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terça-feira, 13 de agosto de 2019

Bolsonaro virou sinônimo de quê? Por Francisco Celso Calmon


A queda do Bolsonaro não deve ser fruto apenas de pacto entre as elites do poder dominante, há de ter também como protagonistas as forças democráticas.



Foto BBC (modificada)

Bolsonaro virou sinônimo de quê?

por Francisco Celso Calmon, no GGN

Por vezes usamos adjetivações em relação a uma pessoa, em especial quando se trata de uma figura pública repugnante, que alguns podem achar como meras ofensas, quando não são, pelo contrário, definem o caráter dessa figura, e isso pode contribuir para sabermos quem é e como tomar os devidos cuidados preventivos e reativos.
No meu artigo “Bolsonaro: Militar ou Miliciano?”, publicado neste blog no dia 06 de junho de 2019, deixei conclusivas evidências, provas  e razões para afirmar que, por um lado, Bolsonaro não passa de um ressentido com o Exército, cujo Comando o expulsou, não tem espírito e disciplina militar, por outro lado, é ardoroso defensor de milícia, é cercado, ele e família, de amigos e assessores milicianos. Tem perfil e espírito miliciano
No artigo “Quem é esse cara …?”, postado aqui em 06 de agosto de 2019, o classifiquei como um pústula, isto é: depravado, devasso, canalha, patife. 
 O pústula defendeu recentemente o trabalho infantil, que subtrai o direito à infância, dizendo: “o trabalho infantil enobrece todo mundo”.
Quanto mais ações e declarações esse cara faz, outros sinônimos vão se agregando para descrever o seu caráter. 
Energúmeno significa possesso, aquele que está possuído pelo demônio. É uma palavra de origem grega energoumenos, que significa endemoninhado.
A ofensa à memória de Fernando Santa Cruz, desparecido político pela ditadura militar, parece evidente que a intenção é tocar na ferida, satanizar a imagem do estudante assassinado pela repressão. Disse o energúmeno: “se ele quiser saber a verdade sobre o desaparecimento do pai dele no período militar, eu conto a ele… ele não vai gostar de saber a verdade”
No sentido figurado, energúmeno é aquele indivíduo que está desnorteado, violento, fanático, exaltado. 
Seu voto a favor do impeachment à presidenta Dilma, com a declaração “em memória do coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, o terror de Dilma Rousseff”, demonstra bem a adoração por um fascista torturador de mulheres e crianças.
Apedeuta significa pessoa desprovida de conhecimento, um ignorante, um tosco.  
Galhofa ou não, vindo de um presidente é tosco, sobre a diminuição da poluição do meio ambiente, o apedeuta afirmou “é só fazer côcô dia sim e dia não
Ignóbil, é uma pessoa que infringe as leis da moral, é abjeto, asqueroso, desprezível, nauseabundo, nojento, repelente, sórdido.
Disse, no ambiente do Congresso Nacional, para a deputada federal Maria do Rosário, que não merecia ser estuprada: “Ela não merece (ser estuprada) porque ela é muito ruim, porque ela é muito feia, não faz meu gênero, jamais a estupraria”.
O ignóbil não a estupraria por achá-la feia, se não a achasse o faria, cometeria esse crime hediondo, há de se deduzir.
Belicista, partidário da força bélica, que é a favor da guerra e/ou a promove, adepto da violência, encrenqueiro.
Em rede nacional, disse em 2000: “o erro da ditadura foi torturar e não matar”; edefendeu como solução uma guerra civil que mate 30 mil pessoas, inclusive o presidente à época, Fernando Henrique Cardoso. 
