Palestina: o Brasil entre a limpeza étnica do povo palestino e a “solução final” buscada por Israel
por Ualid Rabah
Há 72 anos, mais precisamente em 29 de novembro de 1947, eram lançadas as bases do que viria a ser a primeira limpeza étnica após a 2ª guerra mundial, a da Palestina. O mais grave: isto se deu a partir da ONU, feita nascer justamente para evitar as guerras e promover a paz mundial e as soberanias dos povos e nações. Ao invés disso, aceitou debater uma partilha, a da Palestina, para ali fazer nascer outro estado, judeu, para abrigar estrangeiros que para lá foram dos anos 1920 em diante, quando imposto o colonialismo inglês aos palestinos e este promoveu esta imigração contra a vontade do povo originário que ali vivia fazia mais de 10 mil anos.
Naquele momento a ONU ainda era nascente e poucos os países que a compunham, o Brasil um deles. Por imposição dos EUA, a nova organização global aceitou discutir uma promessa feita pelo império colonial inglês aos europeus professantes do judaísmo, o que havia se dado a 2 de dezembro de 1917, em carta assinada por Arthur James Balfour, então ministro dos negócios estrangeiros da coroa britânica, dirigida ao banqueiro Lorde Rothschild, liderança sionista empenhada na realização do sonho nacional judeu, denominado sionismo.
O documento, que ficou conhecido como a Declaração Balfour, promete uma terra que não é britânica a um povo que lá jamais viveu, em detrimento do palestino, que lá sempre viveu e jamais foi consultado, nos seguintes termos:
“Caro Lorde Rothschild, alegro-me em poder comunicar-lhe, em nome do governo de Sua Majestade, a seguinte declaração de simpatia pelo movimento judaico-sionista, apresentada e aprovada pelo gabinete oficial: A construção de uma pátria para os judeus na Palestina é vista pelo governo de Sua Majestade com bons olhos.
Sua Majestade fará tudo o que for de seu alcance para facilitar os caminhos rumo a esse objetivo. Deve-se ressaltar, no entanto, que nada deve ser feito no sentido de prejudicar os direitos civis e religiosos dos povos não judeus que vivem na Palestina, ou de prejudicar os direitos e a situação política de judeus em algum outro país.”.
Como se vê, além de prometer, o colonialismo britânico se compromete a facilitar a tomada da Palestina pelos estrangeiros de fé judaica que para lá emigrarão, o que fez ao impor esta imigração e aniquilar a resistência palestina e seu movimento nacionalista, encarcerando, torturando, matando ou exilando seus líderes, especialmente nos anos 1930. E não bastou constar do documento a ressalva de que “nada deve ser feito no sentido de prejudicar os direitos civis e religiosos dos povos não judeus que vivem na Palestina”, visto tudo que se deu na Palestina sob mandato colonial e após, quando Israel se autoproclama estado e promove a limpeza étnica.
A ONU debate por semanas a chamada Partilha da Palestina e a 29 de novembro de 1947 aprova uma Resolução, a 181, neste sentido, absolutamente desiquilibrada e injusta: os palestinos, que, além de originários, são 1,4 milhão de habitantes e detentores de 95% da posse/propriedade da terra, ficam com apenas 42,6% para seu futuro estado “árabe”, enquanto que os “judeus” ficam com 56,7% do território, ainda que sendo somente 700 mil (ao redor de 25% destes eram também originários, porque palestinos professantes de judaísmo) e detendo menos de 5% do solo palestino. Os restantes 0,7% do território (Jerusalém) são área internacionalizada e prevista na resolução ser administrada pela ONU.
De 29 de novembro a 14 de maio de 1948, data em que Israel se autoproclama estado, muitos crimes foram cometidos pelas organizações judaico-sionistas, todas armadas e agindo como gangues terroristas. Sua principal missão era impor o terror aos camponeses palestinos, que não tinham armas ou munições para suas autodefesas. Buscavam-se suas fugas. O massacre da pequena povoação de Deir Yassin, situada às portas de Jerusalém, quando todos os moradores encontrados foram mortos no dia 9 de abril de 1948, visou ao princípio desta política de terror e era a senha do que viria a acontecer.
Feita a autoproclamação, o inimaginável se deu: 774 cidades e povoados palestinos ocupados, dos quais 531 totalmente destruídos; 70 massacres cometidos, com mais de 15 mil mortos, incontáveis feridos e mutilados e dois terços da população originária, a palestina, expulsa pelos estrangeiros recém-chegados. Considerados os 76% da Palestina tomados a força naquele então, são levados a êxodo desta porção, de acordo com a ONU, 725 mil dos 900 mil palestinos que viviam no que passa a ser a Israel autoproclamada. Ou seja: 81% de toda a população palestina é morta ou expulsa para nascer pela violência Israel.
E é desta limpeza étnica que resultam, de acordo com a ONU, os perto de 6 milhões de refugiados palestinos, monumentais 9% de todos os refugiados no mundo atual, contados à casa dos 70 milhões. Este dado apenas indica o tamanho do HOLOCAUSTO palestino: somos apenas 0,2% da população mundial, mas respondemos por 9% dos refugiados, isto é, 45 vezes mais do que somos enquanto população no mundo. Cartesianamente, respondem os palestinos por 45 refugiados para cada um de qualquer outro grupo étnico no mundo. É um holocausto olímpico!
