quinta-feira, 29 de agosto de 2019

As trágicas consequências econômicas da Lava Jato, por Artur Araújo




Para entender o desmonte da indústria nacional: operação preservou fortunas pessoais de empresários e mirou Petrobras e empreiteiras. Milhares foram demitidos, receitas minguaram e setores estratégicos caem em mãos estrangeiras

Do Jornal GGN:



Em Outras Palavras
A Operação Lava Jato, sob o disfarce de combate à corrupção, moveu guerra de extermínio contra as empresas brasileiras dos setores de construção civil pesada, petróleo & gás e de construção naval, atingindo também a área metal-mecânica e de máquinas & equipamentos, além de toda a rede produtiva a montante e a jusante dessas cadeias longas.
Ao invés de punir com rigor acionistas majoritários e altos executivos, corruptos e corruptores, negociou com eles sentenças leves com preservação do grosso dos patrimônios pessoais, obteve “delações” e concentrou todo seu aparato bélico no destroçamento de companhias e empregos e na interferência no processo democrático nacional, particularmente nas eleições de 2018.
Lord Keynes ganhou destaque mundial ao publicar, em 1919, uma brilhante previsão analítica do que resultaria do Tratado de Versalhes, que desmontava, vingativa e interesseiramente, a capacidade produtiva da Alemanha vencida: As Consequências Econômicas da Paz.
Em artigo publicado na edição de hoje (28) do Valor, Luiz Fernando de Paula e Rafael Moura tratam das consequências da “guerra contra o Brasil” e buscam quantificar o alcance do desastre. Seus dados demonstram que interesses políticos e econômicos antinacionais e antidesenvolvimento valeram-se de uma momentaneamente vitoriosa Lava Jato para predar um país derrotado, buscando ocupar territórios estratégicos graças aos serviços mercenários prestados pelos condottieri de Curitiba.
Abaixo, excertos do texto, cuja íntegra (que merece leitura atenta).
“Os principais efeitos da crise se concentraram na indústria de construção civil, sofrendo com a paralisia resultante da retração aguda dos investimentos estatais pelos efeitos da Lava-Jato. Os indicadores são impressionantes: entre 2014 e 2017, o setor registrou saldo negativo entre contratações e demissões de 991.734 vagas formais (com preponderância na região Sudeste); entre 2014 e 2016, representou 1.115.223 dos 5.110.284 (ou 21,8%) da perda total de postos da população ocupada no período.
“Quando analisamos as maiores empreiteiras, seu desmonte e descapitalização também são notórios. Os dados levantados pelo jornal ‘O Empreiteiro’ mostram que somente entre 2015 e 2016, por exemplo, Queiroz Galvão, Andrade Gutierrez e Camargo Corrêa tiveram queda em suas receitas brutas de, respectivamente, 37%, 31% e 39%. A Odebrecht é o caso mais emblemático: a maior construtora nacional tinha, em 2014, um faturamento bruto de R$ 107 bilhões, com 168 mil funcionários e operações em 27 países. Já em 2017 – quase quatro anos após a eclosão do escândalo e seu presidente/herdeiro preso – seu faturamento era de R$ 82 bilhões, com 58 mil funcionários e atividades apenas em 14 países.
Outros gigantes do setor – Queiroz Galvão, OAS, Andrade Gutierrez e Camargo Corrêa – também tiveram um derretimento de seus ativos financeiros consolidados de uma ordem de R$ 25,77 bilhões em 2014 para aproximadamente R$ 8,041 bilhões em 2017 (perda de 68,6%).
Muitas empreiteiras, obrigadas a executarem planos de desinvestimentos para adequar-se ao novo cenário de menos projetos e obras, além de arcar com pesados acordos de leniência junto às autoridades, também se desfizeram de muitos ativos para grupos estrangeiros: Odebrecht inicia processo de venda da subsidiária Braskem, até então a maior firma petroquímica da América Latina produtora de biopolímeros com participação expressiva da Petrobras, ao grupo holandês LyondellBasell; Andrade Gutierrez vende seu controle sobre a Oi para acionistas holandeses e portugueses; Camargo Corrêa vende a CPFL para a chinesa State Grid.
(…)
As inversões da estatal [Petrobrás] caem de 1,97% do PIB em 2013 para 0,73% do PIB em 2017 e de 9,44% do volume total de investimentos para 4,69% no mesmo recorte. Dentro do próprio conjunto de investimentos públicos, o volume responsável pela Petrobras também caiu de 49,3% em 2013 para 36,5% em 2017. Essa retração aguda da atuação da empresa contribuiu para uma redução dos trabalhadores empregados formalmente no Sistema Petrobras de 86.108 para 68.829 entre 2013 e 2016, e de 360.180 para 117.555 entre os terceirizados no período equivalente. Ou seja, num intervalo de quatro anos a cadeia produtiva direta da empresa teve perda de quase 260 mil postos de trabalho formais e informais.
(…)
Em síntese, o segmento de petróleo e gás foi a ponta de lança do processo de desestruturação econômica e desmonte da engenharia e infraestrutura do Brasil, acentuando inclusive uma tendência grave de desnacionalização das atividades produtivas do país em curso desde o pós-Plano Real. A desestruturação desses dois setores – construção civil e petróleo e gás – contribuiu sobremaneira, por um lado, para o aprofundamento da crise econômica a partir de 2015, ao qual não nos recuperamos até momento; de outro, para a desestruturação de alguns dos poucos setores em que o capital nacional era forte e competitivo a nível internacional. Não é pouca coisa.”

