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sexta-feira, 15 de julho de 2022

Xadrez dos militares (ou parcela deles) bolsonaristas golpistas, por Luis Nassif

 

É importante que os militares conspiradores comecem a pensar nos custos da conspiração. Enfrentarão não apenas a reação das instituições, mas as críticas dos colegas, pela desmoralização imposta às Forças Armadas.

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Peça 1 – o golpe em preparação.


Não há a menor dúvida de que o Ministro da Defesa, general Paulo Sérgio Nogueira, participa da conspiração bolsonarista de colocar em dúvida as eleições. Assim como os generais Braga Neto, Augusto Heleno, Hamilton Mourão, Heber Portella, entre outros.

É aposta alta, com desdobramentos iniciais previsíveis – e consequências posteriores imprevisíveis.

Há inúmeras maneiras de boicotar as eleições, um factoide em torno das urnas de uma região, a não entrega de urnas por parte do Exército – incumbido de transportar as urnas até os Tribunais Regionais Eleitorais -, a introdução de um script malicioso por parte de alguma empresa cooptada.

O jogo dado, em caso de derrota de Bolsonaro, a partir da suspeita lançada, será contar com a agitação estimulada, os atentados dos Clubes de Caça e Tiro, a explosão da violência individual, para implantar um estado de exceção de prazo indeterminado.

Peça 2 – as consequências imediatas

A resistência ao golpe também é previsível.

Com exceção do presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), o indizível Luiz Fux, praticamente todas as instituições se manifestaram esta semana em defesa das eleições: vários Ministros do STF, o presidente do Senado, o Tribunal de Contas da União, a mídia, quase todos os partidos políticos.

O golpe suscitaria reação internacional imediata, a começar dos donos do dinheiro. Uma coisa é o que a mídia trata genericamente como “mercado” – operadores do dia-a-dia, com compreensão apenas sobre os movimentos da semana. Outra, são os donos do dinheiro, os gestores dos grandes fundos internacionais, as instituições multilaterais, a maioria das democracias ocidentais.

Haverá reação, também, em setores das Forças Armadas, que não endossarão os golpistas, o que estimulará a resistência contra o golpe.

De início, poderá haver adesão de parte do empresariado. Mas não será permanente, especialmente quando se explicitarem as represálias econômicas internacionais, além da indizível dificuldade de Paulo Guedes em gerir a economia. E não se trata apenas da política econômica, mas da notável incapacidade de Guedes em gerir o dia-a-dia da economia, agravada pela desorganização do mercado e do fluxo de recursos internacionais.

Portanto, o mais provável é que cada dia de golpe seja uma contagem regressiva para seu fim, um aumento do caos econômico, e um desgaste rápido do golpismo.

Peça 3 – o pós-golpe

Aí se chega no busílis da questão: como será o dia seguinte ao pós-golpe?

Ao contrário do fim da ditadura de 1964, desta vez não haverá um pacto de impunidade, que livrou da Justiça até crimes contra a humanidade.

A falta de experiência política dos militares de Bolsonaro impede-os de enxergar que nenhum poder é eterno. Hoje em dia, conspiram com naturalidade porque tem Bolsonaro na presidência. E quando cessar a blindagem?

Nem se espere represálias da parte do governo Lula – caso seja ele o eleito. Não será necessário. Bastará acabar com essa loucura do sigilo de cem anos para operações que escondem crimes. Caindo o sigilo, será derramada na praça uma sucessão imensa de suspeitas de crimes, das rachadinhas dos Bolsonaro aos crimes da Saúde, que ficarão à disposição de procuradores de primeira instância, de uma Procuradoria Geral da República independente, de um STF sem o comando de Luiz Fux, de um Tribunal de Contas da União ativo, de uma mídia francamente anti-Bolsonaro.

Não apenas os crimes. Todos os abusos atuais dos generais conspiradores virão à tona. Serão divulgados não apenas as operações suspeitas, mas os empregos distribuídos a granel, os abusos dos salários dobrados, as compras efetuadas, os custos das obras de engenharia militar.

Os julgamentos sobre a invasão do Capitólio, e a tentativa de Donald Trump de explodir uma guerra civil, servirão de modelo para o caso brasileiro.

É possível que o golpe seja bem-sucedido. E, para tal, será sangrento.

É mais provável que falhe. E, aí, é importante que os militares conspiradores comecem a pensar nos custos da conspiração. Enfrentarão não apenas a reação das instituições, mas as críticas dos colegas, pela desmoralização imposta às Forças Armadas.

terça-feira, 10 de março de 2020

A educação brasileira e o fascio-racismo autoritário, por Alexandre Filordi


 "Eis, porém, que um Ministro de Estado, em pleno século XXI, e para piorar, Ministro da Educação, associa os críticos ao governo sob o qual ele serve a uma tigrada. O que teme a tigrada, segundo ele? Teme uma sala de aula fazendo “sentido” quando a professora ali entra; teme o discente fazendo continência para a professora; horroriza-se com a ideia de uma educação para a subserviência. Aliás, isso se encontra no sangue “nobre” de nossa história. Aos povos indígenas recalcitrantes, José de Anchieta dizia: “espada e vara de ferro, que é a melhor pregação”. Não foi muito diferente com os povos africanos; não tem sido diferente com os povos da periferia; não tem sido diferente com os que bradam contra a submissão docilizada; não há de ser diferente para as/os educadoras/es comprometidas/os com educar contra a ignorância, o medo e a servidão voluntária. "

