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sábado, 26 de janeiro de 2019

"Há relação entre o acidente em Brumadinho e o surto econômico da mineração", diz biólogo sobre o segundo grave acidente de responsabilidade da Vele vendida aos gringos por FHC



Dirigente do MAM (Movimento da Soberania Popular na Mineração) afirma ao GGN que a liberação acelerada de licenças para a ampliação das atividades (e lucro) das mineradoras - movimento puxado pela alta no preço dos minérios  - tem conexão com o rompimento da barragem em Brumadinho. A mineradora Vale obteve autorização para crescer sua operação na Mina do Feijão em dezembro de 2018

Reportagem de Cíntia Alves:
Jornal GGN - O rompimento de uma barragem de responsabilidade da mineradora Vale, em Brumadinho (MG), tem relação com o processo "acelerado" de obtenção de licenças para a ampliação das atividades do setor - um movimento puxado pela alta no preço dos minérios em 2018. É o que afirma ao GGN o biólogo e dirigente estadual do MAM (Movimento da Soberania Popular na Mineração), Luiz Paulo de Siqueira, em entrevista nesta sexta (25).

Segundo o especialista, na ânsia de "aumentar o lucro" aproveitando o "surto econômico da mineração", várias empresas do ramo - entre elas, a Vale - passaram a pressionar o governo estadual, no apagar das luzes da gestão Pimentel, para obter rapidamente as autorizações necessárias para crescer as operações.
"Em um mês de ampliação do projeto da Vale, houve esse acidente com a barragem", pontuou.

Ainda sem estimativa do número de vítimas fatais, o desastre  em Brumadinho reflete, na opinião de Siqueira, como as licenças são concedidas em processos que tramitam "sem critérios" e à revelia da opinião de moradores das comunidades afetadas e de movimentos que lutam pela preservação do meio ambiente.
De acordo com Siqueira, a região da Córrego do Feijão é uma unidade de conservação ambiental importante para o manancial da região metropolitana de Belo Horizonte, e este é um dos motivos que levaram as comunidades em Brumadinho e o MAM - entre outros organismos - a acompanhar de perto os processos de licenciamento.

Em 11 de dezembro de 2018, o Conselho Estadual de Política Ambiental (Copam), órgão ligado ao governo mineiro, aprovou a ampliação de duas minas em Brumadinho e Sarzedo, a despeito da resistência dos impactados.
Em Sarzedo, a empresa Minerações Brasileiras Reunidas S.A. ampliou as atividades da Mina da Jangada e deve construir também uma estrada dentro da unidade de conservação Parque Estadual da Serra do Rola Moça.
Já em Brumadinho, a Vale conseguiu ampliar as operações da Mina do Córrego do Feijão, "também uma lavra a céu aberto de minério de ferro. Foram autorizadas, em uma mesma reunião, as Licenças Prévia, de Instalação e de Operação", reportou o Brasil de Fato, naquele mês.

Segundo a ambientalista Maria Teresa Viana, integrante do Copam, os projetos foram aprovados a toque de caixa. "Não importa o que a gente traga de elementos e provas de que os processos não estão devidamente instruídos, que há informações inverídicas. Eles votam e aprovam”, relatou à época ao Brasil de Fato. Segundo ela, produção, só nestes dois casos, foi "ampliada em 88%, e as mineradoras tem aval até 2032."

Para Siqueira, a relação é clara: "Sobe o preço do minério, a empresa quer licença para ampliar a operação na mineradora e lucrar mais, e o processo de liberação da licença fica prejudicado."

Segundo o biólogo, do governo federal a Vale já obtém, "de longa data", os "direitos minerais" necessários para se manter em funcionamento. Já "a gestão Pimentel, no esforço de sair da crise econômica, liberou a licença para ampliação [na Mina do Feijão] no ano passado."

"Esses acidentes da mineração são criminosos e evidenciam a negligência das empresas, que deveriam adotar medidas de prevenção de acidentes, mas preferem seguir com as atividades das minas, visando manter e ampliar os lucros", comentou.

De acordo com reportagem do Brasil de Fato, obter as licenças necessárias à ampliação das atividades de mineração ficou mais fácil a partir da aprovação da Lei 21.972 de 2016. "A mudança diminuiu a participação da comunidade e do Ministério Público, e colocou um prazo de seis meses para a finalização do processo", frisou o veículo.
Leia a reportagem completa aqui.

