Conheça a Internacional Feminista, a construção de uma articulação internacional feminista formada por Angela Davis, Nancy Fraser, Amelinha Teles, Isa Penna e mais de três mil feministas
No dia 8 de março, as flores, os chocolates e os parabéns distribuídos nas ruas, via de regra, não reverberam o significado do Dia Internacional de Luta das Mulheres, que é mais verossímil do que apenas Dia das Mulheres. O 8M vem para lembrar o lugar imposto às mulheres e a luta diária destas para sobreviver a essa estrutura patriarcal, capitalista, racista e misógina.
Mais do que conceitos, as estatísticas descortinam o motivo. De acordo com uma pesquisa realizada pelo Datafolha, encomendada pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), em fevereiro de 2019, nos últimos 12 meses, 12 meses, 1,6 milhão de mulheres foram espancadas ou sofreram tentativa de estrangulamento, 22 milhões (37,1%) de brasileiras passaram por algum tipo de assédio, 42% dos casos de violência contra a mulher ocorreram no ambiente doméstico. Muitas vezes por medo ou por conhecer a negligência do Estado, mais da metade das mulheres (52%) não denunciou o agressor. Mais do que dados, os relatos dão gênero, cor e classe para os corpos que são diariamente violentados num processo de naturalização do lugar do corpo da mulher.
Na busca por uma construção de uma articulação internacional feminista, Angela Davis, Cinzia Arruzza e Nancy Fraser lançaram um chamado: aInternacional Feminista. O manifesto do movimento já foi assinado por mais de 3.400 mulheres de destaque no meio artístico, intelectual e político, como Sueli Carneiro (Geledés Instituto da Mulher Negra, Brasil), Amelinha Teles (União de Mulheres de São Paulo, Brasil), Angela Davis (Founder of Critical Resistance, Estados Unidos), Antonia Pellegrino (escritora e ativista, Brasil), Marta Dillon (Ni Una Menos, Argentina), Sonia Guajajara (Articulação dos Povos Indígenas do Brasil), Esther Solano (professora da Unifesp, Brasil) e Letícia Sabatella (atriz, Brasil).
Isa Penna, deputada estadual em São Paulo pelo PSOL e parte da Internacional Feminista, explica que a ideia é partir dos países onde o movimento feminista já está mais estruturado para pensar a necessidade de uma articulação transnacional diante do avanço da extrema-direita. “Estamos pensando em reuniões das principais referências do movimento internacional para chegar ao ponto de conseguir fazer eventos grandes em algum lugar do mundo para de fato ter sustentação”, afirma a deputada.
Segundo o manifesto da Internacional Feminista, o feminismo está transformando e ressignificando o significado da solidariedade internacional. “Nos últimos meses o movimento feminista argentino usou o evocativo nome de “Internacional Feminista” para se referir à prática da solidariedade internacional reinventada pela nova onda feminista, e em alguns países, como a Itália, o movimento está discutindo a necessidades de encontros transnacionais para melhor coordenar e compartilhar visões, análises e experiências práticas”, apresenta o documento.
A Internacional Feminista defende que o feminismo que vem da nova geração feminista, a linha de frente contra o fortalecimento das forças de extrema-direita, é moldado “pelo sul não só no sentido geográfico, mas também no sentido político”, que é a “periferia do mundo” e, por isso, é anticapitalista, antirracista e anticolonial. “Há coerência nesse feminismo moldado por esses três eixos porque o processo histórico dá coerência a esse tres eixos. O capitalismo precisou do colonialismo para se estruturar e este, por sua vez, da escravização. Logo, o antirracismo, o anticapitalismo e o anticolonialismo são eixos de luta intrínsecos uns aos outros. O patriarcalismo vem antes, mas foi reforçado e violentou de formas diferentes dos países colonizados”, afirma Penna.
Para ela, a extrema-direita depende de um programa econômico para se consolidar e vem acompanhada “de um casamento nefasto com aquilo que há de mais conservador e machista”. No Brasil, isso pode ser observado nas alianças entre políticos desse espectro ideológico com setores conservadores das igrejas evangélicas. Nas eleições presidenciais de 2018, Jair Bolsonaro teve apoio e votos de lideranças evangélicas conhecidas por suas faces conservadoras, como Edir Macedo e José Wellington Bezerra da Costa.