quarta-feira, 28 de agosto de 2019

Libertação de Lula vai melhorar imagem do Brasil no mundo, por Eduardo Guimarães




A questão nem é mais SE Lula sairá da prisão, mas QUANDO. Essa é uma grande notícia porque as loucuras de Bolsonaro e a prisão ilegal do ex-presidente desmoralizaram o Brasil. Libertar Lula vai melhorar a imagem do Judiciário e dará esperança de volta do país aos bons tempos

 Do Blog da Cidadania:



Não é por uma razão ou duas, mas por uma infinidade de razões que o Brasil se desmoralizou diante do mundo com uma velocidade muito maior do que vinha se desmoralizando no governo Temer. Vejamos algumas das muitas trapalhadas que o presidente do Brasil cometeu que nos envergonharam diante do mundo.
O jornal espanhol El País foi um dos que repercutiu mundo afora a ideia de jerico de Bolsonaro de armar até os dentes a população de um dos países mais violentos do mundo. A manchete desse jornal, no início do ano, devidamente traduzida:  “Absoluto desastre: Bolsonaro libera porte de armas para mais de 19 milhões de pessoas”
Muitos previam que o governo Bolsonaro seria um desastre, mas não foram levados a sério. Por exemplo, o insuspeito de petismo e lulismo Fernando Henrique Cardoso.
E não foi só Bolsonaro que, nos últimos anos, desmoralizou o país. Desde o governo Temer o Brasil vem sendo visto como perdido no tempo e no espaço. A intervenção militar no Rio de Janeiro enojou o mundo.
Mas  Bolsonaro foi muito mais eficiente em nos envergonhar diante do resto da humanidade. Seu apoio à ditadura militar deixou o resto do mundo boquiaberto.
Mas, segundo a AFP, uma das maiores agências de notícias do mundo, a crise amazônica, com Bolsonaro dizendo que não havia queimadas, demitindo o diretor do INPE por ter dito que havia, depois dizendo que havia queimadas mas eram feitas por “ongs” e, depois, tendo que reconhecer que fazendeiros amigos seus eram os incendiários, isso nos fez parecer um país de idiotas.
Mas uma das maiores vergonhas que nosso país passou, de uns tempos para cá, foi a prisão ilegal de Lula. O brasileiros não ficam sabendo, mas o mundo está chocado com a prisão ilegal e sem provas do presidente que mais  melhorou a vida do povo em toda a história brasileira. Centenas dos mais importantes juristas do mundo dizem que o processo de  Moro que encarcerou Lula é uma vergonha
Mas se você pensa que chegamos ao fundo do poço, enganou-se. Bolsonaro sempre pode fazer mais – insultar gratuitamente a esposa do presidente da nação na qual foi inventada a democracia moderna e os mais altos valores da humanidade, através do iluminismo: a França.
Você deve estar se perguntando: mas onde Lula entra nisso tudo? Agora que vimos todas as atrocidades de Bolsonaro que nos desmoralizaram perante o resto do planeta, vejamos quanto Lula fez para melhorar a imagem do Brasil.
Enquanto o G7 se reúne para lidar com um país-problema que está ameaçando a humanidade com agressões criminosas ao próprio meio-ambiente, quando Lula era presidente o mesmo G7 nos abria as portas para ver e ouvir o nosso respeitado líder político de então.
Os números do governo Lula eram inacreditavelmente positivos. FHC sempre foi incensado por domar a inflação, mas no seu tempo o crescimento era pífio. O governo Lula foi o único que conseguiu conciliar inflação baixa com crescimento alto.
Um dos pontos altos do governo Lula foi a geração de empregos. Além da enorme criação de vagas com carteira assinada, o salário médio do trabalhador da era Lula foi o maior da história.
Em 2009, penúltimo ano do governo Lula, enquanto o mundo se debatia na maior crise econômica internacional da história, o Brasil não só pagou sua dívida externa como emprestou dinheiro ao FMI
Por conta disso, no último mês do último ano do governo Lula, a rede pública de TV da Alemanha, a Deutche Welle, uma das maiores tevês públicas do mundo divulgou reportagem na Europa sob o seguinte título: “Ao fim da era Lula, economia vive melhor momento dos últimos 25 anos”
A libertação de Lula, portanto, fará um bem enorme ao país. Recuperará a imagem do nosso Poder Judiciário, visto, em todo o mundo, como um poder corrompido e parcial, e dará ao Brasil e ao mundo a esperança de que Lula, de volta à política, possa reerguer o país e recuperar sua imagem diante do mundo.
Confira a reportagem em vídeo

