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terça-feira, 22 de agosto de 2023

Walter Delgatti, por ter dado à público os crimes de poderosos conservadores lavajatistas, tornou-se um novo caso Assange, por Luís Nassif

 


Se a imprensa aceitar a condenação de Delgatti, comprometerá seu papel de fiscalizar a cidadania contra os poderes sem limites das elites moristas das corporações públicas.



Do Jornal GGN:


Do que se trata o caso Snowden, o técnico Edward Joseph Snowden, ex-administrador de sistemas da CIA e ex-contratado da NSA que tornou públicos detalhes de vários programas que constituem o sistema de vigilância global da NSA americana. Foi acusado de vários crimes relacionados à defesa nacional. Coube a ele denunciar as escutas em Dilma Rousseff e o monitoramento dos servidores da Petrobras.

Já a Wikileaks, criada por Julien Assange, revelou dados sobre o ataque aéreo a Bagdá em 12 de julho de 2007, a  guerra do Afeganistão e do Iraque e o CableGate ( novembro de 2010).

Ambos os casos trouxeram à baila uma tema dos mais relevantes: o direito da opinião pública às informações que correm nos escaninhos do poder, e que afetam diretamente pessoas, nações, direitos.

Foi o caso da Vaza Jato e do trabalho do hacker Delgatti. Com a diferença de que, ao contrário de Snowden e Assange, não colocaram em risco nem segurança nem soberania nacional. Pelo contrário, desvendaram a atuação de uma organização que trabalhava em parceria com entidades estrangeiras para destruir a economia nacional.

Hoje em dia, tem-se um país à mercê da guerra híbrida, parte jogada pela inteligência militar, pelo Gabinete de Segurança Institucional e pela Agência Brasileira de Inteligência. A Lava Jato mostrou a parceria de organizações públicas nacionais com o Departamento de Justiça dos Estados Unidos. Já publicamos aqui várias matérias sobre os novos equipamentos adquiridos pela ABI, GSI e pela família Bolsonaro para espionagem em massa da população.

O juiz Ricardo Leite é figura menor nesse jogo. É um quadro menor da Lava Jato, que, no auge da campanha, tornou decisões em casos que fugiam à sua alçada, meramente para atuar politicamente. Estava alinhado com um grupo que negociava explicitamente interesses nacionais com grupos estrangeiros. Sua decisão de mandar soltar Delgatti antes do depoimento na CPI e, depois, condená-lo a 20 anos, mereceria ser melhor analisado.

Se a imprensa aceitar a condenação de Delgatti, comprometerá seu papel de fiscalizar a cidadania contra os poderes sem limites das corporações públicas, especialmente nesses tempos de controle digital sobre a população.


segunda-feira, 8 de março de 2021

Slavoj Zizek: O que quer de fato a ultradireita neofascista militarista associada ao neoliberalismo..

 

Atitude errática de Trump no ataque ao Capitólio revela: fascistas de hoje não saberiam o que fazer, caso governassem sozinhos. Por isso, preferem manter cômoda simbiose com neoliberais. É esta relação que devasta nossas sociedades

Por Slavoj Zizek, no Blog da Boitempo

Quando a juíza britânica Vanessa Baraitser rejeitou o pedido dos EUA para que Julian Assange fosse extraditado, muitos críticos esquerdistas e progressistas comentaram essa decisão de uma maneira que lembra as famosas linhas de Assassinato na Catedral, de T. S. Eliot: “A última tentação é a maior de todas as traições. Fazer a coisa certa pelo motivo errado.” Na peça, o personagem Thomas Becket teme que sua “coisa certa” (a decisão de resistir ao rei e se sacrificar) esteja baseada em um “motivo errado” (sua busca egoísta pela glória da santidade). Hegel teria respondido a esse problema dizendo que o que importa em nossos atos é seu conteúdo público: se eu faço um sacrifício heroico, é isso que conta, mesmo que os motivos privados eventualmente sejam patológicos.