Mas o que o Brasil tem que ver com isso? Bem, a partilha é aprovada com o voto brasileiro. Aliás, o Brasil presidiu a sessão da Assembleia Geral da ONU que aprovou a partilha. O diplomata Osvaldo Aranha era o chefe da legação diplomática brasileira na ONU e foi ele quem presidiu a sessão. Mas esta é apenas a parte publicamente conhecida.
O que nos interessa debater agora relaciona aquele passado com o presente. É que naquele momento o Brasil era comandado por forças extremistas e total e acriticamente alinhadas aos EUA, ainda que contra os interesses brasileiros. Era Eurico Gaspar Dutra o presidente e Raul Fernandes o seu ministro de relações exteriores e foram eles os que impuseram o alinhamento automático do Brasil à posição dos EUA no que respeita à partilha da Palestina. Correspondência diplomática havida naquele momento entre Aranha e Fernandes permite saber que o primeiro era crítico da partilha, mas esta lhe foi imposta porque assim decidido pelo governo ao qual servia.
Se foi o extremismo que levou o Brasil a não pesar suas responsabilidades no que tange à injustiça da partilha em si, bem como aos riscos de limpeza étnica e todas as demais atrocidades que se abateram sobre o povo palestino, percebe-se que é o mesmo extremismo de hoje que pode levar o país a novamente alinhar-se com as posições mais radicalizadas em relação aos direitos do povo palestino.
Já vemos isso na prática desde os primeiros instantes do novo governo e de sua política externa. A tentativa de transladar a embaixada brasileira de Tel Aviv para Jerusalém, contrariando o Direito Internacional e todas as resoluções da ONU para a questão, bem como votando com EUA e Israel contra resoluções alusivas à Palestina, desfazendo décadas de nossa política exterior de obediência a este mesmo direito e resoluções, não deixam dúvidas quanto à nova era de extremismo e capitulação do Brasil aos interesses anglo-sionistas.
O que está em jogo hoje é se Israel conseguirá ou não tomar toda a Palestina e expulsar todo o seu povo, isto é, dar à Questão Palestina uma “solução final”. Será o Brasil atual tão extremista quanto foi o de 1947 e, assim, dar seu aval para novos crimes de lesa humanidade na Palestina? Esta é a questão posta, da maior gravidade, e sobre a qual devemos nos debruçar para evitar.
*Ualid Rabah é presidente da FEPAL – Federação Árabe Palestina do Brasil
"A PF interceptou conversas do doleiro Dario Messer, considerado "o doleiro dos doleiros", dizendo que pagou propina a um dos procuradores da Lava Jato de Curitiba. Quando soma-se esta denúncia às denúncias de Tacla Duran, a situação dos amigos de Sergio Moro fica complicadíssima."
O ex-prisioneiro político, jornalista Aluízio Palmar, e o Centro de Direitos Humanos e Memória Popular de Foz do Iguaçu, estão sendo processados pelo ex-tenente, advogado Mario Espedito Ostrovsk, no Juizado Especial Civil de Foz do Iguaçu, datado de 25/09/2019.
Seis anos antes, em 28 de junho de 2013, o CDHMP realizou um protesto, na forma de escracho, em frente ao edifício, no qual o ex-agente da ditadura tem escritório.
O ex-tenente, Mario Espedito Ostrovski, é citado como torturador no livro Brasil Nunca Mais -BNM- e no Relatório Final da Comissão Nacional da Verdade.
O autor, autointitulado nos autos como de ilibada reputação, requer indenização por danos morais, no valor de R$ 39.920,00 (trinta e novel mil, novecentos e vinte reais). E se disse motivado à ação porque a sua neta de 15 anos lhe cobrou explicações sobre essas denúncias narradas pelo Centro de DH e Memória Popular.
A reputação do autor está em desonra desde 1985, quando veio a público o relatório do projeto BNM, promovido pelo Cardeal Dom Paulo Evaristo Arns, pelo Rabino Henry Sobel e pelo Pastor presbiteriano Jaime Wright.
Nesse relatório consta um dos casos dos mais perversos de tortura da ditadura militar sobre a jovem professora da escola rural no interior do Paraná, Isabel Fávero.
Descreve Isabel que em 1969 ela e seu marido foram levados para o quartel do Exército, em Foz do Iguaçu, no qual o então tenente Espedito lhe aplicou choques elétricos nos mamilos, genitália e nas extremidades do corpo. Estava grávida de dois meses e devido às torturas, sofreu um aborto. A professora revelou ainda que, após o aborto, sangrou durante dias, sem possibilidade de fazer qualquer tipo de higiene. (páginas 136/137 do Tomo II Vol. 1 – BNM).
Seu depoimento está hospedado choca qualquer cidadão com um mísero de dignidade e humanidade.
