as armas de origem estrangeira existem como um problema secundário na maior parte do país.
            A análise sobre a existência de registros legais anteriores reforça a forte conexão entre o mercado legal de armas e seu uso em crimes. Em todos os locais onde este rastreamento foi feito, pelo menos um terço das armas consultadas tinham registro legal anterior. Cabe notar que estes rastreamentos incluíram apenas o banco de dados da Polícia Federal, não havendo acesso ao banco de registros do Exército, que tem todas as armas particulares de militares e as armas de colecionadores, atiradores e caçadores, acesso que certamente faria crescer esta porcentagem. Novamente contrariando o senso comum, entre os registros identificados na Polícia Federal, a maioria das armas usadas em crimes haviam pertencido a pessoas físicas e predominavam as armas registradas no próprio estado onde foram usadas em crimes.
            Este relatório trouxe ainda dados inéditos sobre a apreensão de munições em outro estado que não o Rio de Janeiro. A comparação entre os dois mostra uma diferença importante em relação à maior presença de calibres de uso restrito no território fluminense, mas indicam semelhança em relação à origem predominantemente nacional.
            Tanto pela origem das armas quanto das munições usadas em crimes, este relatório reforça que o Brasil tem muito a avançar em suas políticas públicas para ter um controle adequado do mercado de armas e munições, uma competência legalmente compartilhada entre o Exército e a Polícia Federal. Este controle precisa ser exercido tanto nas condições de venda, que acabam de ser flexibilizadas (pelo decreto publicado pelo presidente Jair Bolsonaro em janeiro), quanto no investimento em análises de inteligência e rastreamentos sistemáticos para combater o tráfico ilegal em média e grande escala. A dimensão da violência armada no nosso país faz com que estas atividades tenham um peso estratégico cuja prioridade ainda não foi reconhecida pelo governo federal e por muitos governos estaduais.

Reportagem produzida pelo Instituto Sou da Paz. 
Fonte: Justificando

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terça-feira, 22 de janeiro de 2019

Do Justificando: Análise do governo Bolsonaro sobre Estatuto do Desarmamento é “rasa”, afirma especialista


 "Sobre isso, o Instituto Sou da Paz, que lançou uma nota contra o decreto presidencial, o desejo majoritário da população é por “investimento sério e estratégico em segurança pública”. No entanto, para a organização, o governo se esquiva dessa responsabilidade “ao fomentar a ilusão de que cidadãos armados estariam protegidos, sendo que o uso da arma para defesa pessoal presume que ela esteja em alcance imediato e que o cidadão tenha um grau de treinamento irreal no cotidiano”. "

Do Justificando:

Análise do governo Bolsonaro sobre Estatuto do Desarmamento é “rasa”, afirma especialista