VÍTIMAS

Vítimas da barragem Mina do Feijão estão sendo encaminhadas para o Hospital João XXIII, em Belo Horizonte. 
Por volta das 16h, o hospital informou a entrada de seis pessoas. O estabelecimento não informa o estado de saúde dos pacientes.
Às 17h30, o Corpo de Bombeiros estimou que o número de desaparecidos após o desastre ambiental gira em torno de 200.

terça-feira, 19 de julho de 2016

Privatização: a lógica da Casa Grande

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Sem debate, governo ameça entrega do patrimônio da União. Perdas serão permanentes e arrecadação, pífia — equivalente a apenas um trimestre de déficit público
Por Laura Carvalho, no Outras Palavras
O ministro interino da Fazenda, Henrique Meirelles, em declaração ao jornal O Estado de S. Paulo do dia 9/7/2016, afirmou que, para equilibrar as contas públicas, “o plano A é o controle de despesas, o B é privatização, e o C, aumento de imposto”.
Algum demagogo de plantão, habituado a seduzir eleitores incautos pela explicação do Orçamento da União a partir da dinâmica do orçamento doméstico, poderia aproveitar-se facilmente do roteiro proposto pelo ministro para desfazer qualquer esperança da população quanto a dias melhores na economia.
Afinal, poucos estariam felizes em fazer parte de uma família para a qual, diante da crise, a primeira opção fosse cortar a escola das crianças, diminuir as idas ao pediatra ou eliminar os remédios dos avós. Menos ainda se o plano B fosse vender a geladeira, o sofá e o piano. E tudo isso para não ter de pedir ao primogênito que abra mão do carro novo e contribua um pouco mais com as despesas da casa.
O cálculo do governo interino é que o deficit de R$ 170 bilhões de 2016 crescerá em 2017 para R$ 194,4 bilhões. Só uma expectativa de receitas adicionais por meio de eventuais privatizações e concessões de R$ 55,4 bilhões permitiu que o governo fixasse a meta fiscal nos R$ 139 bilhões anunciados.
Receitas da mesma ordem poderiam ser obtidas, por exemplo, com a retomada da tributação sobre os lucros distribuídos a pessoas físicas (dividendos), que desde 1995 são isentos de Imposto de Renda da Pessoa Física, ao contrário do que ocorre na grande maioria dos países.
Além de deixar claro que o governo interino não tem o conjunto da sociedade como alvo de suas prioridades, a estratégia proposta não oferece nenhuma perspectiva de reequilíbrio das contas públicas no médio ou no longo prazo.
As receitas geradas hoje com a venda de ativos públicos por meio de privatizações não virão novamente, além de implicarem redução de receitas futuras do governo com esses ativos (por exemplo, dividendos das empresas estatais). As concessões têm efeito similar, pois também retiram do Estado um potencial retorno com a exploração de ativos públicos. No caso brasileiro, ainda há o agravante de que muitas empresas concessionárias nem sequer pagam o que devem, como apontou Elio Gaspari.
A geração de receitas extraordinárias por meio de concessões e privatizações —os chamados desinvestimentos— é considerada, aliás, uma manobra de ilusionismo fiscal no Staff Note do FMI de 2012 intitulado “Accouting Devices and Fiscal Illusions”, conforme detalhei em 15/10/2015.
Ao contrário, uma expansão de investimentos públicos e de outras despesas com alto efeito multiplicador sobre a renda e o emprego poderia elevar a arrecadação futura –direta e indiretamente–, aí, sim, estabilizando a dívida pública no longo prazo.
Na macroeconomia, restrições orçamentárias não são estáticas nem absolutas. Triste é ver um deficit dessa dimensão tão mal empregado. As escolhas de um governo preocupado apenas em manter-se no poder conspiram contra alternativas sustentáveis de enfrentamento da crise que hoje tanto aflige as famílias brasileiras.

terça-feira, 16 de fevereiro de 2016

Saúde Mental: quem trama a contra-reforma?


