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sexta-feira, 25 de dezembro de 2020

É Natal, apesar de tudo... Por Eric Nepomuceno, dos Jornalistas pela Democracia

 

"Não nos tomaram a memória, a capacidade de indignação e de resistência. Não nos tomaram a certeza de que saberemos nos manter na superfície – recordando conquistas, nos mantendo indignados e resistindo", escreve o jornalista Eric Nepomuceno

(Foto: REUTERS/Pilar Olivares)

Por Eric Nepomuceno, para o Jornalistas pela Democracia 

Se este é o tenebroso ano da peste, o Natal de 2020 é no mínimo estranho. Eu, pelo menos, nunca vivi um 24 de dezembro igual, recolhido no meio do verde, com uma chuva melancólica que me desperta a memória de muitos dezembros iluminados.

Olhando ao redor, e esquecendo a data, sobram razões para se preocupar, e muito. Sinceramente, não vejo espaço algum para otimismo. Não se trata de um olhar pessimista, mas realista.

Mais do que nunca, vivemos num país sem norte nem rumo.  

Confesso, de saída, minha mais profunda inveja dos amigos mexicanos, chilenos e argentinos. No México e no Chile já começaram a vacinar, a Argentina começa a qualquer momento.  

Há nos três (e em muitos outros países da nossa América) plena coordenação entre os governos nacionais e estaduais e municipais, enquanto aqui não a temos nem seringas, nem agulhas, nem nada.

As pencas de militares ardorosamente espalhados no ministério da Saúde, na Anvisa e onde quer que se olhe, mostram claramente que não têm a mais mínima ideia de como agir. A única coisa que sabem fazer é obedecer cegamente a tudo que o Aprendiz de Genocida determina.

Isso, para não falar em todo o resto.

Mas ainda assim, e apesar de tudo, é Natal. E mesmo para quem, como eu, é ateu e agnóstico, trata-se de uma data de confraternização, ainda que à distância. E aproveito para duas coisas.

A primeira, mandar meu abraço afetuoso não só aos meus eventuais leitores, mas aos companheiros de jornada.

E a segunda: lembrar, uma vez mais, que sou de uma geração que colecionou perdas. De quem tomaram tudo ou quase.  

Só não nos tomaram a memória, a capacidade de indignação e de resistência. Não nos tomaram a certeza de que saberemos nos manter na superfície – recordando conquistas, nos mantendo indignados e resistindo.

E é assim que sabemos, como disse Francisco num momento de especial pontaria, que apesar do Ogro, apesar de tudo, amanhã há de ser outro dia. De mais luz e menos breu.

O conhecimento liberta. Saiba mais

sábado, 24 de dezembro de 2016

Natal em tempos de Herodes, golpe e Temer.... artigo de Leonardo Boff



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  Essa história do assassinato de inocentes continua de outra forma. As políticas ultracapitalistas impostas pelo atual governo, tirando direitos, diminuindo salários, cortando benefícios sociais básicos como saúde, educação, segurança, aposentadorias e congelando por 20 anos as possibilidades de desenvolvimento têm como consequência uma perversa e lenta matança de inocentes da grande maioria pobre de nosso país.


Natal em tempos de Herodes


texto de Leonardo Boff

O Natal deste ano será diferente de outros natais. Geralmente é a festa da confraternização das famílias. Para os cristão é a celebração da divina Criança que veio para assumir nossa humanidade e faze-la melhor.

No contexto atual, porém, em seu lugar assomou a figura do terrível Herodes. o Grande (73 a.C-4-a. C), ligado à matança de inocentes. Zeloso por seu poder, ouviu que nascera em seu reino, a Judéia, um menino-rei. Foi quando ordenou degolar todas os meninos abaixo de dois anos (Mt 2,16). Ouviu-se então uma das palavras mais dolentes de toda Bíblia:”Em Ramá se ouviu uma voz, muito choro e gemido: é Raquel que chora os filhos e não quer ser consolada, porque eles já não existem”(Mt 2,18).

Essa história do assassinato de inocentes continua de outra forma. As políticas ultracapitalistas impostas pelo atual governo, tirando direitos, diminuindo salários, cortando benefícios sociais básicos como saúde, educação, segurança, aposentadorias e congelando por 20 anos as possibilidades de desenvolvimento têm como consequência uma perversa e lenta matança de inocentes da grande maioria pobre de nosso país.

Aos legisladores não são desconhecidas as consequências letais, derivadas da decisão de considar mais importante o mercado que as pessoas.

Dentro de poucos anos, teremos uma classe de super-ricos (hoje são 71.440 segundo IPEA, portanto,0,05% da população),uma classe media amedrontada pelo risco de perder seu status e milhões de pobres e párias que da pobreza passaram para miséria. Esta significa fome das crianças que morrem por sub-nutrição e doenças absolutamente evitáveis, idosos que já não conseguem seus remédios e o acesso à saúde pública, condenados a morrer antes do tempo. Essa matança possui responsáveis. Boa parte dos legisladores atuais da chamada “PEC da morte” não podem se eximir da pecha de serem os atuais Herodes do povo brasileiro.

As elites do dinheiro e do privilégio conseguiram voltar. Apoiados por parlamentares corruptos, de costas ao povo e moucos ao clamor das ruas e por uma coligação de forças que envolve juizes justiceiros, o Ministério Público, a Polícia Militar e parte do Judiciário e da mídia corporativa, reacionária e golpista não sem o respaldo da potência imperial interessada em nossas riquezas, forjaram a demisão da Presidenta Rousseff. O real motor do golpe é o capital financeiro, os bancos e os rentistas (não afetados pelas políticas dos ajustes fiscais).

