Mostrando postagens com marcador militares golpistas. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador militares golpistas. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 19 de setembro de 2024

PF aprofunda investigação da conexão do plano de tentativa de golpe fascistóide com ataques no 8/1. Reportagem de Juliana Dal Piva

 

Os investigadores querem evitar qualquer lacuna e também a possibilidade de que o MPF peça novas diligências após a conclusão do caso na PF.

Do iclnotícias.com.br:

PF aprofunda investigação da conexão do plano de tentativa de golpe com ataques no 8/1

Serão tomados novos depoimentos e também avaliou-se a necessidade de novas diligências e análises de dados

A Polícia Federal (PF) está trabalhando nos dados que vinculam fatos e provas entre a tentativa de golpe de estado após a derrota de Jair Bolsonaro (PL) na eleição de 2022 e os ataques aos prédios da Praça dos Três Poderes no dia 8 de janeiro. No entanto, a conclusão do caso foi adiada para outubro.

Os investigadores querem evitar qualquer lacuna e também a possibilidade de que o MPF peça novas diligências após a conclusão do caso na PF, como já ocorreu após os relatórios finais de inquérito do caso das joias e também da falsificação do cartão de vacinação.

A coluna apurou que serão tomados novos depoimentos e também avaliou-se a necessidade de novas diligências e análises de dados.

Existia expectativa de conclusão ainda em setembro, independente das eleições municipais. Mas o compartilhamento de provas após a evolução do caso da Abin (Agência Brasileira de Inteligência) também deu muitos elementos novos para a investigação sobre o golpe.

Juliana Dal Piva
Juliana Dal Piva

Formada pela UFSC com mestrado no CPDOC da FGV-Rio. Foi repórter especial do jornal O Globo e colunista do portal UOL. É apresentadora do podcast "A vida secreta do Jair" e autora do livro "O negócio do Jair: a história proibida do clã Bolsonaro", da editora Zahar, finalista do prêmio Jabuti de 2023.

terça-feira, 31 de janeiro de 2023

O futuro chegou depressa ao Brasil... Texto de Boaventura de Sousa Santos

     A democracia esteve por um fio e foi salva (por agora) devido a uma combinação contingente de fatores excepcionais: o talento de estadista do presidente, a atuação certa no momento certo de um ministro no lugar certo, Flávio Dino, logo secundado pelo apoio ativo do STF. As instituições especificamente encarregadas de defender a paz e a ordem pública estiveram ausentes, e algumas delas foram mesmo coniventes com a arruaça depredadora de bens públicos.

www.brasil247.com - O presidente Lula
O presidente Lula (Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil)

O Futuro chegou depressa ao Brasil

Boaventura de Sousa Santos

(Publicado no site A Terra é Redonda)

    Dificilmente se encontrará na política internacional um começo tão turbulento de um mandato democrático como o que caracterizou o do presidente Lula. A democracia esteve por um fio e foi salva (por agora) devido a uma combinação contingente de fatores excepcionais: o talento de estadista do presidente, a atuação certa no momento certo de um ministro no lugar certo, Flávio Dino, logo secundado pelo apoio ativo do STF. As instituições especificamente encarregadas de defender a paz e a ordem pública estiveram ausentes, e algumas delas foram mesmo coniventes com a arruaça depredadora de bens públicos.

    Quando uma democracia prevalece nestas condições dá simultaneamente uma afirmação de força e de fraqueza. Mostra que tem mais ânimo para sobreviver do que para florescer. A verdade é que, a prazo, só sobreviverá se florescer e para isso são necessárias políticas com lógicas diferentes, suscetíveis de criarem conflitos entre si. E tudo tem de ser feito sob pressão. Ou seja, o futuro chegou depressa e com pressa.

    O Brasil não volta a ser o que era antes de Jair Bolsonaro, pelo menos durante alguns anos. O Brasil tinha duas feridas históricas mal curadas: o colonialismo português e a ditadura. A ferida do colonialismo estava mal curada porque nem a questão da terra nem a do racismo antinegro, anti-indígena e anticigano (as duas heranças malditas) foram solucionadas. A última só com o primeiro governo de Lula começou a ser enfrentada (ações afirmativas, etc.).

    A ferida da ditadura estava mal curada devido ao pacto com os militares antidemocráticos na transição democrática de que resultou a não punição dos crimes cometidos pelos militares. Estas duas feridas explodiram com toda a purulência na figura de Jair Bolsonaro. O pus misturou-se no sangue das relações sociais por via das redes sociais e aí vai ficar por muito tempo por ação de um lúmpen-capitalismo legal e ilegal, racial e sexista, que persiste na base da economia, uma base ressentida em relação ao topo da pirâmide, o capital financeiro, devido à usura deste.