Mas a rejeição de extraditar Assange para os EUA é um caso diferente: era obviamente a coisa certa a fazer, mas o que está errado são as razões publicamente declaradas que embasaram a decisão. A juíza endossou totalmente a afirmação das autoridades estadunidenses de que as atividades de Assange estavam fora do campo do jornalismo e justificou sua decisão recorrendo tão somente a motivos de saúde mental. Disse ela: “a impressão geral é de um homem deprimido, às vezes desesperado, que genuinamente teme pelo seu futuro.” Acrescentando que o alto nível de inteligência de Assange significa que ele provavelmente conseguiria tirar a própria vida. Evocar a saúde mental é, portanto, uma desculpa para fazer justiça – a mensagem pública implícita, mas evidente, da juíza é: “Sei que a acusação está errada, mas como não estou pronta para admitir isso, prefiro focar na questão da saúde mental.” (Além disso, agora que o tribunal também rejeitou a possibilidade de fiança para Assange, ele permanecerá encarcerado no mesmo regime de solitária que provocou sua situação de desespero suicida…). A vida de Assange está (possivelmente) salva, mas sua Causa (a liberdade de imprensa, a luta pelo direito de tornar públicos crimes do Estado) continua sendo um crime. Esse é um bom exemplo do que realmente significa o humanitarismo de nossos tribunais.

Mas tudo isso é de conhecimento comum – o que devemos fazer é aplicar as linhas de T. S. Eliot a dois outros acontecimentos políticos recentes. A palhaçada que ocorreu em Washington no dia 6 de janeiro de 2020 não seria a prova final (se é que ainda precisamos de uma) de que Assange não deve ser extraditado para os EUA? Seria como extraditar dissidentes que escaparam de Hong Kong de volta para a China.

Primeiro acontecimento. Quando Trump pressionou Mike Pence, seu vice, a não certificar os votos eleitorais, ele também estava pedindo que Pence fizesse a coisa certa pelo motivo errado: sim, o sistema eleitoral dos EUA é fraudulento e corrompido, é uma grande farsa organizada e controlada pelo “Estado profundo”. Veja, as implicações da demanda de Trump são interessantes: ele argumentou que em vez de simplesmente agir em seu papel pro forma prescrito constitucionalmente, Pence poderia atrasar ou obstruir a certificação do Colégio Eleitoral programada para ocorrer no Congresso. Depois que os votos são contados, o vice-presidente tem apenas que declarar o resultado cujo conteúdo já foi previamente determinado – mas Trump queria que Pence agisse como se estivesse de fato tomando uma decisão… O que Trump exigia não era uma revolução mas uma tentativa desesperada de salvar sua pele forçando Pence a agir dentro da ordem institucional, levando a letra da lei mais a sério do que ela deveria ser levada.

Segundo acontecimento. Quando manifestantes pró-Trump invadiram o Capitólio no dia 6 de janeiro eles também fizeram a coisa certa pelo motivo errado. Estavam certos em protestar contra o sistema eleitoral dos EUA com seus complexos mecanismos elaborados com o objetivo de inviabilizar uma expressão direta de insatisfação popular (e isso é algo expressamente admitido pelos próprios Pais Fundadores). Mas essa investida não foi um golpe fascista. Antes de assumir o poder, os fascistas fecham acordos com o grande empresariado. Agora, contudo, os líderes empresariais nos dizem que “Trump deve ser removido do cargo para preservar a democracia”. Ora, isso significa dizer que Trump incitou os manifestantes contra os grandes empresários? Não é bem isso. (…) Trump defendendo os interesses das pessoas comuns lembra a atitude de Kane no filme clássico de Orson Welles. Quando um banqueiro rico o acusa de falar pela multidão de pobres, Kane responde que, sim, de fato seu jornal fala pelas pessoas comuns pobres, mas o faz justamente a fim de evitar o verdadeiro perigo: que os pobres comuns comecem a falar por si mesmos.

