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quinta-feira, 25 de setembro de 2025

Discurso de Lula na ONU na última terça-feira, dia 23, ecoou na imprensa internacional na quarta, dia 24

 

Veículos dos EUA, Europa e Ásia repercutem o discurso de Lula na ONU e as sanções externas que ampliam a tensão diplomática do Brasil

Da Redação do Jornal GGN:


A imprensa internacional destacou nesta quarta-feira (24) o discurso do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) na abertura da 80ª Assembleia Geral da ONU, no qual defendeu a democracia e criticou pressões externas. O Brasil também ganhou espaço na cobertura global em razão das sanções impostas pelos Estados Unidos e de temas econômicos que movimentam o cenário interno. Confira:


A repercussão nos Estados Unidos


The New York Times destacou a reação do presidente norte-americano, Donald Trump, após o discurso “contundente” de Lula, na Assembleia Geral da ONU. Também citou o breve encontro entre os líderes nos bastidores do evento.

Já o The Washington Post publicou que Trump aproveitou seu discurso para fazer críticas à ONU e atacar políticas climáticas e de migração — e ressaltou o contato com Lula como ato simbólico.

Reuters fez uma cobertura sobre compromissos econômicos e decisões macro, com reportagem sobre o anúncio de investimento de US$1 bilhão do Brasil no Fundo Global de Florestas Tropicais e também sinalizações do Banco Central quanto à nova etapa de manutenção da taxa Selic.

agência ainda reportou que Trump anunciou uma reunião com Lula na “próxima semana”, após mencionar que os dois tiveram “química excelente” durante contato nos corredores da ONU.

The Associated Press (AP), por sua vez, publicou vídeo com trechos do discurso de Lula na ONU e também uma matéria sobre o impacto das leis de armas no tráfico para o crime organizado no Brasil.

A repercussão na Europa


The Guardian fez uma ampla cobertura do discurso de Lula na ONU, com live-updates e análise do posicionamento do presidente brasileiro contra o que chamou de ameaças autoritárias e pressões externas.

O Le Monde tratou o contexto europeu e global (incluindo críticas a Trump na ONU) e publicou análises sobre a posição do Brasil.

El País destacou o contato entre Lula e Trump e publicou análise sobre o papel do Brasil na COP30.

AFP / BBC / Deutsche Welle (DW) acompanharam o UNGA e repercussões diplomáticas e domésticas; AFP publicou notas sobre mensagens do Brasil.

A repercussão na Ásia


A cobertura oficial chinesa, da Xinhua, enfatizou a Assembleia Geral da ONU em tom de multilateralismo e destacou o papel do Brasil no debate global (reportagens e fotos do primeiro dia da Assembleia).

China Daily e Global Times publicaram os desdobramentos multilaterais e as oportunidades econômicas/ambientais entre China e Brasil, além de comentar as posições de Lula e as reações às retaliações dos EUA.

Times of India noticiou a Assembleia Geral da ONU como parte do balanço global do dia, citando o discurso de Lula.

A mídia russa TASS cobriu a participação do Brasil no contexto BRICS/Assembleia Geral da ONU, com foco em respostas multilaterais.

Nota da redação: Este texto, especificamente, foi desenvolvido parcialmente com auxílio de ferramentas de Inteligência Artificial. A equipe de jornalistas do Jornal GGN segue responsável pelas pautas, produção, apuração, entrevistas e revisão de conteúdo publicado, para garantir a curadoria, lisura e veracidade das informações.

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terça-feira, 8 de abril de 2025

O que querem esconder? Exército veta ex-preso político em visita da ONU no quartel em que funcionou DOI-Codi na ditadura militar

 

Do ICL Notícias:


Juliana Dal Piva
Juliana Dal Piva

Formada pela UFSC com mestrado no CPDOC da FGV-Rio. Foi repórter especial do jornal O Globo e colunista do portal UOL. É apresentadora do podcast "A vida secreta do Jair" e autora do livro "O negócio do Jair: a história proibida do clã Bolsonaro", da editora Zahar, finalista do prêmio Jabuti de 2023.