Também incitou, em palanque eleitoral no Acre, em 2018, seus eleitores a “metralhar a petralhada do Acre”; fez o símbolo de arma na mão de uma criança de menos de 3 anos de idade.
Arauto do ódio, pregoeiro do horror, mensageiro do conflito.
Num programa de TV em 1999: “eu sou favorável a tortura, tu sabe disso”.
Sociopata é alguém incapaz de se enquadrar nas normas da sociedade, tem habilidade para enganar pessoas, é extremamente egoísta, não se envergonha de seus atos maus, não sente necessidade de melhorar, porque não acredita estar errado nunca, não sente culpa e sequer se arrepende de seus atos, geralmente é maldoso e teatraliza sentimentos para impressionar os outros. Os indivíduos sociopatas podem ser perigosos e exibir comportamentos criminosos, como organizar seitas fanáticas, prejudicando a si mesmos e todos ao redor. Há diversos indicadores de que uma pessoa possa ser uma sociopata, incluindo falta de remorso, desrespeito à lei e mentir repetidamente. 
Sobre a comunidade LGBT, confessou o sociopata em 2002: “Não vou combater nem discriminar, mas, se eu vir dois homens se beijando na rua, vou bater“.
Bolsonaro é um saqueador dos direitos trabalhistas, sociais e civis dos brasileiros, mais cruel e desprovido de ética dos que os piratas do século XVII E XVIII, e assim como piratas estiveram numa época a serviço da Inglaterra, o pirata miliciano está a serviço dos EUA.
O nazismo foi um movimento ideológico nacionalista xenófobo, imperialista e belicista que construiu uma sociedade militarista e reacionária na Alemanha. Impedir que o protofascismo avance no Brasil do presidente miliciano é o dever maior, central e urgente.  
As torres gêmeas da lava jato, Moro e Dallagnol, estão implodindo, o próximo passo é oBasta ao governo bolsonarista. 
A queda do Bolsonaro não deve ser fruto apenas de pacto entre as elites do poder dominante, há de ter também como protagonistas as forças democráticas.
Deve-se evitar a repetição da história: o pacto da anistia na ditadura militar não foi o melhor e suas sequelas são visíveis consuetudinariamente. 
A Frente Ampla Democrática passa ser o fórum para discutir e representar as forças democráticas, institucionais e sociais, nesse novo concerto, já em conversações nos corredores das instituições republicanas, nos quais Rodrigo  Maia vai pavimentando o seu papel decisivo. 
A esquerda não pode ser figurante! Para tanto, as ruas, greves e ocupações devem ser intensificadas. Com a entrada mais vigorosa dos estudantes, as ruas e auditórios deverão se constituir no teatro principal de operações pelo Basta. 
O movimento das igrejas progressistas, aquela comprometida com o bem-estar social dos povos, em seus púlpitos e bases, como já no próximo Grito dos excluídos, deverá ser energia poderosa pelo Basta.
Intelectuais e artistas em suas cátedras, palcos, telas, contribuindo para a consciência libertadora do povo deste Estado policial, mantido pelos milicianos, militares e togas fascistas.  
Bolsonaro é sinônimo de coisa ruim (pústula, energúmeno, ignóbil, belicista, sociopata) para o Brasil e seu povo. Antes que avance em sua sanha e acabe com os trinta mil que prometeu matar, é preciso dar um BASTA.
Quem mandou matar Marielle? Cadê Queiroz? Quem banca Adélio Bispo?  
Francisco Celso Calmon é Advogado, Administrador, Coordenador do Fórum Memória, Verdade e Justiça do ES; autor do livro Combates pela Democracia (2012) e autor de artigos nos livros A Resistência ao Golpe de 2016 (2016) e Comentários a uma Sentença Anunciada: O Processo Lula (2017).    

