Mostrando postagens com marcador Teologia da Libertação. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Teologia da Libertação. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 20 de fevereiro de 2018

Dom Pedro Casaldáliga e sua extrema pobreza pessoal,coragem profética aliada à uma poesia comprometida




Resultado de imagem para dom pedro casaldáliga frases

Publico este texto de alguém muito próximo de Dom Pedro Casaldálig que no dia 16 de fevereiro celebrou 90 anos. Nos traz memórias vividas junto com ele e que nos revelam o perfil de um bispo que tomou o Evangelho  de Jesus ao pé da letra e o viveu no meio dos maiores perigos e ameaças de morte, sempre ao lado dos últimos, vítimas do latifúndio e de indígenas expulsos ou ameaçados de morte. Agora celebra 90 anos com Parkinson mas com plena lucidez de espírito. Associo-me a esta homenagem a Dom Pedro, feita por este amigo anônimo que não quer se dar a conchecer, para que o centro seja ocupado pelo bispos e não por ele. -  Leonardo Boff
Muito obrigado, Pedro!
Hoje, você completa 90 anos. O corpo está fragilizado e muito limitado pelos ataques do mal que você, franciscanamente, chama de “irmão Parkinson”. A mente, como sempre lúcida, continua o seu profetismo. Agradeço a Deus pelo fato que, desde a metade dos anos 70, o tenho como mestre. Desde que, junto com os irmãos Pedro e Filipe, cheguei como monge, em Goiás (1977), nos tornamos companheiros de caminhada na Pastoral da Terra, no amor aos índios e na luta para tornar a Igreja mais evangélica e libertadora. Os nossos contatos se intensificaram pelo fato de que, naqueles anos, várias vezes, você e a equipe da prelazia me convidaram para participar de assembleias, encontros bíblicos e penso que preguei dois ou três retiros anuais para os agentes de pastoral . Eu que ia para ajudar acabava sendo muito mais formado por vocês. Além disso, estávamos juntos na coordenação nacional da CPT e na assessoria do CIMI. Quantas vezes, viajamos juntos de ônibus de Goiânia a Salvador e ao interior de Minas. Não esqueço o seu malabarismo para ir como pobre de Goiânia a São Félix. Às vezes, tomava o ônibus noturno para São Miguel do Araguaia e lá o aviãozinho de linha que o levava a São Félix.
Uma vez, no começo dos anos 90, chovia muito. Você vinha de uma assembleia dos bispos da região. Tinha sido uma assembleia tão tensa e tinha lhe deixado tão triste e abatido que lhe atacou uma febre e mal estar. No meio da noite, no ônibus, você se sentiu mal e pediu ao motorista para dar uma parada e desceu. O motorista achou que você ficaria lá e foi se embora com o ônibus e sua mala. Você ficou sozinho e, sem mala, nem dinheiro, às duas da madrugada, no meio da chuva e do nada de um ponto qualquer do Cerrado. Eram duas da madrugada e você andou na chuva e no frio (com febre) até encontrar um casebre onde um casal de lavradores o acolheu, lhe deu roupa enxuta e ali você passou o resto da noite. De manhã cedo, acorda com eles dois escutando o rádio e lhe ouvindo falar a palavra do evangelho. E o homem lhe explica: “Diariamente, pela manhã, só vou para o trabalho depois de ouvir a palavra do nosso bispo”. E você hesita em lhes dizer que aquele bispo era você. Lá em São Félix, eu e todos lhe esperando sem saber o que tinha acontecido e você só chegou no avião seguinte (24 horas depois).
Já nos anos 90, estávamos juntos em Luciara, nas margens do Araguaia. Você tinha insistido em que eu fosse falar sobre a água e a defesa do rio. Estávamos hospedados no mesmo quarto da casa do diácono. Á tarde, chegam duas senhoras e contam que os maridos tinham recebido dinheiro de um latifundiário e vinham armados para, naquela noite, matar você. Você se negou a interromper o encontro. Com muita insistência, aceitou regressar a São Félix no dia seguinte de madrugada, de barco pelo rio e não pela estrada. À noite, naquele quarto, nós dois, mediados por uma janela de madeira que bastava um chute e a janela caía. Lá fora, homens da comunidade se revezavam. Mas, enquanto você dormiu toda a noite, eu passei a noite inteira ouvindo ruídos do outro lado da janela. Hoje, tenho vergonha do meu medo…. E de como você dormia tranquilo… .
Mas, esse meu testemunho é para falar de você e não de mim. Poucos bispos que conheci atravessaram o túnel dos tempos de João Paulo II e Joseph Ratzinger, o Papa Bento XVI, fieis a aquilo que acreditavam e com a coragem de ser testemunhas do reino, mesmo quando a hierarquia não era.
Nos meados dos anos 80, quanto bem você fez, em sua missão pela Nicarágua sandinista, por El Salvador, pela América Central e ainda Cuba… Quanta dor em ver que o próprio papa não o apoiava. Alguns bispos locais pressionavam o Vaticano. E o Cardeal Sodano, secretário de Estado, o ameaçava e exigia, em nome do papa que você abandonasse aquela missão.
Na ocasião, você confessava aos mais próximos: “Obedeço quando é para cumprir o evangelho, mas não quando é para me descumpri-lo e falhar com os irmãos que sofrem. Nesse caso, serei obrigado a renunciar ao ministério de bispo, mas continuarei junto deles”.
Como resumir tudo o que os Xavantes, Tapirapés e Karajás da ilha lhe devem na defesa de suas terras e suas culturas? Obrigado por ter aprendido de você esse amor reverencial que até hoje me comove, quando encontro um índio e, nele ou nela, posso adorar a figura de Jesus, meu mestre e Senhor. Você sempre uniu a sua profunda fé orante e a certeza de que não há caminho de justiça e paz dentro dos padrões do Capitalismo e nessa farsa de Democracia que ainda temos. Sempre deu apoio total e profundo à nossa investigação teológica (da ASETT) sobre o Pluralismo Religioso e os muitos nomes de Deus.
Quantas coisas eu e tantos/as cristãos/ãs lhe devemos nesse caminho de uma espiritualidade social e política libertadora? Só podemos agradecer lhe confirmando hoje que vamos sim nos manter firmes no caminho, vamos sim, mesmo conscientes de nossa pobreza, continuar a sua profecia nesse mundo e, mesmo sem ter sua veia poética e sua profunda inteligência espiritual, vamos lutar para permaneça sempre viva a sua chama mística e revolucionária que faz com que qualquer pessoa que o veja, sinta em você, como que exalando de sua pele, a presença viva do Espírito de Ternura que o inspira e o move. Muito obrigado, PEDRO CASALDÁLIGA, profeta da ternura revolucionária…
Abençoe o grupo da Partilha, grupo leigo, fundado por Dom Helder que, amanhã, dia 16 de fevereiro, celebrará comigo essa memória, em agradecimento a Deus pela sua vida. Abençoe também esse seu irmão MB