Ainda nesse mesmo ano de 1985 O jornal Correio de Notícias, de Curitiba, publicou na capa, notícia que o governador José Richa, o exonerou da chefia da Assessoria de Segurança e Informações da Copel, devido as denúncias de torturas cometidas pelo ex-militar.
Nesse mesmo ano de 1985, portanto há 34 anos, o companheiro Aluízio publicou o livro “Onde foi que vocês enterraram nossos mortos?”, no qual já denunciava as barbaridades da ditadura, incluindo as desse ex-tenente da seção de informações do Exército.
Em 2013, na audiência pública perante à Comissão Nacional da Verdade – CNV – e da Comissão estadual, prestaram depoimentos Aluízio Palmar, Ana Beatriz Fortes, Alberto Fávero e Isabel Fávero, nos quais constam as terríveis sevícias que sofreram.
No relatório da CNV, ele aparece na lista de torturadores sob o número 304: “O Tenente do Exército serviu na 2ª seção do Batalhão de Fronteira de Foz do Iguaçu (PR), no início da década de 1970, quando atuou em operações militares que levaram à extinção da presença de opositores do regime militar no município nova Aurora, no Paraná. Teve participação em casos de detenção ilegal e tortura. Convocado duas vezes pela CNV, deixou de comparecer sem apresentar justificativa, o que motivou solicitação da CNV ao Departamento de Polícia Federal para abertura de inquérito policial por crime de desobediência. Vítimas relacionadas: Clari Isabel Dedavid Fávero, Luíz Andrea Fávero e Alberto Fávero (1970 e 1971).
Essas denúncias aparecem também em “Notícias das torturas no Batalhão do Exército em Foz do Iguaçu, no site da Secretaria de Estado da Justiça – Paraná; Portal G1; Portal H2Foz.
Por duas vezes fugiu, desrespeitou uma Comissão com poderes do Estado brasileiro, e agora que passar de algoz em vítima.
Ele carrega a morte de um feto, impediu o nascimento de uma criança, além de atrozes torturas à mãe e o pai, prisioneiros, e sob ameaça de jogá-los do avião nas cataratas do Iguaçu, sob as mortalhas produzidas pelo AI5.
As vítimas da ditadura têm filhos e netos como os seus algozes. Uns sentem e sentirão orgulho de seus país e avós, outros sentirão vergonha. É parte de uma história não resolvida!
Aos torturadores cabe o arrependimento e o pedido de perdão às suas vítimas e à nação brasileira. Esta é a única atitude digna que lhes resta. É dessa forma que poderão obter a compreensão de gerações descendentes e fitar no mesmo plano seus inocentes parentes.
Quem tortura esquece, por mecanismos psicológicos próprios do pervertido, quem é torturado jamais esquece. As consequências da tortura são perenes.
Nos autos, a parte Autora requer a realização da audiência de conciliação. Mas não há de se cogitar sequer de conciliação com torturadores. A tortura é crime hediondo, de lesa-humanidade, imprescritível e sem perdão. Há, sim, que processá-lo pelas graves violações aos Direitos Humanos e por essa crápula ousadia.
Durante a ditadura de 64 eram prepotentes pela força das armas e poder do Estado, na democracia viraram covardes fujões, no presente, sob a égide de um Estado Policial bolsonarista, de natureza nazifascista, mantido por milicianos, militares e togas deformadas, que estimula o ódio, a belicosidade e a arrogância de pronunciar um novo AI5, estão novamente se portando como tiranos.
O FMV-ES, integrante da RBMVJ, indignado com a ousadia desse torturador e solidário com o companheiro Aluízio Palmar e com a luta do Centro de Direitos Humanos e Memória Popular de Foz de Iguaçu, afirma em letras másculas: A DITADURA MILITAR NÃO NOS CALOU E NENHUMA OUTRA TIRANIA NOS CALARÁ.
Francisco Celso Calmon é Advogado, Administrador, Coordenador do Fórum Memória, Verdade e Justiça do ES; autor do livro Combates pela Democracia (2012) e autor de artigos nos livros A Resistência ao Golpe de 2016 (2016) e Comentários a uma Sentença Anunciada: O Processo Lula (2017).
Ele impôs uma ortodoxia intelectual cujos guardiões eram totalmente intolerantes à dissidência. Os fatos a derrotaram — mas a teoria debate-se para sobreviver: as más ideias, uma vez estabelecidas, geralmente têm morte lenta
No final da Guerra Fria, o cientista político Francis Fukuyama escreveu um famoso ensaio chamado “The End of History?”. Ele argumentou que a queda do comunismo eliminaria o último obstáculo que separava o mundo inteiro do seu destino de democracia liberal e economia de mercado. Muita gente concordou.
Hoje, à medida que enfrentamos uma retirada da ordem global liberal baseada em regras, com governantes autocráticos e demagogos à frente de países que contêm bem mais da metade da população do mundo, a ideia de Fukuyama parece peculiar e ingênua. Mas reforçou a doutrina econômica neoliberal que prevaleceu nos últimos 40 anos.
