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quinta-feira, 20 de janeiro de 2022

Diálogo entre Luis Nassif e o psicanalista Christian Dunker: Como o monstro do ódio e do fascismo foi parido no Brasil

 


Da TV GGN:


Luis Nassif entrevista o psicanalista Christian Dunker, que lançou no dia 14/01/22 o primeiro livro “Lacan e a Democracia: clínica e crítica em tempos sombrios”, pela Boitempo. 📕 Em "Lacan e a democracia", Christian Dunker apresenta uma associação entre psicanálise e democracia no atual contexto de ascensão de fenômenos antidemocráticos e conservadores. Na obra, ele mostra como a psicanálise contribui para a reflexão histórica sobre a democracia. Christian Dunker é psicanalista, professor titular do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (USP), analista membro de Escola do Fórum do Campo Lacaniano e fundador do Laboratório de Teoria Social, Filosofia e Psicanálise (Latesfip-USP). Entre suas obras de mais sucesso, estão "O palhaço e o psicanalista", "Mal-estar, Sofrimento e Sintoma" e "Uma biografia da depressão".

sexta-feira, 28 de fevereiro de 2020

Lançado o livro Carl Gustav Jung e os Fenômenos Psíquicos, de Carlos Antonio Fragoso Guimarães





Sinopse: Carl Gustav Jung tem um lugar proeminente, figurando ao lado de Freud, nas origens da psicoterapia psicanalítica. O que a maioria ignora são suas relações profundas e diversificadas com o mundo dos fenômenos psíquicos, ditos paranormais, que compareceram em profusão ao longo de toda sua vida, com raízes em sua família, e perpassam suas vivências, pesquisas e reflexões.

Esta obra, de feição biográfica, é um detalhado registro de todas as ligações de Jung, ao longo da vida, com o universo dos fenômenos psi – cuja existência sempre o atraiu e foi um dos dois motivos capitais de sua divergência e afinal distanciamento de Freud, que se negava a admitir sequer a pesquisa deles.

Entre os temas abordados, as ocorrências de fenômenos psíquicos na família Jung, suas experiências com os fenômenos paranormais, sozinho ou com outros psiquiatras, suas relações com os pesquisadores da parapsicologia, como o dr. Joseph B. Rhine, da Universidade de Duke, o dr. Willian James, considerado o pai da psicologia moderna, e os diversificados fenômenos que pontuaram a trajetória de Jung, merecendo-lhe profundas reflexões, orientando a direção de suas pesquisas e comparecendo de variadas formas em sua obra e na construção de suas teorias sobre o mundo da psique humana. 

Nenhuma análise da obra e postulados de Jung será completa sem esta visão do universo dos fenômenos psi, que figuram nas raízes de sua visão de mundo, da qual a presente obra faz uma abordagem ampla, detalhada e fascinante, lastreada em sólida documentação.´
Site para compra on-line pela editora: 

sexta-feira, 2 de agosto de 2019

Eliane Brum, no El País: Doente de Brasil, Como resistir ao adoecimento num país (des)controlado pelo perverso da autoverdade imposta


   "Jair Bolsonaro é um perverso. Não um louco, nomeação injusta (e preconceituosa) com os efetivamente loucos, grande parte deles incapaz de produzir mal a um outro. O presidente do Brasil é perverso, um tipo de gente que só mantém os dentes (temporariamente, pelo menos) longe de quem é do seu sangue ou de quem abana o rabo para as suas ideias." - Eliane Brum

do El País

Doente de Brasil

por Eliane Brum

 O presidente Jair Bolsonaro durante cerimônia de troca da guarda.

Jair Bolsonaro é um perverso. Não um louco, nomeação injusta (e preconceituosa) com os efetivamente loucos, grande parte deles incapaz de produzir mal a um outro. O presidente do Brasil é perverso, um tipo de gente que só mantém os dentes (temporariamente, pelo menos) longe de quem é do seu sangue ou de quem abana o rabo para as suas ideias. Enquanto estiver abanando o rabo – se parar, será também mastigado. Um tipo de gente sem limites, que não se preocupa em colocar outras pessoas em risco de morte, mesmo que sejam funcionários públicos a serviço do Estado, como os fiscais do IBAMA, nem se importa em mentir descaradamente sobre os números produzidos pelas próprias instituições governamentais desde que isso lhe convenha, como tem feito com as estatísticas alarmantes do desmatamento da Amazônia. O Brasil está nas mãos deste perverso, que reúne ao seu redor outros perversos e alguns oportunistas. Submetidos a um cotidiano dominado pela autoverdade, fenômeno que converte a verdade numa escolha pessoal, e portanto destrói a possibilidade da verdade, os brasileiros têm adoecido. Adoecimento mental, que resulta também em queda de imunidade e sintomas físicos, já que o corpo é um só.

É desta ordem os relatos que tenho recolhido nos últimos meses junto a psicanalistas e psiquiatras, e também a médicos da clínica geral, medicina interna e cardiologia, onde as pessoas desembarcam queixando-se de taquicardia, tontura e falta de ar. Um destes médicos, cardiologista, confessou-se exausto, porque mais da metade da sua clínica, atualmente, corresponde a queixas sem relação com problemas do coração, o órgão, e, sim, com ansiedade extrema e/ou depressão. Está trabalhando mais, em consultas mais longas, e inseguro sobre como lidar com algo para o qual não se sente preparado.

O fenômeno começou a ser notado nos consultórios nos últimos anos de polarização política, que dividiu famílias, destruiu amizades e corroeu as relações em todos os espaços da vida, ao mesmo tempo em que a crise econômica se agravava, o desemprego aumentava e as condições de trabalho se deterioravam. Acirrou-se enormemente a partir da campanha eleitoral baseada no incitamento à violência produzida por Jair Bolsonaro em 2018. Com um presidente que, desde janeiro, governa a partir da administração do ódio, não dá sinais de arrefecer. Pelo contrário. A percepção é de crescimento do número de pessoas que se dizem “doentes”, sem saber como buscar a cura.

Vou insistir, mais uma vez, neste espaço, que precisamos chamar as coisas pelo nome. Não apenas porque é o mais correto a fazer, mas porque essa é uma forma de resistir ao adoecimento. Não é do “jogo democrático” ter um homem como Jair Bolsonaro na presidência. Tanto como não havia “normalidade” alguma em ter Adolf Hitler no comando da Alemanha. Não dá para tratar o que vivemos como algo que pode ser apenas gerido, porque não há como gerir a perversão. Ou o que mais precisa ser feito ou dito por Bolsonaro para perceber que não há gestão possível de um perverso no poder? Bolsonaro não é “autêntico”. Bolsonaro é um mentiroso.

Podemos – e devemos – discutir como chegamos a ter um presidente que usa, como estratégia, a guerra contra todos que não são ele mesmo e o seu clã. Como chegamos a ter um presidente que mente sistematicamente sobre tudo. Podemos – e devemos discutir – como chegamos a ter um antipresidente. Assim como podemos – e devemos – perceber que a experiência brasileira está inserida num fenômeno global, que se reproduz, com particularidades próprias, em diferentes países.

Esse esforço de entendimento do processo, de interpretação dos fatos e de produção de memória é insubstituível. Mas é necessário também responder ao que está nos adoecendo agora, antes que nos mate.
 
Em 10 de julho, o psiquiatra Fernando Tenório escreveu um post no Facebook que viralizou e foi replicado em vários grupos de Whatsapp. Aqui, um trecho: “Acabei de atender a um homem de 45 anos, negro, sem escolaridade. Nos últimos cinco anos, viu seus colegas de setor serem demitidos um a um e ele passou a acumular as funções de todos. Disse-me que nem reclamou por medo de ser o próximo da fila. Tem sintomas de esgotamento que descambam para ansiedade. Qual o diagnóstico para isso? Brasil. Adoeceu de Brasil. Se eu tivesse algum poder iria sugerir ao DSM (o manual de transtornos mentais da psiquiatria) esse novo diagnóstico. Adoecer de Brasil é a mais prevalente das doenças. Entrei agora na Internet e vi que a reforma da previdência corre para ser aprovada sem sustos. O povo, adoecido de Brasil, permanece inerte. Vai trabalhar sem direito a aposentadoria até morrer de Brasil”.

Não há normalidade nem jogo democrático quando um perverso governa a partir da administração do ódio e da mentira.
 