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A educação brasileira e o racismo autoritário

por Alexandre Filordi

Todo racismo é autoritário. A sociedade que trafega normalmente sob o racismo estrutural, dia após dia, não prescinde do hábito de suas estruturas autoritárias. Aceitar um desses aspectos é ser conivente com o outro. 
Não precisamos falar do Brasil colônia para entender isso. Tampouco seria preciso recordar que o governo provisório da recente República Brasileira, de 1889, por motivos ostensivamente de ordem econômica, portanto, atinentes à elite de mentalidade escravocrata, emitiu, pelo seu Ministro da Fazenda, a circular n° 29, em 13 de março de 1891. Ordenava-se queimar todos os arquivos referentes aos africanos escravizados. 
A República nasceu, assim, com a cumplicidade de uma política autoritária e racista de “queima” de memória, de aniquilação de experiências existenciais, de destruição de vínculos ancestrais dos povos africanos aqui escravizados, além de adotar estratégia covarde de apagar a trilha de sua corresponsabilidade com a escravidão. 
Desde a tentativa de redemocratização brasileira em meados dos anos 80, a sociedade civil deu passos firmes no sentido de reconhecer o racismo estrutural disseminado e banalizado no Brasil, sobretudo com o intuito de combatê-lo. 
A educação, nesse sentido, empenhou-se em produzir campos teóricos e empíricos aí imprescindíveis, e consolidá-los. Tratar-se-ia, face a impossibilidade de reparação histórica, mas com a justificativa do que é justo, ensinar a toda sociedade brasileira a emancipar-se de sua inadjetivável história de opressão com os povos africanos. 
Uma dose mínima de consciência era fundamental para que se estabelecessem novas bases éticas com o intuito de nos distanciar de todo e qualquer racismo. Com efeito, experiências cotidianas com a extensão de agressões simbólicas, morais, verbais, físicas, rubricadas pela jocosidade e inconsequência ética latentes de nossa cultura, passaram a ser expostas, analisadas e enfrentadas. 
Era preciso saber que “mulata” vinha pejorativamente de mula; que “fazer nas coxas” era/é expressão decorrente das telhas irregulares das casas dos africanos alforriados,  produzidas por eles mesmos, já denotando a advertência dos sinais futuros de desigualdade social; que o africano não era/é “macaco”; que “negão” não era/é qualificativo elogioso, já que ninguém diz “brancão”; que dizer a “situação está preta” não condiz com uma população majoritariamente constituída por descendentes de africanos; que ser preto não é sinônimo de bandido, de marginal; que os cultos de matrizes africanas devem ser respeitados e honrados; etc. etc. etc. 
Mas dentre aquelas expressões havia outra a ser combatida: tigrada. Tal acepção sempre foi utilizada para o “povão”, essa mistura cujo escrutínio elitista faz recair sobre ele todo tipo de preconceito. É que “povão” é mistura, linhagem espúria longe do idílio dos senhores da casa-grande, reatualizados no empresariado brasileiro, em seus políticos, em seus mandantes, com raríssimas exceções.
Pior ainda. Os “tigres”, na história brasileira, são uma acepção pejorativa para designar todos os africanos escravizados cuja incumbência maior era a de carregar, sobre os ombros e quase sempre em pele nua, os dejetos dos senhorios e das senhorias das casas-grandes e dos sobrados. 
Fezes, urina, vômitos, escarros, catarros, enfim, os desejos humanos, ao serem transportados acabavam por escorrer ou espirrar em suas peles. Queimaduras na pele eram inevitáveis. Surgiu, assim, a “tigrada”: corpos cartografados pelo estigma do poder racial com todos os seus dejetos nojentos.
Eis, porém, que um Ministro de Estado, em pleno século XXI, e para piorar, Ministro da Educação, associa os críticos ao governo sob o qual ele serve a uma tigrada. O que teme a tigrada, segundo ele? Teme uma sala de aula fazendo “sentido” quando a professora ali entra; teme o discente fazendo continência para a professora; horroriza-se com a ideia de uma educação para a subserviência. Aliás, isso se encontra no sangue “nobre” de nossa história. Aos povos indígenas recalcitrantes, José de Anchieta dizia: “espada e vara de ferro, que é a melhor pregação”. Não foi muito diferente com os povos africanos; não tem sido diferente com os povos da periferia; não tem sido diferente com os que bradam contra a submissão docilizada; não há de ser diferente para as/os educadoras/es comprometidas/os com educar contra a ignorância, o medo e a servidão voluntária. 
No Brasil atual, a espada, a vara de ferro, a chibata são a ignorância encarnada no autoritarismo, este levado ao limite com imposições institucionais, tropas-de-choque, milícias – inclusive virtuais –, histrionismos e paranoias. Tal autoritarismo nunca deixou de ser racista; ele se empenha diuturnamente a queimar os arquivos das práticas democráticas de educação; ele semeia o conformismo como currículo de submissão, achincalhando e debochando da mínima fortuna crítica empenhada em reescrever a nossa história sem as mesmas marcas do autoritarismo senhorial da colônia. 
Ao julgar os que não se decalcam à plataforma do atual governo e se opõem ao projeto de uma educação contra a vida, como “tigrada esquerdófila”, podemos pressentir a borda do abismo na qual caminhamos. 
Uma coisa é certa, porém: as/os educadoras/es brasileiras/os não farão continência ao racismo autoritário e, muito menos, aceitarão os seus dejetos. 
Alexandre Filordi (EFLCH/UNIFESP)

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quarta-feira, 4 de março de 2020

A baderna militar estimulada pelo governo e o conflito ainda controlado dentro da direita, por Bruno Lima Rocha



Estamos diante de uma crise política provocada pelo próprio governo, sua petulância e seu pânico. O presidente governa sem partido e se escora em robôs e proselitismo para milicos de alta patente com super salários.