quarta-feira, 24 de outubro de 2018

'Fiz uma opção: derrotar Jair Bolsonaro', diz Haddad em Ato da Virada, no Rio


"Estou aqui para evitar a cafajestização do homem brasileiro", disse Caetano Veloso. "Não queremos mais mentira e força bruta. Queremos paz, queremos Fernando e Manuela”, disse Chico Buarque

Estimativa de 70 mil pessoas na Lapa pela democracia (RICARDO STUCKERT)
Ato da Virada
da Rede Brasil Atual
"Estou aqui para evitar a cafajestização do homem brasileiro", disse Caetano Veloso. "Não queremos mais mentira e força bruta. Queremos paz, queremos Fernando e Manuela”, disse Chico Buarque
por Maurício Thuswohl, para a RBA
Rio de Janeiro – Aos gritos de “Ele, não!” e “Lula presente, Haddad presidente”, cerca de 70 mil pessoas estiveram nos Arcos da Lapa, zona central do Rio de Janeiro, na noite desta terça-feira (23) para o “Ato da Virada – Brasil pela Democracia”, realizado em apoio ao candidato do PT à Presidência da República, Fernando Haddad.
O ato, que teve a participação de artistas como Chico Buarque e Caetano Veloso, foi marcado pelo repúdio às recentes declarações do candidato do PSL, Jair Bolsonaro, que ontem (22) ameaçou seus opositores com “a prisão ou o exílio” e afirmou que colocará as forças de segurança do país para “dar no lombo” dos “petralhas” e dos “bandidos do MST e do MTST”.
Haddad, que passou o dia no Rio em atividade na Favela da Maré e em reuniões com representantes das comunidades judaica, evangélica e católica, criticou as afirmações de Bolsonaro: “Ele disse que depois das eleições eu teria dois destinos: a prisão ou o exílio. Eu fiz uma opção: resolvi derrotar Jair Bolsonaro. Eu não o quero preso nem exilado. O que eu quero é que ele viva com saúde para ver os negros na universidade, as mulheres emancipadas e donas do seus destinos, as terras indígenas demarcadas, os nordestinos progredindo com água, comida, trabalho e educação”, disse.
O candidato do PT adotou um tom duro contra o adversário: “Ele disse que quer acabar com o ‘coitadismo’ de mulheres, negros, nordestinos e gays. O meu recado pra ele é: Jair, se olha no espelho, o coitado é você, que não passa de um soldadinho de araque e só fala grosso porque tem gente armada à sua volta. Você não é capaz de enfrentar um debate, não é capaz de enfrentar uma entrevista sem censurar jornalista livre”.
A atividade pública de Bolsonaro também foi criticada: “Foram sete mandatos de nada, com o dinheiro público pagando o teu salário. São 28 anos no Congresso Nacional propagando o ódio, sem apresentar uma ideia, medíocre que fosse. Não sai nada dele que não seja o pior do ser humano. Ele só sabe agredir, difamar e caluniar, e agora se sabe como: através das fake news nas redes sociais bancadas por amigos empresários que apoiam o projeto neoliberal que ele representa”.
Haddad falou também sobre a possibilidade de virar o jogo até o dia da votação e a necessidade de "dar razão às pessoas' para conquistar as pessoas. "Não estou falando dos coxinhas que sempre nos odiaram, mas das pessoas que estão revoltadas porque estão desempregadas ou deixaram a universidade", explicou. "A essas pessoas nós precisamos abraçar e sentar para conversar daqui até o domingo. Vamos dialogar, eles não são nossos inimigos. Vamos fazer um projeto fraterno e avançar do ponto de vista social. Domingo nós vamos ganhar a eleição. Estou sentido no ar uma virada. Nós começamos a crescer e ele começou a cair. Nós temos cinco dias para fazer crescer ainda mais essa onda positiva."

