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segunda-feira, 18 de novembro de 2019

Bolsonaro é a revanche da ignorância e da mediocridade, por Luis Nassif



Quando Bolsonaro mostra saídas simples (e falsas) para os problemas nacionais, todos os ignorantes se sentem contemplados: não falei? É isso o que penso?





Quando Bolsonaro mostra saídas simples (e falsas) para os problemas nacionais, todos os
ignorantes se sentem contemplados: não falei? É isso o que penso.



Esse simplismo mistificador é praticado, revestido do manto diáfano da fantasia, pelos procuradores da Lava Jato, por Sérgio Moro, pelo Ministro Luis Roberto Barroso, e por uma legião de oportunistas que valem-se do desmonte das instituições para lançar fórmulas salvadoras.


Aqui em Montreal, conheci pesquisadores de porte investigando o fenômeno do "regressismo” no mundo e, particularmente, no Brasil. Não será difícil mostrar as relações de causa e efeito entre o “novo iluminismo” pregado por Barroso, e o seu resultado final, o “regressismo” atual no Brasil.

Por todos esses fatores, minha opinião é que o bolsonarismo não sobrevive sem Bolsonaro.


Quem seria o substituto? Dória, o almofadinha, cuja representação pública da violência são os chiliques e o menosprezo a tudo o que não seja Avenida Faria Lima? Wilson Witzel, que só conseguirá atrair sociopatas com seu o discurso da morte e da violência?


A única liderança capaz de substituir Jair Bolsonaro é Eduardo Bolsonaro. Mas Bolsonaro sem presidência será apenas uma milícia no Rio, com órfãos pelo Brasil.

terça-feira, 28 de maio de 2019

Jean Pierre Chauvin escreve sobre a mentalidade do "cidadão de bem" bolsonarista



  "Nunca leram um filósofo; nem Dante, Petrarca, Camões ou Cervantes; quem dirá Darwin; tampouco os 72 livros que compõem a Bíblia “oficial”, supostamente traduzidos para o Português a partir da vulgata. Não sabem o que simbolizam as cores da bandeira republicana-positivista; sequer o hino nacional ou o nome dos Três Poderes da União; tampouco manuseiam (ou acessam) dicionários, já que se consideram parte de uma classe melhor e superior às outras (ainda que a deles seja tão idealizada porque abstrata)."



Foto Reuters

País sem Marquise

por Jean Pierre Chauvin

Suspeitava que eles & elas não sabiam nada de História do Brasil (afinal, reeditam discursos do passado, embora defendam, desde a indigestão MT, pós-golpe, um país “do futuro”). Mas eles & elas tampouco conhecem algo, para além de capas (sim, capas) de livros de autoajuda, expostos em expositores pagos pelas editoras mais pop. 

Nunca leram um filósofo; nem Dante, Petrarca, Camões ou Cervantes; quem dirá Darwin; tampouco os 72 livros que compõem a Bíblia “oficial”, supostamente traduzidos para o Português a partir da vulgata. Não sabem o que simbolizam as cores da bandeira republicana-positivista; sequer o hino nacional ou o nome dos Três Poderes da União; tampouco manuseiam (ou acessam) dicionários, já que se consideram parte de uma classe melhor e superior às outras (ainda que a deles seja tão idealizada porque abstrata). 

De modo geral, revelam mau-gosto supremo, quase sempre a ostentar posses e propriedades: a chave que pende do bolso, o anel de rubi, o relógio dourado-radioativo, a roupa que pretende conceder fumos de fidalguia novaiorquina e garbo parisiense; a exibição de milhares de fotos da viagem periódica (cuja meta é andar na montanha russa ou posar a frente de pontos turísticos); tomar champagne na Avenida ruidosa e poluída, a confundir protesto político com “desfaçatez de classe” (recorro a um termo schwarziano, alto lá). 

Eles & elas adoram o discurso da ordem, da moral, da propriedade privada, dos bons-costumes, da assepsia e da autoridade, embora – a rigor – não satisfaçam aos critérios que supõem existir ou fingem defender. A isso se daria, hoje, o nome de cinismo. Daí, explicar a diferença que há entre a pequenez destes e a grandeza dos cínicos da Antiguidade (o que será isso, né, “Antiguidade”? Coisa velha. “Serve” para nada) vai uma diferença ainda maior que os dois milênios e meio que separam a idiotice dos entreguistas sádicos em relação aos sábios de outrora. 

Eles & elas não valem sequer o “post” agressivo e estúpido com que realçam a sua ignorância geral e o indisfarçável desejo de extermínio do(a) diferente. Deixe-os/as um minuto em silêncio (se é que isso é possível, pois grande parte deles padece de histeria e incapacidade de autoexame no modo “mute”) e longe de câmeras que, talvez, os censurassem, ou de celulares que os rastreassem. Verão as monstruosidades, os gestos grotescos de quem só refreia desejos quando convém. 

Eles & elas fingem retidão moral em meio a vida mesquinha e tortuosa que levam; vivem a confundir ética da micro ou marco empresa com decência pessoal (outra lição de Marilena, aquela que odeiam porque isolaram uma frase e a transformaram em falsa síntese de um raciocínio consistente). A depender do que e de quanto levam no bolso, consumirão cervejas ruins, arrotando sabedoria e grosseria num bar cheio, porque top, da avenida top, onde cobiçam uns e outros, enquanto beijam a aliança de compromisso ou casamento. 

Isso explica que façam a apologia cega de sujeitos indefensáveis, nas mais altas esferas, pois não veem (ou fingem não perceber) a distância que há entre o discurso e a ação. Como são parciais e têm dificuldade em lidar consigo mesmos, manifestam a sanha da companhia, do ruído, da música de qualidade questionável. Para eles & elas, alguém que fale baixo e devagar ou leia regularmente não passa de aberração, no país em que é compulsório empreender, sem que haja mercado consumidor; na neocolônia em que o gerente de banco é melhor e mais respeitado que o professor; na republiqueta que sonha ser grande, mas onde seus cidadãos “de bem” acham normalíssimo faltar saúde, saneamento básico, energia elétrica, moradia e escola em milhares de municípios (os estrangeiros, afinal, não podem ocupar os postos mais remotos que os brasileiros, orgulhosos de si e da carreira financiada pelos pais ou pelo Estado, recusam-se a assumir). 