    Esta ferida mal curada e agora mais exposta vai envenenar toda política democrática nos próximos anos. A convivência democrática vai ter de viver em paralelo com uma pulsão antidemocrática sob a forma de um golpe de Estado continuado, ora dormente ora ativo. Assim será até 2024, data das eleições norte-americanas, devido ao pacto de sangue entre a extrema direita brasileira e a norte-americana.

    A tentativa de golpe de 8 de janeiro alterou profundamente as prioridades do presidente Lula. Dado o agravamento da crise social, a agenda de Lula estava destinada a privilegiar a área social. De repente, a política de segurança impôs-se com total urgência. Prevejo que ela vá continuar a ocupar a atenção do Presidente durante todo o tempo em que o subterrâneo golpista mostrar ter aliados nas Forças Armadas, nas forças de segurança e no capital antiamazônico.

    Este capital está apostado na destruição da amazônia e na solução final dos povos indígenas. A fotos dos Yanomanis que circularam no mundo só têm paralelo com as fotos das vítimas do holocausto nazista dos anos de 1940. Como poderia eu imaginar que, oito anos depois de dar as boas-vindas na Universidade de Coimbra aos líderes indígenas de Roraima (comitiva em que se integrava a agora Ministra Sônia Guajajara) e de receber deles o cocar e o bastão da chuva – uma grande honra para mim – assistiria à conversão do seu território, por cuja demarcação lutamos, num campo de concentração, um Auschwitz tropical? O Brasil precisa da cooperação internacional para obter a condenação internacional por genocídio do ex-presidente e alguns dos seus ministros, nomeadamente Sérgio Moro e Damares Alves.

    Quando o futuro chega depressa faz exigências que frequentemente se atropelam. O drama midiático causado pela tentativa de golpe exige muita atenção e vigilância por parte dos dirigentes. Contudo, visto das populações marginalizadas a viver nas imensas periferias, o drama golpista é muito menor do que o de não poder dar comida aos filhos, ser assassinado pela polícia ou pelas milícias, ser estuprada pelo patrão ou assassinada pelo companheiro, ver a casa ser levada pela próxima enxurrada, sentir os tumores a crescer no corpo por excessiva exposição a inseticidas e pesticidas, mundialmente proibidos mas usados livremente no Brasil, ver a água do rio onde sempre se buscou o alimento contaminada ao ponto de os peixes serem veneno vivo, saber que o seu jovem filho negro ficará preso por tempo indefinido apesar de nunca ter sido condenado, temer que que o seu assentamento seja amanhã vandalizado por criminosos escoltados pela polícia.

    Estes são alguns dos dramas das populações que no futuro próximo, responderão às sondagens sobre a taxa de aprovação do Presidente Lula e seu governo. Quanto mais baixa for essa taxa mais champanhe será consumida pelos golpistas e pelas lideranças fascistas nacionais e estrangeiras. Confiemos no gênio político do presidente Lula, que sempre viveu intensamente estes dramas da população vulnerabilizada, para governar com uma mão pesada para conter e punir os golpistas presentes e futuros e para com uma mão solidária, amparar e devolver a esperança ao seu povo de sempre.

    *Boaventura de Sousa Santos é professor catedrático da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra. Autor, entre outros livros, de O fim do império cognitivo (Autêntica).

Publicado originalmente no blog da Boitempo

sexta-feira, 13 de janeiro de 2023

Xadrez do Exército e da tentativa de golpe, por Luis Nassif

 

Leniência com baderneiros permitiu que a serpente colocasse a cabeça para fora. Expôs de maneira inédita militares golpistas

Peça 1 – a estrutura do golpe


O golpe foi meticulosamente armado, porque com extensão nacional e mantendo o mesmo modelo em todos os estados. O golpe consistiu no seguinte:

