quinta-feira, 1 de agosto de 2019

Novas revelações do The Intercept-VazaJato: Delatan Dallagnol incentivou cerco a ministros do STF


'CONSEGUE AINDA O ENDEREÇO DO TOFFOLI?'

Deltan Dallagnol incentivou cerco da Lava Jato ao ministro do STF Dias Toffoli



Parte 14
Procurador incentivou colegas a investigar o ministro clandestinamente quando ele passou a ser visto como um adversário disposto a frear o avanço da operação.

Oprocurador Deltan Dallagnol incentivou colegas em Brasília e Curitiba a investigar o ministro Dias Toffoli sigilosamente em 2016, numa época em que o atual presidente do Supremo Tribunal Federal começava a ser visto pela operação Lava Jato como um adversário disposto a frear seu avanço.
Mensagens obtidas pelo Intercept e analisadas em conjunto com a Folha revelam que Dallagnol, coordenador da força-tarefa da Lava Jato em Curitiba, buscou informações sobre as finanças pessoais de Toffoli e sua mulher e evidências que os ligassem a empreiteiras envolvidas com a corrupção na Petrobras.
Ministros do STF não podem ser investigados por procuradores da primeira instância, como Dallagnol e os demais integrantes da força-tarefa. A Constituição diz que eles só podem ser julgados pelo próprio tribunal, onde quem atua em nome do Ministério Público Federal é o procurador-geral da República.
As mensagens examinadas pela Folha e pelo Intercept mostram que Dallagnol desprezou esses limites ao estimular uma ofensiva contra Toffoli e sugerem que ele também recorreu à Receita Federal para levantar informações sobre o escritório de advocacia da mulher do ministro, Roberta Rangel.
A movimentação de Dallagnol, no entanto, não tem relação com o episódio em que Toffoli foi identificado pelo empresário Marcelo Odebrecht como o “amigo do amigo do meu pai” citado num e-mail enviado a executivos da empreiteira em 2007. Colaborador da Lava Jato, Marcelo fez a ligação ao responder questionamentos da Polícia Federal. O caso veio à tona quando seu ofício à PF foi revelado pela revista Crusoé, em reportagem publicada em abril deste ano, censurada pelo STF e republicada pelo Intercept.

‘TEMOS QUE VER COMO ABORDAR ESSE ASSUNTO’

Dias Toffoli.
Toffoli tornou-se ministro do STF em 2009, por indicação do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Antes, chegou a trabalhar como advogado do PT e assessorou juridicamente a Casa Civil quando José Dirceu era ministro.

Foto: Sergio Lima/AFP/Getty Images
O CHEFE DA FORÇA-TAREFA começou a manifestar interesse por Toffoli em julho de 2016, quando a empreiteira OAS negociava um acordo para colaborar com as investigações da Lava Jato em troca de benefícios penais para seus executivos.
No dia 13 de julho, Dallagnol fez uma consulta aos procuradores que negociavam com a empresa. “Caros, a OAS trouxe a questão do apto do Toffoli?”, perguntou no grupo Acordo OAS, no Telegram. “Que eu saiba não”, respondeu o promotor Sérgio Bruno Cabral Fernandes, de Brasília. “Temos que ver como abordar esse assunto. Com cautela.”


13 de julho de 2016 – Grupo Acordo OAS
Deltan Dallagnol – 22:36:58 – Caros, a OAS trouxe a questão do apto do Toffoli?
Sérgio Bruno Cabral Fernandes. – 22:55:26 – Que eu saiba não. Temos que ver como abordar esse assunto. Com cautela.
Dallagnol – 23:09:42 – Quando é a próxima reunião?



Em 27 de julho, duas semanas depois, Dallagnol procurou Eduardo Pelella, chefe do gabinete do então procurador-geral Rodrigo Janot, para repassar informações que apontavam Toffoli como sócio de um primo num resort no interior do Paraná. Dallagnol não indicou a fonte da dica.
No dia seguinte, o chefe da força-tarefa insistiu com o assessor de Janot. “Queria refletir em dados de inteligência para eventualmente alimentar Vcs”, escreveu. “Sei que o competente é o PGR rs, mas talvez possa contribuir com Vcs com alguma informação, acessando umas fontes.”
Dallagnol continuava interessado no caso do ministro do Supremo. “Vc conseguiria por favor descobrir o endereço do apto do Toffoli que foi reformado?”, perguntou. “Foi casa”, respondeu Pelella. Ele evitou esticar a conversa na hora, mas informou o endereço a Dallagnol dias depois.


28 de julho de 2016 – Chat privado
Dallagnol – 22:09:59 – Pelella, queria refletir em dados de inteligência para eventualmente alimentar Vcs. Sei que o competente é o PGR rs, mas talvez possa contribuir com Vcs com alguma informação, acessando umas fontes. Vc conseguiria por favor descobrir o endereço do apto do Toffoli que foi reformado?
Pellela – 23:16:05 – Foi casa
Pellela – 23:16:09 – Consigo sim
Pellela – 23:16:15 – Amanhã de manhã
Dallagnol – 23:21:39 – ótimo, obrigado!



Dallagnol não foi atendido. Mas o procurador insistiu:


4 de agosto de 2016 – Chat privado
Dallagnol – 20:05:09 – Pelella consegue ainda o endereço do Toffoli?
Pellela – 20:30:31 – Sim
Pellela – 20:30:34 – Perai
Pellela – 20:49:55 – SUPRIMIDO
Dallagnol – 21:01:34 – Valeu!!



Todas as mensagens foram reproduzidas com a grafia encontrada nos arquivos originais obtidos pelo Intercept, incluindo erros de português e abreviaturas. As revelações, que publicamos em parceria com o jornal Folha de S.Paulo, estão em um arquivo de documentos fornecidos exclusivamente ao Intercept por uma fonte anônima (leia nossa declaração editorial aqui) e fazem parte da série Vaza Jato.
Signature of a law that deals with aspects related to women and
Em julho de 2016, Dallagnol consultou os colegas que negociavam um acordo com a OAS para saber se tinham informações sobre Toffoli, visto como um inimigo da Lava Jato.