Com razão denuncia o cientista politico Jessé Souza: “O Brasil é palco de uma disputa entre dois projetos: o sonho de um país grande e pujante para a maioria; e a realidade de uma elite da rapina que quer drenar o trabalho de todos e saquear as riquezas do país para o bolso de meia dúzia. A elite do dinheiro manda pelo simples fato de poder “comprar” todas as outras elites”(FSP 16/4/2016).

A tristeza é constatar que todo esse processo de expoliação é consequência da velha políitca de conciliação dos donos do dinheiro entre si e com os governos, que vem desde o tempo da Colônia e da Independência. Lula-Dilma não conseguiram ou não souberam superar a arte finória desta minoria dominante que, a pretexto da governabilidade, busca a conciliação entre si e com os governantes, concedendo alguns benefícios ao povo a preço de manter intocada a natureza de seu processo de acumulação de riqueza em altíssimos níveis.

O historiador José Honório Rodrigues que estudou a fundo a conciliação de classe sempre de costas ao povo, afirma com razão:”a liderança nacional, em suas sucessivas gerações, foi sempre anti-reformista, elitista e personalista…A arte de furtar é nobre e antiga praticada por essas minorias e não pelo povo. O povo não rouba, é roubado…O povo é cordial, a oligarquia é cruel e sem piedade…; o grande sucesso da história do Brasil é o seu povo e grande decepção é a sua liderança”(Conciliação e Reforma no Brasil,1965, pp. 114;119).

Estamos vivendo a repetição desta maléfica tradição, da qual jamais nos liberaremos sem o fortalecimento de um anti-poder, vindo do andar de baixo, capaz de derrubar esta clique perversa e instaurar um outro tipo de Estado, com outro tipo de política republicana, onde o bem comum se sobrepõe ao bem particular e corporativo.

O Natal deste ano é um Natal sob o signo de Herodes. Não obstante, cremos que a divina Criança é o Messias libertador e a Estrela é generosa para nos mostrar melhores caminhos.

Leonardo Boff escreveu: Natal: o sol da esperança, Mar de Ideias, Rio 2007.

quarta-feira, 14 de dezembro de 2016

Armandinho só desejaria uma só coisa neste Natal em que as trevas neoliberais cercam nosso país... Seguido da crítica-resumo de Latuff e de um texto sobre a corrupção golpista nos três poderes e na mídia




















O que é mais podre: o executivo, o legislativo, o judiciário ou a mídia?


Entre um Executivo sem voto na urna, usurpador e corrupto, um Legislativo vendido e presidido por um réu, um Judiciário dominado por marajás que ora abusam da autoridade ora se acovardam e uma mídia parceira de todos nos crimes que cometem, qual é o poder mais execrável?

Texto de Leonardo Mendes, DCM
Entre um Executivo golpista, usurpador, vendido e corrupto, um Legislativo presidido por um réu e um Judiciário dominado por marajás que ora abusam da autoridade ora se acovardam – dependendo de quem seja o acusado – a mídia é o pior dos poderes no Brasil.
Executivo, Legislativo e Judiciário só são capazes de cometer seus atentados contra a população e a Constituição impunemente porque a mídia atua como parceira desses crimes.
Se a mídia de fato informasse a população, jamais teríamos eleito esse Congresso, que como prova incontestável de sua condição de miséria elegeuRenan Calheiros e Eduardo Cunha presidentes da casa.
Jamais teríamos permitido que a horda reunida em torno de Temer fosse bem-sucedida na derrubada de uma presidenta eleita e honesta.
Se a mídia de fato informasse a população, Sérgio Moro seria visto como um juiz de primeira instância, abusador de superpoderes que não tem, apaixonado por si mesmo e pela mídia que lhe corresponde.
O Judiciário como um todo, com suas togas ridículas, datas vênias, salários acima do teto e auxílios pornográficos, já estaria completamente desmoralizado há tempos, caso a mídia cumprisse com o seu papel.
Talvez, apesar da mídia, já esteja, e só assim para um réu receber uma ordem judicial, recusar-se a cumpri-la e no dia seguinte estar absolvido.
Não sem antes é claro levar um puxão de orelhas, como disse a jornalista Eliane Cantanhede na Globo News, em tom maternal, como se o que Renan Calheiros fez fosse uma traquinagem de menino e o STF fosse uma mãe cheia de amor e paciência. Imagino o que ela diria caso os estudantes das escolas ocupadas se recusassem a cumprir uma ordem de reintegração de posse.
São tempos de bufa, pilhéria e chacota. Ou como disse Brecht, de desordem sangrenta, confusão organizada, arbitrariedade consciente e humanidade desumanizada.
Nada deve parecer impossível de mudar. Mas com uma mídia mercenária e calhorda, na mão de herdeiros bilionários a serviço de suas fortunas, é impossível sim.

sexta-feira, 25 de dezembro de 2015

Hoje na História: Ano 0 - 25 de dezembro teria sido mesmo o nascimento de Jesus Cristo?


É sabido que a data 25 de dezembro, sempre comemorada no mundo pagão antigo por marcar o Solstício de Inverno no Hemisfério Norte (e, portanto, ligado também a divindades pagãs, como Mitra, Hórus e outros), foi estabelecido séculos após a morte de Jesus. Vejamos, sobre isto, um texto de Breno Altman, publicado no Opera Mundi:

Mesmo que celebrada por todo mundo cristão e além, muitos questionam a data exata

Embora a maioria dos cristãos celebre o dia 25 de dezembro como a data de nascimento de Jesus Cristo, alguns cronistas dos primeiros dois séculos de nossa era afirmaram não ter qualquer conhecimento ou indicação do dia exato ou do ano em que Cristo tenha nascido.

