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domingo, 19 de março de 2017

Carne Fraca ou Golpe descaradamente em continuação? Brazil: a Dr. Phibes hypothesis, por Fábio de Oliveira Ribeiro



"O ataque ao setor agroexportador de carnes provocará danos sérios e duradouros à imagem e à economia brasileira. Ele ocorreu no momento em que as reformas do usurpador Michel Temer começaram a ser contestadas nas ruas e rapidamente se tornou o assunto dominante nas redes sociais. Mas este não é o primeiro setor da economia a ser trucidado pelo golpe de 2016.

A Petrobras está sendo fatiada e vendida a preço vil. O mesmo está sendo feito com as reservas petrolíferas recentemente descobertas no litoral brasileiro. "



Brazil: a Dr. Phibes hypothesis, por Fábio de Oliveira Ribeiro



GGN. - O ataque ao setor agroexportador de carnes provocará danos sérios e duradouros à imagem e à economia brasileira. Ele ocorreu no momento em que as reformas do usurpador Michel Temer começaram a ser contestadas nas ruas e rapidamente se tornou o assunto dominante nas redes sociais. Mas este não é o primeiro setor da economia a ser trucidado pelo golpe de 2016.
A Petrobras está sendo fatiada e vendida a preço vil. O mesmo está sendo feito com as reservas petrolíferas recentemente descobertas no litoral brasileiro.
A indústria naval foi destruída com uma só canetada. Ao cancelar encomendas feitas no Brasil, o presidente da Petrobras matou os estaleiros e prejudicou os empresários que forneciam equipamentos e matérias-primas empregadas na construção de barcos e plataformas petrolíferas.
Isto ocorreu pouco depois das grandes empresas de engenharia nacionais começarem a ser destruídas pela Lava-Jato. Elas desempenhavam um papel importante na estrutura de conteúdo nacional criada em torno da Petrobras e da produção dos novos submarinos franco/brasileiros. O espaço que empresas como Odebrecht começaram a ocupar no exterior rapidamente será preenchido por suas concorrentes europeias e norte-americanas.
Com razão Luis Nassif já pergunta qual será o próximo setor da economia a ser destruído. O jornalista Paulo Henrique Amorim disse que eles querem a carne do Lula. É fato: o usurpador já está tentando se apropriar da paternidade das obras do ex-presidente petista.
Nosso país está sendo metodicamente desmantelado. Antes disto ocorrer, porém, o Brasil foi politicamente desestabilizado até que o golpe de estado tivesse sucesso para colocar em prática a demolição econômica em curso.
O primeiro ato de terrorismo político contra o Brasil foi a rejeição do resultado da eleição por Aécio Neves. Seguiram-se as passeatas contra o aumento de 20 centavos nas passagens de ônibus. Rapidamente o conteúdo político destas manifestações foi modificado. Elas foram transformadas em manifestações anti-PT, anti-Dilma e, finalmente, pró-impedimento. Sérgio Moro rasgou a legislação ao mandar gravar conversas entre Lula e Dilma Rousseff que, vazadas para a imprensa, criaram um clima de legitimação popular para a revogação da soberania popular.
A classe média engrossou as passeatas, que foram adquirindo uma regularidade maior e recebendo mais apoio empresarial. Desfechado o golpe com o aval do STF (que mandou prender o presidente da Câmara dos Deputados somente depois que ele conseguiu rasgar 54,5 milhões de votos através de uma fraude), tudo voltou ao normal. Michel Temer foi autorizado a dar pedalas fiscais (motivo do afastamento e do impedimento de Dilma Rousseff). As passagens de ônibus continuam a ser reajustadas e ninguém sequer lembra que o grande movimento pelo impedimento começou por causa de 20 centavos.
Primeiro ocorreu a desestabilização política. Seguiram-se a destruição da credibilidade do PT, o golpe de estado mediante um impedimento fraudulento, a revogação de direitos sociais, previdenciários e trabalhistas e o desmantelamento da economia nacional. Nenhuma das medidas tomadas pelo usurpador, pelo MPF, pela Justiça Federal e pela Polícia Federal são ou serão capazes de criar emprego e renda. É previsível um aumento do desemprego e do desespero no exato momento em que o Estado quer deixar de assegurar qualquer renda à população fomentando o desenvolvimento ou custeando programas sociais.
O próximo desdobramento da crise será (como corretamente estão prevendo os militares) um aumento do desespero e a radicalização política. Aprofundada deliberadamente por Michel Temer e o bando de ladrões que ele enfiou nos Ministérios, a crise política e econômica pode evoluir para o caos e, eventualmente, para a fragmentação territorial (caso em que as Forças Armadas terão que decidir se elas se autodestruirão ou se preservarão a integridade do Brasil).
Vendo tudo o que ocorreu em retrospecto (e traçando cenários do que ainda está por vir), não podemos deixar de imaginar que algo ou alguém elaborou um plano e conseguiu fazer os principais atores políticos, judiciários e policiais a seguir um roteiro. O objetivo final é a implosão do nosso país. Este mestre do terror, que persegue seu intento de maneira obsessiva e dramática parece até um personagem de cinema: o famigerado Dr. Phibes.
Aqueles que como eu cresceram vendo TV preto e branco na década de 1970 certamente se lembram do filme The Abominable Dr. Phibes (1971). Ele foi reprisado dezenas de vezes nos canais de TV aberta. Phibes tem um plano (vingar a morte da esposa) e nada é capaz de o fazer se desviar do seu objetivo. Ninguém é capaz de impedi-lo de matar de maneira teatral e escabrosa as pessoas que participaram da mal sucedida cirurgia de sua esposa. Ao contrário de outros vilões, Phibes não faz questão alguma de sobreviver. Após concluir sua tarefa ele encena a própria morte. E nem mesmo os policiais conseguem ver gran finale.
Mutilado num acidente, Phibes fala conectando-se a um alto-falante. Quando não está executando o seu plano, ele toca órgão ou aprecia bandinha de bonecos colocada acima do nível do grande salão. A interpretação exagerada de Vincent Price confere algo especial ao filme. É impossível gostar do vilão, mas nenhum expectador consegue realmente odiá-lo. Ao ver The Abominable Dr. Phibes ficamos querendo saber como será a próxima morte e nos esquecemos de que é crime matar alguém pouco importando a motivação ou o método empregado.
A destruição política, economica e territorial o Brasil parece seguir este padrão. As vidas de 200 milhões de brasileiros estão em jogo, mas nós esquecemos disto por causa da teatralidade do que está ocorrendo. Intuímos que estamos sendo conduzidos para o matadouro mas agimos como se quiséssemos ver o que vai ocorrer na próxima cena. E o desemprego continua a crescer e a espalhar desespero e preparar o terreno para algo pior. Apreciem o filme, no final a grande escuridão descerá sob o Brasil como inevitavelmente desce sobre o Dr. Phibes.


