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segunda-feira, 9 de março de 2020

The Intercept: Quem são os juízes-celebridade espalhafatosos e explicitamente partidários que militam na direita


 The Intercept Brasil:


Juiz Marcelo Bretas durante cerimônia de posse ao Governo do Estado do Rio de Janeiro.


Quem são os juízes-celebridade espalhafatosos que militam na direita

Nayara Felizardo, João Filho — 8 de Março
Essa figura é, ao mesmo tempo, agente e produto da degradação gradual pela qual vem passando a democracia brasileira.
O JUIZ-CELEBRIDADE é uma figura cada vez mais comum nestes tempos obscuros. Ele vive dando palestras, opina constantemente sobre assuntos que não dizem respeito à atividade judicial, ataca instâncias superiores e se dedica à militância política.
Sergio Moro talvez seja a maior referência desse tipo de juiz, que rejeita sistematicamente alguns dos princípios básicos que norteiam o ofício da justiça, mas que é visto por parte relevante da sociedade como um justiceiro do bem, um herói capaz de atropelar as leis para enquadrar vilões e proteger cidadãos de bem. Ele e alguns de seus companheiros lavajatistas abriram as portas para um festival de conduções coercitivas irregulares, grampos ilegais e vazamentos seletivos de informação — atos incomuns, mas que sem eles teria sido impossível transformá-lo numa celebridade. O juiz de primeira instância soube aproveitar os holofotes e, depois de ajudar a destruir a classe política, entrou para a política pelas mãos de Bolsonaro, o maior beneficiário político da sua atuação enquanto juiz.
As principais orientações do Código de Ética da Magistratura têm sido desprezadas pelo juiz-celebridade, que tem sua atuação regida por um certo “sentimento social”, como diria Barroso, e não pelas regras da magistratura. O código recomenda que os magistrados devem, por exemplo, evitar comportamentos de autopromoção, opinar fora dos autos sobre processos que estão em andamento e manter distância equivalente das partes. Mas juízes-celebridade não demonstram qualquer pudor em se autopromover, opinar sobre processos em andamento e aparecer frequentemente confraternizando com o bolsonarismo. Não foi à toa que esses juízes viraram baluartes da militância de extrema direita.
Ludmila Lins Grilo é uma dessas estrelas da magistratura contemporânea. Aluna dedicada do guru Olavo de Carvalho, aquele intelectual que tem dúvidas sobre a esfericidade do planeta Terra, a juíza é figurinha carimbada nos canais de comunicação alinhados à extrema direita governista como Terça LivreSenso Incomum e Leda Nagle. No YouTube, canais bolsonaristas exaltam a juíza com títulos como “Juíza de direito detona ministros do STF, ativismo judicial e interesses globalistas no judiciário” ou “Juíza conservadora repercute na internet ao mandar recado enigmático a ‘elevado figurão da magistratura nacional’”.
A juíza, que atua regida pelos princípios alucinados do olavismo, compartilha do mesmo espírito lacrador do seu mestre. Está sempre combatendo as esquerdas nas redes sociais e provocando ministros de instâncias superiores. Adepta da escola jurídica lavajatista, usa a visibilidade do cargo para se promover como figura de relevância no debate político. No ano passado, ela foi convidada para palestrar em um seminário promovido pelo Ministério das Relações Exteriores. O tema da palestra foi “O ativismo judicial a serviço do globalismo”. Para os olavistas, o conceito de globalismo se refere à ideia de que o mundo é controlado por elites marxistas internacionais. É esse tipo de maluquice, sem nenhum respaldo na realidade dos fatos, que faz a cabeça da juíza-celebridade.
Quando o presidente da República compartilhou com o país um vídeo pornográfico no carnaval, Grilo usou as redes sociais para defendê-lo. Para a juíza, Bolsonaro fez muito bem em exibir conteúdo pornô para denunciar as imoralidades do Carnaval.
Grilo considerou um ato flagrantemente incompatível com a dignidade, a honra e o decoro do cargo — e que configura um evidente crime de responsabilidade — em militância em defesa da moral e dos bons costumes. É o duplipensar de George Orwell em estado bruto. É triste, porém, ao mesmo tempo fascinante ver o que o olavismo é capaz de fazer com a mente das pessoas.
As decisões de Ludmila Lins Grilo no TJ de Minas Gerais, comarca de Buritis, são marcadas pelo punitivismo e refletem o rigor da lei que ela defende em seus textos e palestras. Uma pessoa que roubou um celular ou que se envolveu em uma briga e feriu outra com faca é severamente condenada “para a garantia da ordem pública, considerando o temor e sensação de insegurança que tal crime impôs na comunidade”.
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Ludmila Grilo não esconde sua admiração por Olavo de Carvalho, o guru do bolsonarismo, no Twitter.
Reprodução: Instagram/Ludmila Lins Grilo
No ano passado, em uma audiência na Câmara dos Deputados para discutir projetos de lei que endureciam o sistema penal, entre eles as propostas do pacote anticrime de Sergio Moro, Grilo disse: “Nós sabemos que há muitos juízes que acabam seguindo opções extremamente garantistas e que vão se valer disso para realmente colocar criminosos perigosos na rua antes do tempo”.
Ela já condenou um homem acusado de roubo de celular com arma de fogo, na companhia de dois adolescentes, a 11 anos e 5 meses em regime fechado e sem direito de recorrer em liberdade. As grandes facções criminosas, cujo recrutamento de novos membros acontece principalmente nos presídios, agradecem à sanha punitivista de Grilo.
Marcelo Bretas é outro expoente dos juízes-celebridade. É um magistrado marombeiro, que adora exibir seus músculos no Instagram com fotos tiradas em frente ao espelho. Lavajatista de carteirinha, o juiz blogueirinho se sentiu muito à vontade no figurino de herói e se mantém permanentemente sob os holofotes. Esse status foi conquistado porque Bretas descumpre o código de ética da magistratura e as recomendações do CNJ, que lhe ajudaram a conquistar essa aura de cowboy lavajatista implacável com a criminalidade.
Todas as suas manifestações públicas relacionadas à política estão alinhadas ao bolsonarismo. O juiz tem atuado escancaradamente como um militante bolsonarista de uma forma nada sutil. O juiz aceitou o convite de Flávio Bolsonaro para participar da posse do presidente. Naquela época, o filho mais velho de Bolsonaro já estava enrolado com milicianos e rachadinhas em seu gabinete, mas isso não constrangeu Bretas. A sintonia com Jair Bolsonaro e sua família é tanta que, quando o presidente o seguiu no Twitter, Bretas comemorou e se disse honrado.
Quando Bolsonaro viajou ao Rio de Janeiro, o juiz usou o Instagram para lhe dar boas vindas e se juntou a ele no evento de inauguração da alça de ligação da Ponte Rio-Niterói com a Linha Vermelha, andando em carro oficial da presidência e aparecendo ao lado do presidente cantando um hino evangélico. Esse tipo de comportamento contraria uma resolução do CNJ que regula o uso das redes sociais de juízes. O texto aponta que juiz pode ter opinião política, mas veda manifestações públicas de simpatias político-partidárias ou “em apoio ou crítica a candidato, lideranças políticas ou partidos políticos”, a fim de preservar a imparcialidade.
Juiz Marcelo Bretas e sua esposa juíza Simone Bretas presentes durante cerimônia de inauguração da alça de ligação da Ponte Rio-Niterói à Linha Vermelha.
O juiz Marcelo Bretas e sua esposa, a juíza Simone Bretas, na cerimônia de inauguração da alça de ligação da Ponte Rio-Niterói à Linha Vermelha.
 