Não menciono a lama que recobre Minas. Os alvos mortos, a esmo, sem possibilidade de defesa, em capitais ditas turísticas. Os miseráveis que aumentaram exponencialmente, nas ruas da Pauliceia, Poços de Caldas, São Caetano do Sul – amostras do que sucede a outras cidades inóspitas, onde todos correm em favor do trabalho (ou do diploma) de onde pretendem extrair resquícios de dignidade, no país em que a revolta é extravasada duas ou três vezes por semana, diante do entediante jogo de futebol. Será um território de patridiotas?

terça-feira, 4 de dezembro de 2018

Triste Privilégio da Escolha pelo Retrocesso, por Jorge Alexandre Neves, Ph.D. em Sociologia pela Universidade de Wisconsin-Madison (EUA), Professor Titular do Departamento de Sociologia da UFMG, Professor Visitante da Universidade do Texas-Austin (EUA) e da Universidad del Norte (Baranquilla, Colômbia)



  "O processo iniciado no Brasil a partir de 2013, contudo, me parece bem menos “padrão”. A partir da redemocratização, o país percorreu uma estrada compatível com um processo civilizatório que o levaria a ser um país moderno, desenvolvido, equitativo, justo. Claro que houve problemas ao longo do processo, mas esses poderiam ter sido enfrentados sem que se jogasse a criança fora junto com a água do banho. A partir de 2013, contudo, o Brasil se defrontou com uma encruzilhada na qual teria que escolher manter-se no caminho civilizatório ou pegar a estrada de volta ao país que sempre foi: atrasado, subdesenvolvido, extremamente desigual e injusto. Até agora, tudo indica que o país escolheu a segunda opção."

Foto: Mídia Ninja

Triste Privilégio, por Jorge Alexandre Neves
Do GGN:
Quando aluno de doutorado, na década de 1990, li o livro de Robert Putnam “Comunidade e Democracia...” e fiquei pensando no privilégio que é um pesquisador da nossa área poder observar de perto um processo de transformação social, política ou econômica de grande relevância, como tinha sido o caso dele, ao pesquisar com atenção o processo de formação dos governos regionais na Itália. De certa forma, nós cientistas sociais brasileiros estamos tendo o triste privilégio de observar de dentro o processo de profunda transformação social, política e econômica que o Brasil está passando, desde 2013.
É óbvio que o processo vivido pelo Brasil a partir da democratização também foi muito interessante e válido para nossas pesquisas. A grande maioria de nós, a partir de diferentes abordagens e enfoques, produziu e publicou muitos trabalhos sobre as três décadas que sucederam o início da redemocratização. O mesmo se pode dizer de outros períodos. Todavia, focando apenas o período a partir da redemocratização, me parece bastante claro que, até 2013, o Brasil percorreu uma trajetória mais ou menos comparável às de outros países que se redemocratizaram. Com altos e baixos, seguiu-se um roteiro razoavelmente previsível, com uma lenta, porém relevante, formação de um Estado de Bem-Estar Social.
O processo iniciado no Brasil a partir de 2013, contudo, me parece bem menos “padrão”. A partir da redemocratização, o país percorreu uma estrada compatível com um processo civilizatório que o levaria a ser um país moderno, desenvolvido, equitativo, justo. Claro que houve problemas ao longo do processo, mas esses poderiam ter sido enfrentados sem que se jogasse a criança fora junto com a água do banho. A partir de 2013, contudo, o Brasil se defrontou com uma encruzilhada na qual teria que escolher manter-se no caminho civilizatório ou pegar a estrada de volta ao país que sempre foi: atrasado, subdesenvolvido, extremamente desigual e injusto. Até agora, tudo indica que o país escolheu a segunda opção. Por outro lado, essa lamentável escolha está sendo um prato cheio para nós cientistas sociais. A produção intelectual resultante desse processo está sendo das mais profícuas. Algumas obras de grande relevância e de impacto internacional vão derivar desse processo.
O inusitado do trajeto começa já com o momento no qual se iniciou.  Em 2013, o PIB brasileiro cresceu 3%, a taxa de desemprego era de 5,4% e estava em queda. Praticamente tudo caminhava a contento. Os indicadores de saúde evoluíam bastante, bem como os de educação. Toda vez que leio esse documento da OCDE sobre o PISA-2012 (https://www.oecd.org/pisa/keyfindings/PISA-2012-results-brazil.pdf), sinto uma dor no coração. O primeiro parágrafo já é revelador (tradução minha): “Embora o Brasil tenha um resultado abaixo da média da OCDE, seu desempenho médio em matemática subiu desde 2003 de 356 para 391 pontos, fazendo do Brasil o país com a maior elevação desde 2003. Melhoras significativas também foram observadas em leitura e ciências”.
Minha hipótese principal, que já externei em outra coluna aqui no GGN (“Um Golpe Estamental”, de 11 de agosto último), é a de que está exatamente no sucesso das políticas de bem-estar social – em particular na área de educação, não apenas com a melhoria da qualidade da educação pública, mas principalmente com a queda da desigualdade educacional – a explicação pela explosão política de 2013. O estamento burocrático e profissional brasileiro sentiu-se ameaçado em sua eficaz estratégia de reprodução intergeracional.
Aí está uma especificidade brasileira que torna a estrada civilizatória particularmente árdua por nossas bandas: o inigualável poder de nosso estamento burocrático e profissional. Mesmo na América Latina, não se encontra nada igual.
Leio na imprensa que o economista Samuel Pessoa calculou que o judiciário brasileiro custa 2% do PIB, quatro vezes a média da OCDE. Ao mesmo tempo, vejo uma entrevista com Guilherme Afif Domingos na televisão, na qual faz uma certeira, porém incompleta, análise sobre a associação entre patrimonialismo e corporativismo. Mirou e acertou bem em cheio o estamento burocrático e profissional. Esqueceu-se, porém, do outro lado da moeda patrimonialista, sua associação com o rentismo. Esta última, por sinal, parece um fenômeno mais universal do que a primeira (vale a pena ler, entre outros, os trabalhos do sociólogo John Hall sobre patrimonialismo nos EUA e sua associação com o rentismo capitalista, em particular, seu capítulo intitulado “Capitalism in America: the Public Domain in the Making of Modernity – from Colonial Times to the Late Nineteenth Century”, no volume “Patrimonialism and Empire” organizado por Mounira Charrad e Julia Adams, em 2015).
A associação entre patrimonialismo e rentismo capitalista é um fenômeno encontrado em todo o mundo. Sem dúvida, ele é uma barreira para o desenvolvimento social e a democracia. Todavia, nos países capitalistas centrais houve um forte desenvolvimento do Estado de Bem-Estar Social, em decorrência de vários fatores (entre eles, obviamente, o contexto histórico) e um deles foi a possibilidade de uma aliança política entre a chamada “classe média” e a classe trabalhadora. No Brasil, essa aliança, quando houve, sempre foi precária e, particularmente, efêmera. O principal problema é que, aqui, não há uma típica “classe média”, pois predomina, justamente, um estamento (*). Ou seja, no Brasil, além da plutocracia rentista, o estamento burocrático e profissional (que forma a parte mais robusta e poderosa dos estratos médios) também se posta como um obstáculo ao desenvolvimento social e à redução da desigualdade.
O problema fiscal brasileiro é, fundamentalmente, um conflito distributivo. O processo político e as eleições deste ano iriam indicar a solução do conflito. Por que não me surpreendi quando li a notícia de que o futuro ministro da Economia, Paulo Guedes, colocou como alternativa à reforma da previdência a desvinculação dos gastos públicos (aposentadorias, pensões, BPC e seguro desemprego) do salário mínimo? Seria algo muito mais regressivo do que a reforma da previdência que está em tramitação no congresso (**). Todavia, provavelmente mais fácil de ser conseguida, pois irá atingir apenas os mais pobres e que não contam com lobbies atuando no congresso nacional. Essa medida, se ocorrer, provocará forte inclinação descendente na estrada de volta ao nosso velho Brasil de guerra.
Embora todos que somos de esquerda sejamos contra essa possível solução para o conflito distributivo brasileiro (tirar dos que já têm tão pouco), a verdade é que evitamos discutir seriamente esse conflito distributivo. Um dos problemas do impasse que o Brasil enfrenta desde 2013 é que a solução desse conflito exigiria mexer nos privilégios do estamento burocrático e profissional. Sejamos razoáveis, não há nenhum país moderno, desenvolvido, equitativo e justo que tenha diferenças salariais tão grandes entre o setor público e o setor privado. Para se buscar uma concertação, no Brasil, que resolva nosso problema distributivo de forma progressiva, seria necessário que a esquerda colocasse na mesa de negociação a redução dos privilégios do estamento público, como contrapartida a uma maior tributação da plutocracia rentista. Obviamente, essa redução de privilégios precisaria ser, ela também, progressiva. O problema está em que muitos na esquerda tendem a confundir o corporativismo com o interesse público. Se não enfrentar o corporativismo do estamento burocrático e profissional do Estado brasileiro, a esquerda jamais conseguirá resolver o problema distributivo brasileiro de forma progressiva e, assim, levar nosso processo civilizatório à sua maturidade.
Não sei se outros pesquisadores o farão. No meu caso, porém, essa parcela de culpa não vou evitar de colocar na nossa conta, ao analisar nosso passado recente. Estamos longe de ser os maiores devedores, mas precisamos reconhecer que temos nossa responsabilidade sobre a dívida social brasileira. Temos dado nossa contribuição para que o Brasil seja o que é: atrasado, subdesenvolvido, extremamente desigual, injusto.
(*) Ao contrário do que outros colegas sociólogos pensam, acredito que o processo de formalização da PEA, associado ao crescimento da renda e ao aumento das oportunidades de formação educacional técnica e superior iniciado no Brasil, a partir da década passada, era o início da constituição de uma genuína “classe média”, no Brasil. Contudo, os problemas econômicos e políticos, a partir de 2013, abortaram tal processo.
(**) Há algumas semanas, Eduardo Giannetti deu uma entrevista na qual disse temer que as políticas de Paulo Guedes – que chamou de “aventura” – arruínem o liberalismo no Brasil. Provavelmente, a desvinculação do salário mínimo no lugar da reforma da previdência irá nessa direção que ele tanto teme. Só me causa espécie que Giannetti não tenha percebido que tão ou mais destrutível para os fundamentos do liberalismo é a atuação da lava jato, ao arrepio da lei. Afinal, um dos fundamentos morais do liberalismo é “o império da lei”. O apoio entusiasmado que sempre deu à lava jato parece indicar que seu compromisso com valores liberais é seletivo e instrumental.
Jorge Alexandre Neves - Ph.D. em Sociologia pela Universidade de Wisconsin-Madison (EUA), Professor Titular do Departamento de Sociologia da UFMG, Professor Visitante da Universidade do Texas-Austin (EUA) e da Universidad del Norte (Baranquilla, Colômbia), pesquisador do CNPq e articulista do jornal Hoje em Dia. Especialista em desigualdades socioeconômicas, análise organizacional, políticas públicas e métodos quantitativos.