COLUNISTAS ICL

Exército veta ex-preso político em visita da ONU no quartel em que funcionou DOI-Codi

Ex-preso Newton Leão já tinha feito visitas com a Comissão Nacional da Verdade entre 2013 e 2014


Os responsáveis pelo 1º Batalhão de Polícia do Exército, no Rio de Janeiro, proibiram que o ex-preso político Newton Leão visitasse o quartel na rua Barão de Mesquita, na Tijuca, no Rio de Janeiro, no último sábado (5). Ele iria acompanhar o relator especial das Nações Unidas (ONU) para a Promoção da Verdade, Justiça, Reparação e Garantias de Não-Repetição, Bernard Duhaime, durante a apresentação do local, mas foi impedido pelos militares de circular junto com o representante da ONU.

“No sábado eu fui convidado a ir pelo próprio relator, através do coletivo Memória Verdade e Justiça, para acompanhar a visita porque eu sou um preso que fiquei muito tempo na PE. Fui preso em 1969 e fiquei lá de julho de 1969 até o carnaval de 1970″, contou o engenheiro Newton Leão.

Exército veta ex-preso político em visita da ONU no quartel em que funcionou DOI-Codi

Ex-preso político, o engenheiro Newton Leão Duarte

Ele relatou à coluna que já tinha feito visitas com a Comissão Nacional da Verdade entre 2013 e 2014 e até feito plantas do local. “Mostrei pra CNV as celas, os locais de tortura”, recordou ele, que foi impedido de fazer o mesmo com o relator da ONU.

“Fomos barrados no baile. Chegamos lá e não sei por qual motivo, não ficou claro para nós, eu e o Felipe Nin, familiar de uma vítima, fomos impedidos de entrar enquanto a comissão entrava. O argumento foi de que nossos nomes não foram colocados na lista”, explicou ele, ao dizer que teve que aguardar a visita na área social do batalhão. A coluna procurou o Ministério da Defesa, mas não obteve retorno.

Como revelou a coluna na segunda-feira (7), Duhaime também não conseguiu visitar o antigo prédio do Dops (Departamento de Ordem Política e Social), no centro do Rio de Janeiro, porque o governo de Cláudio Castro não permitiu. Procurado, Duhaime não quis se manifestar sobre as negativas.

Mortos e desaparecidos da ditadura

Felipe Nin, sobrinho de Raul Amaro Nin e integrante do coletivo, também foi barrado na visita para qual tinha sido convidado. Ele também criticou a posição do governo do Rio de proibir a visita no antigo prédio do Dops “O coletivo repudia a ação do governo do estado em impedir a visita do relator da ONU no prédio do Dops. Isso representa o compromisso do governo do estado em encobrir os crimes cometidos pela ditadura nesse lugar. Essa posição é semelhante em relação ao Ministério da Defesa e o comando do quartel que impediram um familiar e um ex-preso de acompanhar a visita no antigo DOI-Codi”, criticou Felipe Nin.

Em ofício enviado ainda na sexta-feira (4), o secretário de Polícia Civil, Felipe Curi, respondeu para o Ministério de Direitos Humanos que “no tocante à visitação, informamos que o prédio encontra-se fechado à visitação pública, e para os casos de visitação técnica, o Instituto Estadual do Patrimônio Cultural — Inepac não recomenda a visitação, em razão do atual monitoramento da estabilidade do imóvel e garantia da segurança para evitar sinistro no prédio, após recente reforma”.

O Dops está fechado e tanto esse prédio como o quartel onde funcionou o Doi-Codi são alvo de ações do Ministério Público Federal para criação de espaços de memória. O quartel ainda precisa de tombamento.

Duhaime cumpre agendas no país a convite do governo brasileiro. A visita, que ocorre entre os dias 30 de março e 7 de abril, está sendo organizada pelo Ministério das Relações Exteriores (MRE) em conjunto com o Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania (MDHC).

Durante a visita, o relator faz encontros para acompanhar e avaliar políticas públicas e ações voltadas para garantir a responsabilização de violadores de direitos humanos; promover a verdade e a memória sobre violações passadas; fornecer soluções às vítimas; e prevenir a recorrência de crises futuras e violações de direitos humanos.




sexta-feira, 5 de abril de 2024

Conselho de Direitos Humanos da ONU decide que Israel deve responder por crimes contra a Humanidade

 

Vinte e oito países votaram a favor, 13 abstiveram-se e seis opuseram-se à resolução, incluindo os Estados Unidos e a Alemanha

Plenário das Nações Unidas
Plenário das Nações Unidas (Foto: Reprodução/Nações Unidas)

Reuters O Conselho de Direitos Humanos das Nações Unidas adotou na sexta-feira uma resolução apelando a que Israel seja responsabilizado por possíveis crimes de guerra e crimes contra a humanidade na Faixa de Gaza, embora Israel a tenha rejeitado como um “texto distorcido”.

