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terça-feira, 9 de abril de 2019

Para todos os que resistem ao mal e ao autoritarismo, por Urariano Mota


"A vida é o que resiste. Que contradição mais estranha, eu descubro e me digo: a vida, tão breve, é tudo que resiste. É que existe uma resistência na duração do momento..."

Para todos resistentes
Por Urariano Mota
Trecho do romance “A mais longa duração da juventude” para a resistência hoje e sempre:
“A vida é o que resiste. Que contradição mais estranha, eu descubro e me digo: a vida, tão breve, é tudo que resiste. Mas que paradoxo: se ela está no tempo que se dirige para o fim, se ela é naquilo que deixará de ser, como resistirá à Irresistível? – É que existe uma resistência na duração do momento, pela intensidade, luz ou cintilação do breve. É como o brilho da estrela distante que recebemos agora, “agora” ainda. Mas esse agora simultâneo não há. O que vemos já não mais existe, tamanha foi a distância que a luz percorreu no espaço até atingir a nossa percepção. Mas isso é do terreno da física, mecânico, do reino dos trezentos mil quilômetros por segundo. O que escrevo é de outra natureza.
A resistência, que é vida, se faz na brevidade pelas ações e trabalho dos que partiram e partem. Mas nós, os que ficamos, não temos a imobilidade da espera do nosso trem. Nós somos os agentes dessa duração, o trem não chegará com um aviso no alto-falante, ‘atenção, senhor passageiro, chegou a sua hora’. Até porque talvez chegue sem aviso, e não é bem o transporte conhecido. O trem é sempre de quem fica. E porque somos agentes da duração, a nossa vida é a resistência ao fugaz. Nós só vivemos enquanto resistimos”.

sexta-feira, 8 de março de 2019

No dia de hoje, 8 de março… Esperamos que o martírio dessas meninas, moças, filhas, mães, irmãs, exposto à luz da história, impeça o martírio de outras meninas, moças, filhas, mães, irmãs



por Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos

No dia de hoje… 
08 de março é dia de prestar nossas homenagens – nesta série de textos sobre a violência estatal e suas vítimas – às mulheres que, direta ou indiretamente, foram atingidas pela violência do Estado.
Como fizeram Aldir Blanc e João Bosco, é preciso lembrar das Marias e Clarices, que choraram, mas que sobretudo resistiram criando seus filhos após terem visto seus maridos serem presos e recebido uma comunicação falsa de suicídio.
É preciso lembrar das Marias, Mahins e Marielles, mulheres negras e imortais, que lutaram contra a escravidão e a injustiça que se instalou mesmo após a abolição.
Fica aqui registrado o nosso agradecimento à Mangueira, por nos ensinar que o nome do Brasil é Dandara, guerreira, mulher de Zumbi dos Palmares, que se suicidou quando foi presa para nunca mais voltar a ser escrava.
Hoje é dia de lembrar de Isabel e de Janaína, que conheceram a violência estatal ainda crianças de tenra idade, para que suas mães fossem forçadas a entregar informações sobre seus familiares; de Criméia Alice que, grávida de seu companheiro na Guerrilha do Araguaia, André Grabois, voltou para a cidade, mas caiu em mãos sujas que a colocaram num pau de arara; de Patrícia, irmã de um sobrevivente da chacina da Candelária, e que luta em nome dele e de tantas outras crianças vitimadas apenas por terem nascido pobres e negras; de Débora, que teve seu filho, jovem e já trabalhador há 07 anos – como gari -, gratuitamente assassinado pela Polícia Militar no fatídico mês de maio de 2006; de Ana Rosa, Heleny, Ísis, Walquíria, Lenira e de tantas outras resistentes, assassinadas por forças estatais, mas que sequer tiveram seus corpos entregues às famílias para sepultamento.
Esperamos que o martírio dessas meninas, moças, filhas, mães, irmãs, exposto à luz da história, impeça o martírio de outras meninas, moças, filhas, mães, irmãs.
“Para que não se esqueça, para que não se repita”.

sábado, 31 de dezembro de 2016

2016, o ano da Besta! 2017 ..., por João Feres Jr.