Frente ampla pela democracia

Representantes de todos os partidos do campo progressista usaram o microfone para confirmar o apoio a Haddad e defender a democracia contra a ameaça representada pelas propostas de Bolsonaro: “Esta eleição está ocorrendo sob fraude, crime eleitoral e mentira. Neste momento, o Brasil está correndo o sério risco de legitimar pelo voto uma ditadura no país. Corremos o risco de eleger um ditador corrupto e mentiroso. Queremos defender o direito de discordar e a democracia”, disse a deputada federal Jandira Feghali, do PCdoB. 
Candidato do Psol no primeiro turno, Guilherme Boulos também mandou um recado a Bolsonaro: “Esse é um momento de luta pela democracia no nosso país. É preciso ter lado, ter coerência. Não cabe ficar em cima do muro, não cabe neutralidade porque neutralidade em um momento como esse significa cumplicidade. Há um candidato a presidente que ameaça as instituições, que ameaça seus opositores com a prisão ou o exílio, que diz que vai tratar como terroristas os movimentos sociais. O único jeito de acabar com o MTST é construir 6 milhões de casas no país”.
Ao lembrar Marielle Franco, vereadora assassinada no Rio de Janeiro, o deputado federal eleito Marcelo Freixo, do Psol, proporcionou um dos momentos mais emocionantes da noite: “Bolsonaro, a sua capacidade de provocar medo não é e nunca será maior do que a nossa capacidade de sonhar por liberdade e democracia. É a eleição mais importante da história das nossas vidas porque precisamos derrotar um projeto fascista. Pelo terror, tiraram de nós a Marielle, que estaria aqui conosco neste momento”, disse.
O senador petista Lindbergh Farias que, segundo Bolsonaro, irá em breve para a cadeia “apodrecer” ao lado do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, também alertou para o risco que corre a democracia no país: “Está muito claro que o plano do Bolsonaro é levar o Brasil em direção a uma ditadura. Bolsonaro vem dizendo há muito tempo o que quer fazer no Brasil. O símbolo dele não é Geisel, não é Médici, é o Brilhante Ustra”, disse. Lindbergh também criticou o Supremo Tribunal Federal: “Impressiona a covardia do STF neste momento da nossa história. Nenhuma resposta à indústria de fake news que foi montada no país”.
Falando em nome do PSB, o deputado federal reeleito Alessandro Molon comparou Bolsonaro ao presidente Michel Temer, do PMDB: “Estamos aqui nesta praça porque acreditamos na força transformadora da educação. Por isso vamos votar em quem defende dar para cada criança do nosso país um livro, um lápis e uma borracha e não uma arma. Quem faz uma campanha suja não pode fazer um governo limpo. Temos que tirar o Brasil do atoleiro em que Temer, Bolsonaro e sua turma o colocaram”, disse.
RICARDO STUCKERTChico e Caetano
  • Desde os anos 1970 Chico Buarque e Caetano Veloso não dividiam as mesmas paixões no mesmo palco juntos e ao vivo
Importantes figuras da história política nacional também foram lembradas durante o ato: “Se estivesse vivo, Leonel Brizola certamente estaria neste palco. Nós trabalhistas, brizolistas, nacionalistas votaremos em Haddad no domingo”, disse Vivaldo Barbosa, fundador e militante histórico do PDT.
Representando o PV, o deputado federal Fabiano Carnevale afirmou: “Somos o partido de Chico Mendes, que também estaria aqui apresentando ao mundo a ameaça que é a candidatura do Bolsonaro que quer entregar a Amazônia e retirar o Brasil do Acordo de Paris”.

Chico e Caetano 

A participação de artistas rendeu momentos emocionantes durante o ato: “Temos que apagar da mente brasileira a ideia de que o cafajeste é quem nos representa. É isso que precisamos negar dentro de nós. Precisamos encontrar meios de dizer àqueles que se deixaram hipnotizar por essa onda. Eu estou aqui por causa disso, para evitar a ‘cafajestização’ do homem brasileiro. A eleição de Fernando Haddad e Manuela D'Ávila representará a dignidade do povo brasileiro, de cada homem brasileiro”, disse Caetano Veloso.
Chico Buarque afirmou que “a eleição de Haddad é difícil”, mas disse preferir crer que ainda é possível virar o jogo: “Imagino que lá fora, muita gente – cidadãos conservadores, de direita, cristãos, os chamados coxinhas – tenham votado no candidato fascista e agora estejam vendo a onda de boçalidade que toma conta das ruas cada vez mais e que depois do primeiro turno só fez piorar e ninguém sabe onde vai parar a matança de gays, de mulheres, de trans, de estudantes, de capoeiras que ousaram dizer que votaram no PT. Nas periferias, onde afinal está o povo que mais sofre com a miséria e a violência, e votaram por mais miséria e mais violência, eles talvez na última hora virem o voto. Não queremos mais mentiras, não queremos mais força bruta. Queremos paz, queremos alegria, queremos Fernando e Manuela”.
Arcos da Lapa Ato da Virada

terça-feira, 19 de abril de 2016

O que pode acontecer com Jair Bolsonaro após ele louvar um torturador crimonoso da ditadura na Câmara