Vinte e oito países votaram a favor, 13 abstiveram-se e seis opuseram-se à resolução, incluindo os Estados Unidos e a Alemanha. A adoção fez com que vários representantes do Conselho aplaudissem e aplaudissem.

A resolução sublinhou “a necessidade de garantir a responsabilização por todas as violações do direito internacional humanitário e do direito internacional dos direitos humanos, a fim de acabar com a impunidade”.

Expressou também "grave preocupação com relatos de graves violações dos direitos humanos e graves violações do direito humanitário internacional, incluindo possíveis crimes de guerra e crimes contra a humanidade no Território Palestiniano Ocupado".

Meirav Eilon Shahar, representante permanente de Israel nas Nações Unidas em Genebra, acusou o Conselho de ter "abandonado há muito tempo o povo israelense e defendido por muito tempo o Hamas".

“De acordo com a resolução que hoje vos é apresentada, Israel não tem o direito de proteger o seu povo, enquanto o Hamas tem todo o direito de assassinar e torturar israelitas inocentes”, disse ela antes da votação. "Um voto 'Sim' é um voto no Hamas."

Os Estados Unidos comprometeram-se a votar contra a resolução porque não continha uma condenação específica do Hamas pelos ataques de 7 de Outubro, nem “qualquer referência à natureza terrorista dessas acções”.
No entanto, afirmou que o seu aliado Israel não tinha feito o suficiente para mitigar os danos aos civis.

“Os Estados Unidos solicitou a Israel a resolver os conflitos das operações militares contra o Hamas com operações humanitárias, a fim de evitar vítimas civis e garantir que os intervenientes humanitários possam cumprir a sua missão essencial em segurança”, disse Michèle Taylor, representante permanente dos EUA junto da ONU. Conselho.

“Isso não aconteceu e, em apenas seis meses, mais humanitários foram mortos neste conflito do que em qualquer guerra da era moderna.”

O Conselho de Direitos Humanos da ONU, que se reúne várias vezes por ano, é o único órgão intergovernamental concebido para proteger os direitos humanos em todo o mundo. Pode aumentar o escrutínio dos registos de direitos humanos dos países e autorizar investigações.

domingo, 26 de novembro de 2023

Pepe Escobar: Diante do fracasso do Ocidente e sua fomentação das guerras eternas... A Ordem de Despejo está sendo redigida e virá em Quatro Línguas

 

A nova ONU em construção é o BRICS 11 – na verdade, BRICS 10, considerando que a Argentina pode ser relegada a um papel marginal

(Foto: Felipe L. Gonçalves/Brasil247 | ABR)


O Cristianismo Ortodoxo, o Islã moderado e diversas cepas do Taoísmo/Confucionismo podem se tornar as três principais civilizações de uma Humanidade purificada. 

A Ordem de Despejo está sendo escrita. E ela virá em quatro línguas. Russo. Farsi. Mandarim. E por último, mas não menos importante, Inglês. 

Um prazer muito valorizado da escrita profissional é sempre ser enriquecido por leitores informados. Essa ideia do "despejo" – valendo mil tratados sobre geopolítica – foi oferecida por um de meus leitores mais perspicazes em um   comentário a uma coluna minha. 

De forma concisa, o que temos aqui expressa um consenso profundo em todo  o espectro, não apenas no Oeste Asiático, mas também na maior parte das latitudes de todo o Sul Global/Maioria Global.

O Impensável, na forma de um genocídio conduzido ao vivo, em tempo real, em cada smartphone do mundo, na terceira década do milênio a que chamei de Os Frenéticos Anos Vinte em um livro anterior – atuou como um acelerador de partículas, concentrando corações e mentes. 

Os que optaram por atear fogo ao Oeste Asiático já vêm enfrentando uma dolorosa reação. E isso vai muito além da diplomacia exercida pelos líderes do Sul Global. 

Pela primeira vez em décadas, a China foi mais do que explícita em termos geopolíticos (um verdadeiro estado soberano não pode tergiversar quando se trata de genocídio). A posição inequívoca da China quanto à questão palestina vai muito além da rotina geoeconômica de promover os corredores de comércio e transporte da ICR.  