Presos no Hospital Psiquiátrico Valter Alencar, resquício da velha política. Novo coordenador do ministério da Saúde expressa interesses de quem dela se beneficiou
Um líder do movimento antimanicomial brasileiro sustenta: hospitais psiquiátricos privados, que viveram décadas às custas do SUS, querem ressuscitar políticas retrógradas. Nomeação de representante do setor para ministério da Saúde choca
Por Paulo Amarante, entrevistado pelo IHU - Publicado no Outras Midias
As políticas de saúde mental no Brasil têm uma trajetória de lutas que vem da mesma atmosfera dos movimentos contra a ditadura e pela redemocratização do país. Trata-se de uma história impregnada pela participação das bases, dos movimentos sociais, também ligada às reivindicações por um serviço de saúde universal, que atendesse a todos os brasileiros.
Em entrevista por telefone à IHU On-Line, o pesquisador da Fundação Oswaldo Cruz e vice-presidente da Associação Brasileira de Saúde Coletiva, Paulo Amarante, ressalta que o campo da saúde mental teve um papel importante nas lutas pela universalização da saúde no país porque incluiu a ideia da participação social no processo de construção das políticas.
Segundo o pesquisador, que é um histórico militante da Reforma Psiquiátrica e Sanitária brasileira, a partir desses movimentos foi estruturado no país um conceito diferente no tratamento da saúde mental, voltado para os direitos e a cidadania dos pacientes, e foi mais além: “trouxe algo bastante inovador que é atentar para a autonomia desses sujeitos. Pessoas até então consideradas loucas, incapazes de gerir a própria vida passam, no sistema de saúde mental, a ser protagonistas das políticas e a ter um papel de construção e de participação que não há em nenhum outro país do mundo”.
Entretanto, essa concepção sobre a saúde mental não é unânime, contrastando com alguns setores que ainda apostam em métodos de tratamento tradicionais, baseados na medicalização e isolamento dos pacientes, e muitas vezes entram em conflito com os adeptos de abordagens mais modernas. De acordo com o pesquisador, “o grande interesse na resistência desses grupos que defendem a permanência do modelo antigo de tratamento psiquiátrico é econômico e financeiro. São donos de hospitais psiquiátricos que têm há dezenas de anos essas instituições como fonte de renda, pois são serviços com baixo poder de regulamentação do público”.
Recentemente, os conflitos entre essas duas perspectivas da saúde mental se evidenciaram ainda mais com a nomeação de Valencius Wurch Duarte Filho, para a Coordenação Geral de Saúde Mental, Álcool e Outras Drogas do Ministério da Saúde. Na década de 1990 o psiquiatra foi coordenador da Casa de Saúde Doutor Eiras, considerado o maior manicômio privado da América Latina, fechado em 2012 por graves violações aos Direitos Humanos. Para Paulo Amarante a decisão do Ministério da Saúde não foi causal, pois de acordo com o pesquisador, Duarte Filho é um defensor do modelo manicomial e “alguém que conheceu a Reforma Psiquiátrica e foi um militante ativo contra esse movimento”.
Esse cenário é de apreensão para os que lutam em prol de políticas de saúde mental mais inclusivas e cidadãs. Os protestos se espalham pelo país na tentativa de evitar retrocessos.
Paulo Amarante, médico de formação e doutor em Saúde Pública pela Fundação Oswaldo Cruz, coordena do Grupo de Trabalho  de Saúde Mental e é Vice-Presidente da Associação Brasileira de Saúde Coletiva – Abrasco, e presidente de honra da Associação Brasileira de Saúde Mental – Abrasme.  Confira sua entrevista.
saude
Como está organizada a Política de Saúde Mental no Brasil? De que forma o sr. a avalia? Ela tem sido implementada? De que modo?
Paulo Amarante – No Brasil, nós temos um processo que denominamos de Reforma Psiquiátrica que vem desde os anos 1970. É mais ou menos simultâneo ao processo de redemocratização do país, quando começamos a lutar pelo fim da ditadura e as demandas políticas. Muito particularmente na saúde, nós tivemos uma grande movimentação pela democratização dos serviços dessa área, pelas políticas públicas, pela ideia de criar políticas mais voltadas para os segmentos mais desfavorecidos da sociedade etc. Almejávamos uma política que fosse realmente nacional e não uma política de assistência à doença que fosse voltada para as camadas da população com mais posses. Então esse movimento ficou conhecido como reforma sanitária e compreendeu a criação de uma política nacional pública e gratuita, como dever do Estado e direito do cidadão, proposta que acabou sendo inscrita na Constituição.
Desse modo, a proposta do Sistema Único de Saúde – SUS nasceu dos movimentos sociais, não foi uma ementa parlamentar, foi realmente popular e acho que é a única nesse perfil presente na Constituição de 1988. Na Carta Magna consta então essa ideia de que a saúde é um direito do cidadão e um dever do Estado e ainda a universalidade da atenção à saúde, que até aquele momento era restrita principalmente a previdenciários. O campo da saúde mental teve um papel muito importante nisso porque falava da noção da participação social nas políticas. Ficou denominada como Participação e Controle Social a ideia de criar conferências nacionais de saúde, conselhos nos níveis municipal, estadual e nacional para a sociedade ter canais de participação efetivos na política. Recentemente, em dezembro de 2015, tivemos a realização da 15ª edição da Conferência Nacional de Saúde.