  • Cooptação de militares – Montagem de acampamentos golpistas em áreas do Exército, com participação de famílias, idosos e aposentados. A seleção se deu por duas razões objetivas: oferecer blindagem da ocupação contra eventuais ações das prefeituras municipais, já que eram áreas militares; facilitar a participação de familiares de militares, sensibilizando os militares a aderir ao golpe – típica manobra de guerra híbrida. Militares atuaram também nos edifícios invadidos, para impedir a captura dos baderneiros e a entrada da Polícia Militar nos acampamentos, ou orientando os invasores do Palácio a fugirem. Em São Paulo, o governador bolsonarista Tarcísio de Freitas segurou a remoção do acampamento em frente aos quartéis, até que os integrantes pudessem sair sem serem fichados.
  • Militares bolsonaristas – Várias manifestações de militares bolsonaristas, visando manter a vigília até o momento do golpe. Há vídeos mostrando o general Braga Netto e o próprio Bolsonaro criando expectativas.
  • Empresários – Financiamento das ocupações. De cidades do interior às capitais, o modelo era o mesmo, com banheiros químicos e esquemas de alimentação. As investigações certamente irão bater na barra pesada dos ruralistas, dos Clubes de Atiradores e Caça (CACs), mineradores clandestinos e empresários municipais. Enfim, os atores do que se sabia ser um governo de milicianos.
  • Acampados – Convocaram-se famílias, aposentados, idosos em geral, familiares de militares, visando sensibilizar as tropas nos quartéis. Manteve-se esse clima até a invasão, com a intenção de quebrar as noções de hierarquia e conseguir a adesão para o golpe. Típica manobra de guerra híbrida.
  • Invasores – Houve uma mescla covarde de famílias, com idosos e crianças, servindo de blindagem a baderneiros, o lumpen de várias cidades, todos confiando que o Exército iria garantir a invasão. Some-se a articulação do Secretário de Segurança do GDF, Anderson Torres, com o governador Ibaneis Rocha. Torres viajou de férias. Como poderia ter férias se havia assumido o cargo há poucos dias sem cumprir o interstício legal de 360 dias para gozar o direito? Chama atenção a completa irresponsabilidade de alguns militares com seus próprios familiares, colocando-os nas linhas de frente, correndo o risco de serem marcados como terroristas. Depois, quando chegou a PM, houve a ação desesperada de coronéis, tentando evacuar os baderneiros.
  • Os guardiões dos templos – Finalmente, a cooptação dos militares incumbidos da defesa do Palácio do Planalto, deixando-o totalmente desguarnecido.
  • Os estrategistas – É evidente que o planejamento foi militar, a começar da montagem nacional de acampamentos em áreas militares, com familiares chamando os parentes para o golpe, a concatenação da invasão com o desmonte da PM de Brasília e da defesa do Palácio do Planalto.

Peça 2 – a resistência democrática

A leniência com os baderneiros permitiu que a serpente do golpismo colocasse a cabeça para fora da toca. Inclusive expôs de maneira inédita parte dos militares golpistas. Inaugura, também, uma nova era política – que alguns analistas estão batizando de governo Lula 4.

Nosso colunista Luiz Alberto Melchert levanta um ponto relevante para organizar a política dos novos tempos:

“Assim como a direita usa a figura do comunismo para catalisar a população em torno dos seus interesses, nós temos de usar a destruição para catalisar a população contra a extrema-direita. Assumir um inimigo é que tem mantido os Estados Unidos coesos. Primeiro foi a União Soviética, depois os árabes, hoje a China. 

Sem um inimigo real ou imaginário, o sistema não se sustenta. A tentativa de golpe e a destruição devem estar sempre na argumentação dos democratas para servir de vacina, que não dura mais de um ano. Os escândalos a serem descobertos precisam ser servidos um a um, sempre com 8 de janeiro como molho”.

De fato, o vandalismo produziu uma união inédita entre todos os poderes, partidos políticos e mídia, desmontou o esquema de acampamentos, enfraqueceu eventuais propósitos golpistas das Forças Armadas e transformou o bolsonarismo, definitivamente, em inimigo da democracia. A ordem de prisão de Anderson Torres – por causa mais que justificada – abre espaço para uma ofensiva sem precedentes contra a estrutura miliciana montada pelos Bolsonaros.

Haverá farto material, tanto nos celulares dos invasores quanto nos dos 8 baderneiros que provocaram incêndios em Brasília anteriormente. Alexandre Morais autorizou a Polícia Federal a quebrar o sigilo telefônico não apenas deles, mas de todas as pessoas que mantiveram contato telefônico com os terroristas. Dificilmente o Gabinete do Òdio e a família Bolsonaro escaparão desse escrutínio.

Em suma, foi uma operação tão Tabajara que suscitou em alguns adeptos da teoria da conspiração a tese de que houve uma Revolução Colorida às avessas visando desmontar a ultra-direita brasileira. Bolsonaro é tão sem-noção que chegou a publicar um tuite questionando novamente as eleições, apagando-a em seguida.