Enquanto isso, o Presidente Putin definiu o envio de ajuda humanitária à Gaza como um "dever sagrado", o que, no código russo, inclui, crucialmente, o espectro militar.

Apesar de todas as manobras e ocasionais tomadas de posição, todos sabem que, para todos os fins práticos,  o atual acordo  da ONU apodreceu além de qualquer possibilidade de conserto, sendo totalmente impotente quando se trata de impor negociações de paz significativas, sanções e investigação de crimes de guerra em série.  

A nova ONU em construção é o BRICS 11 – na verdade, BRICS 10, considerando que a Argentina, o novo Cavalo de Tróia, na prática pode ser relegada a um papel marginal, caso o país venha a ingressar na organização em 1º de janeiro de 2024. 

Os BRICS 10, liderados pela Rússia-China, ambas regidas por uma forte bússola moral, mantêm os ouvidos colados ao solo e ouvem o que é dito nas ruas árabes e nas terras do Islã. Em especial pela população, muito mais que pelas elites. Esse será um elemento essencial em 2024, durante a presidência russa dos BRICS.

Mesmo sem fazer check-out, você terá que sair

A atual ordem do dia do Grande Novo Jogo é organizar a expulsão do Hegêmona do Oeste Asiático – o que é um desafio tanto técnico quanto civilizacional. 

Nas atuais circunstâncias, o continuum Washington-Tel Aviv já é prisioneiro de suas próprias maquinações. Aqui não é o  Hotel California: você não pode fazer check-out à hora que quiser, mas será forçado a sair.  

Isso pode ocorrer de maneira relativamente branda  – pensem em Cabul como uma remixagem de  Saigon – ou, se as coisas ficarem pretas, talvez implique um Apocalypse Now naval, com as caríssimas banheiras de ferro transformadas em atóis de corais submarinos e o fim do CENTCOM  e de sua projeção, o AFRICOM.

O vetor crucial de todo esse processo é como o Irã  – e a Rússia – vêm pondo em prática, ano após ano, com paciência infinita, a grande estratégia criada pelo General Soleimani, cujo assassinato de fato deu início aos Frenéticos Anos Vinte.  

Um Hegêmona desarmado não conseguiria derrotar o novo "eixo do mal" Rússia-Irã-China, não apenas no Oeste Asiático mas também em qualquer outro lugar da Europa, da Ásia-Pacífico e na Pan-África. A participação direta e a normalização do genocídio serviram apenas para acelerar a progressiva e inevitável exclusão do Hegêmona de boa parte do Sul Global. 

Enquanto isso, a Rússia construía meticulosamente  a integração do Mar Negro, do Mar Cáspio, do Mar Báltico (apesar de toda a histeria finlandesa), o Ártico e o Mar do Noroeste do Pacífico, e a China turbina a integração do Mar do Sul da China.

Xi e Putin são exímios jogadores de xadrez e de go   – e se beneficiam da presença de eminentes consultores do calibre de Patrushev e Wang Yi. O go geopolítico jogado pela China é um exercício em não-confrontação: tudo o que você tem que fazer é bloquear a capacidade de movimento de seu  oponente.

Xadrez e go, em uma parceria diplomática, representam um jogo no qual você não interrompe seu oponente quando ele está dando sucessivos tiros no pé. Como bônus extra, você consegue que se oponente passe a antagonizar 90% da população do mundo. 

Tudo isso acabará por levar ao colapso a economia do Hegêmona. Quando então ele poderá ser derrotado à revelia.

Os "valores" ocidentais soterrados nos escombros  

Enquanto a  Rússia, especialmente graças aos esforços de Lavrov, oferece ao Sul Global/Maioria Global um projeto civilizacional focado em uma multipolaridade mutuamente respeitosa, a China, com  Xi Jinping, oferece a ideia de uma "comunidade com um futuro compartilhado" e um conjunto de iniciativas  discutidas em longos detalhes no Fórum da Iniciativa Cinturão e Rota (ICR) realizado em Pequim em outubro, no qual a Rússia, não acidentalmente, foi a convidada de honra. 

Um grupo de acadêmicos chineses descreve de forma concisa  esse enfoque como a China "criando e facilitando nós globais para as relações/ comunicações, e plataformas para colaboração concreta e intercâmbios práticos. Os participantes mantêm-se Soberanos e contribuem para os esforços em comum (ou simplesmente em projetos específicos), recebendo benefícios que incentivem sua participação continuada". 

