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terça-feira, 18 de junho de 2019

Lilia Schwarcz, no El País: “O Judiciário foi usado como vingança (das elites tradicionais contra a esquerda e justiça social) e impediu que a democracia siga seu curso”



Do El País:

Antropóloga, autora do livro 'Sobre o autoritarismo brasileiro', diz que o vazamento das mensagens de The Intercept Brasil mostra o Judiciário atuando em causas próprias




A historiadora e antropóloga Lilia Schwarzc, em seu escritório.
A historiadora e antropóloga Lilia Schwarzc, em seu escritório. 
O brasileiro é, antes de tudo, um autoritário. Depois de séculos escondendo-se por trás da ideia de de povo aberto, diverso, tolerante, pacífico e acolhedor —o conceito de "homem cordial", cunhado pelo historiador Sérgio Buarque de Holanda em 1936, em Raízes do Brasil—, ele tirou a máscara da cordialidade e revelou-se abertamente intolerante. Essa é a tese do recém-lançado Sobre o Autoritarismo Brasileiro (Companhia das Letras), livro da historiadora e antropóloga Lilia Schwarcz. Em um exercício de ir ao passado para pensar o presente, a autora destrincha as feições do autoritarismo à brasileira, que nasce na escravidão e nas mazelas do racismo e passa pelo patrimonialismo, violência, corrupção e pela desigualdade de gênero, resultando na polarização atual.
Schwarcz observa o autoritarismo presente já no nascimento da República Brasileira. "Os dois primeiros presidentes da nossa história foram militares que governaram em estado de sítio", explica em seu escritório. A autora defende que essa cultura autoritária ganhou novos tons desde as manifestações de 2013 e do impeachment de Dilma Rousseff, que desencadearam uma grande crise sociopolítica. "Esses fatos destamparam o caldeirão da democracia. Valores que muitos brasileiros já tinham, mas se sentiam vexados de disseminar, começaram a aparecer e foram totalmente avalizados pelo atual governo", diz ela. Foi precisamente a busca de razões que explicassem a eleição de Jair Bolsonaro que levou Schwarcz a escrever o livro.
A revelação pela série de reportagens publicadas por The Intercept, no domingo, de que o então juiz federal Sergio Moro, hoje ministro da Justiça, e o procurador da Deltan Dallagnol trocavam mensagens controversas sobre o andamento da Operação Lava Jato é, de acordo com Schwarz, o mais recente capítulo do autoritarismo à brasileira. "Esse episódio confirma a ideia de judicradura ou a ditadura do Judiciário, quer dizer, de um Judiciário que cumpre com sua liturgia, mas que cresceu de modo a não equiparar-se com os outros poderes. É um Judiciário que perde a medida do seu poder e põe em questão a prática da equanimidade".
A historiadora e antropóloga também relaciona o episódios com outros ismos muito presentes na cultura e na história brasileira. O teor das conversas vazadas evidencia a atualidade do autoritarismo e do patrimonialismo no Brasil. Juntamente com a corrupção, seriam os grandes inimigos da República no país.

A subversão da "coisa pública"

