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terça-feira, 21 de janeiro de 2020

O nazismo militarista autoritário, de Hitler a Bolsonaro, por Wilson Luiz Müller


Pode-se dizer que o fascismo é gênero, o nazismo espécie. Fascismo e nazismo assumirão formas distintas, dependendo dos países e contextos históricos onde são implantados, mantendo porém as características que lhe são intrínsecas.


O nazismo, de Hitler a Bolsonaro

por Wilson Luiz Müller  – Membro do Coletivo Auditores Fiscais pela Democracia (AFD), no GGN

Inverti, deliberadamente, a estrutura normal do texto. Começo anunciando a conclusão, para depois explicar a razão. Temos no Brasil um governo de matiz nazifascista. Para chegar a essa conclusão considero irrelevante que Bolsonaro não seja levado a sério, que seja um mentiroso contumaz, que esteja cercado de idiotas e incompetentes, que seja ele mesmo considerado um idiota (apesar de eu não achar isso, porque ser idiota é diferente do que se fazer passar por idiota). O mais relevante é que ele vem há tempo defendendo um ideário nazista, vem tendo êxito na difusão desse ideário e  ele é presidente da república com poder para implementar seus planos.
É impossível definir nazismo e fascismo sem fazer uso de referências históricas. Mas isso não significa que as experiências do passado devam ser consideradas como modelos absolutos, o que poderia levar à conclusão, equivocada, de não se poder denominar como fascismo ou nazismo as  experiências atuais que não apresentem rigorosamente as características do modelo comparado.
O debate remete a uma outra questão não menos importante: quando Hitler se tornou nazista, ou fascista? Ele já era nazista antes de assumir o poder, quando defendia as mesmas coisas que Bolsonaro, ou se transformou em nazista ao conseguir colocar em prática  a matança dos seus adversários? Se Hitler não tivesse provocado a morte de milhões de pessoas, ele teria passado à historia como nazista ou como um idiota histérico? A mesma pergunta se aplica a Mussolini. Ele assumiu o discurso abertamente fascista na década de 1930, muito anos depois de ter assumido o poder na Itália. Significa que antes disso ele não era fascista?
A pergunta se aplica a Bolsonaro. Ele é nazista faz muitos anos ou só poderá ser nominado como tal depois de colocar em prática  seu plano de matança dos 30 mil, plano anunciado há tempo e seguidamente repetido? Ou apenas quando começar a construir campos de concentração e câmaras de gás? Ou só será nazista  se houver matança de judeus?
O nazismo que se desenvolveu na Alemanha de Hitler é uma variação do fascismo de Benito Mussolini, regime implantado na Itália na década de 1920. Pode-se dizer que o fascismo é gênero, o nazismo espécie. Fascismo e nazismo assumirão formas distintas, dependendo dos países e contextos históricos onde são implantados, mantendo porém as características que lhe são intrínsecas. Assim, não é correto, do ponto de vista dialético, pretender identificar o fascismo a partir da enumeração de uma série de características inerentes ao regime, pois isso implicaria fixar os conceitos a determinadas experiências históricas, gestadas em países e circunstâncias bem específicos.
Fascistas e nazistas como Mussolini e Hitler tem em comum a pretensão de se apresentar como um juiz acima da luta de classes, que não estaria nem subordinado aos interesses corporativos das classes trabalhadoras nem submetido aos ditames e interesses econômicos dos grandes capitalistas. Para cumprir esse papel de juiz imperial, é imprescindível que o governante assuma a condição de ditador, para não ficar preso às pressões e contradições decorrentes da luta entre o capital e o trabalho.
A  tentativa de criar essa ilusão de equidistância visa tirar os trabalhadores da área de influência das organizações sindicais e sociais autônomas, com base no pressuposto de que essas organizações se movem sob a influência da teoria marxista. Com o lado empresarial, o ditador assume a agenda que interessa aos donos do capital, garantindo assim o apoio necessário para impor à força as pautas impopulares ao conjunto do povo.
Por que o debate sobre o nazismo no Brasil assumiu uma outra conotação nos últimos dias?
A estratégia bolsonarista vinha sendo desenvolvida da seguinte forma: vamos falar e nos comportar  como nazistas para defender o ideário nazista.  Mas se nos acusarem de nazistas,  respondemos que ele é de esquerda, como aliás faziam os próprios nazistas no início do seu movimento na Alemanha para confundir os trabalhadores simpatizantes do socialismo.
E aí vem o Alvim e dá com a língua nos dentes para mudar a parte final da estratégia dos bolsonazistas: fazemos tudo igual aos nazistas, e de fato somos nazistas.
Parte da repercussão negativa ante as revelações do linguarudo Alvim veio por conta dos protestos da comunidade judaica e do governo de Israel. Os judeus apoiaram Bolsonaro sabendo que ele era nazista. E certamente irão continuar a apoiá-lo, mesmo sabendo que ele não mudará seu ideário defendido ao longo de sua vida. Com ou sem Alvim, com Rego ou sem Rego no sobrenome, Bolsonaro não deixará de ser nazista. Os  judeus tem história  e sapiência suficiente para saber disso.
Os judeus não são contra o nazismo de Bolsonaro. Mas eles precisavam reclamar da fala de Alvim Rego por ele ter escancarado o fato de que o nazismo de Bolsonaro é o mesmo nazismo de Goebbels. Porque Goebbels foi o grande arquiteto intelectual do holocausto judeu.
Joseph Goebbels, ministro da propaganda de Hitler, antes do início da segunda guerra mundial, escolheu os judeus como inimigos do povo alemão, assim como antes tinham sido escolhidos os comunistas e os sindicalistas. Esses foram os inimigos de primeira hora dos nazistas;  estavam todos mortos ou  confinados em campos de concentração quando os inimigos do momento passaram a ser os judeus.