No entanto, a história mostra quem são os sujeitos políticos a fazer a resistência. “Na minha opinião, a última década vem mostrando que é e vem sendo o feminismo, são as lutas da negritude, são as lutas da comunidade LGBTI capazes de fazer resistência e de agregar as lutas por direitos sociais. As lutas não só de resistência, mas de uma agenda política de direitos concretos”, comenta.
“É preciso construir essa ponte entre as feministas e é a serviço disso que estamos construindo essa internacional feminista, não é uma internacional feminista autossuficiente, é uma internacional feminista cujo programa incorpora as lutas dos explorados e dos marginalizados mundo afora”, diz Penna.
Para assinar o manifesto feminista da Internacional Feminista, clique aqui.
Nova greve feminista marcará, em dezenas de países, o 8 de Março. Por que o movimento de mulheres cresceu e mudou tanto, em poucos anos. Como superou a onda individualista e volta-se, agora, contra as próprias lógicas do capitalismo?
Há quem discorda que estamos em uma terceira ou quarta onda do feminismo. Quem pensa que a mera classificação do movimento em ondas não tem sentido ou, inclusive, possa ser contraproducente. O que ninguém discute é o fato de que estamos assistindo a um ressurgimento da luta feminista que, pela primeira vez na história, aglutina mulheres de todas as idades, classes sociais, raças, identidades e lugares. Meninas de 12 anos e ativistas com várias décadas de luta nos bastidores compartilham uma visão de mundo e uma batalha travada nas casas, nas ruas, nas empresas, nos parlamentos, nas cortes de justiça e nas redes sociais.
Seja qual for o número dessa onda, estamos diante de um verdadeiro tsunami que não se conforma com a exigência de direitos específicos, mas que questiona a raiz toda e cada uma das violências machistas: de gênero, a econômica, a judicial, a educativa, a trabalhista, a cultural, a ambiental… “No momento, a luta pelo acesso à uma moradia é feminista, assim como a luta pelos direitos trabalhistas, pelo fechamento dos centros de detenção de imigrantes… E isso é algo novo. Não se trata de reivindicações para as mulheres ou para determinado tipo de mulheres, mas de questionar o modelo. O feminismo vê que a desigualdade da mulher não é um erro do sistema, mas o próprio sistema”, aponta a advogada e ativista Pastora Filigrana.
Para poder analisar a quarta onda do feminismo convém recordar alguns elementos que caracterizam as anteriores. A primeira onda, que as pensadoras europeias situam na época do Iluminismo, serviu para colocar em evidência que os recém-lançados direitos do homem deixavam de lado a mulher. A essa onda pertencem obras como a Declaração dos Direitos da Mulher e da Cidadã, de Olimpia de Gouges, publicada em resposta à a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão da Revolução Francesa, que negava às mulheres a condição de cidadãs e direitos tão básicos como o voto, a educação ou o trabalho. Na Inglaterra, Mary Wollstonecraftt publicava também sua Reivindicação dos direitos da mulher.
A onda seguinte, que a tradição anglo-saxã considera como a primeira, se produziu nos finais do século XIX e em princípios dos século XX. Foi protagonizada, sobretudo, pelo movimento das sufragistas e sua reivindicação de direito ao voto feminino. Depois de algumas décadas de avanço progressivo em todos os âmbitos da vida pública e privada, o auge dos fascismos em boa parte da Europa foi um importante freio e um retrocesso para milhões de mulheres.
Questionando os pilares do sistema
A terceira onda do feminismo (que é a segunda para as anglo-saxãs) começou entre os anos 60 e 70 do século passado e é considerada por muitos como uma onda de feminismo radical. Um movimento que se viu estimulado por obras fundamentais do pensamento como O segundo sexo, de Simone de Beauvoir, ou A mística da feminina, de Betty Friedan. A luta pelos direitos da mulher começa, por fim, a questionar os pilares do sistema patriarcal, incindindo em todas as suas manifestações: desde a violência sexual até os estereótipos sobre o que é ou não é feminino.