domingo, 11 de novembro de 2018

Pasolini e o "novo" fascismo: o consumismo do individualista refratário ao bem coletivo




Como Pasolini enxergou, desde 1968, que a ameaça já não estava nos Estados totalitários — mas no homem-consumidor individualista, refratário ao coletivo, entregue à mercantilização. O que isso tem a ver com o Brasil de 2018
Por Fran Alavina no Outras Palavras 
Fascismo, teu nome é consumismo
Mesmo após sua morte atroz, em novembro de 1975, Pasolini não deixou de incomodar. Uma de suas últimas polêmicas, expressa nos seus textos (Scritti Corsari e Letterre Luterane), bem como no seu último filme Salò, era a afirmação do nascimento de um novo tipo de fascismo. Desta nova forma de totalitarismo disfarçado, o pensador italiano estava bem certo. Exatamente por isso, ocupava uma posição de deslocamento entre os intelectuais de seu tempo. Os contemporâneos viam seu diagnóstico do presente como algo exagerado. Uma visão que, segundo eles, diria muito mais sobre a personalidade de Pasolini, do que sobre seu próprio tempo.
Enquanto todos se contentavam com os avanços do estado de bem-estar social e estavam inebriados com o maio de 68, dificilmente poderiam compreender que Pasolini não se reportava aos riscos da volta do fascismo histórico, como aquele de Mussolini. Tratava-se, na verdade, de uma mutação do fascismo histórico, cuja gênese estava justamente naquilo que o estado de bem-estar social comportava em seu interior e que era um dos motivos de sua expansão: o consumismo. Ao mesmo tempo em que surgia uma nova cidadania, das benesses da social democracia, esta também ensejava um novo modelo de homem e mulher: o consumidor.
Hoje, com a volta da extrema direita e sua chegada ao poder em alguns países, os ambientes intelectuais ora se veem imóveis, incapazes de diagnosticar com precisão um fenômeno que aparece dramaticamente como algo inesperado, ora se movimentam para atestar sua existência — mas buscam compreendê-lo segundo o parâmetro do fascismo histórico. Logo, deixam escapar os novos elementos e as novas determinações.
É claro que o fascismo histórico não pode ser esquecido, pois é o modelo mais acabado do que foi um estado fascista, institucionalmente falando. Ocorre que, como apontava Pasolini, o novo fascismo não é, em primeiro lugar, institucional — mas sim uma nova forma de vida jamais vista, e por isso mais difícil de ser combatida. Ele esconde dentro de si uma nova lógica de poder, está mais arraigo nos indivíduos que em instituições ou oficialidades declaradas. Por isso, Pasolini referia-se a uma nova forma de poder: “anárquico”, sem centro específico e sem uma estética que pretensamente expresse identidade homogênea — ao contrário do que foi o fascismo histórico.
A negação da diferença não seria, advertiu o pensador italiano, feita pela força bruta. Decorreria da não aceitação de qualquer forma de vida individual ou social que não pudesse ser transformada em mercadoria — isto é, que não se adaptasse ao consumo. Como era necessário que o consumo acompanhasse o aumento da produção, o novo cidadão do estado de bem-estar social deveria ser levado cada vez mais à mercantilização da vida.
Daí que durante as ocorrências do maio de 68 pela Europa, Pasolini já denunciava seus limites e a acomodação do espírito de rebeldia pelo mercado. A própria rebeldia perdia sua valência política e tornava-se uma marca, um slogan. As novas formas de comportamento, quanto mais possam parecer novas, mais se acomodam ao consumo que já faz de si mesmo a imagem da única novidade possível. Este novo fascismo, que ao que parece só Pasolini conseguia ver, seguia os passos do fascismo histórico, pois instaurava uma nova linguagem: pobremente denotativa, como fora aquela que se materializava nos discursos de Mussolini.
Assim, o novo fascismo trazia consigo um novo gestual que, segundo as palavras de Pasolini, impedia que se pudesse diferenciar, na Europa, um jovem das classes populares de um jovem burguês. Os dois já falavam do mesmo jeito, já gesticulavam do mesmo modo: enfim, todo o campo da expressividade havia se tornado único. Desfazendo, desse modo, qualquer referência às diferenças entre classes sociais. Ora, não era o sonho do fascismo histórico produzir um tipo de sociedade radicalmente homogênea?
Não parece, pois, ser mera coincidência que hoje os gestos e a linguagem da extrema direita tenham se tornando tão aderentes nas redes sociais. Também sendo pobremente denotativa, a linguagem das redes sociais levou o consumo ao seu ponto máximo: já não se consumem coisas, pode-se consumir pessoas. A transformação das subjetividades em algoritmos impõe um novo padrão de homogeneidade. Aqueles que já não falam a língua das redes, mesmo fora delas, tendem a desaparecer, pois só aqueles que falam a língua do consumo imediato permanecem. Não é pura ocasionalidade que os políticos de extrema direita falem como se youtubers fossem. Trump não discursa como se estivesse no twitter? Mas essa nova linguagem pressupõe aderência entre os falantes: portanto, supõe que os falantes já se identifiquem apenas como consumidores.
Também não é mera coincidência que o atual estado de coisas a que chegamos no Brasil tenha sido precedido por uma ascensão e crise das classes populares ao consumo. A classe trabalhadora, falsamente identificada como nova classe média, passou a ver a si mesma como consumidora, mais do que com qualquer outra identidade. O mesmo movimento se deu naqueles países europeus mais afetados com a crise econômica de 2008.
Os antigos consumidores jogados para fora dos padrões de consumo não se voltam mais, como outrora, aos partidos trabalhistas ou de centro esquerda (pois foram estes os principais fiadores da social democracia e seu estado de bem-estar). Não se veem mais como trabalhadores expropriados, mas como consumidores incapazes de consumir. A afirmação da identidade de classe foi perdida. Por isso, no caso brasileiro, por exemplo, não aparece como contradição seguir um discurso que promete a volta dos empregos por meio de uma agenda neoliberal extremada e que ao mesmo tempo retira direitos dos trabalhadores.
Se o fascismo histórico se guiava pela noção de um aparelho estatal grande e forte, o novo fascismo pode aderir ao estado mínimo justamente por não se tratar mais de instituições, mas de formas de vida que consomem a si mesmas. Logo, a aderência do discurso da meritocracia, que cria a imagem da sociedade como um grande aglomerado de indivíduos em eterna concorrência. Incapaz de engendrar qualquer forma de solidariedade social, esta noção consumista e individualista de si mesmo é um prato cheio para discursos do culto da força, pois a violência já internalizada pelos indivíduos concorrentes torna-se completamente naturalizada.
Não por outro motivo, Pasolini apontava que o novo fascismo era muito mais perverso que o fascismo histórico. “Estamos todos em perigo!”, dissera ele, nem tanto aos seus contemporâneos, mas a nós, 40 anos depois de seu assassinato. É porque estamos todos em perigo que precisamos vencê-lo. Não apenas pela resistência e uma nova superação eleitoral das forças políticas que encarnam o novo fascismo, pois trata-se mesmo da criação de uma nova forma de vida. Afinal, nunca se pode esquecer que a democracia não é simplesmente uma forma de governo, porém uma forma de vida: talvez a única que se possa dizer plenamente vida.

sexta-feira, 10 de agosto de 2018

Do laço social ao "inconsciente coxinha": psicanálise, ódio e democracia, por Gustavo Henrique Dionísio, psicanalista


"Outro exemplo  forte [de ato falho revelador do que de fato se quer] pôde ser observado por muitos brasileiros devido ao seu alcance: “o Brasil voltou, 20 anos em 2”, dizia o slogan de governo mais atrapalhado na história recente do país. “Implorando para ser interpretado como ato falho”, é como se a assessoria da presidência golpista tivesse dado uma ótima chance para que todos pudessem entender, de uma vez por todas, a concepção freudiana de inconsciente: neste caso, a leitura é ainda mais simples que a anterior: basta retirar a vírgula e o tiro no pé está dado – vale lembrar que o inconsciente sempre revela senão a verdade"

