Kim Kataguiri e o MBL anunciaram que pretendem processar 17 pessoas e quatro veículos de imprensa por imputação de apologia ao nazismo. Contrariando muitas expectativas, ficamos de fora.
O que o Goebbels teria a dizer sobre liberdade de expressão? E uma dúvida mais atual: quantos problemas Kim Kataguiri do MBL teria evitado se tivesse estudado um tantinho para saber a resposta?
Escândalo no registro do Lula: relator Barroso devolve processo
O processo de Lula não tinha sequer sido numerado, quando a Globo anuncia depois das 20 horas de ontem quem o relator do caso seria o ministro “durão”, como frisou o repórter, Luis Roberto Barroso. Ato imediato, a procuradora Raquel Dodge, Kim Kataguiri e Alexandre Frota entram com a impugnação. Pressionado, Barroso devolve o processo à ministra Rosa Weber.
"No campo jurídico, onde presto mais atenção, as coisas vão de mal a pior em ritmo acelerado. Nunca foi lá essas coisas, é verdade, mas para quem acompanhou os últimos 10 anos, é perceptível a queda de qualidade das decisões, da primeira à última instância; é nítida a falta de limites para arbitrários, ao passo que juízes e juízas, promotores e promotoras que destoam da massa obediente são perseguidos, intimidados, processados, silenciados. Advogados, em sua grande maioria, assistem passivamente o que acontece." - Breno Tardelli, diretor de Redação do Justificando
A cada dia, uma estaca diferente é cravada no peito daqueles que estão abismados com o fundo do poço que não tem fim no qual o Brasil e suas instituições mergulham, lambuzando-se de arbítrio e escárnio com a população. Isso vale para qualquer campo de atuação – aqueles que acompanham o ruralismo choram, os que são próximos da arte e da cultura se deprimem, ou ainda quem se dedica à educação também não vê luz no túnel. Tudo se dissolve, e o oxigênio está rarefeito. Como uma jiboia, a elite econômica, rural, jurídica, política estrangula a República, apertando-a pouco a pouco, dia a dia, com as demonstrações mais desavergonhadas de fascismo, deixando quem se sufoca sem possibilidades de saída.
No campo jurídico, onde presto mais atenção, as coisas vão de mal a pior em ritmo acelerado. Nunca foi lá essas coisas, é verdade, mas para quem acompanhou os últimos 10 anos, é perceptível a queda de qualidade das decisões, da primeira à última instância; é nítida a falta de limites para arbitrários, ao passo que juízes e juízas, promotores e promotoras que destoam da massa obediente são perseguidos, intimidados, processados, silenciados. Advogados, em sua grande maioria, assistem passivamente o que acontece.
Já os que se colocam de forma incômoda contra o exercício do gozo punitivo, sofre ataques por agentes da justiça, os quais, como vampiros que experimentam o gosto de sangue pela primeira vez, viciaram no desenfreado exercício do abuso. Isso é feito em uma suposta democracia aos olhos de todos e todas, mas ainda não causou o espanto necessário para desencadear alguma algo maior do que gatos pingados como oposição. As mídias, que não foram democratizadas – ou sequer foi tentada sua democratização -, são uníssonas em legitimar ou escamotear essa situação de várias medidas de exceção em uma democracia, nas palavras de Pedro Estevam Serrano.
Para registro histórico, é necessário marcar as instituições
Há um bordão repetido exaustivamente nos veículos de comunicação por burocratas poderosos, como ministros e secretários, que as instituições estão funcionando normalmente. Foi um ditado construído para se contrapor à ocorrência de um golpe. O mantra marca o cinismo de agentes que deveriam ter ética, responsabilidade e o mínimo de republicanismo, mas se acovardaram ou foram oportunistas atrás de sua fatia do bolo que deixa migalhas à população, se é que deixa. As instituições deformadas que deformam aqueles que nelas se dedicam, como me disse Silvio Almeida em uma tarde de conversas, agem exatamente em conformidade ao interesse do status quo, reproduzindo duros ataques às pessoas que tem uma espinha dorsal ereta o suficiente para não se deformar no hábito deformado exigido pela carreira. Como cães de guarda que são, mantém essa posição fiel ao poder para ser agradada com um privilégio qualquer. As instituições que têm menos auto estima temem perder mais direitos do que já perderam.