Xadrez para entender a operação Carne Fraca (Xadrez do golpe). Por Luis Nassif


"Aí entra em cena o delegado Moscardi Grillo montando o pandemônio da Operação Carne Fraca, com mais de mil delegados investindo contra as maiores empresas brasileiras no ramo de alimentos. E, junto com ela, vazamentos seletivos envolvendo o novo Ministro da Justiça Osmar Serraglio (PMDB-PR) um dos muitos suspeitos que integram o Ministério Temer."




Peça 1 – o ambiente interno na Polícia Federal


GGN. - O maior erro de Dilma Rousseff foi a indicação de José Eduardo Cardozo para Ministro da Justiça. Os dois erros seguintes foram consequência natural do primeiro erro: a indicação do Procurador Geral da República Rodrigo Janot e do Diretor Geral da Polícia Federal Leandro Daiello Coimbra.
Aliás, o erro maior foi quando, pressionado por Gilmar Mendes, Lula afastou o delegado Paulo Lacerda do governo.
A Polícia Federal é composta por vários grupos políticos, sob muita influência do PSDB. Lacerda era o único delegado com liderança que se sobrepunha aos grupos e mantinha a corporação sob controle.
Quando Lula anunciou sua saída, a então Ministra-Chefe da Casa Civil Dilma Rousseff recebeu a visita desesperada do ex-Ministro da Justiça Márcio Thomaz Bastos para que convencesse Lula a não se desfazer de Lacerda, então na ABIN, sob risco de perda de controle da PF.
Último Diretor Geral, Daiello sempre foi um subordinado à altura de Cardozo: completamente anódino, sem nenhuma liderança sobre a corporação, mantendo-se no cargo à custa de abrir mão de qualquer veleidade de liderança sobre a tropa. Algo similar ao que ocorreu com Janot.
Ambos acabaram perdendo o controle sobre a Lava Jato, que se tornou um poder maior sobre eles e, de certo modo, seus avalistas.
Hoje em dia, a falta de comando de Daiello sobre a PF é criticada por políticos de todos os partidos, por advogados, setores empresariais e pelo próprio governo Temer. Parte relevante deles, evidente, por estarem sob ameaça da Lava Jato. Mas parte por perceber que a falta de controle total sobre esses grupos criou uma ameaça efetiva à economia.   
A única coisa que o sustenta é o impacto da Lava Jato e o fato de ter dado poder total ao seu grupo e especialmente à PF do Paraná.
Há tempos Daiello negocia sua saída, mas com duas pretensões:
1.     Pretende uma vaga de adido policial em alguma embaixada.
2.     Pretende fazer seu sucessor. Entre os candidatos, o preferido é o delegado Maurício Valeixo, paranaense que já foi responsável pela inteligência da PF em Brasilia, depois adido policial em Washington.