Como demonstrou Yuval Kremnitzer, Trump é um populista que permanece dentro do sistema. Como qualquer populismo, o de hoje também desconfia da representação política e finge falar diretamente em nome do povo. O populismo de hoje reclama de como suas mãos estão atadas pelo “Estado profundo” e pelo establishment financeiro. Sua mensagem é que “se ao menos não estivéssemos de mãos atadas, seríamos capazes de acabar com nossos inimigos de uma vez por todas”. No entanto, em contraste com o velho populismo autoritário (como o fascismo), que está disposto a abolir a democracia formal-representativa e realmente tomar o poder para impor uma nova ordem, o populismo de hoje não tem uma visão coerente de alguma nova ordem. O conteúdo positivo de sua ideologia e de sua política é uma bricolagem inconsistente de medidas para subornar “os nossos” pobres, reduzir os impostos para os ricos, concentrar o ódio em figuras como imigrantes, minorias, a nossa “elite corrupta que está fazendo com que nossos postos de emprego saiam do país”, e por aí vai… É por isso que os populistas de hoje realmente não querem se livrar da democracia representativa estabelecida e assumir totalmente o poder: livre dos “grilhões” da ordem liberal contra aos quais finge lutar, a nova direita teria realmente que tomar alguma ação real, e isso evidenciaria a vacuidade de seu programa. Os populistas de hoje só podem funcionar na chave do adiamento indefinido de seus objetivos, pois eles só podem funcionar como oposição ao “Estado profundo” do establishment liberal: “A nova direita não busca, pelo menos não neste momento, estabelecer um valor supremo – por exemplo, a nação ou o líder – que expressaria plenamente a vontade do povo e assim permitir e talvez até exigir a abolição dos mecanismos de representação.”

O que isso significa é que as verdadeiras vítimas de Trump são seus próprios apoiadores comuns que levam a sério sua tagarelice contra as elites corporativas liberais e os grandes bancos. Ele é o traidor de sua própria causa populista. Seus críticos liberais o acusam de apenas fingir conter seus apoiadores mais radicais que estariam dispostos para lutar violentamente em seu nome, enquanto na verdade ele estaria ao lado deles, incitando-os à violência. Mas a verdade é que ele de fato não está do lado deles. Na manhã do dia 6 de janeiro, Trump discursou no comício na Elipse em frente à Casa Branca: “Vamos marchar até o Capitólio. E vamos torcer pelos nossos bravos senadores, senadoras e congressistas. E provavelmente não vamos ficar tanto por alguns deles porque não se retoma nosso país com fraqueza. Você tem que mostrar força, tem que ser forte”. No entanto, quando a turba fez isso e se aproximou do Capitólio, Trump se retirou para a Casa Branca para acompanhar pela televisão o desenrolar da violência.

Trump queria mesmo dar um golpe de Estado? A resposta é definitivamente não. Quando a multidão invadiu o Capitólio, ele deu a seguinte declaração: “Sei da dor de vocês. Sei que estão machucados. A eleição nos foi roubada. Vencemos, e vencemos por uma margem esmagadora. Todo mundo sabe disso, especialmente do outro lado. Mas vocês têm que voltar para casa agora. Precisamos ter paz. Precisamos ter lei e ordem.” Trump culpou seus oponentes pela violência de hoje e elogiou seus apoiadores dizendo: “Não podemos jogar o jogo dessas pessoas. Precisamos ter paz. Então voltem para casa. Amamos vocês; vocês são muito especiais.” Quando a multidão começou a se dispersar, Trump soltou um tuite defendendo as ações de seus apoiadores que invadiram e vandalizaram o Capitólio: “É isso que acontece quando uma vitória eleitoral sagrada e esmagadora é roubada de forma tão cruel e sem cerimônia.” E concluiu seu tuite com o seguinte comentário: “Lembrem-se deste dia para sempre!” Sim, devemos mesmo lembrar dele – porque ele expôs tanto a farsa da democracia estadunidense quanto a farsa do protesto populista contra ela. Apenas algumas eleições nos EUA realmente importaram – como a eleição para governador da Califórnia em 1934: o candidato Democrata Upton Sinclair perdeu porque todo o establishment organizou uma campanha inédita de mentiras e difamações (Hollywood chegou a dizer que se Sinclair vencesse ele se mudaria para a Flórida, por exemplo).