O registro mais antigo da celebração do Natal encontra-se num almanaque romano que informa sobre um festival da Natividade de Cristo levado a efeito pela igreja de Roma no ano 336. A precisa razão pela qual o Natal passou a ser celebrado em 25 de dezembro permanece obscura, todavia a maioria dos pesquisadores históricos acredita que o Natal se originou como um substituto cristão para as celebrações pagãs do solstício de inverno no hemisfério norte.

Wikimedia Commons

O templo pagão de Stonehenge, no Reino Unido, sendo visitado no solstício de verão

Para os cristãos dos primórdios – e para muitos cristãos hoje em dia – a mais importante efeméride do calendário cristão era a Páscoa, que comemorava a morte e a ressurreição de Jesus Cristo. No entanto, assim que a cristandade começou a assumir protagonismo no mundo romano, em princípios do século IV, os chefes da Igreja tiveram de se defrontar com o popular feriado pagão romano comemorativo do “nascimento do invicto Sol” (natalis solis invicti) – a designação em latim do solstício de inverno.

A cada inverno, os romanos consagravam o deus pagão Saturno, responsável pela agricultura [equivalente a Cronos na mitologia grega], com uma festa que começava em 17 de dezembro e habitualmente se estendia até ou em torno de 25 de dezembro com uma celebração do solstício de inverno em homenagem ao princípio de um novo ciclo solar. Esse momento era de festividades e as famílias e amigos costumavam trocar presentes. Nessa mesma época o mitraísmo – adoração do antigo deus persa da luz, religião de mistérios nascida na época helenística, provavelmente no século 2 a.C., no Mediterrâneo Oriental – alcançara sua máxima expansão geográfica, tendo se tornado um forte concorrente do Cristianismo.
 

Hoje na História: 1918 - Alemanha assina armistício que põe fim à Primeira Guerra Mundial

Hoje na História: 1987 - Termina busca pelo Monstro do Lago Ness, na Escócia

Hoje na História: 1944 – Churchill e Stalin se reúnem para definir futuro dos Bálcãs

Wikimedia Commons - "O Invicto Sol"
O mitraísmo recebeu particular adesão dos soldados romanos e seu culto envolvia alguns dos mais importantes rituais do solstício de inverno. A prática do mitraísmo, assim como de outras religiões pagãs, foi declarada ilegal pelo imperador romano Teodósio I em 391.

Após o imperador romano Constantino I ter se convertido ao cristianismo em 312 e sancionado o cristianismo como a religião oficial, os líderes da Igreja Católica se empenharam em se apropriar das festividades do solstício de inverno e conquistar dessa forma novas e novas conversões entre os súditos do imperador.

A fim de justificar racionalmente a celebração do nascimento de Jesus no final de dezembro, os líderes eclesiásticos provavelmente teriam argumentado que uma vez que o mundo foi supostamente criado no equinócio de primavera – final de março –Jesus teria portanto sido concebido por Deus nessa data.

A Virgem Maria, grávida do filho de Deus, teria dessa maneira dado à luz a Jesus nove meses depois, no solstício de inverno.

De Roma, a celebração da Natividade de Cristo espalhou-se para outras igrejas cristãs a leste e a oeste e pouco demorou para que a imensa maioria dos cristãos comemorasse o nascimento de Jesus em 25 de dezembro.

Para a celebração romana foram mais tarde acrescentados outros rituais no solstício de inverno observados por diversos grupos pagãos como o acendimento do Tronco de Yule - uma antiga tradição pagã, que os antigos celebravam com fogueiras, feitas com troncos de pinheiros ou azevinhos –, que deixavam acesas por 12 horas, até o nascer do Sol e as cinzas eram colocadas em volta da casa para a que a proteção dos deuses durasse o ano todo –, e as decorações com sempre, vivas pelas tribos germânicas.

WikiCommons - representação de São Nicolau
Uma festa popular medieval de grande acolhida era a de São Nicolau de Mira, um santo de quem se dizia que visitava as crianças levando não só presentes, mas também conselhos e advertências, justo antes do Natal.

A história evoluiu para a moderna prática de carregar em grandes sacos presentes para as crianças, trazidos por um personagem conhecido por "Santa Claus," um derivativo do nome holandês “Sinterklaas para São Nicolau” – nas línguas germânicas, Sankt Nicholaus. Entre nós, simplesmente “Papai Noel”.

Também nessa data:
1920 - Nasce o Partido Comunista Francês
1950 - Dalai Lama, líder político e religioso do Tibet, foge de Lhasa
1983 - Pintor espanhol Joan Miró morre em Palma de Maiorca
1985 - Entra em erupção o vulcão Etna, na Sicília
1991 - Gorbachev renuncia à presidência da URSS


Jânio de Freitas: Levy, o erro corrigido; Aécio e Cunha, aberrações incorrigíveis.

"Aécio Neves trouxe, difundiu e incentivou o componente odiento, de esgares, de ameaças destruidoras, de passagem da política de pessoas furiosas para a fúria sem política contra pessoas. Aécio fez o envenenamento do ambiente, mas quem disso mais soube se aproveitar, por diferença de competências para os respectivos fins, não foi Aécio. Foi Eduardo Cunha." -  Jânio de Freitas

Um erro, uma gafe




Texto de Jânio de Freitas em sua coluna na Folha de São Paulo, dia 25 de dezembro de 2015

Joaquim Levy vai passar um bom Natal. Corrigir uma gafe sempre traz alívio. Muito educado e contido, como mostrou durante todo o ano de situações estressantes –o inverso do antecessor, Guido Mantega, grosseiro e irritadiço–, Levy não é dado a gafes, mas cometeu uma das grandes.