A Presidenta da Associação Juízes para Democracia, Laura Benda, denuncioucomo juízes que tomam decisões assim consideradas como progressistas estão sob ameaça. Os Quatro de Copacabana – André Nicolitt, Simone Nacif, Cristiana Cordeiro e Rubens Casara – foram perseguidos às claras pelo Corregedor Nacional de Justiça e pela Presidente do Supremo Tribunal Federal. Luiz Carlos Cancellier Olivo, Reitor da uma Universidade Federal de Santa Catarina, foi acossado por uma operação policial e jurídica até chegar ao suicídio. Valdete Severo e Souto Maior, Juízes do Trabalho, foram processados administrativamente após escreverem ao Justificando.
O Advogado Rafael Valim, que articula na defesa do ex-presidente Lula, teve sua sede de escritório invadida pela polícia para busca e apreensão de documentos que estão públicos. Apesar do fiasco da medida determinada pela Lava Jato (pois é, a Operação que julga o que quer no Brasil vai atrás dos advogados que a ela se contrapõem e tudo é naturalizado), a busca e apreensão foi noticiada na grande imprensa, com o único objetivo de atingir a reputação do profissional. Teixeira Martins, escritório que defende o ex-presidente, teve todos os seus telefones grampeados pela Operação, um grampo ilegal, mas nada espanta.
E por aí vai, a lista está infinita…
O arbítrio não encontra limites
De outro lado, o conforto em ser autoritário ou em compor com a perda de direitos pela população está dado. O Presidente do Tribunal de Justiça de São Paulo e o Corregedor do Tribunal de Justiça não se simpatizavam com a audiência de custódia, que não era nem de longe milagreira, mas diminuía um pouco do crescente encarceramento. Logo, pinçaram para o cargo de diretora da maior central de audiência de custódias do estado uma magistrada responsável por decisões draconianas, como de determinar a prisão de uma mulher por um ano pelo furto de um frasco de shampoo. A juíza em questão entrevistou outros juízes e juízas com opiniões similares às suas para montar o time de inquisidores que mantém a infame marca de aprisionamento superior a 70%. O Presidente da Ordem dos Advogados do Brasil, foi um leão contra na queda do governo Dilma, mas é um gatinho contra as infinitas medidas do Governo Temer ou da Lava Jato.
Um espantoso exercício de abuso recente foi o de entregar a Segurança Pública do Rio de Janeiro ao exército. Foi falado em mandado de busca coletivo, pessoas foram fichadas, os veículos de comunicação se apressaram em elogiar e se alguém achava que eram os militares que faltavam para que houvesse um golpe, creio que essa questão foi superada – e legitimada, pois vale dizer que o Presidente do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro colocou todo o Judiciário do estado à disposição das Forças Armadas. Já o Procurador Geral de Justiça divide seminário com Kim Kataguiri para falar sobre segurança pública e penso que já não nos falta mais nada de senso de ridículo. Vale dizer que mais de uma centena de promotores do RJ assinaram manifesto favorável à intervenção militar. Meses antes, grande parte desses havia assinado um manifesto contra a “bandidolatria”. Ocorre que o autor do manuscrito que foi assinado aos montes está processado criminalmente. O Brasil não encontra limites para suas contradições, realmente. Enfim, a instituição fiscal da lei que fala pela sociedade se assemelha a um feitor.