do Psicanalistas pela Democracia
por Gustavo Henrique Dionisio

Partindo de uma espécie de chiste involuntário, já que diante de certas condições absurdas resta pouco senão fazer piada − como é o exemplo da expressão inconsciente coxinha–, mesmo embora não possamos ser tão otimistas quanto ao futuro, pretendo desdobrar neste texto dois problemas que, somados a diversos outros, são de grande importância junto às forças que levaram ao Golpe parlamentar ocorrido no país no ano de 2016: as desavergonhadas demonstrações de ódio a um pensamento que chamaríamos de progressista, sentimento “naturalmente” decorrente deste inconsciente e que não apenas se endereça a indivíduos/sujeitos mas à instituição democrática como um todo; a partir daí, entendo que devamos encarar a relação direta entre a especificidade deste afeto e o que poderíamos chamar de pacto edípico, relação cuja articulação problematiza os desdobramentos que o complexo encontra quando referido ao laço social.  
A bem da verdade, seria mais correto dizer que esses dois aspectos exigem uma trança, quer dizer, três eixos que se obrigatoriamente se entrecruzam em:
  • A democracia vista como um mal é uma ideia recorrente na história da humanidade, e remonta à Grécia Antiga, como nos permite verificar Platão – a meu ver a defesa de que já estejamos falando majoritariamente de Golpe e não de impeachment se deve diretamente a isso, ainda que se possam ouvir resistências quanto a isso;
  • A “brincadeira” acerca de um inconsciente coxinha se torna portanto central e se deve em muito à migração, cada dia mais visível, do tradicional coxinha “centrão” (leia-se, aquele que reza pela cartilha do PSDB embora não saiba muito bem o que seria exatamente uma social-democracia) ao extremismo de um Bolsonaro por exemplo, isto é, candidato esse que se posiciona de maneira claramente antidemocrática (ainda que declare o contrário!, como se pôde assistir numa entrevista recente), o que reitera uma visão da democracia como o inimigo a ser vencido;
  • Por fim, restaria amarrar uma discussão que articule os pontos levando em conta a ideia de um pacto edípico, tão necessário à civilização e na medida em que se trata de um “acordo” ele mesmo originário, reverberante na constituição do laço social.
Dia após dia tais eixos parecem se amarrar com nós mais apertados, sobretudo em virtude dos modos como esse ódio à democracia vem se expressando no país e cuja intensidade parece ter aumentado em proporção geométrica desde a deposição da presidenta Dilma – olhando mais de perto, e apesar das justas reinvindicações da categoria, a recém-extinta greve de caminhoneiros, a título de exemplo, teve lá seu tom bastante reacionário, e aliás claramente visível (na TV, inclusive), mostrando certo contingente de manifestantes que clamavam por uma intervenção militar; não obstante muitos desses cidadãos de bem tenham pegado uma caronano movimento, isso não invalida a hipótese de que o fenômeno configuraria por assim dizer um “sintoma social dominante” em meio ao cenário atual.
Trata-se, como se sabe, de um ódio que reúne no mesmo lugar um certo grupo de anormais e que não é tão novo assim: ódio ao pobre, às diferentes minorias, à comunidade LGBT, aos excluídos de todos os modos, enfim, ao outro que é diferente mas ao mesmo tempo familiar, Unheimlich, como diria Freud. O sociólogo Luiz Eduardo Soares resumiu muito bem e de maneira muito simples como uma disposição desta ordem vem se manifestando particularmente em nossa contemporaneidade tupiniquim: a matriz psicológica do nazismo, isto é, o antissemitismo fascista, diz ele,[1]é idêntica à do antipetismo vigente – e por extensão a todo e qualquer pensamento “progressista” – para não dizer de esquerda, esse predicado que assusta tanto, justamente, o coxinha.
O ódio à democracia, famoso estudo de Jacques Rancière publicado em 2014 no Brasil (editora Boitempo), remonta com competência as matrizes desse ódio: ora, se a democracia pode ser entendida hoje como o “reino dos desejos ilimitados dos indivíduos da sociedade de massa moderna”, não é de causar surpresa a idade de um tal sentimento que, obviamente, é tão velho quanto à democracia já que a própria palavrademocracia seria ela mesma a expressão de um ódio: endereçado em princípio ao “governo da multidão”, este ódio se refere ao poder que chamaríamos de difuso ou concentrado nas mãos do povo, tal como se pensava na Grécia antiga, mas que seria o grande responsável pela ruína de toda ordem legítima; e assim o uso semântico do significante democracia vem servindo de sinônimo para “bagunça” há bastante tempo – basta lembrarmos que os eleitores de Bolsonaro existem. Por isso é de bom grado demarcar que há uma diferença – evidente e significativa – entre o ódio e a críticaà democracia, embora ela se torne muito tênue, sobretudo hoje, pela sujeira ideológica que a acompanha: Platão, que não abria mão da hierarquia dos poderes para exercê-la, criticou a ideia de democracia desde sempre, como se sabe, justamente denunciando-a como sendo da ordem da “confusão”.
Sobrevive, portanto, um paradoxo de base no interior do conceito moderno de democracia. Num primeiro aspecto, contudo, algo se torna claro quanto a isso, pois se trata de uma oposição na qual dois inimigos públicos se dispõem: a democracia, de um lado, versusa tirania, as ditaduras, o totalitarismo, em suma, tudo o que chamaríamos de governo do arbitrário, de outro. Ainda assim, “essa oposição esconde outra mais íntima, e que não tão moderna assim”, escreve Rancière: o “bom governo democrático é aquele capaz de controlar um mal que se chama”, ironicamente, “vida democrática” (2014, p. 16). Deste modo, o entendimento de democracia levaria a pensar que a(s) sua(s) crise(s) é (são) provocadas pela própria intensidade da vida democrática: “anarquia do povo” que inverte a ordem do poder, a concepção de democracia se soma a uma crítica permanente dos princípios do “bom governo” que deveria levar a um bem estar social e individual, ou seja, atender a uma demanda de felicidade almejada por todo aquele pertencente ao socius. Em outras palavras, como forma de vida política e social, a democracia, isto é, a abertura para a decisão pública acerca dos assuntos do estado, se torna o reino do excesso: o paradoxo se agudiza porque esse excesso seria a própria ruína do regime democrático, e de tal modo deveria ser combatido (!) por ele. Sinuca de bico.