Alagoano da pequena Maribondo, Fernando Tenório fez residência e atuou na rede pública de saúde mental do Rio de Janeiro. Atualmente, mantém consultório na capital fluminense e atende trabalhadores de um sindicato do setor hoteleiro. O psiquiatra me conta, por telefone, que cresceu muito o número de pessoas que chegavam ao seu consultório com sintomas como taquicardia, desmaios na rua, sinais de esgotamento corporal, dores de cabeça frequentes, sentimentos depressivos. Eram pessoas que estavam objetiva e subjetivamente esgotadas pela precarização das condições de trabalho, como jornada excessiva, acúmulo de funções, metas impossíveis de cumprir, falta de perspectivas de mudança, insegurança extrema. Tinham um “trabalho de merda” e, ao mesmo tempo, medo de perder o “trabalho de merda”, como testemunharam acontecer com vários colegas.
O psiquiatra diz que ele mesmo se descobriu adoecido meses atrás. “Fiquei muito mal, porque me senti quase um traficante de drogas legais. Estava tratando uma crise, que é social, no indivíduo. E, de certo modo, ao dar medicamentos, estava tornando essa pessoa apta a sofrer mais, porque a jogava de volta ao trabalho.” Na sua avaliação, o adoecimento está relacionado à precarização do mundo do trabalho nos últimos anos, acentuada pela reforma trabalhista aprovada em 2017, e foi agravado com a ascensão de um governo “que declarou guerra ao seu povo”. “O Brasil hoje é tóxico”, afirma.

 Após a publicação do post, Tenório sentiu ainda mais o nível da toxicidade cotidiana do país: recebeu xingamentos e ameaças. Um dos agressores lembrou que sua filha, cuja foto viu em uma rede social, um dia poderia ser estuprada. A menina é um bebê de menos de 2 anos.

“Tóxico” é palavra de uso frequente de brasileiros ao relatarem o sentimento de viver em um país onde já não conseguem respirar. Na constatação de que o governo Bolsonaro já aprovou 290 agrotóxicos em apenas sete meses, o envenenamento ganha uma outra camada. É como se os corpos fossem um objeto atacado por todos os lados. País que ultrapassou a possibilidade das metáforas, a toxicidade do Brasil abrange todas as acepções.
Cresce nos consultórios os casos de depressão provocados e alimentados pelo contexto político e social

Mas que adoecimento é este que Tenório chama de “doente de Brasil”? Um psicanalista que prefere não se identificar por temer represálias explica que aumentou muito nos consultórios os quadros depressivos provocados pelo momento vivido pelo Brasil, em que especialmente pessoas ligadas à esquerda, mas não necessariamente ao PT, sentem uma total perda de sentido e horizonte. “Para a psiquiatria, a depressão é a tristeza sem contexto. Ou seja, ela é relacionada à estrutura psíquica de cada pessoa, às fundações e alicerces construídos na infância”, explica. “O que temos vivido hoje nos consultórios é o aumento da depressão com contexto, esta que não tem a ver com a estrutura do indivíduo e que nem vai melhorar no divã. Esta em que o uso de medicamentos só vai servir para obscurecer o esclarecimento das questões. Esta que só pode ser sanada por mudanças sociais.”

O rompimento dos laços, como a divisão das famílias provocada pela polarização política, tornou as pessoas ainda mais sujeitas ao adoecimento mental e com menos ferramentas para lidar com ele. Como disse um filósofo, ninguém deixa de dormir porque está tendo uma guerra no outro lado do mundo, com exceção daqueles que vivem a guerra. Com isso, ele queria dizer que as pessoas perdiam o sono muito mais por pequenas dores e preocupações comezinhas com as quais se identificavam, como as relacionadas à família e ao mundo dos afetos, do que por enormes barbáries que ocorriam no outro lado do mundo.
 
O que os brasileiros testemunharam foi uma inversão: a política, que sempre foi algo do campo público, invadiu o campo privado, passando a ser um fator íntimo, um fator primeiro de identificação. Dias atrás uma amiga presenciou uma conversa em que duas garotas decidiam quais os critérios para dividir apartamento com uma outra. “Não suportaria dividir com uma petista”, disse uma delas. Essa conversa, exceto no caso de militantes mais radicais, dificilmente aconteceria anos atrás: ninguém costumava perguntar qual era a orientação política antes de dividir a casa com alguém.

A eleição, que costumava ser um acontecimento pontual, da esfera pública, tornou-se algo crucial na esfera privada. Do mesmo modo, o inverso também aconteceu. Questões íntimas, como a orientação sexual de cada um, como o que acontece na cama de cada um, passaram a ser discutidas publicamente. Esse fenômeno atingiu fortemente laços que cada um considerava incondicionais, como os familiares, laços com os quais se contava para enfrentar a dureza da vida. E acentuou ainda mais os quadros depressivos e persecutórios, aumentando ansiedade e angústia, corroendo a saúde.


O sofrimento é agravado pela constatação de que as instituições não barram a violência do governo e do governante

Uma psicanalista de São Paulo, que também prefere não se identificar, acredita que o adoecimento do Brasil de 2019 expressa a radicalização da impotência. As pessoas, hoje, não sabem como reagir à quebra do pacto civilizatório representada pela eleição de uma figura violenta como Bolsonaro, que não só prega a violência como violenta a população todos os dias, seja por atos, seja por aliar-se a grupos criminosos, como faz com desmatadores e grileiros na Amazônia, seja por mentir compulsivamente. Não sabem, também, como parar essa força que as atropela e esmaga. Sentem como se aquilo que as está atacando fosse “imparável”, porque percebem que já não podem contar com as instituições – constatação gravíssima para a vida em sociedade. E então passam a sentir-se como reféns – e, seguidamente, a atuar como reféns.
 
“Como reagimos à violência de alguém como Bolsonaro, que faz e diz o que quer, sem que seja impedido pelas instituições?”, questiona. “Toda a nossa experiência dá conta de que a vida em sociedade é regulada por instâncias que vão determinar o que pode e o que não pode, que têm o poder de impedir a quebra do pacto civilizatório, este pacto que permite que a gente possa conviver. Nesta experiência de que há um regulador, se uma pessoa é racista, ela vai ser processada – e não virar presidente do país. O que vivemos agora, com Bolsonaro, é a quebra de qualquer regulação. E isso tem um enorme impacto sobre a vida subjetiva. Ninguém sabe como reagir a isso, como viver numa realidade em que o presidente pode mentir e pode até mesmo inventar uma realidade que não corresponde aos fatos.”

A documentação das experiências de autoritarismo em diferentes épocas e países costuma relatar o sofrimento físico e psíquico das vítimas, mas geralmente em condições explícitas. Como, por exemplo, um judeu num campo de concentração nazista. Ou uma das mulheres torturadas no Doi-Codi, em São Paulo, durante a ditadura militar do Brasil (1964-1985). Perceber essa violência explícita como violência é imediato. O que a experiência autoritária do bolsonarismo tem demonstrado é o quanto pode ser difícil resistir (também) à violência do cotidiano, aquela que se infiltra nos dias, nos pequenos gestos, na paralisia que vira um modo de ser, nas covardias que deixamos de questionar.

O cotidiano de exceção tem se infiltrado e realizado em milhões de pequenos gestos de autocensura, silêncio e ausência no Brasil
 
Há milhares, talvez milhões de pequenos gestos de conformação acontecendo neste exato momento no Brasil. Em silêncio. Pequenos movimentos de autocensura, ausências nem sempre percebidas. Uma autora me conta que conseguiu manter seu livro no catálogo da editora sem usar a palavra sexualidade…. para falar de sexualidade. Uma diretora me diz que vestiu os corpos de suas atrizes, até então nuas, numa peça de teatro. A professora de uma das mais importantes universidades públicas do país me relata que muitos colegas já deixaram de analisar determinados temas em salas de aula por medo do “poder de polícia” dos alunos, que têm gravado as aulas e se comportado de forma ainda mais violenta que a polícia formal. Um curador de eventos preferiu não fazer o evento. Mudou de assunto. Outro deixou de convidar uma pensadora que certamente levaria bolsocrentes para a sua porta. Nunca saberemos o que poderia acontecer, porque o acontecimento foi impedido para não sofrer o risco de ser impedido.

Há tantos que já preferem “não comentar”. Ou que dizem, simpaticamente: “me deixa fora dessa”. É também assim que o autoritarismo se infiltra, ou é principalmente assim que o autoritarismo se infiltra. E é também assim que se adoece uma população por aquilo que ela já tem medo de fazer, porque antecipa o gesto do opressor e se cala antes de ser calada. E em breve talvez tenha medo também de sussurrar dentro de casa, num mundo em que os aparelhos tecnológicos podem ser usados para a vigilância. Chega o dia em que o próprio pensamento se torna uma doença autoimune. É assim também que o autoritarismo vence antes mesmo de vencer.

Um dos sintomas do cotidiano de exceção que vivemos é a colonização de nossas mentes. Mesmo pessoas que viveram a ditadura militar não têm recordação de algum momento da sua vida em que tenham pensado todos os dias no presidente da República. Bolsonaro administra o horror dos dias, com suas violências e mentiras, de um modo que o torna onipresente. Faça o teste: quantas horas você consegue ficar sem pensar em Bolsonaro, sem citar uma bestialidade de Bolsonaro? É isso o autoritarismo. Mas sobre isso poucos falam.
 