Para que seja possível a existência de um regime fascista ou nazista é imperativo que haja sempre, bem à vista do povo, um inimigo poderoso que precisa ser eliminado. Na Alemanha, a vez dos judeus tinha chegado no contexto da estratégia nazista para iniciar a guerra imperialista contra outros países. Goebbels e Hitler argumentavam, e isso tinha forte apelo popular,  que os alemães eram explorados pelos judeus, dentro e fora da Alemanha.
Não há nada, entre as características típicas do nazifascismo, que inviabilize a convivência pacífica de judeus com um regime desse tipo. A ausência de uma contradição essencial entre judeus e nazistas pode ser demonstrada pelo apoio da maior parte da comunidade judaica ao bolsonarismo durante a campanha eleitoral. Foi amplamente noticiado pela mídia corporativa que os empresários reunidos num clube judaico festejaram efusivamente a fala de  Bolsonaro  quando ele insultou e humilhou índios e negros. O que estava fazendo Bolsonaro, naquele momento, não era exatamente a mesma coisa  que Hitler fazia em relação aos segmentos sociais que ele queria oprimir ou eliminar? Do que riram exatamente os empresários judeus?
Riram, os empresários judeus, certamente, porque as afirmações do líder nazista brasileiro lhes soou como música, pois negros e índios expulsos de suas terras significa a possibilidade de novos ganhos e aumento de patrimônio. Demonstra isso que a característica central do nazismo não é um antagonismo entre etnias. O antagonismo principal no interior do nazismo, em qualquer país ou período histórico, é a luta entre os detentores do capital e os trabalhadores. Nessa luta, o governo nazista, combinando dissimulação e violência, assume a função de impor a ferro e fogo a agenda econômica que interessa aos donos dos meios de produção.
No caso do governo Bolsonaro, há uma identificação mais clara com o modelo do nazismo alemão e menos com o fascismo italiano.
O regime nazista de Hitler atuou em duas frentes em relação aos trabalhadores:
  • para atrair simpatizantes ao partido nazista, Hitler e Goebbels criaram uma eficiente máquina de propaganda para espalhar mentiras contra os comunistas, cujo objetivo era gerar pânico e medo; os símbolos e rituais do nazismo, o nome do partido contendo a palavra socialismo, a bandeira vermelha, as falas, eram intencionalmente contraditórios para confundir e atrair os trabalhadores que se organizavam sob influência de teorias marxistas ou anticapitalistas;
  • os líderes dos movimentos sindicais, vários dos quais eram militantes socialistas e comunistas, que não se convenceram com a propaganda do medo e da confusão, foram presos e mortos. Foram tantos militantes presos logo no início do governo nazista, que houve necessidade do regime construir vários campos de concentração.
O apoio popular que Hitler obteve com o uso de sua máquina de propaganda, Bolsonaro obteve com o engajamento da maioria dos pastores das igrejas neopentecostais. Isso demonstra que, para implantar o nazismo, não há necessidade de imitar Hitler em todos os aspectos. O que importa é conseguir montar uma estrutura, que espalhe pânico e desinformação, capaz de manter uma parcela considerável da população disposta a lutar ao lado do ditador contra o inimigo demonizado pela propaganda.
A máquina de propaganda de Hitler e Goebbels é muito semelhante à máquina de mentiras do nazismo bolsonarista. A essência é sempre a mesma: propagar medo, mentiras, ódio e confusão. Os inimigos de Hitler iam mudando conforme avançava a consolidação do regime nazista. O bolsonazismo se concentra no seu maior inimigo, o PT, que no ideário nazista pátrio faz o papel dos comunistas na Alemanha.
A propaganda enganosa inclui a difusão e popularização dos chamados mitos fundantes anunciados pelo ministro da propaganda do governo nazista Roberto Alvim. Mitos fundantes, que como facilmente se pode ver com uma rápida pesquisa na web, são idênticos aos do nazismo original de Hitler.
“A pátria, a família” e “sua profunda ligação com Deus”, conforme nos ensina Alvim. Sempre quando aparecem esses mitos, estamos diante de alguma ideia de fundo nazista.  Em nome desses mesmos mitos fundantes do ministro de propaganda do bolsonazismo, os nazistas alemães trucidaram milhões de pessoas que tinham mitos fundantes diferentes.
A estratégia da propaganda enganosa inclui também o combate farsesco  ao chamado marxismo cultural, conceito que os nazistas brasileiros foram buscar em fonte fidedigna, direto das páginas da obra Mein Kampf, de Adolf Hitler. Nesse caso, como no mais das vezes em quase tudo que dizem e fazem, os bolsonazistas dispensam intermediários; bebem direto na fonte original, o nazismo de Hitler e Goebbels.
É antiga a percepção, entre os que se dedicam a estudar a história,  de que a trajetória de Bolsonaro em muito se assemelha à de Hitler. Para encerrar, reproduzo abaixo um parágrafo do artigo de Oliver Stuenkel (El País 2018). Fica a critério dos leitores tentar descobrir se o texto está falando de Hitler ou de Bolsonaro.
“… era pouco mais do que um ex-militar bizarro de baixo escalão, que poucas pessoas levavam a sério. Ele era conhecido principalmente por seus discursos contra minorias, políticos de esquerda, pacifistas, feministas, gays, elites progressistas, imigrantes, a mídia…porém, 37%  […] votaram no partido dele… Por que tantos eleitores instruídos votaram em um patético bufão que levou o país ao abismo? Em primeiro lugar, […] tinham perdido a fé no sistema político…”
Wilson Luiz Müller – Membro do Coletivo Auditores Fiscais pela Democracia (AFD)