Pois bem: se por democracia devemos entender um regime que pressupõe a liberdade dos indivíduos, a isso somada a participação da maioria na vida pública junto a um princípio rigoroso de igualdade que faz equivaler os indivíduos guardando suas diferenças, caberia enfim perguntar: seria a democracia um regime possível? Se, como a Rancière define, democraciaquereria dizer que “as formas jurídico-políticas das constituições e das leis de Estado não repousam jamais sobre uma única e mesma lógica” (2014, p. 71), como se poderia contê-la, uma vez vitoriosa? Ou, por outro lado, certamente mais honesto, a quem não interessa a democracia? Afinal, há esta situação estrutural que a problematiza muito bem na contemporaneidade: dado o regime capitalista, democracia seria o mesmo que consumir com liberdade? Defender o porte de arma como preceito máximo do free-will individual é um argumento forte para muitos dos norte-americanos que se dizem “democratas”… e no Brasil não parece que estejamos imunes a um fenômeno de iguais proporções, lamentavelmente.
Mas deixando um pouco de lado o aspecto mercantil, mesmo uma eleição não seria “em si uma forma democrática pela qual o povo faz ouvir a sua voz”; ela “é geralmente a expressão de um consentimento que um poder superior pede e que só é de fato consentimento na medida em que é unânime” (Rancière, 2014, p. 70). Deste modo a representação, isto é, este que é o sistema mais utilizado na maior parte das democracias modernas, seria curiosamente o seu exato oposto, ainda que esta não seja necessariamente um motivo que justifique refutar aquela. Ora, mesmo nas democracias representativas há a exigência de um título para governar, pois existe o voto e, por conseguinte, alguém que se candidata ao poder: embora Aristóteles tenha apontado o sorteiocomo exercício o mais democrático possível – aquele em que o “deus acaso faz com que o desejo pelo poder não seja o fator de acesso a ele” –, não há em nossa história um regime no qual se abriu mão de algum título para governar; nestes termos, não seria a democracia uma heterotopiafrente a uma estrutura social que desde sempre é eminentemente oligárquica? Trocando em miúdos provavelmente menos palatáveis, segue a inequívoca regra: um governo que pressupõe radicalmente a igualdade como princípio de poder não é um fato da humanidade. Com a eleição, o que vemos é a elite exercendo, mas agora de fato e de direito, isto é, em nome do povo, “o poder que ela é obrigada a reconhecer a ele” e que ele não saberia exercer por si mesmo sem arruinar todo o princípio do governo – de acordo com essa elite, evidentemente. Assim, a democracia representativa não passa de uma espécie de parlamentarismo plutocrático que vai mais ou menos cedendo de acordo com as lutas sociais: “Ampliar a esfera pública não significa, como afirma o chamado discurso liberal, exigir a intervenção crescente do Estado na sociedade”, conclui o Rancière; “Significa lutar contra a divisão do público e do privado que garante a dupla dominaçãoda oligarquia no Estado e na sociedade”. Sendo o resultado de uma sólida aliança entre as oligarquias estatal e econômica, é como se Estado desse à democracia mais ou menos espaço conforme a força das pressões sociais. Neste sentido, o Estado se resume em ser uma “oligarquia que dá à democracia espaço suficiente para alimentar sua paixão”… Contudo – e esse dado é de extrema importância –, os “males de que sofrem nossas ‘democracias’ estão ligados em primeiro lugar ao apetite insaciável dos oligarcas” e não ao regime enquanto tal (2014, ps. 71; 93; 95).
Seria então o caso de pensar que as chamadas “crises” políticas, ou mesmo a impossibilidade concreta que certas tentativas de emancipação enfrentaram para se realizar fora do sistema capitalista, foram os responsáveis por gerar a certa ideologia que sustenta a vitória do capitalismo, já hoje longeva? É bem provável que não, mas, dado o fracasso dos exemplos alternativos, é como se o poder simbólico do capital condenasse a sociedade a confiar apenas na realidade da economia, “reino ilimitado do poder e da riqueza”.[2]Entretanto, e ao contrário do que nos querem fazer crer esses ideólogos mercantis da representatividade, a democracia não é “nem a forma de governo que permite a oligarquia reinar em nome do povo, nem a forma de sociedade regulada pelo poder da mercadoria”; muitopelo contrário, a democracia “é a ação que arranca continuamente dos governos oligárquicos o monopólio da vida pública e da riqueza a onipotência sobre a vida” (Rancière, 2014, p. 121), e parece ser exatamente aí, com efeito, que se verifica a maior parte do ódio que historicamente vem se lançando contra ela.
Em que medida este ódio não seria também a expressão de uma quebra dos laços sociais? Na década de 1960 o escritor, poeta e psicanalista Hélio Pellegrino (1924-1988) lançou uma interessante análise acerca da relação entre o que chamou de “pacto edípico” e seu suposto correlato – o “pacto social”. Em linhas gerais Pellegrino[3], que a essa altura já havia se tornado um intelectual de reconhecido antagonismo frente ao regime militar, retoma em sua tese a lendatebana na qual Sófocles teria se apoiado a fim de reiterar um detalhe insuspeitado: Édipo, curiosamente, não sucumbira ao complexo de Édipo, mas fora vítima de vicissitudes pré-edípicas.Em Tebas, condenado à morte antes mesmo de ter podido separar-se de seus pais (biológicos no caso, ou seja, Laio e Jocasta), é amarrado a uma árvore e deixado para morrer; neste momento ele é ainda um sem nomeporque Édipo traduz-se pela expressão “pés inchados”, que acabará batizando-o. Mas vejamos o que Pellegrino quis dizer com “pré-edípico”:
1)   A árvore corresponde essencialmente ao símbolo arquetípico da mãe, à qual, neste caso, o sujeito está atado de modo a naufragar, pois nela está desesperadamente preso. E é assim que a função materna exercida por Jocasta revela um traço incestuoso primitivo, anterior mesmo à condição sexual que ocorrerá na sequência da narrativa;
