Mostrando postagens com marcador Psiquiatria. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Psiquiatria. Mostrar todas as postagens

domingo, 4 de fevereiro de 2024

Kurt Schneider e as personaldiades psicopáticas

 


Da Rede Brasil Atual:

O que os sintomas de psicopatia têm a ver com o comportamento de um certo ocupante da Presidência da República. Kurt Schneider (1887-1977), psiquiatra alemão, é autor do livro "Die Psychopathischen Persönlichkeiten", traduzido no Brasil para "Personalidades Psicopáticas"



terça-feira, 17 de março de 2020

Bolsonaro e os diganósticos da psiquiatria para sociopatia e psicopatia. Entrevista de Luis Nassif com o psiquiatra José Ferreira Belizário

O psiquiatra José Ferreira Belizário, descreve as diferenças genéricas entre sociopatia e psicopatia e as aittudes do presidente da República

Do Canal da TV GGN:





O psiquiatra José Ferreira Belizário, em entrevista a Luis Nassif, descreve as diferenças genéricas entre sociopatia e psicopatia e as atitudes do presidente da República

Você pode fazer o Jornal GGN ser cada vez melhor

Assine e faça parte desta caminhada para que ele se torne um veículo cada vez mais respeitado e forte.

terça-feira, 9 de janeiro de 2018

Psiquiatra apresentou a congressistas análise sobre saúde mental de Donald Trump


“Os congressistas disseram que ficaram muito preocupados com o perigo do presidente, o perigo que sua instabilidade mental representa à nação”, afirmou Lee à emissora americana de televisão CNN

Psiquiatra apresentou a congressistas análise sobre saúde mental de Trump

Conteúdo do Opera Mundi e Justificando . Foto: Drew Angerer/AFP
Um grupo de congressistas americanos, a maioria democratas, foi informado por uma professora de Psiquiatria da Universidade Yale sobre a saúde mental do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, segundo noticiou a imprensa americana nesta quinta-feira (05/01).
A análise sobre Trump foi apresentada no início de dezembro pela psiquiatra Bandy Lee, editora do livro The Dangerous Case of Donald Trump: 27 Psychiatrists and Mental Health Experts Assess a President (O caso perigoso de Donald Trump: 27 avaliações de psiquiátricas e especialistas em saúde mental sobre um presidente).
“Os congressistas disseram que ficaram muito preocupados com o perigo do presidente, o perigo que sua instabilidade mental representa à nação”, afirmou Lee à emissora americana de televisão CNN. Eles teriam pedido que ela fale com mais legisladores sobre a saúde mental de Trump, o que deve acontecer neste mês.
Entre os congressistas que participaram do encontro havia ao menos um republicano, segundo a psiquiatra, que se recusou a revelar quem seria essa pessoa.
O parecer dado por Lee contraria as regras da Associação Americana de Psiquiatria, que determinam que psiquiatras não emitam opiniões profissionais sobre a saúde mental de pessoas sem avaliá-las pessoalmente.
A psiquiatra disse que não pode diagnosticar o presidente de longe, mas que cabe aos profissionais da saúde intervir em instâncias em que haja perigo para um indivíduo ou para o público. Parecer sem avaliar paciente pessoalmente é contrário a regras da Associação Americana de Psiquiatria
Lee afirmou que os sinais que Trump demonstra alcançaram um nível perigoso. Como exemplo, ela citou as repetidas referências a teorias da conspiração, a negação de coisas que disse anteriormente e a agressividade do presidente.
“Ele parece estar se distanciando da realidade e recorrendo a teorias da conspiração”, disse a psiquiatra, citada pela CNN. “Há sinais de que ele entra em modo de ataque quando está sob estresse. Isso significa que ele tem potencial de se tornar impulsivo e muito volátil.”
À revista Politico, Lee disse que o presidente ficará ainda pior e incontrolável devido à pressão da presidência.
A porta-voz da Casa Branca, Sarah Sanders, afirmou que as declarações de Lee são lamentáveis e absurdas. “Se Trump não fosse capaz, ele provavelmente não estaria sentado onde está”, acrescentou.
Na Câmara dos Representantes, um grupo de 57 democratas está apoiando a criação de uma comissão para determinar se Trump possui saúde mental e física para o cargo. A Constituição dos EUA prevê duas maneiras de remover um presidente: por um processo de impeachment ou se ele for incapaz de realizar as funções da presidência.

terça-feira, 16 de fevereiro de 2016

Saúde Mental: quem trama a contra-reforma?