terça-feira, 10 de janeiro de 2017

“O Papa Francisco é um dos nossos”: entrevista de Leonardo Boff para periódico alemão


Resultado de imagem para leonardo boff

Passando em final de novembro por Berlim em razão de um congresso cientiifico, dei uma entrevista a Joachim Frank publicada por Kölner Stadt Anzeiger, 25-12-2016. A tradução é de Walter O. Schlupp. Esta entrevista foi replicada em muitos meios de vários países encontrando ampla aceitação pela liberdade que tomei na fala e pela forma direta como respondi as perguntas. Passados já muitos anos e ouvindo as críticas que o Papa Francisco fez a cardeais, bispos, padres e teólogos com expressões fortes e irônicas (“alguns têm cara de vinagre; se mostram tristes como se fossem ao próprio enterro; parece que vivem sempre na sexta-feira santa” entre outras) e relendo meu livro Igreja: carisma e poder no qual fazia também críticas ao lado excessivamente forte do momento do poder em detrimento do carisma na Igreja (o que me levou ao “silêncio obseq1uioso” que me foi imposto mas que não significou nenhuma excomunhão) esse meu livro,comparado com as palavras do Papa, me parece até um texto de piedade. Como mudam os tempos e desta vez para muito melhor. Aqui vai a entrevista como foi dada originalmente em alemão que ainda lembro dos meus tempos de estudos em Munique no final dos anos 60 do século passado. Leonardo Boff
Eis a entrevista.
Sr. Boff, o senhor gosta de canções de Natal?
O que o senhor acha? (cantarolando): “Noi – te fe – liz, noi – te fe – liz …” Em toda família que celebra o Natal a gente canta isso. No Brasil isso também é tradição, como entre vocês na Alemanha.
O senhor não acha que essa espécie de Natal cafona e comercializado?
Isso varia de um país para o outro. É claro que o Natal virou um grande negócio. Mesmo assim continua a alegria do convívio com a família, e para muitas pessoas também é um momento de fé. E do jeito que eu vivenciei o Natal na Alemanha, é uma festa do coração, um clima muito especial, maravilhoso.
Como é que uma fé que no Natal fala de “Deus da paz” combina com a falta de paz que estamos experimentando por toda a parte?
A maior parte da fé é promessa. Ernst Bloch diz: “A verdadeira Gênese está não no começo, mas no final, e ela só começa quando a sociedade e a existência se tornam radicais. na justiça e na verdade.” A alegria do Natal está nesta promessa: a Terra e as pessoas não estão condenadas a continuar sempre desse jeito como experimentamos, com todas as guerras, violência e fundamentalismo. Na fé não se promete que agora tudo estará bem. E, apesar de todos os enganos, descaminhos e reveses, vamos ao encontro de um final bom. O verdadeiro significado do Natal não está no fato de “Deus se ter tornado gente”, mas que ele veio para nos dizer: “Vocês pertencem a mim, e quando vocês morrerem, estarão sendo chamados  para casa.”
O Natal significa que Deus vem para nos buscar?
Sim. Encarnação significa que algo de nós já é divino, eternizado. O divino está em nós mesmos. Em Jesus isto se mostrou da forma mais nítida. Mas está presente em todas as pessoas. Na perspectiva evolutiva, Deus não vem de fora para o mundo, e sim surge de dentro do mundo. Jesus é o aparecimento do divino na evolução – embora não o único. O divino também aparece em Buda, em Mahatma Gandhi e em outras grandes personagens de fé.
Isto não parece muito católico.
Não diga isso. Toda a teologia franciscana da Idade Média entendeu Cristo como parte da criação – não só como redentor de culpa e pecado, que vem de cima e de fora para o mundo. Encarnação, sim, também é redenção. Mas sobretudo e em primeiro lugar é uma exaltação, uma divinização da criação. E mais uma coisa é importante no Natal. Deus aparece em forma de criança. Não como velho grisalho e barbudo …
Como o senhor …
Bem, se for o caso, pareço mais com Karl Marx. Para mim o importante é o seguinte: quando, no entardecer de nossa vida, tivermos que nos responsabilizar perante o juiz divino, estaremos diante de uma criança. Mas uma criança não condena ninguém. Criança quer brincar e estar junto com outras. É preciso enfatizar esse aspecto da fé que é profundamente libertador.
O senhor é um dos mais eminentes representantes da teologia da libertação e, a bem dizer, acabou sendo rehabilitado pelo papa Francisco. Seria essa também uma reabilitação pessoal sua, depois de décadas de disputas com o Papa João Paulo II e seu principal guardião da fé, Joseph Ratzinger, depois Papa Bento XVI?
Francisco é um dos nossos. Ele transformou a teologia da libertação num bem comum da igreja. E ele a ampliou. Quem hoje fala dos pobres também precisa falar da Terra, porque é o grande pobre e também esta está sendo depredada e violada. “Ouvir o clamor dos pobres” significa ouvir o clamor dos animais, das matas, de toda a criação torturada. A Terra inteira está gritando. Portanto, diz o papa, citando o título de um livro meu, hoje precisamos ouvir o grito dos pobres e ao mesmo tempo o da Terra. Ambos precisam ser libertos. Faz bastente tempo em que me ocupei intensivamente com essa ampliação da teologia da libertação. Esta também é a grande novidade em “Laudato si” …
… que é a “eco-encíclica’“ do Papa, de 2015. Quanto de Leonardo Boff se encontra em Jorge Mario Bergoglio?
A encíclica é do Papa. Mas ele consultou muitos especialistas.
Ele leu os seus livros?
Mais do que isso. Ele me solicitou material para a “Laudato si”. Eu o aconselhei e enviei algumas coisas que tinha escrito. Isso ele também utilizou. Certas pessoas me disseram que durante a leitura teriam pensado: “Ora, isso é Boff!” Aliás, o Papa Francisco me disse: “Não mande a papelada diretamente para mim.”