Foto: Mateus Bonomi/AGIF(via AP)
EM SUAS PRIMEIRAS REUNIÕES com os procuradores da Lava Jato, os advogados da OAS contaram que a empreiteira havia participado de uma reforma na casa de Toffoli em Brasília. Os serviços tinham sido executados por outra empresa indicada pela construtora ao ministro, e ele fora o responsável pelo pagamento.
O ex-presidente da OAS Léo Pinheiro, que disse ter tratado do assunto com Toffoli e era réu em vários processos da Lava Jato, afirmou a seus advogados que não havia nada de errado na reforma, mas o caso despertou a curiosidade dos procuradores mesmo assim.
Duas decisões de Toffoli no STF tinham contrariado interesses da força-tarefa nos meses anteriores. Ele votara para manter longe de Curitiba as investigações sobre corrupção na Eletronuclear e soltara o ex-ministro petista Paulo Bernardo, poucos dias após sua prisão pelo braço da Lava Jato em São Paulo.
Os procuradores Carlos Fernando dos Santos Lima e Diogo Castor de Mattos, da força-tarefa de Curitiba, chegaram a criticar Toffoli num artigo publicado pela Folha no início de julho daquele ano. Eles compararam a soltura de Bernardo a um duplo twist carpado, por causa da “ginástica jurídica” usada para justificar a decisão.
As mensagens obtidas pelo Intercept não permitem esclarecer se alguma investigação formal sobre o ministro do STF foi aberta, mas mostram que Dallagnol continuou insistindo no assunto mesmo depois que um vazamento obrigou os procuradores a recuar.
‘Qdo chega no judiciário, eles se fecham’
Em agosto de 2016, a revista Veja publicou uma reportagem de capa sobre a reforma na casa de Toffoli, apontando a delação de Léo Pinheiro como fonte das informações. Embora os advogados da OAS tivessem mencionado o caso aos procuradores, eles ainda não tinham apresentado nenhum relato por escrito sobre o assunto.
O vazamento causou mal-estar no Supremo e levou a Procuradoria-Geral da República a suspender as negociações com a OAS, para evitar uma crise que poderia prejudicar o andamento de outras investigações.
O rompimento dividiu a força-tarefa de Curitiba, segundo as mensagens do chat FT MPF Curitiba 3 analisadas pela Folha e pelo Intercept. Carlos Fernando defendeu a medida, mas Dallagnol achava que o recuo seria interpretado como uma tentativa de proteger Toffoli e o STF, impedindo a apuração de desvios.
“Qdo chega no judiciário, eles se fecham”, disse o procurador aos colegas em 21 de agosto, um dia após a reportagem sobre Toffoli chegar às bancas. “Corrupção para apurar é a dos outros.”
Carlos Fernando temia que os ministros do Supremo reagissem impondo obstáculos para novos acordos de colaboração e criando outras dificuldades para a Lava Jato.
“Só devemos agir em relação ao STF com provas robustas”, afirmou. “O que está em jogo aqui é o próprio instituto da colaboração. Quanto a OAS e ao toffoli, as coisas vão crescer e talvez daí surjam provas.”
No mesmo dia, horas mais tarde, o procurador Orlando Martello sugeriu que os colegas pedissem à Secretaria de Pesquisa e Análise (SPEA) da Procuradoria-Geral da República um levantamento sobre pagamentos da OAS ao escritório da mulher de Toffoli.
“A respeito do Toffoli, peçam pesquisa para a Spea de pagamentos da OAS para o escritório da esposa do rapaz q terão mais alguns assuntos para a veja”, disse Orlando no Telegram. “Não é nada relevante, mas acho q da uns 500 mil”.
Em resposta ao colega, Dallagnol afirmou que a Receita Federal já estava pesquisando o assunto, mas disse que não sabia dos pagamentos que teriam sido feitos pela OAS. “A RF tá olhando”, escreveu o chefe da força-tarefa. “Mas isso eu não sabia.”

“Quem aposta que Toffoli cai até o fim da LJ?”, escreveu Dallagnol aos colegas do grupo Filhos do Januario 1 em novembro de 2016.

Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil
DIAS APÓS A PUBLICAÇÃO da reportagem sobre a delação da OAS, o ministro Gilmar Mendes saiu em defesa de Toffoli e do STF e apontou os procuradores da Lava Jato como responsáveis pelo vazamento, acusando-os de abuso de autoridade.
Dallagnol propôs aos colegas a divulgação de uma nota em resposta ao ataque do ministro, mas não conseguiu apoio suficiente para a iniciativa. “Não acho que seja uma boa estratégia”, disse Pelella em um chat privado com Dallagnol. “Isso tende a acirrar os ânimos no STF.”
Pouco depois, Dallagnol escreveu a Orlando Martello em busca de novidades sobre a mulher de Toffoli. As pesquisas não pareciam ter avançado, e o chefe da força-tarefa sugeriu que o colega também procurasse informações sobre a mulher de Gilmar, Guiomar Mendes.
“Tem uma conversa de que haveria recebimentos cruzados pelas esposas do Toffoli e Gilmar”, escreveu Dallagnol. “Tem mta especulação. Temos a prova disso na nossa base? Vc teve contato com isso?”
Martello disse que não tinha nada que confirmasse as suspeitas, mas compartilhou com Dallagnol informações que recebera um ano antes sobre a atuação do escritório da mulher de Toffoli na defesa de outra empreiteira, a Queiroz Galvão, no Tribunal de Contas da União.
O informante de Martello, que ele não identificou na conversa com Dallagnol, dizia ter encontrado uma procuração que nomeava Toffoli e a mulher como representantes da empresa no TCU e sugeria que essa ligação obrigava o ministro a se afastar dos processos da Lava Jato.