Assim, esses processos se iniciaram aproximadamente entre 1976 e 1978 e se estendem até hoje. A saúde mental teve essa contribuição importante pelo fato de que, além dessa discussão do direito e da cidadania do usuário de serviço mental, ela trouxe algo bastante inovador que é atentar para a autonomia desses sujeitos. Pessoas até então consideradas loucas, incapazes de gerir a própria vida passam, no sistema de saúde mental, a ser protagonistas das políticas e a ter um papel de construção e de participação que não há em nenhum outro país do mundo. Esse é o princípio geral dessa proposta, que não é só um plano de organização de serviços para otimização e eficiência, estamos falando de uma questão política de participação, de integração social e de cidadania. Ademais, nós partimos para uma ideia de serviço de saúde articulado com outras políticas públicas nos campos de serviços sociais, da cultura, do esporte, do trabalho e da residência, sendo a área de saúde mental mais uma vez exemplar nisso.
A política de saúde mental conseguiu desenvolver grupos culturais, como há em Porto Alegre um grupo envolvido com teatro ligado ao Hospital Psiquiátrico São Pedro e uma banda de Hip Hop ligada a um Centro de Atenção Psicossocial – CAPS, chamada Black Confusion; e uma série de iniciativas que foram surgindo e que tiveram autonomia. Não se trata só de um grupo de artistas com transtornos mentais, é um grupo de teatro, por exemplo, que também tem pessoas com transtornos mentais, ou diagnósticos psiquiátricos, e se apresenta em diversos espaços.
Foi um avanço muito grande. Temos políticas, cooperativas de trabalho, residências onde vivem ex-moradores de hospitais psiquiátricos que agora estão morando nas cidades, produzindo e fazendo uma série de coisas. Além disso, nós conseguimos fechar no país mais de 60 mil leitos psiquiátricos, abrimos mais de dois mil CAPS, mais de mil projetos culturais, como de teatro, musicais, corais, e artistas individualmente também têm se sobressaído. Existem ainda dezenas de blocos de carnaval, no Rio de Janeiro há grupos que receberam prêmios, que já estão na agenda cultural da cidade. No ano passado saiu uma notícia no jornal New York Times sobre o bloco “Tá Pirando, Pirado, Pirou”, e o “Loucura Suburbana” ganhou o prêmio de segundo melhor bloco de carnaval do Rio de Janeiro, só perdeu para o “Cordão do Bola Preta”, um grupo muito tradicional carioca.
Essa é a grande inovação, uma política pública de saúde mental que muda o modelo assistencial, mas que também muda o lugar desses sujeitos, considerados antes só pacientes e depois protagonistas, agentes das próprias histórias. No momento, corremos o risco de sofrer um retrocesso em todo esse avanço no Brasil.
Como está o acesso ao tratamento psiquiátrico pelo Sistema Único de Saúde – SUS?
Estamos vivendo um período longo de mudança, pois antes assistência psiquiátrica indicava a internação. Muitos familiares, médicos e segmentos da sociedade ainda acham que se não há internação, não há tratamento, o que é um equívoco. Nós mostramos que os hospitais internavam milhares de pessoas, mas não faziam tratamento, faziam isolamento. Então ainda estamos em um processo de transformação. Os Centros de Atenção Psicossocial – CAPS, os Centros de Convivência e Cultura, as residências assistidas, e a criação de vários outros projetos poli culturais, assistenciais e de trabalho, isso tudo é consistência, é cuidado na forma de lidar com as pessoas com transtorno mental. No meu entendimento, ainda é muito pouco, nós deveríamos ter muito mais CAPS, Centros de Convivência, recursos para incentivar projetos culturais e desportivos, criar eventos e residências para pessoas que não têm família ou que os parentes não as aceitam. Porém, ainda se gasta milhares de reais em internação.
Por outro lado começa haver uma inversão, onde o sistema público financia mais serviços e dispositivos sociais, territoriais e comunitários do que hospitais. Isso já é uma mudança, mas ainda acho que a política deveria investir mais em serviços alternativos ao modelo psiquiátrico tradicional. O SUS está no caminho certo, mas está muito lento, vagaroso. Os investimentos precisam ser mais efetivos no sentido de superar todo o modelo manicomial tradicional, pois ainda temos mais de 20 mil leitos no país; e direcionar as verbas a equipamentos territoriais e comunitários, que fomentam a inclusão social, a reabilitação, inclusão social e são bem sucedidos em seus propósitos, mesmo com todas as limitações existentes. Esse tipo de trabalho é incomparavelmente superior ao modelo psiquiátrico hospitalar anterior.
Interesses financeiros atravessam os processos decisórios quanto às políticas de saúde mental no Brasil? De que maneira? Como é essa situação em outros países?
