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sexta-feira, 12 de abril de 2019

Pós intervenção militar: 80 tiros no Rio ocorrem em cenário indefinido e sem respostas. Artigo de Patrícia Faermann


Sem orientações ou determinações do governo federal e estadual, Exército permanece no Rio. E, enquanto isso, Jair Bolsonaro, Wilson Witzel e ministros colocam a responsabilidade de respostas nos próprios militares



Foto: Tomaz Silva/ABr
Jornal GGN A Segurança do Rio de Janeiro está em um limbo jurídico. Enquanto o presidente eleito Jair Bolsonaro decidiu não prorrogar a intervenção federal no estado e tampouco foi determinada uma nova operação de GLO (Garantia de Lei e da Ordem), os integrantes do Exército permaneceram no patrulhamento do Rio, protagonizando o episódio recente do fuzilamento de um carro de inocentes, com 80 tiros, neste domingo (07), em Guadalupe.
Apesar da presença dos militares, a intervenção federal na Segurança Pública do Rio foi concluída em dezembro do ano passado. A decisão foi tomada pelo recém eleito presidente, Jair Bolsonaro (PSL), por uma estratégia política: sabia que a continuidade da intervenção prejudicaria seus planos de aprovação de medidas no Congresso.
Mas a estratégia política do governo federal deixou o Estado sem orientações claras do que iria ocorrer. Porque também em dezembro, Bolsonaro disse que a Garantia da Lei e da Ordem (GLO) no estado – a outra opção para que fosse mantida a presença das Forças Armadas – poderia seguir. Para isso, contudo, seria necessária uma nova aprovação parlamentar. Preocupados com a reforma da Previdência e outros temas diversos, o assunto nem tramitou no Congresso.
“Com a subida ao poder, a ascendência de Jair bolsonaro isso está em um limbo, porque a intervenção teve uma data para acabar, que foi no ano passado”, alertou o vice-presidente do Instituto Brasileiro de Ciências Criminais (IBCCRIM), Bruno Shimizu, ao GGN.
“Hoje em dia não se sabe exatamente quem é o responsável pela Segurança Pública do Rio de Janeiro, na medida em que você tem uma intervenção com prazo de validade vencido que não vem sendo acompanhado pelo Governo Federal e ao mesmo tempo não houve a restituição das forças locais, as estaduais de segurança”, continuou.
E, ao mesmo tempo que as orientações não são claras para os integrantes das Forças Armadas que continuam atuando na segurança do Rio de Janeiro, o limbo se propaga para a falta de respostas do governo federal e estadual, que se silenciam diante da responsabilização sobre o homicídio e remetem a incumbência aos próprios militares, seja o Comando Militar do Leste (CML), seja a Justiça Militar.
“O que se tem no Rio é a continuidade de um caos na Segurança Pública que não é recente, é histórico. Mesmo do ponto de vista jurídico há este limbo, no sentido em que não se sabe quem é o responsável pela segurança. A atuação do Exército na intervenção federal a curto prazo já esgotou, mas eles continuam atuando da mesma maneira, por falta de orientações diversas. Então é isso que leva o fato de as Forças Armadas terem atuado nessa violência, chegando ao absurdo do assassinato, do fuzilamento de um cidadão na via pública, algo inédito na história recente no nosso país por forças de segurança”, continuou Shimizu.
Nesta quarta-feira (10), o próprio ministro da Defesa, Fernando Azevedo Silva, indicou a falta de claridade sobre a situação atual, confirmando que a intervenção foi encerrada, mas que agora ela permanece como uma espécie de legado, espelho para o “Plano Estratégico”, ainda que nada tenha sido votado a nível Legislativo ou decretado pelo Executivo. “Será o Plano Estratégico de Segurança Pública para o Rio de Janeiro. Ele estruturará a segurança no estado, em especial a inteligência, que já tem inclusive ajudado as investigações”, disse o ministro.