Um levantamento do projeto "Brasil: Nunca Mais" diz que 502 pessoas foram torturadas no Destacamento de Operações de Informações - Centro de Operações de Defesa Interna (DOI-Codi) no período em que o órgão esteve sob o comando do coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra.
Para o Dossiê Ditadura, da Comissão de Familiares de Mortos e Desaparecidos Políticos, Ustra está relacionado com 60 casos de mortes e desaparecimentos em São Paulo naquele período.
A atriz Bete Mendes foi uma das torturadas nos porões da ditadura militar. Emdepoimento à Folha de S. Paulo, ela conta:
Fui presa duas vezes. Na primeira, não fui torturada fisicamente. Na segunda, foi total. Fui torturada [em 1970] e denunciei [o coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra]. Isso me marcou profundamente. Não desejo isso para ninguém --nem por meus inimigos. A tortura física é a pior perversidade da raça humana; a psicológica, idem.
Não dá para ter raiva [de quem me torturou]. A gente é tão humilhado, seviciado, vilipendiado que o que se quer é sobreviver e bem. Estou muito feliz, sobrevivi e bem. E não quero mais falar desse assunto.
Em depoimento à Comissão Nacional da Verdade (CNV), diz o jornal Valor Econômico, a ex-presa política Criméia Alice Schmidt de Almeida, que participou da Guerrilha do Araguaia, conta ter sido torturada enquanto estava grávida de sete meses.
"Pela manhã, o próprio comandante major Carlos Alberto Brilhante Ustra foi retirar-me da cela e ali mesmo começou a torturar-me [...]. Espancamentos, principalmente no rosto e na cabeça, choques elétricos nos pés e nas mãos, murros na cabeça quando eu descia as escadas encapuzada, que provocavam dores horríveis na coluna e nos calcanhares, palmatória de madeira nos pés e nas mãos".
Foi Ustra, o torturador sanguinário, quem o deputado federal Jair Bolsonaro(PSC-SP) homenageou em seu voto pelo impeachment de DIlma Rousseff:
"Perderam em 1964, perderam agora em 2016", disse Bolsonaro, em referência ao golpe militar. "Contra o comunismo, pela nossa liberdade, contra o Foro de São Paulo, pela memória do coronel Carlos Alberto Brilhante, o pavor de Dilma Rousseff, pelo exército de Caxias, pelas Forças Armadas, o meu voto é sim", defendeu Bolsonaro.
Apesar de tudo que cometeu, Ustra acabou nunca pagando por seus crimes. Só em agosto de 2015, o Ministério Público Federal (MPF) ofereceu denúncia contra Ustra pela morte do militante comunista Carlos Nicolau Danielli, sequestrado e torturado nas dependências do Doi-Codi, em dezembro de 1972. Dois meses depois, aos 83 anos, Ustra morreria em decorrência de uma severa pneumonia.
Em dezembro de 2014, a deputada Maria do Rosário (PT-RS) discursou sobre a importância da Comissão Nacional da Verdade, e, em seguida, Bolsonaro subiu ao plenário e retrucou: "Há poucos dias você me chamou de estuprador no Salão Verde e eu falei que não estuprava você porque você não merece. Fique aí para ouvir”.
O que aconteceu com Bolsonaro? Nada. Foi condenado apenas a pagar uma multa. Como Ustra, Bolsonaro aposta na impunidade.
Fernando de Barros e Silva lembra hoje na Piauí que Jair Bolsonaro é, segundopesquisa mais recente do Datafolha, o candidato preferido à presidência da República da parcela mais rica do país. O topo da pirâmide brasileira - os 5% com renda mensal superior a 10 salários mínimos - quer Bolsonaro presidente.
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Impeachment na Imprensa Internacional
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Reprodução