A credibilidade da fé do neoliberalismo em mercados desenfreados como sendo o caminho mais seguro para a prosperidade partilhada está na unidade dos cuidados intensivos nos dias de hoje. E com razão. O declínio simultâneo da confiança no neoliberalismo e na democracia não é coincidência ou uma mera correlação. O neoliberalismo prejudica a democracia há 40 anos.
A forma de globalização prescrita pelo neoliberalismo deixou indivíduos e sociedades inteiras incapazes de controlar uma parte importante de seu próprio destino, tal como Dani Rodrik da Universidade de Harvard explicou de forma tão clara e tal como afirmo nos meus recentes livros Globalization and Its Discontents Revisited e People, Power, and Profits. Os efeitos da liberalização do mercado de capitais foram particularmente odiosos: se o principal candidato à presidência num mercado emergente “perdesse a graça” em Wall Street, os bancos retirariam o seu dinheiro do país. Os eleitores enfrentavam então uma escolha dolorosa: ceder a Wall Street ou enfrentar uma grave crise financeira. Era como se Wall Street tivesse mais poder político do que os cidadãos do país.
Mesmo nos países ricos, era dito aos cidadãos comuns: “Vocês não podem defender as políticas que desejam” – fosse ela a proteção social adequada, os salários decentes, a tributação progressiva ou um sistema financeiro bem regulamentado – “porque o país perderá competitividade, os empregos desaparecerão e vocês sofrerão”.
Tanto nos países ricos como nos pobres, as elites prometeram que as políticas neoliberais levariam a um crescimento econômico mais rápido e que os benefícios iriam ser repartidos para que todos, inclusive os mais pobres, ficassem em melhor situação. Para se chegar a esse patamar, os trabalhadores teriam, contudo, de aceitar salários mais baixos e todos os cidadãos teriam de aceitar cortes em importantes programas governamentais.
As elites alegaram que as suas promessas eram baseadas em modelos econômicos científicos e na “investigação com base em provas”. Bem, após 40 anos, os números estão aí: o crescimento diminuiu e os frutos desse crescimento foram na sua esmagadora maioria para um punhado que está no topo. À medida que os salários estagnavam e o mercado de ações subia, o rendimento e a riqueza espalhavam-se para os mais ricos, em vez de se espalharem para os mais pobres.
Como é que a restrição salarial – para alcançar ou manter a competitividade – e a redução dos programas governamentais podem resultar em padrões de vida mais elevados? Os cidadãos comuns sentiram como se lhes tivessem vendido uma lista de artigos. Estavam certos em sentirem-se enganados.Agora estamos a enfrentar as consequências políticas deste grande artifício: desconfiança das elites, da “ciência” econômica em que se baseava o neoliberalismo e do sistema político corrompido pelo dinheiro que tornou tudo isso possível.
A verdade é que, apesar do nome, a era do neoliberalismo estava longe de ser liberal. Impôs uma ortodoxia intelectual cujos guardiães eram totalmente intolerantes à dissidência. Os economistas com perspetivas heterodoxas eram tratados como hereges a ser evitados ou, na melhor das hipóteses, desviados para algumas instituições isoladas. O neoliberalismo continha poucas semelhanças com a “sociedade aberta” que Karl Popper defendia. Tal como George Soros enfatizou, Popper reconheceu que a nossa sociedade é um sistema complexo e em constante evolução, no qual quanto mais aprendemos, mais o nosso conhecimento muda o comportamento do sistema.
Em nenhum lugar essa intolerância foi maior do que na macroeconomia, onde os modelos predominantes descartaram a possibilidade de uma crise como a que vivemos em 2008. Quando o impossível aconteceu, foi tratado como se fosse uma inundação em 500 anos – um fenômeno insólito que nenhum modelo poderia ter previsto. Ainda hoje, os defensores dessas teorias recusam-se a aceitar que a sua crença nos mercados autorregulados e a sua rejeição de externalidades como inexistentes ou sem importância levaram à desregulamentação que foi essencial para alimentar a crise. A teoria continua a sobreviver, com tentativas ptolomaicas de ajustá-las aos factos, o que atesta a realidade de que as más ideias, uma vez estabelecidas, geralmente têm uma morte lenta.
Se a crise financeira de 2008 não conseguiu fazer-nos perceber que os mercados sem restrições não funcionam, a crise climática certamente deveria conseguir: o neoliberalismo acabará literalmente com a nossa civilização. Mas também está claro que os demagogos que querem que viremos as costas à ciência e à tolerância só pioram as coisas.
O único caminho a seguir, o único caminho para salvar o nosso planeta e a nossa civilização, é um renascimento da história. Temos de revitalizar o Século das Luzes e reafirmar o nosso compromisso de honrar os seus valores de liberdade, respeito pelo conhecimento e democracia.