Bolsonaro reitera que quer explorar floresta indígena. Governadores e a sórdida Fiesp apoiam. Análise de Paulo Ghiraldelli em vídeo



Do Canal do filósofo e educador Paulo Ghiraldelli:





Brasil, enfim podemos juntar a hipocrisia, a arrogância e a covardia às nossas marcas identitárias, por Mariana Barreto




“Bolsonaro é um produto genuinamente nacional” e o é: hipócrita, arrogante e covarde, como todos e todas nós, da elite à ralé, não poupando as camadas médias, mas estranhamos isso, e preferimos vê-lo como um fascista, oportunista, uma exceção.



Brasil, enfim podemos juntar a hipocrisia, a arrogância e a covardia às nossas marcas identitárias. Virou hábito, tá valendo.

por Mariana Barreto

O Brasil sempre foi um país hipócrita, covarde e arrogante, poucas vezes tive dúvidas. No entanto, visualizar isso era um pouco difícil, as evidências pareciam frágeis porque sempre combinadas às nossas marcas identitárias primordiais: a alegria, a tolerância, o improviso etc. Nossa população, ainda que miserável, dos pontos de vista material e simbólico, é alegre, nossas intolerâncias não ferem, não excluem, não reproduzem as desigualdades, porque as relações de compadrio são seus freios, nosso improviso resolve todo e qualquer problema de ordem institucional, burocrática, quer seja de ordem pública ou privada. Todavia, nos dias de hoje, colocaram o retrato de nossa figura podre na sala de estar e o mundo o fotografa e o compartilha sem cessar.
As últimas mensagens publicadas por nossa melhor série, a Vaza Jato, produzida pelo The Intercept, mostram a elite econômica e intelectual dos magistrados de Curitiba discutindo os infortúnios experimentados pelo ex-presidente Lula (sim, faço questão de escrever ex-presidente porque faz parte da nossa arrogância insistir em apagar o passado e eu não incorrerei no erro) e sua família; assim como as repercussões sobre os imbróglios envolvendo os incêndios e demais arbitrariedades que acometem a Amazônia, expressam uma certeza: somos hipócritas, arrogantes e covardes. Se duvidamos disso, tenho um exercício simples que cada um de nós pode fazer: nos perguntemos quantos de nós resistiríamos a uma Vaza Jato em nossos grupos familiares, profissional, aquele dos amigos de infância, dos irmãos, da igreja, dos namorados, dos amantes? Qual ateu ou crente suportaria uma Vaza Jato em seus grupos mais espontâneos e nos mais obrigatórios?
Dificilmente, alguém passaria incólume à exposição, ao escrutínio, de suas  malícias, de suas falsas moralidades, de suas covardias. Não há necessidade de nenhum exercício de imaginação para acreditar que dentre os efeitos deletérios das revelações se sobressaísse a postura sobranceira do atingido, incapaz de refazer-se do zero, sua covardia tudo negaria e sua arrogância seria a ponta de lança de sua indiferença, pela crença no esquecimento, na covardice de que tudo seja extinto e remido, no desejo oportunista de ser perdoado. 
Para o mundo, a Amazônia queima, ou é liquidada diriam os mais antigos, vítima da irresponsabilidade de um presidente, reconhecido, nomeado e classificado como um homem de extrema-direita – o que é majoritariamente ignorado entre nós -, que governa o país repelindo insolente e mentirosamente dados, fatos e realidades. Ouvi recentemente do jornalista Mino Carta que “Bolsonaro é um produto genuinamente nacional” e o é: hipócrita, arrogante e covarde, como todos e todas nós, da elite à ralé, não poupando as camadas médias, mas estranhamos isso, e preferimos vê-lo como um fascista, oportunista, uma exceção. Da mesma forma, para nós parecem normais, moralmente irrelevantes, os comentários sobre o estado de saúde de D. Marisa divulgados hoje pela Vaza Jato, afinal a ex-primeira dama foi uma exceção. 
Nossas novas marcas identitárias resistem bem as exceções, porque ainda não nos demos conta que viraram regras. 
Mariana Barreto – Socióloga, é Professora Adjunta IV do Departamento de Ciências Sociais e do Programa de Pós-Graduação em Sociologia da Universidade Federal do Ceará – UFC.