A baderna militar e o conflito ainda controlado dentro da direita

por Bruno Lima Rocha

Ao terminar o carnaval o ano começou de fato com uma 4ª de cinzas “inesquecível”. A extrema direita foi convocada para na data de 15 de março, marcando o novo momento de micareta proto-fascista no Brasil em transe pós-golpe coxinha. Parece piada, mas a situação é bem séria. O general de Exército Augusto Heleno Ribeiro Pereira (4 estrelas), ministro-chefe do Gabinete de Segurança Institucional (GSI), como figura de proa do reacionarismo militar de alta patente, está dobrando a aposta. O uso discricionário do orçamento da União é o sonho putrefato de Paulo Guedes e sua laia de Chicago Boys e mesmo que saia um acordo de oligarcas, apenas a hiper-exposição do ex-membro da alta hierarquia do Comitê Olímpico Brasileiro na Era Nuzman já foi demonstração suficiente de estranhas lealdades na caserna. Augusto Heleno se coloca à frente da destinação do orçamento impositivo. Se o Parlamento ceder, o pinochetista civil do governo, Paulo Guedes, apontaria uma contrapartida, prometendo aumento da margem orçamentária destinada aos estados. Na prática seria o golpe de morte na Constituição de 1988, ponto de confluência de toda direita, que vai de oligarcas decadentes aos ultra liberais do “novo”, passando por tucanos e arrivistas militarizados como os do PSL.
Ainda tem muito em jogo, mas a dimensão estrutural já foi alterada. Para a camarilha de fariseus pentecostais e “neopentecostais”, os que manipulam os milhões de brasileiros e brasileiras das várias linhas do evangelicalismo, o gol já foi marcado no governo Temer. Ainda que sempre pressionam por mais legislação de hereges praticantes do pecado da usura, as “igrejas” empresariais são o fluxo de caixa da pobreza, ultrapassando tanto as pastorais sociais como o digno esforço das linhas evangélicas de tipo diálogo ecumênico, fé e política de libertação.
Digo isso porque quem mobiliza parcialmente a pobreza são as empresas controladas por fariseus midiáticos, considerando que com a “reforma trabalhista”, o caixa dos sindicatos (mesmo burocratizados) minguou. De onde já não saía quase nada, agora sai menos ainda. Logo, as redes sociais e os canais de comunicação de primeiro nível societário – grupos de amigos, familiares, espaços de trabalho, afinidades de costumes, religião e espaço geográfico – todos estes nichos de comunicação estão permeados por bandos de direita pregando de forma irracional suas imbecilidades. É o padrão Homer Simpson, não precisa provar nada, basta querer crer que a crença se torna parcialmente “real”. Repetidos mil vezes, os clichês se tornam “conceitos” e a cloaca ideológica é transformada em estrutura de mentalidade. Maldita “pós-verdade”, cada vez mais presente no Brasil.
Com tamanho bloqueio, a luta da “sociedade civil” recai sobre quem está mobilizado, tanto socialmente como virtualmente. Na mosca para a direita fascistoide. Atacam o feminismo difuso – observando o fenômeno geracional das mulheres brasileiras -; os territórios indígenas e quilombolas – mais organizados que nunca e hoje formando a primeira linha de resistência-; fazem um escândalo acusando a defesa LGBTQ+ como sendo “ideologia de gênero”; promovem a guerra cultural contra as “esquerdas” – e aí atacam diretamente a instituição universitária que supostamente seria a maior difusora desta matriz de pensamento.
Enquanto a guerra foi essa, a “nata colonizada” ganhava simpatias ou ao menos um que de “mal menor” porque os entreguistas não gostam do chefe mas amam o especulador Paulo Guedes e idolatram Sérgio Fernando Moro, o juiz da província que a mídia transformou em xerife do país, uma espécie de herói da TFP de Miami. O problema para a governabilidade é a luta “interna” em todas as instituições estatais e privadas do país.
Quem está na fogueira das direitas? A saber: os jornalões golpistas, a caserna golpista (vide o “profissionalismo” de Villas Bôas ameaçando o STF pelo Twitter) e o estamento jurídico e coercitivo (ou seja, a meritocracia de toga que arma todas desde a Lava Jato e está rachada de ponta a ponta incluindo a luta no MPF e principalmente na PF).
Já existem mais variáveis de jogadas do que cálculos possíveis e a tendência é sair um “centrão” ainda mais articulado, incluindo a dissidência de Dória Jr (PSDB, governador paulista) e Wilson Witzel (PSC, governador fluminense). Se o mineiro Romeu Zema (Novo) se soma, aumenta o balanço da corda bamba e as apostas. Alguém imagina um governo totalmente em oposição a São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais? Em seus estados, tais chefes do Poder Executivo operam ao estilo protofascista como Bolsonaro, mas ainda conseguem calibrar o discurso para se apresentarem como “opções viáveis”.
Se em meados de 2019 pensávamos que o governo vivia entre crises, hoje sabemos tratar de algo mais grave. Estamos diante de uma crise política provocada pelo próprio governo, sua petulância e seu pânico. O presidente governa sem partido e se escora em robôs e proselitismo para milicos de alta patente com super salários.