Contudo, o chumbo grosso nas costas da população também pode ser um ótimo champagne na companhia de empresários. A Presidente do STF entendeu como apropriado um jantar com CEOs do petróleo, da tecnologia, das comunicações para falar sobre decisões da corte. Antes disso, já havia reunido um comitê semelhante onde manifestou apoio à reforma trabalhista. Por lei, uma magistrada não pode falar sobre casos que irá julgar, mas quem se importa com a lei, não é verdade? Essa danada legislação só costuma ser lembrada para pesar a mão em uma condenação ou negar direito a alguém. Noutros casos, farinha pouca meu pirão primeiro.
Bem da verdade, poderia passar o dia citando exemplos…
Uma grande barreira repleta de armas está construída pelas instituições e agentes de justiça e voltada para proteger o poder de qualquer oposição à reforma trabalhista, à guerra às drogas, ao hiperencarceramento, ao ruralismo, ao sistema econômico, midiático, enfim, a qualquer preciosidade aos olhos de um escravocrata, maldita herança que crava todas as relações sociais até os dias de hoje, como nos apontam Djamila Ribeiro, Adilson Moreira, entre tantos.
"Quem ao Judiciário reage a ponto de incomodá-lo é atacado."
Lamentavelmente, em um cenário de pessoas e instituições com sede insaciável por arbítrio, privilégios e defesa do status quo, pessoas sob a mira do fuzil e da caneta não têm a quem recorrer. Diante sanha persecutória ao alvo marcado, a cada dia proteções próprias de uma democracia se tornam mais frágeis, quando não inexistentes.
São tempos difíceis para pensamentos questionadores dentro do sistema de justiça, armado na defesa dos interesses do poder e na de seus próprios interesses.
Brenno Tardelli é diretor de redação no Justificando.
KIM KATAGUIRI E o Movimento Brasil Livre vêm se dedicando a um hobby de inspiração trumpiana nos últimos meses: denunciar as “Fake News” (notícias falsas). Assim como Donald Trump, o MBL adora apontar erros involuntários ou tendências desonestas da imprensa para rebater qualquer crítica à sua atuação.
Por exemplo, quando o El País revelou que milhões de reais em doações caíam numa caixa preta controlada por uma família que é ré em 125 processos e têm uma longa ficha de crimes fiscais, integrantes do grupo se auto-proclamaram “o movimento político mais perseguido do Brasil” – sem rebater propriamente as denúncias.
Quando a Vice Brasil reportou que MBL manteve ligações diretas com o site de propaganda enganosa (o que alguns chamariam de “fake news”) Jornalivre, o MBL negou vínculos diretos com o site. “Fake news!”
Na sua conferência nacional no ano passado, até barrou e expulsou repórteres, para não arriscar a disseminação de falsidades. “Fake news! Fake news!”
Mas nesta semana, Kim Kataguiri se viu no espelho. O ativista compartilhou para seus 565.885 fãs no Facebook um vídeo do canal “Mamãe, Falei” que denunciava manifestantes segurando bandeiras sindicais, virando barreira e seguindo em direção à porta de um prédio oficial gritando as palavras de ordem “a casa é do povo”. Acima, em letras garrafais, o MBL cravou: “SINDICALISTAS INVADEM PRÉDIO PÚBLICO PARA TENTAR IMPEDIR CONDENAÇÃO DE LULA”.
No post que acompanha o vídeo, Kim escreveu: “Sindicalistas estão tentando impedir de todos os modos a condenação do Lula, mas não vão conseguir. FALTAM 9 DIAS!“ Até a publicação deste texto, o vídeo foi visualizado 481 mil vezes. Ele tinha apenas um problema: a manifestação nada tinha a ver com o julgamento do ex-presidente. Mentira pura. Uma autêntica Fake News.
Assista o vídeo:
Agora assista a reportagem da TV Pública Local que mostra exatamente o mesmo clipe e explica o real motivo da manifestação: servidores públicos protestavam contra um pacote de medidas que aumentava suas contribuições previdenciárias e achatava suas aposentadorias.