Já dizia o historiador José Murilo de Carvalho que "nossa República nunca foi republicana". Schwarcz concorda com ele, ao lembrar que a res pública —a coisa pública ou o bem comum— deveria opor-se aos interesses privados. Mas, no Brasil, observa, nunca foi assim.  "O patrimonialismo é resultado da relação viciada que se estabelece entre a sociedade e o Estado. É o entendimento, equivocado, de que o Estado é bem pessoal, 'patrimônio' de quem detém o poder. O que vimos ocorrer desde domingo [9], com o vazamento de informações sobre Sergio Moro, se chama patrimonialismo. O uso do Judiciário para causas particulares, como forma de vingança e de impedimento à que a democracia siga seu curso", afirma Schwarz.  
A autora também vê esse uso do poder para interesses particulares no Governo Bolsonaro (apesar de não citar diretamente o presidente no livro), que, segunda ela, tem características populistas e autoritárias similares aos governos de Donald Trump, nos Estados Unidos, de Viktor Orbán, na Hungria, de Rodrigo Duterte em Filipinas, ou de Nicolás Maduro, na Venezuela. "São governos que têm uma compreensão muito restrita da democracia. Propagam a ideia de que democracia se resume a ganhar eleição".
No caso do atual Executivo brasileiro, Schwarz destaca o personalismo, a figura forte do Bolsonaro como "salvador da pátria", como traço autoritário. "É essa coisa de 'eu sou o poço da verdade'. Basta ver que a primeira manifestação de apoio ao presidente foi contra o Congresso e contra o Supremo, ou seja, a ideia é do Governo é 'eu não preciso dos outros poderes, eu sou o poder'. É um governo que não sabe governar, que continua com falas de campanha, que não consegue ser propositivo e que não pratica o que é, na minha opinião, a melhor política: a arte de construir consensos. Ao contrário, ele [Jair Bolsonaro] vai cada vez mais apostando na polarização dos afetos", diz.
Schwarcz também menciona a constante histórica que permitiu que diversas famílias se perpetuassem na vida política do país. "Isso de governar pela parentela é um costume aceito no Brasil. Mas agora temos um presidente e três de seus filhos que foram eleitos para outros cargos tomando decisões em Brasília. Houve um recrudescimento da bancada dos parentes, e os Bolsonaro exacerbam esse modelo de familismo muito vigente no país", critica.
Ela pondera, no entanto, que o autoritarismo, pelo menos no Brasil, não se apega a ideologias. "Ele também cabe na esquerda", afirma. O capítulo sobre corrupção —o maior do livro— está quase inteiramente dedicado ao caso do Mensalão[escândalo de compra de votos de parlamentares no Congresso durante o Governo Lula], à Operação Lava Jato e o papel do PT nela. "A polarização que vivemos hoje é consequência disso. Um lado só se radicaliza se o outro se radicalizar também. É com isso que os partidos de esquerda ou progressistas têm que lidar hoje".
Apesar de interpretar o Mensalão como uma tentativa de perpetuação no poder, Schwarcz não considera os governos progressistas autoritários. "Tanto os governos do PT quanto do PSDB estavam muito preocupados em ampliar a educação, em fomentar a inclusão, não afastaram da sua pauta a questão das minorias que estavam ascendendo. A corrupção virou uma máquina de governar, mas a questão do autoritarismo é de outra ordem. O governo atual não tem nenhum apego à questão das minorias, não tem uma agenda progressista, a favor da diminuição das desigualdades, e deu provas de que não tem vocação nem vontade política de batalhar pela educação, a única coisa que pode desarmar o gatilho da desigualdade e da exclusão social", argumenta.

Cicatrizes históricas e a "utopia" da Constituição de 1988

Em Sobre o autoritarismo brasileiro, Schwarcz resgata várias cicatrizes históricas que persistem como nós sem desatar no panorama atual do país. O colonialismo, baseado em um modelo de exploração, e a experiência de colonização portuguesa —uma coroa pequena, com poucos recursos para povoar o território e que baseou-se no sistema latifundiário, além de configurar uma metrópole ausente da vida social local— são responsáveis, segundo ela, pelas especificidades do autoritarismo brasileiro. A maior e mais profunda dessas cicatrizes é, no entanto, a escravidão. “Não é à toa que abro o livro com esse debate. Nem todos os países de governos populistas e autoritários contaram com mão de obra escrava como nós contamos. A escravidão virou uma linguagem entre nós e com graves consequências. Esse é um grande nó da história brasileira, um nó que a gente não desata e que gera esse racismo tão estrutural e institucional que vivemos hoje”. 
A historiadora e antropóloga aponta que a Constituição de 1988 foi uma tentativa de mitigar esses danos históricos, mas falhou em não reconhecer uma parcela da população que não se sentiu atendida por ela. "A Constituição de 1988 é generosa com muitos dos nossos direitos, mas falhou em alguns pontos. Um deles foi não mencionar a situação dos militares. Outro foi não tratar dos privilégios de uma sociedade desigual. Minha geração falhou em não ver isso, em não ver essa parte da população que não se espelhava na utopia da Constituição".  
Para Schwarcz, esse é um dos fatores que explicam "como os brasileiros colocamos no poder um projeto autoritário". As soluções para romper com a cultura de autoritarismo, afirma, passam pelo fortalecimento das instituições e pela educação. Mas não há garantias.  "História não é que nem bula de remédio. A tristeza da História é que, muitas vezes, em vez de irmos para frente, voltamos atrás", diz.

quinta-feira, 21 de março de 2019

A prisão de Temer pela Lava Jato neste momento, após a briga de Maia com Moro, mostra como o estado policial manipula a justiça e o populismo para saciar interesses em torno do poder. Reportagem de Tiago Barbosa


 "A indignação coletiva é, então, apropriada pela Lava Jato para tentar exibir força justamente quando tem abusos freados pelo STF e pelo Congresso."