Presos no Hospital Psiquiátrico Valter Alencar, resquício da velha política. Novo coordenador do ministério da Saúde expressa interesses de quem dela se beneficiou
Um líder do movimento antimanicomial brasileiro sustenta: hospitais psiquiátricos privados, que viveram décadas às custas do SUS, querem ressuscitar políticas retrógradas. Nomeação de representante do setor para ministério da Saúde choca
Por Paulo Amarante, entrevistado pelo IHU - Publicado no Outras Midias
As políticas de saúde mental no Brasil têm uma trajetória de lutas que vem da mesma atmosfera dos movimentos contra a ditadura e pela redemocratização do país. Trata-se de uma história impregnada pela participação das bases, dos movimentos sociais, também ligada às reivindicações por um serviço de saúde universal, que atendesse a todos os brasileiros.
Em entrevista por telefone à IHU On-Line, o pesquisador da Fundação Oswaldo Cruz e vice-presidente da Associação Brasileira de Saúde Coletiva, Paulo Amarante, ressalta que o campo da saúde mental teve um papel importante nas lutas pela universalização da saúde no país porque incluiu a ideia da participação social no processo de construção das políticas.
Segundo o pesquisador, que é um histórico militante da Reforma Psiquiátrica e Sanitária brasileira, a partir desses movimentos foi estruturado no país um conceito diferente no tratamento da saúde mental, voltado para os direitos e a cidadania dos pacientes, e foi mais além: “trouxe algo bastante inovador que é atentar para a autonomia desses sujeitos. Pessoas até então consideradas loucas, incapazes de gerir a própria vida passam, no sistema de saúde mental, a ser protagonistas das políticas e a ter um papel de construção e de participação que não há em nenhum outro país do mundo”.
Entretanto, essa concepção sobre a saúde mental não é unânime, contrastando com alguns setores que ainda apostam em métodos de tratamento tradicionais, baseados na medicalização e isolamento dos pacientes, e muitas vezes entram em conflito com os adeptos de abordagens mais modernas. De acordo com o pesquisador, “o grande interesse na resistência desses grupos que defendem a permanência do modelo antigo de tratamento psiquiátrico é econômico e financeiro. São donos de hospitais psiquiátricos que têm há dezenas de anos essas instituições como fonte de renda, pois são serviços com baixo poder de regulamentação do público”.
Recentemente, os conflitos entre essas duas perspectivas da saúde mental se evidenciaram ainda mais com a nomeação de Valencius Wurch Duarte Filho, para a Coordenação Geral de Saúde Mental, Álcool e Outras Drogas do Ministério da Saúde. Na década de 1990 o psiquiatra foi coordenador da Casa de Saúde Doutor Eiras, considerado o maior manicômio privado da América Latina, fechado em 2012 por graves violações aos Direitos Humanos. Para Paulo Amarante a decisão do Ministério da Saúde não foi causal, pois de acordo com o pesquisador, Duarte Filho é um defensor do modelo manicomial e “alguém que conheceu a Reforma Psiquiátrica e foi um militante ativo contra esse movimento”.
Esse cenário é de apreensão para os que lutam em prol de políticas de saúde mental mais inclusivas e cidadãs. Os protestos se espalham pelo país na tentativa de evitar retrocessos.
Paulo Amarante, médico de formação e doutor em Saúde Pública pela Fundação Oswaldo Cruz, coordena do Grupo de Trabalho  de Saúde Mental e é Vice-Presidente da Associação Brasileira de Saúde Coletiva – Abrasco, e presidente de honra da Associação Brasileira de Saúde Mental – Abrasme.  Confira sua entrevista.
saude
Como está organizada a Política de Saúde Mental no Brasil? De que forma o sr. a avalia? Ela tem sido implementada? De que modo?
Paulo Amarante – No Brasil, nós temos um processo que denominamos de Reforma Psiquiátrica que vem desde os anos 1970. É mais ou menos simultâneo ao processo de redemocratização do país, quando começamos a lutar pelo fim da ditadura e as demandas políticas. Muito particularmente na saúde, nós tivemos uma grande movimentação pela democratização dos serviços dessa área, pelas políticas públicas, pela ideia de criar políticas mais voltadas para os segmentos mais desfavorecidos da sociedade etc. Almejávamos uma política que fosse realmente nacional e não uma política de assistência à doença que fosse voltada para as camadas da população com mais posses. Então esse movimento ficou conhecido como reforma sanitária e compreendeu a criação de uma política nacional pública e gratuita, como dever do Estado e direito do cidadão, proposta que acabou sendo inscrita na Constituição.