A Lava Jato e os indignos filhos do Januário, por Luis Nassif


 


A faceta mais óbvia do fascismo é a banalização do mal, a desumanização das vítimas, uma das características do direito penal do inimigo.


Do GGN:

Anivaldo Padilha, torturado pela ditadura militar, narra uma cena que explica bem a banalização do mal. Estava sendo torturado por um torturador implacável. Aí toca o telefone. A sessão é interrompida e torturador atende. Do outro lado, a filha. O torturador se enternece:
– Oi, filha, o papai já vai, fique tranquila, já estou indo.
E volta mais feroz ainda, porque a resistência do torturado estava atrasando a ida dele para os compromissos familiares.
A faceta mais óbvia do fascismo é a banalização do mal, a desumanização das vítimas, uma das características do direito penal do inimigo.
Os diálogos da Lava Jato sobre as mortes dos parentes de Lula – divulgados pelo The Intercept e UOL – são a comprovação definitiva de como o fascismo se espalha, contaminando corações e mentes de pessoas de pequena estatura  moral.
A celebração da morte, por esses procuradores indignos, entrará definitivamente para a história. No futuro, será erguido um Panteão dos Atos Indignos, para lembrar esses tempos tenebrosos que se iniciam com a Veja, prosseguem com a Lava Jato e se encerram com Jair Bolsonaro, todos da mesma natureza, banalizadores do mal, cultivadores da morte, da selvageria, deslumbrados com o poder que receberam, mentes sádicas, se comprazendo em liquidar com reputações, empresas, empregos e não demonstrar respeito nem pela morte.
No Panteão dos Atos Indignos, esses diálogos ocuparão lugar especial, ao lado de frases escolhidas de Bolsonaro e filhos, todos da mesma laia, da mesma natureza moral, e entronizarão os nomes de Januário Paludo, Monique Cheker, Thamea Danellon, Laura Tessler, Jerusa Viecili, Roberto Pozzobon, Deltan Dallagnol, para que não se esqueça, não se repita. A lembrança desses diálogos atravessará os tempos, amaldiçoando a memória dos comensais desse banquete de horrores, será um peso na memória dos seus filhos e netos, uma mancha que se estenderá por gerações.
Tolos, medíocres, como o mais reles dos bolsominions, incapazes de enxergar para além do momento de paroxismo, de avaliar os desdobramentos futuros sobre sua própria história e biografia. E, no Twitter, invocando o nome de Deus e da fé, meramente porque falar de Deus e da fé se tornou um bom negócio.
Restaram, no diálogo, as observações do mais vulnerável e sensível dos procuradores, Diogo Castor, o que se deixou influenciar por colegas mais velhos, a ponto de se expor em críticas abertas a Ministros do Supremo, enquanto as raposas velhas usavam o biombo de partidos políticos e movimentos de rua para não se expor. Diz ele, por ocasião do velório do irmão Vavá:
“Entendo as ponderações. Considero razoáveis. Mas mesmo assim não acho que ele possa ser penalizado por causa disso, sendo que a lei prevê que todos os presos em regime fechado tem esse direito”.
E Januário Paludo, o mais experiente do grupo:
“O safado só queria passear”

O que o assassinato de Marielle tem a ver com a destruição da previdência?