E porque não?
Ele disse: “Senão os sottosegretari [funcionários da administração do Vaticano; a red.] interceptam o material e não o receberei. Manda de preferência para o embaixador argentino, com quem tenho bons contatos. Então com certeza vou receber.” É preciso saber que o atual embaixador no Vaticano é um velho conhecido do Papa, do seu tempo em Buenos Aires. Tomaram mate juntos muitas vezes. Um dia antes da publicação da Encíclica o Papa ainda mandou ele ligar para mim para expressar seu agradecimento pela minha colaboração.
Mas um encontro pessoal com o Papa ainda está em aberto?
Ele buscou a conciliação com os principais representantes da teologia da libertação, com Gustavo GutiérrezJon Sobrino, Arturo Paoli e também comigo. Com referência ao Papa Bento respectivamente Joseph Ratzinger eu disse “Mas o outro ainda está vivo!” Ele não aceitou. “Não”, disse ele, “il Papa sono io” – “o Papa sou eu.” Portanto não deveríamos deixar de ir. Por aí se vê a coragem e a postura resoluta dele.
Por que sua visita ainda não deu certo?
Eu tinha um convite e até já tinha aterrissado em Roma. Só que justamente nesse dia, imediatamente antes do início do Sínodo sobre a Família em 2015, 13 cardeais, entre eles o cardeal alemão Gerhard Müller, Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, estavam ensaiando a rebelião contra o Papa com uma carta a ele dirigida, a qual, porém – olha só, quem diria! – também acabou publicada no jornal de Sandro Magister, famoso opositor do Papa Francisco. O Papa ficou furioso e me disse: “Boff, não tenho tempo. Antes do sínodo preciso acalmar as coisas. Vamos nos ver numa outra ocasião.”
Isso de acalmar as coisas também não deu muito certo, ou?
O Papa está sentindo a força do vento contrário vindo das próprias fileiras, principalmente dos Estados Unidos. Esse Cardeal BurkeLeo Burke, que agora, junto com o Cardeal Emérito Meisner de vocês, já escreveu uma carta de novo; ele é o Donald Trump da Igreja Católica. (ri) Só que, diferentemente do TrumpBurke agora está neutralizado na cúria. Graças a Deus. Essa gente realmente acredita que precisa corrigir o Papa. É como se estivessem acima do Papa. Isso é fora do comum, para não dizer inaudito na história da igreja. Pode-se criticar o Papa, discutir com ele. Isso também fiz bastante. Mas cardeais acusarem o Papa publicamente de espalhar erros teológicos e até heresias já é demais, penso eu. É uma afronta que o papa não pode permitir. O papa não pode ser condenado, isso é doutrina da igreja.
Ante todo esse entusiasmo pelo Papa, como é que ficam as reformas da igreja, que tantos católicos esperavam de Francisco, mas onde na prática ainda não aconteceu muita coisa?
Sabe de uma coisa, no quanto eu o entendo, o principal interesse dele nem é mais a igreja, muito menos o que se faz dentro da igreja, e sim a sobrevivência da humanidade, o futuro da Terra. Ambas correm perigo e é preciso perguntar se o cristianismo consegue trazer uma contribuição para superar essa enorme crise na qual a humanidade corre o risco de sucumbir.É o sentido da encíclica Laudato Si dirigida não aos cristãos mas a toda a humanidade.
Francisco preocupa-se com o meio ambiente enquanto a igreja ruma de frente contra a parede?
Acredito que para ele há uma hierarquia de problemas. Se a Terra for à breca, todos os outros problemas também estarão resolvidos. Mas quanto às questões intra-eclesiásticas, vamos ver! Faz pouco tempo o Cardeal Walter Kasper, confidente do Papa, disse que meio logo haveria grandes surpresas.
O que o Senhor espera?
Quem sabe? Talvez o diaconato da mulher. Ou a possibilidade de padres casados voltarem a ser engajados no cuidado pastoral [Seelsorge]. Este é um pedido expresso dos bispos brasileiros ao Papa, principalmente do seu amigo emérito Cardeal brasileiro Cláudio Hummes. Ouvi dizer que o Papa gostaria de atender esse pedido, inicialmente numa fase experimental no Brasil. Este país com seus 140 milhões de católicos precisaria de pelo menos 100 mil padres. Mas só há 18.000. Sob ponto de vista institucional isso é uma catástrofe. Não admira que os fiéis migram aos milhares para os evangelicais e pentecostais, que preenchem o vácuo de recursos humanos. Ora, se os muitos milhares de padres casados pudessem voltar a exercer seu ministério, este seria o primeiro passo para melhorar a situação e ao mesmo tempo um impulso para a igreja católica soltar as algemas do celibato obrigatório.
Caso o Papa tomasse essa decisão, o senhor como ex-padre franciscano voltaria a assumir funções sacerdotais?
Eu pessoalmente não preciso de uma decisão dessas. Para mim ela nada mudaria, porque até hoje faço aquilo que sempre fiz: batizo, faço sepultamentos, e quando chego a uma comunidade que não tem padre, também celebro a missa junto com as pessoas.
Seria muito “alemão” perguntar: é lícito o senhor fazer isso?
Até agora nenhum bispo que eu conheço jamais o criticou ou proibiu. Os bispos até ficam contentes e me dizem: “O povo tem direito à eucaristia. Portanto continue assim!” Meu mestre teológico, o cardeal Paulo Evaristo Arns, falecido faz poucos dias, por exemplo, tinha abertura nesse sentido. Ele chegava ao ponto de, quando via padres casados sentados no banco durante a missa, chamá-los para junto ao altar e com eles celebrar a eucaristia. Isso ele fez e me disse muitas vezes: “Você continua sendo padre e assim permanecerá!”