"Gostaria de chamar atenção para um aspecto que para mim é central em todo esse drama -- é na verdade uma lição que todos já deveriam ter aprendido: toda vez que o poder do voto popular é cassado ou manietado, como o foi agora, quem sofre é o próprio povo, e particularmente os mais pobres. Foi assim na ditadura militar, aboliram as eleições e produziram ao longo de vinte anos um país desenvolvido que veio a ser também o mais desigual do mundo.

"Com o retorno da democracia eleitoral, a ampliação de direitos e de políticas públicas sociais produziram inclusão e mitigação das desigualdades, com destaque para a performance do presidente Lula. Pois bastou o golpe se consumar, e Dilma ser removida do cargo, para o novo presidente voltar toda a máquina política sob seu controle à tarefa de desmonte dos mesmos direitos e políticas públicas que haviam produzido a inclusão. O destaque aqui vai para a PEC 55, que promete 20 anos de sofrimento econômico e aumento das desigualdades."
2016, o ano da Besta! 2017 ...
por João Feres Jr.
Jornal GGN - A tentação de escrever um artigo de final de ano, com um sumário dos principais fatos transcorridos, é grande. Porém, o desafio é imenso, uma vez que esse ano de 2016 parece ter produzido mais fatos relevantes do que uma década inteira de anos “normais”.
Este ano foi o terror dos analistas de plantão. O perigo de uma análise ficar ultrapassada antes mesmo de ser publicada foi real e intenso. A sucessão de fatos surpreendentes, alguns estarrecedores, parece ter arrefecido somente com a chegada do final de ano. E eu começo esse texto exatamente por essa constatação. Pois esse arrefecimento já significa algo. Se a sociedade estivesse em ebulição, o final do ano provavelmente seria engolfado em acontecimentos – para além dos desastres e catástrofes que acontecem todo ano nessa época. Mas não, o que está em pandarecos, de pernas para o ar, são as instituições da nossa democracia, mais especificamente, os poderes da república.
No começo deste ano fatídico, participei de programa de rádio da BBC aqui no Rio para o qual também foi convidado um cientista político pernambucano que conheço há décadas. Ele garantia em alto e bom som que o impeachment era produto da saúde das instituições democráticas brasileiras, que não havia nada de errado com elas. Eu fiz questão de discordar, em inglês, como havia já feito várias vezes em português para outros interlocutores. Para mim, o cancelamento das eleições via manu legislativa, da maneira casuística como estava sendo feito, iria acarretar em trauma do qual as instituições não iriam se recuperar tão cedo, colocando inclusive em risco a ordem constitucional criada em 1988. Na época, havia mais de um cientista político pernambucano falando tais asneiras. Hoje, contudo, mergulharam em silêncio tumular.
Eu não gosto de futurologia. Acho que a publicização de opiniões sobre o futuro flerta com o fracasso e também a irresponsabilidade. A minha resposta futurológica foi reativa, e, infelizmente, eu estava certo. Para a sorte dos futurólogos de plantão, as pessoas têm memória curta, e se esquecem das previsões equivocadas feitas mesmo em passado recente. Para azar da maioria dos brasileiros, deceparam o executivo e o caos se instalou no sistema político brasileiro, com consequências dramáticas para o estado de direito, a justiça social e as políticas públicas em geral.
Gostaria de chamar atenção para um aspecto que para mim é central em todo esse drama -- é na verdade uma lição que todos já deveriam ter aprendido: toda vez que o poder do voto popular é cassado ou manietado, como o foi agora, quem sofre é o próprio povo, e particularmente os mais pobres. Foi assim na ditadura militar, aboliram as eleições e produziram ao longo de vinte anos um país desenvolvido que veio a ser também o mais desigual do mundo.
Com o retorno da democracia eleitoral, a ampliação de direitos e de políticas públicas sociais produziram inclusão e mitigação das desigualdades, com destaque para a performance do presidente Lula. Pois bastou o golpe se consumar, e Dilma ser removida do cargo, para o novo presidente voltar toda a máquina política sob seu controle à tarefa de desmonte dos mesmos direitos e políticas públicas que haviam produzido a inclusão. O destaque aqui vai para a PEC 55, que promete 20 anos de sofrimento econômico e aumento das desigualdades.