sábado, 19 de março de 2016

Martha Costa: Tomemos as ruas não por Lula, mas contra o golpe à democracia


Captura de Tela 2016-03-18 às 21.57.08
Lula é apenas um símbolo que a direita pretende destruir (foto Luiz Carlos Azenha)
A força simbólica de Lula e dos setores sociais progressistas conseguirá deter o golpe?
por Martha Costa*, Mestre em Filosofia Política pela USP, em especial para o Viomundo
Ontem, dia 18 de março, em plena Avenida Paulista, tive a oportunidade de ver a figura do presidente Lula e ouvir seu discurso pela primeira vez em minha vida. Eu, atualmente com vinte e sete anos, e outros ainda mais jovens do que eu ali presentes não temos a experiência tampouco a lembrança nítida dos grandes movimentos de rua que agitaram o período da redemocratização ou que pressionaram pelo impeachment de Collor.
Daí o impacto que o discurso de Lula causou sobre toda essa nova geração que nasceu sob a democracia, mas que, talvez por falha dos nossos projetos educacionais, é pouco consciente da história de lutas que foi travada para que chegássemos até aqui.
Para muitos de nós a democracia é vivida como algo que simplesmente “se tem”, garantido e naturalizado, o nome de um regime formal expresso na obrigação de votar e cujo sentido mais profundo por vezes nos escapa.
As palavras proferidas por Lula ontem tiveram a função pedagógica e simbólica de testemunhar, para uns, e reacender, em outros, o valor da defesa da democracia.
Aquela multidão que coloriu a Avenida Paulista com a diversidade da cor de suas peles e de suas bandeiras não era uma massa amorfa tomada por um delírio raivoso, pregando “a morte da burguesia”.
O que dava sentido e unidade àquelas pessoas tão diferentes entre si era a força simbólica que o valor da democracia tem o poder de fazer despertar.
O povo, naquela ocasião, não correspondia a nenhuma definição econômica estrita (não eram exclusivamente os pobres de baixa renda beneficiados pelos programas sociais do PT); o povo presente naquele espaço era um povo definido pelo desejo de preservar a ordem democrática, tanto no seu aspecto legalista (constitucional) quanto no que se refere aos valores da convivência democrática.
Foi essa defesa comum da democracia que colocou, lado a lado, militantes dos movimentos sociais organizados, negros, brancos, nordestinos, professores, intelectuais, secundaristas, universitários, pessoas com deficiências físicas, homossexuais, mas também pessoas de terno (e gravatas vermelhas) e outras tantas que, pela cor e figurino, julgaríamos, à primeira vista, como os representantes legítimos da “burguesia”.
Todos ali compartilhavam, de maneira mais ou menos consciente, que apenas a manutenção da democracia e o seu aprofundamento seriam capazes de permitir a própria existência da diversidade (crenças, comportamentos, opiniões) nos espaços públicos, assim como a defesa e criação de direitos.
Lula falou a essa gente, sem distinção.
Nesse momento, a força simbólica de Lula nunca se tornou tão evidente.
Enfrentando os efeitos do tempo que separam gerações, carregando nas costas o peso dos desgastes por ter sido duas vezes presidente e, mais recentemente, por ter se tornado o alvo predileto das operações jurídicas e midiáticas que tentam minar a sua figura, Lula mostrou um surpreendente poder de inspirar e aglutinar os desejos sociais.
Ele sabe como ninguém falar a língua do povo: pelas suas imagens e metáforas, fala ao coração das pessoas, mas sem subestimar sua capacidade de compreensão sobre aquilo que está em jogo na situação atual.
A fala de Lula veio dar força e compreensão à luta que precisamos travar em nome da democracia.
Por um lado, encontramos nela elementos para uma defesa da legalidade democrática, por exemplo, o respeito pelo voto da maioria (nunca é demais lembrar que a força numérica das manifestações do dia 13 de março não é superior aos 54 milhões de votos que elegeram a presidenta Dilma em 2014 e sustentam a legitimidade do seu mandato até 2018) e a obrigação de que cada instância do poder atue em conformidade aos princípios básicos da Constituição (princípio diretamente afrontado quando segmentos do Poder Judiciário quebram o sigilo dos processos, fazem vazamentos seletivos a uma imprensa historicamente golpista, determinam conduções coercitivas, obtêm depoimentos de delatores por meio de prisões preventivas, o que quebra o princípio da voluntariedade do depoimento e o torna semelhante a uma extorsão).
Por outro lado, a fala de Lula nos coloca diante da necessidade de fazer da democracia uma convivência social democrática.