segunda-feira, 15 de junho de 2015

Leonardo Boff, Papa Francisco, Teologia da Libertação e o conservadorismo da Igreja


“A Igreja sempre fez política, porém, uma política de direita”


Leonardo Boff, teólogo e escritor, fala sobre o perdão do papa Francisco aos que, como ele, seguem a Teologia da Libertação

Coluna de Beatriz Borges, jornal El Pais



O teólogo Leonardo Boff, em fevereiro. / LUCAS LACAZ RUIZ  (FOLHAPRESS)

O movimento católico da Teologia da Libertação, que defende uma Igreja para os pobres e ideais de justiça social, nunca foi bem visto pela Santa Sede. Vários sacerdotes foram inabilitados por seguir essa doutrina de dimensão sociopolítica, principalmente na América Latina durante os anos 70. O papa Francisco, para tentar desfazer este mal-estar histórico, deu o primeiro passo. Nesta semana, retirou a punição e solicitou a reintegração do sacerdote nicaraguense Miguel d’Escoto, de 81 anos, suspenso em 1985 por seu envolvimento com a Frente Sandinista, movimento político de seu país, de viés socialista.
No Brasil, o teólogo Leonardo Boff, de 75 anos, foi outra vítima do conservadorismo da Igreja nos anos 70. Tudo porque ele apoiava a ideia de que a instituição precisava resgatar a origem e a vida de Jesus, que nasceu pobre e morreu por pregar seus ideais libertários.
Boff foi renegado pela Santa Sé de suas funções sacerdotais em 1984. Na época, a decisão foi do então cardeal Joseph Ratzinger, responsável pela Congregação da Doutrina da Fé, um órgão criado para fiscalizar e punir os padres que não seguiam os preceitos mais tradicionais da Igreja. Ratzinger – que ironicamente veio a ser o papa da abertura da Igreja – chegou a condenar mais de 100 teólogos, principalmente latino-americanos, continente onde a Teologia ganhou força, contestando as ditaduras dos anos 70 na região e as injustiças sociais. A doutrina, que existe há pouco mais de 40 anos, é considerada por muitos uma contaminação do evangelho pelo marxismo. Boff explica com uma frase porque esta corrente não conseguiu se firmar na Europa, mas sim na América Latina, onde há mais desigualdades: “A pessoa pensa a partir de onde os pés pisam. Assim vale também para as Igrejas”. Boff é otimista e acredita que a reabilitação de seguidores da Teologia da Libertação está apenas no começo. Ele mesmo diz que voltaria a exercer seu papel eclesiástico, caso fosse reabilitado. “Mas estou casado. E a Igreja não aceita padres casados.”
Pergunta. Esta semana o papa Francisco aceitou o pedido do sacerdote nicaraguense Miguel D’Escoto, suspenso pelo papa João Paulo II em 1985. O senhor acredita que haverá mais reabilitações dos seguidores da Teologia da Libertação?