Uma multidão furiosa e insatisfeita atacando o Congresso em nome de um presidente popular privado de seu poder por meio de manipulações parlamentares… parece familiar? Sim: é isso que deveria ter acontecido no Brasil em 2016 ou na Bolívia em 2019 – lá o povo teria todo o direito de invadir o parlamento e reinstalar seus presidentes eleitos. Algo totalmente diferente estava em jogo nos Estados Unidos. Portanto, esperemos que o que aconteceu em 6 de janeiro em Washington pelo menos acabe com a obscenidade que é ter que ver os EUA enviando observadores às eleições de outros países a fim de julgar sua justeza. Agora são as próprias eleições nos EUA que precisam de observadores estrangeiros. Os EUA são um “rougue state”, como eles costumam dizer de outros países – e isso não apenas depois de Trump assumir a presidência: a (quase) guerra civil em curso revela uma fenda que sempre esteve lá.


terça-feira, 29 de setembro de 2020

sábado, 20 de abril de 2019

GGN: A instransparente transparência: Assange, Lula e Moro, por Boaventura Sousa Santos, professor emérito de Sociologia da Universidade de Coimbra e professor da Universidade de Wiscousin, EUA



O que une Assange, Lula e Moro é o serem peões do mesmo sistema de poder imperial, Assange e Lula, enquanto vítimas, Moro enquanto carrasco útil e por isso descartável.

do Jornal Português Público

A instransparente transparência: Assange, Lula e Moro

por Boaventura Sousa Santos


As acusações que até agora foram feitas contra ele referem-se a acções que apenas visaram garantir o anonimato da whistleblower Chelsea Manning, ou seja, garantir o anonimato da fonte de informação, uma garantia sem a qual o jornalismo de investigação não é possível. Se os jornalistas são quem vive mais directamente a selectividade da transparência, quem mais sofre as consequências dela é a qualidade da democracia e a credibilidade do dever de prestação de contas a que os governos democráticos estão obrigados. Por que é que a luta pela transparência se dirige a certos alvos políticos e não a outros? Por que é que as revelações nalguns casos são saudadas e produzem efeitos, enquanto noutros são impedidas e, se feitas, são ignoradas? Daí a necessidade de conhecer melhor os critérios que presidem à selectividade.
Claro que o outro lado da selectividade da transparência é a selectividade da luta contra a transparência. Talvez não soubéssemos das perturbadoras revelações da WikiLeaks em 2010 – vídeos militares sobre o assassinato em 2007, no Iraque, de civis desarmados, dois dos quais trabalhavam para a Reuters – se elas não fossem divulgadas amplamente pelos meios de comunicação de referência de todo o mundo. Por que é que toda a sanha persecutória desabou sobre o fundador da WikiLeaks e não sobre esses meios, alguns dos quais ganharam muito dinheiro que nunca reverteu adequadamente para Assange? Porque é que nessa altura os editoriais do New York Times saudavam Assange como o campeão da liberdade de expressão e as revelações como o triunfo da democracia, e o editorial da semana passada considera a sua prisão como o triunfo da “rule of law“? Por que é que o governo do Equador protegeu “os direitos humanos de Assange durante seis anos e dez meses”, nas palavras do presidente Lenin Moreno, e o entregou repentina e informalmente, violando o direito internacional de asilo? Será porque, segundo o New York Times, o novo empréstimo do FMI ao Equador no valor de cerca de quatro mil milhões de dólares teria sido aprovado pelos EUA sob a condição de o Equador entregar Julian Assange? Será porque a WikiLeaks revelou recentemente que Moreno poderia vir a ser acusado de corrupção em face de duas contas, tituladas pelo seu irmão, uma em Belize e outra no Panamá, onde alegadamente terão sido depositadas comissões ilegais?
Quanto à selectividade da luta pela transparência há que distinguir entre os que lutam a partir de fora do sistema político e os que lutam a partir de dentro. Quanto aos primeiros, a sua luta tem, em geral, um efeito democratizador porque denuncia o modo despótico, ilegal e impune como o poder formalmente democrático e legal se exerce na prática para neutralizar resistências ao seu exercício. No caso da WikiLeaks haverá que reconhecer que tem publicado informações que afectam governos e actores políticos de diferentes cores políticas, e este é talvez o seu maior pecado num mundo de rivalidades geopolíticas. A sorte da WikiLeaks mudou quando, em 2016, revelou as práticas ilegais que manipularam as eleições primárias no partido democrático dos EUA para que Hillary Clinton, e não Bernie Sanders, fosse o candidato presidencial, e mais ainda depois de ter mostrado que Hillary Clinton fora a principal responsável pela invasão da Líbia, uma atrocidade pela qual o povo líbio continua a sangrar. Pode objectar-se que a WikiLeaks se tem restringido, em geral, aos governos mais ou menos democráticos do dito mundo eurocêntrico ou nortecêntrico. É possível, mas também é verdade que as revelações que têm sido feitas para além desse mundo colhem muito pouca atenção dos mediadominantes.