2)   Já a corda representa, aqui, obviamente, o cordão umbilical; e é preciso se atentar ao fato de que, na obra, é o pastor de Corinto quem a vem cortar, e não Laio. Esse corte é, com efeito, o passo necessário para se separar (de maneira “saudável”) da mãe – uma operação que se traduz, em termos psicanalíticos, no exercício de uma função terceira,paterna: trata-se portanto de partejar a subjetividade do filho ao abrir-lhe as portas para se diferenciar da mãe.
Em Corinto, por outro lado, Édipo é adotado pelo casal real[4]e recebe deles uma paternidade “propriamente dita” porque exercida como função: a puberdade do jovem tebano é vivida aí com liberdade, a tal ponto de poder se desligar desses pais para viajar pelo mundo. Assim, Édipo deixa Corinto porque podefazê-lo: não obstante, ao receber notícia da previsão trágica feita pelo oráculo, e por desconhecer sua origem “genética”, foge daquele destino justamente por amar os pais adotivos – ao mesmo tempo em que era amado por eles. Sua escolha indica que em Corinto não houve naufrágio, não há prisão, pois o amor se tornara a condição necessária e suficiente para a liberdade.
Restam, contudo, laços arcaicos não elaborados junto à mãe (isto é, a função materna jocastiana), situação que dá margem a um mecanismo de chamaríamos de cisão: ora, “ganhar” a mão de Jocasta por meio de um ato heroico faz dela nada mais que um troféu; além disso, Édipo a recebe sem conhecê-la! Como lidar, portanto, com uma realidade tão “quebrada”?
É aqui que entra (ou deveria entrar) a Lei do pai, leia-se, a introdução de uma instância terceira que opera o corte da célula narcísica. No entanto, uma lei, para ser respeitada, deve não apenas ser temida (algo que se estabelece por sua potência de interdição e de punição), mas também ser amada, pois, no que tange à subjetividade, é preciso que a lei seja desejada. “Só o amor e a liberdade, subordinando e transfigurando o temor, permitem uma verdadeira, positiva e produtiva relação com a lei”, sugeriu o psicanalista (Pellegrino, 1983/2018, p. 2). Em outras palavras, o desejo de lei é dialeticamente referido à lei do desejo: só se pode desejar uma vez engendrada essa lei, e é justamente a sua própria constituição que empurra o sujeito para o registro simbólico, ampliando assim o escopo de sua vida psíquica para além da “literalidade” das coisas, por assim dizer.[5]
O pacto edípico consiste, logo, em a criança aceitar seu lugar de terceiro excluído no tocante ao desejo originário, isto é, um desejo que opera a primeiríssima passagem da natureza à cultura e que abre caminho para as demais travessias subjetivantes. Em termos simbólicos, trata-se de uma proibição que leva a uma permissão: trocar a mãe (o incesto) por “todas as mulheres do mundo” – lugar-comum que não deixa de ser verdadeiro. No fundo, o que nos ensinaria a tragédia de Édipo é que é preciso aceitarperder para ganhar. E esta lei é estruturante do desejo porque é ao limitá-lo que se proporciona a sua consistência, ou ao menos o situa frente a um horizontede realização, dada a condição de impossibilidade a priori de “realização de desejo”. O que não é nenhuma humilhação, evidentemente, mas bem o contrário: trata-se de uma possibilidade real de se inserir no laçosocial uma vez que a realidade é inelutavelmente parcial, tanto quanto as satisfações que nela pode(re)mos encontrar.
O complexo de Édipo é, por conseguinte, um pacto, uma aliança na qual as duas partes devem ganhar em virtude da introdução do princípio de realidade. Os ganhos são: filiação e pertencimento, nome, lugar na estrutura de parentesco, acesso ao simbólico, enfim, os veículos que permitem uma vida em sociedade. De tal como que o trabalhose torna uma estrutura mediadora fundamental da vida coletiva, pois, em boa medida, é por meio dele que tomamos parte constituinte no mundo: trabalhar (não se trata necessariamente de emprego) significa inserir-se no tecido social por intermédio de uma práxis, é o mesmo que aceitar a ordem simbólica que nos constitui e na qual imperam direitos e deveres para todos e para cada um.
Como Freud já apontava desde o Mal-estar, o caminho da civilização, quer dizer, um regime de não barbárie, consiste necessariamente numa renúncia pulsional em favor de Eros,já que com ela também se renuncia uma parte da agressividade que motoriza o ódio que nos habita. Contudo, operar uma renúncia desta ordem exige uma articulação direta com as condições reais, como adverte Pellegrino. Restam algumas questões: como fazê-la nas condições sociais em que nos encontramos, concretamente falando, já hoje tão inseridos num sistema ultra-capitalista e que sustenta a injustiça social como um fato corriqueiro edado de antemão? Ora, se o complexo de Édipo consiste num perder para ganhar, como vimos, como seria possível atravessá-lo sem a menor perspectiva de ganhar? Como suportar o mal-estar, inerente à subjetivação, em um mundo que alija o sujeito de seus direitos mais básicos? E como articular, por fim, o pacto edípico com o pacto social nesta realidade pós-golpe?
Em maio deste ano o pré-candidato à presidência da República pelo PSOL, Guilherme Boulos, concedeu uma entrevista ao Roda Viva na qual se verifica sem dificuldade o quanto fora atacado pela bancada – o que aliás se tornaria corriqueiro, nos próximos programas, com os candidatos mais afinados ao discurso progressista. Tomando isso em conta, quero destacar um trecho em especial no qual o inconsciente coxinha, ao qual me referi no título deste ensaio, se pronuncia à alta voz. Neste caso, quem está se dirigindo a Boulos é Rubens Machado, cientista político reconhecidamente ligado aos governos de Fernando Henrique Cardoso.
“Candidato”, assim inicia o entrevistador, “o senhor tem uma grande simpatia pela Venezuela, expressa em vários vídeos que eu tive a oportunidade de assistir ao longo desse período, do convite até hoje. Nós estamos falando que o Brasil está retroagindo, então vamos falar de um país que avança, que é a Venezuela”. Rubens apresenta na sequência, não sem um tom dissimuladamente irônico, alguns dados que julga relevantes à discussão: “2016 com inflação superior a 800%”, “PIB caiu 19%”, e “75% da população perdeu 9 kg ao longo do tempo”; “ela é um pouco o modelo que o PSOL defende”, conclui, e junto a isso “rechaçar a conciliação de classes – a frase é essa!” e que o entrevistador, a propósito, sublinha, enquanto Boulos aguarda, roçando a mão em seu próprio cavanhaque. O cientista político mostra então a “divisão do perfil ideológico do brasileiro” segundo o índice Datafolha: “10 direita, 20 centro direita, 20 centro, 20 centro esquerda, 10 esquerda”. “Como é possível” – ele está prestes a concluir –, “num perfil desses, você rechaçar a conciliação de classes?”, pergunta, enfim, para chegar ao ápice de seu cinismo, no mau sentido do termo: “é através de invasões?”