Esses leitos psiquiátricos são em grande parte privados. São geridos por empresas e sua quase totalidade é financiada pelo SUS. Nos anos 1980 essas organizações privadas tiveram um grande boom, como o caso da Casa de Saúde Doutor Eiras, que foi dirigida pelo atual nomeado coordenador Geral de Saúde Mental, contra o qual está havendo uma série de protestos. A Doutor Eiras teve mais de dois mil leitos psiquiátricos privados pagos pelo SUS, então era uma mina de ouro. Assim, acabar com esse modelo é claro que interfere em um negócio importante de prestação de serviços médicos e no mercado de trabalho, porque essas empresas contratam profissionais, e uma grande preocupação nossa é deixar claro que as pessoas não precisam ser demitidas, elas podem ser incorporadas em outros recursos e serviços.
O grande interesse na resistência desses grupos que defendem a permanência do modelo antigo de tratamento psiquiátrico é econômico e financeiro. São donos de hospitais psiquiátricos que têm há dezenas de anos essas instituições como fonte de renda, pois são serviços com baixo poder de regulamentação do público, porque é muito difícil alguém entrar em um local desses, e para isso, como foi o caso da Doutor Eiras em Paracambi, é necessário às vezes acionar o Ministério Público, porque o próprio SUS não consegue fiscalizar o trabalho prestado, ou mobilizar a Vigilância Sanitária. Especificamente a qualidade da atenção em saúde mental é muito difícil de acompanhar nessas organizações, então é um serviço que tem uma tranquilidade de funcionamento, tem pouca interferência.
O que representam para o campo de estudos em saúde mental as experiências brasileiras de tratamento psiquiátrico comunitário a partir da abordagem interdisciplinar, em relação aos métodos tradicionais, mais centrados na medicalização e internação em hospitais?
Representam a possibilidade de formar profissionais novos. Um dos grandes problemas no Brasil é que a formação profissional, principalmente da psiquiatria, é controlada pela Associação Brasileira de Psiquiatria que tem uma posição conservadora, muito ligada a interesses privados, afinal de contas os proprietários dos hospitais são os dirigentes de determinadas entidades. Desse modo, as residências médicas não abrem para esta nova formação, querem continuar formando em hospitais, na prática institucionalizante e medicalizante. Quando os estudantes, por algum motivo, um furo, uma brecha nesse espaço de formação, conhecem os CAPS e essas experiências culturais e projetos novos eles ficam fascinados, apaixonados porque vislumbram uma prática médica e psiquiátrica, de saúde mental, diferente. São campos de formação muito relevantes, é importante que a gente consiga abrir espaços de formação para as faculdades não mais nesses manicômios, mas sim nos CAPS, nas práticas territoriais, na saúde da família e em outras experiências.
Sobre a importância da experiência brasileira, eu participei agora em dezembro de 2015 em Trieste, na Itália, do Encontro Internacional “Uma sociedade sem isolamento”, promovido pela Organização Mundial da Saúde – OMS, pude ver que o trabalho desenvolvido no Brasil é considerado um dos mais importantes hoje no mundo, por ter uma abordagem inovadora e avançada. Essa é a opinião externada pelo dirigente da OMS, mas também compartilhada pela Organização Pan-Americana de Saúde, por professores, intelectuais, autores de várias universidades inglesas, norte-americanas, francesas, e pesquisadores do Japão, Nova Zelândia e Canadá, país do qual recebemos uma docente titular da Universidade de Quebec como professora visitante na Fundação Oswaldo Cruz. Então, as pessoas também estão vindo conhecer a nossa experiência e fazer pesquisas.
Também estive na Espanha para lançar um livro em um importante seminário sobre práticas inovadoras em psiquiatria. Na ocasião, entre os títulos lançados, a única obra não espanhola lançada no evento foi o nosso livro sobre a experiência brasileira. Isso é sinal de que temos uma escuta, um interesse internacional e de que a experiência do Brasil está entre os trabalhos de referência.
De que modo o campo da Reforma Psiquiátrica no Brasil tem tratado a questão dos Direitos Humanos e da cidadania das pessoas com transtornos mentais? Tendo em vista que o país já foi criticado na Corte Interamericana de Direitos Humanos por violações em hospitais psiquiátricos que resultaram em morte de pacientes.
Direitos Humanos e cidadania são os temas centrais. Desde o início da Reforma Psiquiátrica, da luta contra a ditadura etc., que percebíamos como os hospitais psiquiátricos eram locais de segregação, não só de pessoas com diagnóstico psiquiátrico, mas de vários segmentos sociais que eram marginalizados e para os quais o Estado não tinha políticas públicas sociais. Então esses depositários de pessoas, também eram locais psiquiátricos. Espaços onde eram comuns a violência exercida por funcionários; a invisibilidade dos sujeitos internados em instituições deste tipo, os quais acabavam perdendo seus direitos; as mortes, sempre atribuídas a conflitos entre os internos, nunca a agressões cometidas pelos empregados dessas organizações. Sobre a violência, houve um caso clássico de um paciente no nordeste em que foi considerado que ele próprio teria batido em si mesmo até morrer. Foi dito que ele teria se espancado com um pedaço de pau. Isso é considerado tecnicamente impossível, qualquer legista sabe disso.