Parece que os dois vídeos até são da mesma fonte (ou pelo menos do mesmo ângulo e posição) e claramente estão mostrando o mesmo ato.
Janeayre Souto, a presidente do Sindicato dos Trabalhadores do Serviço Público da Administração Direta do Estado do Rio Grande do Norte, explicou para o jornalista do TVU porque eles estavam nas ruas naquele dia:
“Nós estamos aqui para impedir a venda, o desmonte do patrimônio público do estado do Rio Grande do Norte, a entrega à iniciativa privada do nosso patrimônio. Nós estamos aqui para lutar contra a demissão dos servidores e nós estamos aqui para lutar contra a retirada dos quinquênio dos servidores.”
Quando ligamos para Manoel Egídio Júnior, enfermeiro, membro do Fórum dos Servidores e um dos coordenadores do protesto, que está sem 13º e que recebeu o salário de dezembro apenas no último sábado, ele se surpreendeu: “Vejo com revolta essa cooptação do protesto. Tentaram usar nossa ação para outro objetivo. Não havia e não há nenhuma defesa de candidato ou partido”.
O governador kassabista Robinson Faria está tentando aprovar um pacote fiscal de 18 medidas (chamado de “RN Urgente”), apresentadas como solução para o derretimento financeiro do Rio Grande do Norte. Houve convocação extraordinária para a votação no dia 11 de janeiro, quando servidores tentaram entrar na Assembleia Legislativa para impedir a sessão – foram contidos pelo Batalhão de Choque da PM. Nada a ver com Lula. (“Fake News!”).
As propostas mais questionadas são aquelas que afetam diretamente servidores públicos que já tem seus salários atrasados: mudança na alíquota de 11% para 14% da contribuição previdenciária e limite da aposentadoria a um teto menor que o atual. A manifestação impediu que os os deputados votassem o pacote.
Como se vê por fatos e imagens, os manifestantes estavam preocupados com seu futuro imediato, e não com o julgamento de Lula, que ocorrerá ainda no dia 24, em Porto Alegre.
Mesmo alertados pelos fãs do MBL – os seguidores das páginas do Kim e do “Mamãe, Falei” chegaram a, respeitosamente, corrigir o erro evidente no vídeo – mas nada fizeram. A fake news (!) continua lá a gerar views.
Imagem: Facebook
Imagem: Facebook
The Intercept Brasil entrou em contato com Kim Kataguiri e “Mamãe, Falei” para perguntar se eles estão cientes de que o enunciado do vídeo está equivocado, que vários dos seus leitores já apontaram o erro – e por que eles não corrigiram ou apagaram o post. Até a publicação dessa matéria, ainda não responderam. Atualizaremos quando houver resposta.
ATUALIZAÇÃO (19 de janeiro, 11h58): Após a publicação deste texto, os links do vídeo nas páginas de “Mamãe, Falei” e Kim Kataguiri foram retirados do ar. Nenhuma delas publicou uma errata, explicação ou pedido de desculpa à audiência (a emissão de correções é prática padrão para qualquer provedor de informações respeitável). O vídeo enganoso foi visualizado pelo menos 481 mil vezes. The Intercept Brasil entrou em contato com Kim Kataguiri e a página “Mamãe, Falei” novamente e atualizará este texto se houver reposta.
No dia 12 de junho de 2016, Bráulio Fazolo deixou uma mensagem pública na página do MBL no Facebook informando sua decisão de sair do grupo.
O motivo era o apoio do MBL ao PMDB em troca de ajuda financeira e o uso do movimento como ferramenta de autopromoção por parte de alguns integrantes.
