quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

Ecologia Profunda, Ecologia Social e Eco-Ética




Texto de Carlos Antonio Fragoso Guimarães, escrito em 1996 

"O novo paradigma (uma constelação de concepções, de valores, de percepções e de práticas compartilhados por uma comunidade e que estabelece uma visão particular da realidade) pode ser chamado de uma visão de mundo holística, que concebe o mundo como um todo integrado, e não como uma coleção de partes dissociadas. Pode também ser denominado visão ecológica, se o termo 'ecológica' for empregado num sentido muito mais amplo e mais profundo que o usual. A percepção ecológica profunda reconhece a interdependência fundamental de todos os fenômenos, e o fato de que, enquanto indivíduos e sociedades, estamos todos encaixados nos processos cíclicos da natureza (e, em última análise, somos dependentes desses processos)."
Fritjof Capra



     Quanto mais voltamos nossa atenção para as grandes dificuldades sociais de nossa época - quando nos detemos e refletimos sobre a grande crise em que vivemos, em todos os âmbitos de ação do ser humano e em todos os lugares -, mais percebemos as falhas de uma visão de mundo compartilhada por grande parte das pessoas influentes, responsáveis pelo comportamento do homem ocidental ( e que, hoje, atinge também o homem oriental ), como empresários, governantes e cientistas, e mais percebemos que estas falhas estão interligadas e não podem ser entendidas de forma isolada, ou linear, como peças autônomas de um relógio.

     O conjunto de problemas que se abatem sobre as pessoas e a natureza estão profundamente enlaçados com uma determinada forma de se compreender o mundo, uma percepção da realidade que é reducionista, simplista e inadequada e que não leva em conta processos sistêmicos (interrelacionados), psicológicos e orgânicos (ecológicos) presentes nos relacionamentos, no padrão de relação, entre pessoas, entre estas e a sociedade - e entre pessoas, sociedades e natureza -, e muito menos valores humanos e existenciais, formadores de referenciais umbilicalmente ligados à qualidade de vida da população mundial, já que fatores ou caracteres fenomenológicos não fazem parte do pensamento linear-racionalista, e muito menos se adequam em gráficos cartesianos.

     A forma tradicional de se compreender ou de se perceber a realidade - enfim, o paradigma subjacente a nossa visão de mundo - vem condicionando o comportamento humano ocidental - e todas as suas instituições - por mais de três séculos. Ela é constituída basicamente da idéia de que todo o universo é uma grande máquina, sem vida ou qualquer sentido além do de um sistema mecânico similar ao das máquinas feitas pelo homem, e, por isso, dentro do fugaz período de tempo a que se resume uma vida humana, é perfeitamente lícito, dentro desta concepção filosófica, que o indivíduo procure extrair o máximo deste sistema morto, a fim de dar um significado ao que, em última análise, e de acordo com esta visão, não parece igualmente ter significado algum: a existência humana. Daí o conjunto de caracteres típicos de nossa sociedade industrial e capitalista: a visão da vida em sociedade como uma luta competitiva pela existência, a ênfase na sobrevivência mais que na vivência e na melhoria real da qualidade de vida a partir do enriquecimento interpessoal, a crença num progresso material ilimitado num contínuo crescimento econômico explorador de recursos naturais limitados, o patriarcalismo com suas várias facetas e formas de dominação, etc.

      O esgotamento, a anti-naturalidade e a destrutibilidade desta "visão ou concepção de mundo" - que ainda é ardorosamente adotada por nossos líderes políticos, empresários, cientístas e instituições - vêm sendo constantemente apontadas, de modo claro, por várias pessoas desde o início do século passado, na crítca ao automatismo e alienação humanas decorrentes da revolução industrial, mas a ideologia do capitalismo, detentora dos meios de comunicação de massa, e as instituições econômicas, que sempre usaram de uma gigantesca máquina de propaganda, acabam por abafar, em parte, este despertar de consciências, e a impor uma ideologia propícia a mascarar e a distorcer a percepção dos fatos e a perpetuar um conjunto de ações favoráveis aos seus interesses o objetivos gananciosos, ou seja, ela constrói toda uma "realidade" ficcional e alienante, embotando o senso crítico das pessoas, a fim de perpetuar a estrutura de poder que lhe é mais aprazível. 