A frase mais emblemática dessa etapa é a de que “o privado é político”, que enfatiza a necessidade de ter poder político real para poder mudar as estruturas que perpetuavam a discriminação da mulher. O avanço não é, no entanto, linear. “A cada onda segue uma reação do patriarcado que é, às vezes, fonte de outra reação feminista – e assim sucessivamente”, explica a filósofa e professora da Universidade Complutense, Luisa Posada. Uma dinâmica na qual, depois de se conseguir avanços importantes, às vezes se produzem retrocessos e perdas de direitos que já se consideravam adquiridos.
Como explica graficamente Cristina Sánchez, filósofa e diretora do Instituto Universitário de Estudos da Mulher da Universidade Autônoma de Madri, as onda “se caracterizam por atirar, como pedras que na lagoa provocam ondas expansivas, novas demandas no espaço público, que provocam por sua vez ações – e também reações”.
Para a especialista, as reações aos avanços de mulheres com as quais o patriarcado contra-ataca costumam ter um mesmo padrão de comportamento: “O negacionismo das questões; reações violentas, tanto no terreno simbólico como no discurso político e social; a criação de imaginários e discursos que alertam sobre os perigos e desordem que supõem as demandas feministas em termos de destruição da ordem patriarcal”.
O romantismo, Doris Day e os hormônios
Muitas destas reações são tão sutis que se tornam difíceis de identificar. Rosa Cobo, teórica feminista e professora de Sociologia da Universidade de A Coruña, detalha algumas delas: “Depois da primeira onda do feminismo iluminista surgiu o Romantismo, a misoginia romântica. A resposta a segunda onda foi uma psicoanálise, como assinala Kate Miller. A reação a terceira onda foram Doris Day, Grace Kelly e a publicidade que reforçava o estereotipo da mulher perfeita que prefere ficar em casa”.
Doris Day, atriz e cantora estadunidense. “A reação a terceira onda foram Doris Day, Grace Kelly e a publicidade que reforçava o estereotipo da mulher perfeita que prefere ficar em casa”.
“A reação patriarcal que temos tido tem sido duríssima”, assinala Cobo. “A publicidade, a conversão da prostituição em um negócio internacional, a ideologia que gera a mercantilização e a coisificação dos corpos das mulheres. Acredito que tudo isso formou parte da reação patriarcal e do neocapitalismo do século XXI: a prostituição, as barrigas de aluguel… e acredito que isso é uma afirmação amplamente aceita, independentemente se você é abolicionista ou regulacionista”.
A historiadora da Universidade do País Vasco, Nerea Aresti, destaca como o movimento sufragista não só trouxe consigo campanhas de rechaço frontal ao voto feminino, mas também fez ressurgir muitas teorias misóginas. Algumas criadas no sagrado nome da ciência. “No princípio do século XX surgem teorias que defendem a inferioridade da mulher com argumentos científicos e empíricos de todo tipo. Utilizaram argumentos retirados da craniologia, da endocrinologia e da neurologia. Ideias encaminhadas para demonstrar que o organismo, o corpo e o cérebro das mulheres são inferiores por natureza. Argumentos usados em nome da ciência e que penetravam no debate público”. No meio desse movimento constante de ação e reação, podemos afirmar que estamos na quarta onda? Segundo Posada, sem dúvida estamos. “Se vê isso no movimento MeToo, nas mobilizações contra a sentença de La Manada, na Argentina pelo aborto, nas marchas contra Trump e Bolsonaro, nos cordões de mulheres na Índia, no feminismo africano, que está muito ativo em Uganda ou em Burquina Faso…” Uma onda que, na opinião da filósofa, tem características muito específicas. “É uma onda que foi ativada contra a violência, que aglutina de maneira especial a muitas jovens e que tem um caráter transnacional, próprio do momento de globalização em que vivemos. Não me refiro só à violência sexual, mas também à desigualdade econômica e trabalhista, a não redistribuição de cuidados, a pornografia, às barrigas de aluguel, a prostituição. Essas são as coisas especificas contra a qual a onda se levantou”, explica Posada.