Já que o ritual manda que, em textos desse tipo, de final de ano, sejamos minimamente positivos, aqui vai: na lógica eleitoral básica reside nossa esperança para o futuro. Ora, é fato que as instituições se encontram em forte desarranjo e conflito: legislativo decapita o executivo, STF decapita o legislativo e tenta repetir a façanha com um voto monocrático, MP ameaça o legislativo federal em cadeia nacional de televisão, juízes e procuradores agem sistematicamente em violação do Estado de direito sem sofrer qualquer sanção, o MP está sendo consumido também por conflitos internos entre a PGR e os MPs federais nos estados, a Polícia Federal, o MP e o judiciário vazam repetidamente informações confidenciais, etc.
Mas enquanto houver democracia eleitoral, enquanto o sistema representativo não for manietado por um golpe dentro do golpe, que reduza o alcance do voto popular, há esperança que os poderes políticos voltem a se impor e saiamos dessa espiral viciosa.
Para que isso aconteça, contudo, é preciso que os poderes eleitos, os únicos aos quais de fato foi transferida a soberania popular, coloquem rédeas nos poderes não eleitos, judiciário e MP, e voltem a controlar as burocracias de Estado, como a Polícia Federal.
Mas não basta concluir que isso precisa ser feito. Tal análise institucional não nos mostra como isso pode ser feito. A meu ver, um ponto fundamental é romper a captura da política pelo discurso da corrupção. Enquanto os brasileiros continuarem a pensar a questão da corrupção como prioridade da política ficaremos presos a esse jogo simbólico e institucional que investe de legitimidade as burocracias de Estado do sistema de justiça e rouba legitimidade dos poderes políticos propriamente ditos.
A submissão da política ao problema corrupção foi a maior conquista da grande mídia na última década. De maneira intensa e continuada as grandes empresas de mídia investiram nesse discurso como principal estratégia para destruir o projeto da esquerda no poder – que na prática era um projeto de centro-esquerda. Conseguiram não somente seduzir a classe média, que foi às ruas de camisa da CBF pedir o fim do PT, mas também muitos indivíduos das classes subalternas, que compram a narrativa de que a classe política é uma elite de sanguessugas responsável pela opressão dos pobres.
Para a classe média, os políticos são corruptos que lhes infligem altos impostos e oferecem serviços públicos sem qualidade suficiente para serem usados. Na verdade, muitos sabem claramente que o projeto político do golpe, que é o do PSDB, é altamente lesivo para os mais pobres, e, assim, nutrem esperanças que o aumento da exploração da mão de obra barata lhes seja benéfica, nem que seja somente para pagar menos a sua empregada doméstica. Em seus variados graus de mesquinhez, tal classe média não consegue ver que não há saída coletiva para nosso país que não contemple a inclusão da massa de pobres e, portanto, a diminuição das desigualdades. Só ela pode produzir melhores serviços, maior riqueza e diminuição brutal da violência urbana – item muito sensível para essa classe.  
Os indivíduos mais pobres que compram o discurso da corrupção me parecem ainda mais equivocados, pois da atual situação não abiscoitam sequer vantagens mesquinhas de curto prazo. O combate à corrupção no Brasil de hoje tem produzido de fato a perseguição política do PT, a violação do Estado de direito para além do que já era feito, o cancelamento do voto popular e a instalação de um governo com políticas extremamente nocivas a seus interesses. Se o coxinha de classe média escolhe o racionalismo imediatista e sórdido ao invés da solução racional de longo prazo, o coxinha pobre sequer tem motivos racionais para sua escolha. Mas ambos se equiparam por chafurdar na própria ignorância – que é produzida cotidianamente pelos meios de comunicação. Afinal de contas, como é que adquiriram todas as informações que os possibilitam reproduzir a narrativa da política como corrupção? Da vivência pessoal é que não foi.  
Dado este estado de coisas, é preciso perguntar: como começamos a desmanchar esse imbróglio? Se a narrativa está nas mãos da grande mídia e esta, por sua vez, está há décadas nas mãos de grandes famílias de tradição conservadora e demófoba, como romper com ela? Se as instituições estão já em estado de profundo desarranjo, como reorganizá-las? A resposta não é simples, mas arrisco dizer que ela passa necessariamente pela manutenção da democracia eleitoral nos moldes como a temos hoje, pelo menos, e pelo esforço contínuo de desmontar, via política institucional e sociedade civil, o oligopólio midiático do qual somos quase todos vítimas.
De uma coisa podemos estar certos para o futuro:  ninguém vai fazer isso por nós. A vida é só uma. O país do qual somos cidadãos é só um. Então, mãos à obra!

domingo, 20 de novembro de 2016

Do site jurídico Justificando: Meu mais profundo respeito aos dignos policiais que se juntaram aos manifestantes, por Roberto Tardelli, procurador de Justiça do MPSP Aposentado.