Foto: Nayra Halm /Fotoarena/Folhapress
Além dos holofotes, Marcelo Bretas também é guiado pela religião. Segundo ele, o principal livro da sua vara não é a Constituição, mas a bíblia. Ele tem o costume bizarro de citar versículos bíblicos em suas sentenças, como se vivêssemos sob um estado fundamentalista cristão. Para delírio da sua claque evangélica, o juiz já insinuou até mesmo que a teoria da separação dos poderes teria sido criada pelo profeta Isaías, e não por Montesquieu.
Bretas foi quem autorizou a prisão do ex-presidente Michel Temer, que aconteceu à margem da lei, já que o próprio juiz não apresentou na sentença absolutamente nenhum fato que justificasse a prisão preventiva. À época, Lava Jato e STF travavam uma guerra declarada, e Bretas aproveitou para mandar indiretas aos ministros, transformando a sentença em um ataque contra juízes da suprema corte. Ou seja, o juiz de primeira instância, além de autorizar a prisão de um ex-presidente da República de forma irregular, usou a sentença para provocar seus superiores.
Bretas não poupa julgamento de valor em suas decisões e costuma ser mais rigoroso com acusados famosos. Reportagem do site Conjur mostra que a dosimetria das penas que aplicadas por ele varia até 273%. O critério para condenar um acusado a mais anos de prisão depende do quão famoso ele é.
Para o juiz, o que ele considera como “ambição” dos réus é “desmedida”, “repugnante”, “reprovável” e deve ser considerado como um agravante para penas mais severas. Além de apresentar um texto sofrível, Bretas abusa dos adjetivos e das opiniões desnecessárias nas sentenças. Como todo bom juiz-celebridade, o palavreado adotado nas sentenças parece estar voltado para agradar a torcida.
Vejamos alguns exemplos de sentenças. Nessa, relativa à Operação Mascate, Bretas não consegue disfarçar o desprezo pelos réus:
“(…)de tudo que foi apurado nestes autos, a única conclusão possível é que os acusados SERGIO CABRAL e WILSON CARLOS há muitos anos sustentam uma vida de luxo e conforto com o fruto de vários acordos criminosos feitos com várias empresas (…)”
“São, igualmente, reprováveis os motivos que levaram o condenado a dedicar-se intensamente à atividade criminosa apurada nestes autos, considerando as grandes somas de dinheiro de origem espúria posto em circulação clandestinamente e por meio de centenas operações de branqueamento. Toda a atividade criminosa aqui tratada teve a finalidade de que Sergio Cabral, seus familiares e comparsas integrantes da organização criminosa desfrutassem de uma vida regalada e nababesca”.
“Os autos revelaram a ambição desmedida de Carlos Miranda, que era o mais importante homem na administração financeira dos milhões de reais de propinas recolhidas em favor da referida organização criminosa”.
“Os autos revelaram que Ary Filho possuía ambição desmedida em manter-se ao lado de pessoas detentoras de poder, tanto que participava intensamente das campanhas eleitorais de Sergio Cabral”.
Nesse mesmo julgamento, Bretas comenta o fato de Sérgio Cabral ter pedido a sua suspeição depois que o magistrado deu entrevista para o site Valor Econômico antecipando a decisão do julgamento. Foi o próprio magistrado que julgou se tinha agido errado e, claro, concluiu que não. “Em verdade, parece a defesa apegar-se a filigranas, talvez porque não existem argumentos concretos para a oposição da suspeição (…) Em verdade, fica a impressão de que a própria defesa do acusado/excipiente, antecipando-se a possível decisão desfavorável, equivocou-se em fazer uma leitura tendenciosa das declarações veiculadas na imprensa”.
Em outras sentenças, Bretas faz declarações dignas de um político populista que busca dialogar com o tal “sentimento social” de Barroso, sempre abusando de opiniões particulares como se fosse um tuiteiro qualquer:
Grilo e Bretas têm tudo para seguir o mesmo caminho de Sergio Moro, que virou celebridade atuando politicamente na magistratura e, assim, pavimentou o caminho para se transformar num político popular de extrema direita.
O espírito jurídico dos nossos tempos é lavajatista: reacionário, punitivista e populista. É dentro desse cenário que está sendo forjada a figura do juiz-celebridade. Essa figura é, ao mesmo tempo, agente e produto da degradação gradual pela qual vem passando a democracia brasileira. Quando um juiz vira celebridade atropelando as regras, morre um pouco a democracia.