Bolsonaro encarna a vanguarda messiânica-apocalíptica do mundo

Se Bolsonaro encarna a vanguarda messiânica-apocalítica do mundo, é preciso sublinhar que os brasileiros não estão sós. Um amigo estrangeiro me conta que, desde que Donald Trump assumiu, a primeira coisa que ele faz ao acordar é conferir qual é a barbaridade que o presidente americano escreveu no Twitter, porque sente que isso afeta diretamente a vida dele. E afeta.

Mario Corso, psicanalista e escritor gaúcho, aponta que não é possível pensar no que ele chama de “ethos depressivo” deste momento fora do contexto do Ocidente. “Veja o Reino Unido. O novo primeiro-ministro (referindo-se ao pró-Brexit Boris Johnson) é um palhaço. E eles já tiveram Churchill!”, exemplifica. “O problema, no Brasil, é que além de toda a crise global, elegemos um cretino para presidente”, diz o psicanalista. “O que assusta é que não há freios para impedi-lo. E, assim, ele segue atacando os mais frágeis. Como Bolsonaro é covarde, ele não engrossa com os maiores que ele.”

 Boris Johnson não chega a ser um Donald Trump. E nem Donald Trump chega a ser um Jair Bolsonaro. Mas a diferença maior está na qualidade da democracia. Tanto nos Estados Unidos quanto no Reino Unido, as instituições têm conseguido exercer o seu papel. No Brasil, não chega a ser perda total – ou não bastou (ainda) “um cabo e um soldado” para fechar o STF, como sugeriu o futuro possível embaixador do país nos Estados Unidos, Eduardo Bolsonaro, o garoto zerotrês. Mas a precariedade – e com frequência a omissão – das instituições – quando não conivência – são evidentes. “Enquanto Bolsonaro não consegue uma ditadura total, porque isso ele quer, mas ainda não conseguiu, ele antecipa a ditadura pelas palavras”, diz Corso. “Bolsonaro usa aquilo que você definiu como autoverdade para antecipar a ditadura. Os fatos não importam, o que ‘eu’ digo é o que é.”

“A guerra acontece quando a palavra, como mediadora, se extinguiu”

Para Rinaldo Voltolini, professor de psicanálise da Universidade de São Paulo, a autoverdade é a amputação da palavra no sentido pleno. “Este é um grande disparador do sofrimento das pessoas, ao constatarem que estão fora no nível mais importante. Não é que você está fora porque não tem uma casa ou um carro, hoje você está fora das possibilidades de leitura do mundo. O que você diz não tem valor, não tem sentido, não tem significado. É como se, de repente, você já não tivesse lugar na gramática”, diz o psicanalista. “O que é a guerra? A guerra acontece quando a palavra, como mediadora, se extinguiu. Isso acontece entre duas pessoas, entre países. Sem a mediação da palavra, se passa diretamente ao ato violento.

 A autoverdade, como escrevi neste espaço, determinou a eleição de Bolsonaro. E seguiu moldando sua forma de governar pela guerra, o que implica a destruição da palavra. Assim, desde o início do governo, Bolsonaro tem chamado os órgãos oficiais de mentirosos sempre que não gosta do resultado das pesquisas. Como quando o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística mostrou que o número de desempregados tinha aumentado no seu governo.
 
Nos últimos dias, porém, o antipresidente levou a perversão da verdade, esta que torna a verdade uma escolha pessoal, à radicalidade. Decidiu que a jornalista Míriam Leitão não foi torturada – e ela foi. Insinuou que o pai do presidente da Ordem dos Advogados do Brasil teria sido executado pela esquerda, quando ele desapareceu por obra de agentes do Estado na ditadura militar. Decidiu que ninguém mais passa fome no Brasil – o que é desmentido não só pelas estatísticas como pela experiência cotidiana dos brasileiros. Decidiu que os dados que apontaram a explosão do desmatamento na Amazônia, produzidos pelo conceituado Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, eram mentirosos. Isso porque apenas no mês de julho de 2019 foi destruída uma área de floresta maior do que a cidade de São Paulo, e o índice de desmatamento foi três vezes maiores do que em julho do ano passado. E Bolsonaro decidiu ainda que “só os veganos que comem vegetais” se importam com o meio ambiente.

Bolsonaro controla o cotidiano porque fora de controle. Bolsonaro domina o noticiário porque criou um discurso que não precisa estar ancorado nos fatos. A verdade, para Bolsonaro, é a que ele quer que seja. Assim, além da palavra, Bolsonaro destrói a democracia ao usar o poder que conquistou pelo voto para destruir não só direitos conquistados em décadas e todo o sistema de proteção do meio ambiente, mas também para destruir a possibilidade da verdade.

O que vivemos não é mal-estar, mas horror

“Narrar a história é sempre o primeiro ato de dominação. Não é por acaso que Bolsonaro quer adulterar a história. A história da ditadura é construída por muitos documentos, é uma produção coletiva. Mas ele decide que aconteceu outra coisa e não apresenta nenhum documento para comprovar o que diz”, analisa Voltolini. “Não é que estamos vivendo o mal-estar na civilização. Isso sempre houve. A questão é que, para ter mal-estar é preciso civilização. E hoje, o que está em jogo, é a própria civilização. Isso não é da ordem do mal-estar, mas da ordem do horror.”
Como enfrentar o horror? Como barrar o adoecimento provocado pela destruição da palavra como mediadora? Como resistir a um cotidiano em que a verdade é destruída dia após dia pela figura máxima do poder republicano? Rinaldo Voltolini lembra um diálogo entre Albert Einstein e Sigmund Freud. Quando Einstein pergunta a Freud como seria possível deter o processo que leva à guerra, Freud responde que tudo o que favorece a cultura combate a guerra.

Os bolsonaristas sabem disso e por isso estão atacando a cultura e a educação. A cultura não é algo distante nem algo que pertence às elites, mas sim aquilo que nos faz humanos. Cultura é a palavra que nos apalavra. Precisamos recuperar a palavra como mediadora em todos os cantos onde houver gente. E fazer isso coletivamente, conjugando o nós, reamarrando os laços para fazer comunidade. O único jeito de lutar pelo comum é criando o comum – em comum.

É preciso dizer: não vai ficar mais fácil. Não estamos mais lutando pela democracia. Estamos lutando pela civilização.

Eliane Brum é escritora, repórter e documentarista. Autora dos livros de não ficção Coluna Prestes – o Avesso da Lenda, A Vida Que Ninguém vê, O Olho da Rua, A Menina Quebrada, Meus Desacontecimentos, e do romance Uma Duas. Site: desacontecimentos.com Email: elianebrum.coluna@gmail.com Twitter: @brumelianebrum/ Facebook: @brumelianebrum


segunda-feira, 15 de outubro de 2018

Psicanalistas se posicionam contra o fascismo e Bolsonaro




"Entidades Psicanalíticas Brasileiras se posicionam contra o retrocesso representado pelo candidato Jair Bolsonaro. Em carta aberta, dezoito entidades afirmam que o risco é grande da democracia ser exterminada e surgindo, no lugar, a pulsão de morte."



Jornal GGN - Entidades Psicanalíticas Brasileiras se posicionam contra o retrocesso representado pelo candidato Jair Bolsonaro. Em carta aberta, dezoito entidades afirmam que o risco é grande da democracia ser exterminada e surgindo, no lugar, a pulsão de morte. Não se calam neste momento em que existe a possibilidade de surgimento de um novo regime de exceção, pautada no militarismo, sem lei, adepta à barbárie e ao desrespeito pela vida.
 
Leia a carta a seguir.
 
MANIFESTO DOS PSICANALISTAS BRASILEIROS PELA DEMOCRACIA
 
O Brasil se encontra num momento crucial de sua história. Nas próximas três semanas estaremos diante de uma escolha que moldará de forma contundente nosso horizonte. Estamos todos sendo convocados a definir de maneira clara que tipo de sociedade queremos ser.
 
As entidades que assinam este Manifesto - Sociedades psicanalíticas, Escolas de Psicanálise e Associações de psicanalistas - vêm a público manifestar sua imensa apreensão diante de um cenário que, de maneira flagrante, vem pondo em risco o Estado Democrático de Direito que com grande esforço conquistamos, e que vem sustentando a sociedade brasileira nos últimos trinta anos.  Não podemos deixar que isso aconteça!  
 
A democracia é o único fiador de nosso futuro como nação, é o único caminho em direção a uma sociedade livre, justa e fraterna. Para mantê-la é preciso sustentar o direito inalienável de livre expressão de ideias, e de associação - que se traduzem na diversidade política, cultural, religiosa e sexual, e no repúdio a toda forma de preconceito, opressão social, racial ou sexual. É necessário apostar na construção de uma sociedade que busque de forma permanente reduzir a abjeta desigualdade econômica que ainda nos caracteriza.
 