Do DCM:

Com prisão de Temer, Lava Jato manda recado à classe política. Por Tiago Barbosa

 

Momento em que o ex-presidente Michel Temer é abordado pela Polícia Federal — Foto: Reprodução/TV Globo
A prisão de Temer mostra como o estado policial manipula a justiça e o clamor popular para saciar interesses em torno do poder.
O ex-presidente tem esquemas criminosos há décadas, mas permaneceu intocável enquanto servia como preposto do golpe contra Dilma.
A mediocridade na presidência e o ataque à democracia inspiraram ódio à direita e à esquerda do espectro político – e a prisão dele virou objeto de desejo unânime.
A indignação coletiva é, então, apropriada pela Lava Jato para tentar exibir força justamente quando tem abusos freados pelo STF e pelo Congresso.
O encadeamento dos fatos é espantosa: Rodrigo Maia passa um pito em Moro, pai da Lava Jato, e o amigo do ex-juiz, Marcelo Bretas, manda prender Temer e Moreira Franco, “sogro” de Maia.
A Lava Jato faz teatro para a sociedade ao mandar à prisão – de forma irregular, um drible na proibição de condução coercitiva – um pária público em torno de quem ninguém derrubará uma lágrima.
E manda um recado à classe política para inibir quem se colocar contra interesses autoritários de policiais, procuradores e juízes.
É, em linhas gerais, o braço armado e investigativo do Estado desviado para fins políticos para se sobrepor à sociedade.
A captura tardia de Temer deixa, sim, um sorriso aberto pelo papel deletério desse crápula na queda de Dilma, no desmonte do país e na eleição do tosco Bolsonaro.
Mas é ilusão associá-la a senso de justiça ou seriedade da Lava Jato, há tempos a constituição formal de um poder paralelo criado para distorcer as leis, insuflar o ódio e subjugar o país pelo punitivismo enquanto entrega tudo aos americanos.
Temer, corrupto notório, e companhia calaram nos abusos contra Lula e ajudaram a criminalizar a política, sobretudo a esquerda – e agora, sofrem na pele o preço cobrado pelos tentáculos do estado policial.
No cadafalso do golpe, Dilma profetizou: não vai sobrar pedra sobre pedra entre os golpistas – o problema é que, sob essa ruína, estamos todos, eu, você e um país destroçado por uma elite avessa ao poder popular.

sexta-feira, 15 de março de 2019

Bolsonaro assina decreto que elimina cargos públicos e coloca em risco Universidades Federais