Baderna de alta patente, militarização do governo federal e o imponderável em cena
Sei que costumo fazer analogias com a situação brasileira da década de ’50 e a crise que chegou ao clímax em 1964. Estamos longe disso, dessa segunda parte, mas perto da primeira. A “baderna das vivandeiras” criou asas de barata cascuda e voou. Primeiro surfando nas redes sociais, burocratas de uniforme querendo uma fatia de prestígio manipulando hordas de idiotas e supostamente dividindo as preferências e lealdades com a “ala profissional”. No enredo que seguiu, este analista aqui faz autocrítica pela equivocada apreciação. Cheguei a pensar em uma ala “saudosista e revanchista”, representada por generais como Hamilton Mourão (vice-presidente eleito) e Sérgio Etchegoyen (ex-chefe do GSI do governo golpista de Temer) e outra, a dos coturnos de carreira, tropeiros convictos, como Eduardo Villas Bôas e Fernando Azevedo. Ledo engano.
Agora recai a “esperança” sobre o general de divisão Carlos Alberto Santos Cruz, que supostamente explicita um mínimo de sensatez. A mesma que lhe faltou para aceitar entrar no governo do capitão expulso do quartel e que não existe na coleção de oficiais de alta patente em verde oliva servindo no desgiverno.
Se no “governo” Temer o problema mais visível seria o Entreguismo, Bolsonaro e sua dinâmica olavista aumentam o problema, sendo que qualquer manifestação sensata e não intervencionista já é vista como sendo de “centro”.
Aumenta a aposta de Bolsonaro e multiplicam-se os problemas nos quartéis. Como fazer com que mais de 100 oficiais superiores e generais voltem para os quartéis ou vistam comodamente o pijama da reserva? Pensem na imagem das conversas de bastidores no Clube Militar? Imaginem a prosa entre as partidas de carteado no Posto 6 em Copacabana? Pois bem, agora estão presentes no cotidiano do Poder Executivo assim como em representações parlamentares e nos governos estaduais. É tudo inversamente proporcional. A capacidade dos militares de carreira se dedicarem à defesa do país – em seus múltiplos e disputados significados – é inversamente proporcional às peripécias da “polititica” à qual vêm se dedicando com afinco ao menos desde 2015.
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Estamos a caminho de uma ditadura? Creio que não, embora com um governo propenso a qualquer coisa desde que combine repressão social com Entreguismo colonizado. A ditadura militar tinha um projeto de país distinto ao de Bolsonaro, Guedes, Olavo e companhia? Evidente que sim.
Ou seja, a “papagaiada dos periquitos” de alta patente seria reprovada até por Golbery do Couto e Silva e pelo seu rival Carlos Meira Mattos. Se é patético o discurso olavista, é ainda mais absurda a posição de pessoal treinado pelo Estado e que domina como ninguém as correlações de apadrinhamento, “coxada e peixaria”. O pior é que não é exceção, e sim a regra na interna das instituições militares ou coercitivas. Levar essa cultura para o centro do Poder Executivo, caminhando lado a lado dos Chicago Boys liderados por Paulo Guedes é muito perigoso.
Qual projeto de país os colonizados querem? Vejam o Chile herdado por Pinochet, multiplicado pelo gigantismo do Brasil e veremos o que a extrema direita hoje no Planalto projeta para a sociedade brasileira.