26 de agosto de 2016 – Chat particular
Orlando Martello – 09:10:04 – Esposa do Toffoli; não do gilmar. Sim, prestação de serviços do escritório de advocacia dela para, acho, OAS. Só estou em dúvida se foi para a OAS ou outra empreiteira, mas quase certeza de que foi para a oas. Fatos de 2009 ou 2010. Não me recordo bem. Jonathas pode fazer esta pesquisa.
Deltan Dallagnol – 10:02:15 – Tem uma conversa de que haveria recebimentos cruzados pelas esposas do Toffoli e Gilmar. Tem mta especulação. Temos a prova disso na nossa base? Vc teve contato com isso?
Dallagnol – 10:02:25 – Aí é diferente rs
Martello – 12:20:46 – Não. Não tenho nada sobre isso.
Martello – 12:21:23 – achei o que me mandaram.
Martello – 12:21:30 – Achei uma procuração do toffoli e da mulher dele, representando Queiroz Galvão no tcu… Então eles podem ter recebido pagamentos em 2009, ano que tem quebra fiscal por aí. Nós vamos tratar isso com toda a gravidade que merece. ele tinha que ter se declarado impedido… Não pode ajudar só a achar esses pagamentos?? Com certeza tem algum pagamento em 2009 pela Queiroz Possíveis favorecidos: TOFFOLI E TELESCA ADVOGADOS ASSOCIADOS S C CNPJ SUPRIMIDO TOFFOLI RAVANELLI E MASSULA ADVOGADOS ASSOCIADOS ME CNPJ SUPRIMIDO JOSE ANTONIO DIAS TOFFOLI CPF SUPRIMIDO ROBERTA MARIA RANGEL CPF SUPRIMIDO RANGEL ADVOCACIA CNPJ SUPRIMIDO
Martello – 12:22:10 – É sobre a queiroz galvão e não sobre a oas
Dallagnol – 13:53:13 –   
Martello – 14:50:43 – Mas olha que não pedi pesquisa em relação a OAS!!!



Toffoli e a mulher foram sócios do mesmo escritório de advocacia até 2007, quando ele saiu para assumir a chefia da Advocacia-Geral da União. Duas semanas depois do diálogo de Dallagnol com Martello, a Folha publicou reportagem sobre pagamentos que um consórcio liderado pela Queiroz Galvão fez ao escritório em 2008 e 2011, no valor total de R$ 300 mil.
As mulheres de Toffoli e Gilmar foram mesmo alvo da Receita. Em fevereiro deste ano, o jornal O Estado de S. Paulo informou que elas fizeram parte de um grupo de 134 contribuintes investigados por uma equipe especial criada pelo fisco em 2017.
Em 14 de novembro de 2016, Dallagnol ainda fez uma brincadeira com a possibilidade de o ministro ser enquadrado pela operação. “Quem aposta que Toffoli cai até o fim da LJ? Por enquanto a aposta de que cai para mais, mas a coisa pode se inverter kkkk”, escreveu aos colegas do grupo Filhos do Januario 1.
Signature of a law that deals with aspects related to women and
Dallagnol manobrou para barrar a indicação do ministro Humberto Martins, do STJ, para uma vaga que estava aberta no Supremo.

Foto: Raquel Cunha/Folhapress
Toffoli não foi o único alvo da Lava Jato na cúpula do Judiciário. As mensagens obtidas pelo Intercept mostram que Dallagnol também usou a delação da OAS para tentar barrar a indicação de um ministro do Superior Tribunal de Justiça, Humberto Martins, para a vaga aberta no STF com a morte de Teori Zavascki em 2017.
Os procuradores voltaram à mesa de negociações com os advogados da OAS em março de 2017, quando Léo Pinheiro estava preso em Curitiba e se preparava para depor no processo em que incriminou o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva por causa do tríplex de Guarujá.
O acordo com o empreiteiro foi assinado no fim do ano passado, mas até hoje não foi encaminhado pela procuradora-geral Raquel Dodge ao Supremo para homologação. Sem isso, Pinheiro não pode sair da cadeia e receber os benefícios acertados com a Lava Jato, e as informações que ele forneceu às autoridades não podem ser usadas.
‘É importante o PGR levar ao Temer a questão do Humberto Martins’
Mesmo assim, quando o nome de Humberto Martins apareceu na imprensa como um dos cotados para a vaga no Supremo, Dallagnol procurou Pelella para sugerir que Janot alertasse o então presidente Michel Temer de que ele era um dos alvos da delação de Léo Pinheiro.
“É importante o PGR levar ao Temer a questão do Humberto Martins, que é mencinoado na OAS como recebendo propina…”, disse Dallagnol ao colega. “Deixa com ‘nós'”, respondeu Pelella.
O chefe da força-tarefa de Curitiba sugeriu que o assessor de Janot conferisse os documentos anexados pela OAS à sua proposta de colaboração, mas depois se lembrou de que a Lava Jato não recebera até então nenhum relato escrito sobre Martins.
Mesmo assim, Dallagnol insistiu com Pelella para que avisasse o presidente. “Não tá nos anexos, mas iriam entregar. Só não lembramos se era corrupção ou filho… vou ver se alguém lembra e qq coisa aviso, mas já cabe a ponderação pq seria incompativel”, afirmou no Telegram.
Fazia cinco meses que as negociações com a OAS tinham sido encerradas. Como o acordo com a empreiteira não fora assinado nem homologado, as informações fornecidas por Léo Pinheiro durantes as negociações não podiam ser usadas pelos investigadores.
O anexo com o relato sobre Martins só surgiu após a retomada das negociações em março de 2017. Segundo Léo Pinheiro, a OAS pagou R$ 1 milhão a um filho do ministro em 2013 para obter uma decisão favorável no STJ. Em janeiro, Martins disse à Folha que nunca atendeu pedidos da OAS e sempre se declarou impedido de julgar ações em que o filho atue.
Questionados sobre as mensagens, a força-tarefa à frente da Operação Lava Jato em Curitiba afirmou que é seu dever encaminhar à Procuradoria-Geral da República informações sobre autoridades com direito a foro especial no Supremo Tribunal Federal sempre que as recebe, e que isso tem sido feito de forma legal. A força-tarefa, no entanto, não fez comentários específicos sobre o conteúdo das conversas.
“É comum o intercâmbio de informações para verificar, em caráter preliminar, supostos fatos de que o Ministério Público tenha conhecimento”, afirmou a força-tarefa, por meio de nota. “Isso impede inclusive que se dê iní­cio a apurações injustificadas.”
A força-tarefa tampouco respondeu como Dallagnol soube da participação da OAS na reforma da casa de Toffoli e como soube que a Receita Federal estava analisando as finanças do escritório de sua mulher, Roberta Rangel. O procurador preferiu não se manifestar.
O chefe da força-tarefa também não quis esclarecer por que usou informações da delação do empreiteiro Léo Pinheiro para tentar impedir a nomeação do ministro Humberto Martins para uma vaga no STF, como revelam as mensagens obtidas pelo Intercept.
O procurador Eduardo Pelella, que trocou informações sobre Toffoli com Dallagnol, não quis fazer comentários. Informado sobre o conteúdo das mensagens e seu contexto, disse que não tem como verificar sua autenticidade “para que se possam identificar falsas imputações”.
Os ministros Dias Toffoli e Gilmar Mendes também não quiseram se manifestar, assim como a Procuradoria-Geral da República.
O ministro Humberto Martins, do Superior Tribunal de Justiça, afirmou estranhar sua citação pela delação de Léo Pinheiro e disse que, na maioria dos casos, sempre decidiu contrariamente aos interesses da OAS e de seu ex-presidente.
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As mensagens secretas da Lava Jato