Meu mais profundo respeito aos policiais que se juntaram aos manifestantes

Foto: Reprodução/ Facebook – Julio Trindade
"Eu tenho orgulho desses soldados, eu tenho orgulho republicano nessa deserção, queria poder abraçá-los e pensar que no Rio de Janeiro, centenas serão os advogados que se levantarão para defendê-los. Centenas de nós, milhares de nós, milhões de brasileiros que agradecem a heroica deserção."
  Justificando. - Eles baixaram as armas, guardaram a baioneta e, talvez pela primeira vez na vida, trocaram as armas pela razão. Olharam os manifestantes e não tiveram o despudor de seus comandantes de atacar senhores e senhoras, funcionários públicos, enfermeiros, professores, médicos, ascensoristas, escriturários, aposentados, gente da maior periculosidade. Gente que torce para o Flamengo e para a Mangueira, gente que deu a vida e o sangue para o serviço público, que não teve hora extra ou Fundo de Garantia, que nunca teve quadro de carreira, que passou a vida entre paredes sem cor e carimbos envelhecidos, gente que só tinha seu nome lembrado no Diário Oficial.
Os soldados, republicanos e democratas, ainda que tardio, não conseguiram cumprir as ordens que lhe chegavam aos berros nos ouvidos. Let the mother fucker burn gritava o rock para o soldado americano no Iraque, na cena mais tocante do documentário de Michael Moore sobre a guerra do Iraque. O mundo gira na cabeça do soldado que pode investir contra aquele que, na verdade, também é seu vizinho, seu parente, sua amiga, sua professora ou o professor de sua filha, de seu filho. O capitão, tenente, major, coronel, seja lá quem o tenha mandado bater, atirar com balas de borracha, bombas de efeito moral, ele que o fizesse.
Se a ordem é manifestamente ilegal, amigo, você não está obrigado a cumprir. Se à tua frente estão senhores pacatos e barrigudos, apavorados porque um governo elitista e fraudulento lhes rouba o último dinheiro que tem, se à tua frente existe gente honesta pedindo que lhe devolvam o que será roubado, nada existe que te obrigue a atacá-los.
Chaplin, gênio entre os gênios, em seu momento mais inspirado imortalizou:
Soldados! Não vos entregueis a esses brutais… que vos desprezam… que vos escravizam… que arregimentam as vossas vidas… que ditam os vossos atos, as vossas idéias e os vossos sentimentos! Que vos fazem marchar no mesmo passo, que vos submetem a uma alimentação regrada, que vos tratam como gado humano e que vos utilizam como bucha de canhão! Não sois máquina! Homens é que sois! E com o amor da humanidade em vossas almas! Não odieis! Só odeiam os que não se fazem amar… os que não se fazem amar e os inumanos! Soldados! Não batalheis pela escravidão! Lutai pela liberdade! No décimo sétimo capítulo de São Lucas está escrito que o Reino de Deus está dentro do homem – não de um só homem ou grupo de homens, ms dos homens todos! Está em vós! Vós, o povo, tendes o poder – o poder de criar máquinas. O poder de criar felicidade! Vós, o povo, tendes o poder de tornar esta vida livre e bela… de faze-la uma aventura maravilhosa. Portanto – em nome da democracia – usemos desse poder, unamo-nos todos nós. Lutemos por um mundo novo… um mundo bom que a todos assegure o ensejo de trabalho, que dê futuro à mocidade e segurança à velhice.
Eu tenho orgulho desses soldados, eu tenho orgulho republicano nessa deserção, queria poder abraçá-los e pensar que no Rio de Janeiro, centenas serão os advogados que se levantarão para defendê-los. Centenas de nós, milhares de nós, milhões de brasileiros que agradecem a heroica deserção.
Os soldados republicanos que marcharam para a República e deixaram os passos da brutalidade certamente não seria aqueles idiotizados pela mídia que invadiram o Congresso Nacional, pedindo intervenção militar. Intervenção Militar e gritando o nome do Super-Juiz, certamente porque a intervenção militar e o Super-Juiz muito possuem em comum.
Os intervencionistas estão saudosos do pau de arara, dos choques, dos Ustras que nos sufocaram. Não são desonestos, não são canalhas, não pessoas de mau-caráter, não. São apenas pessoas comuns idiotizadas e fanatizadas pela violência estúpida.
A deserção corajosa e republicana nos dá esperança de que algo está se movendo, de que algo está acontecendo, de que alguma semente germinou, tão importante que seu nome não foi divulgado, afinal, não é um bandido comum, de foto a ser estampada no Jornal Nacional.
Os policiais que se recusaram a cumprir a ordem foram, antes de tudo, grandes pessoas. A eles, meu mais absoluto respeito.
Roberto Tardelli é Advogado Sócio da Banca Tardelli, Giacon e Conway. Procurador de Justiça do MPSP Aposentado.