Imagem: Alan Santos/PR
O ministro Sergio Moro afirmou que se a política anterior “fosse tão exitosa teria se esperado que o Brasil não batesse ano após ano o recorde em número de homicídios”
Por Caroline Oliveira
O Ministro da Justiça e Segurança Pública Sergio Moro afirmou na última terça-feira, 15 de janeiro, que o Estatuto do Desarmamento, promulgado em 2003, “não resultou numa diminuição significativa do número de homicídios no Brasil”, em entrevista à GloboNews. Ao contrário, “se [a política anterior] fosse tão exitosa teria se esperado que o Brasil não batesse ano após ano o recorde em número de homicídios”.
De acordo com o Atlas da Violência de 2018, produzido pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP) e o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), em 2016, o Brasil ultrapassou pela primeira vez 60 mil homicídios em um ano. Na última década, 553 mil pessoas morreram devido à violência intencional no Brasil. Nos estados do Norte e Nordeste, as taxas de homicídios por 100 habitantes são as maiores do País: Sergipe (64,7), Alagoas (54,2), Rio Grande do Norte (53,4), Pará (50,8), Amapá (48,7), Pernambuco (47,3) e Bahia (46,9).
Inicialmente, o decreto assinado por Bolsonaro, que alterou o Estatuto do Desarmamento e flexibilizou a posse de armas, seria aplicado somente aos municípios com maiores taxas de violência. No entanto, estendeu-se a todos os municípios. Segundo o ministro, essa foi uma “decisão natural”. Para ele, houve “a compreensão que existe uma parcela da população que manifesta seu desejo de ter a posse de uma arma em sua residência. Com isso essas pessoas têm uma sensação de segurança maior e por outro lado essa arma pode funcionar como mecanismo de defesa”. Contudo, um estudo publicado pelo Instituto Datafolha, no dia 31 de dezembro de 2018, mostrou que 61% da população brasileira é contra facilitar o acesso a armas de fogo
Sobre isso, o Instituto Sou da Paz, que lançou uma nota contra o decreto presidencial, o desejo majoritário da população é por “investimento sério e estratégico em segurança pública”. No entanto, para a organização, o governo se esquiva dessa responsabilidade “ao fomentar a ilusão de que cidadãos armados estariam protegidos, sendo que o uso da arma para defesa pessoal presume que ela esteja em alcance imediato e que o cidadão tenha um grau de treinamento irreal no cotidiano”.
Para Bruno Langeani, gerente de Sistemas de Justiça e Segurança Pública do instituto, a declaração do ministro “é um pouco rasa de análise” no tocante ao Estatuto do Desarmamento, posto que a legislação abrange medidas que não foram implementadas pelo governo federal, como a integração entre o banco de dados do Exército e da Polícia Federal.
“São pontos que influenciaram no resultado da política. Mas, mesmo com essas lacunas, o estatuto gerou um resultado”, afirma. Nos últimos 20 anos, a única redução nas taxas de homicídio se deu em 2004 e 2005, logo após a promulgação da legislação. Outro ponto é a faixa de crescimento da taxa: antes do desarmamento, os números cresciam cerca de 7% ao ano; depois, 0,3%. Na época, houve um esforço dos órgãos públicos para retirar as armas de circulação. Contudo, “não dá para colocar toda a esperança ou culpa em uma única medida, pois controlar homicídio demanda trabalho da polícia, esclarecimento de crime, estratégia de prevenção e afins. E mesmo com vários pontos não sendo implementados, teve um efeito positivo, pelo mesmo se não de trazer uma diminuição definitiva, frear o crescimento das mortes no Brasil.
Segundo Langeani, o estado de São Paulo conseguiu reduzir a taxa de homicídios e a quantidade de armas em circulação graças a determinações tomadas realizadas no âmbito da segurança pública. Algumas dessas medidas são a criação de um sistema para georreferenciar crimes e facilitar a estratégia das polícias e o investimento na especialização de crimes de homicídios a partir da formulação do Departamento Estadual de Homicídios e de Proteção à Pessoa (DHPP), de 2011. No estado paulista, no período anterior ao estatuto, apreendia-se 40 mil armas de fogo por ano. Depois da legislação e com as medidas de segurança pública tomadas pelo estado, passou-se a apreender 15 mil.
Empossado, o ministro Sergio Moro prometeu combater o crime organizado, corrupção e crimes violentos. Mas, “como primeira medida, decidiu ampliar a arma em circulação, que é justamente um obstáculo para diminuir o crime violento”. Isso “passa uma mensagem muito errada do ministro”.
Para mais, o decreto presidencial “beneficia fortemente a indústria de armas. Tanto é que antes mesmo da decisão, houve um crescimento expressivo, por exemplo, das ações da Taurus”, o maior fabricante de brasileiro de armas de fogo. “Não houve um financiamento de empresa privada para a última campanha eleitoral. Mas na eleição anterior houve uma série de parlamentares que receberam recursos da Taurus e CBC, que claramente fazem um lobby grande para facilitação da compra e posse, porque para elas é mercado, independente do resultado disso na segurança pública.”
Outro ponto problemático do decreto, segundo Langeani, é a questão do prazo para a renovação da licença para ter a posse de armas de fogo. Na legislação anterior, o período era de cinco anos. Agora passou para 10. Para o especialista, a mudança é “preocupante, porque muita coisa pode acontecer durante esse tempo: o cidadão pode ter cometido um crime ou desencadeado alguma questão psicológica ou física impeditiva. Se para a renovação da carteira de motorista, exige-se um intervalo de cinco anos, porque para possuir arma de fogo deve ser diferente?”
Sobre as consequências de ter uma arma de fogo em casa, Langeani afirma aumentam que os riscos de suicídio, homicídio, feminicídio e infanticídio. Além disso, “muito provavelmente, aumentará os episódios de tiroteios dentro de pizzarias, padarias e afins, porque mais gente comprará armas para deixar em seus estabelecimentos comerciais. E aí, qualquer um pode virar uma vítima”. Outro ponto é que os maiores momentos de compras de armas também são os de maiores desvios das mesmas para o crime.
O custo mais baixo para possuir licença de uso e arma é de quatro mil reais. O número de armas que o decreto permite é de quatro por pessoa. “É algo que beneficia a classe média e alta. A maioria da população não tem dinheiro para comprar arma e muitas vezes nem casa para morar. Quem não vai ter dinheiro para comprar são as pessoas da periferia e quem vai ver a violência explodir de forma mais acentuada também vai ser o pessoal da periferia”. Por fim, “se a prioridade anunciada pelo ministro é reduzir crime violento, a gente precisa de outras políticas e não facilitar a compra de armas”, afirma Langeani.