A inconsequência que é “gigante pela própria natureza” da estupidez  
Observando o comportamento do ministro do GSI como a primeira linha verborrágica e de difusão ideológica da formação da extrema direita brasileira a conclusão é tétrica. Não adianta esperarmos arroubos de genialidade e tampouco reclamar da ausência sequer de patriotismo. Esta geração não tem nada disso, é uma mescla do pior do pior dos anos ’50 como a “Cruzada Anticomunista” do almirante Penna Botto, as estripulias dos seguidores do “brigadeiro” Eduardo Gomes (aquele que seria “bonito e solteiro”) e as manobras cruéis de Mourão, não o Hamilton, mas o Olympio ex-chefe de inteligência integralista. Haroldo Veloso e João Paulo Burnier sorriem no inferno, com o aval de JK, o bunda-mole que não puniu nenhum dos dois apoiou o golpe de ’64 e terminou de forma mais que suspeita com “problemas no freio” de seu carro. Triste e previsível para quem “dá asas às cobras” (ver comício em https://www.youtube.com/watch?v=aGAJrcjWrdM), parafraseando a impagável deputada estadual e jurista do golpe com apelido de impeachment, Janaina Conceição Paschoal (PSL-SP).
Como o “pensamento” geopolítico ainda é rasteiro (estando anos luz atrasado em relação à própria área), a capacidade de derivar em “teses racistas de crítica à miscelânea cultural” e outras aberrações é enorme. Ou seja: a chance de surgir uma geração de oficiais nacionalistas neste exato momento é muito difícil, em especial se observarmos que se estes existissem seriam minimamente antiimperialistas – rechaçando a desindustrialização brasileira, a transnacionalização de setores estratégicos e as teses americanófilas.
Quem conhece os processos do Continente sabe que de 9 entre 10 ocasiões ocorre o seguinte: – o populismo quase sempre rói a corda, assim como os reformistas, mesmo que com gestos individuais louváveis (como a resistência de Allende em La Moneda no 11 de setembro latino-americano e o suicídio de Getúlio Vargas em 24 de agosto de 1954); – a outra certeza é de que nenhuma força armada reacionária é antiimperialista e para a turma de pijama recém engomado, uma disputa realista regional é o melhor dos mundos.
Eis o porquê da fascinação dos “irmãozinhos” com a Venezuela chavista sem Chávez (no caso, um populismo reeditado que não roeu a corda embora não seja isento de críticas) e mais recentemente a prevenção contra a França Amazônica do neoliberal Macron. O consenso é uma agenda de tipo linha chilena, e o outro consenso é tomar medidas prontas de segurança interna caso o protesto social chileno se torne brasileiro.
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Fora isso, qualquer “expectativa” vinda da caserna é em vão. Realmente gostaria de estar errado, de ter uma “perspectiva razoável” de senso de profissionalismo com defesa dos interesses do Brasil, mas realisticamente está longe disso.
O Entreguismo atual supera qualquer previsão, estando à altura de uma radicalização do primeiro governo golpista, o de Humberto de Alencar Castello Branco, “eleito” por Lincoln Gordon e Vernon Walters. Nem o desastroso governo Figueiredo cedeu tanto para os gringos, embora tenha sido “governado” pela encarregada do FMI para o Brasil.
Este que escreve sempre repetiu como ladainha de Canudos o princípio que “não dá para confiar no exército escravocrata de Caxias para defender Palmares e Pindorama”. Só não pensei que num período tão rápido o Desgoverno Bolsonaro-Guedes fosse absolutizar o exemplo.
Ontem como hoje valem duas máximas de oficiais militares brancos, mas comprometidos com a independência da América Latina.
Simón Bolívar praguejava “maldito seja o soldado que apontar armas contra seu próprio povo!”. Já o platense-pampeano José Gervasio Artigas entendia “que nada podemos contar a não ser com nós mesmos”. Não por acaso Bolívar acabou no isolamento e antes no desterro e Artigas exilado, sendo que este último sofreu a traição final de um de seus capitães-tenentes, Fructuoso Rivera (branco e castelhano), que passou para o lado dos invasores luso-brasileiros e em 11 de abril de 1831 promoveu o Massacre de Salsipuedes, contra a vanguarda da cavalaria charrua numa emboscada traiçoeira na saída de uma coxilha. As tropas afro-uruguaias e dos povos originários pelearam ombro a ombro pela Liga Federal até o derradeiro exílio para Assunção em setembro de 1820. Que a lição seja aprendida. No caso brasileiro não é nada diferente: Rui Moreira Lima, Carlos Lamarca, Cândido Aragão e Onofre Pinto são exceções e não a regra.
Apontando conclusões e não disfarçando as dúvidas concretas
Sinceramente não sei qual o efeito nos próximos dez anos da pregação de Jair Bolsonaro e Augusto Heleno, precedidas pelas falas absurdas de Hamilton Mourão em lojas maçônicas e chantagens no Twitter de Villas-Bôas. A julgar pelos cinco anos já passados, é de se esperar um isolamento reacionário da caserna. Se não bastassem os exemplos brasileiros, vejam o papel nefasto de Guido Manini Ríos, ex-comandante em chefe do Exército uruguaio e pertencente a uma geração promovida em seus altos mandos por ex-tupamaros governando como frenteamplistas encantados com a caserna, como Eleutério Fernández Huidobro e o próprio José Mujica.
A cada ilusão mais distantes estaremos de nossas segundas e derradeiras independências na América Indo-Afro-Latina. No Brasil, a baderna militar é sem precedentes desde a Abertura Lenta, Gradual e Restrita. Estamos diante do imponderável com os galinhas verdes do século XXI tentando surfar nas ondas das cloacas de esgoto, simulando uma morey boogie nas tampas de bueiros que a própria extrema-direita escancarou.
Bruno Lima Rocha (blimarocha@gmail.com) é pós-doutorando em economia política, doutor e mestre em ciência política, professor universitário nos cursos de relações internacionais, jornalismo e direito.

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Bolsonaro e a extrema-direita apostam na politização e conformação olavista-miliciana das PMs... e como fica o povo? Por Luis Nassif



 Moro e Bolsonaro enviaram para comandar a Força Nacional dois militares envolvidos até o pescoço com a politização das PMs.


Do Jornal GGN:



Tá ok, o governo aposta na politização da PM: e como é que ficamos?