Para além da defesa dos princípios constitucionais e da legalidade que deve reger nossas instituições, Lula ressaltou que a democracia é também – e talvez fundamentalmente – uma forma da coexistência humana e que, nesse sentido, é urgente que nos tornemos uma sociedade democrática, ou seja, uma sociedade que saiba conviver com suas divisões e conflitos, diferenças de pontos de vista e comportamentos, fazendo disso ocasião para o debate e o diálogo, não para a violência e a eliminação do outro.
Com sua fala metafórica, Lula faz um apelo para que nossas diferenças sejam debatidas e sustentadas racionalmente nos espaços públicos, sem que o seu agravamento nos conduza ao império do ódio e da violência.
Uma sociedade democrática precisa atingir a consciência de que suas divisões são a sua força, que as suas diferenças impedem que se torne o regime da homogeneidade de opiniões, mas, ao mesmo tempo, ela precisa ganhar clareza de que essas divisões precisam se resolver no âmbito político e institucional, amparadas pela força popular que o sustenta.
A manifestação de ontem abriu esse campo de significados para todos nós, colocando-nos diante da necessidade de resistir.
Ela configurou um espaço de encontro onde reconhecemos afinidades de ideias e valores e nos forneceu a certeza de que não estamos sozinhos, como querem fazer crer diariamente os meios de comunicações nesse país. Não somos nós os loucos, iludidos, defensores de criminosos.
Somos uma força de luta e resistência que nos reconhecemos nos mesmos valores e, por isso mesmo, crescemos numa proporção que assusta as forças golpistas em curso.
Contra nós, essas forças precisarão acelerar seu passo.
Curioso observar que quase não encontramos quem questione a pressa com que Eduardo Cunha abriu ontem as sessões da comissão de impeachment, cujo andamento será acelerado, assim como não se questiona a rapidez com que Gilmar Mendes decidiu sozinho sobre o retorno do processo de Lula para as mãos de Sergio Moro.
É quando a pergunta desse texto finalmente se impõe: a força simbólica de Lula e dos setores sociais progressistas conseguirá deter o golpe?
Essa jogada de Gilmar Mendes horas depois do fim da manifestação revela que eles têm pressa para acabar com tudo aquilo que a figura de Lula pode inspirar e, portanto, eles sabem que é preciso linchá-lo publicamente por meio de uma prisão preventiva cujas “razões” são um atentado ao bom senso.
Por outro lado, no Painel de hoje da Folha de São Paulo foi publicado que a “Câmara exigiu que Jovair Arantes fizesse relatório a favor de impeachment para colocá-lo em relatoria”.
Haveria, assim, um acordo tácito previamente firmado entre a cúpula do PMDB e o relator da comissão de impeachment Jovair Rosso (PTB-GO) para que este fizesse um parecer favorável à cassação da presidenta Dilma, sem que ele seja acusado de partidarismo, uma vez que seu partido é da base do governo.
Há, assim, grandes chances de que o impeachment prevaleça e isso porque nossa sorte está nas mãos daqueles que foram democraticamente eleitos em 2014.
Paradoxos da democracia?
O impeachment pode ocorrer dentro das “regras do jogo”, de forma perfeitamente democrática por uma Câmara e por um Senado de perfil conservador e antidemocrático, formado pela extraordinária força da bancada do boi, da bala e da Bíblia (para empregar uma expressão de Marilena Chaui), sedenta por fazer retroceder os direitos sociais efetivados pelos governos do PT nos últimos anos.
Eles darão ouvido aos nossos gritos de “não vai ter golpe”?
Para eles não há outro momento: ou viram a mesa agora pelo Golpe ou perdem novamente, nas urnas em 2018, a chance de fazer esse país voltar ao controle das suas velhas elites, saudosas de ver o povo no lugar em que ele sempre esteve, na senzala.
Precisamos, mais do que nunca, mostrar que a força da democracia é também uma força simbólica, que não se desvincula do povo e que não cessa de se exercer quando os representantes são eleitos e se encastelam em seus gabinetes, fechando os olhos e os ouvidos àqueles que os elegeram.
Eles creem que possuem um poder que provém deles e é deles, como propriedade particular. Por ora, nós precisamos crer que a nossa força simbólica, gestada e expressa nas ruas, poderá exercer alguma influência.
Do contrário, apenas assistiremos, sem resistência, ao golpe que se processa nos bastidores do poder por aqueles elegemos e juram agir em nosso nome observando a Constituição.
Nunca foi tão necessário defender a voz e a participação popular direta nos espaços públicos, ainda que o peso e os vícios da nossa democracia representativa busque, por todos os meios, enfraquecer e emudecer a nossa voz, os nossos desejos de liberdade e a nossa recusa da opressão.
Tomemos as ruas. Se sucumbirmos, que seja lutando, pelo coro das nossas vozes e pela reunião dos nossos corpos.
*Mestra em Filosofia Política pela USP