A dominação para fins de exploração econômica nunca se dá apenas no conflito estritamente salarial entre ricos e pobres. Mas sim também na violência simbólica.
Do GGN:

O que o assassinato da vereadora tem a ver com a destruição da previdência?

por Álvaro Miranda

Difícil abstrair os diferentes problemas da realidade para depois conectá-los a fim de compreender o fenômeno maior que os explica. Sei que esse exercício exige tempo, estudos e pesquisas. Mas há coisas elementares que atingem todas as famílias brasileiras, que é a expectativa de uma convivência pacífica na escola, no trabalho, nas ruas – algo que, no seu plano prático, dispensa abstrações, bastando o entendimento do arroz com feijão do dia a dia. 
A partir de um viés civilizatório básico, quando alguém é assassinado, a sociedade toda está sendo agredida. Parece uma abstração, mas não é, caso contrário não precisaríamos de leis. Quando assistimos ao noticiário sobre um crime, tendemos à solidariedade e à preocupação com as dores dos familiares da vítima, mas também com o temor de que aconteça o mesmo conosco ou com parentes ou pessoas próximas. 
Criminosos atentam contra a República e todos os cidadãos quando matam alguém, seja a vítima de qualquer estrato social, profissão, cargo público ou condição econômica. A facada em Jair Bolsonaro foi um atentado contra a República, gostemos ou não dele, assim como o assassinato da juíza Patrícia Accioly, em Niterói, e de dezenas de policiais em serviço Brasil afora. 
O tal arroz com feijão do cotidiano tem a ver com causas específicas e seus respectivos efeitos implicando ações práticas e peculiares para resolver os problemas, ainda que estes tenham como causas elementos de outras dimensões da realidade. 
Para os que são ávidos por novidades e acham que o caso da vereadora se torna repetitivo no noticiário, vai uma indagação: como é possível localizar e prender PC Farias (lembram?) na Tailândia e não conseguirem prender os mandantes do assassinato de Marielle Franco e seu motorista Anderson Gomes? 
Alguma coisa muito errada, não é, presidente? Alguma coisa muito esquisita, não é, ministro Sérgio Moro? Alguma coisa muito bizarra esse sumiço do Queiróz. E os eleitores fervorosos de Bolsonaro não querem saber o que aconteceu? Não querem esclarecimentos? Ou acham que essas indagações são “de esquerda”? Policiais que estavam empenhados na investigação são comunistas? Apesar do silêncio dos meios de comunicação, a sociedade espera, sim, uma resposta.
O assassinato da vereadora e seu motorista é um problema que está engasgado na garganta da República, e a pergunta aqui é: os que apoiam Moro e Bolsonaro acham que se trata de mais um fato a não merecer mobilização e protestos? Se são honestos e coerentes como eleitores que apostaram no fim da corrupção e da violência, não vão levantar bandeiras a fim de pressionar as autoridades para prender os mandantes e esclarecer o crime? E também, claro, o caso Queiróz?
Outros problemas exigem abstração mais complexa, como os que procuram interconectar elementos diversos sobre os motivos pelos quais o governo pretende destruir a previdência pública. Sei que é difícil o exercício da reflexão para estabelecer as conexões entre o assassinato da vereadora e seu motorista e o movimento empreendido pela rapina rentista dos recursos e a destruição do estado. 
Embora não me sinta capaz de fazer as devidas conexões no momento, penso em alguns elementos iniciais para aprofundamento maior posteriormente, quais sejam: a dominação para fins de exploração econômica nunca se dá apenas no conflito estritamente salarial entre ricos e pobres. Mas sim também na violência simbólica, que, em casos extremos, se interpenetra à violência física. É como se a violência simbólica fosse semeando em terrenos legitimadores a violência física.
Repito o que já se disse por diferentes vozes: o ódio de classe social legitima a violência contra a mulher, lésbica, negra, favelada. Ódio porque a mulher conseguiu romper os claustros da dominação, chegando à universidade e à vereança. Legitima o esquecimento do crime, como absurdo normalizado em meio a tantas outras violências. O ódio legitima a mentira, que, somada a várias outras mentiras, legitima as razões supostamente técnicas do embuste para a destruição da previdência pública. Esta, que o cinismo, na sua violência simbólica, quer legitimar como “nova previdência”.
O ódio que incentiva todos os tipos de ódio, quando, por exemplo, procuradores da Lava Jato ironizam a morte de Dona Marisa Letícia e a dor de Lula e seus parentes. Se pessoas ditas qualificadas por mérito manifestam, ainda que na encolha, um ódio gratuito num episódio desses, o que esperar de suas missões judicantes? O ódio, travestido de amavios elegantes e explicações técnicas ardilosas, que legitima a defesa da destruição da previdência por parte dos grandes meios de comunicação, de forma sistemática e diária, em contraste com o silêncio em relação ao crime da vereadora à espera de algum “fato novo” das autoridades policiais. 
Isso, como se os produtores de notícia dependessem de “fatos novos” e não contribuíssem para pautar a agenda do governo com seus interesses escondidos em “matérias jornalísticas” de suposto “interesse público”. O ódio em suas edições e marketing sofisticado das grandes forças rentistas – mas sem estampar, por exemplo, um placar diário mostrando que faz tantos minutos, dias, semanas, meses que Marielle Franco e Anderson Gomes foram assassinados, e até agora os mandantes não foram presos.
Álvaro Miranda – Jornalista, Mestre e Doutor em Ciências, Políticas Públicas, Estratégias e Desenvolvimento pela UFRJ, por onde também tem especialização em Análise de Políticas Públicas, além de MBA em Marketing pela Fundação Getúlio Vargas. Prestes a lançar agora em setembro seu quinto livro de poesia, “Estranho país que teus olhos já não procuram mais”, pela 7Letras.