Peça 3 – os rachas na frente

Passado o impacto do episódio, se entrará no mundo real, com as diferenças que marcam o grande arco de alianças, especialmente em relação aos temas econômicos.

De qualquer modo, os episódios reforçam a necessidade de Lula assumir medidas que aliviem o peso da crise econômica sobre a população.

Ainda é cedo para saber quando e como serão recebidas as propostas de incluir os ricos no Imposto de Renda e os pobres no orçamento.

quarta-feira, 8 de julho de 2020

Bolsonarismo fardado e o lawfare da toga como efetuado pela Lava Jato são exemplos dos dois braços do pior autoritarismo . Artigo do jurista Pedro Serrano


"Na América Latina, o autoritarismo líquido resultou em impeachments inconstitucionais e processos penais de exceção. Na aparência, um processo penal, regular e de acordo com a Constituição, mas a maquiagem oculta a conduta política e tirânica, que trata o réu como inimigo do Estado. No pós-11 de setembro de 2001, foram normalizadas medidas de exceção típicas dos regimes jurídicos especiais de guerra ou grave ameaça à segurança nacional.
"O agente principal na experiência da América Latina não é, como se desenrolou nos países desenvolvidos, o chefe do Executivo. Foi o sistema de Justiça quem capitaneou as medidas de exceção, contribuindo com impeachments inconstitucionais (Brasil e Paraguai), quando não afastando diretamente o chefe do Executivo (Honduras)."

Foto: Isac Nóbrega/PR
FOTO: ISAC NÓBREGA/PR

Do site da CartaCapital:

A Lava Jato forneceu a escada para a ascensão do populismo autoritário no Brasil

A crise institucional abala alicerces do Estado Democrático de Direito concebido na Constituição de 1988. Ao contrário do que muitos pensam, o atual estágio nos apresenta um conflito entre duas formas de autoritarismo intimamente associadas: o bolsonarismo fardado e o bolsonarismo de toga.
Entende-se o bolsonarismo não como o movimento político em torno da figura do presidente da República, Jair Bolsonaro. Mas a marcha histórica iniciada nos anos 1990 e que culminou, décadas depois, com a vitória eleitoral do populismo de extrema-direita personificado em Bolsonaro.
Tem sido recorrente o que tenho chamado de autoritarismo líquido. Ou seja, a forma autoritária que não se manifesta por um governo de exceção, uma ditadura, um bonapartismo, mas por medidas de exceção no interior da democracia. Medidas de aparência democrática e constitucional, mas cujo conteúdo é político e tirânico, voltado à perseguição ao inimigo.
Na América Latina, o autoritarismo líquido resultou em impeachments inconstitucionais e processos penais de exceção. Na aparência, um processo penal, regular e de acordo com a Constituição, mas a maquiagem oculta a conduta política e tirânica, que trata o réu como inimigo do Estado. No pós-11 de setembro de 2001, foram normalizadas medidas de exceção típicas dos regimes jurídicos especiais de guerra ou grave ameaça à segurança nacional.
O agente principal na experiência da América Latina não é, como se desenrolou nos países desenvolvidos, o chefe do Executivo. Foi o sistema de Justiça quem capitaneou as medidas de exceção, contribuindo com impeachments inconstitucionais (Brasil e Paraguai), quando não afastando diretamente o chefe do Executivo (Honduras).
No Brasil, o autoritarismo líquido se traduziu no esvaziamento do sentido da Constituição, a partir dos anos 1990. Primeiro, o traficante foi eleito como inimigo do Estado. Depois, a figura genérica do bandido também ocupou esse lugar. Nos países desenvolvidos, o estrangeiro terrorista cumpre esse papel. Oriundos da guerra às drogas, no Brasil, esses processos elegem como inimigos uma parte da população, por óbvio, a mais empobrecida e negra.
Nesse sentido, foi o sistema de Justiça que se ocupou de criar as medidas de exceção. A migração para a seara política ocorre, inicialmente, no caso do “Mensalão”, mas tem seu ápice na Lava Jato, com a perseguição política a lideranças de esquerda. A defesa recebe tratamento pro forma, o conjunto probatório é frágil ou insuficiente, existe denunciação por uma conduta e condenação por outra, condenações prévias pela imprensa, enfim, processos que contrariam as normas formais e ofendem os princípios que caracterizam as relações civilizadas entre Estado e cidadãos. A aparência é democrática, mas o conteúdo é tirânico.
Abraçada às forças dos grandes grupos de mídia, a Lava Jato favoreceu e fortaleceu a criação de um circuito afetivo na sociedade de motivações populistas de extrema-direita. Fez migrar o populismo do sistema de Justiça para a seara política. É nesse momento que Bolsonaro é ungido como a liderança nacional. Ele dialoga com esse sentimento, usado eleitoralmente.
O bolsonarismo é, portanto, anterior à ascensão de Bolsonaro, nasce de ação política e militante de parte do sistema judiciário. É a expressão brasileira do autoritarismo líquido. A eleição de Bolsonaro consolida um bloco de poder autoritário. De um lado, o bolsonarismo político, com o presidente e sua família, parte das Forças Armadas, das polícias e grupos de milícias. De outro, o bolsonarismo jurídico, constituído por lideranças egressas do sistema de justiça. Sérgio Moro e Wilson Witzel são expoentes do bolsonarismo jurídico e decisivos para a ascensão do bolsonarismo político.
A atual crise é fruto do conflito entre essas duas frações do bloco de poder bolsonarista. Cada fração usa os recursos autoritários que dispõe. Bolsonaro ameaça com o uso das Forças Armadas, enquanto o bolsonarismo jurídico se utiliza das investigações e de processos de exceção para contra-atacar. É um conflito entre a farda e a toga. Mas ambas têm a tirania e o autoritarismo como força-motriz.
É preciso que os setores progressistas fiquemos alertas. Cada processo judicial precisa ser analisado individualmente. Observamos que alguns são legítimos, mas convivem com medidas ilegítimas de intervenção do Judiciário no Executivo, de processos e inquéritos que suprimem direitos fundamentais.
A existência de dois braços do autoritarismo, o bolsonarismo político e o bolsonarismo jurídico, deixou de ser um problema de governo ou da pauta apresentada pela esquerda. Passou a ser um problema de Estado em que todos os democratas devemos estar atentos e atuantes.