      Mas o nível de agressividade deste paradigma e desta ideologia contra o sistema vivo "Terra" vem sendo tão estupidamente trágica, que já não é mais possível fechar os olhos ante à degradação sócio-ambiental que nosso moderno mundo industrial tem promovido, a não ser que o grau de alienação tenha chegado a tal ponto que embotou até mesmo o sentir a dor que as misérias de nossa civilização tecnicista tem causada à natureza e aos homens. De todos os cantos do planeta vemos os efeitos nocivos da forma materialista (filosofia altamente calculada para fazer parte dos hábitos de consumo da população) e pretensamente racional (esquecendo-se da sabedoria organísmica e intuitiva) de ver o mundo, e os efeitos são:
o crescimento desordenado da população mundial, especialmente entre os países mais pobres (entre os quais se inclui o Brasil da era neoliberal da triste era privatista), que é a resultante direta do crescimento das dificuldades sociais que impedem a educação básica que muito auxiliaria no planejamento familiar, aliás problema que aponta para o descaso que nossos políticos têm em pensar em termos sistêmicos e a longo prazo, e fazem da educação, como um todo, na prática, uma temática supérflua diante do ideal, basicamente industrial, de que o crescimento e riqueza de uma nação são medidos pelo crescimento linear da economia, que se concentra nas mãos de poucos, e de que um alto PIB é sinônimo de bem-estar social. Ora, sendo assim basta que a educação básica inculque os valores e os hábitos de um mundo industrial.


A escassez de recursos, a bizarra e surreal distribuição de renda e a degradação do meio ambiente a fim de saciar a ânsia de crescimento econômico dos empresários, e/ou - por meio da exploração irracional dos recursos humanos e naturais - para o pagamento da dívida externa ou para cobrir o rombo de instituições financeiras incompetentes  parasitárias ou corruptas que combinam-se com uma crescente miséria moral e física de nosso povo, numa alienação política de causar dó, e a uma completa falta de senso crítico e valores humanistas que levam ao colapso das comunidades locais e à violência urbana que se tornou uma característica básica de nossos tempos. E toda a máquina da ideologia de consumo e do crescimento de lurcros se põe, de forma drástica, contra tudo e todos que se levantem para questioná-la. Ainda nos está bem forte na memória o descaso ou a manipulação a ideías de homens como Paulo Freire, Darcy Ribeiro, Betinho, Florestan Fernandes, os teólogos da Teologia da Libertação, os camponeses do MST, etc.

      Existem soluções viáveis para os principais problemas sociais, mas o grande nó da questão está em mudarmos a nossa percepção individualista e egoísta e nossos valores burgueses em prol de um desenvolviemento sustentável, o que atinge em cheio a estrutura do poder e do sistema político-econômico de boa parte dos países, e, ainda mais, no Brasil, onde todos sabemos das desigualdades de todo o tipo entre os que tudo tem e os que nada tem, a grande maioria, e onde recai a maior parte do peso e da hipocrisia dos sistemas institucionais estabelecidos a princípio, ironicamente, para o bem do povo.

      E, de fato, começamos a ver, cada vez mais amplamente em todo o mundo, principalmente na Europa, uma gradual mas inveitável mudança de paradigma na ciência e na sociedade, a partir das pessoas comuns, de estudantes, da base, e não mais de autoridades ou orgulhosos experts diplomados em fragmentos do conhecimento humano. Mas esta nova compreensão ainda está longe de ser sequer pensada pela maioria dos líderes políticos, e, ainda menos, pelos empresários. 

      O reconhecimento de que é necessária uma profunda e radical mudança de percepção e de metas para garantir a nossa sobrevivência e a das demais espécies vivas que compartilham conosco, em estreita correlação, a odisseia terrestre não é feito pelos detentores do poder político e econômico que, aliás, a vêem como uma ameaça à estrutura que os sustenta. Eles sabem que os diferentes problemas estão inter-relacionados  mas se recusam a reconhecer e adotar as chamadas soluções sustentáveis, preferindo fechar os olhos para não ver as conseqüências de suas atividades para as gerações futuras. A partir de um ponto de vista sistêmico, as únicas soluções viáveis são as soluções "sustentáveis", em que uma sociedade satisfaz suas necessidades sem diminuir as perspectivas das gerações futuras, como é comum de se vê nas chamadas "sociedades primitivas", como as indígenas, sem a carga intrometida da civilização branca. Nossa civilização se orgulha de seu racionalismo, mas o racionalismo é usado para justificar comportamentos profundamente irracionais e antiecológicos, num mecanismo justificador de racionalização. Ora, já não seria a hora de nos lembrarmos de que a humanidade, através da história, sempre se orgulhou do mais coração que da razão? Não é daí que vem o termo " fulano é humano", e outros semelhantes?