segunda-feira, 23 de setembro de 2019

Um tratado sobre o adesismo acrítico e/ou oportunisa brasileiro, por Luis Nassif



  "Trata-se de um vício intrínseco ao brasileiro que quer galgar o poder. E não se corrige com cursos em Yale ou Harvard, porque, no fundo, a intenção não é assimilar princípios e fundamentos dos pais fundadores dos Estados Unidos, mas ganhar influência no país dos bacharéis.",




 
Em novembro passado, o Ministro Luis Roberto Barroso, do Supremo Tribunal Federal (STF) soltou uma de suas boutades sobre o processo jurídico-político que conduziu Jair Bolsonaro ao poder: “a sociedade brasileira deixou de aceitar o que é inaceitável“. Falava como o líder da partidarização do STF.

Ontem a menina Agatha foi assassinada pela Polícia, a sexta criança assassinada em pouco tempo. O Ministro Gilmar Mendes protestou. Barroso se manteve calado, em um silêncio sobre o inaceitável ou, talvez, aceitando o inaceitável em nome da causa justa.

No auge da Lava Jato, depois de se equiparar a outros juristas políticos, como Joaquim Nabuco, Ruy Barbosa e San Thiago Dantas, o humilde Barroso derramou sabedoria em inúmeras palestras e entrevistas, nas quais se propunha a interpretar o brasileiro: preguiçoso, superficial, malandro.
Com o tempo, o próprio Barroso se tornaria o personagem preferencial em qualquer análise sociológica sobre uma das características mais marcantes no homem público brasileiro: a tendência secular ao adesismo.

No excelente “Forças Armadas e Política no Brasil”, o historiador José Murilo de Carvalho lembra a queda da República Velha, na famosa Batalha de Itararé, aquela que nunca houve.
Embora apenas parcela minoritária do Exército tenha tomado parte na revolta, e todos os generais da ativa tivessem permanecido leais ao governo, o sistema político montado por Campos Sales no início da República já se achava suficientemente desmoralizado, carcomido, na linguagem da época, para que ninguém se dispusesse a arriscar a vida em sua defesa.