O Papa Francisco hoje diz coisas muito mais pesadas do que aquelas que eu escrevi no livro condenado Igreja: carisma e poder
Resposta. O Papa está reabilitando os teólogos perseguidos. Assim que recebeu em audiência particular o fundador da Teologia da Libertação, o peruano Gustavo Gutiérrez. Eu mesmo tenho um convite de um eventual encontro. D'Escoto foi sempre fiel à Igreja e defendia as posições sociais da Igreja quando Presidente da ONU. Mereceu ser reabilitado.
P. O senhor acredita que esta e outras condenações similares aconteceram pelo medo da Igreja de ter padres-políticos?
R. A acusação de marxismo na Teologia da Libertação vinha da direita e dos militares. Lamentavelmente, Roma, especialmente o Papa João Paulo II, deu ouvidos a estes, pois era obcecado contra o marxismo que conheceu na Polônia. Isso escandalizou os pobres, pois se sentiam incompreendidos: o Papa estava do lado de seus opressores.
P. Por que readmitir esses sacerdotes agora, o que mudou para que essa rejeição à Teologia da Libertação fosse superada?
R. O Papa Francisco vem da Teologia da Libertação de vertente argentina, que tem o nome de "teologia do povo" ou "teologia da cultura oprimida". Seu mestre, o Pe. Juan Carlos Scanonne, testemunhou o entusiasmo do Pe. Bergoglio por esta teologia. Daí fez voto de pobreza e de privilegiar o mundo das favelas. Seu discurso e seus gestos vem do caldo eclesial criado na Igreja na América Latina, diferente daquele da velha cristandade europeia em agonia.

Vergonhoso foi o fato de o Cardeal Joseph Ratzinger ter enviado uma carta obrigando os bispos a não denunciarem os padres pedófilos aos tribunais civis”
P. Temos sacerdotes para reabilitar no Brasil? O senhor mesmo voltaria?
R. Eu fui condenado, bem como a Irmã Ivone Gebara, o Monge Marcelo Barros e outros. E todos tivemos apoio da maioria de nossos bispos de forma que temos podido continuar nosso trabalho teológico. Eu preguei retiro até para bispos, sem falar de encontros com freiras e padres. Continuei teólogo, embora Roma preferisse que fosse sub-diretor da Coca-Cola no Rio. Eu voltaria a exercer, caso fosse reabilitado. Mas estou casado. E a Igreja não aceita padres casados.
P. No Brasil temos mais pastores que padres concorrendo a cargos públicos. Além de contar com uma bancada evangélica mais representativa que o próprio catolicismo, religião que a maioria dos brasileiros segue. Como interpretamos esta incongruência?
R. A Igreja sempre fez política, pois está na sociedade. Mas fez política de direita. Quando começou a apoiar os pobres, o Movimento dos Sem Terra, dos índios, dos afrodescendentes e dos sem-teto e outros, acusaram-na de fazer política. Mas essa é a boa política pois defende os mais vulneráveis, objeto do amor privilegiado de Jesus e dos Apóstolos. Não devemos esquecer que somos herdeiros de alguém, Jesus de Nazaré, que foi preso, torturado e pregado na cruz por causa de seu compromisso com os últimos nos quais via a presença do Reino de Deus. Boa parte do grupo evangélico no Congresso não está defendendo os interesses gerais do povo, mas seus privilégios. Fazem do evangelho da prosperidade uma forma de ganhar dinheiro. É uma violência contra a democracia e uma ofensa à tradição de Jesus. Não é sem razão que quase não usam o Novo Testamento, mas o Antigo, mais ligado às coisas do mundo, embora tenha uma grandeza religiosa como os salmos e a mensagem dos profetas que conservam permanente atualidade.

Muitas instituições europeias voltadas ao Terceiro Mundo salvam as Igrejas do cinismo de verem a miséria generalizada e não denunciarem o sistema econômico-financeiro de exploração que a produz”
P. É possível uma bancada católica?
R. Sou contra uma bancada católica. Somos um Estado laico e pluralista. Uma bancada católica defenderia as ideias católicas e não os interesses gerais do povo. Ser católico em política é perseguir o ideal de Jesus, dando visibilidade aos invisíveis, conferindo centralidade aos pobres, fazendo boas políticas públicas. Cristo não veio para criar cristãos, mas para que haja pessoas solidárias, compassivas, comprometidas com a ética e os valores humano-espirituais que dignificam uma sociedade. Por aí passa a vontade de Deus e os bens do Reino que Jesus quis e anunciou.
P. Em alguns países europeus, como a Espanha e a Itália, o clero colaborou com os regimes ditatoriais, enquanto na América Latina a Teologia da Libertação mobilizou muitos padres a ajudarem os perseguidos políticos. Como interpretar essa disparidade de comportamento da mesma Igreja?
R. A pessoa pensa a partir de onde os pés pisam. Assim vale também para as Igrejas. Igrejas que estão, como as europeias, pisando no solo burguês, do bem-estar social, construído não só pelo trabalho do povo, mas pela exploração das multinacionais alemãs, norte-americanas, italianas e outras, acabam defendendo os ideais burgueses. Mas devemos reconhecer que há muitas instituições europeias voltadas aos desamparados do Terceiro Mundo e ajudam poderosamente projetos de libertação social e dos direitos humanos aqui na periferia do mundo. Estes são nossos companheiros e companheiras de caminhada e salvam as Igrejas do cinismo de verem a miséria generalizada do mundo e não denunciarem o sistema econômico-financeiro de exploração que a produz.
P. A ala mais conservadora do Vaticano está, aparentemente, perdendo força desde que Bergoglio assumiu o posto na Santa Sede:crianças de pais casados no civil e de casais gays foram batizadas ecasos de pedofilia revelados e punidos. O que o senhor acha que a Igreja quer dizer com essas mensagens de aceitação e perdão?