Mas ao justificar o Exército no caso do fuzilamento, o ministro isolou a responsabilidade nos membros das Forças Armadas, de que se tratou de um caso em que os militares “não seguiram as normas em vigor” e que “é um fato dentro de um contexto de várias operações de Garantia da Lei e da Ordem e de paz”. Mas a GLO tampouco está vigente no estado.
Nesse cenário de incertezas, as declarações tanto a nível federal como do governo estadual remetem aos próprios militares para que eles solucionem o problema. A “tragédia” e “incidente”, como um ponto isolado e fortuito, esteve presente nas declarações de todas as autoridades.
“Foi um incidente bastante trágico. O que eu vi, porém, é que, de imediato, o Exército começou a apurar esses fatos e tomar as providências que foram cabíveis. Afastou lá parte dos envolvidos. Submeteu eles a prisão. E tem que apurar, né…”, disse o ministro da Justiça, Sérgio Moro, afastando a própria competência da pasta no caso, durante o programa “Conversa com Bial”, da Globo, três dias depois dos acontecimentos.
O governador do Rio, Wilson Witzel (PSC), foi além no afastamento da competência: “Não sou juiz da causa. Não estava no local. Não era a Polícia Militar. Quem tem que avaliar todos esses fatos é a administração militar. Não me cabe fazer juízo de valor e nem muito menos tecer qualquer crítica a respeito dos fatos. É preciso que a auditoria militar e a Justiça Militar e o Exército faça as devidas investigações”, disse.
E passados quatro dias desde o fuzilamento, o presidente Jair Bolsonaro permanece em silêncio. Indiretamente, uma posição foi emitida pelo porta-voz da Presidência, Otávio Rêgo Barros, dizendo que Bolsonaro “confia na Justiça Militar”. “O presidente falou: apure o que tem que ser apurado”, foi a declaração oficial dada, por meio do ministro da Defesa, três depois do homicídio.
Cabendo às próprias Forças Armadas dar estas respostas, o Comando Militar do Leste já cometeu contradições e passou as informações que julgava necessárias em defesa do Exército. O primeiro comunicado, na mesma tarde de domingo (07), foi uma explicação de que os militares tinham reagido à “injusta agressão” de um veículo, após um assalto nas imediações.
Foram necessárias mobilizações para que o CML mudasse o tom e emitisse outro comunicado, no dia seguinte, de que repudiava “veementemente” excessos ou abusos cometidos. E somente após ver “inconsistências” entre a versão dada pelos militares e os relatos na imprensa é que o Exército decidiu prender 10 dos 12 militares envolvidos. Não se sabe o andamento da apuração.
O vice-presidente do IBCCRIM e doutor em Direito Penal e Criminologia pela Universidade de São Paulo analisa com receio o tom adotado nessa investigação. “Preocupa muito que o CML e as autoridades superiores haviam publicizado a primeira versão dos fatos a partir de uma sustentação de que seria legítima defesa. ‘Legítima defesa’ com 80 tiros! Só depois com o trabalho da imprensa, da própria sociedade civil, é que houve esse recuo.”
“Se fosse um criminoso [morto pelos militares], seria homicídio da mesma maneira. A Constituição Federal não faz nenhuma diferença entre matar alguém que cometeu um crime e matar quem não cometeu, é um homicídio. Nesse caso chama a atenção porque era uma família, não tinha arma, mas não há carta branca para se matar, mesmo alguém que se acredita não ser um ‘cidadão de bem'”, lamentou Shimizu.