Muito obrigado por ter chegado até aqui...


... Mas não se vá ainda. Ajude-nos a manter de pé o trabalho de CartaCapital.

O jornalismo vigia a fronteira entre a civilização e a barbárie. Fiscaliza o poder em todas as suas dimensões. Está a serviço da democracia e da diversidade de opinião, contra a escuridão do autoritarismo do pensamento único, da ignorância e da brutalidade. Há 25 anos CartaCapital exercita o espírito crítico, fiel à verdade factual, atenta ao compromisso de fiscalizar o poder onde quer que ele se manifeste.

Nunca antes o jornalismo se fez tão necessário e nunca dependeu tanto da contribuição de cada um dos leitores. Seja Sócio CartaCapital, assine, contribua com um veículo dedicado a produzir diariamente uma informação de qualidade, profunda e analítica. A democracia agradece.

ASSINE  ou, se preferir, Apoie a Carta.
 
COMPARTILHAR POSTAGEM
Advogado, professor de Direito Constitucional da PUC-SP, mestre e doutor em Direito do Estado pela PUC/SP com pós-doutorado pela Universidade de Lisboa.

domingo, 14 de junho de 2020

Desordem e retrocesso: um olhar sobre a reunião inquisitorial com o avesso "Messias". Por Beatriz de Almeida, no Justificando


O ministro Supremo Tribunal Federal Celso de Mello, atendendo ao pedido de Sérgio Moro, decidiu liberar o vídeo da [1]reunião ministerial ocorrida em 22 de abril de 2020. As gravações demonstram articulações quase que inquisitoriais: acusações, cobranças de posicionamentos públicos em defesa do Líder Messias, articulações ardis para a simplificação de proteções infralegais, planos de governo para a precarização de trabalho de jovens brasileiros, além de todas as manifestações de ódio e incitação de violência para àqueles que ousam questionar o “sagrado Messias” e seus seguidores. Por isso, alguns trechos da reunião foram selecionados, muitas das falas e posicionamentos externados pelos ministros participantes demonstram indícios de fortes arranjos atentatórios ao estado democrático de direito e aos direitos fundamentais.