Dilma Rousseff vai passar um Natal menos ruim do que poderia prever há um mês. Graças ao alívio de Levy. Seu ar eufórico dos últimos dias comprova o reconhecimento (enfim?) do erro, tão grave, de convidar Levy à gafe de aceitar uma missão para ele impossível.

Poucos estão propensos a passar um Natal distenso de verdade, ainda que por um ou dois dias, ao final do exaustivo colar de apreensões e ansiedades que o erro de Dilma e a gafe de Levy, enquanto unidos, nos induziram dia a dia. Não foram, no entanto, os únicos autores desse encadeamento gerador de pesares, mas não de iras. Aécio Neves trouxe, difundiu e incentivou o componente odiento, de esgares, de ameaças destruidoras, de passagem da política de pessoas furiosas para a fúria sem política contra pessoas.

Aécio fez o envenenamento do ambiente, mas quem disso mais soube se aproveitar, por diferença de competências para os respectivos fins, não foi Aécio. Foi Eduardo Cunha. Uma prova de que foram no mínimo paralelos, quando não enlaçados por projetos de resultados semelhantes, é que o PSDB de Aécio e Cunha encerram um ano e começam outro de volta à aliança fraterna, domesticamente íntimos, a planejarem juntos os ardis convenientes a um e ao outro.

Ainda assim, apesar de Dilma e Levy, com ou sem Dilma e Barbosa, a economia brasileira se arranjará mais depressa, até por si mesma, do que o pântano da política se deixará drenar.

Eduardo Cunha recorre à Comissão de Constituição e Justiça. Eduardo Cunha foi ao Supremo em busca de alguma brecha, senão de uma artimanha em que o presidente Ricardo Lewandowski não caiu. Eduardo Cunha tem a Mesa da Câmara preparada para anular a sessão do Conselho de Ética que autorizou o processo de sua cassação.

Tudo isso em vão, até onde se pode perceber. No Ministério Público há a convicção de que Eduardo Cunha, mesmo que se salve dos R$ 5 milhões, das contas suíças e de tudo mais, vai sucumbir com as adulterações em medidas provisórias. São negócios que fraudaram a própria legislação.

O TAL

Em obediência a uma orientação da numerologia, Delcídio Amaral prometeu-se um Natal ainda mais feliz do que todos os seus dias, com a simples providência de inserção de "do" entre seus nomes. Delcídio do Amaral receberá de um feliz Natal apenas a rima. Paupérrima. Como convém a um Natal de cadeia. Mas pode orgulhar-se de um feito: é a presença mais surpreendente, dentre todos os laçados pela Lava Jato. Nem o Ministério Público está isento de tamanha surpresa.

O PRESENTE

Filhos, pais e amigos são suficientes para tornar suave um Natal que não deveria sê-lo. Aproveite isso que eles lhe dão como o melhor dos presentes. 

quinta-feira, 24 de dezembro de 2015

O consumismo e a neurose de um modelo de Natal capitalista permitem às famílias se abrirem para Cristo?


Mensagem de Natal aos amigos, amigas e colegas...


A neurose do consumismo, incentivado pelo capitalismo, suplantando o Natal de Jesus




Carlos Antonio Fragoso Guimarães

   Então... é mais uma vez época do Natal... E o que de fato comemoramos, hoje em dia, nesta época? Será a lembrança e agradecimento pelo nascimento de uma das mais importantes personalidades da História, que canalizou e influenciou toda uma civilização ou um evento capitalista de compras, futilidades, propaganda e incentivo ao consumismo desenfreado? A estima, a fraternidade a confraternização precisam mesmo ser medidos pelo valor dos presentes? Onde está, hoje, aquele "clima" ou "cheiro de Natal" que os mais velhos sentiam nesta época, onde a alegria estava em reunir a família e falar sobre Jesus e o significado do amor? Abafados foram pela pressão neurótica do consumo, exercida pelo comércio, e pelos problemas urbanos criados pelo próprio capitalismo, hoje mais agudos que há alguns anos.

  Onde fica a representação do nascimento de Jesus, como a criança simples, um inocente excluído pelas demais pessoas, nascida num estábulo e deitada em uma manjedoura? Foi suplantada pela do capitalismo, que pôs o elitista "Papai" Noel no lugar de Cristo para incentivar o consumo... O comércio, a mídia mercantil, os cartões de crédito e os bancos comemoram... os shoppings (os novos templos) comemoram... A "igrejas" eletrônicas midiáticas comemoram (por ser mais um momento de enriquecer seus cofres pelo comércio de uma nova fé calcada em ganhos materiais)... E assim, o "deus" Mercado comemora... E o significado do Natal está se perdendo... E o espírito do Capitalismo (tão incentivado que foi pela ética protestante calvinista e afins) predomina em nossos corações...

  E, então, no dia 26 as árvores e os enfeites do Natal começam a dar lugar para os enfeites do próximo feriado (o Carnaval, também cada vez dominado e descaracterizado pelo capitalismo, cuja prévia é o Reveillon, hoje evento meramente profano, pouco tendo do sentido de uma confraternização universal ligado ainda ao Natal, como antes), e logo não se pensa mais no significado do que ocorreu há dois mil anos. E assim somos levados a ser joguetes dos interesses dos figurões do mercado...

 No fim, veja-se a que fim o comércio - incentivado por muitos fundamentalistas - o "natal" do consumo reverteu os símbolos de gratuidade e amor do Natal de Jesus. O simbolismo do nascimento humilde daquele que revolucionou a ética por uma vida de coerência pelo amor deu lugar a dinâmica materialista representada pela figura fabricada de um velho - deturpação da bonita história de São Nicolau -, que carrega um saco de presentes para os bem nascidos e que, cruelmente, faz pouco dos infortunados, já que tais presente nunca chegarão às crianças pobres.. Figura cruel que se se popularizou vestido de vermelho e branco devido ao marketing da Coca-Cola.