“Estou saindo da coordenação do Movimento Brasil Livre Espírito Santo representado aqui na figura de sua coordenadora geral Raquel Gerde pelos seguintes fatos. Após a sua confirmação pessoal de filiação ao PMDB e pela sua postura pessoal que vem defendendo de forma aberta escancarada esse partido, usando a mim e as pessoas do movimento para auto promoção política, não compactuo com corrupção e não defendo corrupto, defender o PMDB que é um partido tão corrupto quanto o PT é fazer associação criminosa”, escreveu.
Junto ao texto, ele anexou um áudio da coordenadora geral do MBL/ES, no qual ela confirma a filiação ao PMDB e diz que eles, do MBL, têm que “bater” nos corruptos e deixar o PMDB em paz.
“Você está querendo que eu acabe com o partido, é isso que você quer, que nós chegamos e batemos no partido, nós não podemos, nós temos que bater nos corruptos, mas não no partido porque não há motivos nenhum para a gente bater nele”, diz Gerde, referindo-se ao PMDB. Moradora de Guarapari, principal ponto turístico do Espírito Santo, Gerde tem 60 anos e foi candidata a deputada estadual em 2014 pelo PC do B.
Na entrevista ao DCM, Braúlio Fazolo fala sobre o papel exercido por Gerde na coordenação do MBL/ES e detalha os motivos que o fizeram sair do grupo.
Ele entrou para o MBL no começo deste ano, após participar de várias manifestações na Grande Vitória contra o governo e a favor do impeachment da presidente Dilma. Estudante de Direito em uma faculdade particular, Fazolo tem 29 anos de idade e trabalha como desenvolvedor de sites.
Como você chegou ao MBL?
Eu já tinha participação ativa nas manifestações, pouco antes da votação do impeachment no congresso. Tinha amigos do MBL e de outros movimentos daqui da Grande Vitória, como o Fora Dilma e o Levanta Brasil. Foi numa dessas manifestações que conheci a coordenadora geral do MBL aqui no ES, Raquel Gerde, que inclusive é uma das coordenadoras gerais do MBL nacional. Como a gente pactuava das mesmas pautas e dos mesmos ideais, ela me convidou para participar da coordenação aqui no ES, alegando que precisavam de alguém para cuidar dessa parte digital, da criação do site, do banco de dados para cadastro.
Isso foi antes da votação do impeachment na Câmara?
Antes da votação, no final de fevereiro. Eu participei das manifestações de março já pelo MBL, já havia me filiado ao movimento.
Quais eram suas atividades práticas na coordenação?
Eu cuidava do site, toda a parte do banco de dados, de cadastro de membros. Eu que desenvolvi a parte de banco de dados, a captação fui eu que desenvolvi, por estar responsável de dar acesso a Raquel e demais coordenadores a esse banco de dados, com informações de todas as pessoas cadastradas.
O que te levou a sair do grupo?
Foi após uma discussão. O MBL se modificou bastante desde a votação do impeachment no Congresso. Uma coisa que eu quero que fique clara é que o movimento recebeu dinheiro do PMDB. Não só do PMDB mas de alguns outros partidos, mas vou citar o PMDB em especial porque o nome do partido foi falado internamente nas reuniões. É um assunto que a gente nunca levou para fora dos grupos internos, dos núcleos. O MBL tem vários grupos abertos para quem diz simpatizar com a causa, e essas situações não são levadas para esses grupos, são tratadas em grupos internos. Essa questão do PMDB ter destinado fundos para pixulecos, panfletos, movimentação de pessoas que foram a Brasília acompanhar o impeachment sempre foi tratada com bastante tranquilidade, porque eles passavam para a gente que o PMDB era uma peça fundamental no impeachment.
Assim, o MBL caminharia com o PMDB até a votação e depois não seria mais possível porque a gente sabe, acho que hoje tem mais deputados e senadores do PMDB envolvidos em processos, sendo investigados por corrupção que o próprio PT. Como uma da pautas que a gente sempre carregou abertamente foi o combate à corrupção, a orientação que a gente tinha para falar para as pessoas era essa: “Olha, a gente não apoia o PMDB, gente está caminhando com o PMDB até o impeachment, porque o impeachment é impossível, é inviável sem o apoio do PMDB, mas que logo depois a situação seria revista”.