O que dizem, agora, os idiotas da objetividade, para quem as instituições são gigantescas perto do pequeno Jair? Moro e Bolsonaro enviaram para comandar a Força Nacional dois militares envolvidos até o pescoço com a politização das PMs.
Depois que o chefe da Força Nacional, indicado por Sérgio Moro, avalizado por Jair Bolsonaro, saudou a grande coragem dos PMs amotinados do Ceará, não há mais a menor margem para dúvidas: Bolsonaro aposta na politização das bases das PMs estaduais. Dali para as bases das Forças Armadas, é um grito.
O que dizem, agora, os idiotas da objetividade, para quem as instituições são gigantescas perto do pequeno Jair? Moro e Bolsonaro enviaram para comandar a Força Nacional dois militares envolvidos até o pescoço com a politização das PMs.
As instituições quedam mudas, sem emitir o menor sinal de vida. Houvesse instituições, a esta altura um bravo procurador, daquelas figuras hollywoodianas consagradas pela Lava Jato, teria entrado com uma representação contra o comandante da Força Nacional por estimular o crime: motim de polícia. O ciclópico Supremo Tribunal Federal teria chamado Sérgio Moro às falas, quando passou a mão na cabeça dos amotinados. O gigantesco Congresso Nacional teria convocado autoridades para explicar o inusitado.
Nada disso ocorreu. As instituições são defendidas apenas por governadores, mas com uma frente de pé quebrado, na qual os três principais estados – São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais – estão nas mãos de governadores que estão nas mãos da PM por conta de um discurso irresponsável de estímulo à violência policial.
Ontem, mesmo, o governador João Dória Jr saudou a violência policial contra manifestantes, professores estaduais afetados pela reforma da Previdência. Fala-se tanto na prioridade da educação e nas cautelas com a PM, e o sem-noção Dória pisa na cabeça da autoestima do professor e engrandece a violência da PM – que entrega o serviço com gosto, e depois virá cobrar a fatura.
Por tudo isso, o Brasil empreende a mais óbvia caminhada da sua história, não para um mero estado de exceção, mas para um Estado dominado por forças milicianas. É um bom campo de análise para os estudiosos das grandes marchas da insensatez. E para registrar para a história as frases do maior responsável por essa era de trevas: Ministro Luis Roberto Barroso, o que prometeu que, no fim do túnel apareceria o iluminismo, e nos ofereceu o bolsonarismo.
07/04/2018 – “O velho esta morrendo e o novo ainda não nasceu” .
01/06/2019 – “Entre a morte do velho e o nascimento do novo, há um conjunto de coisas mórbida’. Estamos vivendo esta transição. (…) Apesar das dificuldades atuais, a minha visão é positiva. Sairemos mais fortes”
15/10/2019 – “Ocorreu uma tempestade política, econômica e ética que abalou a autoestima de todos. Entretanto, esse processo é imprescindível para lançar a base de novas fundações para construir o Brasil que a gente precisa (…) O velho está morrendo e o novo ainda não nasceu”.
29/11/2019 – “O Brasil está vivendo as dores de uma transformação histórica necessária e indispensável”.

segunda-feira, 2 de março de 2020

O Procurador de Justiça Rômulo de Andrade Moreira comenta os ataques e xigamentos do General Heleno e a situação da Democracia brasileira



Do de estudos jurídicos Justificando:



Sexta-feira, 28 de fevereiro de 2020

O xingamento do general e a democracia brasileira

Imagem: Antônio Cruz/Agência Brasil – Arte: Gabriel Pedroza / Justificando

Por Rômulo de Andrade Moreira

No último dia 19, numa conversa com o general Luiz Eduardo Ramos (ministro da Secretaria de Governo) e com os ministros Paulo Guedes (da Economia) e Onyx Lorenzoni (Cidadania), o general Augusto Heleno, do Gabinete de Segurança Institucional, discutindo a questão da execução de emendas parlamentares ao orçamento, e sem saber que a sua conversa estava sendo captada, soltou a seguinte frase: “não podemos aceitar esses caras chantagearem a gente o tempo todo”; depois, ao que parece furioso, disparou: “foda-se!“


Evidentemente, que o general Heleno, ao exaltar-se assim, não cometeu aquilo que Freud chamava de um ato falho, consistente em “certos fenômenos muito frequentes, muito conhecidos e muito pouco estudados, os quais nada têm a ver com enfermidades, uma vez que podem ser observados em toda pessoa saudável.”[1]

Tampouco, creio eu, tratou-se de mais um (humano) desabafo, daqueles que fazemos, vez por outra, às escondidas, quando estamos num estado de alguma indignação, muitas vezes saudável e legítima; não acho que se tratou nem de uma coisa, nem sequer de outra. Mas, de toda maneira, a frase é bastante significativa, especialmente tendo sido pronunciada por um integrante do Exército, hoje na reserva, e um dos homens fortes do governo brasileiro.

É significativa, pois revela de uma forma especialmente incisiva como a democracia incomoda certos setores do Estado brasileiro, e a maneira distorcida como o sistema presidencialista é confundido, muitas vezes, com um sistema autocrático e autoritário. Veja-se que o general, ao saber da divulgação do áudio, escreveu em uma rede social, como se fora uma justificativa, mas sem negar uma só vírgula do que houvera dito – apenas se queixando de uma suposta “invasão de privacidade”, ainda que tenha sido uma conversa captada em um vídeo gravado pela própria Presidência da República durante uma cerimônia no Palácio da Alvorada[2] – escreveu ele que “se desejam o parlamentarismo, mudem a constituição.”

Eis o que está por detrás do “foda-se!” do general Heleno: uma incompreensão de que em um regime presidencialista governa-se com o Congresso Nacional, cujos integrantes têm legitimidade popular tal qual a tem o presidente da República; não se governa um país de modelo presidencialista, ao menos de uma maneira democrática e republicana, isoladamente, ou com grupelhos, à moda dos “convescotes de colegiais”, como diria o velho professor Abdias, de Ciro dos Anjos.