Peça 2 – onde entra a Operação Carne Fraca


Há um jogo de interesses claros entre os delegados do Paraná, os procuradores e Daiello. Do lado da PF do Paraná, os principais operadores são o delegado Maurício Moscardi Grillo, o mesmo que tentou censurar jornalistas, e o delegado Igor Romário de Paula. Ambos criaram um poder paralelo dentro da PF.
A Operação Carne Fraca se insere nessas disputas internas da PF. Igor Romário abriu um inquérito contra Valeixo, para afasta-lo da disputa. Moscardi monta a operação para fortalecer Daiello.
Seu espaço político é garantido pela parceria com a mídia e pela promessa, nunca cumprida, de levar Lula à prisão.
Por outro lado, está em andamento uma investigação sobre o grampo clandestino encontrado na cela do doleiro Alberto Yousseff e outras irregularidades cometidas pelos delegados paranaenses. Quando começaram as investigações, imediatamente os procuradores da Lava Jato se valeram de sua influência no Judiciário paranaense para abrir processos contra os delegados que denunciaram a ilegalidade.
Os processos acabaram não dando em nada.
O pacto é este.
De seu lado, Daiello mantém a correição sob controle. Do lado do Paraná, recebe o respaldo dos delegados, quando o apontam como a maior garantia de continuidade da Lava Jato. Mesmo assim, as investigações são como uma espada de Dâmocles sobre o pescoço dos delegados explicando alguns problemas emocionais desses espíritos frágeis a ponto de alguns deles solicitarem remoção do cargo.
A Operação Carne Fraca surge desse embate. Havia sinais no horizonte de que o governo Temer começava a preparar a fritura de Daiello.
Aí entra em cena o delegado Moscardi Grillo montando o pandemônio da Operação Carne Fraca, com mais de mil delegados investindo contra as maiores empresas brasileiras no ramo de alimentos. E, junto com ela, vazamentos seletivos envolvendo o novo Ministro da Justiça Osmar Serraglio (PMDB-PR) um dos muitos suspeitos que integram o Ministério Temer.

Peça 3 – onde entra o Brasil


Foi uma luta árdua do país, para assumir um protagonismo no mercado mundial de alimentos e, especialmente, no comércio mundial de carnes.
Atualmente, só as exportações de carne bovina, suína e de frango rendem US$ 12 bilhões por ano, para um mercado diversificado, que inclui Arábia Saudita, China e Japão. 
Para a Europa, as exportações começaram em 2000. E apenas no ano passado, o país conseguiu aprovação para embarcar carne in natura para os Estados Unidos, cumprindo todas suas exigências.
A disputa mundial é um jogo pesado, onde os aspectos sanitários são essenciais. Para entrar no Oriente Médio, por exemplo, a indústria brasileira precisou desenvolver toda uma metodologia de abate de bois, respeitando as tradições religiosas dos países compradores.
A cadeia da carne envolve milhares de pequenos produtores, é peça central na economia de estados como Santa Catarina. Com a indústria catarinense andando de lado, o aumento das exportações de frango (36%) e de suínos (74%) aumentou a receita do setor no estado. E havia expectativa de crescimento das vendas, com uma visita programada de empresários da Coreia do Sul.
A perda de controle da PF, no entanto, produziu esse desastre para a imagem das empresas brasileiras no mundo, um setor em que o Brasil já dominava 7% do mercado mundial, com meta de chegar a 10%.
Um problema histórico – a corrupção da fiscalização sanitária -, em vez de uma ação eficaz e discreta, se transformou em um enorme show, unicamente para atender os interesses do delegado Moscardi de sustentar politicamente Daiello e manter sob controle as correições da PF. E essa disputa, agora, coloca em risco um dos setores centrais da economia brasileira.

Peça 4 – como impedir que PF e MPF destruam a economia


A perda de controle sobre a PF e o MPF está promovendo a destruição de setores relevantes na geração de divisas, emprego e tributos.
No entanto, há uma covardia generalizada tanto das lideranças empresariais como dos grupos de mídia, para estabelecer controles mínimos sobre os “jovens turcos”, impedir que o combate à corrupção não desmonte de vez a economia nacional.
A única ação sensata seria uma liderança que coibisse os abusos de delegados como Moscardi e Igor, de procuradores como Dallagnoll e Carlos Fernando, sem prejudicar o combate efetivo à corrupção.
O que esperar de Temer, um governo reconhecidamente corrupto, que loteou o Ministério entre o que de pior a política brasileira produziu? É Osmar Serraglio, o homem de Eduardo Cunha, que definirá a disciplina na PF? Evidente que não.
É esse o dilema em que se meteu o país e uma imprensa pusilânime, que se tornou refém dos monstros que ajudou a construir.