Para Nerea Aresti, não é realmente tão importante determinar se estamos ou não diante de uma nova onda. “O que sim está claro é que estamos diante de um ressurgimento do feminismo que não ocorria há anos”. Segundo Aresti, diante dos avanços dos anos 70 e 80, “parecia que se havia conquistado importantes níveis de igualdade. Na Espanha, diante do franquismo, se conquistaram mudanças legislativas, sociais e de mentalidade que levaram muitas pessoas a pensar que o feminismo havia deixado de ter sentido. Além disso, o feminismo não foi a causa ou o motivo dessas mudanças. Para muitas jovens, essas mudanças pareciam somente frutos de uma evolução progressiva para a igualdade e não o resultado de uma luta”.
O feminismo domesticado dos anos 80 e 90
A feminista e antropóloga argentina Andrea D’Atri incide também nesses pontos ao analisar os anos 80 e 90. “Houve uma política por parte dos regimes de incorporar demandas levantadas nos anos 70, mas retirando os aspectos mais subversivos ou radicalizados e incorporando o feminismo às instituições do regime. É quando nascem os institutos da mulher, os departamentos de gênero das instituições do Estado ou as grandes instituições financeiras internacionais como o Banco Mundial ou o Fundo Monetário Internacional. Se cria assim o que algumas feministas definem como uma tecnocracia de gênero”.
O questionamento dessa falsa sensação de igualdade e da perda de radicalidade junto a uma virulenta reação do patriarcado são, para muitas especialistas, alguns dos elementos que explicam o surgimento dessa nova onda. Para Aresti existem dois fatores essenciais que acabaram com essa ilusão de igualdade: a violência sexual e a violência econômica, agravada notavelmente com a crise que eclodiu no ano de 2008.
Para Cristina Sánchez está claro que estamos assistindo a um movimento social transformador que, mais que rótulos, pressupõe um “salto qualitativo na presença massiva de um movimento intergeracional, internacionalista e interclassista que, em todas as partes, em quase todos os países, enfrenta o status quo patriarcal, tornando visíveis os pilares em que se sustenta: a violência e a exclusão das mulheres dos lugares de tomada de decisões”.
“Neste caso, já faz alguns anos que estamos vivendo o surgimento em muitos países de movimento de mulheres que reivindicam seus direitos, seu lugar na vida social e política ou uma justiça que as escute e acredite nelas”.
A pesquisadora Cecilia Cienfuegos concorda que assistimos a uma momento de “efervescência feminista”, mas alerta sobre o fato de que apresentar esse movimento em forma de ondas pode ser contraproducente. “Essa ideia de onda tende a ser simplificadora e busca uma uniformidade que não existe no feminismo em geral. E é saudável que não exista”. Cienfuegos explica que quem coloca nome e número às onda é quem controla o discurso dominante em cada momento. “Como temos nomeado essas onda corresponde a uma história que é eminentemente branca e ocidental”, destaca.
Identificar cada onda com a conquista de um direito específico supõe também “como se fosse um objetivo único. O direito ao voto, modificar a lei do aborto… Uma vez conseguido esse direito, que mais querem? Pode ter um efeito desmobilizador. Implica também uma ideia de ruptura, como se rompesse com a anterior e fechasse os debates que vieram antes”, acrescenta Cienfuegos.
Enfrentar o neoliberalismo
Um dos elementos que mais caracteriza essa onda do feminismo é a crítica feroz a um modelo capitalista neoliberal que se sustenta firmemente sobre os pilares do patriarcado. Para que o sistema funcione, uma condição necessária é contar com o trabalho não-remunerado de milhares de mulheres e meninas. Mulheres que também ocupam os empregos mais precários, inseguros e com pior remuneração. A cara mais machista do capitalismo tem aflorado com força depois da crise que estourou há dez anos atrás e que trouxe consigo mais precarização do emprego, sobretudo o feminino, e cortes significativos no gasto social que, sistematicamente, resultam em menos apoio e mais trabalho e responsabilidadepara as mulheres.
Segundo Posada, “muitas jovens estão chegando ao anticapitalismo através do feminismo, não através de outras teorias políticas como ocorria há algumas décadas atrás. Então, introduzir o tema do feminismo é muito complicado na esquerda. Mas essas jovens estão chegando ao anticapitalismo ou ao antineoliberalismo através do sentimento de que são tratadas como mercadorias”.