Um aspecto a se destacar logo de antemão, e que se apresenta como um detalhe, é que a aritmética de Rubens sobre o perfil ideológico do brasileiro soma 80%, ou seja, não alcança os 100 necessários a uma situação de percentagem… Embora na aparência insignificante, engraçado até, arrisco dizer que este lapso já antecipa, em ótima medida, o inconsciente a se revelar, sendo uma espécie de indício prévio de que vem na sequência e que naturalmente escapa ao entrevistador. Além disso, a resposta que Boulos dá à pergunta nos interessará mais pelo que ele não dizdiretamente; basta, pelo momento, destacar apenas a primeira parte, excerto que funciona, a propósito, como uma espécie de interpretação porque descortina com agudeza o inconsciente coxinha para o qual estou querendo chamar a atenção. Vejamos um pouco mais de perto.
Boulos começa reiterando o orgulho de fazer parte do “extraordinário partido que é PSOL”, sobretudo em função do barulho que a sua “pequena” bancada faz (“seis que fazem mais barulho do que cinquenta”), além de sua “coerência, justiça e combatividade”. Sem perder tempo, destaca: “primeiro você perguntou a respeito da Venezuela: eu não acho adequado, de bom tom fazer chacota com países que estão passando por momentos difíceis”. Rubens o interrompe: “Não fiz chacota, citei dados”, ao que o entrevistado retruca: “Você falou que ela [a Venezuela] está avançando, sendo irônico, não acho que isso está adequado” (e daí Boulos segue relembrando aos espectadores a recente crise do petróleo, ponto nevrálgico da problemática venezuelana).
Pois bem, o lapso é apontado por Boulos no aqui-agora e em rede nacional, impedindo que seja recalcado; a meu ver, é deste modo, precisamente, que o inconsciente coxinha se expressa: a mensagem vem acompanhada de um afeto – o ódio, é claro –, ele mesmo travestido por uma canalhice argumentativa que se sente, no geral, impune. Há uma negação clássica aí – “não fiz chacota” –, e é como se o entrevistador negligenciasse, por um átimo de segundo, sua própria estupidez ao criticar de modo irônico, gozoso até, um regime de governo que seria “de esquerda”. Como não poderia ser diferente, a fala odiosa é acompanhada por sua contrabanda inconsciente, que, de sua parte, essa sim, nunca falha… e eis que então a sua sordidez é desmascarada, no ato, pelo “psicanalista Guilherme Boulos”.[6]
Outro exemplo igualmente forte pôde ser observado por muitos brasileiros devido ao seu alcance: “o Brasil voltou, 20 anos em 2”, dizia o slogan de governo mais atrapalhado[7]na história recente do país. “Implorando para ser interpretado como ato falho”,[8]é como se a assessoria da presidência golpista tivesse dado uma ótima chance para que todos pudessem entender, de uma vez por todas, a concepção freudiana de inconsciente: neste caso, a leitura é ainda mais simples que a anterior: basta retirar a vírgula e o tiro no pé está dado – vale lembrar que o inconsciente sempre revela senão a verdade.[9]
Retornando ao problema dos pactos, temos que a renúncia do princípio de prazer (que funciona de modo onipotente), tem como contraoferta uma abertura de possibilidades de viver, isto é, a preservação da integridade física e psíquica para qualquer sujeito. Quando, no entanto, o pacto é de mão única – como se dá na realidade aviltante em que muitos brasileiros passaram a viver sobretudo neste período pós-golpe –,[10]há ruptura, rompimento, revolta. “Do mesmo modo que a satisfação de pulsões é felicidade”, escreveu Freud há mais de oitenta anos, “torna-se causa de muito sofrer se o mundo exterior nos deixa à míngua, recusando-se a nos saciar as carências” (1930/2010, p. 34). Contudo, se por um lado o mal-estar sublinhado por Freud é inerente à nossa constituição psíquica, o mesmo não se pode dizer da miséria, que não é outra coisa senão produto desta mesma civilização, que, vale sublinhar, só existe em função do pacto.
O psicanalista Paulo Endo relembra que “parte importante da tarefa das instituições civilizacionais é cuidar para que se preserve o que Fédida denominou de o recalcamento do recalcamento” (2016, p. 185): trata-se, grosso modo, de um movimento que visa recalcar mais uma vez o recalcado (isto é, o já instituído), visando com isso manter uma certa estrutura de poder. Deste modo, a instituição está para a civilização, para a cultura, assim como o sintoma estaria para a neurose; a instituição seria, portanto, um sintoma, uma defesa que visa manter o mais longe possível a verdade, a saber: que as possibilidades de emancipação e de liberdade estão presentes na vida coletiva, e não fora dela.
Ora, o inconsciente coxinha parece funcionar em bases idênticas. Disse Freud que a neurose seria, em grande medida, a frustração, ou melhor, a privação que a sociedade impõe paradoxalmente a si mesma para que possa viver nela; assim, o outro é tanto objeto de amor quanto de ódio, muitas vezes mediado pelo narcisismo das pequenas diferenças. No caso aqui analisado, é como se o coxinha imputasse a um só partido, ou a um certo modo de pensar, essa privação que o tolheria de viver plenamente seus recursos. Mas sabemos que não é disso apenas que se trata. É preciso também machucar esse outro, humilhá-lo, retirar dele todo poder: como se ouviu em muitas das mídias sociais, chegamos ao ponto em que se tornara insuportável à mentalidade coxinha “ver pobre andando de avião”.
Sem um pacto social, algo como o que se rasgou com o Golpe parlamentar, corremos o risco perene de retorno ao recalcado primordial, à massa informe de um tempo sem laço e sem lei. Talvez isto nos ajude a entender um pouco este ressentimento cada vez mais frequente na boca dos muitos brasileiros que apelam para algum tipo de tirania (!) que nos viesse salvar. O fermento do ódio está dado. Tudo isto seria cômico se não fosse trágico, evidentemente, e se comecei este texto com um chiste, não é no mesmo tom que eu poderia encerrá-lo, pois restaria saber se ainda resta alguma esperança de analisabilidade em meio à barbárie galopante.