É como se Pequim estivesse  atuando como uma espécie de luminosa estrela guia. 

Em nítido contraste, o que resta da civilização ocidental – certamente não tendo muito em comum com Montaigne, Pico della Mirandola ou Schopenhauer – mergulha cada vez mais fundo em um autoconstruído Coração das Trevas (sem a grandeza literária de Conrad), confrontado com o verdadeiro e irremediavelmente horripilante individualismo conformista e subserviente.  

Bem-vindos ao Novo Medievalismo precipitado pelos "kill apps" do racismo ocidental, como mostrado em um livro brilhante,  Chinese Cosmopolitanism, de autoria do acadêmico  Shuchen Xiang, professor de Filosofia na Universidade de  Xidan.

Os "kill apps"  do racismo ocidental, escreve o Professor Xiang, são o medo da mudança; a ontologia do dualismo bivalente; a invenção do "bárbaro" como o Outro racial; a metafísica do colonialismo; e a natureza insaciável da psicologia racista.  Todos esses "apps" agora estão explodindo, em tempo real, no Oeste Asiático. A principal consequência é que os "valores" ocidentais  já pereceram, soterrados nos escombros de Gaza. 

Agora, um raio de luz: é possível defender a ideia – e voltaremos a esse ponto -  de que o Cristianismo ortodoxo, o Islã moderado e diversas cepas do Taoísmo/Confucionismo podem abraçar o futuro como as três principais civilizações de uma Humanidade purificada. 

Tradução de Patricia Zimbres


domingo, 23 de julho de 2023

Jamil Chade, em sua coluna do UOL: Ida a continente errado mostra ignorância bolsonarista em direitos humanos

 

Do UOL:

A viagem, acima de tudo, revela o desconhecimento e ignorância do grupo em relação aos direitos humanos e à diplomacia brasileira. Como bem disse meu companheiro Chico Alves, "esse avião passa na ONU?".

21.set.2021 - O ex-presidente Jair Bolsonaro durante o discurso de abertura da 76ª Assembleia-Geral da ONU. Imagem: AFP

Jamil Chade - Colunista do UOL


Afinal, onde fica a ONU? Bom, depende do assunto que você pretende tratar. Caso seja um tema relacionado com a paz mundial, o destino é Nova Iorque e seu Conselho de Segurança. Se a questão for drogas e crime, pegue um avião para Viena. Se o assunto for Justiça, Haia é o destino. Se a questão é moradia, o interessado deve se encaminhar para Nairobi. Já temas sobre cultura e educação, a sede fica em Paris.

Mas se o assunto for a situação de pessoas detidas e a questão de direitos humanos, é uma obrigação ir até Genebra, na Suíça.

Nos últimos dias, descobrimos que os senadores Eduardo Girão (Novo-CE), Magno Malta ( PL-ES) e Carlos Portinho (PL-RJ), juntamente com o deputado Marcel van Hattem (Novo-RS) foram até Nova Iorque para entregar à ONU documento assinado por 52 parlamentares bolsonaristas. O texto "denuncia" uma suposta violação de direitos dos cerca de 200 extremistas que continuam presos e que atacaram a democracia brasileira em 8 de janeiro.

A viagem, acima de tudo, revela o desconhecimento e ignorância do grupo em relação aos direitos humanos e à diplomacia brasileira. Como bem disse meu companheiro Chico Alves, "esse avião passa na ONU?".

Bom, a realidade é que o Comitê de Direitos Humanos da ONU tem sua sede, seu escritório e seu staff no Palais Wilson, edifício à beira do Lago Leman e antiga sede da Liga das Nações.

Sempre foi lá. Nunca mudou.

Ele implementa a Convenção Internacional de Direitos Civis e Políticos. Apesar de um tratado ser de 1966, foram necessários mais dez anos para que ele entrasse em vigor e tivesse a ratificação de um número mínimo de governos para funcionar.

Hoje, caso os bolsonaristas acertem o destino de sua denúncia, terão de esperar entre dois e cinco anos para que uma decisão seja tomada.

Curiosamente, trata-se do mesmo órgão que examinou a petição entregue por Luiz Inácio Lula da Silva, denunciando a parcialidade do então juiz Sergio Moro. Anos depois da queixa e com Lula já solto, o órgão da ONU confirmou que o ex-juiz e atual senador cometeu irregularidades em seu comportamento.