      Existe um movimento de despertar para o fato de que as ações industriais, técnicas e altamente mecanicistas de nossa sociedade materialista está causando um sério abalo na qualidade de vida dos homens e demais seres vivos que constituem a biosfera. E movimentos como os do Green Peace, os dos vários partidos verdes e a ampla aceitação e debates de assuntos ecológicos, como na Rio-Eco 92, parecem ser "sintomas" de uma gradual mas cada vez mais irreversível consciência de que todos nós fazemos parte de uma teia frágil, linda e muito mais profunda do que nos fazem crer nossas estruturas científicas e comerciais... fazemos parte da teia da vida que consitui um enorme organismo vivo e hoje seriamente ameaçado pela ganância e sede de poder de órgãos econômicos, industriais, políticos, científicos e religiosos, todos voltados para o conquistar e o manter o poder, quer seja material, quer seja ideológico. Mas há uma movimentação interna visível contra tudo isso, afinal somos células e nervos de Gaia, a Terra viva, e esta nova percepção Holísitica, sistêmica ou interrelacional entre todas as coisas que nos cercam, é chamada de Ecologia Profunda.

      O filósofo Arne Naess caracterizou da seguinte forma a Ecologia Profunda: "A essência da ecologia profunda consiste em fomular questões mais profundas", e, segundo Fritjof Capra, é essa também a essência de uma mudança de paradigma: "Precisamos estar preparados para questionar cada aspecto isolado do velho paradigma. Eventualmente, não precisaremos nos desfazer de tudo, mas antes de sabermos isso, devemos estar dispostos a questionar tudo. Portanto, a Ecologia Profunda faz perguntas profundas a respeito dos próprios fundamentos da nossa visão de mundo e do nosso modo de vida modernos, científicos, industriais, orientados para o crescimento e materialistas. Ela questiona todo esse paradigma com base numa perspectiva ecológica: a partir da perspectiva de nossos relacionamentos uns com os outros, com as gerações futuras e com a teia da vida da qual somos parte" (Capra, 1997, página 26).


Ecologia Social


      Ao lado da Psicologia Profunda, temos ainda uma escola filosófica que tem por base uma percepção eco-sistêmica da dinâmica social, ou uma percepção de relações entre partes. Ela complementa a ecologia ao mostrar os padrões culturais de organização social que produziram a atual super-crise. É esse o foco da ecologia social, que é o nome genérico que podemos dar às várias disciplinas sociais que estudam a natureza antiecológica de muitas de nossas estruturas instituicionais.

      Segundo Riane Eisler, as várias escolas de Ecologia Social reconhecem a estrutura mecanicista e alienante, portanto profundamente antiecológica, de nossas instituições econômicas e sociais, que se modelam de acordo com um "sistema de dominação", como podemos ver, claramente, no capitalismo que se utilizou do mesmo processo de repressão à liberdade que acusava nos chamados países socialistas, especialmente nas ditaduras da América Latina. Sendo assim, as chamadas escolas marxistas nos permitem analisar diferentes padrões de dominação social impostas à cultura e à sociedade sob a forma de ideologia, muitíssimo vinculada através dos meios de comunicação, notadamente, nos dias de hoje, pela televisão, que é um veículo de comunicação de massa, associada à interesses políticos e comerciais pertecentes à classe econômica dominadora.

      Além da Ecologia Social, podemos apontar também o ecofeminismo como uma escola especial de ecologia social voltada para a dinâmica de dominação social dentro do contexto do patriarcado, que permitiu o desenvolvimento de formas diversas de exploração: das mulheres pelos homens, da dominação hierárquica, capitalista, militarista e industrial, e em desenvolvimentos de teorias mecanicistas e controlistas do homem, como o taylorismo em administração, o behaviorismo em Psicologia, etc. Em particular, os ecofeministas mostram que a exploração extrema da natrueza tem andado de mãos dadas com a das mulheres, que têm sido identificadas com a natureza através dos séculos. Não nos esqueçamos que o pai do empirismo, Francis Bacon, postulava que, tal como se fazia com as "bruxas" de sua época, "os segredos das natureza teriam de ser arrancados sob tortura", pois ela se apresenta "como uma mulher caprichosa"...