Referências
ENDO, P. Um futuro sem inscrição no tempo presente e sem tributo ao passado: o insidioso retorno dos tiranos e de sua horda. In: Rinaldo Voltolini (org.) Crianças públicas, adultos privados. São Paulo (SP): Escuta/Fapesp, 2016.
FREUD, S. Mal estar na civilização, novas conferências introdutórias e outros escritos. São Paulo: Companhia das Letras, 2010.
PELLEGRINO, H. Pacto edípico e pacto social.Folha de São Paulo, 1983. In: http://www.psicologiahailtonyagiu.psc.br/materias/ponto-vista/287-pacto-edipico-e-pacto-social-helio-pellegrino. Acessado em 17/05/2018
RANCIÈRE, J. O ódio à democracia. São Paulo: Boitempo, 2016.
[1]http://midianinja.org/luizeduardosoares/villasboas-faz-a-maior-chantagem-a-justica-desde-a-ditadura/
[2]João Amoedo, pré-candidato à presidência da república nas eleições de 2018 pelo partido Novo, é um representante claro desta posição.
[3]Este trabalho veio inclusive a ser publicado, de modo bastante resumido, na Folha de São Paulo de 11 de setembro de 1983.
[4]Mérope e Políbio
[5]O que se aplica à questão da lei do pai: se o pai não é morto no simbólico, acaba sendo assassinado no real, como é o caso de Laio.
[6]Quando se apresenta publicamente, Boulos costuma mencionar os estudos de psicanálise que realizou.
[7]A ambigüidade desta minha frase é evidentemente intencional.
[8]https://www1.folha.uol.com.br/poder/2018/05/slogan-o-brasil-voltou-20-anos-em-2-implora-para-ser-interpretado-como-ato-falho.shtml
[9]A meu ver, e acredito não estar sozinho, o aumento na quantidade de pessoas vivendo em situação de rua ou prestes a nela entrar se tornou pornograficamente observável desde o impeachment.
[10]Mas não somente aí, evidentemente: nosso passado é uma longa história de quebra de pacto.