sábado, 24 de fevereiro de 2018

Do Le Monde Diplomatique: Intervenção no Rio e Venezuela: as estratégias para uma unidade forjada


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Foto: Folha de São Paulo

Um exemplo do retorno da Pedagogia da Opressão

As classes dirigentes vão novamente mobilizar as massas a se unirem contra um mal maior para, assim, controlar a indignação popular. Como o desejo de “pureza” que tocou a população alemã nos pródomos da Segunda Guerra Mundial, estamos mais uma vez submersos em uma situação que nos impele (de forma manipulada) a negar a liberdade em prol da segurança

Por Raphael Silva Fagundes, no Le Monde Diplomatique Brasil



“A maioria dos especialistas deu pouca atenção para os efeitos homogeneizantes da guerra”,[1] escreve a bióloga Barbara Ehrenreich, em sua obra que pretende encontrar as origens da guerra. Não há um instinto agressivo que legitime a guerra, segundo a autora, mas uma questão cultural, especificamente masculina, que se desenvolveu ao longo da história.

A guerra acontece quando a política não deu mais certo? Talvez. Mas se a guerra for uma estratégia da própria política? Discordaríamos de Hannah Arendt, mas chegaríamos muito mais próximo da realidade brasileira.

Primeiro, temos que observar a importância da unidade para a política de qualquer nação. O ideal de unidade deve ser entendido como uma mitologia política agenciada por determinados grupos que buscam impor sua dominação. Desse modo, a concebemos como uma estratégia política de construção de um “mito” que desempenha um “papel de mobilização”, conforme os apontamentos de Raoul Girardet:

O mito político é fabulação, deformação ou interpretação objetivamente recusável do real. Mas, narrativa legendária, é verdade que ele exerce também uma função explicativa, fornecendo certo número de chaves para a compreensão do presente, constituindo uma criptografia através da qual pode parecer ordenar-se o caos desconcertante dos fatos e dos acontecimentos.[2]

Girardet assinala que um dos principais fenômenos que marca a história política ideológica é a oposição entre a autonomia individual com o sonho de uma sociedade homogênea. “Na unidade está a vida, fora da unidade a morte é certa”, declamava Jacques Bossuet, bispo e teólogo conhecido por ser um grande teórico do absolutismo francês. Aproximadamente duzentos anos depois, o político e historiador Michelet, um grande agente no combate ao comunismo e ao anarquismo, afirmava: “Sem unidade perecemos”.[3] O interesse de que o geral prevalecesse sobre o particular era o principal aspecto da política entre os séculos XVII e o XIX. Entretanto, os componentes retóricos para a divulgação e consolidação desse ideal sofreram alterações importantes.

A questão divina e civilizacional da unidade permaneceu como topos no discurso político. Na França, Raoul Girardet salienta que os ideólogos se aproveitaram dos “termos do velho vocabulário cristão, dos símbolos da antiga liturgia, das palavras dogma, santidade, redenção, relíquia ou sacrifício”.[4]Michelet, por exemplo, apreende o sagrado no nacional: “santa unidade fraternal da nação”, dizia.

É evidente que a ideia de se privilegiar o geral em detrimento do individual se espatifou com a pós-modernidade, assim como a sacralidade da identidade nacional, no entanto, ainda há uma questão que mobiliza as pessoas em prol da unidade: o sentimento de insegurança.

Dessa maneira, defendemos a hipótese de que a intervenção federal no Rio de Janeiro, carregando a bandeira da guerra contra o tráfico e a criminalidade em geral, funciona como uma estratégia para unir a população que visivelmente vem se fragmentando desde o golpe. 83% das pessoas apoiam a intervenção civil-militar. O governo encontrou uma forma de integrar a população de modo a desviar a indignação popular que se agigantava em relação ao “pacote de maldades” adotado pelo governo.

Outro elemento irá reforçar essa unidade: a luta contra a Venezuela. Uma estratégia, por seu turno, muito mais tradicional. Em relação, especificamente, à história do Brasil, foi a Guerra do Paraguai que mobilizou voluntários de várias partes do Império, forjando, definitivamente, o sentimento nacional.[5]Foi a primeira vez que as diversas regiões do país se encontraram, ou melhor, fundiram-se.