Resgate de Sheldon Wolin, o cientista político que descreveu a fusão entre Estado e corporações. Resultado: precariedade e insegurança constantes, para impor a tirania dos mercados; e violência, quando as multidões despertam…
Publicado 18/11/2019 às 19:53 - Atualizado 18/11/2019 às 19:59
Por Chris Hedges, em Trutthdig | Tradução: Eleutério F. S. Prado
Sheldon Wolin, o mais importante teórico contemporâneo no campo da ciência política nos Estados Unidos, morreu há pouco mais de quatro anos, aos 93. Em seus livros Democracia Incorporada: democracia administrada e o espectro do totalitarismo invertido1 e Política e visão2 – uma vasta pesquisa sobre o pensamento político ocidental que o seu ex-aluno, Cornel West, considera “magistral” –, Wolin expõe a realidade da democracia falida dos Estados Unidos, as causas por trás do declínio do império americano e a ascensão de uma nova e aterrorizante configuração política, formada pelo poder das corporações, que ele chama de “totalitarismo invertido”.
Wendy Brown, professora de ciência política na Universidade da Califórnia, em Berkeley, ex-aluna também de Wolin, disse-me num correio eletrônico: “resistindo aos monopólios do marxismo, na esquerda, e da teoria democrática, pelo liberalismo, Wolin desenvolveu uma análise distinta – distintamente americana – da atualidade política e das possibilidades da democracia radical. Ele foi especialmente presciente ao teorizar sobre o forte estatismo do que hoje chamamos de neoliberalismo; eis que revelou a existência de uma nova fusão do poder econômico com o poder político, a qual considerou que envenena a democracia em sua raiz.”
Wolin, ao longo de sua vida acadêmica, mapeou a involução da democracia e, em seu último livro, Democracia incorporada, detalhou a forma peculiar que o totalitarismo corporativo assumia nos Estados Unidos. “Não é possível apontar para qualquer instituição nacional que possa ser descrita com precisão como democrática” – escreveu ele nesse livro – “certamente não nas eleições altamente gerenciadas e saturadas de dinheiro, no Congresso infestado por lobistas, na presidência imperial, no sistema judicial e penal classista e, muito menos, na mídia.”
O totalitarismo invertido é diferente das formas clássicas de totalitarismo. Ele não encontra a sua expressão em um demagogo ou líder carismático, mas no anonimato sem rosto do Estado corporativo. Esse totalitarismo invertido mantém uma fidelidade aparente à política eleitoral, à Constituição, às liberdades civis, à liberdade de imprensa, à independência do judiciário e à iconografia das tradições e da linguagem do patriotismo americano, mas aproveita em efetivo todos os mecanismos de poder existentes para tornar o cidadão impotente.
“Ao contrário dos nazistas, que tornaram a vida incerta para os ricos e privilegiados, que proporcionaram programas sociais para a classe trabalhadora e os pobres, o totalitarismo invertido explora os pobres, reduzindo ou enfraquecendo os programas de saúde e os serviços sociais, regrando a educação para formar uma força de trabalho insegura, sempre ameaçada pela importação de trabalhadores de baixa remuneração” – escreveu Wolin. “O emprego em uma economia de alta tecnologia, volátil e globalizada, afigura-se normalmente tão precário quanto durante uma depressão à moda antiga. O resultado é que a cidadania, ou o que resta dela, é praticada sob um estado contínuo de preocupação. Hobbes tinha, pois, razão: quando os cidadãos se sentem inseguros e, ao mesmo tempo, se veem impulsionados por aspirações competitivas, eles passam a desejar a estabilidade política e não o envolvimento cívico, a proteção e não o envolvimento político.”
O totalitarismo invertido, disse Wolin (…) numa entrevista, constantemente “projeta o poder para cima.” É, pois, “a antítese do poder constitucional”. É construído para criar instabilidade, para manter passiva e em desequilíbrio a cidadania.
Ele também escreveu: “A redução e a reorganização das empresas, o estouro de bolhas, os sindicatos desestruturados, as habilidades que rapidamente são ultrapassadas, a transferência de empregos para o exterior, tudo isso cria não apenas medo, mas uma economia de medo, um sistema de controle cujo poder se alimenta da incerteza. Porém, segundo os seus defensores, trata-se de um sistema eminentemente racional.”
O totalitarismo invertido “alimenta, sim, a política o tempo todo”, disse Wolin, “mas uma política que não é política”. Os ciclos eleitorais intermináveis e extravagantes, disse ele, são um exemplo de política sem política.
“Em vez de participar do poder”, escreve ele, “o cidadão virtual é convidado a ter “opiniões”, isto é, a fornecer respostas mensuráveis a perguntas premeditadas que suscitam respostas determinadas”.
As campanhas políticas raramente discutem questões substantivas. Centram-se em personalidades políticas manufaturadas, em retórica vazia, em relações públicas sofisticadas, em anúncios artificiais, em propaganda, no uso constante de grupos de teste, de pesquisas de opinião que visam laçar os eleitores e dizer o que eles querem ouvir. O dinheiro substituiu efetivamente a votação. Cada candidato presidencial atual – incluindo Bernie Sanders – sabe bem, para usar as palavras de Wolin, que “o tema “império” é tabu nos debates eleitorais.” O cidadão é irrelevante. Ele ou ela não é nada mais do que um espectador, autorizados a votar, mas, esquecido tão logo o carnaval eleitoral termina e as corporações e os seus lobistas voltam ao negócio de influir na legislação.