Naquele momento, bolsonaristas acusaram a ONU de comunista, globalista e outras palavras que duvido que saibam o significado.

Agora, serão exatamente os mesmos peritos que irão avaliar o caso dos bolsonaristas.

O que aconteceu para que eles recorram ao órgão que tanto atacaram?

Mas não vamos nos antecipar. Primeiro, temos de encontrar o endereço certo. Para isso, basta um correio eletrônico com as informações. Para facilitar, deixo aqui o email:

ohchr-petitions@un.org

Há também uma segunda opção, enviando por correio tradicional. Neste caso, o endereço é:

Petitions and Inquiries Section/Human Rights Committee

Office of the United Nations High Commissioner for Human Rights

United Nations Office at Geneva

1211 Geneva 10, Switzerland

Não há necessidade de colocar o continente. Os correios sabem onde fica a Suíça.

Mas, antes disso, a petição terá de ser enviada por meio de um formulário. Neste caso, entrem e preencham os dados solicitados no link:

https://www.ohchr.org/en/documents/tools-and-resources/form-and-guidance-submitting-individual-communication-treaty-bodies

Detalhe: não vale preencher em português.

Fazer um lobby certamente é parte do jogo. Mas entregar um documento para o embaixador do Brasil na ONU em Nova Iorque é bater à porta errada. Para que o assunto tenha seguimento, o destino seria a missão do Brasil na ONU, em Genebra.

Sugiro procurar um dos diplomatas mais experientes e bem relacionados do Itamaraty: Tovar Nunes da Silva, o embaixador encarregado de temas de direitos humanos.

De fato, era para Genebra que Damares Alves e sua tropa ultraconservadora embarcavam cada vez que discursavam ou iam defender sua agenda indefensável de direitos humanos na ONU. Eram solenemente ignorados ao tentar fazer vingar suas ideias.

Em certas ocasiões, me deparei com funcionários de altíssimo escalão da ONU zombando da delegação de Damares, depois dos encontros que mantinham com a delegação brasileira.

Isso é outra história. Mas, como diz a escritora Juliana Monteiro, é a mesma história.

segunda-feira, 20 de junho de 2022

Jamil Chade, no UOL: Mortes de Dom e Bruno 'sepultam' planos de Bolsonaro no exterior e aprofundam crise

 

Do UOL:

Os assassinatos de um indigenista e um jornalista escancaram uma crise de imagem "sem precedentes" para o Brasil, que já era alvo de questionamentos, críticas e preocupações internacionais. Para experientes diplomatas ouvidos pela coluna, a confirmação das mortes de Bruno Pereira e de Dom Phillips aprofunda um mal-estar e pode "sepultar" qualquer tentativa de inserção do governo de Jair Bolsonaro no exterior. A análise é do colunista Jamil Chade.





terça-feira, 25 de janeiro de 2022

Ucrânia: quem de fato atiça a guerra em zona crítica. Texto de Boaventura de Sousa Santos, sociólogo português, professor emérito da Universidade de Coimbra

 

Washington acusa Moscou, mas desloca porta-aviões e tropas para a fronteira russa. Crise dos mísseis, em 1963, e Acordos de Minsk revelam: EUA querem exibir seus músculos. Exame histórico da crise desfaz versões da mídia ocidental

Os exigentes desafios que o mundo enfrenta neste momento – da crise climática à pandemia, do agravamento da Guerra Fria ao perigo de uma confrontação nuclear, do aumento das violações dos direitos humanos ao crescimento exponencial do número de refugiados e de pessoas com fome – exigem mais do que nunca uma intervenção ativa do ONU, cujo mandato inclui a manutenção da paz e da segurança coletivas e a defesa e promoção dos direitos humanos. Entre muitas áreas de intervenção em que a ONU pode intervir, uma das mais importantes é a da paz e segurança, e respeita concretamente ao agravamento da Guerra Fria. Iniciada por Donald Trump e prosseguida com entusiasmo por Joe Biden, está em curso uma nova Guerra Fria que tem aparentemente dois alvos, a China e a Rússia, e duas frentes, Taiwan e Ucrânia. À partida, parece insensato que uma potência em declínio, como são os EUA, se envolva numa confrontação em duas frentes simultaneamente. Para mais, ao contrário do que se passou com a Guerra Fria anterior, visando a União Soviética, a China é uma potência de grande poder econômico e um importante credor da dívida pública dos EUA. Está a ponto de ultrapassar os EUA como a maior economia mundial e, segundo a National Science Foundation dos EUA, teve pela primeira vez em 2018 uma produção científica superior à dos EUA. Acresce que a lógica aconselharia os EUA a ter a Rússia como aliada e não como inimiga, não só para a separar da China, como para acautelar as necessidades energéticas e geoestratégicas da sua aliada histórica, a Europa. A mesma lógica aconselharia a UE a ter presente as relações históricas e econômicas da Europa central com a Rússia (até à Ostpolitik de Willy Brandt).