Desse modo, a proposta do Sistema Único de Saúde – SUS nasceu dos movimentos sociais, não foi uma ementa parlamentar, foi realmente popular e acho que é a única nesse perfil presente na Constituição de 1988. Na Carta Magna consta então essa ideia de que a saúde é um direito do cidadão e um dever do Estado e ainda a universalidade da atenção à saúde, que até aquele momento era restrita principalmente a previdenciários. O campo da saúde mental teve um papel muito importante nisso porque falava da noção da participação social nas políticas. Ficou denominada como Participação e Controle Social a ideia de criar conferências nacionais de saúde, conselhos nos níveis municipal, estadual e nacional para a sociedade ter canais de participação efetivos na política. Recentemente, em dezembro de 2015, tivemos a realização da 15ª edição da Conferência Nacional de Saúde.
Assim, esses processos se iniciaram aproximadamente entre 1976 e 1978 e se estendem até hoje. A saúde mental teve essa contribuição importante pelo fato de que, além dessa discussão do direito e da cidadania do usuário de serviço mental, ela trouxe algo bastante inovador que é atentar para a autonomia desses sujeitos. Pessoas até então consideradas loucas, incapazes de gerir a própria vida passam, no sistema de saúde mental, a ser protagonistas das políticas e a ter um papel de construção e de participação que não há em nenhum outro país do mundo. Esse é o princípio geral dessa proposta, que não é só um plano de organização de serviços para otimização e eficiência, estamos falando de uma questão política de participação, de integração social e de cidadania. Ademais, nós partimos para uma ideia de serviço de saúde articulado com outras políticas públicas nos campos de serviços sociais, da cultura, do esporte, do trabalho e da residência, sendo a área de saúde mental mais uma vez exemplar nisso.
A política de saúde mental conseguiu desenvolver grupos culturais, como há em Porto Alegre um grupo envolvido com teatro ligado ao Hospital Psiquiátrico São Pedro e uma banda de Hip Hop ligada a um Centro de Atenção Psicossocial – CAPS, chamada Black Confusion; e uma série de iniciativas que foram surgindo e que tiveram autonomia. Não se trata só de um grupo de artistas com transtornos mentais, é um grupo de teatro, por exemplo, que também tem pessoas com transtornos mentais, ou diagnósticos psiquiátricos, e se apresenta em diversos espaços.
Foi um avanço muito grande. Temos políticas, cooperativas de trabalho, residências onde vivem ex-moradores de hospitais psiquiátricos que agora estão morando nas cidades, produzindo e fazendo uma série de coisas. Além disso, nós conseguimos fechar no país mais de 60 mil leitos psiquiátricos, abrimos mais de dois mil CAPS, mais de mil projetos culturais, como de teatro, musicais, corais, e artistas individualmente também têm se sobressaído. Existem ainda dezenas de blocos de carnaval, no Rio de Janeiro há grupos que receberam prêmios, que já estão na agenda cultural da cidade. No ano passado saiu uma notícia no jornal New York Times sobre o bloco “Tá Pirando, Pirado, Pirou”, e o “Loucura Suburbana” ganhou o prêmio de segundo melhor bloco de carnaval do Rio de Janeiro, só perdeu para o “Cordão do Bola Preta”, um grupo muito tradicional carioca.
Essa é a grande inovação, uma política pública de saúde mental que muda o modelo assistencial, mas que também muda o lugar desses sujeitos, considerados antes só pacientes e depois protagonistas, agentes das próprias histórias. No momento, corremos o risco de sofrer um retrocesso em todo esse avanço no Brasil.
Como está o acesso ao tratamento psiquiátrico pelo Sistema Único de Saúde – SUS?