terça-feira, 14 de janeiro de 2020

Os Isentões – ou Os Judeus que Apoiam Hitler, por Élder Ximenes Filho


 “O correr da vida (feita de poucas certezas e muitos dar-se um jeito) embrulha tudo, a vida é assim: esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta. O que ela quer da gente é coragem”. - Guimarães Rosa


Os isentões, finalmente, tal como seu mais rematado tipo (os judeus colaboracionistas), são abjetos especialmente por isto: eles banalizam o mal!

Ódio aos Isentões – ou Os Judeus que Apoiam Hitler

por Élder Ximenes Filho

In memoriam do Herói Brasileiro e Cel. do Exército Antônio Alexandrino Correia Lima A
O revolucionário e filósofo Antônio Gramsci [1] – preso político no regime fascista de Roma há pouco tempo, odiava os indiferentes. Para ele viver “quer dizer tomar partido. Quem verdadeiramente vive, não pode deixar de ser cidadão e partidário. A indiferença e a abulia são parasitismo, são covardia… o peso morto da história”. O revolucionário e rabino Jesus Cristo [2] – preso político no regime imperial de Roma, há muito, também os desprezava: “Conheço as tuas obras, que nem és frio nem quente…! Assim, porque és morno, e não és quente nem frio, vomitar-te-ei da minha boca”. Raul Hilberg [3], o maior historiador do holocausto nazista denunciou: A neutralidade equivale a nada, além de ajudar o lado mais forte em uma luta desigual. Nosso Guimarães Rosa, também revolucionário [4], disse melhor, pois era artista: “O correr da vida (feita de poucas certezas e muitos dar-se um jeito) embrulha tudo, a vida é assim: esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta. O que ela quer da gente é coragem”.
Grandes obras – científicas, políticas, literárias – necessariamente exigem engajamento, doação de si. Nem é preciso tanto. Não falo de heroísmos (embora às vezes necessários), mas da grandeza possível a cada um. O simples mostrar-se vivo verdadeiro, dia a dia, sem da morte depender a prova… isto exige coragem. Daí que para subir no monstruoso muro da indiferença, o primeiro degrau é a covardia e o último, a hipocrisia. Os de entremeio variam conforme a profissão, o grau de instrução ou a idade. O muro, sabemos, é construção antiga e coletiva: os tijolos das omissões e o cimento das desculpas prefabricadas. Para a pintura era tradicional usar o ingênuo autoengano – mas desde Freud está em falta. Substituiu-se pela tinta cor branco cidadão-de-bem, cada vez mais difícil de ver (para crer).
De todo modo, uma vez assentada a bunda na divisória de posições, encontra o isentão seu habitat. Sobranceiro, oscila a cabeça feito em partida de tênis e comenta as disputas preocupado pouco com as regras e nada com o resultado. O muro mantém a confortável distância e até confere a arquitetural respeitabilidade de quem discursa para baixo. Sua fala vem de recursos retóricos a gerarem empatia: “eu entendo os motivos de sua revolta”; “você sabe que estou de seu lado”; “pode contar comigo”. Porém, após a inicial anestesia vem a terrível penetração da conjunção adversativa! Sabem para que serve o “MAS” hoje em dia? Para marcar o que se pensa de verdade: esqueça tudo que foi dito antes. O que este tipo de gente deseja figadalmente é manter a imagem de justo árbitro. Todavia, existe uma falácia essencial: os pratos recebem quaisquer pesos, mas o fiel da balança precisa mostrar a diferença existente. Aristóteles [5] já considerava a equidade uma parcela ou um requisito da justiça ideal: mesmo com uma norma fixa, é preciso tratar os diferentes na medida da sua diferença.
Forçar o equilíbrio em situações assimétricas é trapaça pura e simples. Igualar empregado (quem vive de vender o próprio tempo) e patrão (quem dita o preço) – isto é maldade. Defender a displicência bélica dos policiais na favela, esquecendo que bala perdida não acha rico – isto é covardia. Defender a extrema-direita neofascista (aqui e agora) apontando o dedo para Stálin – isto é embuste. Ver com igual simpatia e garantir o “lugar de fala” do opressor (que goza no conflito) e do oprimido (que se defende quando pode) – isto é corrupção. Os exemplos são atualizados todo o tempo nas redes sociais. Confira. O que não muda é isto: aquele lá jamais defende o lado mais fraco!
Leandro Demori [6] imprecou contra os defensores de uma saída moderada pelo centro – mas que claramente pende para a direita e só contemporiza com estes radicais: “Parece fácil escrever que é preciso “retomar diálogo para evitar radicalismos e reencontrar equilíbrio”, se afastando dos polos como se fossem duas doenças incuráveis contra as quais, escrevendo artigos ilusórios em jornais, os autores nos receitam a cura. Então que saiam da toca de modo claro: a quem devemos confiar nossos votos? Quem é o novo fenômeno que em três anos fará 60 milhões de votos para derrotar o PT, o Bolsonaro e o diabo que seja? Estamos ouvindo. Enquanto isso não acontecer, sigam tomando o cafezinho dos imaculados que, daqui da calçada, podemos ver seus mindinhos em riste”. Atualiza-se o que talvez seja o pior efeito do isenteísmo militante: a apatia das massas. Notemos que para construir um muro sólido é preciso algum cultivo, uma base intelectual. O isentão não é um simples ignorante. Seus argumentos e posturas – aliás veiculados em revistas, vlogs, palestras e sentenças – influenciam as multidões perdidas, cegas pelo bombardeio de informações, opiniões e fake news. Mais muros. Ao fim e ao cabo, reproduzem a noção incapacitante de que as coisas são assim mesmo e de todo político é farinha do mesmo saco. É um refinado parasitismo da alma; reconforto nos velórios, óculos escuros em meio à guerra. Fatalismo onde deveria haver revolta; masturbação mental em lugar de planejamento racional.