Nesse contexto, alguns movimentos feministas muito ligados às lutas de classes que surgiram com força na década de 60 e 70 do século passado, e que durante décadas pareciam estar em silêncio, ressurgiram com força. É o caso do chamado feminismo 99%, nascido no calor do movimento Ocupy Wall Street, no Estados Unidos. Uma de suas representantes máximas, Nancy Fraser, afirma que durante as últimas décadas o feminismo tomou um rumo neoliberal e manteve com ele um flerte perigoso.
Conforme descreve Fraser, o feminismo renunciou a uma concepção mais ampla e sólida do que significa igualdade de gênero ou igualdade social em geral, em favor da meritocracia. Ou seja, em “derrubar barreiras que permitam a um reduzido grupo de mulheres talentosas avançar a postos mais altos das organizações ao invés de abolir as hierarquias”. Esse feminismo de “teto de vidro” saltou pelos ares com o advento da crise econômica, o que evidenciou a falácia da suposta igualdade alcançada.
Não voltar para as trincheiras
Atingido esse ponto, para onde caminha o feminismo? Segundo muitas das especialistas consultadas, para uma mobilização permanente, transversal e internacional que já não se conforma em reclamar determinadas mudanças do sistema político, econômico, social e cultural, mas que questiona elementos essenciais do sistema.
Pastora Filigrana assegura que “defender os direitos conquistados vem em primeiro lugar. Mas nos conformarmos só com isso, não é possível. O sistema está nos expulsando, então vamos ter que defender o que conquistamos, conquistando mais coisas. Temos que organizar uma resistência que comece a mudar as regras do jogo”, destaca.
Para Cecilia Cienfuegos está claro que “tem que sair das trincheiras em que nos querem colocar. Tem que evitar cair na lógica de resistência e não voltar para a defesa do básico e do irrevogável. O feminismo está agora em posição de enfrentar o sistema de igual para igual e propor um projeto alternativo”.
No momento em que é frequentemente dito que o feminismo está no alvo dos neofascistas do todo o mundo, Cienfuegos aponta que “o feminismo não foi posto no centro dos ataques. Nós ganhamos essa centralidade”. E tem milhões de mulheres em todo o mundo que não estão dispostas a ceder essa centralidade que tanto custou conquistar.
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"Vinte e quatro lideranças feministas de diferentes países lançaram nesta quarta-feira (6) um manifesto contra o fortalecimento da extrema direita. Na semana do dia 8 de março, em que se realizam mobilizações em todo o mundo, a ideia é convocar uma ofensiva internacional para “deter o trem do capitalismo global, que descamba a toda velocidade em direção à barbárie, levando a bordo a humanidade e o planeta em que vivemos” – segundo o próprio manifesto."
Lideranças feministas convocam ofensiva internacional contra a extrema direita
"Chegou a hora de levar nosso movimento um passo adiante", diz manifesto lançado nesta quarta-feira (6)
Mulheres preparam mobilização global no dia 8 de março / Agência Brasil
Vinte e quatro lideranças feministas de diferentes países lançaram nesta quarta-feira (6) um manifesto contra o fortalecimento da extrema direita. Na semana do dia 8 de março, em que se realizam mobilizações em todo o mundo, a ideia é convocar uma ofensiva internacional para “deter o trem do capitalismo global, que descamba a toda velocidade em direção à barbárie, levando a bordo a humanidade e o planeta em que vivemos” – segundo o próprio manifesto.
Das 24 autoras do manifesto, quatro são brasileiras: a escritora e ativista Antonia Pellegrino; Jupiara Castro, integrante do Núcleo de Consciência Negra; a arquiteta Mônica Benício, viúva de Marielle Franco; e Sônia Guajajara, liderança da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil. Além delas, assinam personalidades como Angela Davis, filósofa socialista estadunidense, e Verónica Gago, liderança do movimento Ni Una Menos na Argentina.