Estamos vivendo um período longo de mudança, pois antes assistência psiquiátrica indicava a internação. Muitos familiares, médicos e segmentos da sociedade ainda acham que se não há internação, não há tratamento, o que é um equívoco. Nós mostramos que os hospitais internavam milhares de pessoas, mas não faziam tratamento, faziam isolamento. Então ainda estamos em um processo de transformação. Os Centros de Atenção Psicossocial – CAPS, os Centros de Convivência e Cultura, as residências assistidas, e a criação de vários outros projetos poli culturais, assistenciais e de trabalho, isso tudo é consistência, é cuidado na forma de lidar com as pessoas com transtorno mental. No meu entendimento, ainda é muito pouco, nós deveríamos ter muito mais CAPS, Centros de Convivência, recursos para incentivar projetos culturais e desportivos, criar eventos e residências para pessoas que não têm família ou que os parentes não as aceitam. Porém, ainda se gasta milhares de reais em internação.
Por outro lado começa haver uma inversão, onde o sistema público financia mais serviços e dispositivos sociais, territoriais e comunitários do que hospitais. Isso já é uma mudança, mas ainda acho que a política deveria investir mais em serviços alternativos ao modelo psiquiátrico tradicional. O SUS está no caminho certo, mas está muito lento, vagaroso. Os investimentos precisam ser mais efetivos no sentido de superar todo o modelo manicomial tradicional, pois ainda temos mais de 20 mil leitos no país; e direcionar as verbas a equipamentos territoriais e comunitários, que fomentam a inclusão social, a reabilitação, inclusão social e são bem sucedidos em seus propósitos, mesmo com todas as limitações existentes. Esse tipo de trabalho é incomparavelmente superior ao modelo psiquiátrico hospitalar anterior.
Interesses financeiros atravessam os processos decisórios quanto às políticas de saúde mental no Brasil? De que maneira? Como é essa situação em outros países?
Esses leitos psiquiátricos são em grande parte privados. São geridos por empresas e sua quase totalidade é financiada pelo SUS. Nos anos 1980 essas organizações privadas tiveram um grande boom, como o caso da Casa de Saúde Doutor Eiras, que foi dirigida pelo atual nomeado coordenador Geral de Saúde Mental, contra o qual está havendo uma série de protestos. A Doutor Eiras teve mais de dois mil leitos psiquiátricos privados pagos pelo SUS, então era uma mina de ouro. Assim, acabar com esse modelo é claro que interfere em um negócio importante de prestação de serviços médicos e no mercado de trabalho, porque essas empresas contratam profissionais, e uma grande preocupação nossa é deixar claro que as pessoas não precisam ser demitidas, elas podem ser incorporadas em outros recursos e serviços.
O grande interesse na resistência desses grupos que defendem a permanência do modelo antigo de tratamento psiquiátrico é econômico e financeiro. São donos de hospitais psiquiátricos que têm há dezenas de anos essas instituições como fonte de renda, pois são serviços com baixo poder de regulamentação do público, porque é muito difícil alguém entrar em um local desses, e para isso, como foi o caso da Doutor Eiras em Paracambi, é necessário às vezes acionar o Ministério Público, porque o próprio SUS não consegue fiscalizar o trabalho prestado, ou mobilizar a Vigilância Sanitária. Especificamente a qualidade da atenção em saúde mental é muito difícil de acompanhar nessas organizações, então é um serviço que tem uma tranquilidade de funcionamento, tem pouca interferência.
O que representam para o campo de estudos em saúde mental as experiências brasileiras de tratamento psiquiátrico comunitário a partir da abordagem interdisciplinar, em relação aos métodos tradicionais, mais centrados na medicalização e internação em hospitais?
Representam a possibilidade de formar profissionais novos. Um dos grandes problemas no Brasil é que a formação profissional, principalmente da psiquiatria, é controlada pela Associação Brasileira de Psiquiatria que tem uma posição conservadora, muito ligada a interesses privados, afinal de contas os proprietários dos hospitais são os dirigentes de determinadas entidades. Desse modo, as residências médicas não abrem para esta nova formação, querem continuar formando em hospitais, na prática institucionalizante e medicalizante. Quando os estudantes, por algum motivo, um furo, uma brecha nesse espaço de formação, conhecem os CAPS e essas experiências culturais e projetos novos eles ficam fascinados, apaixonados porque vislumbram uma prática médica e psiquiátrica, de saúde mental, diferente. São campos de formação muito relevantes, é importante que a gente consiga abrir espaços de formação para as faculdades não mais nesses manicômios, mas sim nos CAPS, nas práticas territoriais, na saúde da família e em outras experiências.