Boa parte do grupo evangélico no Congresso fazem do evangelho da prosperidade uma forma de ganhar dinheiro. É uma violência contra a democracia”
R. O que a Igreja faz é uma obra de justiça para com as vítimas. Ela deveria publicamente dizer que está envergonhada pois prega uma coisa e faz outra; que a pedofilia não é apenas um pecado mas um crime a ser levado aos tribunais. Toda a pretensão que a Igreja Católica tinha de exclusividade e de ser a referência moral da humanidade e "experta em humanidade" foi por água abaixo. Ela é feita de homens e de mulheres, com os defeitos e as virtudes que carregam. Finalmente, ela se deu conta da desmoralização que causou e lhe custa muito trabalho recuperar respeito e confiabilidade pública. Pelo menos o famoso farisaísmo oficial da Cúria Romana foi desmascarado por seus crimes financeiros e pelos lobbies de homoafetivos que infestavam a Cúria.
P. Os casos de pedofilia no clero sempre existiram, mas aparentemente estão sofrendo mais retaliações que antes. Quais medidas este crime, que ainda mancha as batinas no mundo todo, exige?
R. A Igreja Católica perdeu seu point d'honneur, que era a moralidade, a pretensão de ser a portadora da verdade. Com os casos de pedofilia em muitos países, envolvendo não apenas padres, mas também bispos e dois cardeais, tudo isso entrou em crise. Trata-se de uma completa desmoralização. Vergonhoso foi o fato de o Cardeal Joseph Ratzinger ter enviado uma carta, sob sigilo pontifício, obrigando os bispos a não denunciarem os padres pedófilos aos tribunais civis. Isso para salvaguardar o bom nome da Igreja. Atribuía as acusações aos secularistas, à imprensa laica e aos inimigos da Igreja. Quando se verificou que a pedofilia clerical era verdade, teve que voltar atrás e reconhecer o erro. Duas dioceses norte-americanas foram quase à falência pelas multas recebidas pelos processos contra os pedófilos. Mas creio que a Igreja não fez o suficiente. Ela não aceita que há um laço intrínseco entre um celibato mal vivido e integrado e a pedofilia. Não quer tocar no celibato, quando todas as Igrejas já abriram mão da lei do celibato, deixando-o à liberdade dos sacerdotes.
P. Tivemos este ano a notícia de mulheres que pediram ao Papa autorização para se relacionar com sacerdotes. O senhor acredita que essas pressões e atitudes pontuais dos fiéis resultarão em algo concreto?
R. Eu creio que haverá mudanças no sentido de se tornar facultativo o celibato e de se admitir padres casados ou pessoas já aposentadas com boa situação familiar tornarem-se sacerdotes e atenderem um conjunto de prédios onde moram, por exemplo. Mas não creio que o Vaticano vá permitir que padres continuem tendo relações afetivas com religiosas. Seria um contrassenso. Que peçam licença e se casem e não querer ter vantagens das duas situações.

Ser católico em política é perseguir o ideal de Jesus, dando visibilidade aos invisíveis”
P. Qual será a pauta do seu seu encontro com o papa Francisco?
R. O Papa está preparando uma encíclica [carta papal sobre uma doutrina católica] sobre a ecologia e a defesa da vida. Pediu-me materiais que eu enviei, pois é um tema sobre o qual trabalho há muitos anos. Especialmente pediu o documento que ajudei a elaborar no sentido de uma reforma da ONU, a parte mais central e teórica sobre uma Declaração do Bem Comum da Mãe Terra e da Humanidade. Enviei também a Carta da Terra, um texto oficial da UNESCO com excelentes sugestões para salvar a vida no planeta no qual também participei em sua redação junto com Gorbachev e outros.
P. Sua condenação foi mais política do que teológica. O que significa esta afirmação?
R. Minha condenação constitui um caso raro na história das condenações dentro da Igreja. Não se condena nenhuma doutrina minha, apenas se diz que minhas opções poderiam por em risco a fé dos fiéis. Quais eram as opções? A opção pelos pobres, a opção por uma Igreja despojada e ecumênica, a crítica à não observância dos direitos humanos dentro da Igreja, especialmente para com as mulheres e os divorciados. Estava em boa companhia, pois estas eram as opções de Jesus. O Papa Francisco hoje diz coisas muito mais pesadas do que aquelas que eu escrevi no livro condenadoIgreja: carisma e poder. A condenação era mais política do que teológica. Roma queria atingir a CNBB [Conferência Nacional dos Bispos do Brasil], considerada demasiadamente progressista. E eu era um dos seus principais assessores. Como dizem os alemães num dito popular: você bate no saco mas pensa no burro que carrega o saco. Quer dizer: Roma batia em mim (o saco) mas pensava na Igreja do Brasil (o burro). Eu logo entendi isso, bem como a CNBB. Daí que aceitei as punições impostas. Estava mais interessado em salvaguardar o caminho da Igreja do que fazer um caminho pessoal de rebeldia.

domingo, 8 de fevereiro de 2015

A mídia golpista brasileira contra o Papa Francisco

  "Acredita-se que a mídia passa, após o caráter mais político conferido a imagem do Papa por ele mesmo, a noticiar um número menor de notícias banais e de entretenimento relacionadas ao Papa. Essa mudança de paradigma, que reduz o carisma na cobertura, pode indicar menos apreço por Francisco pela pauta da imprensa brasileira, talvez devido à oposição entre a linha editorial conservadora de veículos e as declarações progressistas do chefe romano."