quarta-feira, 16 de janeiro de 2019

Decreto de Bolsonaro é uma "gambiarra jurídica" que vai aumentar mortes por "conflitos pessoais"




Jornal GGN - O governador do Maranhão Flávio Dino (PCdoB) disse que o decreto de Jair Bolsonaro que flexibiliza a posse de armas em até 4 unidades por requerente é uma "gambiarra jurídica". Segundo o mandatário, a medida afrontou o Estatuto do Desarmamento e apenas o Congresso teria competência para rever o status da lei. Dino ainda batizou a ação de Bolsonaro de "decreto faroeste" e criticou outros equívocos que encontrou no texto.
Já o deputado federal Chico Alencar (PSOL) disse que o decreto de Bolsonaro vai, ao contrário do que acredita o presidente, aumentar o número de feminicídio e de mortes por conflitos de ordem pessoal. 
"O decreto publicado pelo governo Bolsonaro vai contribuir para o aumento de acidentes envolvendo crianças e adolescentes, feminicídios (cujos índices vêm crescendo a passos largos nos últimos anos), homicídios por motivos fúteis e por conflitos interpessoais e familiares variados. Não dá pra achar isso normal. Vamos recorrer!"
O PT e o PSOL anunciaram que vão apresentar no Supremo Tribunal Federal um recurso contra o decreto de Bolsonaro. O PSOL, em paralelo, pretende apresentar, no primeiro dia da nova Legislatura (1º de fevereiro), um Projeto de Decreto Legislativo para sustar a medida.
Leia, abaixo, a mensagem do governador Flávio Dino.
Sobre o decreto faroeste, que estimula armas de fogo no país, além do equívoco de mérito, sublinho dois aspectos. Primeiro, o decreto, na prática, esvazia o Estatuto do Desarmamento que, sendo lei, tem maior hierarquia normativa. Estranho.
Em segundo lugar, na hora de “copiar/colar” entre varias versões, algumas coisas ficaram esquisitas. Por exemplo, presume-se que todos os habitantes do país tem “efetiva necessidade” de arma, mas estes podem ser responsabilizados por declaração falsa. Bem esquisito formalmente.
Ademais, acho que o decreto faroeste revela uma desconfiança quanto ao Congresso Nacional, instância própria para rever o Estatuto do Desarmamento, que é uma lei. Aí algum gênio resolveu fazer essa gambiarra jurídica. Tenho impressão de que erraram o tiro.

quarta-feira, 2 de janeiro de 2019

O poder e a indústria da morte: ações da Taurus disparam, no primeiro dia de governo de Bolsonaro. Por Joaquim de Carvalho, no DCM