Documento publicado no Diário Oficial da União extingue cargos de comissão e funções de confiança, mas não cargos de livre nomeação. “Está claro que esse é o foco prioritário deste governo - desmontar as universidades públicas”, alerta porta-voz do ANDES.
Foto: Fernando Frazão/Arquivo/Agência Brasil
Jornal GGN – Apoiado no discurso que vinha defendendo desde a corrida eleitoral e, possivelmente, para elevar o nível de aprovação do governo, o presidente Jair Bolsonaro publicou nesta quarta-feira (13) o decreto 9725/19 no Diário Oficial da União (DOU) extinguindo cargos em comissão e funções de confiança, além de limitar a ocupação, concessão e utilização de cargos de gratificação.
“Na campanha, firmei o compromisso de enxugar a máquina pública e torná-la eficiente. Assinei decreto que extingue 21.000 cargos comissionados da esfera federal”, escreveu Bolsonaro pelo Twitter, justificando que o ato significa uma economia de quase R$ 195 milhões de dinheiro público”.
A decisão está sendo tratada pelo governo como uma forma eficiente para “enxugar o sistema público”, mas o efeito previsto é a paralisação da máquina pública. Esse é o alerta do ANDES-SN (Sindicato Nacional dos Docentes das Instituições de Ensino Superior), feito em nota publicada nesta quinta-feira (14).
 O ato presidencial atinge várias instituições no âmbito do Poder Executivo federal, incluindo as instituições de ensino federal (IEF): extingue 21 mil funcionários comissionados e gratificadas, em todo o corpo institucional da União (a partir da publicação do decreto, eles estão automaticamente exonerados); além disso elimina 119 cargos de direção em instituições do ensino federal.
ANDES-SN explica que o decreto não definiu especificamente quais IFE serão afetadas, mas a medida atingirá a todas, até porque o documento afirma também que “mil, oitocentas e setenta [1.870] Funções Comissionadas de Coordenação de Curso” estão eliminadas.
O argumento de “combate aos privilégios” presente no discurso do Planalto e que levou a edição do novo decreto esconde a intenção de desmonte do Estado, alerta o presidente nacional da ANDES, Antônio Gonçalves, lembrando que o volume de cargos de comissão hoje é devido a capilaridade natural do Estado.
O efeito publicitado pelo governo sobre o decreto, de “enxugar a máquina pública” tornando-a mais eficiente, é questionável uma vez que não atinge os cargos de livre nomeação (DAS), que são os chamados “cabides de emprego”. Os cortes valem apenas para os cargos que devem ser ocupados por servidores efetivos.
Gonçalves pontua ainda que o debate sobre as funções gratificadas precisa ser feito com cautela e que o formato proposto pelo presidente da República deve comprometer e até paralisar o desempenho das instituições públicas de ensino.
“Não defendemos penduricalhos de nenhum tipo, pois defendemos uma única linha no contracheque, com remuneração justa”, explica.
“O que está por trás disso é um ataque aos serviços e aos servidores públicos e, em especial à universidade. Está claro que esse é o foco prioritário deste governo – desmontar as universidades públicas”, completa.
O decreto de Bolsonaro também determina a extinção de todas as funções gratificadas em cinco universidades federais: Catalão (GO), Jataí (GO), Rondonópolis (MT), Delta do Parnaíba (PI) e Agreste de Pernambuco (PE). Todas elas foram criadas oficialmente em 2018, a partir do desmembramento de outras instituições federais de ensino.
O documento ainda congela mais de 1.200 gratificações temporárias, pagas a servidores públicos que ocupam funções em diversas áreas do governo. E isso inclui a área de controle interno até gestão de documentos.
O presidente da ANDES diz que a entidade irá analisar se cabe alguma medida jurídica para barrar o decreto. A assessoria jurídica do sindicato está avaliando os impactos da medida nas IFE. Esse será o principal tema debatido no próximo encontro do nacional que já estava agendado para acontecer no final de semana (16 e 17).
“Nós deveremos encaminhar deliberações no sentido de combate a mais esse ataque. Avaliar, para além das questões jurídicas, como vai se dar o embate político”, declara Gonçalves.
“Vamos continuar defendendo nossa carreira, a única linha no contracheque e todos os princípios que norteiam a política remuneratória que nós historicamente lutamos. Mas o ataque contido neste decreto é muito sério. Vemos com muita gravidade esse desmonte e vamos reagir”, conclui.





sexta-feira, 11 de janeiro de 2019

Cadê o Steve Bannon da esquerda? Texto de Luiz Roque Miranda Cardia



"Steve Bannon é de direita. Donald Trump é de direita. O governo dos Estados Unidos continua sendo imperialista, violento e destruidor. Trump promove políticas reacionárias, racistas, xenófobas e etc. A extrema-direita norte-americana, como o que resta da Ku Klux Klan, foi protagonista da eleição do atual presidente. Internacionalmente, Bannon lidera uma fundação chamada “O Movimento” que articula políticos de direita na Europa, e apoia governos de extrema-direita como o do fascista Viktor Orban da Hungria."

Do site Disparada:




Steve Bannon é de direita. Donald Trump é de direita. O governo dos Estados Unidos continua sendo imperialista, violento e destruidor. Trump promove políticas reacionárias, racistas, xenófobas e etc. A extrema-direita norte-americana, como o que resta da Ku Klux Klan, foi protagonista da eleição do atual presidente. Internacionalmente, Bannon lidera uma fundação chamada “O Movimento” que articula políticos de direita na Europa, e apoia governos de extrema-direita como o do fascista Viktor Orban da Hungria. Dito tudo isso, para evitar ruídos e acusações histéricas, o objetivo deste texto não é discutir a ideologia conservadora, ou a posição à direita no espectro político no qual se encontra Steve Bannon e seu movimento, e muito menos advogar em prol de seu reacionarismo. A questão proposta é sobre o problema das estratégias de formulação, comunicação e organização, de um movimento político que seja capaz de efetivamente disputar o poder e transformar (inclusive para pior) estruturas profundas da economia política nacional e mundial.
O personagem dessa reflexão é Steve Bannon, e não Donald Trump, porque ele é que formula algo muito mais amplo e duradouro que a eleição e administração de Trump. Bannon foi militar nos anos 70 e 80, tendo servido no Pacífico e também no Golfo Pérsico, e chegou a trabalhar no Pentágono, enquanto estudava para obter um mestrado em Estudos de Segurança Nacional na Universidade de Georgetown. De cara, fica evidente que é um sujeito altamente treinado e ligado às questões mais sensíveis de seu Estado nacional. Depois disso, Bannon trabalhou no poderoso banco Goldman Sachs e saiu para criar seu próprio banco de investimento focado na indústria do entretenimento. Nos anos 90 ingressa na indústria cinematográfica como produtor executivo em Hollywood. Assim, fica óbvio que Bannon conhece também, por intensa experiência, os meandros do poder econômico e midiático dos EUA.
A partir daí sua trajetória política fica clara e cristalina. Nos anos 2000, Bannon produziu e dirigiu diversos documentários políticos com viés conservador do movimento Tea Party1 republicano, iniciando com uma homenagem a Ronald Reagan chamado “In The Face of Evil” (2004), seguido por filmes como: “Fire from the Heartland: The Awakening of the Conservative Woman” (2010), “The Undefeated” (2011), e “Occupy Unmasked” (2012). O primeiro é uma série de entrevistas com mulheres de diversas classes sociais sobre política. O segundo trata da ex-governadora do Alaska, Sarah Palin, que concorreu como vice-presidente na chapa de John McCain do Partido Republicano em 2008. O terceiro é uma abordagem crítica ao movimento Occupy Wall Street.
Depois da experiência como militar, banqueiro, e cineasta, Steve Bannon torna-se um protagonista da arena da luta política do século XXI, a internet, no famigerado site Breitbart News. Acusado, entre outras coisas, de sexista e xenófobo, mas principalmente de disseminar fake news, o site foi fundado em 2007 por Andrew Breitbart, que chegou a dizer que Bannon era a Leni Riefenstahl2 do Tea Party. Com a morte do fundador em 2012, Steve Bannon assumiu o Breitbart News e declarou abertamente que o site era o canal da Alt-Right3. É como chefe do Breitbart News que Bannon torna-se figura mundialmente conhecida, catapultando-se para o comando da virada eleitoral na reta final da campanha de Donald Trump contra Hillary Clinton, e então à Casa Branca.