Segue texto de Arthur Gandini, extraído do Jornal GGN/Luis Nassif Online:


As 4 fases da cobertura do Papa Francisco pela mídia brasileira


No Blog do Dini

  Bento XVI, o homem que não queria ser Papa (como mostra o livro de Andréas Englisch, com o mesmo título) foi um brilhante teólogo e eficiente em desarticular os teólogos da libertação da América Latina nos anos 80, no papado de seu antecessor.

  Entretanto, se compactuava com a visão teológica de João Paulo II, não possuía o mesmo carisma que o polonês. Não era "pop", não era ovacionado pelas mesmas multidões - a não ser pela força que qualquer intitulado como sucessor de São Pedro atrai dos fiéis - sorria pouco e mostrava que seu forte era refletir sobre os dogmas do catolicismo romano, e não de exercer a política pressionada pelos bastidores políticos da cúria romana.

  Bento XVI, por isso, nunca atraiu tanta atenção da mídia. Não vendia notícias, a não ser por declarações conservadoras polêmicas como se dizer contra o uso de preservativos na África, continente com os países da África Subsaariana assolados pelo vírus da AIDS.

  Sua igreja ganhava espaço nos noticiários por fatos não relacionados de forma direta ao pontífice: a pedofilia do clero e os desvios de dinheiro no Banco do Vaticano.

  Tudo muda, entretanto, no dia 13 de março de 2013 quando sai a fumaça branca da chaminé da Capela Sistina e Jorge Mario Bergoglio é anunciado como Francisco, sucessor de Bento XVI, que havia renunciado ao papado.

  Surge na varanda central da Basílica de São Pedro um novo pontífice que brinca: "vocês estavam precisando de um Papa e foram buscar ele no fim do mundo". Primeiro Papa latino-americano, Bergoglio abandona as vestes romanas monárquicas do antecessor e se veste de branco. Coloca-se ao lado dos pobres, como um homem de costumes simples que fala com todos, desde os moradores de rua da Praça São Pedro até os membros da cúria que executam as tarefas da sede mundial do catolicismo romano.

  A mudança de imagem do papado por si só é notícia. Mas Francisco também é simpático, carismático (como aquele vovô alegre com quem todo mundo gosta de conversar), dá esperanças de uma saída para a crise de imagem pela qual a ICAR passa e agrada aos setores progressistas da Igreja de Roma que eram contrários a Bento XVI.

A primeira fase


 A imprensa brasileira, em uma 1ª fase, repercute a vida do novo chefe da igreja romana e noticia fatos como a polêmica sobre a atuação de Bergoglio na ditadura militar argentina (1966 -1973) e sobre a relação conflituosa entre o então arcebispo metropolitano de Buenos Aires e a ainda hoje presidente do país, Cristina Kirchner.

 O posicionamento, entretanto, logo muda para uma 2ª fase na qual tudo o que o acontece em relação a Francisco vira notícia.

  A necessidade de produção de conteúdo somada a um Papa que parece querer aparecer na mídia resulta em notícias como "Internautas veem semelhança entre Papa Francisco e religioso de cerveja" (no G1) e "Papa Francisco surpreende de novo e telefona para estudante italiano" (no G1), quando pegamos de exemplo um dos principais veículo do país, o portal das Organizações Globo.

  O novo pontífice, entretanto, já no final de 2013, passa a mostrar que seu posicionamento ao lado dos pobres vai além da caridade e se aproxima mais da teologia da libertação, temida pelos combatentes do comunismo durante a Guerra Fria. Em setembro, Francisco encontra Gustavo Gutierrez (leia na Carta Maior), processado nos anos 80 pela Congregação para a Doutrina da Fé (antiga inquisição) chefiada por Joseph Ratzinger, o futuro Bento XVI.

  Gutierrez é nada mais que considerado por muitos fundador da corrente teológica que relembra a faceta revolucionária de Jesus Cristo e defende o cristianismo como libertador dos pobres da opressão capitalista.
(Atualmente, agora o Papa escreve encíclica sobre ecologia com a ajuda de textos enviados por Leonardo Boff sobre o assunto, o que já foi confirmado por Boff. O teólogo brasileiro foi censurado pela CDF e se desligou do sacerdócio nos anos 90, tornando-se uma estrela da teologia da libertação no mundo).

  O posicionamento político do Papa Francisco traz algo que pode ser visto como uma 3ª fase da cobertura da imprensa brasileira onde diminui o número de notícias relacionadas ao Papa. A percepção não é quantitativa, mas qualitativa via empirismo do autor deste texto e pode dar origem a futuros estudos.

  Acredita-se que a mídia passa, após o caráter mais político conferido a imagem do Papa por ele mesmo, a noticiar um número menor de notícias banais e de entretenimento relacionadas ao Papa. Essa mudança de paradigma, que reduz o carisma na cobertura, pode indicar menos apreço por Francisco pela pauta da imprensa brasileira, talvez devido à oposição entre a linha editorial conservadora de veículos e as declarações progressistas do chefe romano.

  Contextualiza-se aqui que o pontífice, dentro da doutrina católica-romana, é considerado praticamente um santo vivente no reino mundano. Embora Francisco se autoproclame com humildade apenas "Bispo de Roma" (dentro de uma ideia de menor centralização hierárquica na Igreja) e faça ligações a fiéis se apresentando apenas como "Padre Bergoglio", dogmas como o da "infabilidade papal" e o absolutismo do sistema político do Vaticano lhe trazem muito poder, o que lhe blinda de críticas até dos setores conservadores católicos, que são raramente feitas em público.