Carta pública aos ex-colegas da Lava-Jato, por Eugênio Aragão



Declarem-se suspeitos em relação ao alvo de seu ódio. Ainda é tempo de porem a mão na consciência, mostrarem sincero remorso e arrependimento, porque aqui se faz e aqui se paga.


Carta pública aos ex-colegas da Lava-Jato

por Eugênio Aragão

Sim. Ex-colegas, porque, a despeito de a Constituição me conferir a vitaliciedade no cargo de membro do Ministério Público Federal, nada há, hoje, que me identifique com vocês, a não ser uma ilusão passada de que a instituição a que pertenci podia fazer uma diferença transformadora na precária democracia brasileira. Superada a ilusão diante das péssimas práticas de seus membros, nego-os como colegas.
Já há semanas venho sentindo náuseas ao ler suas mensagens, trocadas pelo aplicativoTelegram e agora reveladas pelo sítio The Intercept Brasil, num serviço de inestimável valor para nossa sociedade deformada pela polarização que vocês provocaram. Na verdade, já sabia que esse era o tom de suas maquinações, porque já os conheço bem, uns trogloditas que espasmam arrogância e megalomania pela rede interna da casa. Quando aí estava, tentei discutir com vocês, mostrar erros em que estavam incidindo no discurso pequeno e pretensioso que pululava pelos computadores de serviço. Fui rejeitado por isso, porque Narciso rejeita tudo que não é espelho. E me recusava a me espelhar em vocês, fedelhos incorrigíveis.
A mim vocês não convencem com seu pobre refrão de que “não reconhecem a autenticidade de mensagens obtidas por meio criminoso”. Por muito menos, vocês “reconheceram” diálogo da Presidenta legitimamente eleita Dilma Rousseff com o Ex-Presidente Lula, interceptado e divulgado de forma criminosa. Seu guru, hoje ministro da justiça de um desqualificado, ainda teve o desplante de dizer que era irrelevante a forma como fora obtido acesso ao diálogo, pois relevaria mais o seu conteúdo. Tomem! Isso serve que nem uma luva nas mãos ignóbeis de vocês. Quem faz coisa errada e não se emenda acaba por ser atropelado pelo próprio erro.
Subiu-lhes à cabeça. Perderam toda capacidade de discernir entre o certo e o errado, entre o público e o privado, tamanha a prepotência que os cega. Não têm qualquer autocrítica. Nem diante do desnudamento de sua vilania, são capazes de um gesto de satisfação, de um pedido de desculpas e do reconhecimento do erro. Covardes, escondem-se na formalidade que negaram àqueles que elegeram para seus inimigos.
Esquecem-se que o celular de serviço não se presta a garantir privacidade ao agente público que o usa. Celulares de serviço são instrumentos de trabalho, para comunicação no trabalho. Submete-se, seu uso, aos princípios da administração, entre eles o da publicidade, que demanda transparência nas ações dos agentes públicos. Conversas de cunho pessoal ali não devem ter lugar e, diante do risco de intrusão, também não devem por eles trafegar mensagens confidenciais. Se houver quebra de confidencialidade pela invasão do celular, a culpa pelo dano ao serviço é do agente público que agiu com pouco caso para com o interesse da administração e depositou sigilo funcional na rede ou na nuvem virtual. Pode por isso ser responsabilizado, seja na via da improbidade administrativa, seja na via disciplinar, seja no âmbito penal por dolo eventual na violação do sigilo funcional. Não há, portanto, que apontarem o dedo para os jornalistas que tornaram público o que público devesse ser.