A selectividade da luta por parte dos que dominam o sistema político é a que mais dano pode causar à democracia porque quem protagoniza a luta pode, se tiver êxito, aumentar por via não democrática o seu poder. O sistema jurídico-judiciário é hoje o instrumento privilegiado dessa luta. Assistimos nos últimos dias a tentativas desesperadas para justificar a revogação do asilo de Assange e a sua consequente prisão à luz do direito internacional e direito interno dos vários países envolvidos, mas a ninguém escapou que se tratou de um verniz legal para cobrir uma conveniência política ilegal, se não mesmo uma exigência por parte dos EUA.
Mas obviamente que o estudo de caso do abuso do direito para encobrir conveniências políticas internas e imperiais é a prisão do ex-presidente Lula da Silva. O executor desse abuso é Sérgio Moro, acusador, juiz em causa própria, ministro do governo que conquistou o poder graças à prisão de Lula da Silva. Lula da Silva foi processado mediante sórdidos dislates processuais e a violação da hierarquia judicial, foi condenado por um crime que nunca foi provado, e mantido na prisão apesar de o processo não ter transitado em julgado. Daqui a 50 anos, se ainda houver democracia, este caso será estudado como exemplo de como a democracia pode ser destruída pelo exercício abusivo do sistema judicial.
Este é também o caso que melhor ilustra a falta de transparência na selectividade da luta pela transparência. Não é preciso insistir que a prática de promiscuidade entre o poder económico e o poder político vem de longe no Brasil e que cobre todo o espectro político. Nem tão pouco que o ex-presidente Michel Temer pôde terminar o mandato para o qual não fora eleito apesar dos desconchavos financeiros em que alegadamente teria estado envolvido. O importante é saber que a prisão de Lula da Silva foi fundamental para eleger um governo que entregasse os recursos naturais às empresas multinacionais, privatizasse o sistema de pensões, reduzisse ao máximo as políticas sociais e acabasse com a tradicional autonomia da política internacional do Brasil e se rendesse a um alinhamento incondicional com os EUA em tempos de rivalidade geopolítica com a China.
Objectivamente, quem mais beneficia com estas medidas são os EUA. Não admira que interesses norte-americanos se tenham envolvido tanto nas últimas eleições gerais. Também é sabido que as informações que serviram de base à investigação da Operação Lava-Jato resultaram de uma íntima colaboração com o Departamento de Justiça dos EUA. Mas talvez seja surpreendente a rapidez com que, neste caso, o feitiço se pode virar contra o feiticeiro. A WikiLeaks acaba de revelar que Sérgio Moro foi um dos magistrados treinados nos EUA para a chamada “luta contra o terrorismo”. Tratou-se de um treino orientado para o uso musculado e manipulativo das instituições jurídicas e judiciárias existentes e para o recurso a inovações processuais, como a delação premiada, com o objectivo de obter condenações rápidas e drásticas. Foi essa formação que ensinou os juristas a tratar alguns cidadãos como inimigos e não como adversários, isto é, como seres privados dos direitos e das garantias constitucionais e processuais e dos direitos humanos supostamente universais.
O conceito de inimigo interno, originalmente desenvolvido pela jurisprudência nazi, visou precisamente criar uma licença para condenar com uma lógica de estado de excepção, apesar de exercida em suposta normalidade democrática e constitucional. Moro foi assim escolhido para ser o malabarista jurídico-político ao serviço de causas que não podem ser sufragadas democraticamente. O que une Assange, Lula e Moro é o serem peões do mesmo sistema de poder imperial, Assange e Lula, enquanto vítimas, Moro enquanto carrasco útil e por isso descartável quando tiver cumprido a sua missão ou quando, por qualquer motivo, se transformar num obstáculo a que a missão seja cumprida.