Sobre a importância da experiência brasileira, eu participei agora em dezembro de 2015 em Trieste, na Itália, do Encontro Internacional “Uma sociedade sem isolamento”, promovido pela Organização Mundial da Saúde – OMS, pude ver que o trabalho desenvolvido no Brasil é considerado um dos mais importantes hoje no mundo, por ter uma abordagem inovadora e avançada. Essa é a opinião externada pelo dirigente da OMS, mas também compartilhada pela Organização Pan-Americana de Saúde, por professores, intelectuais, autores de várias universidades inglesas, norte-americanas, francesas, e pesquisadores do Japão, Nova Zelândia e Canadá, país do qual recebemos uma docente titular da Universidade de Quebec como professora visitante na Fundação Oswaldo Cruz. Então, as pessoas também estão vindo conhecer a nossa experiência e fazer pesquisas.
Também estive na Espanha para lançar um livro em um importante seminário sobre práticas inovadoras em psiquiatria. Na ocasião, entre os títulos lançados, a única obra não espanhola lançada no evento foi o nosso livro sobre a experiência brasileira. Isso é sinal de que temos uma escuta, um interesse internacional e de que a experiência do Brasil está entre os trabalhos de referência.
De que modo o campo da Reforma Psiquiátrica no Brasil tem tratado a questão dos Direitos Humanos e da cidadania das pessoas com transtornos mentais? Tendo em vista que o país já foi criticado na Corte Interamericana de Direitos Humanos por violações em hospitais psiquiátricos que resultaram em morte de pacientes.
Direitos Humanos e cidadania são os temas centrais. Desde o início da Reforma Psiquiátrica, da luta contra a ditadura etc., que percebíamos como os hospitais psiquiátricos eram locais de segregação, não só de pessoas com diagnóstico psiquiátrico, mas de vários segmentos sociais que eram marginalizados e para os quais o Estado não tinha políticas públicas sociais. Então esses depositários de pessoas, também eram locais psiquiátricos. Espaços onde eram comuns a violência exercida por funcionários; a invisibilidade dos sujeitos internados em instituições deste tipo, os quais acabavam perdendo seus direitos; as mortes, sempre atribuídas a conflitos entre os internos, nunca a agressões cometidas pelos empregados dessas organizações. Sobre a violência, houve um caso clássico de um paciente no nordeste em que foi considerado que ele próprio teria batido em si mesmo até morrer. Foi dito que ele teria se espancado com um pedaço de pau. Isso é considerado tecnicamente impossível, qualquer legista sabe disso.
Um caráter também inovador da Reforma Psiquiátrica brasileira em relação aos Direitos Humanos é que, além da luta contra a violência exercida às pessoas com transtorno mental, também houve uma preocupação com o reconhecimento da diversidade desses sujeitos. Significa perceber nas pessoas com transtorno mental uma capacidade discursiva, narrativa, de produção de arte, de identidade que é potente. Ao construir uma forma de identificação com o coletivo, se oferece uma nova condição de possibilidade de saúde mental que é a da pessoa não sentir-se constrangida por ser quem é, por ter um sofrimento mental, sua diversidade mental, mas ver nisso também uma das suas formas de identidade.
Por outro lado, não é romantizar a condição do sofrimento, mas é reconhecer que as pessoas têm determinadas circunstancias, condições, características e que isso não precisa ser endeusado, glorificado, mas também não demonizado ou escondido. Isso dá uma característica de identidade e de suporte às condições mentais psicológicas subjetivas. Essa é uma articulação importante dos Direitos Humanos nesse caráter de um suporte subjetivo, afetivo, emocional às pessoas pela sua condição de diversidade, com a denúncia e a luta contra a violência que se exerce contra essas pessoas.