Ética


     Tudo o que diz respeito à percepção humana da realidade e, conseqüentemente, os valores humanos que estão enlaçados com esta percepção é de fundamental importância para a Ecologia Profunda. Já não podemos acreditar que nossas teorias e pesquisas científicas são isentas de valores, pois a própria escolha de como e o que devemos estudar e levar em consideração já é uma ação que se alinha com uma determinada forma ou maneira de fazer ciência, subjetivamente aceita como a mais "verdadeira". Portanto, as chamadas abordagens dominantes (por exempo, a Psicanálise, em Psicologia), tendem a impor uma forma de visão de homem que é estreitamente ligada a um apradigma já claramente nocivo à humanidade.

      Segundo Capra, como oposição perceptual necessária a tudo isso, a ecologia profunda centraliza-se em valores holísticos e, mais propriamente, ecocêntricas (centralizados na Terra como um sistema vivo, Gaia). Nesta acepção, todos os seres vivos são membros de comunidades ecológicas ligadas umas às outras numa rede de interdependências, formando uma rede de vida dinâmica e auto-consistente. Aliás, com estas características, a própria rede parece ser um organismo. Neste sentido, o homem não é melhor ou pior que qualquer outra espécie, mas um componente fundamental desta rede, criado por ela, mantido por ela, influenciado por ela e tendo o poder de influenciá-la (tanto positiva quanto negativamente) tanto quanto é influenciado por ela. Aliás, somos meros nódulos da rede da vida, juntamente com todas as outras espécies vivas, tendo a única diferença de sermos complexamente racionais, o que nos faz quase sempre nos identificarmos apenas com esta qualidade, esquecendo-nos de que o organismo, como um todo, possui uma racionalidade ainda mais sábia que a racionalidade intelectual. Assim, quando pisamos em algo pontudo, não ficamos a "analisar" se somos agredidos por um espinho, um prego ou uma agulha, nem nas orígens deste incômodo, como o objeto foi parar ali ou quais as suas conseqüências, mas, "organísmicamente", sabiamente, retiramos imediatamente o pé, graças a uma sabedoria instintiva mais profunda e que é comum a todos os seres vivos, isso sem falar no sentimento humano.... Como disse Pascal, O coração tem razões que a razão desconhece"...

      Quando esta percepção ecológica e holística mais profunda torna-se parte de nossa vivênvia e consciência cotidiana, emerge um sistema de relacionamento transpessoal mais maduro, uma ética radicalmente nova.

      Esta ética de pertinência e de co-responsabilidade vivencial é extremanete necessária nos dias de hoje, uma vez que a maior parte do que fazemos, quer seja tecnicamente ou não, especialmente entre os sacerdotes do saber, os cientistas, não parece promover a vida e nem preservá-la, mas sim de a coisificar, banalizar e destruir cada vez mais a vida sob a égida de um paradigma mecanicista, sob o pretexteo de crescimento econômico travestido de pseudo-valores antropocêntricos (como se o homem fosse um ser à parte da natureza complexa que o sustenta). Os cientistas mecanicistas, que crêem num universo máquina, projetam sistemas de armamentos com a capacidade de destruir inúmeras vezes toda a vida do planeta, desenvolvem novos produtos químicos que contaminam o meio ambiente global sem nenhum respeito ético pela vida, ou desenvolvem mutações em microorganismos vivos que podem ser soltos por ai sem muito pensarem nas conseqüências de seu mister, isso sem falar de psicólogos que torturam animais e acabam por acreditar que o homem pode ser manipulado da mesma forma, além do mecanicismo econômico, que descarta qualquer possibilidade de se incluir valores e/ou qualidade de vida em seus gráficos de oferta e procura.

      Como nos diz o físico Fritjof Capra e outros estudiosos da filosofia da Ciência, alienadamente "Não reconhecemos que os valores Não são periféricos à ciência e nem à tecnologia, mas consituem a sua própria força motriz". Culturalmente, acreditamos que os valores podem ser seprados dos fatos (objetividade), e assim pensamos que os fatos científicos são independentes daquilos que fazemos e, portanto, são isentos de valores. "Na verdade os fatos científicos emergem de toda uma constelação de percepções, valores e ações humanas - em uma palavra, emergem de um paradigma - dos quais não podem ser separados. (...). Portanto os cientístas são responsáveis por suas pesquisas não apenas intelectualmente, mas moralmente. Dentro do contexto da Ecologia Profunda, a visão segundo a qual esses valores são inerentes a toda a natureza viva está alicerçada na experiência profunda, ecológica ou espiritual, de que a natureza e o eu são um só. Essa expansão do eu até a identificação com a natureza é a instrução básica da ecologia profunda(...)" (Capra, 1997, p. 29).