Leia o manifesto na íntegra:
Para além do 8 de Março: rumo a uma Internacional Feminista
Pelo terceiro ano consecutivo a nova onda feminista transnacional chamou um dia de mobilização global no 8 de março: greves legais do trabalho assalariado – como as 5 milhões de grevistas do 8 de março de 2018 na Espanha e as centenas de milhares no mesmo ano na Argentina e na Itália; greves protagonizadas pelas bases de mulheres sem direitos ou proteção trabalhistas, greves do trabalho de cuidado e não pago; greves de estudantes, mas também boicotes, marchas e trancamentos de vias. Pelo terceiro ano consecutivo mulheres e pessoas que por todo o mundo estão se mobilizando contra os feminicídios e toda forma de violência de gênero; pela autodeterminação de seus corpos e acesso ao aborto seguro e legal; por igualdade salarial para trabalhos iguais; pela livre sexualidade. Se mobilizam também contra os muros e fronteiras; o encarceramento em massa; o racismo, a islamofobia e o anti-semitismo; a desapropriação das terras de comunidades indígenas; a destruição de ecossistemas e a mudança climática. Pelo terceiro ano consecutivo, o movimento feminista está nos dando esperança e uma visão para um futuro melhor em um mundo em desmoronamento. O novo movimento feminista transnacional é moldado pelo sul, não só no sentido geográfico, mas também no sentido político, e é nutrido por cada região em conflito. Essa é a razão de ele ser anticolonial, antirracista e anticapitalista.
Estamos vivendo um momento de crise geral. Essa crise não é de forma alguma somente econômica; é também política e ecológica. O que está em jogo nessa crise são nossos futuros e nossas vidas. Forças políticas reacionárias estão crescendo e apresentando-se como uma solução a essa crise. Dos EUA à Argentina, do Brasil à Índia, Itália e Polônia, governos e partidos de extrema direita constroem muros e cercas, atacam os direitos e liberdades LGBTQ+, negam às mulheres a autonomia de seu próprio corpo e promovem a cultura do estupro, tudo em nome de um retorno aos “valores tradicionais” e da promessa de proteger os interesses das famílias de etnicidade majoritária. Suas respostas à crise neoliberal não é resolver a raiz dos problemas, mas atacar os mais oprimidos e explorados entre nós
A nova onda feminista é a linha de frente na defesa contra o fortalecimento da extrema direita. Hoje, as mulheres estão liderando a resistência a governos reacionários em inúmeros países.
Em setembro de 2018, o movimento “Ele Não” juntou milhões de mulheres que se levantaram contra a candidatura de Jair Bolsonaro, que agora tornou-se um símbolo mundial dos planos da extrema direita para a humanidade e o catalisador de forças reacionárias na América Latina. Os protestos ocorreram em mais de trezentas cidades no Brasil e em todo o mundo. Hoje, Bolsonaro está colocando em prática uma guerra contra os pobres, as mulheres, as LGBTQ+ e as pessoas negras. Ele apresentou uma reforma da previdência draconiana e afrouxou as leis de controle das armas. Feminicídios estão disparando num país que já em 2018 tinha um dos maiores números de feminicídios do mundo, sendo 70% dessas mulheres assassinadas negras. 126 feminicídios já ocorreram em 2019. O movimento feminista brasileiro está respondendo esses ataques e se preparando para a mobilização no 8 de março e novamente no 14 de março, no aniversário do assassinato político de Marielle Franco, ao mesmo tempo em que emergem informações sobre os fortes laços entre os filhos de Bolsonaro e um dos milicianos responsáveis por sua morte.
Da mesma forma, o Non Una Meno na Itália é hoje o único movimento organizado respondendo às políticas anti-imigrantes e misóginas do governo de direita da Liga Norte e do Movimento Cinco Estrelas. Na Argentina, mulheres lideraram a resistência contra as políticas neoliberais de direita do governo Macri. E, no Chile, o movimento feminista está lutando contra a criminalização da luta dos povos indígenas e o machismo sistêmico de uma educação muito cara.
O movimento feminista também está redescobrindo o significado da solidariedade internacional e da iniciativa transnacional. Nos últimos meses o movimento feminista argentino usou o evocativo nome de “Internacional Feminista” para se referir à prática da solidariedade internacional reinventada pela nova onda feminista, e em alguns países, como a Itália, o movimento está discutindo a necessidades de encontros transnacionais para melhor coordenar e compartilhar visões, análises e experiências práticas.