Vamos logo aos Judeus do título (é que já estou na segunda página e ninguém lê na internet mais do que quatro). Entrego logo: aqueles foram os isentões paradigmáticos [7], na ascensão do nazismo. A escritora Ruth Weiss, ela própria fugida da Alemanha quando criança, escreveu um romance-rio em vários volumes. Uma série contando a história de uma família judia desde o tempo do Sacro Império Romano Germânico até o desvelamento dos neonazistas em 2015. São 350 anos de ficção com base histórica – mas o que interessa mesmo é o paralelo social entre as os anos 1930 e de agora. O jeitão das pessoas. Como após aflorarem as piores opiniões e estas serem toleradas pelos governos e pelos formadores de opinião, rapidamente passou-se às atitudes abertamente racistas e criminosas. Isto contando com o apoio explícito e, especialmente, com o silêncio de lideranças judaicas. Até ser tarde demais. Respondendo sobre riscos atuais para seu povo, com o fortalecimento do partido de extrema-direita Alternativa para a Alemanha (AfD), esta Senhora de 95 anos responde:  entendo quando dizem que, de novo, vivemos de malas sempre prontas. Essa é uma expressão que ouvi de muitos judeus nas décadas de 60 e 70. Nos anos 80 e 90, isso simplesmente não estava em questão. Mas hoje é novamente assim. Isso é muito perigoso, não só para os judeus, mas também para o povo alemão. quando questionada sobre como me sentia no país, eu tinha uma resposta muito simples: a Alemanha de hoje não é a de 1930. Mas não posso mais dizer isso. Hoje, só posso dizer que 2019 não está muito longe de 1930”.
Mas vejamos alguma conjuntura; lá e cá. À atual crise econômica do capital, tão cíclica e previsível como as outras, somaram-se as mazelas da globalização: mais efeitos simultâneos em mais lugares. Os governos passaram a seguir a receita única do FMI e quejandos – sem o contraponto do modelo soviético, que em vez de corrigir-se, caiu de podre. É o desmonte do estado social, abrindo mais mercados sobre os escombros dos direitos sociais e da proteção ambiental e desregulamentando a iniciativa privada. A maior concentração de renda da história veio de mãos dadas com o menor nível de organização dos trabalhadores. Enquanto sindicatos perdem filiados, empresas tornam-se mais fortes do que os Estados. Vocês sabem: quem paga, manda! Se a riqueza mais se transfere do que se cria e não existe força ativa para a distribuição, inexoravelmente aumenta o fluxo de capital retirado dos mais pobres. Isto se faz pelo velho desequilíbrio da balança comercial mas também pelo desmanche das políticas protetivas, de planos de desenvolvimento nacional e dos acordos internacionais destoantes daquela receita. Lembram do protagonismo do Brasil nos BRICS?
Quando não é o suficiente a manipulação (inclusive subornando e cooptando [8] lideranças), vale a sequência: golpe de estado e (não bastando) guerra aberta! Lembram dos livros de história? Conquistas de Alexandre o Grande e guerras napoleônicas e explorações das colônias? Para os contemporâneos também havia justificativas edulcoradas: civilizar os bárbaros, espalhar a verdadeira religião, dar serventia às terras que os vizinhos desperdiçavam… Acontece que o passar do tempo desnuda as razões verdadeiras. Pois é, as guerras de conquista continuam, agora sofisticadamente híbridas: terceirizadas no nível estratégico; sempre iniciando com ataques de mídia (mostrando a nobreza de propósitos) e pelo uso tático de armas de extermínio em massa das consciências (redes sociais + algoritmos) [9]. Nada de sujar as mãos, pois basta quebrar uma empresa ali e prestigiar outra acolá. Não precisa submeter o escravo se basta dourar as correntes. Para quê matar um governante se posse induzir ao suicídio uma nação? Tudo muito moderno e cheiroso.
Mas há uma coisa que não muda: se a razão deve ser o guia da ação, a emoção é o combustível. Aliás, a neurociência vem mostrando que a emoção supera em muito a racionalidade. Medo e ódio, inseparáveis e poderosos. Manipule medo de algo (real ou fictício) e direcione o ódio. Pronto! Para realizar o parágrafo anterior é preciso escalonar os medos e eleger os inimigos. Existe uma genial charge de Laerte, ao estilo de Henfil. Mostra um operário reclamando do salário que nem dá para o de comer. O patrão pega o bife da marmita do operário ao lado e entrega ao primeiro. Quando o outro reclama, o empresário diz: olha, o teu colega não quer que você coma carne. Começa a briga entre os trabalhadores e ninguém mais reclama… Tão velho quão eficiente. Dividir para manter a conquista; deslocar de si a causa dos problemas; enfim, botar a culpa nos outros e interditar o debate.
Por definição, quem se opõe ao paradigma neoliberal entra na mira. Se fizer parte de um grupo social ou étnico que demande alguma política compensatória (indígenas, afrodescendentes, imigrantes) aí já nasceram com o alvo nas costas. O antissemitismo europeu é constitutivo de várias culturas. Está ali, no cio. Pode aflorar com vergonha ou com orgulho – depende da época. Entre nós, o racismo dirigido aos descendentes de escravizados. Em qualquer lugar em crise e/ou com grande fluxo migratório, o bode expiatório é o estrangeiro tomador de empregos. A questão é usar qualquer um desses ódios latentes e propagandear o inimigo idealizado. E tome fake news e pancada nos professores e jornalistas independentes. Lembremos disto: o totalitarismo não é um projeto alienígena. Ao contrário, é preciso contar com grande base social, com a adesão emocionada das massas. A direção vem de um grupo de elite, mas o combustível emocional flui de baixo para cima.
Agora é prosseguir com o script já testado. Chamar toda a oposição de esquerdistas, comunistas, corruptos e parasitas – sem explicar qualquer conceito. Adotar discurso moralista, pois, afinal, é preciso retornar a um passado mítico (reescrito conforme seus interesses). Dizer-se paladino contra a corrupção (dos outros, pois as infrações dos aliados/parentes não vêm ao caso). Estimular o militarismo, pois deseja um mundo uniforme, obediente e que pratique a violência sem refletir. Organizar diretamente ou incentivar organizações paramilitares, que espontaneamente intimidem os adversários [10], inclusive com práticas terroristas. Partir para a agressão física ou verbal (baixaria mesmo), não admitindo conversa, pois sabe que perderia num debate honesto. Este modus operandi, aliás, é ensinado por certo pseudo-filósofo [11] e praticado por “dignitários”[12] federais.
Praticamente tudo o que descrevemos aplica-se à Itália, à Alemanha e à Espanha no início do Século XX e, mutatis (pouco) mutandis, ao Brasil de agora. Convido o leitor a prosseguir com a listinha de paralelos [13], bastando curiosidade e estômago forte.
Firme nos requisitos socioeconômicos e semelhanças históricas, descrevo a sombra sebosa do colaboracionista judeu que o isentão projeta. A intenção é chamar à responsabilidade os que devem enfrentá-los, mas que ainda os têm em alguma conta. Se produzir asco, melhor.