Assim como você, tem outros membros da coordenação insatisfeitos?
Da coordenação, uns 70%. A gente começou a estranhar… A questão financeira do MBL no ES sempre foi pessoal. Por exemplo, o site. As despesas de criação, registro de domínio, servidor, eu arquei com tudo, e quando a gente tinha que fazer determinadas movimentações, a gente fazia uma espécie de vaquinha, juntava todo mundo. Só que alguns recursos começaram a aparecer sem que fosse informado de onde vinha, de quem vinha, e o que é pior, onde estava sendo aplicado, porque da mesma forma que eles não informavam quanto foi angariado, eles também não informavam pra onde esse valor foi destinado especificamente, por exemplo, um Pixuleco gigante custou uns 30 mil reais.
Houve manifestações que custaram uns 60 mil reais e a gente sabe que não eram recursos angariados entre os integrantes, que na maior parte da sua composição têm uma certa restrição financeira, não são pessoas “bem de vida”. Assim, a gente começou a cobrar transparência sobre esses recursos e isso era sempre desconversado nas reuniões.
Inclusive algumas pessoas que bateram, persistiram na tecla, nessa pauta, foram convidadas a sair do grupo, foram consideradas pessoas de esquerda. É um assunto que nunca foi tratado muito bem, mas a gente sabia que existia o dinheiro que vinha do PMDB, a gente não sabia quanto, da mão de quem ele vinha e como esse dinheiro estava sendo aplicado. Para onde ele estava indo? Como ele estava sendo movimentado, na conta de quem? Ficavam sempre perguntas sem resposta.
Quem são os outros coordenadores?
Não queria envolver outros nomes, são amigos, pessoas com quem convivo. Não vem ao caso falar das outras pessoas por elas são como eu, a gente vai lá para ouvir e não é nem aberta uma contradição, uma discussão sobre as pautas. Eu falo assim porque quem dita como o MBL vai se posicionar aqui no estado é a Raquel Gerde. Ela é a representante nacional e uma das coordenadoras nacionais. É quem passa como o movimento vai agir, como vai se movimentar. Não vem ao caso falar das outras pessoas porque elas são como eu, a gente vai lá para ouvir e não é nem aberta uma contradição, uma discussão sobre as pautas. Ela sempre falou que a gente segue a discussão nacional.
Tudo passa por ela? Centraliza nela?
Financeiramente tudo passava por ela. Inclusive, ela utiliza contas pessoais para destinar esses recursos. A falta de transparência foi gerando dúvidas e com o passar do tempo, começaram a existir orientações da Raquel para evitar postagens contra o governo atual e contra o PMDB, que não era interessante. Se você pegar a página do MBL, tanto no nacional como no Espírito Santo, você não vai ver nada contra o governo atual. Isso foi se intensificando, a ponto de semana retrasada você encontrar manifestações contra o atitude de Janot de pedir a prisão de três integrantes do PMDB, Renan, Jucá e Sarney. Eles chegaram ao ponto de querer convocar reuniões para protestar contra o pedido. Eu comecei a questionar, falei assim, “tem alguma coisa errada acontecendo”.
Questionou o quê?
Questionei a questão financeira, a falta de transparência e o apoio repentino do MBL ao PMDB e ao governo Temer e aí, nessa discussão a Raquel afirmou (até mandei o áudio) e ela confirmou que estaria, ela é de Guarapari, né, ela já foi candidata a deputada estadual aqui, pelo PC do B, e aí ela … ela confirmou que … ela é uma pessoa que participou ativamente em Brasília, ela tem acesso ao Congresso, ao Senado, é a pessoa que passava informações pra gente de tudo que acontecia lá dentro, passava telefones de deputados para a gente pressionar, divulgando números, ligando, incentivando pessoas a ligar, então era uma pessoa que participava lá ativamente até mais que o Renan (Santos) e o Kim (Kataguiri).