A grande batalha da revolução, a de Itararé, foi celebrada pelo poeta Murilo Mendes como a maior batalha da América do Sul que não houvera. No melhor estilo brasileiro, quando a sorte do movimento pendeu para os rebeldes, todos aderiram, inclusive os generais do presidente Washington Luís.

Em todos os golpes militares, os golpistas eram minoria. Mas, consumado o golpe, imediatamente havia a adesão em massa.


O general Leitão de Carvalho, o homem da Missão Francesa (se a memória não falha, genro de Machado de Assis), defensor intransigente do legalismo e da não politização do Exército, foi convidado por Góes Monteiro para reformar a força, no bojo do golpe de 1937 do Estado Novo. Aceitou sem pestanejar.

Em 1932, segundo relato que ouvi do meu biografado, Walther Moreira Salles, o então interventor em São Paulo, José Carlos de Macedo Soares, aderiu à revolução constitucionalista e comunicou o fato a Getúlio Vargas através de um telegrama. No final do telegrama, um PS: “minha senhora manda lembranças a dona Darcy Vargas e ao senhor”.

Trata-se de um vício intrínseco ao brasileiro que quer galgar o poder. E não se corrige com cursos em Yale ou Harvard, porque, no fundo, a intenção não é assimilar princípios e fundamentos dos pais fundadores dos Estados Unidos, mas ganhar influência no país dos bacharéis.

Sugere-se a algum acadêmico interessado começar a trabalhar o tema para sua tese de doutorado. Ayres Brito, Carmen Lúcia, Barroso, Fachin, Janot, Raquel, Luiz “mato no peito” Fux, Toffoli, forneceriam excelente material didático. Assim como os poucos que resistiram ao furor da ventania, como Celso de Mello, Marco Aurélio, Lewandowski, Gilmar com todas suas polêmicas.
 
Será mais elucidativo do que todas as obras sobre a jurisprudência brasileira.
Por adesismo não se entenda apenas apoio acrítico ao Presidente, mas a submissão aos esquemas de poder do momento, às ondas da opinião pública, a submissão ás linhas editoriais ditadas por interesses particulares.

Onde estariam as raízes dessa maldição brasileira, de instrumentalizar princípios em interesse próprio? Na herança escravagista e do coronelato, que obrigava cada pessoa a se abrigar na sombra de um coronel para se defender contra o arbítrio? No mercantilismo superficial de parte da elite, que enfraqueceu qualquer ideia de projeto nacional? No poder de reis e presidentes de fazerem e desfazerem os campeões nacionais? No provincianismo de se pretender cidadão de segunda classe em país de primeira classe? Na síndrome de Miami, que cativou até Ministros do Supremo?

Mais relevante é entender as mudanças das últimas décadas. Com globalização ou sem, a síndrome do puxa-saco permaneceu viva, como valor imemorial na cultura brasileira.

É desprezado por artistas populares, por chefes maduros, pela literatura, pelos humoristas. Mas resiste firme e altaneiro: o puxa-saco é coisa nossa.

segunda-feira, 2 de setembro de 2019

O sadismo da procuradora arrependida. Desculpa uma ova! Por Armando Coelho Neto, ex-delegado da PF e representante da Interpol




O Direito Penal contempla a figura do “arrependimento eficaz”, cujo exemplo clássico é tentar matar alguém com veneno; o criminoso arrependido logo após o ato, ministra o antídoto.


O sadismo da procuradora arrependida. Desculpa uma ova!