Um retrato do governo de Jair Bolsonaro foi pintado neste primeiro dia útil de 2019.
As ações da Forjas Taurus, maior fabricante de armas no Brasil, disparou no pregão.
Até o horário do almoço, valiam 30% mais do que na última sexta-feira.
Nesse período, duas informações fizeram a alegria dos investidores.
A coluna Painel, da Folha, vazou a informação de que Sergio Moro prepararia medida para tornar mais fácil a posse de armas, e Jair Bolsonaro foi ao Twitter para anunciar que esta seria uma das primeiras medidas do seu governo.
A Taurus já tinha se valorizado muito em 2018 — foi a empresa com papéis negociados na Bovespa que mais subiram (180%).
Sem entrar no terreno da suspeita de que pode estar havendo manipulação desonesta do mercado, o fato é que os investidores já perceberam para onde os ventos soprarão no governo do capitão.
Arma é um negócio poderoso no mundo todo, e políticos de direita são especialmente (ou exclusivamente) apoiados por eles.
Facilitar o posse de armas é uma bandeira que une Bolsonaro e Donald Trump, por exemplo.
Nos Estados Unidos, em um dos mais recentes massacres ocasionados por pessoas com acesso fácil à arma, Trump chegou ao absurdo de dizer que os professores deveriam ser armados, para reagir a investidas desse tipo.
Sobre regras mais rígidas para compra e porte de armas, ele se manifestou contra.
Na sua campanha a presidente, Trump recebeu 30 milhões de dólares da National Rifle Association (NRA), a poderosa entidade de lobby que conseguiu, no governo atual, revogar uma lei que proibia pessoas com problemas mentais de comprarem armas.
Uma das patrocinadoras da NRA é a Taurus, que tem uma fábrica nos Estados Unidos.
Lá, quem compra uma arma da empresa ganha um ano de filiação grátis da associação.
Oficialmente, Bolsonaro não recebeu doação eleitoral Taurus (e de nenhuma outra empresa), já que o financiamento empresarial de campanhas eleitorais é proibido.
Mas há uma ligação do presidente brasileiro com setores que fazem parte do que se chama, na política, bancada da bala, esta financiada pelos fabricantes de armas, quando as doações de empresas eram permitidas.
O atual chefe da Casa Civil, Onyx Lorenzoni, por exemplo, recebeu, oficialmente, 50 mil reais para sua campanha a deputado em 2014.
Em novembro de 2017, quando Bolsonaro já viajava pelo Brasil em pré-campanha, o repórter Eduardo Reina fez um levantamento sobre quem estava bancando esses deslocamentos.
A reportagem, publicada no DCM, informou que, de 33 viagens do pré-candidato, dezesseis tinham sido patrocinadas por empresas ligadas a fabricantes de armas.
Uma das empresas que bancou  as viagens do parlamentar foi a Taurus, ainda em 2017.
Desde abril daquele ano, há um vídeo que circula pela internet em que Bolsonaro aparece como garoto propaganda da empresa.
O então deputado segura um arma e diz, se dirigindo à câmera:
“A Taurus tá lançando aqui um fuzil…”.
O representante da empresa completa:”…o nosso T4”.
E Bolsonaro, sorridente, reforça: ”…o nosso T4”.
O agora presidente pega da mesa uma pistola e afirma:
“É o que eu sempre digo, se eu chegar lá, você, cidadão de bem, no primeiro momento, vai ter isso em casa. E você, produtor rural, no que depender de mim, vai ter isso aqui também (ergue o fuzil)… cartão de visita pra invasor tem que ser cartucho 762”.
No arremate, informa:”Porque mais importante que a tua vida é a sua liberdade. Povo armado jamais será escravizado. Parabéns à Taurus”.
No Brasil, quando o faroeste começar a produzir vítimas, como nos Estados Unidos, ele poderá dizer que, já em 2017, tinha avisado que, mais importante que a vida, é a liberdade para comprar armas.
Os eleitores de Bolsonaro jamais poderão dizer que foram enganados.
Ele só está cumprindo o que prometeu.
E os acionistas da Taurus, ganhando dinheiro.
.x.x.x.
Veja o vídeo:
00:00/00:40Diário do Centro do Mundo
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terça-feira, 25 de dezembro de 2018

Divulgada tão insistentemente pelo armanetista Bolsonaro, Taurus tem bens bloqueados por fraude internacional de R$ 600 mi


  "O Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro bloqueou as ações ordinárias da Companhia Brasileira de Cartuchos (CBC Global), um dos maiores fabricantes de munição do mundo e controladora da empresa Taurus, de armas".