segunda-feira, 15 de abril de 2019

Primeiro, Assange. Depois, todos nós, por Chris Hedges, jornalista internacional



Os cidadãos e a imprensa têm direito de enfrentar o poder? Ataque ao criador do Wikileaks revela que o Ocidente rendeu-se às corporações e abandonou a bandeira da liberdade. É preciso descobrir como resgatá-la
Por Chris Hedges | Tradução: Antonio Martins
A prisão, nesta quinta-feira, de Julian Assange, desmente todo o discurso sobre o Estado de Direito e a liberdade de imprensa. As ilegalidades praticadas pelos governos do Equador, da Grã-Bretanha e dos Estados Unidos na captura de Assange são sinistras. Elas pressagiam um mundo em que as ações internas, abusos, corrupção, mentiras e crimes – inclusive os de guerra – praticados por Estados corporativos e pela elite governante global serão escondidos do público. Elas pressagiam um mundo em que aqueles que mantêm coragem e integridade para expor o abuso de poder serão caçados, torturados, submetidos a julgamentos farsescos e condenados a penas perpétuas, em confinamento solitário. Elas pressagiam uma distopia orwelliana em que a informação é substituída por propaganda, banalidades e distração. A prisão de Assange, temo, marca o início oficial do totalitarismo corporativo que ameaça definir nossas vidas.
Sob que lei o presidente equatoriano, Lenin Moreno, liquidou de forma caprichosa os direitos de Julian Assange ao asilo, como refugiado político? Sob que lei Moreno autorizou a polícia britânica a entrar na embaixada equatoriana – que tem status diplomático de território soberano – para prender um cidadão equatoriano naturalizado? Sob que lei a primeira-ministra Theresa May ordenou que a polícia britânica agarrasse Assange, que nunca cometeu um crime? Sob que lei o presidente Donald Trump pediu a extradição de Assange, que não é cidadão norte-americano e cuja organização noticiosa não está situada em território dos Estados Unidos?
Estou certo de que advogados governamentais estão, agora, praticando os contorcionismos que se tornaram regra nos Estados corporativos, servindo-se de argumentos legais para extripar direitos por meio de decisões no Judiciário. É assim que temos o direito à privacidade, mas nenhuma privacidade. É assim que temos eleições “livres” financiadas por dinheiro corporativo, narradas por uma mídia corporativa condescendente, tudo sobre férreo controle corporativo É assim que temos um processo legislativo em que lobistas das corporações escrevem as leis, e políticos contratados pelas empresas as votam. É assim que temos o direito ao devido processo judicial sem nenhum processo devido. É assim que temos governos – cuja responsabilidade fundamental é proteger os cidadãos – que ordenam e executam o assassinato de seus próprios cidadãos (como o clérigo Anwar al-Awlaki e seu filho de 16 anos, mortos por ordem de Barack Obama). É assim que há uma imprensa legalmente autorizada a publicar informação secreta vazada, e um editor numa cela na Inglaterra, aguardando extradição para os Estados Unidos, e uma autora de denúncias, Chelsea Manning, numa cela norte-americana.
A Grã-Bretanha usará, como cobertura legal para a prisão, o pedido de extradição de Washington, baseado em acusações de conspiração. Este argumento legal, num Judiciário autônomo, seria desprezado pela corte. Infelizmente, não há mais, nos EUA, um Judiciário autônomo. Muito em breve saberemos se ele ainda existe no Reino Unido.
