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sábado, 14 de maio de 2016

Governo interino já nasce morto, por Vladimir Safatle



  "Nós acusamos os representantes desse governo interino de serem personagens de outro tempo, zumbis de um passado que teima em não morrer. Eles não são a solução para a crise política, mas a própria crise política no poder. Suas práticas políticas oligárquicas e palacianas só poderiam redundar em um golpe parlamentar denunciado no mundo inteiro. Por isso, eles temem toda possibilidade de eleições gerais. Eles governarão com a violência policial em uma mão e com a cartilha fracassada das políticas de "austeridade" na outra."

Jornal GGN"Nós acusamos o governo interino que agora se inicia de já nascer morto. Nunca na história da República brasileira um governo começou com tanta ilegitimidade e contestação popular", disse o professor Vladimir Safatle, em artigo na Folha.
"Nós acusamos os representantes desse governo interino de serem personagens de outro tempo, zumbis de um passado que teima em não morrer". "Nós acusamos setores hegemônicos da imprensa de regredirem a um estágio de parcialidade há muito não visto no país", seguiu o especialista.
Leia a coluna completa:
Por Vladimir Safatle
Da Folha de S. Paulo
Diante da gravidade da situação nacional e da miséria das alternativas que se apresentam:
Nós acusamos o governo interino que agora se inicia de já nascer morto. Nunca na história da República brasileira um governo começou com tanta ilegitimidade e contestação popular. Se, diante de Collor, o procedimento de impeachment foi um momento de reunificação nacional contra um presidente rejeitado por todos, diante do governo Dilma o impeachment foi o momento em que tivemos de construir um muro para separar a Esplanada dos Ministérios em dois.
Esse muro não cairá, ele se aprofundará cada vez mais. Aqueles que apoiaram Dilma e aqueles que, mesmo não a apoiando compreenderam muito bem o oportunismo de uma classe política à procura de instrumentalizar a revolta popular contra a corrupção para sua própria sobrevivência, não voltarão para casa. Esse será o governo da crise permanente.
Nós acusamos os representantes desse governo interino de serem personagens de outro tempo, zumbis de um passado que teima em não morrer. Eles não são a solução para a crise política, mas a própria crise política no poder. Suas práticas políticas oligárquicas e palacianas só poderiam redundar em um golpe parlamentar denunciado no mundo inteiro.
Por isso, eles temem toda possibilidade de eleições gerais. Eles governarão com a violência policial em uma mão e com a cartilha fracassada das políticas de "austeridade" na outra. Políticas que nunca seriam referendadas em uma eleição. Com tais personagens no poder, não há mais razão alguma para chamar o que temos em nosso país de "democracia".
Nós acusamos o governo Dilma de ter colocado o Brasil na maior crise política de sua história. A sequência de escândalos de corrupção não foi uma invenção da imprensa, mas uma prática normal de governo.
De nada adianta dizer que essa prática sempre foi normal, pois a própria existência da esquerda brasileira esteve vinculada à possibilidade de expulsar os interesses privados da esfera do bem comum, moralizando as instituições públicas.
Que os setores da esquerda brasileira no governo façam sua autocrítica implacável. Por outro lado, a procura pela criação de uma conciliação impossível apenas levou o governo a se descaracterizar por completo, a abraçar o que ele agora denuncia, distanciando-se de seus próprios eleitores. O caráter errático deste governo foi a mão que cavou sua própria sepultura. Que esta errância sirva de lição à esquerda como um todo.
Nós acusamos aqueles que nunca quiseram encarar o dever de acertar contas com o passado ditatorial brasileiro e afastar da vida pública os que apoiaram a ditadura como responsáveis diretos pela instauração desta crise. A crise atual é a prova maior do fracasso da Nova República.
Que um candidato fascista (e aqui o termo é completamente adequado) como Jair Bolsonaro tenha hoje 20% das intenções de voto entre os eleitores com renda acima de dez salários mínimos mostra quão ilusória foi nossa "conciliação nacional" pós-ditadura. O fato de nossas cadeias não abrigarem nenhum torturador deveria servir de claro sinal de alerta.
Tal fato serviu apenas para preservar os setores da população que agora abraçam um fascista caricato e saem às ruas com palavras de ordem dignas da Guerra Fria. Por isso, a cada dia que passa, percebe-se como este setor da população se julga autorizado a cometer novas violências de toda ordem. Isso está apenas começando.
Nós acusamos setores hegemônicos da imprensa de regredirem a um estágio de parcialidade há muito não visto no país. Diante de uma situação de divisão nacional, não cabe à imprensa incitar manifestações de um lado e esconder as manifestações de outro, transformar-se em tribunal midiático e parcial, julgando, destruindo moralmente alguns acusados e preservando outros, deixando mesmo de se interessar por vários escândalos quando esses não atingem diretamente o governo.
Essa postura apenas servirá para explodir ainda mais os antagonismos e para reduzir a imprensa à condição de partido político.
Nesse momento em que alguns inclinam-se à uma posição melancólica diante dos descaminhos do país, há de se lembrar que podemos sempre falar em nome da primeira pessoa do plural, e esta será nossa maior força.
Faz parte da lógica do poder produzir melancolia, nos levar a acreditar em nossa fraqueza e isolamento. Mas há muitos que foram, são e serão como nós. Quem chorou diante dos momentos de miséria política que esse país viveu nos últimos tempos, que se lembre de que o Brasil sempre surpreendeu e surpreenderá. Esse não é o país de Temer, Bolsonaro, Cunha, Renan, Malafaia, Alckmin.
Esse é o país de Zumbi, Prestes, Pagu, Lamarca, Francisco Julião, Darcy Ribeiro, Celso Furtado e, principalmente, nosso. Há um corpo político novo que emergirá quando a oligarquia e sua claque menos esperar.