Uma enorme coleção de materiais nunca revelados fornece um olhar sem precedentes sobre as operações da força-tarefa anticorrupção que transformou a política brasileira e conquistou a atenção do mundo.

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Paula Bianchipaula.bianchi@​theintercept.com@pbbianchi
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Como Dallagnol agiu na clandestinidade para desestabilizar a república. Por Joaquim de Carvalho, em vídeo, no DCM





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Cerco de Dallagnol a Toffoli: Deltan precisa ser preso antes de acabar de destruir as provas de seus delitos. Por Kiko Nogueira

DCM:




Nova leva de diálogos da Vaza Jato mostram Deltan Dallagnol mandando investigar o ministro do Supremo Tribunal Federal Dias Toffoli, visto como inimigo da causa.

Dallagnol buscou informações sobre as finanças pessoais do atual presidente do STF e da mulher dele, Roberta Rangel, além de evidências que os ligassem a empreiteiras. 

“Caros, a OAS touxe a questão do apto do Toffoli?”, diz ele, em 13 de julho de 2016, aos procuradores que negociavam com a empresa acordo de colaboração.

“Que eu saiba não”, responde o promotor Sérgio Bruno Cabral Fernandes, de Brasília.
 
“Temos que ver como abordar esse assunto. Com cautela”, pede Dallagnol.

Recorreu à Receita Federal para levantar informações sobre o escritório de advocacia de Roberta.

Gilmar Mendes também estava na mira.

“Tem uma conversa de que haveria recebimentos cruzados pelas esposas do Toffoli e Gilmar”, conta Deltan ao procurador Orlando Martello.
“Tem mta especulação. Temos a prova disso na nossa base? Vc teve contato com isso?”
A Folha aponta que os magistrados STF não podem ser investigados por procuradores da primeira instância.
 
Segundo a Constituição, só com autorização do próprio tribunal, onde quem atua em nome do Ministério Público Federal é o procurador-geral da República.

Pelos critérios da operação que comandava com Sergio Moro, Dallagnol já estaria em cana. Preventiva na cabeça.

Já falei disso e repito aqui: se fosse o que prega, já teria pedido demissão.


Ele precisa ser preso, entre outros motivos, antes de terminar de destruir as provas de seus crimes.


Fosse o Brasil sério, estaria atrás das grades.

Vale a pena mexer a história podre do autoritarismo, por Clarisse Gurgel



Bolsonaro representa, sem dúvida, as dívidas históricas de um país marcado pelo coronelismo, pelo populismo, pelo fisiologismo, mas expressa uma cultura autoritária de tempero distinto, que, não sem razão, convoca-nos a refletir sobre o aspecto moderno do fascismo. 


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Vale a pena mexer

por Clarisse Gurgel, cientista política e professora da Faculdade Ciências Sociais, da UNIRIO

A semana começou com mais um ato de violência de Bolsonaro. Desta vez, porém, parece que o atual presidente extrapolou os limites até para seus apoiadores. Curiosamente, medidas absurdas acerca da reforma da previdência não são suficientes para provocar tamanha comoção. Até hoje, o que mais chamou atenção, dentre as medidas deste que mais parece o Rei de Hegel – aquele que é, sem fundamento, que é porque é, ao ponto de poder ser qualquer um -, foi a nomeação de seu filho, Eduardo Bolsonaro, para o consulado americano. Se este lugar de Rei, para Hegel, é esta unidade inquestionável, oriunda da indubitável hereditariedade, caberia a nós decifrar que unidade é esta que Bolsonaro representa e que, em grande medida, herdou de Lula, tal como se nos transferíssemos de um populismo de esquerda para um populismo de direita. Este, que é um conteúdo comum, cultivado em anos de história, parece apontar para algo que não mudou em nosso país. 


Bolsonaro abriu o segundo semestre de 2019 com mais uma declaração bombástica – e a alusão à bomba não é mera coincidência. Declarou que sabe o destino de um desaparecido político, Fernando Santa Cruz, em uma provocação ao presidente da OAB, Felipe Santa Cruz, filho do militante morto. Diante desta última atitude ofensiva, a jornalista Cristiana Lobo, da Globo, disse: “isto é reflexo de grupos alternativos da ditadura… Coisa que não vale a pena mexer”. Do que Cristiana estava falando? E quanto vale não mexer nesta coisa? Em que medida isto que é, no mínimo, uma abstenção, explica a pena imposta aos brasileiros, desde 2016, quando ocorre o golpe que impede Dilma de governar?