Assange obteve asilo na embaixada equatoriana em 2012, para evitar extradição para a Suécia para responder questões sobre supostas ofensas sexuais, que ao final foram retiradas. Assange e seus advogados sempre argumentaram que, se colocado sob custódia sueca, ele seria extraditado para os Estados Unidos. Assim que ele obteve o asilo, e a cidadania equatoriana, o governo britânico recusou-se a garantir-lhe passagem segura para o aeroporto de Londres, aprisionando-o na embaixada por sete anos, durantes os quais sua saúde deteriorou continuamente.
O governo Trump tentará julgar Assange por acusações de que conspirou com Chelsea Manning em 2010 para roubar os segredos de guerra sobre o Iraque e o Afeganistão obtidos pelo WikiLeaks. Meio milhão de documentos internos vazados por Manning do Pentágono e do Departamento de Estado, junto com o vídeo de 2007, de pilotos de helicóptero dos EUA atirando despreocupadamente em civis iraquianos, inclusive crianças, e em dois jornalistas da Reuters, ofereceram evidência abundante da hipocrisia, violência indiscriminada e uso rotineiro de tortura, mentiras, propinas e táticas cruas de intimidação pelo governo dos EUA em sua diplomacia e guerras no Oriente Médio. Assange e o WikiLeaks permitiram – é o trabalho mais importante da imprensa – que enxergássemos os trabalhos clandestinos do Império, e por isso tornaram-se presas deste Império.
Os advogados do governo norte-americano tentarão separar o WikiLeaks e Assange do New York Times e do The Guardian, que publicaram, ambos, o material vazado por Manning. Para fazê-lo, denunciarão Assange por “roubo” dos documentos. Manning foi pressionada, durante sua detenção e julgamento – repetidamente e muitas vezes com brutalidade – a implicar Assange na obtenção do material. Recusou-se repetidamente a fazê-lo. Está no momento encarcerada por sua recusa a testemunhar, sem a presença de seu advogado, diante do júri reunido para o caso de Assange. Barack Obama ofereceu a Manning, condenada a 35 anos, clemência, depois de ela ter cumprido sete anos numa prisão militar.
Quando os documentos e vídeos que Manning entregou a Assange e ao WikiLeaks foram publicados e disseminados por publicações como o New York Times e o Guardian, a mídia voltou-se contra Assange, de modo insensível e louco. Organizações que haviam publicado o material do WikiLeaks em várias edições, logo aceitaram ser veículos de propaganda obscura para desacreditar Assange e sua publicação. Esta campanha coordenada foi detalhada num documento do Pentágono, também vazado, preparado pelo Setor de Contra-inteligência Digitale datado de 8 de março de 2008. O documento pedia que os EUA destruísse o “sentimento de confiança” que é o “centro de gravidade” do Wikleaks e a reputação de Assange.
Assange, que graças aos vazamentos de Manning havia exposto os crimes de guerra, as mentiras e as manipulações do governo de George W. Bush, atraiu a ira do establishment do Partido Democrata ao publicar 70 mil e-mails hackeados, que pertenciam ao Comitê Nacional e a dirigentes partidários. Os e-mails foram copiados da conta de John Podesta, o chefe de campanha de Hillary Clinton. Eles expuseram a doação de milhões de dólares, à Fundação Clinton, pela Arábia Saudida e o Qatar, dois dos grandes financiadores do Estado Islâmico. Também expuseram os 657 mil dólares que a Goldman Sachs pagou a Hillary Clinton por palestras – uma soma tão alta que só pode ser considerada suborno. Expuseram as incessantes mentiras de Hillary. Os e-mails mostraram, por exemplo, que ela dizia às elites financeiras desejar “comércio e fronteiras abertas”, além de acreditar que os executivos de Wall Street estavam melhor posicionados para dirigir a economia – uma afirmação que contradizia toda a sua campanha. O material expôs os esforços da campanha de Hillary para