      Esta percepção de que pertencemos, ou mellhor, de que somos parte de um todo sistêmico - e que é encontrada intuitivamente nas crianças, nos índios, em algumas comunidades orientais, nas tradições mais antigas dos povos da europa pré-cristã e em outras comunidades ditas precoceituosamente de primitivas, sentidas por poetas, biólogos e artistas de todos os tempos - acaba por gerar um comportamente ético-vivencial que advém de dentro da própria alma do ser humano, ao contrário de uma ética aceita intelectualmente, como, por exemplo, na teoria da Psicanálise como uma ética, que é cara aos lacanianos, o que não deixa de ser meio absurdo por ser esta teoria (a Psicanálise) reconhecidamente pessimista em relação ao homem (o destino do homem é ser um neurótico ou um normal mais ou menos infeliz dentro de uma sociedade que não lhe permite viver suas pulsões de modo satisfatório). Já a percepção de que somos muito mais do que nos permite crer os limites de nossa pele muda totalmente a situação, como nas fala Arne Naess:

      O cuidado flui naturalmente se o "eu" é ampliado ou aprofundado de modo que a proteção da Natureza livre seja SENTIDA e CONCEBIDA como PROTEÇÃO DE NÓS MESMOS ... Assim como não precisamos de nenhuma moralidade vinda de um nível intelectual para nos fazermos respirar do mesmo modo se o seu "eu", no sentido mais amplo desta palavra, abraça um outro ser, você não precisa de advertências morais ou lineamente intelectuais para demonstrar cuidado e afeição... você o faz por si mesmo, sem sentir nenhuma pressão moral para fazê-lo... Se a realidade é como é experimentada pelo eu ecológico, nosso comportamento, de maneira natural e bela, segue espontaneamente as normas da ética ambientalista".

      E, mais uma vez, como nos esclarece Capra, "o que isso implica não é o fato de que o vínculo entre uma percepção ecológica do mundo e o comportamente correspondente não é uma conexão lógica, mas psicológica. A lógica não nos persuade de que deveríamos viver respeitando certas normas, uma vez que somos uma parte integral da teia da vida. No entanto, se temos esta percepção, ou a experiência, ecológica profunda de sermos parte importante da teia da vida, então estaremos (em oposição a deveríamos estar) inclinados a cuidar de toda a natureza viva." Poderíamos tomar, como modelo paradigmático desta Viência profunda de pertencer à natureza, a vida de um dos maiores poetas e místicos da humanidade, São Francisco de Assis.

      O vínculo experiencial-fenomenológico entre Ecologia Profunda e Psicologia Profunda ( esta no sentido junguiano, rogeriano e/ou transpessoal do termo ), que se faz presente na concepção do eu ecológico, está sendo explorado por vários autores, entre eles o filósofo Warwick Fox, que cunhou o termo "ecologia transpessoal", ou o historiador Theodore Roszak, que se utiliza do termo "ecopsicologia", que expressam a conexão profunda entre a psicologia não-freudiana e a ecologia, que antes eram consideradas áreas completamente separadas.

Sendo assim, como nos diz Capra (ob. cit), a ênfase da mundança de paradigma, hoje, nos aponta para a saída de uma ênfase nas ciências que manipulavam o mundo como uma máquinha morta, como a física clássica, para as ciências da vida, como a biologia, a ecologia e a psicologia.

Bibliografia Sugerida

Capra, Fritjof. A Teia da Vida, Editora Cultrix, São Paulo, 1997.
Capra, Fritjof. O Ponto de Mutação, Editora Cultrix, São Paulo, 1986.