Hoje, como naqueles sangrentos anos, a mídia faz o seu papel. Os veículos de comunicação nacionais, ligados às grandes corporações midiáticas internacionais, chamam os venezuelanos que migram para o Brasil de “refugiados”. Além disso, a similaridade com a Guerra do Paraguai não é apenas para uma questão explicativa. Argentina, Colômbia e Brasil têm tudo para adotarem o perfil de uma nova Tríplice Aliança, agora em prol do neoliberalismo, para combater o governo de Maduro. As veias da América Latina continuam abertas e expostas às sanguessugas famintas pelas riquezas da região.

As classes dirigentes vão novamente mobilizar as massas a se unirem contra um mal maior para, assim, controlar a indignação popular. Como o desejo de “pureza” que tocou a população alemã nos pródomos da Segunda Guerra Mundial, estamos mais uma vez submersos em uma situação que nos impele (de forma manipulada) a negar a liberdade em prol da segurança.

A situação se altera drasticamente, todavia, quando organização significa o desmantelamento da ordem existente e sua substituição por um novo modelo de pureza. Agora, manter a pureza não pode reduzir-se à manutenção da rotina diária; pior ainda, a própria rotina tem a terrível tendência a se converter em “sujeira”, que precisa ser esmagada em nome da nova pureza.[6]

Ou seja, muitos já condenam a liberdade, alguns até acreditam que existe liberdade demais, e que já está virando bagunça. Uma parte da sujeira interna é a corrupção, que muitos, principalmente os defensores do juiz Sérgio Moro, acreditam que está sendo combatida. A outra parte da sujeira é a criminalidade, vista como causa de tudo, jamais como consequência. A sujeira externa, por sua vez, é a Venezuela que, por adotar um projeto anti-imperialista, vem sendo depreciada pela mídia. A situação está perfeita para o governo conseguir respirar ao longo do ano de 2018 e quem sabe prolongar sua política entreguista por mais quatro anos.

Cabe lembrar que tudo isso é acompanhado de uma retórica inebriante. “A retórica é a negociação da distância entre os homens a propósito de uma questão, de um problema”.[7] O filósofo Michel Meyer destaca que “tudo o que opõe ou reúne os homens, ainda que apenas por um momento, participa desta distância que é o objeto último da retórica”.[8] A retórica negocia a distância e promove a unidade. É função da retórica unir pessoas, por isso a mídia e o governo não deixariam de investir nas fascinantes estratégias persuasivas paralelamente ao ataque a democracia.

*Raphael Silva Fagundes é doutorando do Programa de Pós-Graduação em História Política da Uerj e professor da rede municipal do Rio de Janeiro e de Itaguaí.
[1] EHRENREICH, Barbara. Ritos de sangue: um estudo sobre as origens da guerra. Rio de Janeiro: Record, 2000, p.141.
[2] GIRARDET, Raoul. Mitos e mitologias políticas. Trad: Maria Lpucia Machado. São Paulo: Cia das Letras, 1997, p.13.
[3] Ibidem. p.144.
[4] GIRARDET, 1997, p.165.
[5] IZECKSOHN, Vitor. A Guerra do Paraguai. In: KEILA, Grinberg, SALLES, Ricardo (org.). O Brasil imperial. 1831-1870. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2009, p.53-119. v.2.
[6] BAUMAN, Zygmunt. O mal-estar da pós-modernidade. Rio de Janeiro: Zahar, 1998, p.20.
[7] MEYER, Michel. Questões de retórica: linguagem, razão e seduçãoTrad: António Hall. Lisboa: Edições 70, 2007, p.27.
[8] Ibidem, p.31.



segunda-feira, 19 de fevereiro de 2018

Em nome das elites, uma aventura temerária...



Ao envolver Exército numa intervenção esdrúxula, presidente quer embaralhar debate eleitoral e converter Segurança no grande tema. Militares aceitarão de bom grado associar-se a governo corrupto, entreguista e impopular?