sábado, 19 de março de 2016

Martha Costa: Tomemos as ruas não por Lula, mas contra o golpe à democracia


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Lula é apenas um símbolo que a direita pretende destruir (foto Luiz Carlos Azenha)
A força simbólica de Lula e dos setores sociais progressistas conseguirá deter o golpe?
por Martha Costa*, Mestre em Filosofia Política pela USP, em especial para o Viomundo
Ontem, dia 18 de março, em plena Avenida Paulista, tive a oportunidade de ver a figura do presidente Lula e ouvir seu discurso pela primeira vez em minha vida. Eu, atualmente com vinte e sete anos, e outros ainda mais jovens do que eu ali presentes não temos a experiência tampouco a lembrança nítida dos grandes movimentos de rua que agitaram o período da redemocratização ou que pressionaram pelo impeachment de Collor.
Daí o impacto que o discurso de Lula causou sobre toda essa nova geração que nasceu sob a democracia, mas que, talvez por falha dos nossos projetos educacionais, é pouco consciente da história de lutas que foi travada para que chegássemos até aqui.
Para muitos de nós a democracia é vivida como algo que simplesmente “se tem”, garantido e naturalizado, o nome de um regime formal expresso na obrigação de votar e cujo sentido mais profundo por vezes nos escapa.
As palavras proferidas por Lula ontem tiveram a função pedagógica e simbólica de testemunhar, para uns, e reacender, em outros, o valor da defesa da democracia.
Aquela multidão que coloriu a Avenida Paulista com a diversidade da cor de suas peles e de suas bandeiras não era uma massa amorfa tomada por um delírio raivoso, pregando “a morte da burguesia”.
O que dava sentido e unidade àquelas pessoas tão diferentes entre si era a força simbólica que o valor da democracia tem o poder de fazer despertar.
O povo, naquela ocasião, não correspondia a nenhuma definição econômica estrita (não eram exclusivamente os pobres de baixa renda beneficiados pelos programas sociais do PT); o povo presente naquele espaço era um povo definido pelo desejo de preservar a ordem democrática, tanto no seu aspecto legalista (constitucional) quanto no que se refere aos valores da convivência democrática.
Foi essa defesa comum da democracia que colocou, lado a lado, militantes dos movimentos sociais organizados, negros, brancos, nordestinos, professores, intelectuais, secundaristas, universitários, pessoas com deficiências físicas, homossexuais, mas também pessoas de terno (e gravatas vermelhas) e outras tantas que, pela cor e figurino, julgaríamos, à primeira vista, como os representantes legítimos da “burguesia”.
Todos ali compartilhavam, de maneira mais ou menos consciente, que apenas a manutenção da democracia e o seu aprofundamento seriam capazes de permitir a própria existência da diversidade (crenças, comportamentos, opiniões) nos espaços públicos, assim como a defesa e criação de direitos.
Lula falou a essa gente, sem distinção.
Nesse momento, a força simbólica de Lula nunca se tornou tão evidente.
Enfrentando os efeitos do tempo que separam gerações, carregando nas costas o peso dos desgastes por ter sido duas vezes presidente e, mais recentemente, por ter se tornado o alvo predileto das operações jurídicas e midiáticas que tentam minar a sua figura, Lula mostrou um surpreendente poder de inspirar e aglutinar os desejos sociais.
Ele sabe como ninguém falar a língua do povo: pelas suas imagens e metáforas, fala ao coração das pessoas, mas sem subestimar sua capacidade de compreensão sobre aquilo que está em jogo na situação atual.
A fala de Lula veio dar força e compreensão à luta que precisamos travar em nome da democracia.
Por um lado, encontramos nela elementos para uma defesa da legalidade democrática, por exemplo, o respeito pelo voto da maioria (nunca é demais lembrar que a força numérica das manifestações do dia 13 de março não é superior aos 54 milhões de votos que elegeram a presidenta Dilma em 2014 e sustentam a legitimidade do seu mandato até 2018) e a obrigação de que cada instância do poder atue em conformidade aos princípios básicos da Constituição (princípio diretamente afrontado quando segmentos do Poder Judiciário quebram o sigilo dos processos, fazem vazamentos seletivos a uma imprensa historicamente golpista, determinam conduções coercitivas, obtêm depoimentos de delatores por meio de prisões preventivas, o que quebra o princípio da voluntariedade do depoimento e o torna semelhante a uma extorsão).
Por outro lado, a fala de Lula nos coloca diante da necessidade de fazer da democracia uma convivência social democrática.