Bob Woodward4 em seu livro-reportagem sobre os dois primeiros anos da Administração Trump, chamado “Medo: Trump na Casa Branca”, conta que Bannon entra na campanha num momento de péssimos resultados nas pesquisas eleitorais, chegando ao ponto do Diretório Nacional Republicano cogitar retirar Trump da corrida, e colocar o vice Mike Pence como candidato, para evitar a pior e mais humilhante derrota de todos os tempos para os republicanos. O novo estrategista da campanha radicaliza e simplifica o discurso. Vale a pena reproduzir trecho do livro de Woodward no qual Bannon expõe a nova estratégia ao candidato:
“As elites do país se sentem confortáveis em administrar o declínio. E os trabalhadores deste país não estão satisfeitos. Eles querem tornar a América grande novamente. Vamos simplificar a campanha. Hillary é a porta-voz de um status quo corrupto e incompetente de elites que se sentem à vontade em administrar o declínio. Você é o porta-voz do homem esquecido que quer tornar o país grande de novo. E vamos fazer isso com alguns poucos temas. Número um, vamos impedir a imigração ilegal e começar a limitar a imigração legal para recuperar nossa soberania. Número 2, você vai trazer os empregos de volta ao país. E número três, vamos sair das guerras injustas no exterior. Esses são os três temas em que Hillary não pode se defender. Ela é parte daquilo que abriu as fronteiras, é parte daquilo que fez acordos de comércio ruins e deixou os empregos irem para a China. Ela apoiou todas as guerras. Vamos martelar nisso. É só. Insista nisso.”5
A radicalização trumpista foi vitoriosa. A internet foi decisiva. Trump utilizou as redes sociais de forma excessiva. O tema das fake news tornou-se pauta central da grande mídia contra o presidente eleito que preferia usar o Twitter para se comunicar direto com os seguidores, do que responder as perguntas dos meios de comunicação corporativos.
Bannon ficou poucos meses na Casa Branca, e travou embates virulentos, por vezes sorrateiros, com diversos setores que compõe o governo. A família do presidente era um dos focos de conflito, pois a filha Ivanka e o genro Jared Kushner tem cargos de assessores sênior e livre trânsito na Casa Branca, e os dois defendem agendas a favor de acordos globais que Bannon era contra, além de também polemizarem contra as restrições imigratórias. Segundo Woodward, o próprio presidente tira sarro dizendo que os dois são “democratas porque foram criadas em Nova York”, mas o fato é que são agentes políticos realmente relevantes dos negócios bilionários do pai e sogro, e que expressavam contradições com o programa político antissistema da direita alternativa de Bannon. Também ocorreram conflitos com a presença sempre perene, seja em governos democratas ou republicanos, do establishment de Wall Street em posições chave da equipe econômica, geralmente representados por algum banqueiro do Goldman Sachs, antigo empregador de Bannon.
O fato é que Steve Bannon efetivamente enfrentou o status quo dentro da Casa Branca, e defendeu as agendas de campanha que mobilizaram as bases que elegeram Trump. Em palestra para estudantes de Oxford em novembro de 2018, Bannon admite que seu movimento e programa político fazem parte de um processo contínuo, complexo e contraditório, com vitórias e derrotas parciais, mas defende o governo Trump como um primeiro passo de ruptura com o establishment financeiro e com a globalização. Bannon inicia sua palestra dizendo que seu movimento é perigoso porque “é contra a ordem estabelecida”.