Um caráter também inovador da Reforma Psiquiátrica brasileira em relação aos Direitos Humanos é que, além da luta contra a violência exercida às pessoas com transtorno mental, também houve uma preocupação com o reconhecimento da diversidade desses sujeitos. Significa perceber nas pessoas com transtorno mental uma capacidade discursiva, narrativa, de produção de arte, de identidade que é potente. Ao construir uma forma de identificação com o coletivo, se oferece uma nova condição de possibilidade de saúde mental que é a da pessoa não sentir-se constrangida por ser quem é, por ter um sofrimento mental, sua diversidade mental, mas ver nisso também uma das suas formas de identidade.
Por outro lado, não é romantizar a condição do sofrimento, mas é reconhecer que as pessoas têm determinadas circunstancias, condições, características e que isso não precisa ser endeusado, glorificado, mas também não demonizado ou escondido. Isso dá uma característica de identidade e de suporte às condições mentais psicológicas subjetivas. Essa é uma articulação importante dos Direitos Humanos nesse caráter de um suporte subjetivo, afetivo, emocional às pessoas pela sua condição de diversidade, com a denúncia e a luta contra a violência que se exerce contra essas pessoas.
De que forma a nomeação de Valencius Wurch Duarte Filho, para a Coordenação Geral de Saúde Mental, Álcool e Outras Drogas do Ministério da Saúde, contrasta com a trajetória dos movimentos pela Reforma Psiquiátrica e a luta antimanicomial no Brasil? Como os movimentos sociais ligados a estas lutas estão recebendo essa decisão?
Recebemos com total perplexidade e inaceitação porque se trata de uma pessoa que foi dirigente do Manicômio Doutor Eiras, de Paracambi, considerado o maior hospital psiquiátrico privado da América Latina, mas eu penso que se é o maior da América Latina é o maior do mundo, pois eu nunca vi um hospital privado desse tipo com mais de dois mil leitos em lugar nenhum do mundo, nunca tive notícia de uma coisa assim.
“Colocar uma pessoa para dirigir uma política nacional que seja contra essa política é no mínimo um contrassenso e no máximo uma tentativa de desarticulá-la”
Eu conheci esse hospital e ele teve 2500 leitos pagos pelo SUS. O que é mais impressionante é que nenhum país do mundo tem essa política de privatização pelo Estado, pois é possível privatizar e passar ao setor privado determinado setor da economia, mas o que acontece no Brasil é que o país continua pagando a conta. Não são as pessoas em particular ou os planos de saúde contratados que custeiam esse serviço, mas sim o Sistema único de Saúde. Então aqui a lógica é diferente, os empresários da área da saúde querem que se privatize, mas querem que o SUS continue pagando, porque assim eles garantem o sustento do serviço e não dependem do mercado.
O Hospital Doutor Eiras teve uma intervenção federal, do Ministério Público estadual e foi fechado por graves violações dos Direitos Humanos. O então diretor clínico era o médico Valencius Wurch Duarte Filho, que resistiu a essa intervenção, fez várias tentativas de manter esse hospital em funcionamento atuando em relação à equipe que trabalhou no processo de fechamento da instituição e foi um defensor até o último momento do manicômio e desse modelo de tratamento psiquiátrico.
Ele se utilizou de todas as estratégias para que esse hospital permanecesse funcionando porque defendia fundamentalmente que os internados eram pessoas que não tinham condições de vida fora do manicômio, organizou os familiares desses pacientes para que eles não aceitassem as altas, afirmando que era um interesse que o Estado tinha em devolvê-los às famílias, o que é uma visão deturpada dos fatos, pois as famílias que tiveram condições de receber seus parentes foram amparadas por um programa chamado “De Volta pra Casa”, para os que não puderam voltar foram constituídas residências coletivas financiadas pelo SUS.
Dessa maneira, esse médico é um defensor do modelo manicomial, não é um médico qualquer que talvez tivesse uma prática mais manicomial, mas é alguém que conheceu a Reforma Psiquiátrica e foi um militante ativo contra esse movimento. Então, é muito curioso, por exemplo, que fosse indicado ministro da saúde alguém que é contra o SUS, que é a política pública oficial. A Reforma Psiquiátrica também é uma política pública oficial, foi aprovada pela Lei 10.216/2001, que passou pela Câmara, Senado e foi sancionada pelo presidente da República. Colocar uma pessoa para dirigir uma política nacional que seja contra essa política é no mínimo um contrassenso e no máximo uma tentativa de desarticulá-la. No nosso entendimento, não é uma ingenuidade do ministro, ou apenas um descuido, é uma tentativa de desarticular uma política que é bem sucedida e que interfere nos interesses arcaicos conservadores da psiquiatria e nos interesses econômicos da área.
Diante das mobilizações intensas dos movimentos sociais e entidades ligadas à promoção da saúde mental contra a nomeação de Valencius Wurch Duarte Filho, a que o sr. atribui essa escolha do Ministro da Saúde, Marcelo Castro?
Atribuo a uma tomada de consciência do risco que essa política de Reforma Psiquiátrica representa para determinados segmentos que pensam a saúde como mercado, como privatização e que querem dar um freio nesse movimento. Não me parece uma escolha ingênua ou desavisada, e sim uma decisão consciente, pois se trata de um opositor explícito e declarado da Reforma Psiquiátrica.