Por isso, instamos todos os brasileiros a usarem conscientemente seu voto como um instrumento de defesa dos valores essenciais da democracia. O momento que vivemos não admite hesitação! 
 
Brasil, 10 de Outubro de 2018
 
Assinam o presente Manifesto:
 
Movimento Articulação das Entidades Psicanalíticas Brasileiras:
 
ALEPH – Escola de Psicanálise  
 
Associação Psicanalítica de Porto Alegre - APPOA
 
CEPdePA - Centro de Estudos Psicanalíticos de Porto Alegre 
 
Círculo Brasileiro de Psicanálise - CBP
 
Círculo Psicanalítico do Rio de Janeiro - CPRJ 
 
Corpo Freudiano do Rio de Janeiro Escola de Psicanálise
 
Departamento de Psicanálise - SEDES SAPIENTIAE
 
Departamento Formação em Psicanálise - SEDES SAPIENTIAE 
 
Escola Brasileira de Psicanálise - EBP
 
Escola de Psicanálise dos Fóruns do Campo Lacaniano - EPFCL/BRASIL 
 
Escola Lacaniana de Psicanálise do Rio de Janeiro
 
Escola Letra Freudiana
 
Federação Brasileira de Psicanálise - FEBRAPSI 
 
Laço Analítico/Escola de Psicanálise  - LAEP  
 
Práxis Lacaniana/Formação em Escola – Niterói
 
Sigmund Freud Associação Psicanalítica
 
Sociedade de Psicanálise da Cidade do Rio de Janeiro  - SPCRJ 
 
Tempo Freudiano Associação Psicanalítica
 
Associação Psicanalítica de Nova Friburgo
 
Círculo Psicanalítico de Minas Gerais - CPMG
 
Círculo Psicanalítico de Pernambuco - CPP
 
Coletivo Psicanalistas pela Democracia
 
Espaço Brasileiro de Estudos Psicanalíticos - EBEP 
 
Fórum do Campo Lacaniano - Rio de Janeiro
 
Fórum do Campo Lacaniano - São Paulo
 
Laboratório de Estudos de Psicanálise da Infância e da Educação - IPUSP/USP

sexta-feira, 10 de agosto de 2018

Do laço social ao "inconsciente coxinha": psicanálise, ódio e democracia, por Gustavo Henrique Dionísio, psicanalista


"Outro exemplo  forte [de ato falho revelador do que de fato se quer] pôde ser observado por muitos brasileiros devido ao seu alcance: “o Brasil voltou, 20 anos em 2”, dizia o slogan de governo mais atrapalhado na história recente do país. “Implorando para ser interpretado como ato falho”, é como se a assessoria da presidência golpista tivesse dado uma ótima chance para que todos pudessem entender, de uma vez por todas, a concepção freudiana de inconsciente: neste caso, a leitura é ainda mais simples que a anterior: basta retirar a vírgula e o tiro no pé está dado – vale lembrar que o inconsciente sempre revela senão a verdade"