“Se o principal objetivo das eleições é fornecer legisladores flexíveis para que os lobistas os direcionem, tal prática merece ser chamada de “deturpada ou clientelística” – escreve Wolin. Trata-se de um poderoso sistema produtor de despolitização e de redução da cidadania. Com essa feição, ele apenas pode ser caracterizado como antidemocrático.”
O resultado, escreve ele, é que “o uso do poder do Estado é negado ao cidadão comum”. Wolin deplora a banalização do discurso político, uma tática usada para confundir e fragmentar o público, deixando-o perplexo, para que o poder corporativo e o próprio império permaneçam incontestados.
“As guerras culturais parecem indicar que estão em curso fortes batalhas políticas” – escreve ele. “Na verdade, não passam de distração. A atenção que recebem da mídia, assim como dos políticos ansiosos para firmar posição sobre questões não substantivas, serve apenas para distrair a atenção e para contribuir para uma política inconsequente.”
“As facções agora no poder podem operar na suposição de que não precisam mais do chamado público no sentido amplo de um todo coerente – uma noção tradicional”, disse ele. “Agora, eles têm as ferramentas para lidar com as disparidades e as diferenças que eles mesmos ajudaram a criar. É um jogo em que conseguem minar a coesão necessária para que o público não possa ser politicamente eficaz. E, ao mesmo tempo, criam diferentes e distintas facções, as quais se põe inevitavelmente em tensão, ou em desacordo, ou mesmo em concorrência umas com as outras. Deste modo, o processo político parece mais uma briga do que uma forma de formar maiorias.”
Em regimes totalitários clássicos, como os do fascismo nazista ou do comunismo soviético, a economia era subordinada à política. Mas no totalitarismo invertido, o inverso é verdadeiro – escreve Wolin. “A economia domina a política e com essa dominação surgem formas diferentes de crueldade.” E, assim, continua: “Os Estados Unidos tornaram-se a vitrine de como a democracia pode ser gerenciada sem parecer que foi suprimida.”
O Estado corporativo, disse Wolin, é “legitimado pelas eleições que controla.” Para extinguir a democracia, reescreve e distorce as leis e a legislação que outrora protegiam a democracia. Os direitos básicos são, em essência, revogados por meio de decretos judiciais e legislativos. Os tribunais e os órgãos legislativos, a serviço do poder corporativo, reinterpretam as leis para despojá-los de seu significado original, a fim de fortalecer o controle corporativo e suprimir a supervisão sobre as corporações.
Ele escreve: “por que negar a Constituição, como os nazistas o fizeram, se é possível explorar simultaneamente a porosidade e o poder legítimo por meio de interpretações judiciais. Pois, protege-se agora as enormes contribuições das campanhas eleitoras por meio da “Primeira Emenda”; trata-se os lobbies fortemente financiados e organizados pelas grandes corporações como simples aplicação do direito do povo de peticionar ao seu governo!”
O sistema norte-americano de totalitarismo invertido evitará medidas duras e violentas de controle “enquanto… a dissidência permanece ineficaz” – disse ele. “O governo não precisa acabar com a dissidência. A uniformidade da opinião pública imposta através da mídia corporativa faz um trabalho muito eficaz.”
As elites, especialmente a classe intelectual, foram compradas. “Por meio de uma combinação de contratos governamentais, fundos corporativos e fundações, projetos conjuntos envolvendo pesquisadores universitários e corporativos, doações de indivíduos muito ricos, universidades (especialmente as chamadas universidades de pesquisa), os intelectuais, os estudiosos e os pesquisadores foram perfeitamente integrados ao sistema” – escreve Wolin. “Nenhum livro é queimado, nenhum Einstein permanece na condição de refugiado”.
Mas – adverte – se a população – constantemente despojada de seus direitos mais básicos, incluindo o direito à privacidade, cada vez mais empobrecida e desprovida de esperança – tornar-se inquieta, o totalitarismo invertido se tornará tão brutal e violento quanto os Estados totalitários do passado. “A guerra contra o terrorismo, com sua ênfase na segurança interna, presume que o poder do Estado, agora inflado pelas doutrinas de guerra preventiva e liberado das obrigações constitucionais e das restrições judiciais, pode se voltar para dentro” – escreve ele. “Confiante de que, em sua busca doméstica de terroristas, os poderes agora reclamados, tal como os poderes projetados no exterior, seriam medidos, não pelos padrões constitucionais comuns, mas pelo caráter sombrio e onipresente do terrorismo tal como foi oficialmente definido.”
A violência policial indiscriminada em comunidades pobres de negros e de hispânicos é um exemplo da capacidade do Estado corporativo “legalmente” assediar e matar cidadãos de modo impune. As formas mais cruas de controle – da polícia militarizada e da vigilância por atacado, bem como a polícia funcionando como juiz, júri e carrasco – é agora uma realidade para a classe baixa e vai se tornando uma realidade para todos. É preciso começar a resistir à canalização continuada de poder e de riqueza para os de cima. Somos tolerados como cidadãos, adverte Wolin, apenas enquanto participamos da ilusão de que vivemos numa democracia participativa. No momento em que nos rebelamos e nos recusamos a participar dessa ilusão, o rosto do totalitarismo invertido parecerá o rosto dos sistemas totalitários do passado.