De que forma a nomeação de Valencius Wurch Duarte Filho, para a Coordenação Geral de Saúde Mental, Álcool e Outras Drogas do Ministério da Saúde, contrasta com a trajetória dos movimentos pela Reforma Psiquiátrica e a luta antimanicomial no Brasil? Como os movimentos sociais ligados a estas lutas estão recebendo essa decisão?
Recebemos com total perplexidade e inaceitação porque se trata de uma pessoa que foi dirigente do Manicômio Doutor Eiras, de Paracambi, considerado o maior hospital psiquiátrico privado da América Latina, mas eu penso que se é o maior da América Latina é o maior do mundo, pois eu nunca vi um hospital privado desse tipo com mais de dois mil leitos em lugar nenhum do mundo, nunca tive notícia de uma coisa assim.
“Colocar uma pessoa para dirigir uma política nacional que seja contra essa política é no mínimo um contrassenso e no máximo uma tentativa de desarticulá-la”
Eu conheci esse hospital e ele teve 2500 leitos pagos pelo SUS. O que é mais impressionante é que nenhum país do mundo tem essa política de privatização pelo Estado, pois é possível privatizar e passar ao setor privado determinado setor da economia, mas o que acontece no Brasil é que o país continua pagando a conta. Não são as pessoas em particular ou os planos de saúde contratados que custeiam esse serviço, mas sim o Sistema único de Saúde. Então aqui a lógica é diferente, os empresários da área da saúde querem que se privatize, mas querem que o SUS continue pagando, porque assim eles garantem o sustento do serviço e não dependem do mercado.
O Hospital Doutor Eiras teve uma intervenção federal, do Ministério Público estadual e foi fechado por graves violações dos Direitos Humanos. O então diretor clínico era o médico Valencius Wurch Duarte Filho, que resistiu a essa intervenção, fez várias tentativas de manter esse hospital em funcionamento atuando em relação à equipe que trabalhou no processo de fechamento da instituição e foi um defensor até o último momento do manicômio e desse modelo de tratamento psiquiátrico.
Ele se utilizou de todas as estratégias para que esse hospital permanecesse funcionando porque defendia fundamentalmente que os internados eram pessoas que não tinham condições de vida fora do manicômio, organizou os familiares desses pacientes para que eles não aceitassem as altas, afirmando que era um interesse que o Estado tinha em devolvê-los às famílias, o que é uma visão deturpada dos fatos, pois as famílias que tiveram condições de receber seus parentes foram amparadas por um programa chamado “De Volta pra Casa”, para os que não puderam voltar foram constituídas residências coletivas financiadas pelo SUS.
Dessa maneira, esse médico é um defensor do modelo manicomial, não é um médico qualquer que talvez tivesse uma prática mais manicomial, mas é alguém que conheceu a Reforma Psiquiátrica e foi um militante ativo contra esse movimento. Então, é muito curioso, por exemplo, que fosse indicado ministro da saúde alguém que é contra o SUS, que é a política pública oficial. A Reforma Psiquiátrica também é uma política pública oficial, foi aprovada pela Lei 10.216/2001, que passou pela Câmara, Senado e foi sancionada pelo presidente da República. Colocar uma pessoa para dirigir uma política nacional que seja contra essa política é no mínimo um contrassenso e no máximo uma tentativa de desarticulá-la. No nosso entendimento, não é uma ingenuidade do ministro, ou apenas um descuido, é uma tentativa de desarticular uma política que é bem sucedida e que interfere nos interesses arcaicos conservadores da psiquiatria e nos interesses econômicos da área.
Diante das mobilizações intensas dos movimentos sociais e entidades ligadas à promoção da saúde mental contra a nomeação de Valencius Wurch Duarte Filho, a que o sr. atribui essa escolha do Ministro da Saúde, Marcelo Castro?
Atribuo a uma tomada de consciência do risco que essa política de Reforma Psiquiátrica representa para determinados segmentos que pensam a saúde como mercado, como privatização e que querem dar um freio nesse movimento. Não me parece uma escolha ingênua ou desavisada, e sim uma decisão consciente, pois se trata de um opositor explícito e declarado da Reforma Psiquiátrica.