Também é reveladora a frase do general, pois desvela uma faceta muito peculiar do atual governo: uma presença intensa, explícita e influente de militares no planalto central do Brasil – especialmente oriundos do Exército –, todos ocupando postos-chaves da administração e do poder, algo, certamente, nunca visto desde o fim da ditadura militar.

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Temos, por exemplo, e pela primeira vez após a derrota da ditadura, três militares nos mais importantes cargos da República: o Presidente, o vice-presidente e o ministro da Casa Civil. Aliás, o próprio Presidente admitiu recentemente, e aparentemente muito satisfeito, que o seu governo “ficou completamente militarizado: quatro generais ministros lá.”[3]

Uma outra possível inferência da frase do general é o apoio da classe média burguesa brasileira a este estado (policial) de coisas; são exatamente os “setores moralistas da classe média“, desinformada, ressentida, conservadora, manipulada por “meia dúzia de endinheirados” e, sobretudo, “infantilizada que se autoidealiza.“[4]

Sociologicamente, isso talvez explique “o êxito relativo da burguesia brasileira que a levou, finalmente, a descobrir e a cumprir as tarefas e os papéis que lhe cabiam no contexto histórico global”, além da “forte identificação das forças armadas com os móveis econômicos, sociais e políticos das classes burguesas e sua contribuição prática decisiva na rearticulação do padrão compósito de dominação burguesa.”[5]

É preciso não esquecer – nós, civis! – que muitos daqueles que participaram do golpe de 1964, mais tarde foram alcançados pelos próprios militares, antes irrestritamente apoiados. Mandatos foram cassados e muitos foram presos, inclusive. Eles não mediram exatamente as consequências do golpe de Estado que tinham ajudado a implantar. E os militares foram implacáveis, não somente com os que resistiram ao golpe desde o início, como também com aqueles que, antes convenientes e oportunistas aliados, não aceitaram depois todas as condições impostas por um regime de exceção. 

Recordemos que em 1964, “o processo coercitivo de desmobilização política contra a esquerda transbordara primeiro contra uma parte da militância liberal, depois contra as próprias lideranças conservadoras que pretendiam sustentar projetos pessoais e políticos independentes. Em 1970, no apogeu, transformara-se num fenômeno de mutilação e desmoralização da elite nacional. Esse ciclo, percorrido em seis anos, não obedeceu a doutrinas, planos ou estratégias. Foi produto de uma anarquia institucional na qual a cada avanço da desmobilização correspondeu um vácuo de legitimidade e a cada vácuo sobreveio um novo espasmo desordeiro. Cada setor interessado na desmobilização saqueou um pedaço das instituições nacionais. Todos fizeram isso acreditando que no final sobrariam instrumentos suficientes para assegurar-lhes uma parcela de poder. Assim, políticos sem voto saquearam as eleições diretas. Parlamentares sem opinião tungaram a inviolabilidade dos mandatos. Guildas patronais surrupiaram a liberdade sindical. Grandes montadoras do ABC paulista submetiam ao DOPS nomes de funcionários que contratavam. Terminada a tosa, a elite brasileira aniquilara-se.” [6]

É preciso que se aprenda com as lições históricas, a fim de que os velhos erros não sejam novamente cometidos, pois a História tende a se repetir, ora como uma tragédia, ora como uma farsa (Marx). Afinal, “a criação voluntária de um estado de emergência permanente (ainda que, eventualmente, não declarado no sentido técnico) tornou-se uma das práticas essenciais dos Estados contemporâneos, inclusive dos chamados democráticos. O estado de exceção apresenta-se, nessa perspectiva, como um patamar de indeterminação entre democracia e absolutismo.” [7]

Concluo, com o extraordinário Eric Hobsbawm, que, definitivamente, “não sabemos para onde estamos indo. Só sabemos que a história nos trouxe até este ponto e por quê. Contudo, uma coisa é clara. Se a humanidade quer ter um futuro reconhecível, não pode ser pelo prolongamento do passado ou do presente. Se tentarmos construir o terceiro milênio nessa base, vamos fracassar. E o preço do fracasso, ou seja, a alternativa para uma mudança da sociedade, é a escuridão.” [8]

Enfim, como cantavam os espanhóis, “Y el cielo se encuentra nublado, no se ve reducir una estrella. Los motivos del trueño y del rayo, vaticinan segura tormenta”[9]


Rômulo de Andrade Moreira é Procurador de Justiça do Ministério Público do Estado da Bahia e Professor de Direito Processual Penal da Universidade Salvador – UNIFACS.