  Como bem reflete Frei Betto:

"Por ser festa de origem cristã, para celebrar o nascimento de Jesus, a sociedade laica e religiosamente plural a descaracteriza pela introdução da figura consumista de Papai Noel. O que deveria ser memória da presença de Deus na história humana, passa a ser mero período de miniférias centrada em muita comilança e troca compulsiva e compulsória de presentes.
"Daí o desconforto que todo Natal nos traz. Como se o nosso inconsciente denunciasse o blefe. Sonegamos a espiritualidade e realçamos o consumismo. Ótimo para o mercado. Mas o será também para as crianças que crescem sem referências espirituais e valores subjetivos, sem ritos de passagem e senso de celebração?
Longe de mim pretender restaurar a religiosidade repressiva do passado. Mas se há algo tão inerente à condição humana, como a manutenção (comer) e a procriação (sexo) da vida, é a espiritualidade. Ela existe há cerca de um milhão de anos, desde que o símio deu o salto para o homo sapiens. As religiões são recentes, surgiram há menos de dez mil anos.
"Se a espiritualidade não é fomentada na linha da interiorização subjetiva e da expressão de conexão com o Transcendente, ela corre o sério risco de, apropriada e redirecionada pelo sistema, cair na idolatria de bens materiais (patrimônio) e de bens simbólicos (prestígio, poder, estética pessoal etc). Talvez isso explique por que a maioria dos shoppings centers tem linhas arquitetônicas similares a catedrais pós-modernas...
Já não são princípios religiosos que norteiam a nossa vida. Desestimulados ao altruísmo e à solidariedade, centramos a existência no próprio umbigo - o que certamente explica, na expressão de Freud, "o mal-estar da civilização", hoje acrescido desse vazio interior que gera tanta angústia, ansiedade e depressão."


  E, assim, os feriados que foram criados para levar a pensar hoje levam a comprar. Regojize-mo-nos! A História, para os que enriqueceram com o sistema, acabou! Não há outros deuses além do capitalismo! E se a fórmula de exploração funciona para o Natal, por que não para outros feriados que, originariamente, nada tinham de comerciais? Então, até a vinda do "Coelhinho da Páscoa"!

quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

O Natal de uma liderança social que luta por justiça e partilha da terra e oportunidades, por Mario Sergio Conti



Há muitas formas de se falar do Natal. A tradicional se prende ao ideário religioso e cristão. Mas há também formas seculares e poéticas como fez Manuel Bandeira em seu comovedor “Canto de Natal”e de forma, a meu ver insuperável, por Fernando Pessoa. Agora temos a reflexão política, supreendente do jornalista e entrevistador de televissão de Mario Sergio Conti. De modo secular nos comunica a mensagem de Natal que tem inspirado uma das lideranças mais combativas que é João Pedro Stédile do MST. Vale seguir seu raciocínio estimulante. Leonardo Boff
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O texto a seguir, de Mario Sergio Conti, foi publicado na Folha de São Paulo em 22/12/2015 e no Blog de Leonardo Boff, no mesmo dia
Quando menos se espera, o Natal está aí: calorão, filas, tempestades, engarrafamentos, dinheiro curto, sofreguidão de última hora para comprar presentes. Ainda assim, o Natal é um convite à pausa, à reflexão.
Como o ano foi de tumulto, de luta acre no Parlamento e fora dele, de ações espetaculosas da Lava Jato, de xilindró cheio de nababos em Curitiba, a meditação é política.
É tempo também de reflexão religiosa porque a fé fere cada vez mais o coração da política. As labaredas da jihad, as matanças na França, no Líbano, no Iêmen, no Egito e na Tunísia, fizeram terror e islã fermentar num mesmo caldeirão.
Distante do belicismo redivivo das Cruzadas, nem por isso o Brasil está infenso ao sagrado. Aqui, é a vaga evangélica que transtorna a política. Tanto que Eduardo Cunha, um pentecostal que exala enxofre ao ouvir falar de aborto e casamento gay, quis impor sua dúbia carolice à nação laica.
O Brasil é o país que abriga o maior rebanho católico do mundo. Entre eles está João Pedro Stedile, dirigente do Movimento dos Sem Terra. Ele é primo de Dom Orlando Dotti, bispo de Vacaria, no Rio Grande do Sul, e de vários frades capuchinhos. Os primos párocos marcaram a sua formação franciscana, que considera “mais atual do que nunca”.
Stedile sustenta que o líder religioso da hora, o papa Francisco, “tem um comportamento revolucionário”. O pontífice, disse ele no intervalo de uma peregrinação pelo interior paulista, “teve uma experiência política no peronismo, é um nacionalista que defende os pobres e é contra o abuso do capital”.
Para ele, a encíclica papal sobre o meio ambiente “é uma obra histórica maior do que dez COP21, a conferência da ONU sobre o clima, que não serviu para nada”.
O MST se atualizou na teoria e na prática nos últimos anos. O movimento, diz Stedile, é contra a “reforma agrária burra”, que só se preocupa com a divisão dos latifúndios. Advoga que a agricultura produza alimentos saudáveis para o povo, em vez de exportar commodities. Prega a “agroecologia”, técnicas de cultivo que não vitimem a natureza.
Ele também se insurgiu contra o machismo, disseminado no meio rural, inclusive no MST. O movimento conseguiu que o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária, o Incra, passasse a entregar títulos de propriedade a casais de sem-terra gays.
Neste Natal, Stedile vê o Brasil numa encruzilhada política, econômica, social e ambiental. A destituição de Dilma Rousseff veio para o primeiro plano: “a pequena burguesia reacionária das grandes cidades quer o impeachment, mas ele não resolve as dificuldades nem representa uma saída para as massas”.
Economista, Stedile não acredita em Papai Noel. Vaticina que “a crise será longa porque, para sair dela, precisamos de um projeto que unifique a maioria das forças sociais. E nenhuma força está conseguindo isso”.
A sua esperança natalina é matizada: “toda crise é positiva, por obrigar a mudanças. Elas podem demorar, mas virão, e espero que sejam a favor do povo. Serão anos de luta”.
Com prenome dos apóstolos João e Pedro, Stedile parece se nortear pelo Cristo do evangelho de Mateus, aquele que disse: “não vim trazer paz, mas a espada” (10, 34). Ele nasceu no mesmo dia do Nazareno; fará 62 anos na sexta-feira.