Redação

O Outras Mídias é uma seleção de textos publicados nas mídias livres, que Outras Palavras republica. Suas sugestões podem ser enviada paracaue@outraspalavras.net

terça-feira, 9 de fevereiro de 2016

“Transformamos problemas cotidianos em transtornos mentais”, afirma catedrático de psiquiatria da Universidade de Duke em entrevista para o El Pais



Catedrático emérito da Universidade Duke comandou a redação da ‘bíblia’ dos psiquiatras



llen Frances (Nova York, 1942) dirigiu durante anos o Manual Diagnóstico e Estatístico (DSM), documento que define e descreve as diferentes doenças mentais. Esse manual, considerado a bíblia dos psiquiatras, é revisado periodicamente para ser adaptado aos avanços do conhecimento científico. Frances dirigiu a equipe que redigiu o DSM IV, ao qual se seguiu uma quinta revisão que ampliou enormemente o número de transtornos patológicos. Em seu livro Saving Normal (inédito no Brasil), ele faz uma autocrítica e questiona o fato de a principal referência acadêmica da psiquiatria contribuir para a crescente medicalização da vida.
Pergunta. No livro, o senhor faz um mea culpa, mas é ainda mais duro com o trabalho de seus colegas do DSM V. Por quê?
Resposta. Fomos muito conservadores e só introduzimos [no DSM IV] dois dos 94 novos transtornos mentais sugeridos. Ao acabar, nos felicitamos, convencidos de que tínhamos feito um bom trabalho. Mas o DSM IV acabou sendo um dique frágil demais para frear o impulso agressivo e diabolicamente ardiloso das empresas farmacêuticas no sentido de introduzir novas entidades patológicas. Não soubemos nos antecipar ao poder dos laboratórios de fazer médicos, pais e pacientes acreditarem que o transtorno psiquiátrico é algo muito comum e de fácil solução. O resultado foi uma inflação diagnóstica que causa muito dano, especialmente na psiquiatria infantil. Agora, a ampliação de síndromes e patologias no DSM V vai transformar a atual inflação diagnóstica em hiperinflação.
P. Seremos todos considerados doentes mentais?
R. Algo assim. Há seis anos, encontrei amigos e colegas que tinham participado da última revisão e os vi tão entusiasmados que não pude senão recorrer à ironia: vocês ampliaram tanto a lista de patologias, eu disse a eles, que eu mesmo me reconheço em muitos desses transtornos. Com frequência me esqueço das coisas, de modo que certamente tenho uma demência em estágio preliminar; de vez em quando como muito, então provavelmente tenho a síndrome do comedor compulsivo; e, como quando minha mulher morreu a tristeza durou mais de uma semana e ainda me dói, devo ter caído em uma depressão. É absurdo. Criamos um sistema de diagnóstico que transforma problemas cotidianos e normais da vida em transtornos mentais.
P. Com a colaboração da indústria farmacêutica...

Não soubemos nos antecipar ao poder dos laboratórios de criar novas doenças
R. É óbvio. Graças àqueles que lhes permitiram fazer publicidade de seus produtos, os laboratórios estão enganando o público, fazendo acreditar que os problemas se resolvem com comprimidos. Mas não é assim. Os fármacos são necessários e muito úteis em transtornos mentais severos e persistentes, que provocam uma grande incapacidade. Mas não ajudam nos problemas cotidianos, pelo contrário: o excesso de medicação causa mais danos que benefícios. Não existe tratamento mágico contra o mal-estar.
P. O que propõe para frear essa tendência?
R. Controlar melhor a indústria e educar de novo os médicos e a sociedade, que aceita de forma muito acrítica as facilidades oferecidas para se medicar, o que está provocando além do mais a aparição de um perigosíssimo mercado clandestino de fármacos psiquiátricos. Em meu país, 30% dos estudantes universitários e 10% dos do ensino médio compram fármacos no mercado ilegal. Há um tipo de narcótico que cria muita dependência e pode dar lugar a casos de overdose e morte. Atualmente, já há mais mortes por abuso de medicamentos do que por consumo de drogas.
P. Em 2009, um estudo realizado na Holanda concluiu que 34% das crianças entre 5 e 15 anos eram tratadas por hiperatividade e déficit de atenção. É crível que uma em cada três crianças seja hiperativa?
R. Claro que não. A incidência real está em torno de 2% a 3% da população infantil e, entretanto, 11% das crianças nos EUA estão diagnosticadas como tal e, no caso dos adolescentes homens, 20%, sendo que metade é tratada com fármacos. Outro dado surpreendente: entre as crianças em tratamento, mais de 10.000 têm menos de três anos! Isso é algo selvagem, desumano. Os melhores especialistas, aqueles que honestamente ajudaram a definir a patologia, estão horrorizados. Perdeu-se o controle.
P. E há tanta síndrome de Asperger como indicam as estatísticas sobre tratamentos psiquiátricos?
R. Esse foi um dos dois novos transtornos que incorporamos no DSM IV, e em pouco tempo o diagnóstico de autismo se triplicou. O mesmo ocorreu com a hiperatividade. Calculamos que, com os novos critérios, os diagnósticos aumentariam em 15%, mas houve uma mudança brusca a partir de 1997, quando os laboratórios lançaram no mercado fármacos novos e muito caros, e além disso puderam fazer publicidade. O diagnóstico se multiplicou por 40.
P. A influência dos laboratórios é evidente, mas um psiquiatra dificilmente prescreverá psicoestimulantes a uma criança sem pais angustiados que corram para o seu consultório, porque a professora disse que a criança não progride adequadamente, e eles temem que ela perca oportunidades de competir na vida. Até que ponto esses fatores culturais influenciam?