Mais que o Kim e o Renan?
Mais, tanto é que o Kim e o Renan não participaram da votação, só ela, e o Renan foi retirado, foram retirados, né, de maneira forçada. Ela foi a única figura que ficou lá dentro.
Bráulio Fazolo
Mas ela não aparece assim nacionalmente, nacionalmente, como Kim Kataguiri, Renan Santos, Rubens Nunes e o Fernando Holiday …
A Raquel alega que é uma ponte entre o MBL e esses partidos dentro do Congresso, porque ela é uma figura que tem contato com o PMDB, é aliada do deputado federal Lelo Coimbra, daqui do ES. Ela foi uma ponte para o MBL chegar lá dentro, ter acesso a essas pessoas no Congresso, inclusive, foi um dos motivos dela ter sido nomeada coordenadora geral aqui do Estado. Ela tem passe livre, ela entra e sai a hora que quer, tem contatos lá dentro. E aí, nessa discussão ela confirmou que iria mudar o domicílio, o título de eleitor para Vitória, que ela iria se filiar ao PMDB. Pra mim é muito claro, possivelmente ela vai se candidatar pelo PMDB. Na última reunião que a gente teve pelo MBL, eles expuseram que o MBL deixou de ser um movimento apartidário para ser suprapartidário, e claramente apoia o PMDB.
Em maio surgiu um áudio que revela que o MBL recebeu dinheiro do PMDB, PSDB, DEM e Solidariedade. Você já sabia disso antes dessa informação vazar?
Todas as pessoas que faziam parte da coordenação, da parte interna do MBL sabiam que esses repasses existiram.
Havia prestação de contas?
Nunca houve prestação de contas. Inclusive, é um dos problemas que eu tive porque a gente queria saber quanto estava vindo e para onde esse dinheiro estava indo, até para saber se alguém estava sendo favorecido.
Você recebeu ajuda de custo pelas atividades que desenvolveu?
Não, nenhuma. Nunca recebi nenhuma ajuda de custo do MBL.
Chegou a viajar?
Não, a faculdade me prendia muito, eu tive oportunidade de ir a Brasília no período da votação do impeachment no Congresso, mas era semana de prova.
Iria ficar acampado?
O MBL tinha uma estrutura montada, uma casa, o MBL não ficou acampado, as pessoas da coordenação não ficaram acampadas na votação do impeachment. A coordenação tinha um “QG”, uma casa que foi cedida por um deputado desconhecido, que a gente não sabe quem é, com carro disponível que levava e buscava as pessoas.
Antes da votação houve um acampamento. Nessa época o MBL não tinha essa afinidade, esse encontro do MBL com o PMDB. Depois que o MBL chegou ao PMDB e o partido começou a ajudar, a estrutura do MBL deu uma mudada. Em Brasília havia um lugar pra ficar, carro para levar as pessoas, alimentação. Isso foi depois. O acampamento foi no começo das movimentações para abertura do processo. Na votação já tinha essa cooperação do PMDB com o movimento.
Foi mais ou menos quando que começou essa cooperação?
Uma semana antes … quando os líderes saíram daqui para acompanhar a votação no congresso, as coisas já começaram a mudar e já começou a se falar dessa participação do PMDB colaborando, ajudando o MBL.
No âmbito nacional, Kim Kataguiri conseguiu uma coluna na Folha de São Paulo. Fernando Holiday se filou ao DEM e concorrerá a uma vaga de vereador por São Paulo. Rubens Alberto Gatti Nunes Filho, o “Rubinho”, pretende se candidatar a prefeito de Vinhedo. Você acredita que o MBL é um trampolim para projetos pessoais?