O labirinto interior


“Perdi-me dentro de mim porque eu era labirinto 

e hoje, quando me sinto, É com saudades de mim“

Mário de Sá Carneiro

segunda-feira, 31 de dezembro de 2012



2013: coragem para se renovar




Texto de Leonardo Boff

Há mais de quinze anos atrás publiquei no Jornal do Brasil um artigo sob o título “Rejuvenescer como águias”. Relendo aquelas reflexões me dei conta como de elas são ainda atuais nos tempos maus sob os quais vivemos e sofremos. Retomo-as para alimentar nossa esperança enfraquecida e ameaçada pelas ameaças que pesam sobre a Terra e a Humanidade. Se não nos agarrarmos a alguma esperança, perdemos o  horizonte de futuro e corremos o risco de nos entregarmos ao desamparo imobilizador ou à resignação estéril.
Neste contexto lembrei-me de um mito da antiga cultura mediterrânea sobre o rejuvenescimento das águias.
De tempos em tempos, reza o mito, a águia, como a fênix egípcia, se renova totalmente. Ela voa cada vez mais alto até chegar perto do sol. Então as penas se incendeiam e ela toda começa a arder. Quando chega a este ponto, ela se precipita do céu e se lança qual flecha nas águas frias do lago. E o fogo se apaga. Mas através desta experiência de fogo e de água, a velha águia rejuvenesce totalmente: volta a ter penas novas, garras afiadas, olhos penetrantes e o vigor da juventude. Seguramente este mito constitui o substrato cultural do salmo 103 quando diz:”O Senhor faz com que minha juventude se renove como uma águia”.
E aqui precisamos ser um pouco psicólogos da linha de C.G. Jung que tanto se ocupou do sentido dos mitos. Segunda esta interpretação, fogo e água são opostos. Mas quando unidos, se fazem poderosos símbolos de transformação.
O fogo simboliza o céu, a consciência e as dimensões masculinas no homem e na mulher. A água, ao contrário, a terra, o inconsciente e as dimensões femininas no homem e na mulher.
Passar pelo fogo e pela água significa, portanto, integrar em si os opostos e crescer na identidade pessoal. Ninguém ao passar pelo fogo ou pela água permanece intocado. Ou sucumbe ou se transfigura, porque a água lava e o fogo purifica.
A água nos faz pensar também nas grandes enchentes como conhecemos em 2010 nas cidades serranas do Estado do Rio. Com sua força tudo carregam, especialmente o que não tem consistência e solidez. São os infortúnios da vida.
E o  fogo nos faz imaginar o cadinho ou as fornalhas que queimam e acrisolam tudo o que não é ganga e não é essencial. São as notórias crises existenciais. Ao fazermos esta travessia  pela “noite escura e medonha”, como dizem os mestres espirituais, deixamos aflorar nosso eu profundo sem a ilusões do ego. Então amadurecemos para aquilo que é autenticamente humano e verdadeiro. Quem recebe o batismo de fogo e de água rejuvenesce como a águia do mito antigo.
Mas abstraindo das metáforas, que significa concretamente rejuvenescer como águia? Significa entregar à morte todo o  velho que existe em nós para que o novo possa irromper e fazer o seu curso. O velho em nós são os hábitos e as atitudes que não nos engrandecem: a vontade de ter razão e vantagem em tudo, o descuido para com o lixo, o desperdício da água e o desrespeito para com a natureza, bem como a falta de solidariedade para com os necessitados, próximos e distantes. Tudo isso deve ser entregue à morte para podermos inaugurar uma forma de convivência com os outros que se mostre generosa e cuidadosa com a nossa Casa Comum e com o destino das pessoas. Numa palavra, significa morrer e ressuscitar.
Rejuvenescer como águia significa também desprender-se de coisas que um dia foram boas e de ideias que foram luminosas mas que lentamente, com o passar dos anos, se tornaram ultrapassadas e incapazes de inspirar o caminho da vida. Temos que nos renovar na mente e no coração.
Rejunecer como águia significa ter coragem para recomeçar e estar sempre aberto a escutar, a aprender e a revisar. Não é isso que nos propomos a cada  novo ano?
Que o ano de 2013 que se inaugura, seja oportunidade de perguntar o quanto de galinha existe em nós que não quer outra coisa senão ciscar o chão  e o quanto de águia há ainda em nós, disposta a rejuvenescer ao confrontar-se valentemente com os tropeços e as crises da vida. Só então cresceremos e a vida valerá a pena.
E não podemos esquecer aquela Energia poderosa e amorosa que sempre nos acompanha e que move o inteiro universo. Ela nos habita, nos anima e confere permanente sentido de lutar e de viver.
Que o Spiritus Creator nunca nos falte!
Feliz Ano novo de 2013.
Fonte: http://leonardoboff.wordpress.com/2012/12/31/2013-coragem-para-se-renovar/

A Esperança é a Intuição da Essência Oculta que sustenta a Vida


Antônio Gramsci e a inutilidade dos Indiferentes


A vida como expressão de um ponto de vista


O Ano só se torna realmente Novo se Renovarmos Nossos Pensamentos e Percepções



O Ano Novo só será realmente Novo se Renovarmos nossas Ideias ante as velharias de um sistema impessoal, utilitarista e cada vez mais mecanicista, resgatando o humano, o cuidado e a gratuidade, buscando a solidariedade e não a competitividade.