É particularmente preocupante que os neocons (os políticos e estrategistas ultraconservadores que desde o ataque às Torres Gêmeas em 2001 dominam a política externa dos EUA) acirrem simultaneamente as hostilidades com a Rússia e apelem para que os EUA se preparem para uma guerra com a China no final da década, uma guerra quente de tipo novo (a guerra com os meios da inteligência artificial). O poder mediático internacional dos neocons é impressionante. Tal como aconteceu em 2003 com os preparativos da invasão do Iraque, assistimos a um unanimismo alarmante dos comentadores de política externa no mundo ocidental. De repente, a China, que até agora era um parceiro comercial importante e fiável, passa a ser uma ditadura que viola massivamente os direitos humanos e uma potência malévola que quer controlar o mundo, desígnios que têm de ser neutralizados a todo o custo. Por sua vez, a Rússia, até agora um parceiro estratégico (caso do acordo nuclear com o Irã), é agora um país governado por um presidente autoritário e agressivo, Vladimir Putin, que quer invadir a democrática Ucrânia. Para a defender, os EUA ajudarão militarmente e, para isso, a Ucrânia deve juntar-se à Otan. Esta narrativa, apesar de ser falsa, é reproduzida sem contraditório no Washington Post e no New York Times, é depois ampliada pela Reuters e Associated Press e secundada pelos briefings das embaixadas dos EUA. Os comentadores ocidentais apenas a regurgitam acriticamente. Perante isto, é urgente que se faça ouvir e sentir a intervenção da ONU para travar a deriva de uma terceira guerra mundial.

A ONU tem informação abundante que lhe permite contrariar esta narrativa e intervir ativamente para neutralizar o seu potencial destrutivo. A Ucrânia é um país etnolinguisticamente dividido entre um ocidente predominantemente ucraniano e um oriente predominantemente russo. Ao longo da década de 2000, as eleições e os inquéritos de opinião revelaram a oposição entre um ocidente pró-União Europeia e pró-Otan, por um lado, e um oriente pró-Rússia, por outro. Em termos de recursos energéticos, a Ucrânia depende em 72% do gás natural da Rússia, tal como acontece com outros países europeus (a Alemanha depende em 39%), o que dá uma ideia do poder de negociação da Rússia neste domínio. Desde o fim da União Soviética, os EUA têm vindo a tentar retirar a Ucrânia da órbita da Rússia e integrá-la na do mundo ocidental e, de fato, transformá-la num bastião pró-norte-americano na fronteira da Rússia. Esta estratégia tem tido pilares: integrar a Ucrânia militarmente na Otan (aprovada na Cúpula de Bucareste de 2008, tal como a Geórgia, outro país com fronteira com a Rússia) e economicamente na União Europeia. A revolução laranja, ou melhor, o golpe de 22 de fevereiro de 2014, fortemente apoiado pelos EUA, foi o pretexto para acelerar a estratégia ocidental. Teve a sua causa imediata na recusa do presidente Yanukóvytch em assinar um acordo de integração econômica com a UE que deixava de fora a Rússia. Seguiram-se protestos, muita agitação social e uma repressão governamental brutal que se saldaram em mais de 60 mortes (sabe-se hoje que havia grupos fascistas fortemente armados entre os manifestantes). Em 22 de fevereiro, o presidente foi obrigado a sair do país. A “promoção da democracia” conduzida pelos EUA tinha dado resultado: a “revolução laranja” iniciava a sua política antirrussa. A Rússia tinha avisado que a integração na Otan e a integração exclusiva na UE constituía uma “ameaça direta” à Rússia. Nos meses seguintes, a Rússia ocupou a Crimeia onde já tinha uma importante base militar. 