influenciar as primárias do Partido Republicano e garantir que Trump fosse o escolhido pelo partido. Revelou que ela foi informada previamente das questões que lhe seriam dirigidas num debate. Demonstrou que a candidata foi a principal arquiteta da intervenção dos EUA na Líbia – um conflito que ela julgava capaz de selar suas credenciais para a disputa presidencial. Alguns jornalistas podem argumentar que tais informações, assim como os arquivos de guerra, deveriam permanecer escondidas – mas não podem, nesse caso, continuar considerando a si próprios como jornalistas.
Os dirigentes do Partido Democrata, interessados em culpar a Rússia pela derrota eleitoral, acusa hackers do governo russo de terem obtido os e-mails de Podesta. Mas James Comey, ex-diretor do FBI, admitiu que eles foram provavelmente entregues ao WikiLeaks por um intermediário. Assange sustenta que os e-mails não foram recebidos de “agentes de Estado”.
O WikiLeaks fez mais para expor os abusos do poder e os crimes do império norte-americano que qualquer outra publicação. Além dos arquivos de guerra, e dos e-mails de Podesta, ele tornou públicas as ferramentas de hackeamento usadas pela CIA e pela Agência Nacional de Segurança (a NSA), e sua interferência conjunta em eleições de outros países – inclusive as francesas. Ele revelou a conspiração interna contra Jeremy Corbyn, líder do Partido Trabalhista inglês, por parlamentares do partido. Quando Edward Snowden apontou a vasta vigilância exercida pelas agências de espionagem norte-americanas sobre seus cidadãos, o Wikileaks interveio para salvá-lo de extradição aos Estados Unidos, ajudando-o a fugir de Hong Kong para Moscou. Os vazamentos de Snowden também revelaram que Assange estava numa “lista de alvos de caçada humana” dos Estados Unidos.
Aparentemente abatido, quando era arrastado para fora da embaixada equatoriana pela polícia britânica, Assange balançou seu dedo e gritou: “O Reino Unido precisa resistir a esta ação do governo Trump… O Reino Unido precisa resistir”!
Todos nós precisamos resistir. Devemos, de todas as maneiras possíveis, pressionar o governo britânico para interromper o linchamento judicial de Assange. Se ele for extraditado aos EUA e julgado, isso criará um precedente legal que liquidará a capacidade da imprensa – a quem Trump repetidas vazes chama de “inimigo do povo” – para fiscalizar o poder. Os crimes financeiros e de guerra, a perseguição de dissidentes, minorias e imigrantes, a pilhagem, pelas corporações, na sociedade e dos ecossistemas e o empobrecimento incessante dos homens e mulheres que trabalham, para engordar as contas bancárias dos ricos e consolidar o controle total do poder pelos oligarcas globais não vão apenas se agigantar. Eles não serão mais parte do debate público. Primeiro Assange; depois, todos nós.
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sábado, 13 de abril de 2019

Julian Assange fala sobre a criminalização do jornalismo, em entrevista de 2015



Entrevista com fundador do Wikileaks, Julian Assangem em 2015, de dentro da embaixada equatoriana, onde ele estava asilado
Do GGN:



Foto: Democracy Now
Julian Assange fala da criminalização do jornalismo
Do Democracy Now! 
Tradução e legendas por César Locatelli 
Hoje cedo, o fundador do WikiLeaks, Julian Assange, foi preso em Londres e agora está enfrentando acusações nos EUA de ajudar a denunciante do Exército Chelsea Manning a hackear um computador do governo.
Apresentamos parte da entrevista, que fizemos em 2015, com Assange de dentro da embaixada equatoriana, onde ele estava asilado.

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