Os seres humanos sobrevivem há milhões de anos graças à capacidade de confrontar a adversidade
R. Sobre isto tenho três coisas a dizer. Primeiro, não há evidência em longo prazo de que a medicação contribua para melhorar os resultados escolares. Em curto prazo, pode acalmar a criança, inclusive ajudá-la a se concentrar melhor em suas tarefas. Mas em longo prazo esses benefícios não foram demonstrados. Segundo: estamos fazendo um experimento em grande escala com essas crianças, porque não sabemos que efeitos adversos esses fármacos podem ter com o passar do tempo. Assim como não nos ocorre receitar testosterona a uma criança para que renda mais no futebol, tampouco faz sentido tentar melhorar o rendimento escolar com fármacos. Terceiro: temos de aceitar que há diferenças entre as crianças e que nem todas cabem em um molde de normalidade que tornamos cada vez mais estreito. É muito importante que os pais protejam seus filhos, mas do excesso de medicação.
P. Na medicalização da vida, não influi também a cultura hedonista que busca o bem-estar a qualquer preço?
R. Os seres humanos são criaturas muito maleáveis. Sobrevivemos há milhões de anos graças a essa capacidade de confrontar a adversidade e nos sobrepor a ela. Agora mesmo, no Iraque ou na Síria, a vida pode ser um inferno. E entretanto as pessoas lutam para sobreviver. Se vivermos imersos em uma cultura que lança mão dos comprimidos diante de qualquer problema, vai se reduzir a nossa capacidade de confrontar o estresse e também a segurança em nós mesmos. Se esse comportamento se generalizar, a sociedade inteira se debilitará frente à adversidade. Além disso, quando tratamos um processo banal como se fosse uma enfermidade, diminuímos a dignidade de quem verdadeiramente a sofre.
P. E ser rotulado como alguém que sofre um transtorno mental não tem consequências também?
R. Muitas, e de fato a cada semana recebo emails de pais cujos filhos foram diagnosticados com um transtorno mental e estão desesperados por causa do preconceito que esse rótulo acarreta. É muito fácil fazer um diagnóstico errôneo, mas muito difícil reverter os danos que isso causa. Tanto no social como pelos efeitos adversos que o tratamento pode ter. Felizmente, está crescendo uma corrente crítica em relação a essas práticas. O próximo passo é conscientizar as pessoas de que remédio demais faz mal para a saúde.
P. Não vai ser fácil…
R. Certo, mas a mudança cultural é possível. Temos um exemplo magnífico: há 25 anos, nos EUA, 65% da população fumava. Agora, são menos de 20%. É um dos maiores avanços em saúde da história recente, e foi conseguido por uma mudança cultural. As fábricas de cigarro gastavam enormes somas de dinheiro para desinformar. O mesmo que ocorre agora com certos medicamentos psiquiátricos. Custou muito deslanchar as evidências científicas sobre o tabaco, mas, quando se conseguiu, a mudança foi muito rápida.
P. Nos últimos anos as autoridades sanitárias tomaram medidas para reduzir a pressão dos laboratórios sobre os médicos. Mas agora se deram conta de que podem influenciar o médico gerando demandas nos pacientes.
R. Há estudos que demonstram que, quando um paciente pede um medicamento, há 20 vezes mais possibilidades de ele ser prescrito do que se a decisão coubesse apenas ao médico. Na Austrália, alguns laboratórios exigiam pessoas de muito boa aparência para o cargo de visitador médico, porque haviam comprovado que gente bonita entrava com mais facilidade nos consultórios. A esse ponto chegamos. Agora temos de trabalhar para obter uma mudança de atitude nas pessoas.
P. Em que sentido?
R. Que em vez de ir ao médico em busca da pílula mágica para algo tenhamos uma atitude mais precavida. Que o normal seja que o paciente interrogue o médico cada vez que este receita algo. Perguntar por que prescreve, que benefícios traz, que efeitos adversos causará, se há outras alternativas. Se o paciente mostrar uma atitude resistente, é mais provável que os fármacos receitados a ele sejam justificados.
P. E também será preciso mudar hábitos.
R. Sim, e deixe-me lhe dizer um problema que observei. É preciso mudar os hábitos de sono! Vocês sofrem com uma grave falta de sono, e isso provoca ansiedade e irritabilidade. Jantar às 22h e ir dormir à meia-noite ou à 1h fazia sentido quando vocês faziam a sesta. O cérebro elimina toxinas à noite. Quem dorme pouco tem problemas, tanto físicos como psíquicos.
Fonte: El Pais