Uma nova fase

  O que motiva a redação dessa análise é que esse cordão de isolamento parece ter sido rompido no Brasil, culminando no que podemos antecipar como uma possível 4ª fase da cobertura midiática brasileira do Papa, mesmo em um momento onde o pontífice é popular e atacá-lo significa ficar contra a opinião pública.
Papa Francisco declarou na última semana, sobre os atentados à redação da revista Charlie Hebdo, que “as liberdades de expressão e religiosa são direitos fundamentais, mas ninguém pode insultar, ofender a fé dos outros".

  Francisco toca aqui, ao impor esse limite, em um ponto sensível e fundamental aos veículos midiáticos. Sob o manto da liberdade de expressão, a grande imprensa se legitima como um quarto poder ou um poder moderador que estaria acima dos poderes republicanos (leia aqui). O conceito também é justificativa para transformar propostas de regulação econômica em tentativas de censura.

  O ato resultou na primeira crítica pesada feita pelo blogueiro brasileiro conservador Reinaldo Azevedo ao Papa, em seu blog (aqui e aqui). Reinaldo, que antes defendia o Papa de suposta descontextualização de suas falas na imprensa e negava seu viés progressista, agora ainda não critica esse viés, mas suas "falas ambíguas".

  Após escrever em seu blog que Francisco não está preparado para ser líder da Igreja Católica (Romana), publicou artigo no jornal Folha de S.Paulo com a seguinte pergunta no título: "Francisco, por que não te calas? (aqui)"

  O Papa também recebeu crítica pesada de Guilherme Fiuza (aqui), que o chamou de demagogo e populista e o comparou ao ex-presidente Lula; de Ricardo Noblat (aqui), ainda que de forma respeitosa; e de Luciano Henrique (aqui), autor de um blog sobre "religião política".
A análise é importante, pois talvez a mudança em como Papa Francisco é confrontado não ocorra daqui para frente apenas no âmbito da imprensa.

sábado, 14 de dezembro de 2013

Noam Chomsky, o governo dos EUA e a reação contra o Papa Francisco e a Teologia da Libertação



Noam Chomsky: EUA matavam quem praticava o que prega Papa Francisco





Os Estados Unidos lutaram por décadas uma guerra contra católicos que praticavam os ensinamentos que levaram o Papa Francisco a ser eleito personalidade do ano pela Times, segundo o filósofo político Noam Chomsky.

Segundo Chomsky, em 1962, a conferência Vaticano II reformou os ensinamentos da Igreja Católica pela primeira vez desde o século IV, quando o Império Romano adotou o cristianismo como sua religião oficial, e isso teve um profundo impacto nos líderes religiosos da América Latina.

Na semana passada, em uma entrevista com o ativista de justiça social Abel Collins, Chomsky explicou que padres e laicos latino-americanos formaram grupos com camponeses para estudar o Evangelho e reivindicar mais direitos das ditaduras militares da região – que ficaram conhecidos como Teologia da Libertação.


“Há uma razão porque cristãos foram perseguidos pelos primeiros três séculos,” disse Chomsky. “Os ensinamentos são radicais – de um texto radical – que pregam basicamente um pacifismo radical com opções preferenciais aos pobres.”


Ele reafirmou que praticantes da Teologia da Libertação foram sistematicamente martirizados, ao longo de mais de 20 anos por forças apoiadas pelos EUA, que tentavam evitar que nações latino-americanas instalassem governos socialistas em benefício de seus próprios povos, contrariando interesses norte-americanos.


“Os Estados Unidos declararam e lutaram uma amarga, brutal e violenta guerra contra a igreja,” disse Chomsky. “Se existisse imprensa livre, é assim que representariam a historia.”


Ele explicou que os EUA apoiaram a “posse de governos e instituições ditatoriais com estilos neonazistas”, como parte de uma guerra que finalmente terminou em 1989 com a morte de seis jesuítas e duas mulheres na Universidade da América Central por tropas salvadorenhas.

Chomsky disse que aquelas tropas foram treinadas pelo governo norte-americano na Escola Kennedy de Guerra Contra a Insurgência, e agiram sob ordens oficiais do comando salvadorenho, que mantinha uma relação próxima com a embaixada norte-americana.


“Eu nem tenho que atribuir isso ao governo,” disse ele. “Já é aceito. A Academia das Américas, que treina oficiais militares latino-americanos – basicamente assassinos – um dos seus pontos de discussão é que o exército norte-americano ajudou a derrotar a Teologia da Libertação.”


O Papa Francisco, um jesuíta argentino, tem feito gestos simbólicos para uma nova aceitação da Teologia da Libertação na Igreja, depois de anos de condenação por suas aspirações políticas pelos papas João Paulo II e Bento XVI.

Seu recente Evangelii Gadium – ou Alegria do Evangelho – foi visto por muitos como um ataque ao capitalismo e economia de mercado livre, mas Chomsky acredita que até agora o Papa não transformou suas palavras em ações.


“Gosto do fato de que o discurso mudou, e de que há uma melhora na discussão sobre justiça social, mas temos que ver se isso chegará ao ponto de as pessoas se organizarem e insistirem por seus direitos percorrendo o caminho da opção preferencial pelos pobres, ou seja, de levar o Evangelho a sério.”