Eu acho, tenho certeza. A Raquel por exemplo, usa o MBL para promover sua imagem política e a gente tem visto isso acontecendo como você expôs no MBL nacional. E aí é o problema. Um movimento que nasceu apartidário de uma hora pra outra começa a ser suprapartidário e começa a vincular em partidos, e começa a dar respostas assim: “olha, não tem como mudar o país sem a política então nós precisamos participar da política”. Até aí tudo bem, mas a estranheza é a relação de fazer aliança com pessoas que estão sendo investigadas e envolvidas em processos de corrupção, como as pessoas que eles acusam. Então é muito claro e notório que eles estão usando da imagem de líderes do movimento para se apresentando a esses partidos, se filiando e tendo a oportunidade de concorrer a cargos.
E a gente vê hoje a troca da presidente por Temer, a gente vê que foi uma simples troca. O que ficou claro pra gente é que vão tirar o PT, e eu sou a favor disso, quero que fique bem claro. O PT tem que sair porque cometeram crimes e eles devem responder por isso. Mas queriam punir somente o PT, e aí punindo o PT parece que tudo está legal. Vamos fazer aliança com o PMDB, ele está do nosso lado e vai ajudar no nosso projeto de chegar à representação política em vários lugares do Brasil, vamos crescer assim, vamos fundar várias instituições… Isso me parece mais um projeto pessoal do que um movimento que está preocupado com as mudanças que o Brasil precisa.
Além da Raquel, você sabe de alguma outra pessoa aqui se aproveitando do MBL para alavancar projetos pessoais?
Eu não sei dizer nomes, mas dos 20 coordenadores, uns cinco ou seis pretendem lançar candidaturas pessoais.
Se arrependeu de fazer parte do movimento?
Olha, eu não me arrependi porque a verdade, por mais que seja triste, seja uma coisa que decepciona a gente, ela é necessária. Talvez se eu não tivesse passado por tudo isso eu estaria hoje achando que o MBL é um movimento que realmente luta pelas causas e pelas mudanças no Brasil. Estou falando aqui do MBL e não é só o MBL não. Infelizmente líderes de movimentos sociais estão sendo comprados, estão recebendo dinheiro de partidos para movimentar, criar um sentimento na população para serem guias de articulações que a gente vê acontecendo hoje. É fato que para o PMDB o apoio popular é uma coisa de suma importância e eu acredito que o partido está se articulando aí nessa figura de pessoas representativas nos movimentos sociais para melhorar essa imagem, querendo buscar de maneira mais fácil uma legitimidade popular para o governo do Temer.
A quais movimentos sociais você se refere?
Eu poderia citar vários, mas como eu não participo, não posso falar assim, o “Fora Dilma”, o “Vem Pra Rua”, porque eu não vivi dentro desses movimentos, mas com a posição que eles assumem em favor do governo alegando que novas eleições no Brasil seriam uma articulação do PT, eu sinto que essas pessoas também estão envolvidas.
A militância no MBL chegou a atrapalhar sua vida particular?
A gente acaba dedicando uma parte considerável do tempo da gente por uma causa, que eu acho assim, a questão do Brasil hoje é uma coisa que interessa a todos nós. Quem não está sofrendo com a questão econômica? Então eu acho que aquele tempo investido ali tinha um propósito que compensava o tempo que eu deixava de trabalhar pra mim, é uma coisa que querendo ou não iria beneficiar mais na frente não só eu mas todos os brasileiros. É lógico que sim, a gente acaba deixando de empregar tempo para atividades pessoais.
Você se arrepende?
Eu não me arrependo, inclusive minha luta continua. Vou continuar lutando ativamente contra a corrupção no Brasil.
Como pretende continuar?
Minha luta continua na rua, falando para um e para outro, criando grupos de discussão, grupos nas redes sociais, batendo na tecla de que as pessoas devem se envolver na política, que elas devem pensar.
Raquel Gerde
Acompanhe as publicações do DCM no Facebook. Curta aqui.