Carlos Antonio Fragoso Guimrães

sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

Os problemas causados por um modo de consciência são resolvidos por um modo superior de consciência


"Um problema não pode ser resolvido no mesmo nível de consciência que o criou. Você precisa ir para o próximo nível".

Albert Einstein

Nosso lugar no conjunto dos Seres



Texto de Leonardo Boff


  A ética da sociedade dominante no mundo é utilitarista e antropocêntrica. Quer dizer: falsamente considera que o conjunto dos seres da natureza somente possui razão de existir na medida em que serve ao ser humano e que pode dispor deles a seu bel-prazer.
  Continua acreditando que o ser humano, homem e mulher é o centro do universo e rei e rainha da criação.
  Mal sabe que, nós humanos, fomos um dos últimos seres a entrar no teatro da criação. Quando 99,98% de tudo já estava pronto, surgimos nós. O universo, a Terra e os ecossistemas não precisaram de nós para se organizarem e ordenarem sua majestática elegância e beleza.
  Cada ser possui valor intrínseco, independente do uso que fazemos dele. Ele representa uma emergência daquela Energia de fundo, como falam os cosmólogos, ou daquele Abismo gerador de todos os seres. Tem algo a revelar que só ele o pode fazer. E nós a escutar e a celebrar o que nos disser.
  Nós entramos no processo da evolução quando esta alcançou um patamar altíssimo de complexidade. Então irrompeu a vida e como subcapítulo da vida, a vida humana, consciente e livre. Por nós o universo chegou à consciência de si mesmo. E isso ocorreu numa minúscula parte do universo que é a Terra. Por isso nós somos aquela porção da Terra que sente, ama, pensa, cuida e venera. Somos Terra que anda, como diz o poeta e cantador indígena argentino Atauhalpa Yupanqui.
  A nossa missão específica, nosso lugar no conjunto dos seres, é o de sermos aqueles que podem ver a grandeur do universo, escutar as mensagens que cada ser enuncia e celebrar a diversidade dos seres e da vida.
  E porque somos portadores de sensibilidade e de inteligência temos uma missão ética: de cuidar da criação e sermos os guardiães dela para que continue com vitalidade e integridade e com as condições de ainda evoluir já que está evoluindo há 4,4 bilhões de anos.
  Cumpre, portanto, reconhecer e respeitar a história de cada ser da criação, vivo ou inerte. Existiram antes de nós e por milhões e milhões de anos sem nós. Por esta razão devem ser respeitados como respeitamos as pessoas mais idosas e as tratamos com respeito e amor. Eles também tem direito ao presente e ao futuro junto conosco.
  Leonardo Boff
  28/12/2012

segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

Leonardo Boff sobre O Natal


Natal: um mito cristão verdadeiro


Texto de Leonardo Boff

24/12/2012

Fonte: http://leonardoboff.wordpress.com/2012/12/24/natal-um-mito-cristao-verdadeiro/