Redação

O Outras Mídias é uma seleção de textos publicados nas mídias livres, que Outras Palavras republica. Suas sugestões podem ser enviada paracaue@outraspalavras.net

terça-feira, 5 de janeiro de 2016

Saiu no El Pais: O Jogo Sujo das Prisões PRIVADAS nos Estados Unidos


el país

INTERNACIONAL

O negócio sujo das prisões privadas nos EUA

As penitenciárias exigem dos governos uma cota mínima de ocupação, quer suba ou baixe a criminalidade.

A busca do máximo lucro gera nos EUA casos de maus tratos e violência

 Washington 23 JAN 2014 - 14:37 BRST publicado no El Pais





Um grupo de presos em Sacramento (Califórnia). / RICH PEDRONCELLI (AP)
A taxa de criminalidade caiu em um terço no Colorado nos últimos dez anos, o que fez com que, desde 2009, esse estado dos EUA tenha fechando cinco de seus presídios; mas, paradoxalmente, as prisões privadas estão cada vez mais cheias. O motivo é que dispõem de uma quota mínima de ocupação acordada com o governo do Estado que, para garanti-la, se viu obrigado há alguns meses a transferir 3.330 reclusos das instalações públicas, que tinham vagas ociosas, para as privadas. O Colorado não é, porém, um caso isolado. A situação se repete em outras áreas do país e revela os meandros por trás do auge da privatização carcerária nos EUA, assim como a perversa disputa entre o interesse público de reabilitar os presos e reduzir a população carcerária e o objetivo de maximizar seus lucros, inerente a qualquer empresa.
De acordo com um relatório de In the Public Interest (ITPI) -- uma entidade civil com sede em Washington --, de 62 contratos de penitenciárias privadas analisados nos EUA, 65% dispõe de algum tipo de garantia de número mínimo de reclusos ou penas por vagas ociosas. A lógica por trás dessas exigências é que os operadores privados, que cobram por preso (entre 40 e 60 dólares ao dia), consigam garantir para si um determinado nível estável de ingressos para administrar a prisão e recuperar o custo da sua construção. A base mínima mais frequente é de 90%, embora em alguns casos possa chegar a 100%. Por exemplo, segundo o documento, três instalações no Arizona dispõem dessa garantia embora o Departamento Penitenciário do Arizona (ADC, na sigla em inglês), o negue e assegure que gira em torno de 90%.
Seja como for, o estado se vê obrigado a garantir um número mínimo de prisioneiros, quer a criminalidade cresça ou se reduza, o que a ADC considera uma exigência empresarial compreensível e benéfica. “Para o contribuinte, se não houvesse uma quota e a ocupação flutuasse de forma variável, o operador privado cobraria uma taxa diária muito mais elevada para garantir que recuperaria seu investimento”, diz o porta-voz Doug Nick. “Esse tipo de garantia mantém o custo relativamente estável e previsível”, acrescenta na conversa telefônica.
No Arizona há prisões privadas  há cerca de vinte anos
Mas o que acontece se a taxa de criminalidade cai, como no Colorado, e cada vez menos presos ingressam nas cadeias? “Nunca tivemos problemas para preencher as vagas, e nunca perdemos população carcerária. De fato, essa vem crescendo há décadas”, responde, com total segurança de que a situação não irá mudar. No Arizona, há prisões privadas há duas décadas. Atualmente, das 14 instalações do estado, quatro são de propriedade e gestão empresarial; e há outras seis privadas que só acolhem presos dos estados contíguos. Segundo o convênio de concessão, as autoridades do Arizona passarão a controlar as quatro penitenciárias 20 anos após sua abertura, o que a ADC também exalta como um benefício para o contribuinte.
No conjunto dos EUA, em 2010, 8% dos presos estavam em penitenciárias privadas, segundo os últimos dados disponíveis. Trata-se de cerca de 128.000 reclusos numa população total de 1,6 milhões. Atualmente, segundo as estimativas de Carl Takei, advogado da American Civil Liberties Union (Aclu), a proporção poderia estar em torno de 12% nas instalações federais e pouco menos nas estatais. Além disso, no caso dos centros de detenção de imigrantes, poderia representar até 50%.
