Quando a participação criminosa se torna relevante economicamente, ela ganha poder político — através do mercado, da mídia e do Centrão.
Do Jornal GGN:
Xadrez de como o crime organizado se infiltrou no mercado financeiro brasileiro

Existe uma percepção simplista de que casos como o da Master envolvem apenas oportunistas que se aproveitaram de brechas regulatórias. A realidade é mais complexa e preocupante.
O entrelaçamento entre diferentes atores criou um sistema em que recursos de origem questionável tornaram-se relevantes para a liquidez de segmentos inteiros do mercado financeiro. Compreender essa dinâmica ajuda a explicar a intensidade dos ataques recentes contra instituições de controle, como o Supremo Tribunal Federal.
Não se trata de disputa partidária simples ou de defesa corporativa do Centrão. O que está em jogo é mais profundo.
A disputa real
Duas visões de país estão em confronto:
Modelo 1: Instituições reguladas e funcionais, segurança jurídica, respeito aos direitos fundamentais, combate efetivo ao crime organizado.
Modelo 2: Desregulação radical que beneficia desde milícias cariocas e o PCC paulista até setores do mercado financeiro dispostos a operar em zonas cinzentas. Um país loteado entre grupos de interesse, onde PMs da reserva dão ordem unida em escolas enquanto operadores tradicionais miram as grandes estatais.
Esta é a encruzilhada em que nos encontramos. Vejamos como chegamos aqui.
Peça 1: A mecânica do mercado financeirizado
Todo ciclo financeiro moderno passa por fases previsíveis:
Fase 1 – Excesso de liquidez: Cria-se uma economia circular em que a riqueza gerada no mercado financeiro precisa ser continuamente reciclada no próprio mercado. A Selic atrai mais dólares para o país, aquecendo ainda mais o mercado.
Fase 2 – Busca obsessiva por rentabilidade: A rentabilidade depende da diferença entre preço de compra e venda. Mesmo em mercados em alta, cada rodada exige valorização adicional.
Fase 3 – Inflação de ativos: Para sustentar o ciclo, há valorização excessiva de imóveis, recebíveis, precatórios, créditos judiciais, direitos futuros e tokens.
Fase 4 – Escassez de lastro: Esgotam-se os ativos de qualidade para originar novas operações. É quando o sistema se torna perigoso.
O cenário atual
Chegamos a uma situação instável, caracterizada por:
- Créditos frágeis reembalados como “estruturados”
- Ativos de difícil verificação
- Avaliações “no modelo” (teóricas), não no mercado real
- Intermediários dispostos a “resolver” documentação, lastro e liquidez por vias duvidosas
Esse ambiente é ideal para o capital criminoso, que não precisa ser eficiente — apenas entrar no fluxo.
Peça 2: As vantagens competitivas do crime organizado
O crime organizado prospera neste ambiente por três razões estruturais:
1. Capital paciente e opaco
- Não precisa explicar origem dos recursos
- Não sofre pressão de cotistas ou investidores
- Tolera iliquidez prolongada e risco jurídico
- Aceita retornos abaixo do mercado se houver lavagem de dinheiro
2. Oferta sob medida de ativos
Fornece exatamente o que o mercado sedento por papel precisa:
- Créditos judiciais (reais ou forjados)
- Empresas de fachada com faturamento “ajustável”
- Imóveis superavaliáveis
- Recebíveis recicláveis
- Operações circulares
Quando o mercado precisa de papel, quem fabrica papel controla o jogo.
3. Assimetria regulatória
A regulação brasileira criou brechas sistêmicas:
- Durante a gestão de Roberto Campos Neto no BC, houve afrouxamento generalizado dos mecanismos de controle
- Gabriel Galípolo pratica regulação reativa, não preventiva
- Persiste enorme vulnerabilidade em auditorias privadas, empresas de rating e processos declaratórios
- O BC e a CVM aceitam declarações das instituições para conferir depois
Resultado: o crime sempre caminha à frente da regulação.
Peça 3: Os pontos de infiltração
1. Mercado de crédito estruturado
Instrumentos vulneráveis:
- FIDCs (Fundos de Investimento em Direitos Creditórios)
- Precatórios e créditos judiciais
- Operações sem mercado secundário
Vulnerabilidades:
- Valoração subjetiva
- Due diligence terceirizada
- Supervisão meramente documental
2. Mercado imobiliário financeiro
Instrumentos vulneráveis:
- Fundos imobiliários opacos
- SPEs (Sociedades de Propósito Específico) em cascata
- Terrenos, galpões, multipropriedades
- Avaliações infladas pela alavancagem
Característica: instrumentos clássicos de lavagem de dinheiro.
3. Bancos médios e plataformas de distribuição
Perfil de risco:
- Instituições fora do radar público
- Pressão por crescimento acelerado
- Captação agressiva
- Venda cruzada de produtos complexos
Resultado: campo fértil para associação criminosa.
4. Fintechs e criptoestruturas
Vulnerabilidades estruturais:
- Originação pulverizada
- KYC (identificação de clientes) terceirizado
- Estruturas internacionais complexas
- Dificuldade de rastrear o beneficiário final real
Peça 4: A desregulação como facilitadora
A desregulação raramente é explícita. Ela se manifesta em discursos aparentemente técnicos:
“Confie: o mercado se autorregula.”
Na prática, isso significa:
- Regulador passa a confiar cegamente em modelos matemáticos
- Fiscalização vira checklist burocrático
- Punição só chega quando o dinheiro já foi movimentado
- Baixíssima probabilidade de responsabilização efetiva
A captura política
O mais grave: quando a participação criminosa se torna relevante economicamente, ela ganha poder político — através do mercado, da mídia e do Centrão.
Compare a cobertura discreta dada às Operações Poyais (fraudes com criptoativos), Colossus e Carbono e campanha persistente e coordenada contra ministros do Supremo Tribunal Federal, valendo-se das brechas abertas pela ausência de um código de conduta.
Não se ficou apenas na denúncia – necessária – contra os Ministros, mas em uma campanha com o tom moralista da Lava Jato, com adesão de veículos de várias procedências.
A desproporção revela onde estão os interesses reais.
O que se vive não é um caso isolado de corrupção ou oportunismo. É a captura gradual de segmentos do mercado financeiro por capital de origem criminosa, facilitada por desregulação intencional e protegida por poder político.
Reconhecer esse cenário é o primeiro passo para enfrentá-lo.
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