 É sabido, tal como pode ser visto em memoriais da ditadura de 64, que os grupos aos quais se refere Cristiana envolvem a divisão, mais tensionada em 74, quando da ocasião da chamada abertura política, no Brasil: de um lado, o campo favorável ao arrefecimento do regime autoritário, do outro, aquele que reunia os defensores do endurecimento, ainda maior, da ditadura. João Figueiredo, um dos nomes da primeira ala, parecia sintetizar este nó em que estamos, hoje, em que um ditador é eleito. Encarregado de abrir o regime, em reação “ao grupo alternativo” de Silvio Frota – de que faziam parte o atual General Heleno e o Coronel Brilhante Ustra -, Figueiredo alardeava: “a democracia será estabelecida no Brasil, nem que seja à força!”. Em que medida o regime estatal brasileiro foi aberto, efetivamente, e no que consistiria esta abertura? 


Ernesto Geisel, sem dúvida, correspondia também ao setor dos militares que já começava a entender a diferença – até mesmo prática e funcional – entre autoritarismo e autoridade. Razão pela qual a democratização passava a ser o novo método – mais econômico – de imposição – agora, velada, por meio de filtros representativos – de um modelo baseado na exploração social.  O “grupo alternativo” de Silvio Frota insistia em aprofundar o autoritarismo, aumentar as torturas e crimes de Estado, mesmo diante de uma esquerda exilada, asilada, torturada, morta e desaparecida.

Esta escolha por seguir massacrando os massacrados, mesmo diante de técnicas de combate mais sutis e sofisticadas, aponta para um aspecto distintivo, quase patológico, do setor de Silvio Frota, ao qual, mais tarde, Bolsonaro se filia. Se há uma dificuldade em caracterizar o que estamos vivendo, no Brasil, este traço perverso parece auxiliar neste esforço e envolve aquilo que o filósofo e sociólogo grego, Nicos Poulantzas, apontava como aspecto “fascistizador” de um estatismo autoritário. A fascistização, segundo Poulantzas, correspondia, justamente, ao fenômeno de acirramento da violência de Estado, de um regular estado de exceção, em face de um movimento popular derrotado. Este parece ser o excesso que escandaliza até os mais insensíveis e que nos dá a impressão de que o governo chuta cachorro, se não morto, moribundo. 

Bolsonaro representa, sem dúvida, as dívidas históricas de um país marcado pelo coronelismo, pelo populismo, pelo fisiologismo, mas expressa uma cultura autoritária de tempero distinto, que, não sem razão, convoca-nos a refletir sobre o aspecto moderno do fascismo. Tal como alertava Florestan Fernandes, isto que corresponde, aqui no Brasil, a um totalitarismo de classe, consiste em uma força onde uma burguesia relativamente impotente prefere a capitulação política ao imperialismo a lutar pelas bandeiras tradicionais. Este novo sabor, esta fascistização, tem a marca do chamado Frotismo, que alguns já compreendem como aquilo que imprime um caráter de revanche ao governo Bolsonaro: o retorno do “grupo alternativo” que prendeu Dilma e foi contra a democratização do Brasil. 


O que testemunhamos, hoje, é, pois, a volta do cipó no lombo de quem já levou, a mando de um grupo de militares que não só carrega traços fascistas, mas também de um setor que, curiosamente, mescla doutrina de guerra com a defesa do Estado mínimo. Uma mistura que explica, em grande medida, um governo que realiza todos os seus fetiches de Capitão América, no combate aos comunistas, e que entrega o país à espoliação de estrangeiros, como EUA e União Europeia. Estamos falando, portanto, de uma revanche de tempero entreguista, nos marcos dos neo-conservadores formados na Escola de Chicago – o que nos ajuda a compreender como a democracia, assim como qualquer outra coisa, torna-se mais um gênero de mercado nas mãos dos bolsonaristas.

 O método pelo qual este “grupo alternativo”, radicalmente avesso à democracia, chega ao poder, em sua revanche de 2019, é, justamente, o da democracia, pelo voto. Sem prejuízo do debate acerca dos recursos para a obtenção de voto – debate que envolve os limites da própria democracia burguesa -, o meio pelo qual o grupo do “autoritarismo forte” retorna é estranho ao seu próprio vocabulário. Isto é o que inaugura uma dinâmica em que, na medida em que fazem uso da democracia, a destroem. E esta concomitância entre uso e destruição nada mais é do que o ato de consumir, basta pensarmos no consumo de qualquer coisa: de um pão, de um suco (na medida em que nos apropriamos deles, eles vão desaparecendo até acabar). 

Este parece ser o destino de um país entregue a “grupos alternativos”, nos quais alguns acham que “não vale a pena mexer”. A que pena nos destinaram por não mexermos? 

 Clarisse Gurgel, cientista política e professora da Faculdade Ciências Sociais, da UNIRIO.

As Torres Gêmeas da Vazajato, Moro e Dallagnol, por Francisco Celso Calmon



As Torres Gêmeas da Vazajato, Moro e Dallagnol, devem ser implodidas já, em prol do restabelecimento do Estado democrático de direito.


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As Torres Gêmeas da Vazajato

por Francisco Celso Calmon


 As Torres Gêmeas da Vazajato, Moro e Dallagnol, devem ser implodidas já, em prol do restabelecimento do Estado democrático de direito.  

A resistência ao bolsonarismo e a luta pela reconstrução da democracia, no xadrez da política, deve prosseguir dando xeques, encurralando o rei, mas para o xeque-mate (rendição do rei) é necessário eliminar as torres gêmeas da Vazajato.