Uma aventura temerária


Por Lúcio Flávio Rodrigues de Almeida
É altamente provável que os acontecimentos de ontem para hoje contribuam para superar um debate entre as forças populares e democráticas, inclusive entre os que se proclamam mais à esquerda: desde o processo de deposição da presidenta Dilma Rousseff, está em curso um golpe de Estado. E, apesar de suas inegáveis vitórias imediatas, os golpistas, até porque envolvidos em disputas nas quais se denunciam reciprocamente por práticas muito pouco republicanas, se desmoralizam cada vez mais.
Daí a extrema dificuldade para encontrarem uma candidatura capaz de se sagrar vitoriosa contra seu principal adversário: o ex-presidente Lula. Gostando ou não deste, impõe-se reconhecer que, desde o início do golpe, foi o único político brasileiro que cresceu considerável e consistentemente, apesar da implacável perseguição que sofreu. A quantas anda o Aécio? E o Cunha? Quem diria que o inferno astral do Crivella começaria tão cedo? Por melhores que tenham sido as relações de Lula com as principais forças que implementaram e/ou se beneficiaram com seus dois mandatos, ele se tornou um grande obstáculo à consolidação eleitoral do golpe. Bloquear sua candidatura é estratégico para as forças golpistas, a menos que estas consigam força e unidade para promover rápida mudança de regime ou forma de governo. Daí a condenação em segunda instância e velocidade máxima por três prodígios em leitura dinâmica, em um processo que gerou um misto de indignação e chacota, mesmo entre os jornais conservadores de outros países, a começar pelos EUA, tão elogiados pelos que apoiaram o golpe.
O problema é que, desde o início, as forças golpistas são heterogêneas e contraditórias. No dia seguinte à condenação, um festival de denúncias expôs os estreitos vínculos de heróis do judiciário com vantagens de escassa legitimidade que, aos olhos cada vez mais atentos de amplos contingentes das classes populares, apequenavam as acusações (jamais provada) que levaram à condenação (e possível prisão) do líder petista.
É muito difícil nos recordarmos de um governo tão envolvido em ostensivos expedientes de corrupção como o atual, que, para se manter, recorre a explícitas manobras que podem ser sintetizadas como mais das mesmas. Daí as piruetas inglórias dos grandes meios de comunicação brasileiros, os porta-vozes do golpe: denunciar as ladroeiras e, ao mesmo tempo, ungirem estes larápios com a nobre missão de adotarem políticas profundamente antidemocráticas, antipopulares e antinacionais, mas apresentadas como condições indispensáveis à salvação do país. Assim como ocorreu em relação ao apoio que deram à ditadura militar, mais tarde os grupos Folha e Globo farão autocrítica.
Neste processo, a impopularidade dos políticos profissionais, a começar pela do atual chefe do Executivo, despencou, o que dificulta a escolha de uma candidatura viável. Não por acaso, setores da grande finança se encantam com o Bolsonaro.
Até agora, as Forças Armadas mantiveram, via de regra, atuação discreta. Vincular-se a um governo cujos líderes recebem os codinomes de Caju, Angorá, Botafogo, Mineirinho e Todo Feio é muito difícil de convergir com qualquer coisa que passe por interesse estratégico nacional. Quando abandonaram esta posição, por exemplo, ao intervirem na Rocinha, o resultado só não foi mais desastroso porque ocorreu rápida mudança de rumo.
Em um país com cerca de doze milhões de desempregados, na iminência de voltar ao mapa da fome e com o nada casual incremento do número de bilionários (grande parte ligada à especulação), estrategistas pensam que basta aperfeiçoar (?) os mecanismos de repressão para assegurar a paz social?
Começou no Rio. Como termina?
O nosso lado é o da democracia. Mas “só” isto será difícil de empolgar o povo, pois os grandes meios de comunicação insistem o tempo todo na tecla da segurança, como se a maior parte da população brasileira, especialmente a de pele negra ou assemelhada, não vivesse sob permanente fogo cruzado. Não abrimos mão da luta pelo direito à vida digna, o que passa pelo acesso à moradia, ao ensino público de qualidade e pelo combate às retrogradas mudanças da legislação trabalhista e da previdência social. Como todos sabem, democracia não se resume a votar periodicamente, mas implica efetiva participação popular na vida política.
Resta saber o que e quem, mais uma vez e de modo muito mais grave, envolve as Forças Armadas nesta aventura que, por mais sucesso midiático que tenha no curto prazo, não resolverá problema algum (como ocorreu com a lava jato). As quais podem incorrer em um dilema atroz: ou fazem política de governo (deste governo!), no caso até eleitoral, ou fazem uma política de Estado que pode reforçar uma ordem ilegítima e aprofundar a mudança de regime. É lamentável que isto aconteça pari passu com a destruição da indústria de construção naval, a declarada intenção de desnacionalizar a Embraer e o esquartejamento da Petrobrás. Ou seja, políticas que favorecem empresas estrangeiras muito bem amparadas por seus respectivos Estados nacionais e, no Brasil, contribuem para aumentar o número de condenados da terra, sérios candidatos a vítimas de futuras operações de “segurança” que objetivamente contribuem para reproduzir o que se chama de “escravidão social”.
Sabemos como intervenções militares começam e como costumam terminar.
Cabe às forças democráticas, nacionais e populares manifestar nossa clara desaprovação.