O Significado maior do Natal, quase totalmente sepultado pelos interesses do Capital materialista e socialmente excludente, elitista e separatista




A melhor mensagem de Natal não é aquela associada ao consumismo, nem à neurose das aparências, mas sim aquela que sai da alma que, por pelo menos uma hora, relembra do esquecido aniversariante e, mais ainda, do seu exemplo no silêncio de nossos corações  que, sensibilizado, se abre aos corações daqueles que a vida nos deu por acompanhantes no caminhar comum da existência...

Carlos Antonio Fragoso Guimarães

sexta-feira, 26 de dezembro de 2014

Os dizeres e desejos nada cristãos dos coxinhas na noite de Natal

Extraído do Blog do Sakamoto:



Leitores relatam terror e pânico na noite de Natal com a família


Leonardo Sakamoto


Recebi de leitores relatos de como foi a experiência da noite da véspera de Natal com parentes e amigos que aproveitaram a ceia para defender a volta da ditadura, a esterilização forçada dos mais pobres, o machismo institucionalizado, o racismo desvairado, o assassinato de usuários de drogas.
Ou seja, entre uma garfada no peru, uma colherada de farofa e um gole de espumante, enterrar o significado solidário da data.
Reuni algumas dessas mensagens, completando com informes que recebi de amigos, em tempo real, via WhatsApp (muitas listas de discussão se tornaram verdadeiros grupos de ajuda mútua para que fosse possível terminar a noite) e relatos na manhã de hoje. Como não pedi autorização para nenhum dos leitores, reproduzo sem citar os autores. Também peço desculpas porque tive que resumir algumas.
“Me ajuda. Parentes disseram que não existiu ditadura militar no Brasil. Que a ditadura matou apenas maconheiros vagabundos esquerdistas. Quero chorar.''
“Meu tio disse que jogou o carro em cima de um ciclista que andava pela ciclovia só para ele 'ficar esperto' na vida. Todos na mesa, tirando eu, riram.''
“Meu primo acaba de dizer que só volta pro Brasil de vez se passar a valer pena de morte para corrupto e para bandido. Eu disse que concordava se também valesse para sonegador de impostos. Tive que ouvir meia hora de reclamação da família inteira.''
“Tem um primo aqui em casa, da família do meu avô, que disse que vai passar a dizer que é gay só para ter mais direitos que os outros e ser defendido pelos direitos humanos. Muita gente da minha família riu mesmo sabendo que eu sou gay e que minha vida, por conta disso, é super difícil.''
“A besta do cunhado da minha irmã, que no Natal passado ficou em silêncio, não parou de contar piadas racistas a noite inteira. Mesmo com todo mundo constrangido, ele continuou.''
“Minha tia disse que o Bolsa Família deveria ser dado só para mulheres que aceitassem ligar as trompas. Pedi licença e saí da mesa.''
“Meu primo defendeu que pegasse todos os usuários de drogas e passasse fogo. Retruquei que ele também gosta de um bom uísque. Foi aquele silêncio. Meu pai disse que era diferente, que álcool não mata ninguém e ainda tive que ouvir que era assim porque faço psicologia.''
“Saka, falaram mal de você por cinco minutos no jantar. Você tá mais presente na minha família que Deus kkkkkkk.''
“A frase da noite foi 'eu não sou preconceituoso, mas…' “.
“O cara passou o Natal reclamando de corrupção e, no final, chegou pra mim e perguntou se eu não conhecia alguém na Secretaria de Habitação porque ele está precisando resolver uns problemas.''
“O Brasil está quebrado, o filho dele tá se mudando para Miami…''
“Cara, eu não sabia mais o que fazer. Um bando de machistas em torno da mesa ficou falando de “feminazis'' pra cá, “feminazis'' para lá, minha tia, que é uma dondoca e acha que trabalhar é coisa de pobre, teve a coragem de dizer que mulher na política só faz besteira, que se for assim, melhor ficar em casa cuidando dos filhos!!! E ela fala isso com tanta naturalidade que até assusta!!! E minhas primas pequenas ouvindo isso!''
Alguns informaram que tentaram as sugestões do meu texto “Como sobreviver à família ultraconservadora na festa de Natal“. Uns obtiveram êxito, outros não. Desculpem, mas como 2014 foi o ano em que muitos desses espécimes saíram do armário (o que acho ótimo), ainda é cedo para que tenhamos um mínimo de acúmulo a fim de montar uma Teoria Comportamental do Trato Natalino com Dodóis que seja aplicável universalmente.
Em suma, durante muito tempo vai ser na base da tentativa e erro. Gastando litros de paciência, quilos de diálogo. E amando o semelhante mais do que a nós mesmos.