do Psicanalistas pela Democracia
por Gustavo Henrique Dionisio

Partindo de uma espécie de chiste involuntário, já que diante de certas condições absurdas resta pouco senão fazer piada − como é o exemplo da expressão inconsciente coxinha–, mesmo embora não possamos ser tão otimistas quanto ao futuro, pretendo desdobrar neste texto dois problemas que, somados a diversos outros, são de grande importância junto às forças que levaram ao Golpe parlamentar ocorrido no país no ano de 2016: as desavergonhadas demonstrações de ódio a um pensamento que chamaríamos de progressista, sentimento “naturalmente” decorrente deste inconsciente e que não apenas se endereça a indivíduos/sujeitos mas à instituição democrática como um todo; a partir daí, entendo que devamos encarar a relação direta entre a especificidade deste afeto e o que poderíamos chamar de pacto edípico, relação cuja articulação problematiza os desdobramentos que o complexo encontra quando referido ao laço social.  
A bem da verdade, seria mais correto dizer que esses dois aspectos exigem uma trança, quer dizer, três eixos que se obrigatoriamente se entrecruzam em:
  • A democracia vista como um mal é uma ideia recorrente na história da humanidade, e remonta à Grécia Antiga, como nos permite verificar Platão – a meu ver a defesa de que já estejamos falando majoritariamente de Golpe e não de impeachment se deve diretamente a isso, ainda que se possam ouvir resistências quanto a isso;
  • A “brincadeira” acerca de um inconsciente coxinha se torna portanto central e se deve em muito à migração, cada dia mais visível, do tradicional coxinha “centrão” (leia-se, aquele que reza pela cartilha do PSDB embora não saiba muito bem o que seria exatamente uma social-democracia) ao extremismo de um Bolsonaro por exemplo, isto é, candidato esse que se posiciona de maneira claramente antidemocrática (ainda que declare o contrário!, como se pôde assistir numa entrevista recente), o que reitera uma visão da democracia como o inimigo a ser vencido;
  • Por fim, restaria amarrar uma discussão que articule os pontos levando em conta a ideia de um pacto edípico, tão necessário à civilização e na medida em que se trata de um “acordo” ele mesmo originário, reverberante na constituição do laço social.
Dia após dia tais eixos parecem se amarrar com nós mais apertados, sobretudo em virtude dos modos como esse ódio à democracia vem se expressando no país e cuja intensidade parece ter aumentado em proporção geométrica desde a deposição da presidenta Dilma – olhando mais de perto, e apesar das justas reinvindicações da categoria, a recém-extinta greve de caminhoneiros, a título de exemplo, teve lá seu tom bastante reacionário, e aliás claramente visível (na TV, inclusive), mostrando certo contingente de manifestantes que clamavam por uma intervenção militar; não obstante muitos desses cidadãos de bem tenham pegado uma caronano movimento, isso não invalida a hipótese de que o fenômeno configuraria por assim dizer um “sintoma social dominante” em meio ao cenário atual.
Trata-se, como se sabe, de um ódio que reúne no mesmo lugar um certo grupo de anormais e que não é tão novo assim: ódio ao pobre, às diferentes minorias, à comunidade LGBT, aos excluídos de todos os modos, enfim, ao outro que é diferente mas ao mesmo tempo familiar, Unheimlich, como diria Freud. O sociólogo Luiz Eduardo Soares resumiu muito bem e de maneira muito simples como uma disposição desta ordem vem se manifestando particularmente em nossa contemporaneidade tupiniquim: a matriz psicológica do nazismo, isto é, o antissemitismo fascista, diz ele,[1]é idêntica à do antipetismo vigente – e por extensão a todo e qualquer pensamento “progressista” – para não dizer de esquerda, esse predicado que assusta tanto, justamente, o coxinha.
O ódio à democracia, famoso estudo de Jacques Rancière publicado em 2014 no Brasil (editora Boitempo), remonta com competência as matrizes desse ódio: ora, se a democracia pode ser entendida hoje como o “reino dos desejos ilimitados dos indivíduos da sociedade de massa moderna”, não é de causar surpresa a idade de um tal sentimento que, obviamente, é tão velho quanto à democracia já que a própria palavrademocracia seria ela mesma a expressão de um ódio: endereçado em princípio ao “governo da multidão”, este ódio se refere ao poder que chamaríamos de difuso ou concentrado nas mãos do povo, tal como se pensava na Grécia antiga, mas que seria o grande responsável pela ruína de toda ordem legítima; e assim o uso semântico do significante democracia vem servindo de sinônimo para “bagunça” há bastante tempo – basta lembrarmos que os eleitores de Bolsonaro existem. Por isso é de bom grado demarcar que há uma diferença – evidente e significativa – entre o ódio e a críticaà democracia, embora ela se torne muito tênue, sobretudo hoje, pela sujeira ideológica que a acompanha: Platão, que não abria mão da hierarquia dos poderes para exercê-la, criticou a ideia de democracia desde sempre, como se sabe, justamente denunciando-a como sendo da ordem da “confusão”.
Sobrevive, portanto, um paradoxo de base no interior do conceito moderno de democracia. Num primeiro aspecto, contudo, algo se torna claro quanto a isso, pois se trata de uma oposição na qual dois inimigos públicos se dispõem: a democracia, de um lado, versusa tirania, as ditaduras, o totalitarismo, em suma, tudo o que chamaríamos de governo do arbitrário, de outro. Ainda assim, “essa oposição esconde outra mais íntima, e que não tão moderna assim”, escreve Rancière: o “bom governo democrático é aquele capaz de controlar um mal que se chama”, ironicamente, “vida democrática” (2014, p. 16). Deste modo, o entendimento de democracia levaria a pensar que a(s) sua(s) crise(s) é (são) provocadas pela própria intensidade da vida democrática: “anarquia do povo” que inverte a ordem do poder, a concepção de democracia se soma a uma crítica permanente dos princípios do “bom governo” que deveria levar a um bem estar social e individual, ou seja, atender a uma demanda de felicidade almejada por todo aquele pertencente ao socius. Em outras palavras, como forma de vida política e social, a democracia, isto é, a abertura para a decisão pública acerca dos assuntos do estado, se torna o reino do excesso: o paradoxo se agudiza porque esse excesso seria a própria ruína do regime democrático, e de tal modo deveria ser combatido (!) por ele. Sinuca de bico.
Pois bem: se por democracia devemos entender um regime que pressupõe a liberdade dos indivíduos, a isso somada a participação da maioria na vida pública junto a um princípio rigoroso de igualdade que faz equivaler os indivíduos guardando suas diferenças, caberia enfim perguntar: seria a democracia um regime possível? Se, como a Rancière define, democraciaquereria dizer que “as formas jurídico-políticas das constituições e das leis de Estado não repousam jamais sobre uma única e mesma lógica” (2014, p. 71), como se poderia contê-la, uma vez vitoriosa? Ou, por outro lado, certamente mais honesto, a quem não interessa a democracia? Afinal, há esta situação estrutural que a problematiza muito bem na contemporaneidade: dado o regime capitalista, democracia seria o mesmo que consumir com liberdade? Defender o porte de arma como preceito máximo do free-will individual é um argumento forte para muitos dos norte-americanos que se dizem “democratas”… e no Brasil não parece que estejamos imunes a um fenômeno de iguais proporções, lamentavelmente.
Mas deixando um pouco de lado o aspecto mercantil, mesmo uma eleição não seria “em si uma forma democrática pela qual o povo faz ouvir a sua voz”; ela “é geralmente a expressão de um consentimento que um poder superior pede e que só é de fato consentimento na medida em que é unânime” (Rancière, 2014, p. 70). Deste modo a representação, isto é, este que é o sistema mais utilizado na maior parte das democracias modernas, seria curiosamente o seu exato oposto, ainda que esta não seja necessariamente um motivo que justifique refutar aquela. Ora, mesmo nas democracias representativas há a exigência de um título para governar, pois existe o voto e, por conseguinte, alguém que se candidata ao poder: embora Aristóteles tenha apontado o sorteiocomo exercício o mais democrático possível – aquele em que o “deus acaso faz com que o desejo pelo poder não seja o fator de acesso a ele” –, não há em nossa história um regime no qual se abriu mão de algum título para governar; nestes termos, não seria a democracia uma heterotopiafrente a uma estrutura social que desde sempre é eminentemente oligárquica? Trocando em miúdos provavelmente menos palatáveis, segue a inequívoca regra: um governo que pressupõe radicalmente a igualdade como princípio de poder não é um fato da humanidade. Com a eleição, o que vemos é a elite exercendo, mas agora de fato e de direito, isto é, em nome do povo, “o poder que ela é obrigada a reconhecer a ele” e que ele não saberia exercer por si mesmo sem arruinar todo o princípio do governo – de acordo com essa elite, evidentemente. Assim, a democracia representativa não passa de uma espécie de parlamentarismo plutocrático que vai mais ou menos cedendo de acordo com as lutas sociais: “Ampliar a esfera pública não significa, como afirma o chamado discurso liberal, exigir a intervenção crescente do Estado na sociedade”, conclui o Rancière; “Significa lutar contra a divisão do público e do privado que garante a dupla dominaçãoda oligarquia no Estado e na sociedade”. Sendo o resultado de uma sólida aliança entre as oligarquias estatal e econômica, é como se Estado desse à democracia mais ou menos espaço conforme a força das pressões sociais. Neste sentido, o Estado se resume em ser uma “oligarquia que dá à democracia espaço suficiente para alimentar sua paixão”… Contudo – e esse dado é de extrema importância –, os “males de que sofrem nossas ‘democracias’ estão ligados em primeiro lugar ao apetite insaciável dos oligarcas” e não ao regime enquanto tal (2014, ps. 71; 93; 95).
Seria então o caso de pensar que as chamadas “crises” políticas, ou mesmo a impossibilidade concreta que certas tentativas de emancipação enfrentaram para se realizar fora do sistema capitalista, foram os responsáveis por gerar a certa ideologia que sustenta a vitória do capitalismo, já hoje longeva? É bem provável que não, mas, dado o fracasso dos exemplos alternativos, é como se o poder simbólico do capital condenasse a sociedade a confiar apenas na realidade da economia, “reino ilimitado do poder e da riqueza”.[2]Entretanto, e ao contrário do que nos querem fazer crer esses ideólogos mercantis da representatividade, a democracia não é “nem a forma de governo que permite a oligarquia reinar em nome do povo, nem a forma de sociedade regulada pelo poder da mercadoria”; muitopelo contrário, a democracia “é a ação que arranca continuamente dos governos oligárquicos o monopólio da vida pública e da riqueza a onipotência sobre a vida” (Rancière, 2014, p. 121), e parece ser exatamente aí, com efeito, que se verifica a maior parte do ódio que historicamente vem se lançando contra ela.
Em que medida este ódio não seria também a expressão de uma quebra dos laços sociais? Na década de 1960 o escritor, poeta e psicanalista Hélio Pellegrino (1924-1988) lançou uma interessante análise acerca da relação entre o que chamou de “pacto edípico” e seu suposto correlato – o “pacto social”. Em linhas gerais Pellegrino[3], que a essa altura já havia se tornado um intelectual de reconhecido antagonismo frente ao regime militar, retoma em sua tese a lendatebana na qual Sófocles teria se apoiado a fim de reiterar um detalhe insuspeitado: Édipo, curiosamente, não sucumbira ao complexo de Édipo, mas fora vítima de vicissitudes pré-edípicas.Em Tebas, condenado à morte antes mesmo de ter podido separar-se de seus pais (biológicos no caso, ou seja, Laio e Jocasta), é amarrado a uma árvore e deixado para morrer; neste momento ele é ainda um sem nomeporque Édipo traduz-se pela expressão “pés inchados”, que acabará batizando-o. Mas vejamos o que Pellegrino quis dizer com “pré-edípico”:
1)   A árvore corresponde essencialmente ao símbolo arquetípico da mãe, à qual, neste caso, o sujeito está atado de modo a naufragar, pois nela está desesperadamente preso. E é assim que a função materna exercida por Jocasta revela um traço incestuoso primitivo, anterior mesmo à condição sexual que ocorrerá na sequência da narrativa;