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Notas:
[1] FREUD, Sigmund, Conferências Introdutórias à Psicanálise, Obras Completas, Volume 13, São Paulo: Companhia das Letras, 2014, p. 31.
[3] Esta afirmação foi feita no Palácio da Alvorada, durante uma conversa do presidente com um grupo de estudantes de uma Faculdade de Direito da cidade de Limeira, em São Paulo; o encontro foi transmitido ao vivo em sua página nas redes sociais: https://oglobo.globo.com/brasil/nada-contra-os-civis-diz-bolsonaro-apos-planalto-ficar-so-com-ministros-militares-24247390, acessado em 21 de fevereiro de 2020.
[4] SOUZA, Jessé, A Tolice da Inteligência Brasileira, São Paulo: Editora LeYa, 2015, p. 257.
[5] FERNANDES, Florestan, A Revolução Burguesa no Brasil – Ensaio de Interpretação Sociológica, Rio de Janeiro: Zahar Editores, 2ª. edição, 1976, p. 310. Para este importante autor e pensador brasileiro, há alguns fatores que explicariam, do ponto de vista da sociologia, o relativo êxito da burguesia brasileira, além da influência das Forças Armadas: “as características demográficas, econômicas e sociais da sociedade brasileira; a assistência técnica, econômica e política intensiva das nações capitalistas hegemônicas e da ´comunidade internacional de negócios`; a ambiguidade dos movimentos reformistas e nacionalistas de cunho democrático-burguês e a fraqueza do movimento socialista revolucionário, com forte penetração pequena-burguesa e baixa participação popular ou operária.”
[6] GASPARI, Elio, A Ditadura Escancarada, São Paulo: Companhia das Letras, 2002, p. 226.
[7] AGAMBEN, Giorgio, Estado de Exceção, São Paulo: Boitempo Editorial, 2004, p. 13.
[8] HOBSBAWM, Eric, Era dos Extremos – O breve século XX – 1914-1991, São Paulo: Companhia das Letras, 2012, 2ª. edição, p. 562.
[9] Uma das inúmeras canções da Guerra Civil Espanhola, referida no livro Liberdade, liberdade, de Flávio Rangel e Millôr Fernandes, Porto Alegre: L&PM Editores, 1977, p. 81

Sexta-feira, 28 de fevereiro de 2020

segunda-feira, 15 de abril de 2019

O Estado que negligencia Educação, Saúde e Trabalho se militariza, mata, debocha e mente, por Mário Jr.


Rio de Janeiro tem saída: respeitar a vida humana desde o nascimento, sem exceção. Investir em educação e cidadania. E recusar que um Estado falido e despreparado atire para matar quando quiser



Foto: Tomaz Silva/ABr
GGN. - Poucos lugares do mundo experimentam tanto desprezo pela vida humana como o Estado do Rio de Janeiro. Pessoas e instituições que deveriam proteger a população e garantir seus direitos fuzilam inocentes à luz do dia e abandonam cidadãos à própria sorte, vivendo sem condições mínimas de segurança e dignidade.

No dia 5 de abril, sexta-feira, homens do Exército atiraram contra dois jovens em uma moto que teria furado uma blitz na Vila Militar, zona oeste da capital. Christian, de apenas 19 anos, não resistiu e morreu. O piloto da moto, menor de idade, ficou ferido. Ambos estavam desarmados. Dois dias depois, um domingo, soldados atiraram oitenta vezes contra um carro com uma família a bordo, inclusive uma criança de 7 anos, matando o pai dela e ferindo duas pessoas. No dia seguinte, cidadãos fluminenses morreram afogados e soterrados por causa de um fenômeno conhecido como descaso público, evidenciado quando chove. Não precisa chover tão forte para assisti-lo. Bem, não precisa nem chover.

Diante dos pedidos de socorro dos ocupantes do veículo atacado pelas forças oficiais de segurança, cuja função constitucional é a defesa da pátria, os militares nada fizeram para socorrer as vítimas, “ficaram de deboche”, de acordo com Luciana Nogueira. Luciana estava no veículo e era esposa de Evaldo Rosa dos Santos, morto com as armas compradas com os impostos pagos pelo brasileiro.

O Exército não atirou nos jovens e na família porque confundiu inocentes com criminosos. Quando vidas são perdidas, a questão não pode ser esgotada de maneira tão simples. O Exército atira porque age de acordo com o pouco valor e respeito que o Estado Brasileiro atribui ao povo. Ódio que começa contra criminosos, inclui negros e pobres e pode atingir qualquer pessoa.

Quando abriram fogo para matar, antes de qualquer abordagem inteligente, mesmo sem terem sido ameaçados, os soldados assumiram o risco de atingir crianças, o futuro do país, mas tentaram esconder o crime do conhecimento público. A primeira versão oficial disse que os militares responderam a uma agressão de bandidos. Em muitos casos, mentiras como essa prevalecem. No caso da família fuzilada, a injustiça é óbvia demais e os envolvidos foram presos. Presos pela Justiça Militar, a investigação será realizada pelo próprio Exército. Outro deboche contra a família da vítima.

Durante entrevista no bairro Jardim Maravilha, completamente alagado pela chuva, o prefeito do Rio de Janeiro também debochou. Crivella não quis explicar por que não decretou estado de emergência nas primeiras horas de crise. Disse que a explicação não ajudaria a resolver “bulufas”. Tragédias são recorrentes no Rio. Se a gestão pública não der explicações sobre suas ações, novas tragédias não serão evitadas. Aliás, trechos da ciclovia Tim Maia, que Crivella afirmou que jamais cairia novamente, caíram pela quarta vez. Também deboche do bispo.

Embora o Ministro da Justiça tenha declarado que episódios em que o Exército mata jovens e pais de família podem acontecer, o Rio de Janeiro tem saída: respeitar a vida humana desde o nascimento, sem exceção. Investir em educação e cidadania. E recusar que um Estado falido e despreparado atire para matar quando quiser.