Para além da defesa dos princípios constitucionais e da legalidade que deve reger nossas instituições, Lula ressaltou que a democracia é também – e talvez fundamentalmente – uma forma da coexistência humana e que, nesse sentido, é urgente que nos tornemos uma sociedade democrática, ou seja, uma sociedade que saiba conviver com suas divisões e conflitos, diferenças de pontos de vista e comportamentos, fazendo disso ocasião para o debate e o diálogo, não para a violência e a eliminação do outro.
Com sua fala metafórica, Lula faz um apelo para que nossas diferenças sejam debatidas e sustentadas racionalmente nos espaços públicos, sem que o seu agravamento nos conduza ao império do ódio e da violência.
Uma sociedade democrática precisa atingir a consciência de que suas divisões são a sua força, que as suas diferenças impedem que se torne o regime da homogeneidade de opiniões, mas, ao mesmo tempo, ela precisa ganhar clareza de que essas divisões precisam se resolver no âmbito político e institucional, amparadas pela força popular que o sustenta.
A manifestação de ontem abriu esse campo de significados para todos nós, colocando-nos diante da necessidade de resistir.
Ela configurou um espaço de encontro onde reconhecemos afinidades de ideias e valores e nos forneceu a certeza de que não estamos sozinhos, como querem fazer crer diariamente os meios de comunicações nesse país. Não somos nós os loucos, iludidos, defensores de criminosos.
Somos uma força de luta e resistência que nos reconhecemos nos mesmos valores e, por isso mesmo, crescemos numa proporção que assusta as forças golpistas em curso.
Contra nós, essas forças precisarão acelerar seu passo.
Curioso observar que quase não encontramos quem questione a pressa com que Eduardo Cunha abriu ontem as sessões da comissão de impeachment, cujo andamento será acelerado, assim como não se questiona a rapidez com que Gilmar Mendes decidiu sozinho sobre o retorno do processo de Lula para as mãos de Sergio Moro.
É quando a pergunta desse texto finalmente se impõe: a força simbólica de Lula e dos setores sociais progressistas conseguirá deter o golpe?
Essa jogada de Gilmar Mendes horas depois do fim da manifestação revela que eles têm pressa para acabar com tudo aquilo que a figura de Lula pode inspirar e, portanto, eles sabem que é preciso linchá-lo publicamente por meio de uma prisão preventiva cujas “razões” são um atentado ao bom senso.
Por outro lado, no Painel de hoje da Folha de São Paulo foi publicado que a “Câmara exigiu que Jovair Arantes fizesse relatório a favor de impeachment para colocá-lo em relatoria”.
Haveria, assim, um acordo tácito previamente firmado entre a cúpula do PMDB e o relator da comissão de impeachment Jovair Rosso (PTB-GO) para que este fizesse um parecer favorável à cassação da presidenta Dilma, sem que ele seja acusado de partidarismo, uma vez que seu partido é da base do governo.
Há, assim, grandes chances de que o impeachment prevaleça e isso porque nossa sorte está nas mãos daqueles que foram democraticamente eleitos em 2014.
Paradoxos da democracia?
O impeachment pode ocorrer dentro das “regras do jogo”, de forma perfeitamente democrática por uma Câmara e por um Senado de perfil conservador e antidemocrático, formado pela extraordinária força da bancada do boi, da bala e da Bíblia (para empregar uma expressão de Marilena Chaui), sedenta por fazer retroceder os direitos sociais efetivados pelos governos do PT nos últimos anos.
Eles darão ouvido aos nossos gritos de “não vai ter golpe”?
Para eles não há outro momento: ou viram a mesa agora pelo Golpe ou perdem novamente, nas urnas em 2018, a chance de fazer esse país voltar ao controle das suas velhas elites, saudosas de ver o povo no lugar em que ele sempre esteve, na senzala.
Precisamos, mais do que nunca, mostrar que a força da democracia é também uma força simbólica, que não se desvincula do povo e que não cessa de se exercer quando os representantes são eleitos e se encastelam em seus gabinetes, fechando os olhos e os ouvidos àqueles que os elegeram.
Eles creem que possuem um poder que provém deles e é deles, como propriedade particular. Por ora, nós precisamos crer que a nossa força simbólica, gestada e expressa nas ruas, poderá exercer alguma influência.
Do contrário, apenas assistiremos, sem resistência, ao golpe que se processa nos bastidores do poder por aqueles elegemos e juram agir em nosso nome observando a Constituição.
Nunca foi tão necessário defender a voz e a participação popular direta nos espaços públicos, ainda que o peso e os vícios da nossa democracia representativa busque, por todos os meios, enfraquecer e emudecer a nossa voz, os nossos desejos de liberdade e a nossa recusa da opressão.
Tomemos as ruas. Se sucumbirmos, que seja lutando, pelo coro das nossas vozes e pela reunião dos nossos corpos.
*Mestra em Filosofia Política pela USP