A privatização das penitenciárias não parou de crescer desde os anos 80, quando surgiu o primeiro operador, mas foi na última década que disparou vigorosamente. Entre 1999 e 2010, o número de reclusos em prisões privadas aumentou 80%, muito acima dos 18% de aumento registrado no conjunto da população carcerária, segundo as estatísticas oficiais. Takei tem bem claro quais são as causas desse fenômeno: “Os EUA vivem uma epidemia de encarceramentos massivos. Entre 1970 e 2010, a cifra de presos cresceu 700% e isso impulsionou as empresas privadas”, argumenta. Assim, não surpreende que paralelamente ao crescimento do número de presos desde os anos 90, tenha havido também expansão das penitenciárias privadas. Além disso, nos últimos anos, essas empresas se beneficiaram do efeito da crise econômica ao oferecer custos supostamente mais baixos do que os do setor público a governos com necessidade cada vez maior de economizar. Entretanto, o documento do ITPI considera “ilusório” pensar que as quotas mínimas de ocupação das prisões acabem beneficiando os contribuintes. A entidade assegura que, por exemplo, no Arizona as prisões privadas acabaram custando 33 centavos a mais diariamente por recluso do que as públicas, enquanto que no Colorado a transferência dos 3.330 presos para cumprir a base mínima acarretou uma fatura de dois milhões de dólares.
Um extremo que é negado pela principal empresa do setor, Corrections Corporation of America (CCA). “Fornecemos economia aos contribuintes, instalações seguras, redução da reincidência e uma importante flexibilidade nos contratos com os governos”, afirma um porta-voz em resposta dada por e-mail. Ele destaca também que só a metade de seus contratos tem quotas mínimas de ocupação, que estas não são rígidas e que se estabelecem para garantir os “custos fixos” da construção e administração das prisões.
Como é previsível, o auge privatizador engrossou os resultados da CCA e de outro gigante do setor, a Geo Group. Por exemplo, no terceiro trimestre de 2013, a CCA registrou um lucro líquido de 51,8 milhões de dólares em comparação com os 42,3 milhões do mesmo período do ano anterior. Ambos os grupos cotizam na bolsa e sua elevada rentabilidade levou grandes entidades financeiras e bancos a investirem nelas, segundo explica o ativista Takei. Em seus relatórios públicos, as companhias admitem que o aumento da população carcerária repercute positivamente em seus resultados e que, em contraposição, o relaxamento dos procedimentos de detenção a imigrantes e das leis que regem a duração das penas podem representar riscos para os seus negócios.
Nesse sentido, segundo o relatório de In the Public Interest, tanto a CCA como a Geo Group fazem intenso lobby para tentar endurecer as leis com o objetivo último de aumentar – ou, no mínimo, manter – a população carcerária. A primeira destinou 17,4 milhões de dólares para influenciar políticos entre 2002 e 2012, segundo dados do Center of Responsive Politics, uma entidade civil. Paralelamente, também fizeram generosas doações às campanhas de líderes políticos chave: entre 2003 e 2012, a CCa destinou 1,9 milhões a isso, enquanto a Geo Group,2,9 milhões.
“Essas empresas mantêm relações muito estreitas com as autoridades políticas para tratar de conseguir mais contratos”, indica, por seu lado, Shar Habibi, diretora do departamento de pesquisa da ITPI. E, paralelamente, na busca do maior lucro empresarial, ambas as companhias tentam reduzir ao máximo os “custos operacionais” das suas prisões para converter em lucro os aportes que recebem dos governos. Isso se traduz, critica, em ter o pessoal estritamente necessário ou economizar na manutenção das instalações, na segurança e nos salários, o que costuma acarretar a contratação de trabalhadores sem a qualificação necessária. E tudo isso pode gerar um coquetel explosivo que, em alguns casos, desencadeou maus tratos aos presos, aumento dos conflitos e, inclusive, na fuga de reclusos.
Habibi garante que, em geral, os estados mantêm uma severa supervisão das condições das prisões privadas, mas que, quando essa relaxa ou deixa de ser regular, os operadores privados tendem a tratar de administrar as prisões “abaixo das normas”, a fim de reduzir ainda mais seus custos. E, em alguns casos, a situação foge do controle, como acaba de acontecer numa prisão da CCA no estado de Idaho. No início de janeiro, as autoridades anunciaram que iriam retirar a concessão da empresa depois de diversas denúncias de violência e negligências dos trabalhadores. A CCA reconheceu no ano passado que falsificou os relatórios entregues ao Governo sobre a jornada de trabalho de seus empregados ao notificar que estavam trabalhando em momentos em que, na verdade, seus postos estavam absolutamente vacantes. Não se trata de um episódio isolado, pois o relatório do ITPI inclui exemplos muito parecidos em outras prisões do país. E, em casos como o de Idaho, o resgate público acaba fazendo disparar o orçamento de administração da prisão e são os contribuintes os que acabam pagando o pato. É o lado obscuro do auge da privatização carcerária nos EUA.