Quem conhecia melhor os Judeus, seus nomes, endereços, profissões e propriedades? Eles próprios, claro, por suas lideranças legítimas. Então, quem melhor do que estas lideranças para elaborar as listas de bens a confiscar e de pessoas a enviar aos campos de extermínio? Por incrível que pareça, parte essencial da formidável máquina burocrática que industrializou a morte era formada pelos que deveriam morrer. Hoje em dia: negros contra as políticas de cotas; gays/lésbicas que negam a homofobia, mulheres antifeministas….
Voltemos à II Guerra. O Conselho Judeu de Teresienstadt [14], por exemplo, recebeu poderes absolutos sobre esta população. A SS dava as diretrizes sobre os deportáveis: quando, quantos de cada sexo, quais profissões e idades… O Conselho preparava as listas para Adolf Eichmann cuidar do traslado para Auschwitz-Birkenau e outros campos. Mais: distribuíam as infames estrelas para identificação, ensinavam a resignação entre orações e criaram até corpos policiais dentro da comunidade, evitando revoltas. Hilberg anota um discurso do Presidente do Conselho Judeu Holandês [15] (assombrosa a condescendência com os nazistas alemães e o desprezo pelos vizinhos): “O fato de os alemães terem cometido atrocidades contra os judeus poloneses não era motivo para pensar que eles se comportariam da mesma maneira em relação aos judeus holandeses, primeiro porque os alemães sempre consideraram os judeus poloneses com descrédito e, segundo, porque na Holanda, diferentemente da Polônia, eles tiveram de se sentar e prestar atenção na opinião pública”. A aniquilação veio para todos. Dizendo evitar um “mal maior” e a “desordem” estas pessoas respeitáveis trabalharam impavidamente contra o próprio povo. Salvaram alguns: em regra, a si próprios e aos membros da elite judaica. Estima-se que se não houvesse nenhum tipo de liderança, talvez 3 milhões teriam escapado do extermínio. Traição em sete dígitos. No pós-guerra, quando os ex-integrantes destes Conselhos foram confrontados (inclusive em tribunais), sempre defenderam-se repetindo: Mas o que podíamos fazer? Era melhor do que o caos. Demos algum conforto antes do fim… Mas nem sempre as desculpas colavam: “Durante a reocupacão soviética da cidade de Feodosiya, na Crimeia, no inverno de 1941-42, relatou-se que colaboracionistas foram mortos a machadadas após responderem “por que toleraram que os alemães fuzilassem os judeus?[16]””.
Hilberg também estudou as perseguições aos Judeus e aos membros da resistência Comunista na Romênia [17]: “Como os eslavos reagiriam à repentina aniquilação de todo um povo que vivia junto a eles? Esconderiam os judeus ou os entregariam às autoridades…? Atirariam nos assassinos ou ajudariam no extermínio? … Na realidade, o comportamento da população … se caracterizou por uma tendência à passividade. Essa inércia era produto de emoções conflitantes e condicionantes opostas. Os eslavos não gostavam dos vizinhos judeus … Ao mesmo tempo … a população eslava estava alienada e horrorizada com o espetáculo da “solução final” … O efeito final dessa constelação psicológica foi o escape à neutralidade”. Novamente, a tentação de evitar o confronto – e, se possível, apossar-se da casa do vizinho que foi morto.
Os isentões, finalmente, tal como seu mais rematado tipo (os judeus colaboracionistas), são abjetos especialmente por isto: eles banalizam o mal! Usando a expressão consagrada de Arendt, conclui-se como os discursos dissimulados e silêncios eloquentes são extremamente úteis para os totalitários explícitos. Não denunciam os abusos nem a escalada da violência política, a censura ou a tortura –  pois querem “ouvir os dois lados”. Como tudo pode piorar e ninguém tem solução, o melhor é ficar parado. Assim, confundem a resistência com sofismas e ensinam aos oprimidos o conformismo despreocupado que alimenta os cemitérios.
A história repete-se. Mostra que não é possível “converter” um totalitário neofascista ou um isentão. Aquele pois se recusa ao diálogo e parte logo para a violência. Este porque jamais cessa de falar e não chega a uma conclusão. Não foram convencidos, mas foram derrotados antes. Serão de novo.
Élder Ximenes Filho – Membro do TRANSFORMA MP. Mestre em Direito Constitucional.  Promotor de Justiça
  1. La Città Futura, 1917, p. 1.
  2. Livro das Revelações, 3:15-16 (esculacho nos fiéis da Igreja da Laodicéia, que tentavam adaptar o cristianismo original aos costumes romanos, para melhor passarem)
  3. A Destruição dos Judeus Europeus (p. 355). Amarilys. Edição do Kindle
  4. Revolução Constitucionalista de 1932 – contra Getúlio Vargas. Quando diplomata na Alemanha, ele e, principalmente, sua esposa Aracy de Carvalho (heroína reconhecida por Israel) ajudaram na fuga de inúmeros judeus perseguidos. Trechos do Grande Sertão: Veredas
  5. “A mesma coisa, pois, é justa e equitativa, e, embora ambas sejam boas, a equitativa é superior.” Ética a Nicômaco.
  6. https://panoramadoestado.com.br/2019/12/08/artigo-o-extremo-centro-engana-bobo/
  7. Claro não existirem pessoas/fenômenos monodimensionais. Há tensões, vacilos e nuances. Usamos a ficção do tipo ideal como instrumento para melhor raciocinar, como Weber ensinou
  8. Polícia Federal brasileira recebe mensalão do governo dos Estados Unidos: https://csalignac.jusbrasil.com.br/noticias/354350802/policia-federal-brasileira-recebe-mensalao-do-governo-dos-estados-unidos
  9. Um pouco mais aprofundado: https://jornalggn.com.br/opiniao/morta-por-like-perdido-por-elder-ximenes-filho/
  10. Os Esquadrões de camisas negras da Itália fascista, as SA (depois SS) da Alemanha Nazista, as Falanges da Espanha Franquista, as milícias ou Gladiadores do Altar ou células neo-integralistas aqui e hoje
  11. Recentíssima: https://www.diariodocentrodomundo.com.br/voce-e-uma-vagabunda-meu-encontro-com-olavo-de-carvalho-intelectual-da-extrema-direita-brasileira-por-leticia-duarte/ ; conferir também o mais completo: https://www1.folha.uol.com.br/ilustrissima/2018/11/unica-coisa-rigorosa-no-discurso-de-olavo-sao-os-palavroes-diz-ruy-fausto.shtml
  12. https://www.youtube.com/watch?v=LRRCM5OEfoU
  13. Aqui existe uma: https://jornalggn.com.br/artigos/um-estrondoso-aplauso-por-elder-ximenes-filho/
  14. Hannah Arendt, em Eichmann em Jerusalém, Cia. das Letras, 1999, p. 136, 140-142, 187. A criação destes Conselhos repetiu-se, com variações, por toda a Europa. A “eficiência” maior ocorreu na Polônia, depois na Holanda
  15. A Destruição dos Judeus Europeus (p. 22). Amarilys. Edição do Kindle
  16. Raul Hilberg. Idem (p. 459)
  17. O mesmo (pp. 352-353)