Diante da crise global de dimensões históricas, mulheres e pessoas LGBTQ+ estão encarando o desafio e preparando uma resposta global. Depois do próximo 8 de março, chegou a hora de levar nosso movimento um passo adiante e convocar reuniões internacionais e assembleias dos movimentos: para tornar-se o freio de emergência capaz de deter o trem do capitalismo global, que descamba a toda velocidade em direção à barbárie, levando a bordo a humanidade e o planeta em que vivemos.
Jornal GGN - A antropóloga e pesquisadora do instituto Anis Debora Diniz afirmou em entrevista ao El País que as políticas anunciadas pelo governo Bolsonaro representam uma ameaça aos direitos das mulheres. Ela está exilada por conta de ameaças que vem sofrendo desde que ajudou a mover no Supremo Tribunal Federal uma ação para descriminalizar o aborto até a 12ª semana de gestação. Na semana passada, uma rede de criminalistas anunciou apoio à defensora dos direitos humanos.
“Orientadas por uma lógica religiosa messiânica, as políticas anunciadas pelo novo governo e a futura ministra [Damares Alves] colocam em risco os direitos das mulheres", comentou.
Damares Alves é pastora da Assembleia de Deus e militante contra o feminismo, o ensino de religiões de matriz afro nas escolas e pela evangelização de indígenas. Ela foi nomeada por Jair Bolsonaro para cuidar da Pasta que fundiu Direitos Humanos, Mulheres e a Funai. Na semana passada, ela anunciou que uma de suas prioridades é aprovar uma lei que garanta apoio financeiro para vítimas de estupro concluírem a gestação. A iniciativa existe ao menos desde 2015 e foi apelidada de "bolsa estupro".
Na entrevista, Diniz comentou que saiu do Brasil porque familiares, amigos e colegas de trabalho foram ameaçados por grupos extremistas. “Não saí do Brasil porque fui ameaçada, mas para proteger outras pessoas. Se as ameaças fossem somente contra mim, eu jamais sairia. Mais do que nunca, mesmo à distância, eu sigo fazendo meu trabalho. Não vão me calar.”
O site informou ainda que um grupo de criminalistas decidiu atuar em defesa de Diniz e outros militantes dos direitos humanos. A ideia é defender que o País continue sendo livre para desenvolver pesquisas, com salas de aula permeadas de "debate de ideias", sem que as pessoas morram por pensar ou defender determinadas posições políticas.
AO VIVO | Mulheres lideram mobilização contra Bolsonaro
Protestos foram organizados para este sábado em diferentes cidades do Brasil e do mundo
Ato contra Bolsonaro no Largo da Batata, em São PauloTOM C. AVENDAÑO
As mulheres se tornaram um empecilho ao crescimento das intenções de voto do candidato à presidência pelo PSL, Jair Bolsonaro. Além de uma mobilização massiva nas redes sociais, com milhões de seguidoras reproduzindo a hashtag #EleNão, atos públicos tomam as ruas de diversas cidades do Brasil – e de outras pelo mundo – neste sábado (29).
Líder nas pesquisas de intenção de voto desde o início da campanha, Bolsonaro se envolveu em discussões públicas com mulheres e fez declarações que tem dividido opiniões e alimentado movimento contrários e em apoio ao candidato por parte do eleitorado feminino.
O evento montado no Facebook para a manifestação que acontecerá em São Paulo tem 83 mil pessoas confirmadas. As criadoras da página afirmam que o ato foi organizado por mulheres que se conheceram no grupo 'Mulheres Unidas Contra Bolsonaro'. Segundo elas, a ideia surgiu de forma espontânea e "está sendo construída por ativistas, militantes políticas que apoiam candidatos e candidatas e que assumem suas posturas políticas com respeito".
Nas redes sociais, mulheres e homens postaram fotos e vídeos da resistência em cidades como Berlim, na Alemanha, em Londres, na Inglaterra, Paris, na França, em Dublin, na Irlanda, em Lisboa, em Portugal, na Barcelona, na Espanha, e até em Auckland, na Nova Zelândia. Segundo coletivos feministas, acontecem hoje cerca de 18 marchas organizadas em diversos países.
daqui a uns anos eu quero ver imagens como essa no livro de história sendo estudadas por crianças contando a história de como as mulheres lutaram pra combater alguém que não respeitava elas #ÉPelaVidaDasMulheres