Em 2014 e 2015, celebraram-se os protocolos de Minsk com a intermediação da Rússia, França e Alemanha. Reconhecia-se a especificidade etnolinguística da região do rio Don (Donbas) (maioritariamente de língua russa) e previa-se o estabelecimento, a cargo da Ucrânia e segundo a lei ucraniana, de um sistema de autogoverno para a região (que abrange áreas dos distritos de Donetsk e Lugansk). Estes protocolos nunca foram cumpridos pela Ucrânia. A tensão voltou agora a aumentar com a suposta intenção da Rússia de invadir a Ucrânia. E é mesmo provável que o faça (certamente limitada à Ucrânia oriental etnicamente russa) se a Otan, os EUA e a UE continuarem a sua política de hostilização. Perante tudo isso, é de perguntar se quem tem vindo a criar perturbação nesta região do mundo é a Rússia ou os EUA. Todos nos recordamos da crise dos mísseis de 1962, quando a União Soviética se propôs instalar mísseis em Cuba. A reação norte-americana foi terminante; tratava-se de uma ameaça direta à soberania dos EUA e em nenhum caso se aceitariam tais armas na sua fronteira. Chegou a soar o alarme de uma guerra nuclear. Foi esta reação muito diferente da reação atual da Rússia perante a perspectiva de a Ucrânia vir a integrar a Otan? Em 2017 foi tornado público o relato da reunião entre o Secretário de Estado norte-americano James Baker e Mikhail Gorbachev realizada em 9 de fevereiro de 1990. Nessa reunião foi a acordado que se a Rússia facilitasse a reunificação da Alemanha, a Otan “não se expandiria um centímetro para leste” (http://nsarchive.gwu.edu). Apesar disso e de extinto o Pacto de Varsóvia, nove anos depois a Polônia, Hungria e República Checa juntavam-se à Otan. E nenhum comentador se lembra que em 2000, quando chegou ao poder, Vladimir Putin manifestou publicamente o desejo de a Rússia vir a integrar a Otan e também a UE, para a Rússia “não ficar isolada na Europa”. Ambos os pedidos foram recusados. 

Em face disto, a ONU sabe que a Rússia não é a única potência agressiva no conflito atual, e que bastaria que os acordos de Minsk fossem cumpridos pela Ucrânia para a hostilidade cessar. Porque é que a Ucrânia não pode permanecer um país neutro como a Finlândia, a Áustria ou a Suécia? Se houver guerra nesta região, o teatro de guerra será a Europa, e não os EUA. A mesma Europa que há pouco mais de 70 anos se ergueu de um inferno de duas guerras mundiais que se saldaram em cerca de 100 milhões de mortes. Se a ONU quer ser a voz da paz e da segurança que consta do seu mandato, tem de assumir uma posição muito mais ativa e mais independente da dos países envolvidos. Tem de averiguar in situ o que se passa nos territórios onde as grandes potências se digladiam e se preparam para guerras de hegemonia em que provavelmente serão os aliados menores a sofrer as consequências e a pagar com vidas (Taiwan ou Ucrânia) – as chamadas proxy wars  mesmo se a política agressiva do “regime change” visa a Rússia e a China, eventualmente com resultados semelhantes aos que teve no Iraque, na Líbia ou no Afeganistão. O mundo precisa de ouvir vozes autorizadas que não repitam o script imposto pelos rivais. A mais autorizada de todas é a da ONU.


segunda-feira, 20 de setembro de 2021

Sem ter tomado a vacina, Bolsonaro dá vexame em Nova York e é OBRIGADO, a bem da saúde pública, a comer pizza na rua

 Jair Bolsonaro não pode entrar em restaurantes porque se recusou a se vacinar contra a covid-19

Bolsonaro em Nova York
Bolsonaro em Nova York (Foto: Bolsonaro em Nova York)

247 – Jair Bolsonaro, que fez campanha contra a vacinação no Brasil e é chamado de genocida no Brasil e no mundo, passou vexame em Nova York, onde foi obrigado a comer pizza na rua, com sua comitiva, porque não pode entrar em restaurantes. A cidade não aceita que pessoas não vacinadas entrem em ambientes fechados. A cena representa mais uma humilhação internacional para o Brasil, que vem tendo sua imagem internacional destruída desde o golpe de estado contra a ex-presidente Dilma Rousseff e a posterior ascensão do fascismo. Confira algumas reações:

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