Lucio Flavio Almeida

Departamento de Política da PUC-SP; Editor da revista Lutas Sociais

Chegou a guerra contra o povo... Se falhou a propaganda da mídia, agora vale a força....


"O grande pensador contemporâneo Noam Chomsky esclareceu que temos a ditadura, um governo de exceção, toda vez que o governo controla as pessoas pelos cassetetes ou quando manipula a consciência da população pela propaganda, pela criação de ilusões, e marginalizando o povo em geral, reduzindo-o a alguma forma de apatia."  - Pedro Augusto Pinho

A guerra chegou, por Pedro Augusto Pinho


Por Pedro Augusto Pinho

Foto El Pais

GGN. - O grande pensador contemporâneo Noam Chomsky esclareceu que temos a ditadura, um governo de exceção, toda vez que o governo controla as pessoas pelos cassetetes ou quando manipula a consciência da população pela propaganda, pela criação de ilusões, e marginalizando o povo em geral, reduzindo-o a alguma forma de apatia.
Vivemos neste século XXI sob a tirania da banca, designação que dou ao sistema financeiro internacional, um conjunto de meia centena de famílias que detém mais de um terço dos fluxos financeiros internacionais, administram um sistema de organismos, ocultos e públicos, de gestão particular e de Estados Nacionais, para pesquisa, para propaganda e diversas finalidades que interferem diretamente na vida de mais da metade da população mundial.
Os objetivos de apropriação de bens e dos recursos naturais já estão muito adiantados. Poderia dizer que neste ano de 2018 poucos recursos e bens, efetivamente relevantes, não estão sob controle ou nas vésperas de o ser pela banca. Também muitos Estados Nacionais. As importantes exceções são a Federação Russa – sistematicamente agredida por organismos e instituições controladas pela banca – os chamados países bolivarianos (Venezuela e Bolívia) e as Repúblicas Populares da China, da Coreia do Norte e as Repúblicas do Irã e da Síria.
Veja o caro leitor como são tratados estes países pela imprensa internacional e por todos aqueles que estão, de alguma maneira, dominados pela banca. Fica fácil, assim, determinar onde está a banca e onde ela não conseguiu penetrar.
O objetivo a ser perseguido pela banca – e não faltam balões de ensaio e as mais incríveis e estapafúrdias formulações – é a redução da população mundial. Somos quase 8 bilhões de pessoas, pressionando pelo demografia os recursos escassos que a banca reservou para si. A banca pretende que sejamos entre 400 a 800 milhões, com já nos informam várias fontes e analistas.
As duas formas de redução populacional convencionais estão em plena execução: a guerra e a fome. Os sofisticados métodos de criação de epidemias ainda não estão suficientemente maduros para serem implementados. A disfunção da Aids ainda está muito recente e gastou-se muito para a conter.
Não é por mero acaso que a comunidade muçulmana, que tem elevada taxa de fecundidade, tem sido a mais atingida pela guerras da banca. E se propagam pela Ásia, o continente mais populoso.
A banca lança agora, tendo se apossado do governo brasileiro, o quinto país mais populoso do mundo, vizinho do que detém a maior reserva de petróleo no planeta (Venezuela), seu projeto antipopulacional na América do Sul.
No projeto da banca, com a colaboração dos escravistas e rentistas do Brasil, este plano já começou com o estabelecimento discreto de forças militares estadunidenses na Amazônia.