Moro: sabotador do Estado democrático de direito; provocador de conflitos entres os poderes; arrogante e mentiroso no Congresso nacional.
Dallagnol: autor daquele PowerPoint calunioso e difamatório, colocando Lula como o comandante máximo do esquema da corrupção, é ambicioso e obsessivo por enricar, se julga e se posta como o sedutor de juízes e de plateias, covarde para aceitar o convite de comparecer à Câmara federal.   
Atores da ruína do Estado de direito, pavimentaram o terreno para a fraude eleitoral à medida que prenderam e condenaram, sem provas, Lula, virtual ganhador da eleição, e posteriormente impediram de dar entrevista em favor do seu candidato Haddad, o que o levaria à vitória. Aliado a esse quadro, um outro foi moldado através da “facanews” e fuga dos debates.

Moro, que condenou Lula sem provas, na atualidade quer destruir provas que o incriminam como responsável de alguns delitos gravíssimos, e, para tanto, procura, generalizando as revelações de gravações de hackers  de outras autoridades, como juízes e ministros, captar a solidariedade deles nessa sanha destruidora da decência moral e ética regrada pela Carta Magna.
 
Em ambos quadros a rede Globo foi (e é) o apoio da logística imprescindível nessa guerra híbrida, cujo plano foi originado na matriz ideológica do golpismo, EUA, que está em situação econômica e de poder, no plano internacional, em declínio e sujeito à nova crise com muitas marolas.  

O bolsonarismo é o lumpem da representação da classe dominante no governo e tem por objetivo destruir a plataforma civilizatória que vinha sendo construída até o golpe de 2016. No campo político subvertendo o Estado de direito, no campo social abolindo direitos e promovendo o ódio entre classes, no campo econômico implementando a receita do “Consenso de Washington”, desregulando a economia para a materialização plena do capitalismo de desastre. 


O prejuízo que a Vazajato, aliado aos governos Temer e bolsonarista, trouxe ao país ainda é incalculável. Contudo, alguns números são contabilizados e demonstram que Moro e Dallagnol, as torres gêmeas da Vazajato, provocaram a destruição parcial da indústria brasileira e de postos de trabalho. Segundo estimativas da consultoria GO associados, entre 2015 e 2019, a lava jato será responsável por um impacto de três pontos percentuais negativos do PIB do país. Somente no ano de 2015 a força tarefa provocou a redução do equivalente a 2,0% do PIB em investimentos da Petrobrás e a diminuição do equivalente a 2,8% do PIB em investimentos das construtoras e empreiteiras; em 2016 calcula-se que a Operação tenha sido responsável pelo encolhimento de 5,0% dos investimentos em formação bruta de capital fixo no país, bem como reduziu em mais de R$ 100 bilhões o faturamento das empresas arroladas na lava Jato. De acordo com o DIEESE, os setores de siderurgia (118 mil empregos perdidos), materiais e equipamentos (92 mil) e naval (60 mil empregos) foram os mais impactados. 
 
Contabilizando desempregados, desalentados e subocupados, são 29 milhões de pessoas. A recuperação cambaleante da economia brasileira provocará um crescimento pífio neste ano de 2019, não chegando talvez a 1%.

O desmonte do Estado de direito e a desregulamentação da economia impulsionam o Estado Policial, mantido pelas milícias, militares belicosos e as togas fascistas, a caminhar para um autoritarismo mais explícito e descarado.

Os militares que estão no governo são remanescentes e adeptos da linha dura da ditadura militar, inconformados com a democracia popular que estava em constituição e arautos vingadores dos torturadores responsabilizados pela Comissão Nacional da Verdade pelos seus crimes de lesa-humanidade, têm no general Heleno a expressão do ódio à esquerda no geral  e ao PT em particular.


O general Augusto Heleno declarou no jornal Valor Econômico:

“Sempre fui um grande opositor do PT e de tudo que o cerca. Jamais gostei do Lula e muito menos da Dilma. Sempre tive horror ao PT. Eu achava que tudo que eles faziam era uma enganação, nunca acreditei nesses programas sociais do PT.

E acrescentou:


“O Lula é terrível, mas o Fernando Henrique era pior, hein?”

Esse Heleno fez parte da ditadura, foi, na patente de capitão, ajudante de ordens do Ministro do Exército à época, general da linha dura Sylvio Frota. Como também o ministro da Secretaria-Geral e porta-voz da Presidência, general Floriano Peixoto, formado pela Academia Militar das Agulhas Negras em 1973, no auge da repressão. 

Lembro, como testemunha que fui (e sou, estou vivo), de que os militares do DOI-CODI se promiscuíram com o Esquadrão da Morte e participaram de assassinatos, tráfico e butim, adeptos, pois, de milícias. 


Evidente de que temos que separar o joio do trigo, mas para isso é mister que a parte boa das Forças Armadas, democrática e nacionalista, deem um Basta à traição que seus ex-colegas de farda, no governo, estão a cometer. De maneira análoga, outrossim em relação aos membros dos órgãos de Justiça – MP, PF e Judiciário.

Finalizo com partes do discurso de Ulisses Guimarães quando da promulgação da Constituição em outubro de 1988:  A Constituição certamente não é perfeita. Ela própria o confessa ao admitir a reforma. Quanto a ela, discordar, sim. Divergir, sim. Descumprir, jamais. Afrontá-la, nunca.


Traidor da Constituição é traidor da Pátria. Conhecemos o caminho maldito. Rasgar a Constituição, trancar as portas do Parlamento, garrotear a liberdade, mandar os patriotas para a cadeia, o exílio e o cemitério.

Quando após tantos anos de lutas e sacrifícios promulgamos o Estatuto do Homem da Liberdade e da Democracia bradamos por imposição de sua honra.

Temos ódio à ditadura. Ódio e nojo. 

Amaldiçoamos a tirania aonde quer que ela desgrace homens e nações. Principalmente na América Latina.