quarta-feira, 16 de dezembro de 2015

Clube da Engenharia se posiciona contra o impeachment

  O Clube de Engenharia posicionou-se sobre a instabilidade política que afeta o Brasil, evidenciando seu repúdio às ameaças que pairam sobre a democracia e à ofensiva em curso para afastar a presidente Dilma Rousseff de mandato conquistado pelo voto popular.



Do Blog da Hildegard Angel
O Clube de Engenharia posicionou-se sobre a instabilidade política que afeta o Brasil, evidenciando seu repúdio às ameaças que pairam sobre a democracia e à ofensiva em curso para afastar a presidente Dilma Rousseff de mandato conquistado pelo voto popular.
 
Abaixo, na íntegra, o posicionamento oficial do Clube de Engenharia do Brasil.
 
BRASIL, URGENTE: PELA DEMOCRACIA
 
Em face da crise política que neste momento afeta a vida brasileira, o Clube de Engenharia manifesta seu repúdio às ameaças que pairam sobre a democracia, diante da ofensiva em curso para afastar a presidente Dilma Rousseff, eleita com mais de 54 milhões de votos.
 
É certo que o recurso ao impeachment está na Constituição, tanto que já foi aplicado, sem arranhar a democracia, em relação ao presidente Collor. Há, entretanto, de ser embasado em sólida argumentação jurídica, o que não ocorre no caso atual.
 
Estamos diante de uma despudorada tentativa de – sem o voto popular – capturar o Estado. A audácia já chega ao ponto de propor um parlamentarismo disfarçado, embora por  duas vezes repudiado nas urnas.
 
No Presidencialismo, mau desempenho do governante não enseja a sua substituição. Há, assim, de se respeitar o mandato conferido pelo voto popular.
 
O Clube de Engenharia, fiel às suas tradições, defende a estabilidade das instituições e o Estado Democrático de Direito e denuncia à Nação o caráter golpista da ofensiva em curso.
 
Rio de Janeiro, 14 de dezembro de 2015 

quarta-feira, 8 de abril de 2015

A descartibilidade do trabalhador e a ameaça ao trabalho pela terceirização: artistas esclarecidos criticam, em vídeo, o projeto de lei reducionista que terceiriza trabalhadores

Segue vídeo e dois artigos sobre o terrível, mercantilista e reducionista projeto reacionário de Lei sobre a Terceirização do Trabalho, passo dos exploradores para descartar direitos, achatar salários, desqualificar e minimizar a dignidade dos trabalhadores, com o apoio do sabotador da bancada evangélica Eduardo Cunha:



Wagner Moura, Dira Paes, Camila Pitanga, Bete Mendes e Osmar Prado participam da campanha “Todos contra a Terceirização”; o vídeo, gravado em 2013, voltou a circular com a polêmica em torno do PL 4.330/04

Por Redação da Revista Fórum

Por um lado, o presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), já manifestou apoio ao projeto de lei 4.330/04, que regulamenta a terceirização de trabalhadores. Segundo ele, o PL terá prioridade nas votações da Casa. Do outro, centrais sindicais e ativistas de vários movimentos fazem pressão contra a proposta legislativa, considerada uma afronta aos direitos trabalhistas conquistados até então.