domingo, 22 de dezembro de 2013

Cynara Menezes e o homem fabricado que roubou o Natal de Jesus Cristo


cartaz de 1937: de dar medo



O homem que roubou o Natal de Jesus


texto de Cynara Menezes

No shopping próximo à minha casa, o tema da decoração de Natal é “a floresta encantada de Papai Noel”. Juro que procurei entre as folhagens de plástico, as girafas de pelúcia e os chimpanzés músicos para ver se o achava, mas não encontrei Jesus. Nada de Maria, José, do anjo, dos reis Magos e das cabras, bois e vacas. Nada que se assemelhasse a uma manjedoura. Enfim, nada de Natal na decoração de Natal.
Fiquei pensando quando foi que o menino Jesus deixou de ser protagonista de sua própria festa de aniversário. Jesus, o profeta a quem, pelo menos nas estatísticas, um terço da humanidade dedica sua fé, faz uma ponta no Natal hoje em dia. A figura central, a grande estrela da maior festa do mundo cristão é um velho barbudo de aparência nórdica que só criancinhas acreditam que exista. E, aparentemente, ninguém está nem aí.
O Natal é uma verdadeira cilada. TVs, jornais, familiares, tudo conspira para que você se sinta tomado pelo “espírito natalino”, que se traduz em: se meter em shoppings abarrotados de gente para comprar coisas que sairiam pela metade do preço no mês seguinte. Mesmo que você não queira participar, é obrigado a seguir o fluxo porque não quer que seus filhos cresçam traumatizados por não ganhar presente quando todo mundo recebe –do Papai Noel, claro, aquele gordinho que espera o ano todo por este bico, suarento debaixo da roupa vermelha e da barba branca em pleno verão brasileiro.
Aliás, a disparidade entre o que se construiu como “Natal” no hemisfério Norte e a realidade dos trópicos é um mico à parte. Bonecos de neve de feltro, de gorro, cachecol e cenoura no lugar do nariz, se espalham pelo País e tomam de assalto até as repartições públicas, enquanto as secretárias se abanam de calor. O “jeitinho” brasileiro se desdobra para recriar a atmosfera gélida, condição sine qua non para que o “espírito natalino” baixe, e dá-lhe neve de pipoca, de isopor, de algodão… Tenho certeza que nunca seremos uma nação de fato enquanto precisarmos macaquear um clima que não é nosso para conseguir algo tão singelo quanto o congraçamento familiar.
Não conheço nenhuma festa religiosa no mundo cujas principais manifestações sejam gastar muito dinheiro, comer para caramba e encher a cara. A festa máxima dos cristãos é a festa religiosa mais capitalista do planeta. E olhem que a mensagem de Cristo era o exato oposto. Não foi o filho de Deus quem expulsou os vendilhões do templo? Não foi ele quem disse que “é mais fácil um camelo passar pelo buraco de uma agulha do que um rico entrar no reino dos céus”? Quer mensagem menos capitalista do que esta?
Mas falar dessas coisas é querer estragar a festa, quebrar a “magia” do Natal –muito embora a única visível seja o mágico tilintar das caixas registradoras. Para o comércio, a data é uma bênção. Para as igrejas, o mundo do dinheiro nunca foi exatamente um incômodo e pode, afinal de contas, render belos donativos. Tampouco parece ser um empecilho que os fiéis gastem todo o 13º salário e se endividem em compras, porque depois engrossarão as fileiras dos que procuram as casas de Deus em busca de conforto não para os flagelos da alma, mas do bolso.
Tem igrejas pentecostais que vivem disso, de oferecer aos crédulos a superação das dívidas financeiras e o sucesso econômico através do poder de Deus. De que lhes serviria abrir os olhos dos fiéis e pregar que o Natal não é sinônimo de gastança? Deixa quieto, Papai Noel é bem mais conveniente que Jesus, até porque não fere suscetibilidades. Sem essa de rico não poder entrar no reino dos céus: seja rico ou seja pobre o velhinho sempre vem, não é mesmo? “Compre, compre. Ho, ho, ho”.
Meu lado cristão (de formação) se revolta de ver que o Natal se transformou nessa pseudo festa religiosa, vazia de significado espiritual. Em vez de se incomodar com a vida íntima do próximo, de tentar interferir na orientação sexual do semelhante ou de se empenhar em lutas surreais como a cruzada contra a proteção da camisinha, as igrejas cristãs deviam se dedicar a repensar sua festa mais importante. Se os cristãos fossem de fato cristãos, tinham de estar preocupados que o nascimento de Jesus perdeu o lugar para o consumismo que o Papai Noel representa. Tentar resgatar a mensagem do Natal: esta, sim, seria uma luta de fato agregadora, digna da data e do aniversariante.
Dá para começar em casa, montando o presépio com as crianças como aconteceu no passado e, no mínimo, explicando a elas que o dono da festa não é o Papai Noel, que não é por causa dele que o Natal existe. Quantos cristãos fazem isso?
Boas festas a todos.
Publicado pela autora em 24 de dezembro de 2012




segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

Leonardo Boff sobre O Natal


Natal: um mito cristão verdadeiro


Texto de Leonardo Boff

24/12/2012

Fonte: http://leonardoboff.wordpress.com/2012/12/24/natal-um-mito-cristao-verdadeiro/