Quem mandou matar Marielle, cadê o Queiroz, quem banca Adélio Bispo?

 Francisco Celso Calmon é Advogado, Administrador, Coordenador do Fórum Memória, Verdade e Justiça do ES; autor do livro Combates pela Democracia (2012) e autor de artigos nos livros A Resistência ao Golpe de 2016 (2016) e Comentários a uma Sentença Anunciada: O Processo Lula (2017).




Bolsonaro, o saudosista da Ditadura e cultor do torturador Ustra, demite a presidente da Comissão Especial de Mortos e Desaparecidos, a Procuradora Eugênia Gonzaga




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Do GGN:

No Diário Oficial de hoje saiu a exoneração da presidente da Comissão Especial de Mortos e Desaparecidos Políticos Eugenia Gonzaga. A exoneração acontece um dia depois de Eugenia ter se manifestado contra a declaração de Bolsonaro sobre a morte de Fernando Santa Cruz, desaparecido político.

A Comissão é um órgão de Estado e Eugenia havia sido nomeada por decreto, razão pela qual a Ministra da Mulher, Família e Direitos Humanos não conseguiria exonerá-la sem um decreto da própria presidente da República.

Quando assumiu a CEMDP, a comissão tinha ficado praticamente inativa durante toda sua existência. Eugenia já tinha histórico de defesa da causa dos desaparecidos. Como procuradora, abriu inquéritos contra Badan Palhares e outros legistas que trataram sem cuidado as exumações. Assumindo o cargo – não remunerado -, não solicitou ao MPF dedicação exclusiva nem acréscimos em sua remuneração. Continuou com a função de Procuradora Regional, acumulando as duas tarefas.
Sem formação nem alinhamento político, desde o primeiro momento abraçou a causa dos desaparecidos políticos movida exclusivamente pela missão que abraçou, como Procuradora da República, e uma extrema solidariedade aos vulneráveis, razão de ter se tornado pioneira, também, na luta pela educação inclusiva.

Foi esse sentimento, de solidariedade às famílias que não podiam prantear seus mortos, que fez com que, ao lado do colega Marlon Weichert, abrisse as primeiras ações contra torturadores, como Brilhante Ustra.

No cargo de presidente da CEMDP, conseguiu reativar os laudos periciais, montar convênios com laboratórios internacionais indicados pela ONU. Embrenhou-se pelo mato, em Foz do Iguaçú, em cemitérios no interior da Bahia, chefiou missões em Marabá, enfrentando ambientes hostis, tudo pelo desafio de localizar os corpos e amainar a dor das famílias.

 Nos últimos tempos, vendo a tempestade da intolerância se aproximar, dobrou sua dedicação. Tratou de enviar as ossadas recolhidas para o laboratório ICMP, no exterior, preservando-as de riscos de destruição.


No final do ano passado, promoveu um evento em Brasília, reunindo pela primeira vez os familiares de desaparecidos, em uma cerimonia emocionante. Lá, em nome do Estado brasileiro – a Comissão é um órgão de Estado, não de governo – pediu desculpas às famílias.

Este ano, no dia 31 de março organizou uma Marcha do Silêncio no Parque do Ibiraquera, em homenagem aos desaparecidos, uma reunião inesquecível de música, lágrimas, orações e solidariedade.


No último mês, Eugenia requereu férias e não parou de trabalhar. Não pediu reembolso, o que é permitido pelos regulamentos do Ministério Público Federal. Os trinta dias foram integralmente
dedicados aos trabalhos da CEMDP. Conseguiu a retificação do atestado de óbito de Fernando Santa Cruz, antes que fosse alvo da inusitada grosseria de Bolsonaro, e preparava uma cerimônia em Recife de congraçamento com famílias de desaparecidos.

A demissão encerra um trabalho profícuo que ajudou a reafirmar, para o país, o lado esquecido do MPF, da grande instituição que poderia ter sido, de defesa dos direitos difusos da cidadania, de bandeira dos direitos humanos.

Que seu exemplo frutifique.



Verdade e reparação para os jovens idealistas da APML assassinados pela criminosa ditadura brasileira, por Mariluce Moura



Bolsonaro mente. Foi o Estado brasileiro que os sequestrou, torturou, assassinou em suas dependências, e em determinado momento o Estado brasileiro pediu desculpas por isso.


 

Verdade e reparação para os jovens idealistas da APML assassinados pela ditadura brasileira

Por Mariluce Moura*, no Jornal GGN

Eduardo Collier, 25 anos, pernambucano, Fernando Santa Cruz, 26 anos, pernambucano, Gildo Macedo Lacerda, 24 anos, mineiro, Honestino Guimarães, 25 anos, goiano, Humberto Câmara, 26 anos, paraibano, José Carlos Novais da Matta Machado, 27 anos, mineiro e, Paulo Wright, 40 anos, catarinense, cidadão brasileiro e norte-americano, depois de sequestrados por agentes da repressão de um estado terrorista, foram todos brutalmente assassinados entre setembro de 1973 e fevereiro de 1974. Eram militantes da Ação Popular Marxista-Leninista do Brasil (APML) e originários do Movimento Estudantil, à exceção de Paulo Wright, sociólogo, operário e membro da Igreja Prebisteriana.