Do Justificando:

Desordem e retrocesso: a reunião inquisitorial com o Messias


 Terça-feira, 26 de maio de 2020

Desordem e retrocesso: a reunião inquisitorial com o Messias

Imagem: Marcos Corrêa / PR – Montagem: Gabriel Pedroza / Justificando

Por Beatriz de Almeida


A reunião foi iniciada pelo ministro chefe da casa civil Braga Neto que apresentou o que chamou de “um Plano Marshall brasileiro”, “Programa Pro Brasil é um programa para integrar e aprimorar ações estratégicas, os senhores vão ver que o foco não de governo é de estado, para a retomada do crescimento socioeconômico em resposta aos impactos causados pelo coronavírus”, fala posteriormente  rechaçada pelo Ministro da Economia Paulo Guedes que afirmou “O caminho desenvolvimentista foi seguido. O Brasil quebrou! A economia foi corrompida, a política foi corrompida. A economia estagnou”. Guedes também disse “não chamem de plano Marshall, isso revela um despreparo enorme” e, complementou afirmando, em tom explicativo, “por exemplo, EUA pode fazer um plano Marshall para nos ajudar, a China deveria financiar um plano MarshalI para ajudar todo mundo que foi atingido”.

Neste ponto, cabe relembrar que o Plano Marshall foi um esquema de ajuda econômica, que tinha por objetivo a retomada da economia, criado pelos EUA destin
ou aos países aliados da Europa Ocidental após a II Guerra Mundial. 

Ao afirmar que a “China deveria financiar” um plano Marshall, Guedes adota um discurso sutil, porém acusatório e culpabilizador, dando a ideia de que o país asiático é responsável pelo abalo econômico mundial causado pela pandemia, aliás, postura que já foi adotada anteriormente pelo ministro da educação e que causou um abalo diplomático que foi relembrado durante a reunião.

O ministro do meio ambiente Ricardo de Aquino Salles foi o quinto a se manifestar, sustentando:

 “Nós temos a possibilidade, neste momento que a atenção da imprensa está voltada quase que exclusivamente para o covid e daqui a pouco para a Amazônia” (…) “a oportunidade que nós temos, que a imprensa está nos dando um pouco de alívio dos outros temas, é passar as reformas infralegais de desregulamentação, simplificação”.

O ministro continua: 

“Tudo que a gente faz é “pau” no judiciário, no dia seguinte, então pra isso precisa ter um esforço nosso aqui, enquanto estamos neste momento de tranquilidade no aspecto de cobertura de imprensa porque só fala de covid e ir passando a boiada e mudando todo o regramento e simplificando normas”, “agora é hora de reunir esforços, pra dar de baciada a simplificação de regulatório que nós precisamos em todos os aspectos”.

Posicionamento ratificado pelo Presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social-BNDES, Ricardo Montezano “momento muito oportuno pra gente aproveitar isso,  isso faz uma baita diferença no preço de um projeto, na velocidade”.

Ora, é necessário que os ministros e o atual governo rememorem a finalidade Ministério do Meio Ambiente. Outrossim, se tais desregulamentações fossem tão benéficas poderiam ser feitas às claras, não utilizando de momento oportunizado pelo pandemia.

O Ministério do Meio Ambiente foi criado há 27 anos e, resumidamente, tem por finalidade conhecer, proteger e recuperar o meio ambiente. No que diz respeito às agências regulatórias, é importante lembrar que a criação e necessidade deriva da busca de equilíbrio entre o Estado e a iniciativa privada, no que tange aos serviços anteriormente públicos e nas intervenções de interesse público e coletivo. Portanto, quando o estado deixou de deter o monopólio ou quase monopólio de algumas atividades, assumiu o papel de normatizador e fiscalizador. 

Leia também:

Rei Ubu, Presidente UbuRei Ubu, Presidente Ubu

A fala do ministro demonstra o seu total despreparo para conduzir a pasta que lhe foi atribuída e má fé ao tentar deturpar a função do Estado e facilitar, de modo desmedido e inconsequente, a exploração promovida por empresas privadas, cedendo aos embargos e às pressões das empresas internacionais que visam se estabelecer em terras brasileiras e explorar de forma desregulamentada.

As falas do Presidente Messias serão detalhadamente analisadas pelo Supremo Tribunal Federal, visto que este é o objetivo de fornecimento da gravação do vídeo, contudo, não é possível deixar de recapitular algumas de suas colocações, como “E eu tenho o poder e vou interferir em todos os ministérios! Sem exceção!”, “Eu não posso ser surpreendido com notícias. Pô! Tem lá a PF que não me dá informações. Eu tenho as inteligências da forças armadas que não me dá informações”, “Eu não sou informado! Por isso, vou interferir!”, este é um dos trechos que deixa claro que o  presidente adotou medidas, usando do seu poder institucional, para intervir na independência das investigações e obter informações privilegiadas.