Guilherme Boulos sobre o vale tudo dos Golpistas e o que está em jogo...

O clima construído nas ruas é de caça às bruxas. A oposição partidária de direita ainda acha que que vai surfar nessa onda, sem perceber que pode ser afogada por ela

Boulos: o que está em jogo?


O publicitário Vinícius Vasconcellos sendo agredido por manifestantes pró-impeachment. Foto: Felipe Larozza/VICE

O publicitário Vinícius Vasconcellos sendo agredido por manifestantes pró-impeachment. Foto: Felipe Larozza/VICE

Por Guilherme Boulos
Chegamos ao momento mais grave da crise política do país. Após Dilma chamar Lula ao ministério, Moro mandou vazar uma conversa grampeada entre os dois. Com chamado midiático, o clima nas ruas é de convulsão.
Moro apostou alto. Ao grampear um telefonema envolvendo a presidente da República e divulgar o áudio no momento politicamente mais conveniente para os que querem derrubá-la, o juiz ultrapassou a linha vermelha. Tirou definitivamente a toga e assumiu sua condição de militante político.
Foi para o “vai ou racha”. Era o sinal que faltava. Sua decisão levou alguns milhares às ruas, exigindo a renúncia da presidente. Foram registrados conflitos em várias cidades. Em alguns lugares, linchamentos.
Um ciclista foi agredido na avenida Paulista por ter “cara de petista” e bicicleta vermelha. Uma mulher levou um soco na mesma avenida por recusar-se a gritar pela prisão de Lula. Episódios de intolerância como esses espalham-se pelo país.
Caminho sem volta
O caminho escolhido pelos que querem derrubar o governo é perigoso. Não se tira pitbulls das ruas com a mesma facilidade com que se os insufla. Propagar ódio com tal intensidade pode ser um caminho sem volta.
Quem pensa que é só contra os petistas se engana. Agora há pouco, o secretário de Segurança de Alckmin, Alexandre de Moraes, foi escorraçado da avenida Paulista por tentar liberar a faixa de ônibus.
O clima criado por essas manifestações não admite nenhum tipo de contestação. Nem mesmo em relação a uma faixa de avenida. Quanto mais em relação ao mérito. O feitiço poderá virar contra o feiticeiro.
A oposição partidária de direita parece que ainda não assimilou as consequências da vaia de domingo. Acha que vai surfar nessa onda. Pode até ser, mas não é pequeno o risco de ser afogada por ela.
A velha direita não seduz a multidão que ajudou a insuflar. As manifestações querem um salvador, um justiceiro de pulso, que –em nome do “bem”– está liberado para violar a Constituição, desrespeitar garantias individuais e “botar ordem na casa”. Por isso gostam tanto de Sérgio Moro, por isso alguns exaltam Bolsonaro.
O que é mais chocante nisso tudo é a passividade do STF. Um juiz de primeira instância faz o que quer, adota medidas de exceção como regra, grampeia a presidente e não há reação.
Quando em 2008 o então presidente do Supremo, Gilmar Mendes, acreditou ter sido grampeado, acusou o “estado policial”. Lula, presidente à época, demitiu o diretor-geral da PF. O atual silêncio do STF é ensurdecedor.
O que está em jogo
É preciso compreender o que está em jogo nesses dias tumultuados. Não se trata nem de defender o governo Dilma e muito menos de brecar as investigações de corrupção.
Dilma decidiu por aplicar o programa derrotado nas urnas e encampar retrocessos em relação às políticas sociais, acreditando que atrairia o mercado. Conseguiu desagradar a todos e, com isso, criou a base social para o golpismo. Paga o preço de suas escolhas.
Em relação às investigações, devem ser levadas adiante. Mas uma investigação que assegure as garantias constitucionais e que não escolha alvos politicamente. Sem linchamento, sem seletividade.
O que está em jogo é deter uma ofensiva odiosa, que impõe o pensamento único e métodos de intolerância.
O clima construído nas ruas é de caça às bruxas e não apenas contra o petismo. É contra a bicicleta vermelha, a “cara de petista” e a recusa em entoar seus gritos. Representa um risco real a liberdades democráticas.
Aos que insuflam esta situação é sempre bom lembrar o destino de Carlos Lacerda após o golpe de 1964. Quem aposta na tática incendiária tem sempre o risco de ver o fogo sair do controle.