Após matá-los, em todos os casos sob torturas monstruosas, a ditadura brasileira ocultou os corpos e simplesmente calou sobre o fim dado a essas pessoas que estavam sob a guarda e responsabilidade do Estado, lançando-as na cruel categoria de desaparecidos políticos. Num desses casos, o das mortes de Gildo Macedo Lacerda e José Carlos Matta Machado em dependências do Exército em Recife, criou e difundiu por todos os veículos de comunicação do país, incluindo a Rede Globo em seu Jornal Nacional, em 1º de novembro de 1973, uma versão rocambolesca de um tiroteio na esquina da Avenida Caxangá com a General Polidoro, onde ambos teriam sido abatidos por um terceiro companheiro com quem teriam um ponto. Queria, assim, introduzir sub-repticiamente a ideia de que Paulo Wright, cujo assassinato também não assumiria, matara os companheiros e fugira. 
Entre todos esses jovens, somente o corpo de José Carlos Mata Machado foi devolvido à família, num caixão lacrado, em função do clamor nacional e internacional que se levantou imediatamente após a notícia do que adiante chamaríamos de “Teatro da Avenida Caxangá”. Pressionada por figuras eminentes, a ditadura cedeu. Em relação aos demais, entretanto, os esforços incansáveis das famílias para ter o direito humano mínimo de enterrar seus mortos, por meses, anos, décadas, foram em vão. 
Os atestados de óbito não foram emitidos, mesmo quando as famílias obtiveram por sua busca infindável os laudos de IML que davam conta das lacerações, rupturas de órgãos internos, ferimentos transfixantes com objetos perfuro-cortantes, palavreado que indicava as torturas abjetas e os tiros que mataram seus entes queridos. Certidões de nascimento de filhos nascidos após o assassinato dos jovens não puderam inscrever de pronto o nome do pai porque não havia o pai para efetuar o registro nem comprovação oficial de sua morte – e a palavra da mãe nunca bastou.

Nenhum desses jovens foi justiçado por companheiros – Bolsonaro mente. Foi o Estado brasileiro que os sequestrou, torturou, assassinou em suas dependências, e em determinado momento o Estado brasileiro pediu desculpas por isso. Nenhum desses jovens era um terrorista sanguinário. Eram jovens idealistas, opositores de um regime brutal, que lutavam com ideias e a resistência possível dentro de uma realidade sufocante pela liberdade e pela reconquista da democracia. Eles sequer tinham armas – Bolsonaro, que entrou no Exército justamente nesse ano aterrorizante de 1973, mente de novo.
A Ação Popular Marxista-Leninista (APML) era um partido da chamada esquerda revolucionária que vai se constituindo no Brasil a partir dos anos 1960. Originária da esquerda católica, com uma base de estudantes e operários, terá também uma vertente protestante, e já em seu documento fundador, de 1963, explicitará sua opção pelo socialismo. À medida que a ditadura de 1964-1985 radicaliza seu combate contra todas as forças progressistas do país, o partido reorienta-se por uma visão marxista e inclina-se por uma prática política de fundamento maoista. Segue assim até que uma crescente luta interna em torno da definição do caráter da sociedade brasileira e dos melhores caminhos para desenvolvê-la no sentido da igualdade e da justiça social alcança seu auge em 1972 e levará grande parte da APML, em janeiro de 1973, a fundir-se com o Partido Comunista do Brasil (PC do B) — então já empenhado na Guerrilha do Araguaia como um ponto de partida para a derrubada da ditadura. 


Os jovens mortos no contexto da Operação Cacau, cujos detalhes, além da biografia de todos eles (à exceção de Honestino Guimarães), estão bem descritos no relatório final da Comissão Estadual da Memória e Verdade Dom Hélder Câmara, de Pernambuco (páginas 362 a 405), compunham a chamada ala esquerda da APML, justamente o grupo que não aceitou a fusão com o PCdo B e a adesão à Guerrilha do Araguaia. Àquela altura esse grupo entendia que o Brasil era uma sociedade extremamente complexa, movida por um sistema capitalista em desenvolvimento, ainda que periférico e dependente, que exigiria novas formas de luta, legais e parlamentares inclusive, para a derrubada da ditadura e a construção da democracia, tendo no horizonte o socialismo. Era com esse olhar que mantinha conversações com outros grupos políticos de esquerda.
Fragilizada e desarticulada, a esquerda de AP foi presa fácil dos agentes da repressão quando eles conseguiram mapear a localização de todos os dirigentes do grupo. Cada um deles, além de muitos militantes, foi sequestrado na rua, em plena luz do dia, com a tática de um cerco rápido, encapuzamento e condução em automóveis com placas falsas a uma das instalações da repressão. Não puderam esboçar qualquer reação e a partir desse momento de sequestro estavam sob responsabilidade do Estado.

Em São Paulo, em 5 de setembro de 1973, foi sequestrado Paulo Stuart Wright e conduzido para o DOI-CODI do II Exército, em Recife. No Rio de Janeiro, em 8 de outubro de 1973, foi preso Humberto Câmara e as informações sobre a data e local de sua morte permanecem contraditórias: o relatório da Marinha que integra os documentos da Comissão de Pernambuco estabelece que a morte se deu em outubro de 1973 e o do Exército informa que ele estava no DOI-CODI de Recife em julho de 1974. Também no Rio de Janeiro, em 10 de outubro de 1973, foi sequestrado Honestino Guimarães. Em Salvador, em 22 de outubro de 1973, foi sequestrado e levado para a Superintendência da Polícia Federal Gildo Macedo Lacerda, conduzido no dia seguinte para o Quartel do Barbalho, na mesma cidade e, no dia 25, para o DOI-CODI, em Recife, onde foi morto em 28 de outubro de 1973. Em São Paulo, em 23 de outubro de 1973, foi sequestrado José Carlos Novaes da Matta Machado, conduzido para o DOI-CODI de Recife, onde foi morto em 28 de outubro de 1973. Em 23 de fevereiro de 1974 foram sequestrados, no Rio de Janeiro, Eduardo Collier Filho e Fernando Augusto Santa Cruz Oliveira. 


Os familiares desses jovens idealistas e libertários e a sociedade brasileira como um todo precisam conhecer as circunstâncias detalhadas do sequestro, morte e ocultação de seus corpos. Precisam da devolução de seus restos mortais às famílias imersas num luto que não fecha. As famílias exigem respeito à sua dor e a estrita observação a seu direito básico de enterrar seus mortos. 

*Mariluce Moura é jornalista. Foi militante da APML, é viúva de Gildo Macedo Lacerda, foi presa grávida da filha de ambos, Tessa Moura Lacerda