Segundo ele, os EUA estão apresentando um crescimento de 3,5% ao ano, quase o dobro da média anterior de 1,8%, ressaltando que Obama e os democratas convenceram as pessoas que este baixo crescimento é o novo normal. Mas deixando de lado o conteúdo de seu discurso ideológico sobre o suposto sucesso econômico do governo Trump em contraste com a “ordem estabelecida” anterior, Bannon discute com os alunos de Oxford questões sobre a organização e a forma de fazer política que ele propõe. Ele se intitula abertamente populista e nacionalista. Seu conceito de populismo diz respeito à expressão dos interesses dos “little men”, em tradução livre e contextual, do homem médio, da população comum, em oposição às elites ilustradas e endinheiradas. O nacionalismo diz respeito à soberania de seu país para defender os interesses dessa população comum da competição internacional, ou seja, da globalização.
Sob as acusações de xenofobia e racismo, Bannon se defende dos estudantes dizendo que seu nacionalismo é econômico, não étnico. Ele repudia duramente os ataques violentos de organizações racistas como a Ku Klux Klan, e num clichê comum também à direita brasileira, acusa a esquerda de também praticar atos violentos, no caso dos EUA, ele condena as supostas ações violentas do movimento Black Live Matters. Mas isso é lateral em seu pensamento. O que importa é discutir a defesa da cidadania norte-americana independente da etnia. Com um argumento astuto, Bannon diz que ao lutar por restrições imigratórias está defendendo os empregos e salários dos negros e hispânicos que sofrem com a competição da força de trabalho imigrante, e radicaliza, dizendo que é o establishment financeiro que exige imigração para pressionar para baixo os salários da força de trabalho. Fica claro que a direita alternativa liderada por Bannon tem a classe trabalhadora como sujeito e objeto de sua interpelação.
Questionado sobre o enfraquecimento da democracia que seu discurso radical de direita causa ao propagar a desconfiança da população nas instituições políticas estabelecidas e também contra a mídia, Bannon rebate a acusação com uma argumentação fática, e confronta as concepções liberais tradicionais sobre política. Segundo ele, as eleições de 2016 tiveram 114 milhões de votantes, e foi o maior engajamento eleitoral da história dos EUA. Mas não só isso, a população norte-americana está permanentemente mobilizada, à direita e à esquerda, participando do debate público, manifestando-se, através dos novos meios de comunicação e nas ruas. E aqui, o estrategista da nova direita populista aprofunda seu discurso antissistema.
Segundo Bannon, o populismo está ressurgindo contra as estruturas de poder em todo o espectro político. Ele argumenta que a principal missão do Breitbart News sobre seu comando foi confrontar o establishment republicano, e não o Partido Democrata. Após a vitória de Trump nas primárias contra os oligarcas republicanos como Mitt Romney, John McCain, os Bush, e etc, ele conta que foi sondado por agentes da esquerda para combater o establishment democrata, ou seja, Obama, os Clinton e etc. Segundo ele, a esquerda percebeu a necessidade de um “Breitbart progressista”. Contra as acusações de que seu discurso é baseado na raiva, ele diz que o populismo “esquentou” a política, e que isso é bom para todos, inclusive para a esquerda que venceu as eleições legislativas de 2018, porque, de acordo com ele, se mobilizou através desse “esquentamento” e dessa raiva, e deve ser admirada por isso.
Bannon analisa também que o Brexit6 faz parte deste contexto pela direita, e cita pela esquerda o líder trabalhista Jeremy Corbyn na Inglaterra, e Bernie Sanders nos EUA. Ele revela que seu movimento busca conquistar o apoio dos eleitores de Sanders nos EUA, pois tem em comum o nacionalismo econômico, e indica dados de que esses eleitores não votaram e não pretendem votar em Hillary Clinton em 2020. O manejo dos instrumentos digitais ocupa lugar fundamental em sua estratégia. Desde meios de comunicação, como foi o Breitbart News e as redes sociais a exemplo do Twitter, mas principalmente a coleta e análise de dados em massa que servem para visualizar os anseios da população através da internet. “O Movimento” oferece, como arma principal para os líderes da direita, o processamento de big data sobre as tendências políticas da população. Na Europa, Bannon diz que está trabalhando pelo diálogo cada vez maior entre os líderes populistas de direita, e está realizando pesquisas, análises e montando estratégias sobre as eleições para o Parlamento Europeu em maio de 2019, e avalia que o populismo deve varrer o establishment liberal da União Européia em Bruxelas.