por Armando Rodrigues Coelho Neto

Prazer sexual na dor física ou moral dos outros é o conceito mais simples de sadismo, palavra que tem origem no Marquês de Sade (França), cujos personagens por ele criados se envolvem em crimes, “comportamento sexual atípico”, depravações e ou situações abjetas envolvendo crianças – impublicáveis neste contexto. Apropriado pela ciência, o termo passou a abranger perversões sexuais latentes, enrustidas, que transparecem em atitudes fora de quatro paredes. Sem distanciar-se muito da sexualidade, o psicanalista alemão Erich Fromm (1900/1980) fala de “sadismo frio”, que revela as mesmas características do “sadismo sensual e sexual”, posto materializar-se por meio da dominação e controle sobre outra pessoa (leia-se: poder).
O sadismo parece ser a grande marca de personalidades públicas no Brasil, a começar pelas fixações anais do “presidente da República” e de seus filhos, como fortes indicadores de conflitos sexuais – ora atacando homossexuais, ora tentando diminuir a importância do papel da mulher no processo civilizatório. De outro turno, sua foto com uma criança de colo fazendo “arminha” não tinha outro objetivo senão chocar (uma das facetas do sadismo). A perversão é nítida no pouco caso dele quanto aos 80 tiros contra o músico Evaldo dos Santos Rosa (Rio de Janeiro), e quanto às mortes durante a rebelião de presos em Altamira-PA. Nele inspirado, policiais militares daquele estado gritaram: “Arranca a cabeça e deixa pendurada”.
O sadismo se consolidou na promoção do ódio por meio da grande imprensa e das redes sociais, ambas financiadas pelo obscurantismo que a Polícia Federal faz questão de não investigar e o Supremo Tribunal Federal insiste manter em sigilo. A esteira da perversão social acolheu a xenofobia, homofobia, preconceito, racismo, misoginia, apologia à tortura. Igrejas evangélicas encontraram na Bíblia fundamentos para defender a pena de morte. Sob o espectro do ódio e do sadismo, o Marreco de Maringá coordenava a tortura psicológica de presos até arrancar deles o seu lascivo fetiche, seu objeto de inveja e de ira: Luís Inácio Lula da Silva.
A perversão do juiz politiqueiro da Farsa Jato também se fez presente na condução coercitiva ilegal de Lula, com o propósito de humilhar – traços do ódio que o levaria à condenação sem provas e célere prisão, para não atrapalhar o foguetório programado em Curitiba. O que dizer da tentativa de enviar Lula para o presídio de Tremembé/SP, cabeça raspada, entre criminosos comuns? Têm a mesma cupidez que marcou a prisão de Guido Mantega dentro de um hospital. Prisão, aliás, de pronto relaxada, por vício de inconsistência factual e jurídica que causou perplexidade até em seus apoiadores. Eis o perfil sumário do sádico nanico, atualmente homiziado no covil da “Mula Sem Partido”.
Seria a tal sincronicidade de que fala Carl Gustav Jung? Ou seria o Zeitgeist (espírito do tempo), termo alemão que explicaria a influência de uma conjuntura temporal moduladora da postura social? É nesse espírito de tempo que o governador do Rio de Janeiro, Wilson Witzel, num descuido sádico, sai aos pulinhos de um helicóptero para comemorar a morte de um desequilibrado, ao invés de apenas cumprimentar, republicanamente, o sucesso de uma operação policial. Seria uma cena insólita a mais na terra dos 80 tiros e das dramáticas imagens da retirada do ex-governador Anthony Garotinho de um hospital, em meio aos gritos de parentes.
No país doente, carente de divã, a vereadora Marielle Franco é assassinada e uma juíza louca faz comentários insanos. Outra juíza tresloucada humilha o Presidente Lula durante uma audiência e outras, outros e outrx, humilham réus país afora. Em meio a uma audiência, um juiz trata como ameaça um ofendículo jurídico e manda o ex-governador Sérgio Cabral para uma solitária. Enquanto isso, procuradores da República chantageiam investigados, bisbilhotam ilegalmente juízes, fazem gambiarras com os Estados Unidos e Suíça, promovem trambiques “legais” para fraudar a eleição presidencial.
Sem ordem cronológica, foi sob o espectro desse espírito sádico de tempo Brasilis que faleceu Dona Marisa Letícia. Uma médica vasa indevidamente informação para um grupo de WhatsApp e outro comenta: “Esses fdp vão embolizar ainda por cima. Tem que romper no procedimento. Daí já abre pupila. E o capeta abraça ela”. Nessa sincronicidade, procuradores da República fazem chacota – sugerem que Lula faria uso político da morte da esposa, que o ex-presidente estaria livre para “pular cerca”, cogitam da eliminação de testemunha, entre outras crueldades.
Eis que uma procuradora finge humildade e pede desculpas. Ao mesmo tempo em que confirma a autenticidade das gravações que dizem não reconhecer (divulgadas pelo site The Intercept), revela a perversão moral de quem só admite o erro após descoberto o fato. O Direito Penal contempla a figura do “arrependimento eficaz”, cujo exemplo clássico é tentar matar alguém com veneno; o criminoso arrependido logo após o ato, ministra o antídoto. O que a procuradora fez não é crime, mas revela mente doentia, perversa, sádica e criminosa. O sadismo não pararia por aqui, já que ao Presidente Lula também foi negado o direito de ir ao velório do irmão, e por pouco não poderia despedir-se do neto que faleceu um tempo depois.
Portanto, senhora procuradora, sem procuração do ex-presidente Lula e em tempos de sadismo… Desculpas uma OVA!
Armando Rodrigues Coelho Neto – jornalista e advogado, delegado aposentado da Polícia Federal e ex-integrante da Interpol em São Paulo.