De qualquer sorte, tenho as mensagens como autênticas, porque o estilo de vocês – ou a falta dele – é inconfundível. Mesmo um ficcionista genial não conseguiria inventar tamanha empáfia. Tem que ser membro do MPF concurseiro para chegar a tanto! Umas menininhas e uns menininhos “remplis de soi-mêmes”, filhinhas e filhinhos de papai que nunca souberam o que é sofrer restrições de ordem material e discriminação no dia a dia. Sempre tiveram sua bola levantada, a levar o ego junto. Pessimamente educados por seus pais que não lhes puxaram as orelhas, vocês são uns monstrengos incapazes de qualquer compaixão. A única forma de solidariedade que conhecem é a de uma horda de malfeitores entre si, um encobrindo um ao outro, condescendentes com os ilícitos que cada um pratica em suas maquinações que ousam chamar de “causa”. Matilhas de hienas também conhecem a solidariedade no reparto da carniça, mas, como vocês, não têm empatia.
Digo isso com o asco que sinto de vocês hoje. Sinto-me mal. Tenho vontade de vomitar. Ao ler as mensagens trocadas entre si em momentos dramáticos da vida pessoal do Ex-Presidente Lula, tenho a prova do que sempre suspeitei: de que tem um quê de psicopatas nessa turma de jovens procuradores, uma deformação de caráter decorrente, talvez, do inebriamento pelo sucesso. Quando passaram no concurso, acharam que levaram o bilhete da sorte, que lhes garantia poder, prestígio e dinheiro, sem qualquer contrapartida em responsabilidade.
Sim, dinheiro! Alguns de vocês venderam  sua atuação pública em palestras privadas, em troca de quarenta moedas de prata. Mas negaram ao Ex-Presidente Lula o direito de, já sem vínculo com a administração, fazer palestras empresariais. As palestras de vocês, a passarem o trator sobre a presunção de inocência, são sagradas. Mas as de Lula, que dão conta de sua visão de Estado como ator político que é, são profanas. E tudo fizeram na sorrelfa, enganando até o corregedor e o CNMP.
Agora, a cerejinha do bolo. Chamam Lula de “safado”, fazem troça de seu sofrimento, sugerem que a trágica morte de Dona Mariza foi queima de arquivo… chamam o luto de “mimimi” e negam o caráter humano àquele que tão odienta e doentiamente perseguem! Só me resta perguntar: onde vocês aprenderam a ser nazistas? Pois tenho certeza que o desprezo de vocês pelo padecimento alheio não é diferente daqueles que empurravam multidões para as câmaras de gás sem qualquer remorso, escorando-se no “dever para com o povo alemão”. Ao externarem tamanha crueldade para com o Ex-Presidente Lula, vocês também invocarão o dever para com o Brasil?
Declarem-se suspeitos em relação ao alvo de seu ódio. Ainda é tempo de porem a mão na consciência, mostrarem sincero remorso e arrependimento, porque aqui se faz e aqui se paga. A mão à palmatória pode redimi-los, desde que o façam com a humildade que até hoje não souberam cultivar e empreendam seu caminho a Canossa, para pedirem perdão a quem ofenderam. Do contrário, a história não lhes perdoará, por mais que os órgãos de controle, imbuídos de espírito de corpo, os queiram proteger. A hora da verdade chegou e, nela, Lula se revela como vítima da mais sórdida ação de perseguição política empreendida pelo judiciário contra um líder popular na história de nosso país. Mais cedo ou mais tarde ele estará solto e inocentado, já vocês…
Despeço-me aqui com uma dor pungente no coração. Sangro na alma sempre que constato a monstruosidade em que se transformou o Ministério Público Federal. E vocês são a toxina que acometeu o órgão. São tudo que não queríamos ser quando lutamos, na Constituinte, pelo fortalecimento institucional. Esse desvio de vocês é nosso fracasso. Temos que dormir com isso.