terça-feira, 15 de dezembro de 2015

Por impeachment, "Joaquim Silveiro dos Reis" Temer usa o manual político de Cunha contra Dilma

Vice tentará obter os votos necessários contra Dilma liderando PMDB na Câmara e inflando as traições ao governo
Jornal GGNNo microfone, o discurso de Michel Temer é de tentar não piorar a relação com Dilma Rousseff. Mas por trás das lentes, ao que tudo indica, o vice já trabalha para se transformar no novo Eduardo Cunha da presidente, ao articular o controle do PMDB na Câmara e flertar com governistas com o intuito de inflar o volume de traições.
A estratégia de Temer foi alvo de reportagem do Estadão no último dia 12. O jornal informa, por meio de fontes próximas ao vice, que ele tem ameaçado o governo com uma convenção nacional do PMDB que delibere em definitivo pelo rompimento da aliança com o PT, acelerando o impechment, no caso de Dilma tentar interferir na vida da bancada peemedebista na Câmara.
O texto indica que Temer quer tempo para aumentar sua influência sobre os mais de 60 deputados eleitos pelo PMDB. Depois disso, "pretende atrair para sua órbita outros partidos da base do governo, como PSD, PR, PTB e PP. O arremate da tática é forçar a saída dos ministros peemedebistas remanescentes na Esplanada."
Temer acredita que se conseguir fazer com que a maioria dos deputados do PMDB feche questão em torno do impedimento, os partidos aliados - mas nem sempre fiéis - não acompanharão Dilma até o túmulo. "Se de fato o partido [PMDB] se unir e romper em favor do impeachment, os demais partidos da base vão fazer o mesmo”, conta um dirigente do PP que tem participado das conversas com o grupo de Temer, segundo relatos do Estadão.
Na outra ponta, Dilma tenta duelar com o que lhe resta: a "caneta". A ideia é tentar, no mínimo, manter o PMDB dividido como está hoje e afastar os dissidentes de partidos aliados de Temer - que não possui caneta, mas pode fazer promessas sob a condição de obtê-la com a deposição da presidente.
Dilma contará com a ajuda do PMDB do Rio, que tenta frear o projeto de poder de Temer reconduzindo Leonardo Picciani à liderança da bancada dos deputados federais. Isso poderá influenciar a votação do impeachment no caso do Supremo Tribunal Federal determinar que a comissão especial formada majoritariamente por oposicionistas, com patrocínio de Cunha, é inválida.
O grupo de Picciani, porém, também já recebeu recados da ala pró-Temer. Ao Estadão, por exemplo, Lúcio Vieira Lima (PMDB) disse que se tentarem colocar o deputado fluminense de volta no cargo de líder, haverá reação com a convocação da convenção do PMDB para romper com o PT.
Como se vê, o Planakto terá de lidar com as jogadas políticas e intimações que até então estava acostumado a receber da tropa de choque de Eduardo Cunha.