segunda-feira, 6 de maio de 2019

GGN: Moeda, juiz de primeira instância, oportunismo e o realismo fantástico, por Lúcio Verçoza



O juiz de primeira instância permanece com o mesmo terno preto, a novidade é que agora assumiu um cargo no alto escalão do governo



Moeda, juiz de primeira instância e o realismo fantástico, por Lúcio Verçoza


Do Jornal GGN:

Todos os dias, religiosamente, o juiz de primeira instância fazia seu passeio pela pequenina cidade. Durante os sessenta minutos de caminhada, esse senhor, quase desprovido de lábios, dava vinte voltas ao redor da Praça das Armas. Contemplava o cair da tarde com o rosto absolutamente imóvel. Até os cachorros sabiam que ali não se podia latir, pelo menos enquanto durasse o ritual do magistrado. Após concluir o último passo, ele se recolhia, e a praça deixava de ser um deserto, as pessoas voltavam a conversar em voz alta e os cachorros finalmente podiam latir em paz.
Um dia, no entardecer cinzento como outro qualquer, aconteceu algo inusitado. No fim da vigésima volta, exatamente no passo número duzentos e cinquenta e cinco, caiu uma moeda de seu bolso. Todas as casas da cidade e dos povoados próximos sentiram um calafrio ao saber que o juiz de primeira instância a tinha perdido. Na manhã seguinte, as pessoas se aproximaram do local com o olhar temeroso: “É a moeda do doutor”. Ao meio-dia os estudantes colegiais a admiravam. O metal de bronze, que poderia ser trocado no máximo por cinco bolachinhas insossas, se banhava ao sol sem ser incomodado. Por volta das quatro da tarde, uma criança ousou cutucar a moeda com uma tabica: nesse instante a província gelou. Ninguém mais se atreveu a tocá-la.
As histórias sobre o juiz de primeira instância corriam pelas redondezas há tempos.  Ele portava no paletó do terno preto uma caneta com poderes mágicos: sua tinta era capaz de prender ou soltar pessoas. Diziam que seu ditado preferido era “aos amigos tudo, aos inimigos a lei.” Mas, quem estava preso na solitária, condenado unicamente com base na delação de outros condenados ou na palavra do guarda de quarteirão, sabia perfeitamente que tal juiz não tratava seus inimigos com a lei, antes fosse. A lei, de acordo com sua concepção, era apenas um adereço para as sentenças, um objeto camaleônico para adornar decisões tomadas previamente. Era comum prender por atos indeterminados sujeitos determinados. Se não havia crime, bastava afirmar que o réu era ladrão de cavalo. Alguns pensavam que ele tinha mais poder do que Deus, mas tinham vergonha ou medo de externar tamanha heresia.
Essa história, aparentemente distante, foi contada por Manuel Scorza no livro Redoble por Rancas, publicado em 1970.[1] O autor conviveu com camponeses nos Andes Centrais, no Peru, e registrou as arbitrariedades e ilegalidades cometidas pelo Dr. Montenegro, juiz de Yanahuanca. A escrita poética e cortante de seu romance foi fundamental para a libertação de Héctor Chacón, conhecido como “Olho de Coruja” – camponês que ousou resistir ao arbítrio e ficou preso por mais de dez anos. Como disse Scorza, era preciso proteger os justos contra a justiça.
A moeda foi a metáfora encontrada, uma metáfora do realismo fantástico para desnudar o poder. Ela não foi tocada, permaneceu no chão durante exatos doze meses: “E a moeda do doutor?” “Continua no mesmo lugar.” “Ninguém mexeu nela!” “Assim é que deve ser!”. Até que no dia de Santa Rosa, um ano após a peça metálica escapulir do bolso do terno preto, os olhos de camundongo do juiz de primeira instância deram com a famosa moeda. A cidade se arrepiou apreensiva. O juiz, sempre de terno preto, recolheu o vil metal e se afastou, pensando na sua sorte por encontrar uma moeda. “A província suspirou.”
O fantástico é mais real do que pode supor a linguagem usual. Manuel Scorza, Gabriel Garcia Márquez, Sulpicia de Rancas, Héctor Chacón e Luiz Sávio de Almeida[2] sabiam e sabem muito bem disso. A caneta do juiz Montenegro era pior do que mau-olhado. Contra ela era preciso unir o real ao fantástico, articular ação com imaginação, razão com emoção. Dizer o óbvio por outros caminhos, como uma maneira de ser escutado. Como uma forma de gestar o real recriado.
Décadas depois, a moeda reapareceu em outra praça, conhecida como Praça dos Três Poderes. No clima seco e quente da cidade, a moeda de bronze continua mais uma vez imóvel, enquanto o mundo à sua volta derrete. O juiz de primeira instância permanece com o mesmo terno preto, a novidade é que agora assumiu um cargo no alto escalão do governo. Seus olhos de camundongo não enxergam adiante, miram apenas o hoje como se fosse eterno. A moeda contempla o entardecer, tão estática quanto o rosto de seu dono. Até quando? Ninguém sabe. O arrebol no horizonte anuncia uma longa noite.  O Cruzeiro do Sul lembra que amanhã será outro dia. Nenhum juiz é capaz de prender o sol.