“O significado da enorme população carcerária afro-americana é político” – escreve. “O que é mais notável sobre essa população é que, em geral, ela é altamente sofisticada politicamente. De longe, é o único grupo social que, ao longo do século XX, manteve vivo um espírito de resistência e de rebeldia. Nesse contexto, a justiça criminal é tanto estratégia de neutralização política quanto um canal de racismo instintivo.”
Em seus escritos, Wolin expressa consternação pelo fato de que toda uma população foi excluída do mundo das ideias e das publicações sutis. Ele vê o cinema, assim como a televisão, como “tirânicos”. Eis que têm a capacidade de “bloquear, eliminar muito do que pode introduzir qualificação, ambiguidade ou diálogo”. Ele protesta contra o que chama de “mídia monocromática”, formada por especialistas aprovados pelas empresas e usados para identificar “os problemas e os seus parâmetros, criando, assim, uma parede contra a qual os dissidentes lutam em vão. O crítico que insiste em mudar o contexto é descartado como irrelevante, extremista, como de “esquerda” – sendo, assim, ignorado completamente.”
A disseminação constante de ilusões permite que mito em vez de realidade domine as decisões das elites poderosas. E quando o mito domina, os desastres caem sobre o império, tal como ocorreu nos quatorze anos de guerra fútil no Oriente Médio. A incapacidade dos Estados Unidos de reagir às mudanças climáticas ilustram isso. Eis o que Wolin escreve:
Quando o mito começa a governar os tomadores de decisão em um mundo onde a ambiguidade e os fatos teimosos abundam, o resultado é uma desconexão entre os atores e a realidade. Estão convencidos de que as forças das trevas possuem armas de destruição em massa e capacidades nucleares, que a sua própria nação é privilegiada, que um deus inspirou os “pais fundadores” e que eles escreveram a Constituição da nação; e que, ademais, inexiste uma estrutura de classe de grandes e teimosas desigualdades. Uns poucos, sombrios, mas aparentemente alegres, veem sempre presságios de que o seu mundo que está vivendo “os seus últimos dias.”
Wolin atuou, no passado, como piloto e navegador de avião bombardeiro pesado, o B-24, no Pacífico Sul, na II Guerra Mundial. Ele participou de 51 missões de combate. Os aviões em que viajou tinham tripulações de até 10 soldados. De Guadalcanal, ele avançou com as forças norte-americanas que capturaram ilhas no Pacífico. Durante a campanha, o alto comando militar decidiu dirigir os bombardeiros B-24, os quais eram enormes e difíceis de voar, além de ter pouca manobrabilidade, contra os navios japoneses, uma tática que produziu enormes perdas de aviões e de vidas americanas. O uso do B-24, apelidado de “caixão voador”, para atacar navios de guerra munidos com armas antiaéreas, mostrou para Wolin a insensibilidade dos comandantes militares. Eles, alegremente, sacrificaram as tripulações aéreas e as máquinas de guerra em missões que tinham pouca chance de sucesso.
“Foi terrível” – disse ele a respeito das ordens para bombardear os navios japoneses. “Tivemos perdas terríveis, porque essas aeronaves eram grandes e pesadas e, particularmente, porque tinham de voar baixo para tentar atingir a marinha japonesa – nós perdemos inúmeras pessoas assim, inúmeras.”
“Tivemos também algumas vítimas psicológicas… homens, meninos, que simplesmente não aguentavam mais” – disse ele – “simplesmente não suportavam a tensão de se levantar às 5 da manhã para continuar a entrar nesses aviões, tomar tiros e depois voltar para descansar por mais um dia.” Wolin percebeu que os militaristas e os corporativistas formavam uma coalizão profana para orquestrar a ascensão de um império americano global no pós-guerra, assim como para extinguir a democracia americana. Para ele, o totalitarismo invertido era “a verdadeira face da superpotência”. Aqueles que ganham com a guerra e os militaristas, advogando a doutrina da guerra total durante o período da Guerra Fria, sangraram o País de seus recursos. Trabalharam, também, em conjunto para desmantelar as instituições e as organizações populares, como sindicatos, para descapacitar politicamente e empobrecer os trabalhadores. Eles “normalizaram” a guerra. Wolin adverte que, como em todos os impérios, eles eventualmente serão “eviscerados por seu próprio expansionismo”. Nunca haverá um retorno à democracia, adverte, até que o poder descontrolado dos militaristas e corporativistas seja drasticamente reduzido. Um Estado guerreiro não pode ser um Estado democrático.