2)   Já a corda representa, aqui, obviamente, o cordão umbilical; e é preciso se atentar ao fato de que, na obra, é o pastor de Corinto quem a vem cortar, e não Laio. Esse corte é, com efeito, o passo necessário para se separar (de maneira “saudável”) da mãe – uma operação que se traduz, em termos psicanalíticos, no exercício de uma função terceira,paterna: trata-se portanto de partejar a subjetividade do filho ao abrir-lhe as portas para se diferenciar da mãe.
Em Corinto, por outro lado, Édipo é adotado pelo casal real[4]e recebe deles uma paternidade “propriamente dita” porque exercida como função: a puberdade do jovem tebano é vivida aí com liberdade, a tal ponto de poder se desligar desses pais para viajar pelo mundo. Assim, Édipo deixa Corinto porque podefazê-lo: não obstante, ao receber notícia da previsão trágica feita pelo oráculo, e por desconhecer sua origem “genética”, foge daquele destino justamente por amar os pais adotivos – ao mesmo tempo em que era amado por eles. Sua escolha indica que em Corinto não houve naufrágio, não há prisão, pois o amor se tornara a condição necessária e suficiente para a liberdade.
Restam, contudo, laços arcaicos não elaborados junto à mãe (isto é, a função materna jocastiana), situação que dá margem a um mecanismo de chamaríamos de cisão: ora, “ganhar” a mão de Jocasta por meio de um ato heroico faz dela nada mais que um troféu; além disso, Édipo a recebe sem conhecê-la! Como lidar, portanto, com uma realidade tão “quebrada”?
É aqui que entra (ou deveria entrar) a Lei do pai, leia-se, a introdução de uma instância terceira que opera o corte da célula narcísica. No entanto, uma lei, para ser respeitada, deve não apenas ser temida (algo que se estabelece por sua potência de interdição e de punição), mas também ser amada, pois, no que tange à subjetividade, é preciso que a lei seja desejada. “Só o amor e a liberdade, subordinando e transfigurando o temor, permitem uma verdadeira, positiva e produtiva relação com a lei”, sugeriu o psicanalista (Pellegrino, 1983/2018, p. 2). Em outras palavras, o desejo de lei é dialeticamente referido à lei do desejo: só se pode desejar uma vez engendrada essa lei, e é justamente a sua própria constituição que empurra o sujeito para o registro simbólico, ampliando assim o escopo de sua vida psíquica para além da “literalidade” das coisas, por assim dizer.[5]
O pacto edípico consiste, logo, em a criança aceitar seu lugar de terceiro excluído no tocante ao desejo originário, isto é, um desejo que opera a primeiríssima passagem da natureza à cultura e que abre caminho para as demais travessias subjetivantes. Em termos simbólicos, trata-se de uma proibição que leva a uma permissão: trocar a mãe (o incesto) por “todas as mulheres do mundo” – lugar-comum que não deixa de ser verdadeiro. No fundo, o que nos ensinaria a tragédia de Édipo é que é preciso aceitarperder para ganhar. E esta lei é estruturante do desejo porque é ao limitá-lo que se proporciona a sua consistência, ou ao menos o situa frente a um horizontede realização, dada a condição de impossibilidade a priori de “realização de desejo”. O que não é nenhuma humilhação, evidentemente, mas bem o contrário: trata-se de uma possibilidade real de se inserir no laçosocial uma vez que a realidade é inelutavelmente parcial, tanto quanto as satisfações que nela pode(re)mos encontrar.
O complexo de Édipo é, por conseguinte, um pacto, uma aliança na qual as duas partes devem ganhar em virtude da introdução do princípio de realidade. Os ganhos são: filiação e pertencimento, nome, lugar na estrutura de parentesco, acesso ao simbólico, enfim, os veículos que permitem uma vida em sociedade. De tal como que o trabalhose torna uma estrutura mediadora fundamental da vida coletiva, pois, em boa medida, é por meio dele que tomamos parte constituinte no mundo: trabalhar (não se trata necessariamente de emprego) significa inserir-se no tecido social por intermédio de uma práxis, é o mesmo que aceitar a ordem simbólica que nos constitui e na qual imperam direitos e deveres para todos e para cada um.
Como Freud já apontava desde o Mal-estar, o caminho da civilização, quer dizer, um regime de não barbárie, consiste necessariamente numa renúncia pulsional em favor de Eros,já que com ela também se renuncia uma parte da agressividade que motoriza o ódio que nos habita. Contudo, operar uma renúncia desta ordem exige uma articulação direta com as condições reais, como adverte Pellegrino. Restam algumas questões: como fazê-la nas condições sociais em que nos encontramos, concretamente falando, já hoje tão inseridos num sistema ultra-capitalista e que sustenta a injustiça social como um fato corriqueiro edado de antemão? Ora, se o complexo de Édipo consiste num perder para ganhar, como vimos, como seria possível atravessá-lo sem a menor perspectiva de ganhar? Como suportar o mal-estar, inerente à subjetivação, em um mundo que alija o sujeito de seus direitos mais básicos? E como articular, por fim, o pacto edípico com o pacto social nesta realidade pós-golpe?
Em maio deste ano o pré-candidato à presidência da República pelo PSOL, Guilherme Boulos, concedeu uma entrevista ao Roda Viva na qual se verifica sem dificuldade o quanto fora atacado pela bancada – o que aliás se tornaria corriqueiro, nos próximos programas, com os candidatos mais afinados ao discurso progressista. Tomando isso em conta, quero destacar um trecho em especial no qual o inconsciente coxinha, ao qual me referi no título deste ensaio, se pronuncia à alta voz. Neste caso, quem está se dirigindo a Boulos é Rubens Machado, cientista político reconhecidamente ligado aos governos de Fernando Henrique Cardoso.
“Candidato”, assim inicia o entrevistador, “o senhor tem uma grande simpatia pela Venezuela, expressa em vários vídeos que eu tive a oportunidade de assistir ao longo desse período, do convite até hoje. Nós estamos falando que o Brasil está retroagindo, então vamos falar de um país que avança, que é a Venezuela”. Rubens apresenta na sequência, não sem um tom dissimuladamente irônico, alguns dados que julga relevantes à discussão: “2016 com inflação superior a 800%”, “PIB caiu 19%”, e “75% da população perdeu 9 kg ao longo do tempo”; “ela é um pouco o modelo que o PSOL defende”, conclui, e junto a isso “rechaçar a conciliação de classes – a frase é essa!” e que o entrevistador, a propósito, sublinha, enquanto Boulos aguarda, roçando a mão em seu próprio cavanhaque. O cientista político mostra então a “divisão do perfil ideológico do brasileiro” segundo o índice Datafolha: “10 direita, 20 centro direita, 20 centro, 20 centro esquerda, 10 esquerda”. “Como é possível” – ele está prestes a concluir –, “num perfil desses, você rechaçar a conciliação de classes?”, pergunta, enfim, para chegar ao ápice de seu cinismo, no mau sentido do termo: “é através de invasões?”
Um aspecto a se destacar logo de antemão, e que se apresenta como um detalhe, é que a aritmética de Rubens sobre o perfil ideológico do brasileiro soma 80%, ou seja, não alcança os 100 necessários a uma situação de percentagem… Embora na aparência insignificante, engraçado até, arrisco dizer que este lapso já antecipa, em ótima medida, o inconsciente a se revelar, sendo uma espécie de indício prévio de que vem na sequência e que naturalmente escapa ao entrevistador. Além disso, a resposta que Boulos dá à pergunta nos interessará mais pelo que ele não dizdiretamente; basta, pelo momento, destacar apenas a primeira parte, excerto que funciona, a propósito, como uma espécie de interpretação porque descortina com agudeza o inconsciente coxinha para o qual estou querendo chamar a atenção. Vejamos um pouco mais de perto.
Boulos começa reiterando o orgulho de fazer parte do “extraordinário partido que é PSOL”, sobretudo em função do barulho que a sua “pequena” bancada faz (“seis que fazem mais barulho do que cinquenta”), além de sua “coerência, justiça e combatividade”. Sem perder tempo, destaca: “primeiro você perguntou a respeito da Venezuela: eu não acho adequado, de bom tom fazer chacota com países que estão passando por momentos difíceis”. Rubens o interrompe: “Não fiz chacota, citei dados”, ao que o entrevistado retruca: “Você falou que ela [a Venezuela] está avançando, sendo irônico, não acho que isso está adequado” (e daí Boulos segue relembrando aos espectadores a recente crise do petróleo, ponto nevrálgico da problemática venezuelana).
Pois bem, o lapso é apontado por Boulos no aqui-agora e em rede nacional, impedindo que seja recalcado; a meu ver, é deste modo, precisamente, que o inconsciente coxinha se expressa: a mensagem vem acompanhada de um afeto – o ódio, é claro –, ele mesmo travestido por uma canalhice argumentativa que se sente, no geral, impune. Há uma negação clássica aí – “não fiz chacota” –, e é como se o entrevistador negligenciasse, por um átimo de segundo, sua própria estupidez ao criticar de modo irônico, gozoso até, um regime de governo que seria “de esquerda”. Como não poderia ser diferente, a fala odiosa é acompanhada por sua contrabanda inconsciente, que, de sua parte, essa sim, nunca falha… e eis que então a sua sordidez é desmascarada, no ato, pelo “psicanalista Guilherme Boulos”.[6]
Outro exemplo igualmente forte pôde ser observado por muitos brasileiros devido ao seu alcance: “o Brasil voltou, 20 anos em 2”, dizia o slogan de governo mais atrapalhado[7]na história recente do país. “Implorando para ser interpretado como ato falho”,[8]é como se a assessoria da presidência golpista tivesse dado uma ótima chance para que todos pudessem entender, de uma vez por todas, a concepção freudiana de inconsciente: neste caso, a leitura é ainda mais simples que a anterior: basta retirar a vírgula e o tiro no pé está dado – vale lembrar que o inconsciente sempre revela senão a verdade.[9]
Retornando ao problema dos pactos, temos que a renúncia do princípio de prazer (que funciona de modo onipotente), tem como contraoferta uma abertura de possibilidades de viver, isto é, a preservação da integridade física e psíquica para qualquer sujeito. Quando, no entanto, o pacto é de mão única – como se dá na realidade aviltante em que muitos brasileiros passaram a viver sobretudo neste período pós-golpe –,[10]há ruptura, rompimento, revolta. “Do mesmo modo que a satisfação de pulsões é felicidade”, escreveu Freud há mais de oitenta anos, “torna-se causa de muito sofrer se o mundo exterior nos deixa à míngua, recusando-se a nos saciar as carências” (1930/2010, p. 34). Contudo, se por um lado o mal-estar sublinhado por Freud é inerente à nossa constituição psíquica, o mesmo não se pode dizer da miséria, que não é outra coisa senão produto desta mesma civilização, que, vale sublinhar, só existe em função do pacto.
O psicanalista Paulo Endo relembra que “parte importante da tarefa das instituições civilizacionais é cuidar para que se preserve o que Fédida denominou de o recalcamento do recalcamento” (2016, p. 185): trata-se, grosso modo, de um movimento que visa recalcar mais uma vez o recalcado (isto é, o já instituído), visando com isso manter uma certa estrutura de poder. Deste modo, a instituição está para a civilização, para a cultura, assim como o sintoma estaria para a neurose; a instituição seria, portanto, um sintoma, uma defesa que visa manter o mais longe possível a verdade, a saber: que as possibilidades de emancipação e de liberdade estão presentes na vida coletiva, e não fora dela.
Ora, o inconsciente coxinha parece funcionar em bases idênticas. Disse Freud que a neurose seria, em grande medida, a frustração, ou melhor, a privação que a sociedade impõe paradoxalmente a si mesma para que possa viver nela; assim, o outro é tanto objeto de amor quanto de ódio, muitas vezes mediado pelo narcisismo das pequenas diferenças. No caso aqui analisado, é como se o coxinha imputasse a um só partido, ou a um certo modo de pensar, essa privação que o tolheria de viver plenamente seus recursos. Mas sabemos que não é disso apenas que se trata. É preciso também machucar esse outro, humilhá-lo, retirar dele todo poder: como se ouviu em muitas das mídias sociais, chegamos ao ponto em que se tornara insuportável à mentalidade coxinha “ver pobre andando de avião”.
Sem um pacto social, algo como o que se rasgou com o Golpe parlamentar, corremos o risco perene de retorno ao recalcado primordial, à massa informe de um tempo sem laço e sem lei. Talvez isto nos ajude a entender um pouco este ressentimento cada vez mais frequente na boca dos muitos brasileiros que apelam para algum tipo de tirania (!) que nos viesse salvar. O fermento do ódio está dado. Tudo isto seria cômico se não fosse trágico, evidentemente, e se comecei este texto com um chiste, não é no mesmo tom que eu poderia encerrá-lo, pois restaria saber se ainda resta alguma esperança de analisabilidade em meio à barbárie galopante.