O Presidente da Caixa Econômica Federal Pedro Duarte Guimarães, entre outras falas, relatou:

“Pô, vou me emocionar, o Luis Lima que nadou com o meu pai, foi atleta olímpico, teve a esposa e a filha de 14 anos presas ontem, num camburão, que p… é essa? Desculpa, que p… é essa? O cara vai pro camburão com a filha, se fosse eu, ia pegar minha 15 armas ia dar uma… eu ia morrer, se a minha filha fosse pro camburão eu ia matar ou morrer”, “eu tenho uma filha Maria de 14 anos se a minha filha fosse para o camburão eu ia matar ou morrer”, “eu acho que a gente tá numa questão de histeria coletiva”, “eu conheço a Milene Cumine (…) e aí, você solta estuprador?!”.

É surpreendente que a gravação do vídeo tenha sido divulgada justamente na semana em que os três jovens negros e favelados, João Pedro, João Vitor e Rodrigo Cerqueira, com 14, 18 e 19 anos, consecutivamente, foram assassinados durante operações policiais em favelas do Rio de Janeiro. A indignação seletiva do atual governo está escancarada, o desprezo às populações pobres e periféricas é nítido, mas não é algo novo, também não causaram tal revolta as mortes do músico Evaldo Costa dos Santos, 46, atingido por 80 tiros e de de Agatha Félix, 8, baleada e morta por projétil de armas da PM. 

Todos esses cidadãos tinham algo em comum: serem afrodescendentes em um país racista que promove o genocídio da população negra. Segundo a edição do [2]Atlas da Violência de 2019 aponta que 75,5% das vítimas de assassinato em 2017 eram indivíduos negros.

E, por falar em racismo, a ministra Damares não poderia de deixar de dar a sua contribuição: 

“nós descobrimos ministros, que nós temos 1,2 milhão ucranianos no Brasil e ninguém nunca falou de Ucranianos pra nós no Brasil. Com a sua cultura totalmente preservada no Brasil”, “nós estamos com 1,5 milhão ciganos”, “nós vamos ter que rever muita coisa na aplicação das políticas públicas no Brasil. Os nossos seringueiros são em números maiores no Brasil, então tudo que nós formos construir nós vamos ter que ver a questão dos valores também. Os nossos quilombos estão crescendo e os meninos estão nascendo nos quilombos e os seus valores estão lá, então tudo vai ter que ver a questão dos valores”.

A fala da ministra é epistemicida e moralista, a inferiorização das culturas e dos valores dos povos ucranianos, ciganos, indígenas e negros, mecanismos [3]estratégicos usados pelo sistema racista e já vistos na história do Brasil qual líderes eugenistas influenciaram projetos e políticas públicas no final do século XIX e primeiras décadas do século XX. 

Mas, não se pode negar, Damares proferiu uma afirmação bastante sensata: “a maior violação de direitos humanos na história do Brasil nos últimos 30 anos, está acontecendo neste momento”. Sua colocação admitiu, ainda que de forma implícita, que a ditadura militar foi um regime violador de direitos humanos.

A fala de Damares foi posteriormente complementada pelo presidente que disse: “Se tivesse armado, ia pra rua”, fazendo referência aos prefeitos que determinaram o isolamento, e continuou “Eu quero todo mundo armado!”, referindo-se a armar a população contra os chefes do executivo dos governos dos estados e municípios contrários a Bolsonaro.

Leia também:

Engana-se quem acredita que romper com parâmetros internacionais não têm consequênciasEngana-se quem acredita que romper com parâmetros internacionais não têm consequências

 Weintraub, atual ministro da educação, também externou falas agressivas direcionadas ao STF:  “Eu, por mim, botava esses vagabundos todos na cadeia. Começando no STF” e continuou “É um absurdo o que está acontecendo no Brasil, a gente está conversando com quem a gente tinha que lutar”.

Como de praxe nas falas anteriores do mesmo ministro, durante a reunião demonstrou o desrespeito à pluralidade e individualidade dos povos, bem como ao conceito histórico, social e econômico de raça e [4]racismo estrutural:

“Odeio o termo povos indígenas! Odeio esse termo! Odeio… O povo cigano. Só tem um povo nesse país. Quer? Quer. Não quer, segue reto. É povo brasileiro, só tem um povo”, “Tem que acabar com esse negócio de povo, acabar com o privilégio”.