Por fim, Steve Bannon faz uma audaciosa análise de conjuntura do difícil momento que vive o governo Trump e sua projeção para as eleições de 2020. Com a derrota legislativa de 2018 e perda do controle da Câmara para os democratas sob o comando da experiente Nancy Pelosi, as investigações e o desgaste contra o presidente devem se intensificar. Esse movimento para derrubá-lo irá forçá-lo a buscar sua base eleitoral radical, por isso a contra-ofensiva na questão da imigração encaminhando a promessa de campanha do muro na fronteira com o México. Essa radicalização do cenário político coloca o establishment financeiro, que quer estabilidade, novamente a favor de Hillary Clinton, que já trabalha para ser a candidata democrata em 2020. No entanto, os setores populistas de esquerda é que foram os protagonistas das eleições legislativas e conquista da Câmara, o que irá radicalizar a luta dentro do Partido Democrata também. Dessa forma, segundo Bannon, pode surgir uma alternativa de centro dos dois partidos que queiram evitar uma disputa radical em 2020, unindo moderados como Mitt Romney (republicano) e Joe Biden (democrata), numa terceira via viável pela primeira vez na história.
Este pequeno retrato da atuação e formulação política de Steve Bannon compõe um quadro mais amplo no qual a maior potência econômica e militar do mundo está em profunda transformação desde a crise de 2008, e portanto, também toda a geopolítica e economia política mundial. É uma transição turbulenta, na qual não é possível ainda prever seus desdobramentos e como se estabilizará o novo regime de acumulação e o modo de regulação deste novo capitalismo que surgirá da crise do pós-fordismo e do neoliberalismo. Mas interessa ressaltar a importância do populismo nessa transição. A direita sai na frente, elege um presidente no centro econômico e militar do capitalismo, ainda que com muitas dificuldades para governar, e forja um ativista e estrategista de longo prazo. Se Bannon estiver certo e for pelo menos parcialmente vitorioso nas disputas do Parlamento Europeu e na eleição de 2020, a tendência populista neoconservadora deve se consolidar, e em caso de derrota, as contradições que originam esses movimentos não devem desaparecer.
A esquerda lança alguns líderes, mas que tem muito mais dificuldades de chegar ao poder, como Corbyn e Sanders, ou não consegue fazer avançar um programa minimamente transformador dentro das estruturas estatais existentes, como o Syriza na Grécia algemado pelo financismo alemão, e os governos de esquerda na América Latina, que na sua maioria foram derrotados ou derrubados, mesmo quando sequer tinham um programa radical, como é o caso do Brasil. No entanto, as dificuldades de composição de interesses contraditórios dentro do Estado não é exclusividade da esquerda, como se vê na passagem de Bannon pela Casa Branca.
Olhando para o Brasil, o recém empossado Jair Bolsonaro parece também enfrentar contradições insolúveis entre agendas econômicas e sociais incompatíveis de setores que integram o governo. Mas sua relação direta com sua base popular e o esforço de expressar sentimentos do homem comum, do “little men”, como diz Bannon, indicam haver uma força populista que sustente por um tempo o novo governo. O apelo pseudo-nacionalista joga papel central, e os instrumentos digitais mais ainda, o enfrentamento com os grandes meios de comunicação é claro e insofismável apesar do apoio midiático às pautas econômicas. Apesar de hipocrisias e da dominação flagrante do capital financeiro sobre o governo, o fato inegável é que a nova direita brasileira em ascensão tem uma estratégia populista, ainda que incipiente e tosca. O problema é que a esquerda sequer tem isso. Lula, o líder mais popular da esquerda brasileira, está preso, e nunca enfrentou o status quo econômico ou midiático.
Na verdade, o populismo não era o centro da estratégia política de Lula e seu partido, e nem o nacionalismo o conteúdo de seu programa. Pelo contrário, o PT surge contra a tradição nacional-populista do trabalhismo de Getúlio Vargas, com apoio teórico da sociologia da USP que criticava o populismocomo manipulação oportunista das massas. Essa concepção vulgar e negativa de populismo já foi criticada em diversas ocasiões, mas importa menos o debate teórico – que também deve ser realizado – do que suas repercussões políticas. Com a estigmatização negativa do termo populista, realizada também pela própria esquerda, os partidos e movimentos populares brasileiros foram alijados da estratégia e dos instrumentos necessários para chegar ao poder, e para enfrentar a ordem estabelecida.
É preciso refletir se é possível construir um populismo pujante de esquerda que chegue ao poder. De imediato, uma das questões candentes é retornar aos formuladores teóricos e à história do populismo latino-americano e brasileiro. A partir disso, reconstruir organizações de massas como as que já existiram, para mobilizar o povo no sentido de influenciar e transformar as estruturas da economia política. Para tal, seria preciso não ter medo de se relacionar com o homem comum e suas contradições ideológicas, o que cria problemas axiológicos para a esquerda sobre identidades religiosas, raciais, de gênero, e etc. Além disso, teria que se investir prioritariamente nos novos meios de comunicação e processamento de dados para conseguir interpelar essa população que se vê desconectada com o sistema político, o que envolve infraestruturas materiais e financeiras geralmente não disponíveis para a esquerda. De toda forma, a direita norte-americana mostrou sucesso e a direita brasileira a emula mesmo que precariamente. A esquerda populista dos países centrais ainda se move com pouca efetividade, mas atua com ousadia e sem dúvida está em ascensão. Por aqui, precisamos urgentemente de um Steve Bannon de esquerda, ou mais precisamente, de uma organização política capaz de levar a cabo uma estratégia nacional-populista de esquerda (para que não seja acusado de esperar um salvador da pátria).

Notas de Rodapé

  1. Refere-se à ala radical do Partido Republicano dos EUA que é informal e passa a se organizar a partir da eleição do democrata Obama em 2009.
  2. Referência à diretora alemã de “O Triunfo da Vontade”, icônico filme de propaganda nazista na década de 30.
  3. Abreviação em inglês para “direita alternativa”, expressão que surge para designar diversos movimentos de direita antissistema.
  4. Um dos mais importantes jornalistas políticos de todos os tempos, expôs, com seu colega Carl Bernstein no Washington Post, o escândalo do Watergate que derrubou o presidente Richard Nixon em 1976. Venceu dois prêmios Pulitzer, o primeiro pela investigação sobre Nixon, e o segundo pela cobertura dos atentados terroristas do 11 de Setembro.
  5. WOODWARD, Bob. Medo: Trump na Casa Branca. São Paulo: Todavia, 2018, p. 35.
  6. Abreviação para o plebiscito que decidiu pela saída do Reino Unido da União Européia e também é caracterizado como um movimento populista e nacionalista.