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quarta-feira, 18 de dezembro de 2019

Bolsonarismo e Fascismo tem parentesco? Por Andre Motta Araujo


Um regime neofascista dando ao MERCADO (internacional) liberdade absoluta de ação é uma novidade que distingue o Bolsonarismo de qualquer regime fascista.



Bolsonarismo e Fascismo, tem parentesco?

por Andre Motta Araujo, no GGN

No meu artigo FASCISMO E TORCIDAS ORGANIZADAS surgiu um comentário-pergunta sobre se o bolsonarismo é um tipo de neofascismo.
O FASCISMO original, que este ano completa um século, tinha elementos históricos específicos à situação da Itália ao fim da Grande Guerra de 1914.
O fascismo nasceu como um movimento reivindicatório relativo às más condições com que a Itália saiu do grande conflito, terminado em 1918 com a Itália como parte do bloco vitorioso após ter mudado de lado e sem ter, como esperava, benefícios dessa vitória. Regiões ao norte não foram incorporadas à Itália, a criação de um novo Estado nos Balcãs, a Iugoslávia, prejudicou a Itália no seu controle do Adriático. Mas, além das questões geográficas e geopolíticas, a Itália saiu do conflito em grave crise econômica e social que os Governos democráticos não sabiam resolver, abrindo espaço para um novo projeto politico que veio de um inspirado agitador socialista, Benito Mussolini, que rapidamente derivou para a direita e criou o modus operandi de um movimento de tomada do poder sobre um Estado enfraquecido.
O Rei da Itália, Vittorio Emmanuele III, também viu vantagens em se associar a esse novo projeto político que entendia como um fortalecimento da Monarquia. O fascismo não contestava o trono e sim o governo parlamentarista frágil do pós guerra, notadamente os gabinetes de Ivanoe Bonomi e Luigi Facta, este o predecessor de Mussolini no cargo.
Uma curiosidade histórica, o socialista Bonomi voltou à política italiana em 1948 como Presidente do Senado, um renascimento extraordinário atravessando o advento, o apogeu, a queda e a morte terrível de Mussolini.
A DIFERENÇA ENTRE FASCISMO E CONSERVADORISMO
A diferença básica entre um governo conservador e um governo fascista, ambos de direita, se dá pelo antagonismo entre estabilidade e agitação permanente. O CONSERVADOR quer estabilidade para usufruir de seu domínio sobre a propriedade e para tal precisa da estabilidade das instituições.
É o governo da aristocracia, dos lordes ingleses da Era Vitoriana. A classe alta quer usufruir de sua situação privilegiada com calma e tranquilidade.
Já o FASCISTA não quer estabilidade, ele necessita de um processo permanente de agitação, confrontação, agressividade e conquista, como o ciclista que precisa pedalar sempre porque se parar o movimento ele cai. Essa necessidade vem do fato de que o FASCISTA não tem a base sólida do direito e das instituições para lhe garantir o poder, quem garante o poder é o MOVIMENTO PERMANENTE, que não pode parar.
Assim, nos fascismos originais, da Itália e da Alemanha, a necessidade de conquista e agressão é da essência dos regimes. Hitler foi de conquista em conquista até a invasão da Polônia, começando pela reocupação da Renania, depois a incorporação da Áustria, a invasão e ocupação da Tchecoslovaquia até o desencadear da Segunda Guerra. A Itália fascista precisou invadir a Abissinia em 1935, correndo altos riscos de confrontação com o Império Britânico, para manter o regime em movimento.
O BOLSONARISMO
O bolsonarismo tem essa necessidade de MOVIMENTO PERMANENTE para se manter, nesse sentido é um movimento neofascista dentro de um regime democrático assim como o fascismo italiano foi inserido na Democracia até o caso Matteotti, com um governo ainda dentro das regras institucionais, mas logo derivou para um regime autoritário quando milicianos fascistas raptaram o líder socialista Giacomo Matteotti em 1924.
Na Alemanha, Hitler assumiu DENTRO DA REGRA DEMOCRÁTICA da República de Weimar em janeiro de 1933 e rapidamente derivou para o autoritarismo, especialmente após a morte do Presidente Hindenburg. Há elementos específicos no nazismo que não havia no fascismo italiano, o maior é a agressão à cultura que ocorreu na Alemanha e não ocorreu na Itália, assim como o antissemitismo que só contaminou a Itália já depois do início da Guerra e de forma mais branda.
No caso do Bolsonarismo há esse elemento de permanente movimento, que não havia no Regime Militar de 1964, conservador de direita, mas não fascista. No Governo Militar de 64 havia interesse e empenho na educação, criou-se o MOBRAL, a democratização do ensino universitário que até então era elitizado, criou-se a EMBRAFILMES e os intelectuais de direita, de alto nível, eram prestigiados. A política externa NÃO ERA IDEOLOGIZADA, nem a aliança com os EUA era automática. O Brasil enfrentou os EUA no reconhecimento do regime comunista de Angola e no desenvolvimento do acordo nuclear com a Alemanha, que sofreu dura oposição dos EUA, portanto o regime de 1964 era apenas CONSERVADOR e voluntariamente se extinguiu.
Já o Bolsonarismo tem elementos muito específicos, alguns próximos do fascismo, mas outros não. A anti-cultura é algo tão primitivo que nem se aproxima do nazismo, este era contra certo tipo de cultura, a “arte degenerada” mas era entusiasta da arte antiga, da música clássica, já o fascismo italiano era orgulhoso dos tesouros artísticos da Itália, que foram recuperados e protegidos pelo regime, era a favor da boa educação de qualidade, algo que o bolsonarismo não dá importância. Há um elemento de primitivismo terceiro-mundista no bolsonarismo que não vem do fascismo aculturado e nem do nazismo alemão.
MAS a maior diferença entre o Fascismo e o Bolsonarismo se dá na Economia. O Estado Fascista via a economia como parte integral do Estado, nada de economia de mercado, toda a atividade econômica era regulada e incentivada pelo Estado, na Alemanha nazista mais ainda, o Estado comandava a economia, esta se encaixava no Plano Quadrienal e o Ministro do Plano era o Marechal Goering, tudo era organizado pelo Estado e para o Estado.
Um regime neofascista dando ao MERCADO liberdade absoluta de ação é uma novidade que distingue o Bolsonarismo de qualquer regime fascista.
Essa LIBERDADE PARA O MERCADO não existiu no Fascismo italiano, no nazismo, no franquismo, no salazarismo, no Estado novo de Vargas, no peronismo que era na origem considerado um regime fascista, é uma novidade que significa coisa ainda pior que o fascismo, pois esse tinha como meta conseguir maior proteção social para os mais pobres e em grande parte conseguiu, enquanto no caso do Bolsonarismo os pobres não estão na equação.

segunda-feira, 2 de dezembro de 2019

Fascismo... Do ódio ao pobre ao ódio aos ricos, por Fernando Horta




Na Alemanha de Hitler, este momento se dá a partir de 1938, quando o Führer vai concentrar ainda mais poder, exterminar opositores e acelerar a preparação para a guerra.