Fala evidentemente contraditória quando se está em uma reunião composta quase que exclusivamente por homens brancos, ricos, heterossexuais, cristãos. É muito fácil dizer que o povo brasileiro é um só, estando protegido pelo manto hegemônico e do privilegiado.

Mas não acabou, a reunião ainda contou com falas assustadoras do Messias e de Paulo Guedes. Primeiro o presidente afirmou: 

“Sistema de informações: o meu funciona. O meu particular funciona. Os outros que tem oficialmente desinforma”, “Mas é a p… o tempo todo pra me atingir e mexendo com a minha família. Já tentei trocar gente da segurança nossa no RJ e não consegui. E acabou. Eu não vou esperar f… a minha família toda de sacanagem com amigos meus porque eu não posso trocar alguém da segurança, da ponta da linha que pertence à estrutura nossa. Vai trocar! Se não puder trocar, troca o chefe dele. Não pode trocar o chefe del?! Troca o ministro. E ponto final.”.

Bolsonaro revelou que tem um sistema de informações particulares O presidente nacional da [5]Ordem dos Advogados do Brasil Felipe Santa Cruz pediu investigações para apuração do sistema, visto que legalmente não existe um sistema particular de investigações.

Por fim, o ministro Paulo Guedes externa qual é o seu trágico plano para os jovens do país:

“Já tenho conversado com o Ministro da Defesa, já conversamos algumas vezes. Quantos, 200 mil, 300 mil, quantos jovem aprendiz nós podemos absorver nos quartéis brasileiros? Um milhão?! Um milhão, a 200 reais, que é o Bolsa Família”, “Aprende a ser um cidadão. Voluntário, pra fazer estrada, isso e aquilo. Sabe quanto custa isso, R$ 200,00 por mês”, “Nós vamos pegar, na reconstrução e contrata um milhão de jovens aqui”.

O ministro demonstra, de forma bastante objetiva, o plano do atual governo federal: seguir o exemplo da [6]Alemanha nazista, que adotou medidas idênticas (contratação de jovens, pagamento de “salários” baixíssimos, doutrinação moral cívica nazista) propostas pelo então ministro da economia Hjalmar Schacht e comando de Baldur von Schirach responsáveis pela doutrinação ideológica da juventude hitlerista que, quando da da II Guerra Mundial, foi absorvida pelo Wehrmacht. 

A constante referência ao regime nazista demonstra a instabilidade do estado democrático de direito brasileiro: é a desordem e o retrocesso. Os caminhos para o do Brasil do futuro demonstram-se incertos, mas os planos do atual governo executivo, como já era de conhecimento antes das eleições de 2018, são muito claros, organização de projetos para a manutenção dos privilégios hegemônicos, adoção de políticas eugenistas baseadas na Alemanha Nazista.


Beatriz de Almeida é advogada e consultora empresarial. Pós Graduanda pela PUC-MG em Compliance e Integridade Corporativa. Especialista em Direito Tributário e Cível. Palestrante e pesquisadora de temas atinentes às relações étnico raciais com ênfase na população afrobrasileira. Coordenadora temática de Direito Civil na Comissão de Graduação Pós Graduação e Pesquisa na OAB SP. 


Referências

[1] CNN Brasil. “STF divulga ÍNTEGRA do vídeo da reunião ministerial de 22 de abril”. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=TjndWfgiRQQ>, Acesso em: 24 mai. 2020.
[2] Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA). Violência por Raça e Gênero. Disponível em: <https://www.ipea.gov.br/atlasviolencia/filtros-series/3/violencia-por-raca-e-genero>, Acesso em: 24 mai. 2020.
[3] Moreira, Adilson José. O que é racismo recreativo? Belo Horizonte (MG), Letramento, 2018.
[4] Almeida, Silvio de Luiz de. O que é Racismo estrutural? Belo Horizonte (MG), Letramento, 2018.
[5] CNN Brasil. “OAB cobra esclarecimentos sobre ‘sistema particular’ de informações de Bolsonaro”. Disponível em <https://www.cnnbrasil.com.br/politica/2020/05/24/oab-cobra-esclarecimentos-sobre-sistema-particular-de-informacoes-de-bolsonaro>, Acesso em 24 mai. 2020.
[6] Guterman, Marcos. A moral nazista. Uma análise do processo que transformou crime em virtude na Alemanha de Hitler.  Universidade de São Paulo-USP. Disponível em: <https://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/8/8138/tde-11042014-121333/publico/2013_MarcosGuterman.pdf> acesso em 24 de mai. 2020.