O autor é doutor em Sociologia pela Universidade Federal de São Carlos e autor do livro Os “homens-cangurus dos canaviais alagoanos: um estudo sobre trabalho e saúde” (Edufal-Fapesp, 2018).
[1] O romance foi traduzido para o português com o título “Bom dia para os defuntos” (SCORZA, Manuel. Bom dia para os defuntos. Tradução de Hamílcar de Garcia. Círculo do Livro, 1976).
[2] No belo livro “A história escrita no chão” (Edufal, 1997), Sávio de Almeida desenvolveu a tese sobre a dimensão concreta do fantástico

quinta-feira, 21 de março de 2019

Bob Fernandes: Temer preso. Duelam: Moro e Maia, Militares e bolsonaristas, Supremo e MP... É o jogo midiático pelo Poder...



Do Canal de Bob Fernandes:


A prisão de Temer pela Lava Jato neste momento, após a briga de Maia com Moro, mostra como o estado policial manipula a justiça e o populismo para saciar interesses em torno do poder. Reportagem de Tiago Barbosa


 "A indignação coletiva é, então, apropriada pela Lava Jato para tentar exibir força justamente quando tem abusos freados pelo STF e pelo Congresso."

Do DCM:

Com prisão de Temer, Lava Jato manda recado à classe política. Por Tiago Barbosa

 

Momento em que o ex-presidente Michel Temer é abordado pela Polícia Federal — Foto: Reprodução/TV Globo
A prisão de Temer mostra como o estado policial manipula a justiça e o clamor popular para saciar interesses em torno do poder.
O ex-presidente tem esquemas criminosos há décadas, mas permaneceu intocável enquanto servia como preposto do golpe contra Dilma.
A mediocridade na presidência e o ataque à democracia inspiraram ódio à direita e à esquerda do espectro político – e a prisão dele virou objeto de desejo unânime.
A indignação coletiva é, então, apropriada pela Lava Jato para tentar exibir força justamente quando tem abusos freados pelo STF e pelo Congresso.
O encadeamento dos fatos é espantosa: Rodrigo Maia passa um pito em Moro, pai da Lava Jato, e o amigo do ex-juiz, Marcelo Bretas, manda prender Temer e Moreira Franco, “sogro” de Maia.
A Lava Jato faz teatro para a sociedade ao mandar à prisão – de forma irregular, um drible na proibição de condução coercitiva – um pária público em torno de quem ninguém derrubará uma lágrima.
E manda um recado à classe política para inibir quem se colocar contra interesses autoritários de policiais, procuradores e juízes.
É, em linhas gerais, o braço armado e investigativo do Estado desviado para fins políticos para se sobrepor à sociedade.
A captura tardia de Temer deixa, sim, um sorriso aberto pelo papel deletério desse crápula na queda de Dilma, no desmonte do país e na eleição do tosco Bolsonaro.
Mas é ilusão associá-la a senso de justiça ou seriedade da Lava Jato, há tempos a constituição formal de um poder paralelo criado para distorcer as leis, insuflar o ódio e subjugar o país pelo punitivismo enquanto entrega tudo aos americanos.
Temer, corrupto notório, e companhia calaram nos abusos contra Lula e ajudaram a criminalizar a política, sobretudo a esquerda – e agora, sofrem na pele o preço cobrado pelos tentáculos do estado policial.
No cadafalso do golpe, Dilma profetizou: não vai sobrar pedra sobre pedra entre os golpistas – o problema é que, sob essa ruína, estamos todos, eu, você e um país destroçado por uma elite avessa ao poder popular.