Do ódio aos pobres, ao ódio aos ricos, por Fernando Horta

Já está muito claro que o autoritarismo só pode existir com a conivência das instituições cuja missão principal é exatamente detê-lo. É quando o judiciário e a imprensa se unem contra o que julgam “uma ameaça comum” que o autoritarismo surge. Em países com imprensa independente e profissional ou com um judiciário institucionalmente impessoal, limitado totalmente pela lei e submetido à prestação de contas para com a sociedade, o autoritarismo não vinga.
Ocorre que, sob certas circunstâncias, a classe média e as elites econômicas se unem contra “um inimigo comum”. E dado que estas instituições – imprensa e judiciário – são majoritariamente formadas por homens brancos e de classe média urbana, tais homens passam a “fazer vistas grossas” aos abusos. Desde que contra os inimigos políticos, é claro. É o juiz que não pune o policial que tortura e mata, é o procurador que não indicia fulano, porque “pode ser um aliado” ou ignora provas contra sicrano. São, portanto, as instituições que abrem as portas para o autoritarismo e, mais precisamente, para o tipo de autoritarismo que chamamos de fascismo.
O acordo tácito é claro. As instituições fecham os olhos para os abusos, vilipêndios e absurdos e, em troca, o fascismo se joga contra os opositores políticos da classe média e do capital com fúria. Este acordo funciona bem no início. O capital consegue a destruição das proteções sociais, acaba com sindicatos e outras coletividades que buscam representação e, assim, faz parceria com o fascismo pela “libertação do país”. Até as palavras parecem ser as mesmas. O capital pede o “livre mercado” e o fascismo exige a “liberdade nacional” que, supostamente, esteve refém dos seus opositores políticos. Neste estado de coisas, a classe média e os pequenos empresários são levados a acreditar que o país “vai melhorar” e, por óbvio, que eles participarão do butim. Ocorre que, com o passar de um tempo muito curto, a situação econômica deteriora-se e as massas de manobra se dão conta que não serão convidadas para os churrascos com picanha.
O fascismo, aqui empoderado nas instituições e no Estado, fica então com uma escolha a fazer: ou aceita a dirigência do capital e, para conter o empobrecimento das classes médias, precisa aumentar a produção em escala global de forma gigantesca, gerando empregos cada vez mais mal pagos. Ou rompe com o capital e alia-se à classe média, absorvendo ainda mais o moralismo empastelado dos recalcados, e a violência vira regra social. Assim, em dado momento, o fascismo precisa escolher entre deixar de ser fascismo para tornar-se apenas um neoliberalismo escandalosamente agressivo ou manter-se fascismo e abrir mão do apoio político do capital em troca do apoio das instituições de uma classe média ressentida e violenta.
É neste momento que se passa do ódio aos pobres (que moveu todo o processo até agora) para o ódio aos ricos, que será a bandeira do fascismo daqui em diante. Passa-se ao Estado policialesco, sem nenhum respeito pelos direitos e sigilos civis. Tudo é crime. Tudo é “de interesse do estado”. Desde altos salários, até altos honorários e lucros, tudo serve para gerar o ódio aos que têm riqueza. Na impossibilidade de a classe média que apoiou e consubstanciou o fascismo de melhorar sua vida econômica, ela passa a perseguir aqueles que têm recursos.
Na Alemanha de Hitler, este momento se dá a partir de 1938, quando o Führer vai concentrar ainda mais poder, exterminar opositores e acelerar a preparação para a guerra. Há a ruptura com o capital internacional e com todo o capitalista alemão que não se submetesse aos desejos e ordens do ditador. Muitos empresários são presos, julgados e condenados à morte por “traição”, por “atentarem contra a Alemanha” ou por qualquer outra acusação que as instituições corrompidas quisessem lhe impor. A verdade é que o ódio que criou o regime, consumiu as populações mais pobres e viveu do extermínio das oposições precisa ser alimentado. Sem as oposições a quem odiar (por terem sido virtualmente exterminadas) o fascismo se volta contra os grupos que lhe deram apoio inicialmente.
Este é precisamente o momento que estamos vendo no Brasil. A ruptura entre Bolsonaro e o PSL é sintomática. Os liberais do PSDB já romperam “sem barulho”, por medo do retorno da esquerda, mas já se apresentam como uma oposição suave, com Dória e Huck. O fascismo vai exigindo mais, e a luta pelos dados da receita é o combustível que a lava a jato de Moro precisa para continuar incendiando o país. Com todos os sigilos quebrados, Moro – com sua proverbial imparcialidade – decidirá quem são os inimigos e quem são os amigos. Bolsonaro poderá continuar sua cruzada moralista, jogando nas fogueiras um número cada vez maior de pessoas. Inimigos, opositores, possíveis rivais e etc. todos serão queimados nas chamas do fascismo. O jatinho de Huck, a concessão da Globo e etc.
Para tentar evitar este fim, nos seus estertores, os liberais soltaram Luiz Inácio Lula da Silva. E o fascismo já respondeu com a rebeldia do TRF4. Basta uma fagulha para o executivo devorar a alta cúpula do judiciário e do legislativo e transformar o STF num órgão decorativo, seja pela indicação de membros fascistas, seja pela “depuração” dos atuais membros. Nas forças armadas este processo já está acontecendo, com oficiais constitucionalistas sendo perseguidos ou afastados e a banda podre fascista assumindo todos os postos de importância.
O preço da carne, o fim do ensino público, o aumento da gasolina, o aumento de impostos e a redução da demanda na economia brasileira NÃO será o que acabará com o regime fascista de Bolsonaro. Muito pelo contrário. Estes fatores apenas convidam o autoritarismo bolsonarista a atingir um outro nível de violência. Isto está sendo tentando pelo excludente de ilicitude de forma direta, mas também está sendo colocado em prática pelas polícias militares do Brasil inteiro, que registram números recordes de assassinatos, torturas, massacres e todo tipo de abuso e violência.
O governo Bolsonaro diz, com todas as letras ao capital, que ou ele se submete ao moralismo violento fascista ou será também vítima da sua ensandecida turba. O mesmo aviso é claro ao STF, aos órgãos de imprensa que ainda se acham “livres”, e aos indivíduos que, em postos institucionais relevantes, optarem por seguirem um mínimo de civilidade e obedecerem a Constituição.
Os ricos, que tanto esforço fizeram para colocar Bolsonaro no poder, verão agora serem eles mesmos alvos do fascismo. O que o século XX mostra é que o fascismo não admite nada diferente de si mesmo, e o pequeno e médio empresário vai ter que ver seu negócio ruir pela brutal concentração de renda imposta pelo regime de Bolsonaro, ou vai ver o seu negócio ruir pela perseguição moralista e o ódio visceral que o fascismo liberta.
A libertação de Lula pode ter sido vista por muitos como uma oportunidade de luta. Perdoem-me o pessimismo. Acho que muito em breve, o regime de Bolsonaro atingirá um novo nível de violência e autoritarismo. E com efusivos aplausos de militares, policiais, juízes e promotores, eles exterminarão a pouca democracia que ainda nos resta. Os que estão esperando um “AI-5” para se convencerem da necessidade de apear o fascismo do poder acordarão, um dia, alijados de seus espaços de poder. O golpe final de Bolsonaro se aproxima, e é aconselhável que a cúpula do judiciário, do legislativo e todo aquele que for constitucionalista não tenha um sono muito pesado. Será acordado, à noite, pelo cabo e pelo soldado.

terça-feira, 2 de abril de 2019

Chanceler de Bolsonaro, que disse que o nazismo era de esquerda, é desmentido por… Hitler



Trechos da autobiografia do líder nazista, Mein Kampf (Minha Luta), demonstram o ódio que ele sentia do marxismo, que associava ao judaísmo

Manifestação pró-nazi em Chicago em 1931.
Foto: BUNDESARCHIV, BILD
Há algum tempo publicamos aqui um documentário mostrando como os capitalistas financiaram o nazismo de Adolf Hitler e o fascismo de Benito Mussolini. Mas a extrema-direita, viciada em fake news, insiste em jogar no colo da esquerda as barbaridades do nazismo. Como se o líder da União Soviética, Josef Stalin, em que pese seus defeitos, não tivesse botado os nazistas para correr em 1943.

Agora é o chanceler (sic) de Bolsonaro, o bolsominion diplomata Ernesto Araújo, quem utiliza suas redes para difundir a mentira de que o nazismo era de esquerda.

Poderíamos fazer várias perguntas bem básicas para o ministro responder: se o nazismo era de esquerda, por que os capitalistas o financiaram? Se o nazismo era de esquerda, por que os comunistas o derrotaram? Se o nazismo era de esquerda, por que, um dia depois de assumir o poder, em 1933, Hitler baniu o Partido Comunista Alemão? Se o nazismo era de esquerda, por que os neonazis em todo o mundo são de extrema-direita, como ele e Bolsonaro?