Em março do último ano, o comandante do Exército Sul dos Estados Unidos, o major-general Clarence K.K Chinn, recebeu a medalha da Ordem do Mérito Militar. Na ocasião, visitou instalações do Comando Militar da Amazônia – uma demonstração clara de que a doutrina de defesa da Amazônia perdia força nas Forças Armadas brasileiras.
O local da operação não poderia ser mais explícito sobre suas reais intenções: a tríplice fronteira – Colômbia, Peru, Brasil. A Colômbia é, desde muitos anos, um país governado pelos interesses estadunidenses, hoje se confundindo com da banca, embora menos do que na Gestão Obama. O Peru se perfila entre os gerenciados pela banca, assim como o Brasil de Temer. E na mira desta trinca estão as reservas de petróleo venezuelanas.
Outra ponta deste plano é a criação do Ministério de Segurança Pública, já apelidado de MisSegura. Claro que não será para subir os morros cariocas nem invadir as periferias paulistana e paraense, as invasões baianas e favelas pernambucanas. O MisSegura será outro ministério armado, com controle das polícias estaduais, para enfrentar alguma reação do Exército à guerra civil da banca.
A recente intervenção militar no Rio de Janeiro tem, para este modesto escriba, alguns objetivos não explícitos. Primeiro, como já foi apresentado pela professora Jaqueline Muniz em entrevista, lançar descrédito sobre o Exército.
O trafico de droga é um dos domínios da banca e das três maiores fontes de receita internacional. No Brasil, ele é representado por figuras públicas e não pelo pé de chinelo favelado. 
O crime organizado de São Paulo atua em coabitação aparente com os governos tucanos, há mais de duas décadas no poder estadual. Como administrador vejo nesta expansão carioca, como já ocorrera no norte do País, uma racionalização gerencial do PCC – Primeiro Comando da Capital, paulista.
E, também, para as transferências de recursos públicos e ampliar a corrupção em favor dos interesses dos governantes e da banca.
Assim, matam-se vários coelhos com uma intervenção só. Organiza-se melhor o tráfico, aumenta-se o ganho da banca, desmoraliza-se a Força Armada e aumenta a ira popular. Esta vem sendo construída pela Globo e todas as emissoras associadas à banca desde 2013.
Com a farsa de venezuelanos "fugindo" para Roraima, o servil presidente, com elogio de um dos organismos internacionais pró-banca, foi lá fazer seu proselitismo, devidamente protegido do contato fotográfico com os "invasores".
Arma-se, assim, a guerra civil para reduzir a população sulamericana e dar mais conforto à banca.
Aos que vem nestas linhas a teoria conspiratória, eu contraporia: e as práticas conspiratórias? Pois não vão me convencer que o Brasil foi às ruas por centavos nos ônibus, em junho de 2013, e não vai agora pela sua aposentadoria. Também que a Líbia, o país africano com maior índice de desenvolvimento humano, com presidente aclamado pelo povo, às vésperas de dar um grande tombo na cotação do dólar estadunidense sofresse o ataque das grandes potencias coloniais europeias e dos Estados Unidos da América (EUA) para lá promover a democracia, ou o Iraque fosse invadido pelas suas armas químicas.
Acordemos antes que o sono seja eterno.
Pedro Augusto Pinho, avô, administrador aposentado