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2019

Do El País: Moro juiz x Moro ministro: a mudança radical de opinião sobre caixa dois

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Ministro da Justiça e Segurança Pública atenua a gravidade do caixa dois, prática que, no passado, ele mesmo chegou a classificar como "pior que a corrupção" e "trapaça"



Do El País:



Moro juiz x Moro ministro: a mudança radical de opinião sobre caixa dois

Ministro da Justiça e Segurança Pública atenua a gravidade do caixa dois, prática que, no passado, ele mesmo chegou a classificar como "pior que a corrupção" e "trapaça"



Sergio Moro caixa 2



A cruzada de Sergio Moro pelo combate à corrupção começou a enfrentar obstáculos desde que ele deixou a toga de juiz e foi nomeado ministro da Justiça e Segurança Pública pelo presidente Jair Bolsonaro. Em um passado recente, o juiz curitibano fora celebrado durante as manifestações contra a corrupção. O Super Moroestampava camisetas e bonecos nas ruas e, enquanto a personificação da Operação Lava Jato, fazia palestras e dava entrevistas condenando veemente crimes como o caixa dois. "É uma trapaça", dizia, sobre essa prática.
Mas agora, à frente do Palácio da Justiça, o ministro mudou seu discurso. Ao apresentar seu pacote de medidas para combater os crimes de corrupção –bandeira que elegeu Bolsonaro–, teve de fatiar em três partes o plano e deixar em separado a proposta que criminaliza a mesma prática de caixa dois condenada no passado porque "vieram reclamações" dos políticos. "Alguns políticos se sentiram incomodados de isso [crime de caixa dois] ser tratado junto com corrupção e crime organizado. Fomos sensíveis", disse o ministro. O Governo sabe que, do contrário, o pacote não seria aprovado. Além disso, ao anunciar o fatiamento, o ministro ainda atenuou a gravidade desse crime, afirmando que "caixa dois não é corrupção".
Siga a cronologia da mudança de opinião do ministro:

Agosto de 2016: Caixa dois é “trapaça”

“Eu particularmente sou favorável a essa criminalização [de caixa dois]. Tenho uma posição muito clara: eu acho que o caixa dois muitas vezes é visto como um ilícito menor, mas é trapaça em uma eleição. E há uma carência da nossa legislação de tipificar esse tipo de atividade. E essa carência acaba gerando suas consequências no sentido de que se isso não é criminalizado, é tipo como permitido”. A frase fora proferida pelo juiz durante um debate no Congressosobre o pacote que promovia as 10 Medidas Contra a Corrupção, que acabou não sendo aprovado.
No mesmo debate, Moro afirmou que o que mais lhe chamou a atenção no decorrer das investigações da Lava Jato foi o fato de os investigados citarem "de forma muito natural" o pagamento e o recebimento de propina. Em um discurso de aproximadamente uma hora, o então juiz também cobrou maior participação do Executivo e do Legislativo no combate à corrupção. 

Abril de 2017: "Caixa dois é crime contra a democracia"

“Tem que se falar a verdade, caixa dois nas eleições é trapaça, é crime contra a democracia. Alguns desses processos me causam espécie quando alguns sugerem fazer uma distinção entre corrupção para fins de enriquecimento ilícito, e a corrupção para fins de financiamento de campanha eleitoral. Para mim, a corrupção para financiamento de campanha eleitoral é pior que para o enriquecimento ilícito”. Sérgio Moro falou a uma plateia de estudantes brasileiros na Universidade Harvard no dia 8 de abril de 2017, sobre diversos assuntos. Dentre eles, a corrupção. "Se eu peguei essa propina e coloquei numa conta na Suíça, isso é provável crime, mas esse dinheiro está lá, não está fazendo mais mal a ninguém naquele momento. Agora, eu utilizo isso para ganhar uma eleição? para trapacear numa eleição? Isso pra mim é terrível", seguiu.


Novembro de 2018, sobre caixa dois de Onyx Lorenzoni

“Ele foi um dos poucos deputados que defendeu a aprovação do projeto das 10 Medidas [contra a corrupção] mesmo sofrendo ataques severos da parte dos seus colegas. Quanto a esse episódio do passado, ele mesmo admitiu seus erros e pediu desculpas e tomou as providências para repará-lo”, amenizou Sérgio Moro, no final do ano passado, quando já havia sido anunciado para compor o novo Governo.
Moro deu uma entrevista coletiva em que foi questionado sobre o deputado Onyx Lorenzoni (DEM-RS). Lorenozini, atual ministro-chefe da Casa Civil, admitiu, em maio de 2017, que recebeu 100.000 reais de caixa dois da JBS para a campanha que o elegeu deputado federal em 2014. “Usei sem [fazer a] declaração das contas”, afirmou em entrevista para a rádio Bandeirantes de Porto Alegre. “Quero pedir desculpas ao eleitor que confia em mim pelo erro cometido”, afirmou ele, que foi relator do projeto 10 Medidas Contra a Corrupção.

Fevereiro de 2019: "Caixa dois não é corrupção"

"Não, caixa dois não é corrupção. Existe o crime de corrupção e existe o crime de caixa dois. Os dois crimes são graves. Aí é uma questão técnica". Pressionado pelos parlamentares, Moro fatiou seu projeto, como amenizou o discurso sobre o caixa dois.

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