Mas preferimos dar a palavra ao próprio Adolf Hitler. Em seu livro Mein Kampf (Minha Luta), o líder nazista confessou como se apropriou da cor vermelha e do nome “Partido dos Trabalhadores Alemães” para confundir os “vermelhos”. Hitler também conta como desde cedo estabeleceu como seus inimigos centrais tanto os judeus quanto os marxistas. O líder nazista associava diretamente o marxismo ao judaísmo –o próprio Marx era judeu, assim como Trotsky.
Se o nazismo era de esquerda, por que, um dia depois de assumir o poder, Hitler baniu o Partido Comunista Alemão? Se o nazismo era de esquerda, por que os neonazis em todo o mundo são de extrema-direita, como Bolsonaro e seu chanceler?
“Nesse tempo, abriram-se-me os olhos para dois perigos que eu mal conhecia pelos nomes e que, de nenhum modo, se me apresentavam nitidamente na sua horrível significação para a existência do povo germânico: marxismo e judaísmo”, escreveu o Führer. “O problema futuro da nação alemã devia ser o aniquilamento do marxismo.” Ué, como uma pessoa que odeia o marxismo pode ser de esquerda? Só faz sentido na cabeça de quem quer enganar as pessoas, como Hitler, ou de gente com pouca leitura, alvo fácil para os enganadores de extrema-direita.

Aliás, nada mais nazista do que se utilizar de fake news na disputa política. É puro Goebbels, o ministro da Propaganda de Hitler: “Uma mentira repetida mil vezes torna-se verdade”. Não foi exatamente isso que os bolsonaristas fizeram na eleição, com seus kits gays e mamadeiras de piroca? As críticas de Hitler à imprensa também parecem ter saído diretamente da pena dos bolsonaristas ou de seu ídolo Donald Trump.

Confira você mesmo alguns trechos em que Adolf Hitler ataca o marxismo em sua autobiografia.

A cor vermelha de nossos cartazes foi por nós escolhida, após reflexão exata e profunda, com o fito de excitar a Esquerda, de revoltá-la e induzi-la a frequentar nossas assembleias; isso tudo nem que fosse só para nos permitir entrar em contato e falar com essa gente.” (pág. 245)

“Como não tinham logrado perturbar a calma das companhias, mediante gritarias e aclamações ofensivas, os representantes do verdadeiro socialismo, da igualdade e da fraternidade, começavam a jogar pedras. Com isso foi esgotada a nossa paciência, e, em conseqüência, distribuímos pancadas à esquerda e à direita, durante dez minutos. Um quarto de hora mais tarde, não havia mais um vermelho nas ruas.” (pág. 279)

“Nos anos de 1913 e 1914 manifestei a opinião, em vários círculos, que, em parte, hoje estão filiados ao movimento nacional-socialista, de que o problema futuro da nação alemã devia ser o aniquilamento do marxismo.” (pág. 86)



“Nesse tempo, abriram-se-me os olhos para dois perigos que eu mal conhecia pelos nomes e que, de nenhum modo, se me apresentavam nitidamente na sua horrível significação para a existência do povo germânico: marxismo e judaísmo.” (pág. 14)

Só o conhecimento dos judeus ofereceu-me a chave para a compreensão dos propósitos íntimos e, por isso, reais da social-democracia. Quem conhece este povo vê cair-se-lhe dos olhos o véu que impedia descobrir as concepções falsas sobre a finalidade e o sentido deste partido e, do nevoeiro do palavreado de sua propaganda, de dentes arreganhados, vê aparecer a caricatura do marxismo.” (pág. 30)

“Se o judeu, com o auxilio do seu credo marxista, conquistar as nações do mundo, a sua coroa de vitórias será a coroa mortuária da raça humana e, então, o planeta vazio de homens, mais uma vez, como há milhões de anos, errará pelo éter.”  (pág. 38)
Nada mais nazista do que se utilizar de fake news na disputa política. É puro Goebbels, o ministro da Propaganda de Hitler: Uma mentira repetida mil vezes torna-se verdade. Não foi exatamente isso que os bolsonaristas fizeram na eleição, com seus kits gays e mamadeiras de piroca?
“No meu íntimo eu estava descontente com a política externa da Alemanha, o que revelava ao pequeno circulo que meus conhecidos, bem como com a maneira extremamente leviana, como me parecia, de tratar-se o problema mais importante que havia na Alemanha daquela época –o marxismo. Realmente, eu não podia compreender como se vacilava cegamente ante um perigo cujos efeitos –tendo-se em vista a intenção do marxismo– tinham de ser um dia terríveis.” (pág. 86)

“Em um tempo em que os melhores elementos da nação morriam no front, os que ficaram em casa, entregues aos seus trabalhos, deviam ter livrado a nação dessa piolharia comunista. Ao invés disso, sua Majestade o Kaiser estendia a mão a esses conhecidos criminosos, dando, assim, oportunidade a esses pérfidos assassinos da nação de voltarem a si e de recuperarem o tempo perdido. A víbora podia, pois, recomeçar o seu trabalho, com mais cautela do que antes, porém de maneira mais perigosa. Enquanto os honestos sonhavam com a paz, os criminosos traidores organizavam a revolução.” (pág. 93)

A cor vermelha de nossos cartazes foi por nós escolhida, após reflexão exata e profunda, com o fito de excitar a Esquerda, de revoltá-la e induzi-la a frequentar nossas assembleias; isso tudo nem que fosse só para nos permitir entrar em contato e falar com essa gente

“Vencendo a minha relutância, tentei ler essa espécie de imprensa marxista, mas a repulsa por ela crescia cada vez mais. Esforcei-me por conhecer mais de perto os autores dessa maroteira e verifiquei que, a começar pelos editores, todos eram judeus.” (pág. 36)

“Sob esse disfarce de idéias puramente sociais, escondem-se intenções francamente diabólicas. Elas são externadas ao público com uma clareza demasiado petulante. A tal doutrina representa uma mistura de razão e de loucura, mas de tal forma que só a loucura e nunca o lado razoável consegue se converter em realidade. Pelo desprezo categórico da personalidade, por conseguinte da nação e da raça, destrói ela as bases elementares de toda a civilização humana, que depende justamente desses fatores. Eis a verdadeira essência da teoria marxista, se é que se pode dar a esse aborto de um cérebro, criminoso a denominação de ‘doutrina’. Com a ruína da personalidade e da raça, desaparece o maior reduto de resistência contra o reino dos medíocres, de que o judeu é o mais típico representante.”(pág. 169)

“Mais do que qualquer outro grupo, os marxistas, ludibriadores da nação, deveriam odiar um movimento cujo escopo declarado era conquistar as massas que até então tinham estado a serviço dos partidos marxistas dos judeus internacionais. Só o titulo ‘Partido dos Trabalhadores Alemães’ já era capaz de irritá-los.” (pág. 186)

Cynara Menezes
No Socialista Morena