  Há poucas semanas, com pompa e circunstância, o atual Papa mostrou-se novamente teólogo ao lançar um livro: “A Infância de Jesus”. Apresentou a versão clássica e tradicional que vê naqueles relatos idílicos uma narrativa histórica. O livro deixou os teólogos perplexos, pois a exegese bíblica sobre estes textos,  há já pelos menos 50 anos, mostrou que não se trata propriamente de um relato histórico, mas de alta e refinada teologia, uma maneira de destacar algo da figura especial de Jesus, elaborada pelos evangelistas Mateus e Lucas (Marcos e João nada falam da infância de Jesus) para provar que Jesus era de fato o Messias, o filho de Davi e o Filho de Deus.
Para esse fim, recorrem a gêneros literários para apresentar uma mensagem, transmitida como se fossem histórias mas que de fato não passam de recursos literários, como, por exemplo, os magos do Oriente (representando os pagãos e os sábios), os pastores (os mais pobres e considerados pecadores por estarem às voltas com animais que os tornavam impuros), a Estrela e o anjos (mostrando o caráter divino de Jesus), Belém que não seria uma referência geográfica mas teria um significado teológico: o lugar onde, segundo as profecias, nasceria o Messias, diferente de Nazaré, totalmente desconhecida, onde Jesus provavelmente teria nascido de fato. E assim outros tópicos como detalhadamente analisei em meu Jesus Cristo Libertador (capitulo VIII).Mas tudo isso não é muito importante porque exige conhecimentos muito especializados.
Importante mesmo é compreender que face aos relatos tão comovedores do Natal estamos diante de um grandioso mito, entendido positivamente como os antropólogos o fazem: o mito como a transmissão de uma verdade tão profunda que somente a linguagem mítica, figurada e simbólica é adequada para expressá-la. É exatamente o que o mito pretende. O mito é verdadeiro quando o sentido que quer transmitir é verdadeiro e ilumina toda a comunidade. Assim o Natal é um mito cristão cheio de verdade, da proximidade de Deus e da familiaridade.
Nós hoje usamos outros mitos para mostrar a relevância de Jesus. Para mim é de grande significação um mito antigo, que a Igreja aproveitou na liturgia do Natal para revelar a comoção cósmica face ao nascimento de Cristo. Ai se diz:
”Quando a noite estava no meio de seu curso e fazia-se profundo silêncio: então as folhas que farfalhavam pararam como mortas; então o vento que sussurrava, ficou parado no ar; então o galo que cantava parou no meio de seu canto; então as águas do riacho que corriam, se paralisaram; então as ovelhas que pastavam, ficaram imóveis; então o pastor que erguia o cajado para golpeá-las, ficou petrificado; então nesse momento tudo parou, tudo silenciou, tudo se suspendeu porque nasceu Jesus, o salvador da humanidade e do universo”.
O Natal nos quer comunicar que Deus não é aquela figura severa e de olhos penetrantes para perscrutar nossas vidas. Não. Ele surge como uma criança. Ela não julga; só quer receber carinho e brincar.
Eis que do presépio veio uma voz que me sussurrou: ”Oh, criatura humana, por que tens medo de Deus? Ele não se fez criança? Não vês que sua mãe enfaixou seus bracinhos e seu corpinho frágil? Não percebes que ela não ameaça ninguém? Nem condena ninguém? Não escutas o seu chorinho doce? Mais que ajudar, essa criança precisa ser ajudado e coberta de carinho porque sozinha não pode fazer nada; não sabes que ela é o Deus-conosco-como nós?”
E ai já não pensamos mais mas damos lugar ao coração que sente, se compadece e ama. Poderíamos fazer outra coisa diante desta Criança, sabendo que é o Deus humanado?
Talvez poucos escreveram tão bem sobre o Natal, sobre Jesus Criança, que o poeta português Fernando Pessoa: ”Ele é a eterna criança, o Deus que faltava. Ele é o divino que sorri e que brinca. É a criança tão humana que é divina”.
Mais tarde transformaram o Menino Jesus no São Nicolau, no Santa Claus e, por fim, no Papai Noel. Pouco importam os nomes, porque no fundo, o espírito de bondade, de proximidade e de Presente divino está, de alguma forma, lá.
Acertado foi o editorialista Francis Church do jornal The New York Sun de 1897 respondendo a uma menina de 8 anos, Virgínia, que lhe escreveu: “Prezado Editor: me diga de verdade, o Papai Noel existe?” E ele sabiamente respondeu:
“Sim, Virgínia, Papai Noel existe. Isto é tão certo quanto a existência do amor, da generosidade e da devoção. E você sabe que tudo isto existe de verdade, trazendo mais beleza e alegria à nossa vida. Como seria triste o mundo se não houvesse o Papai Noel! Seria tão triste quanto não existir Virgínias como você. Não haveria fé das crianças, nem a poesia e a fantasia que tornam nossa existência leve e bonita. Mas para isso temos que aprender a ver com os olhos do coração e do amor. Então percebemos que não há nenhum sinal de que o Papai Noel não exista. Se existe o Papai Noel? Graças a Deus ele vive e viverá sempre que houver crianças grandes e pequenas que aprenderam a ver com os olhos do coração”
Nesta festa, tentemos a olhar com os olhos do coração, pois todos fomos educados a olhar com os olhos da razão. Por isso somos frios. Hoje vamos resgatar os direitos do coração que é caloroso: deixar-nos comover com nossas crianças, permitir que sonhem e nos encher de estremecimento diante da Divina Criança que sentiu prazer e alegria ao decidir ser um de nós pela encarnação.
PS. Desejo aos leitores e leitoras de meu blog um Natal de esperança pois precisamos dela no meio de um mundo em voo cego rumo a um futuro incerto. Mas uma Estrela como a de Belém nos mostrará um caminho salvador. E chamaram Jesus de Emanuel, o Deus que caminha conosco, entro e ao nosso lado.