Wolin escreve:
A defesa nacional foi declarada inseparável de uma economia forte. A fixação na mobilização e no rearmamento inspirou o desaparecimento gradual da agenda política nacional voltada à regulação e controle das corporações. O defensor do mundo livre precisava do poder da globalização, expansão das corporações, não uma economia que promovesse a confiança. Além disso, uma vez que o inimigo era raivosamente anticapitalista, cada medida que fortalecia o capitalismo era um golpe contra o inimigo. Uma vez que as linhas de batalha entre o comunismo e a “sociedade livre” foram desenhadas, a economia tornou-se intocável para outros fins que não um capitalismo “forte”. Pensa-se, pois, numa fusão entre o capitalismo e a democracia. Porém, uma vez que a identidade e a segurança da democracia foram identificadas com sucesso na Guerra Fria e com os métodos para a empreender, o palco estava pronto para promover a intimidação da maioria no campo da política, à esquerda e à direita.
O resultado é uma nação dedicada quase exclusivamente a travar a guerra.
“Quando um governo constitucionalmente limitado utiliza armas de poder destrutivo horrendo, subsidia o seu desenvolvimento e se torna o maior traficante de armas do mundo” – escreve Wolin –, “a Constituição só pode ser usada para servir a esse poder, em vez de servir à consciência.”
Mas ele continua:
Como o cidadão patriótico apoia incansavelmente os militares, assim como o seu enorme orçamento dedicado à guerra, isto significa que os conservadores conseguiram persuadir o público de que tais gastos merecem um tratamento diferenciado. Assim, o elemento mais substancial do poder do Estado é removido do debate público. Da mesma forma, o cidadão norte-americano em seu status de cidadão imperial, sempre desdenhoso da burocracia, não hesita em obedecer às diretrizes emitidas pelo Departamento de Segurança Interna, o maior e mais intrusivo departamento governamental da história da nação. A identificação com o militarismo e o patriotismo, juntamente com as imagens do poder americano projetadas pela mídia, serve para fazer o cidadão individual se sentir mais forte, compensando assim os sentimentos de fraqueza que decorrem de uma economia baseada em excesso de trabalho, força de trabalho exausta e insegura. O totalitarismo invertido, que é antipolítico, requer crentes, patriotas e trabalhadores não sindicalizados.
Sheldon Wolin foi muitas vezes considerado como um pária entre os teóricos políticos contemporâneos. Pois eles se concentravam na análise quantitativa e no estudo do comportamento, evitando, assim, o exame amplo das teorias e das ideias políticas. Wolin insistiu que a filosofia, mesmo aquela escrita pelos gregos antigos, não era uma relíquia morta, mas uma ferramenta vital para examinar e desafiar os pressupostos e as ideologias dos sistemas contemporâneos de poder e de pensamento político. Trabalhar com a teoria política, argumentou, constituía-se “primeiro numa atividade cívica e, apenas em segundo lugar, acadêmica”. Eis que ela tem um papel “não apenas como disciplina histórica que lida com o exame crítico dos sistemas de ideias” – disse – mas também é uma força que “ajuda a moldar as políticas públicas e as diretrizes governamentais, contribuindo acima de tudo para a educação cívica e para alcançar os objetivos de uma sociedade mais democrática, mais igualitária e mais educada.” Em seu ensaio de 1969, Teoria política como vocação, defendeu esse imperativo, castigando os seus colegas acadêmicos que concentraram seu trabalho na coleta de dados, assim como em minúcias acadêmicas. Nesse ensaio, ele escreveu, com sua lucidez habitual e floreios literários, o seguinte:
Em um sentido fundamental, o mundo atual é um produto da deliberação como talvez nenhum mundo anteriormente; um produto de teorias sobre as estruturas humanas deliberadamente criadas, ao invés de historicamente articuladas. Porém, em outro sentido, a concretização das teorias no mundo resultou em um mundo impermeável às próprias teorias. As estruturas gigantes e perpassadas por rotinas desafiam as mudanças fundamentais e, ao mesmo tempo, apresentam uma legitimidade incontestável, pois os princípios racionais, científicos e tecnológicos em que se baseiam parecem perfeitamente de acordo com uma era comprometida com a ciência, o racionalismo e a tecnologia. Acima de tudo, afigura-se como um mundo que parece ter tornado a teoria épica supérflua. A teoria, como Hegel havia previsto, assume a forma de “explicação”. Na verdade, parece que chegou o tempo em que coruja de Minerva já voou.
A obra-prima de Wolin, Política e visão, de 1960, tem como subtítulo “A continuidade e a inovação no pensamento político ocidental”, baseou-se num vasto estudo de teóricos políticos e de filósofos, incluindo Platão, Aristóteles, Agostinho, Immanuel Kant, John Locke, John Calvin, Martinho Lutero, Thomas Hobbes, Friedrich Nietzsche, Karl Marx, Max Weber, John Dewey e Hannah Arendt. O seu objetivo foi o de refletir, a partir deles, sobre a realidade política e cultural contemporânea. A sua tarefa, como afirmou no final do livro, era a de “nutrir a consciência cívica da sociedade” na “era da superpotência”. O imperativo de amplificar e de proteger as tradições democráticas das forças contemporâneas que tentam destruí-las permeou todo o seu trabalho, incluindo seus livros Hobbes e a tradição épica na teoria política3 e Tocqueville entre dois mundos: a realização de uma vida política e teórica4
1 Tradução de Democracy Incorporated: Managed Democracy and the Specter of Inverted Totalitarianism.