  Há poucas semanas, com pompa e circunstância, o atual Papa mostrou-se novamente teólogo ao lançar um livro: “A Infância de Jesus”. Apresentou a versão clássica e tradicional que vê naqueles relatos idílicos uma narrativa histórica. O livro deixou os teólogos perplexos, pois a exegese bíblica sobre estes textos,  há já pelos menos 50 anos, mostrou que não se trata propriamente de um relato histórico, mas de alta e refinada teologia, uma maneira de destacar algo da figura especial de Jesus, elaborada pelos evangelistas Mateus e Lucas (Marcos e João nada falam da infância de Jesus) para provar que Jesus era de fato o Messias, o filho de Davi e o Filho de Deus.
Para esse fim, recorrem a gêneros literários para apresentar uma mensagem, transmitida como se fossem histórias mas que de fato não passam de recursos literários, como, por exemplo, os magos do Oriente (representando os pagãos e os sábios), os pastores (os mais pobres e considerados pecadores por estarem às voltas com animais que os tornavam impuros), a Estrela e o anjos (mostrando o caráter divino de Jesus), Belém que não seria uma referência geográfica mas teria um significado teológico: o lugar onde, segundo as profecias, nasceria o Messias, diferente de Nazaré, totalmente desconhecida, onde Jesus provavelmente teria nascido de fato. E assim outros tópicos como detalhadamente analisei em meu Jesus Cristo Libertador (capitulo VIII).Mas tudo isso não é muito importante porque exige conhecimentos muito especializados.
Importante mesmo é compreender que face aos relatos tão comovedores do Natal estamos diante de um grandioso mito, entendido positivamente como os antropólogos o fazem: o mito como a transmissão de uma verdade tão profunda que somente a linguagem mítica, figurada e simbólica é adequada para expressá-la. É exatamente o que o mito pretende. O mito é verdadeiro quando o sentido que quer transmitir é verdadeiro e ilumina toda a comunidade. Assim o Natal é um mito cristão cheio de verdade, da proximidade de Deus e da familiaridade.
Nós hoje usamos outros mitos para mostrar a relevância de Jesus. Para mim é de grande significação um mito antigo, que a Igreja aproveitou na liturgia do Natal para revelar a comoção cósmica face ao nascimento de Cristo. Ai se diz:
”Quando a noite estava no meio de seu curso e fazia-se profundo silêncio: então as folhas que farfalhavam pararam como mortas; então o vento que sussurrava, ficou parado no ar; então o galo que cantava parou no meio de seu canto; então as águas do riacho que corriam, se paralisaram; então as ovelhas que pastavam, ficaram imóveis; então o pastor que erguia o cajado para golpeá-las, ficou petrificado; então nesse momento tudo parou, tudo silenciou, tudo se suspendeu porque nasceu Jesus, o salvador da humanidade e do universo”.
O Natal nos quer comunicar que Deus não é aquela figura severa e de olhos penetrantes para perscrutar nossas vidas. Não. Ele surge como uma criança. Ela não julga; só quer receber carinho e brincar.
Eis que do presépio veio uma voz que me sussurrou: ”Oh, criatura humana, por que tens medo de Deus? Ele não se fez criança? Não vês que sua mãe enfaixou seus bracinhos e seu corpinho frágil? Não percebes que ela não ameaça ninguém? Nem condena ninguém? Não escutas o seu chorinho doce? Mais que ajudar, essa criança precisa ser ajudado e coberta de carinho porque sozinha não pode fazer nada; não sabes que ela é o Deus-conosco-como nós?”
E ai já não pensamos mais mas damos lugar ao coração que sente, se compadece e ama. Poderíamos fazer outra coisa diante desta Criança, sabendo que é o Deus humanado?
Talvez poucos escreveram tão bem sobre o Natal, sobre Jesus Criança, que o poeta português Fernando Pessoa: ”Ele é a eterna criança, o Deus que faltava. Ele é o divino que sorri e que brinca. É a criança tão humana que é divina”.
Mais tarde transformaram o Menino Jesus no São Nicolau, no Santa Claus e, por fim, no Papai Noel. Pouco importam os nomes, porque no fundo, o espírito de bondade, de proximidade e de Presente divino está, de alguma forma, lá.
Acertado foi o editorialista Francis Church do jornal The New York Sun de 1897 respondendo a uma menina de 8 anos, Virgínia, que lhe escreveu: “Prezado Editor: me diga de verdade, o Papai Noel existe?” E ele sabiamente respondeu:
“Sim, Virgínia, Papai Noel existe. Isto é tão certo quanto a existência do amor, da generosidade e da devoção. E você sabe que tudo isto existe de verdade, trazendo mais beleza e alegria à nossa vida. Como seria triste o mundo se não houvesse o Papai Noel! Seria tão triste quanto não existir Virgínias como você. Não haveria fé das crianças, nem a poesia e a fantasia que tornam nossa existência leve e bonita. Mas para isso temos que aprender a ver com os olhos do coração e do amor. Então percebemos que não há nenhum sinal de que o Papai Noel não exista. Se existe o Papai Noel? Graças a Deus ele vive e viverá sempre que houver crianças grandes e pequenas que aprenderam a ver com os olhos do coração”
Nesta festa, tentemos a olhar com os olhos do coração, pois todos fomos educados a olhar com os olhos da razão. Por isso somos frios. Hoje vamos resgatar os direitos do coração que é caloroso: deixar-nos comover com nossas crianças, permitir que sonhem e nos encher de estremecimento diante da Divina Criança que sentiu prazer e alegria ao decidir ser um de nós pela encarnação.
PS. Desejo aos leitores e leitoras de meu blog um Natal de esperança pois precisamos dela no meio de um mundo em voo cego rumo a um futuro incerto. Mas uma Estrela como a de Belém nos mostrará um caminho salvador. E chamaram Jesus de Emanuel, o Deus que caminha conosco, entro e ao nosso lado.

quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

A melhor mensagem de Natal passa longe do consumismo...




  A melhor mensagem de Natal não é aquela associada ao consumismo, nem à neurose das aparências, mas sim aquela que sai da alma que, por pelo menos uma hora, relembra do esquecido aniversariante e, mais ainda, do seu exemplo no silêncio de nossos corações  que, sensibilizado, se abre aos corações daqueles que a vida nos deu por acompanhantes no caminhar comum da existência...


Carlos Antonio Fragoso Guimarães