A Associação Nacional dos Magistrados da Justiça do Trabalho (Anamatra) é uma das entidades que criticam o PL. Há anos, a campanha “Todos contra a Terceirização” tenta chamar a atenção para o risco de precarização e exploração da mão-de-obra desses profissionais.

Uma das peças de divulgação da iniciativa é um vídeo gravado com artistas que integram o Movimento Humanos Direitos (MHUD), como Wagner Moura, Dira Paes, Camila Pitanga, Bete Mendes e Osmar Prado. “A terceirização se dá quando o trabalho de alguém é vendido por um intermediário que lucra com isso. O projeto pretende autorizar essa prática de forma generalizada”, diz a mensagem.

As imagens, gravadas em 2013, voltaram a circular durante essa semana nas redes sociais de associações, sindicatos e entidades que se opõem ao projeto em andamento na Câmara. “Atrás do discurso da modernização da indústria e do campo, estão as piores formas de exploração do trabalho humano. Um produto na prateleira pode esconder a triste realidade da exploração de um trabalhador. Esse é o Brasil que você quer para as futuras gerações?”, questiona o vídeo.

Assista:





Resumo Didático do PL 4.330 para ser Disseminado nas Redes Sociais

Ségio Godoy, do Viomundo

Se a polícia pisa na cabeça de sindicalista, alguma coisa importante está em jogo…
Mas o que é o PL 4330 e por que houve toda aquela “bagunça” ontem?

Este projeto de lei aprovará a contratação de empresas que fornecem mão de obra terceirizada em qualquer quantidade e em qualquer lugar da cadeia produtiva.

Hoje uma empresa só pode terceirizar no que chamamos de atividade meio, que são as funções secundárias para a empresa.

Ou seja, hoje, uma empresa que produz carros não pode terceirizar a linha de produção, mas pode terceirizar a segurança, o restaurante e a limpeza.

Na nova lei uma escola poderá contratar outra empresa para fornecer professores, um restaurante pode terceirizar sua cozinha, poderá inclusive haver uma empresa sem nenhum funcionário e que terceiriza todas as suas atividades.

Mas por que um empresário terceiriza?

O manual de economia da USP diz que a função de uma empresa é o lucro, e que os empresários só investem se houver possibilidade de ganho.

A terceirização é uma forma do empresário economizar com a folha de pagamento.

Mas não há mágica, uma empresa só consegue fornecer mão de obra mais barata para outra empresa se ela pagar um salário menor ou reduzir os direitos trabalhistas.

Hoje os trabalhadores terceirizados ganham em média 30% menos, estão envolvidos em 70% dos acidentes de trabalho que resultam em morte, ficam nos seus postos de trabalho em média um ano.

Assim, liberar todos os tipos de terceirização significa ampliar um regime de contratação que possibilita reduzir salários e direitos.

Na prática, vamos flexibilizar a CLT e criar dois regimes jurídicos de trabalho, um com direito a FGTS, férias anuais, décimo terceiro, plano de carreira e seguro desemprego.

Outro com contratos temporários sem nenhum destes direitos, inclusive entre os funcionários públicos.

Os países que são assim são México, Vietnã, Tailândia, nenhum deles desenvolvido, nenhum deles onde os trabalhadores tem uma vida decente.

Pense nisso, que país você quer para você?

Sérgio Godoy


domingo, 28 de outubro de 2012

Assange e a Justa Luta por Justiça

"Toda a vez que presenciamos uma injustiça
e não agimos,
Nós estamos treinando nosso caráter
para ser passivo com o ocorrido.
E é assim que acabamos por perder
toda a capacidade
de nos defendermos
e defendermos
a quem amamos"

Julian Assange