Referências
ENDO, P. Um futuro sem inscrição no tempo presente e sem tributo ao passado: o insidioso retorno dos tiranos e de sua horda. In: Rinaldo Voltolini (org.) Crianças públicas, adultos privados. São Paulo (SP): Escuta/Fapesp, 2016.
FREUD, S. Mal estar na civilização, novas conferências introdutórias e outros escritos. São Paulo: Companhia das Letras, 2010.
PELLEGRINO, H. Pacto edípico e pacto social.Folha de São Paulo, 1983. In: http://www.psicologiahailtonyagiu.psc.br/materias/ponto-vista/287-pacto-edipico-e-pacto-social-helio-pellegrino. Acessado em 17/05/2018
RANCIÈRE, J. O ódio à democracia. São Paulo: Boitempo, 2016.
[1]http://midianinja.org/luizeduardosoares/villasboas-faz-a-maior-chantagem-a-justica-desde-a-ditadura/
[2]João Amoedo, pré-candidato à presidência da república nas eleições de 2018 pelo partido Novo, é um representante claro desta posição.
[3]Este trabalho veio inclusive a ser publicado, de modo bastante resumido, na Folha de São Paulo de 11 de setembro de 1983.
[4]Mérope e Políbio
[5]O que se aplica à questão da lei do pai: se o pai não é morto no simbólico, acaba sendo assassinado no real, como é o caso de Laio.
[6]Quando se apresenta publicamente, Boulos costuma mencionar os estudos de psicanálise que realizou.
[7]A ambigüidade desta minha frase é evidentemente intencional.
[8]https://www1.folha.uol.com.br/poder/2018/05/slogan-o-brasil-voltou-20-anos-em-2-implora-para-ser-interpretado-como-ato-falho.shtml
[9]A meu ver, e acredito não estar sozinho, o aumento na quantidade de pessoas vivendo em situação de rua ou prestes a nela entrar se tornou pornograficamente observável desde o impeachment.
[10]Mas não somente aí, evidentemente: nosso passado é uma longa história de quebra de pacto.