Do Blog da Cidadania:

O Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro bloqueou as ações ordinárias da Companhia Brasileira de Cartuchos (CBC Global), um dos maiores fabricantes de munição do mundo e controladora da empresa Taurus, de armas.
A decisão foi tomada na sexta-feira (14) pelo desembargador Eduardo Alves de Brito, que considerou haver indícios de que a CBC faz parte de um esquema fraudulento com o objetivo ocultar o patrimônio de um empresário falido.
Dez anos atrás, houve a falência da empresa SAM Indústrias, que deixou dívidas ainda hoje não pagas que totalizariam cerca de R$ 607,9 milhões segundo a administradora judicial (em valores corrigidos e acrescidos de juros).
Segundo a Justiça, há sinais de que o empresário Daniel Birmann, proprietário da falida SAM Indústrias, teria criado uma longa rede de empresas, muitas das quais em paraísos fiscais, a fim de esconder seus ativos, todos alcançados pelo decreto de falência.
Na época da falência, Birmann teria o controle de 98% das ações ordinárias da fabricante de munições, mas, com o esquema, teria conseguido se manter invisível aos olhos das autoridades brasileiras.
“Até aqui, a falência da SAM Indústrias vem seguindo o roteiro dos clássicos do direito empresarial brasileiro”, disse o desembargador. “Falidos ricos e, por vezes, mais ricos do que antes da falência.”
O bloqueio das ações foi feito com base em uma ampla investigação internacional realizada pelo escritório Duarte e Forssel Sociedade de Advogados, especializado em identificação e recuperação de ativos em decorrência de fraudes transnacionais.
O escritório foi contratado pela administradora judicial da massa falida da SAM, a Carlos Magno, Nery & Medeiros advocacia empresarial.
“As pessoas jurídicas mencionadas consistiam em meros veículos interpostos por Birmann com o intuito de esconder do público que era ele o beneficiário final da companhia”, afirma a administradora judicial no pedido de bloqueio das ações feito à Justiça.
À Justiça a CBC Global afirmou que o organograma apresentado pela administradora judicial seria “fantasioso”, que não foram apresentadas provas e que Daniel Birmann não é seu sócio oculto.
Bernardo Simões Birmann, filho do empresário e um dos acionistas da empresa de munição, também disse na sua defesa à Justiça que não cometeu nenhum ato fraudulento para proteger seu pai. Afirma que adquiriu as ações com recursos próprios.
O desembargador concedeu à CBC Global prazo de dez dias para mostrar uma série de documentos, entre os quais cópia do seu livro de registros de sócios, sob pena de a empresa ser considerada como “instrumento de fraude”.
O TJ não atendeu ao pedido da administradora judicial de declarar nula todas as transferências de ações ordinárias da CBC desde fevereiro de 2008, quando houve a falência da SAM Indústrias, para dar oportunidade à empresa de se defender.
Procurada pela Folha, a assessoria de imprensa da CBC afirmou que a empresa não é parte no processo e que prossegue normalmente em suas atividades perante clientes, funcionários e fornecedores.
André Dinis, advogado de Birmann, diz que o empresário não é proprietário da CBC, mas consultor e executivo nos empreendimentos de sua família desde os anos 1970.
Afirma também que não houve uma operação para tentar ocultar patrimônio. “A falência foi motivada por condições adversas do mercado de metais e na SAM Indústrias”, diz o advogado.
Segundo a defesa, Birmann, na qualidade de acionista, conseguiu quitar a grande maioria dos créditos de fornecedores e instituições financeiras, restando somente a dívida de um debenturista, três reclamações trabalhistas e créditos fiscais, “que ainda terão de ser analisados”.
“Causa estranheza a busca desenfreada de ativos, que ora se promove, invadindo sumariamente o patrimônio de terceiros estranhos à falência, quando nem mesmo foram arrecadados e avaliados todos os ativos dos falidos”, afirma Dinis.
Criada em 1926 por dois imigrantes italianos que desejavam fabricar suas próprias munições de caça e tiro em vez de importá-las, a CBC surgiu no Brás, em São Paulo.
Em 2015, assumiu o controle acionário da Taurus. Aos 92 anos, é um dos maiores fornecedores de munições de pequeno calibre para as forças da Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte).
Da FSP