quinta-feira, 16 de novembro de 2017

Psicanalistas pela Democracia : De que falamos quando falamos de Populismo?, por Patrícia Ferreira


"Não tenho intenção de realizar uma análise sobre organizações coletivas na psicanálise, mas destaco que esses pontos são essenciais para apresentar o que disso se mantém na proposta de Laclau sobre populismo e o que vai além da composição da psicanálise. Talvez seja possível pensar e admitir que o trabalho de Laclau vai um pouco mais adiante do legado da psicanálise ‘clássica’, uma vez que ele se arrisca a tentar sair desses lugares pré-estabelecidos, embora os tenha como ponto de partida. Além disso, Laclau realiza certo movimento de ‘recuperar’ o potencial político da psicanálise, da obra de Freud, de Lacan, que muitas vezes fica esquecido pelos próprios psicanalistas. É importante isso de demonstrar que os processos identificatórios são e estão na constituição do campo político, assim como nos processos de luta social."



Foto de Ernesto Laclau

do Psicanalistas pela Democracia

Trabalho apresentado no evento De que falamos quando falamos de Populismo?, realizado no dia 23 de agosto de 2017 na PUC-RIO, pelo Departamento de Filosofia. Apresento aqui com algumas alterações.
O populismo pode ser considerado uma espécie de buzzword nos debates que circundam a academia e a política, seja no Brasil, seja no ‘velho continente’, de onde envio esse texto depois de acompanhar dois eventos simultâneos na última semana nos quais populismo apareceu todo o tempo: Os fins da democracia, que aconteceu em São Paulo entre os dias 07 e 09 de novembro e o The New Nationalism: The Rise of the Populist Right in the West, no último dia 08 de novembro na Birkbeck, University of London.
Tenho pesquisado o tema há algum tempo e a leitura que realizo é feita a partir do campo de pesquisa ao qual pertenço, que é o da psicanálise. Desse trajeto, afirmo que há um intermeio entre a teoria sobre o populismo de Ernesto Laclaui e a psicanálise. Essa relação leva ao interessante exercício de discutir a psicanálise mais explicitamente ou ousadamente com o campo político. Claro que isso não é algo inédito ou viabilizado por Laclau, porque desde Freud há essa conexão entre um campo e outro – seus ‘textos sociais’ como Totem e Tabu, o Futuro de uma ilusão, Psicologia das massas e análise do eu, Mal-estar na civilização, Por que a Guerra? ou Moisés e o Monoteísmo, são as provas mais concretas disso.
No entanto, tanto a partir de Freud como de Lacan parecem ter havido leituras de suas elaborações teóricas que deram margem para instaurar e sustentar uma desconfiança ‘de saída’ de movimentos e projetos coletivos. A teoria freudiana parece ter servido (e ainda servir) como base para que se disseminasse a ideia de que a grande chance de tais projetos seria a de que se caísse no totalitarismo, na qual a figura do líder ganha toda evidência. Outro aspecto ‘difundido’ é a falta de autonomia e discernimento das massas, que dá margem para a ideia de ‘massa de manobra’. No entanto, o que fica fora dessa cena é justamente o trabalho que Freud realiza de tentar escapar das teorias que antecedem a dele e que estão muito mais interessadas em descrever esse ‘comportamento’ das massas. O que Freud alcança é exatamente a compreensão de como e quais são os mecanismos componentes da massa. Ou, em outras palavras: como a constituição subjetiva se engendra às formações coletivas. Aí, entra em cena o social e o sujeito como indissociáveis, a referência ao Ideal de eu, o investimento libidinal, as identificações e idealizações, ou seja: o que vincula o sujeito ao coletivo, que reage com aquilo que é próprio à sua constituição. E é isso que é importante aqui e também relevante para o que o Laclau utiliza desse ponto.
Destacaria de Lacan seu combate veemente à ideia desse ‘Um totalizante’ e as considerações que ele realiza sobre as formas como a discursividade se arranja e, então, se delineia em estruturação aos modos de aparelhamento de gozo. É o que ele faz explicitamente no Seminário 17: O avesso da psicanálise, no estudo que fica conhecido como ‘teoria dos discursos’, do qual, gostaria de destacar a articulação que Lacan realiza entre os discursos e projetos coletivos, desde a União Soviética à maio de 1968. Com suas clássicas ironias e elaborações, Lacan acaba destacando dos ‘processos revolucionários’ uma relação estreita com um retorno ao mesmo lugar, com um Mestre e, ao explicar conceitualmente estas aproximações, enfatiza a relação disso com o gozo, o que, em certo sentido, legitima a ideia da impossibilidade de se ir mais adiante em coletivo. Ir além só estaria no horizonte se um coletivo se orientasse a partir do vazio.
O caminho de ‘demonstração’ que Lacan realiza não é muito diferente do trabalho de Freud no Psicologia das massas, no sentido de conceitualizar e tornarem explícitos os mecanismos e a constituição que sustentam, inclusive, relações discursivas. E dessa crítica ao ‘Um totalizante’ e à essa constituição, um dos contrapontos que Lacan propõe é o da criação de um dispositivo de experimentação em sua Escola que ele nomina de cartel. Apesar de que este dispositivo não irá servir como contraponto direto às formações de massa, uma vez que no ‘coletivo lacaniano’ a escala lógica é originalmente composta por 4 ou cinco membros e ‘mais-um’.
Não tenho intenção de realizar uma análise sobre organizações coletivas na psicanálise, mas destaco que esses pontos são essenciais para apresentar o que disso se mantém na proposta de Laclau sobre populismo e o que vai além da composição da psicanálise. Talvez seja possível pensar e admitir que o trabalho de Laclau vai um pouco mais adiante do legado da psicanálise ‘clássica’, uma vez que ele se arrisca a tentar sair desses lugares pré-estabelecidos, embora os tenha como ponto de partida. Além disso, Laclau realiza certo movimento de ‘recuperar’ o potencial político da psicanálise, da obra de Freud, de Lacan, que muitas vezes fica esquecido pelos próprios psicanalistas. É importante isso de demonstrar que os processos identificatórios são e estão na constituição do campo político, assim como nos processos de luta social.
A composição dos mecanismos que dão sustentação para a massa em Freud é o primeiro ponto que marca certo avanço na teoria de Laclau. Isso porque daqui se deriva e se diferencia massa e o que o Laclau vai entender como povo. A forma como Freud conceitua a massa, assim como Laclau entende povo, não se referem a um ‘julgamento moral’ ou à certa patologia social, mas muito mais a um derivado de mal-estar na sociedade. É por isso que é possível pensar em populismo tanto à direita quanto à esquerda, porque para o entendimento de Laclau, essa emergência da categoria de povo vai advir de demandas populares insatisfeitas.
Na última eleição nos Estados Unidos, por exemplo, alguns consideraram que tanto Donald Trump como Bernie Sanders eram populistas, cada um para um lado. O Trump estabeleceu uma cadeia de equivalência da insatisfação do povo branco em associação àqueles que estavam descontentes com a elite governante, com seus privilégios. E ele pode ser compreendido como representante do populismo de direita, ao reforçar a cisão entre ‘nós’ e ‘eles’, fazendo uso de certo populismo étnico, utilizando a pauta da imigração. Ao mesmo tempo, a campanha de Trump realizou críticas à políticas comerciais das elites que impactam diretamente os empregos nos Estados Unidos. Nesse sentido, Trump teve a função de aglutinador de demandas, servindo como ancoradouro de demandas e, com isso, fazendo existir uma ‘identidade popular’.
O movimento desencadeado por Bernie Sanders, por outro lado, apresentou demandas distintas das de Trump e não ter alcançado a vitória não diz que não tenha havido certa composição populista em sua campanha/candidatura. Porém, questionamos se a popularização da ‘fórmula’ do populismo, não abandona exatamente o que está no segredo de sua fórmula, i.e., que populismo não é feito, mas efeito.
A articulação populista que pode resultar em uma identidade popular é oriunda de insatisfação, que irá se articular em identificações e identidades. E, como em qualquer processo que inclui a lógica identificatória, é preciso a existência de denominador comum, pois sem isso não se constituem identidades populares e sem elas, as relações de equivalência se estabelecem somente em torno da solidariedade. Portanto, um denominador comum, um nome, é o que vai sustentar a lógica que colocará diferenças em cadeia equivalencial.
A lógica identificatória, dada no movimento de equivalência de demandas, serve a qualquer orientação política: seja direita, esquerda ou centro. O que importa não é a direção da ‘coisa’, mas a sua estruturação. Por exemplo, se um candidato ou se uma ideia conseguem articular as demandas populares, colocá-las em equivalência apesar de suas diferenças, a gente pode considerar que estamos diante de um significante populista. E, sim, esse significante, mesmo que seja encarnado por um líder, é elemento fundamental para o populismo.
Isso não quer dizer que se necessite de um ‘líder carismático’, pois são as demandas populares que são necessárias para que se possibilite que um líder ou ideia exerça a função de representação significanteii. É por isso que nomes como o ‘peronismo’ na Argentina, fazem sentido ainda que Perón esteja morto. E as demandas, para que a gente veja emergir a identidade coletiva, o ‘povo’, são entendidas por Laclau como efeitos contingentes com caráter anti-institucional, como se surgissem de um ‘furo’ no campo político-social ou, em analogia à psicanálise: como um sintoma. É por isso também que tem que a ver com certo mal-estar. Um exemplo disso seria o próprio contexto no qual emerge o populismo clássico, de acordo com Laclau, que é quando há uma resposta aos processos de industrialização, de urbanização ou de diferenças sociais na transição da sociedade tradicional à sociedade moderna – que aconteceu na América Latina especialmente entre as décadas de 1930 e 1940.
Trazendo para a atualidade, podemos pensar que o ciclo de lutas iniciado nos países árabes em 2011, que passa pelo Brasil em 2013 e se estende a Nuit Debout na França de 2016, apresenta algo que se assemelha a uma possibilidade de emergência de uma identidade popular, de fazer povo. Como percebeu Paolo Gerbaudo (2017), os ‘nomes’ de alguns desses movimentos traziam consigo a ideia de um povo comum – como no caso dos Indignados na Espanha, We are the 99% no Occupy Wall Street e Aganaktismenoi na Grécia. No caso do Brasil, no entanto, o que ocorre como desdobramento é o inverso disso, aparecendo o quadro de fragmentação político-social.
Vale esclarecer que populismo, assim como toma Laclau, não tem como ideia subjacente a produção de líder, governo, ou outra coisa resulte em um povo emancipado ou coisa que o valha. Assim como não intenta a existência de uma sociedade conciliada na qual as diferenças tenham sido incorporadas na lógica da equivalência. Não é disso que se trata, pois populismo não é projeto ideológico ou político. Ele é indiferente a isso, grupos ou classes específicos, embora o populismo esteja diretamente relacionado a representação. Laclau afirma que os laços de equivalência que permitem as identificações se dão por um processo de condensação ou metáfora em uma identidade popular.
A estratégia é semelhante a condensação presente nos sonhos, na qual uma imagem ou um significante não anunciam uma particularidade, mas uma pluralidade que se condensa e se engendra em uma cadeia significante. Isso se expressa por uma imagem, ou seja: por algo que representa alguma coisa. E, normalmente, como se sabe pela psicanálise, o conteúdo presente diz de algo que está fora da cena, que na clínica a gente pode tomar como uma manifestação inconsciente. Além disso, Freud enunciou no Interpretação dos sonhos que os sonhos manifestam os desejos. Em uma aproximação, poderíamos afirmar que a estratégia populista tende a fazer um movimento similar, pois a partir da condensação, ela tenta dar conta de demandas insatisfeitas. Claro que são demandas de ordens diversas na estratégia populista ou nos sonhos, mas a imagem é semelhante.
Além disso, e por fim, é importante ressaltar o caráter transitório que presente no populismo, na medida em que o ele é potencialmente possível justamente a partir da incapacidade ou impossibilidade de se fazer um todo, de que demandas sejam e estejam todas satisfeitas. Por isso, ele é transitório e dinâmico. E também, por essa razão, não existe O Populismo.
Nesse sentido, sugerir o ‘retorno’ do populismo ou tomá-lo como modelo a ser aplicado, deixa de fora a implicação histórica e social contingente a qualquer processo genuinamente populista, podendo cair na velha imagem do ‘líder carismático’ que leva a massa para onde quiser e como quiser. Há aqui, portanto, a confusão entre massa e povo, como se o populismo fosse alguma coisa necessariamente que viesse de cima para baixo, que pudesse ser imposto. Populismo emerge da discursividade, é da linguagem que se faz cadeia

Patrícia do Prado Ferreira é doutora em Psicologia Social pela PUC-SP e pós-doutoranda no Laboratório de Psicanálise e Sociedade do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo – USP, supervisionada por Miriam Debieux – bolsa FAPESP. Atualmente realiza estágio de pós-doutorado no King’s College London, com Paolo Gerbaudo – bolsa FAPESP. É pesquisadora do Laboratório de Psicanálise e Sociedade da USP, do Núcleo de Psicanálise e Política da PUC-SP e do Núcleo de Psicanálise e Sociedade da PUC-SP.

i Refiro-me aqui diretamente ao livro A razão populista (São Paulo, 2012).
ii Para leitura mais aprofundada de como esse movimento pode se realizer, sugiro o conceito de anarco-populismo desenvolvido por Paolo Gerbaudo em The mask and the flag (Londres, 2017).