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terça-feira, 9 de agosto de 2022

O dia em que a mídia brasileira descobriu Murdoch e como manipular politicamente as informações à favor dos interesses dos mais ricos. Artigo de Luis Nassif

 "No Brasil, o discurso do ódio, atendendo a interesses do submundo dos negócios e desmonte civilizatório, encontrou um dos seus ápices na campanha do desarmamento, com a capa da revista Veja contaminando irreversivelmente a democracia brasileira, abrindo um mercado que foi amplamente explorado pela Veja, Record, rádio Jovem Pan, e por nomes como Diogo Mainardi e Olavo de Carvalho, este último representante da ultradireita nas redes sociais." -



Artigo de Luis Nassif, publicado no Jornal GGN:

O dia em que a mídia brasileira descobriu Murdoch

Inicialmente ligado ao marketing político e, posteriormente, à busca dos meios de comunicação para ganhar protagonismo político diante da crise econômica, a imprensa internacional descobriu o discurso de ódio, o movimento das Fake News e a disputa pelo controle das redes sociais na campanha de Barack Obama para a Presidência dos Estados Unidos.

No Brasil, o discurso do ódio, atendendo a interesses do submundo dos negócios e desmonte civilizatório, encontrou um dos seus ápices na campanha do desarmamento, com a capa da revista Veja contaminando irreversivelmente a democracia brasileira, abrindo um mercado que foi amplamente explorado pela Veja, Record, rádio Jovem Pan, e por nomes como Diogo Mainardi e Olavo de Carvalho, este último representante da ultradireita nas redes sociais.

De lá para cá, uma sucessão de capas da revista Veja jogava o jornalismo brasileiro no ponto mais baixo da sua história, um período turbulento de disseminação do ódio, acentuado pelo Mensalão e pela Lava Jato. 

No artigo “O dia em que a mídia brasileira descobriu Murdoch”, publicado pela primeira vez no dia 16 de janeiro de 2015, detalha-se o antecessor desse fenômeno, quando o Partido Republicano dos EUA recorreu à Fox News, do australiano Rupert Murdoch, abrindo espaço para o chamado ativismo do liberalismo-progressista e a atuação de empresas de algoritmos como a Cambridge Analytica, que ajudou a eleger Donald Trump, e tornou-se peça-chave no avanço da ultradireita mundial. Confira:

Em meados dos anos 2000, subitamente o Olimpo da mídia passou a ser invadido por corpos estranhos, dinossauros de direita que se supunha extintos desde o final da Guerra Fria, com uma linguagem vociferante, bélica, atacando outros jornalistas, pessoas públicas, partidos políticos, com um grau de agressividade inédito. Inaugurava-se o que batizei, na época, de jornalismo de esgoto.

O grande movimento começou por volta de 2005, coincidindo com a montagem do cartel midiático liderado por Roberto Civita, o cappo da Editora Abril.

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Inspirada no australiano-americano Rupert Murdoch, a estratégia adotada consistia em juntar todos os grandes grupos de mídia em uma guerra visando ganhar influência para enfrentar os grupos que surgiam no bojo das novas tecnologias.

Desde seus primórdios, a indústria de comunicação de massa ganhou a capacidade de criar um universo virtual, com enorme influência sobre o universo real. Personalidades construídas pela mídia são agentes poderosos de influência em todos os campos. Ao contrário, as vítimas de ataques sofrem consequências terríveis em sua vida pessoal, profissional.

Nas democracias imperfeitas – como é o caso da brasileira -, com enorme concentração de poder, trata-se de um poder tão ilimitado que uma das “punições” mais graves impostas a recalcitrantes é a “lista negra”, a proibição da citação de seu nome em qualquer veículo. O sujeito “morre”, desaparece.

Em um modelo competitivo de mídia, essas idiossincrasias são superáveis, permitindo a diversificação de pensamento.

De fato, o fim da guerra fria – no caso brasileiro, o fim da ditadura e o pacto das diretas – produziu um universo relativamente diversificado de personalidades, entre jornalistas, intelectuais, empresários, artistas e celebridades em geral, bom para o pluralismo e para o jornalismo, ruim para as estratégias políticas da mídia.

Montado o pacto, o primeiro passo foi homogeneizar o universo midiático, acabando com o contraditório.

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Nos Estados Unidos, a estratégia de Rupert Murdoch foi criar um inimigo externo, que substituísse os antigos personagens da Guerra Fria. Os atentados às Torres Gemeas vieram a calhar. E calar eventuais vozes independentes, de jornalistas, com ataques desqualificadores, para impedir o exercício do contraponto.

A estratégia brasileira imitou esse modelo, criando fantasmas bolivarianos, ameaças ficcionais à democracia e ataques desqualificadores aos críticos.

O fuzilamento de recalcitrantes baseou-se em um modelo retratado no filme “The Crusader” que, no Brasil, recebeu o nome de “O Poder da Mídia” – dirigido por Bryan Goeres, tendo no elenco, entre outros, Andrew McCarthy e Michael York. É de 2004.

Narra a história de uma disputa no mercado de telecomunicações, no qual o dono da rede de televisão é cooptado por um dos lados. A estratégia consistiu em pegar um repórter medíocre e turbiná-lo com vários dossiês até transformá-lo em uma celebridade. Tornando-se celebridade, o novo poder era utilizado nas manobras do grupo.

Por aqui o modelo foi testado com um colunista de temas culturais, Diogo Mainardi. Sem conhecimentos maiores do mundo político e empresarial, foi alimentado com dossiês, liberdade para ofender, agredir e, adicionalmente, tornar-se protagonista nas disputas do banqueiro Daniel Dantas em torno das teles brasileiras.

Lançado seu livro, os jornais seguiram o script de “construir” uma reputação da noite para o dia e alça-lo à condição de celebridade. O ápice foi uma resenha do Estadão comparando-o a Carlos Lacerda e um perfil na Veja tratando-o como “o guru do Leblon”. Tornaram-se peças antológicas do ridículo desses tempos de trevas.

Foi usado e jogado fora, quando não mais necessário. Seus ataques a vários jornalistas serviram de álibi para as organizações fazerem o expurgo e montarem a grande noite de São Bartolomeu da mídia.

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A segunda parte do jogo foi a reconstrução do Olimpo midiático com uma nova fauna, que se dispusesse a preencher os requisitos exigidos, de total adesão à estratégia do cartel. Não bastava apenas a crítica contra o governo e o partido adversário. Tinha que se alinhar com o preconceito, a intolerância, expelir ódio por todos os poros, tratar cada pessoa que ousasse pensar diferente como inimigo a ser destruído.

Vários candidatos se apresentaram para atender à nova demanda. De repente, doces produtores musicais, esquecidos no mundo midiático, transformaram-se em colunistas políticos vociferantes e voltaram a ganhar os holofotes da mídia; intelectuais sem peso no seu meio tornaram-se fontes em permanente disponibilidade repetindo os mesmos mantras; humoristas ganharam programas especiais e roqueiros espaço em troca das catilinárias. Dessa fauna caricata se exigia a lealdade absoluta, a capacidade de exercitar a palavra “canalha” para se referir a adversários e nenhum pudor para repetir os mantras ideológicos das senhoras de Santana.

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Mas a parte que interessa agora – para entender a ação que me move o diretor da Globo Ali Kamel – foi o papel desempenhado por diretores de redação com ambições intelectuais.

Com autorização para matar e para criar a nova elite de celebridades midiáticas, ambicionaram não apenas o poder midiático, mas julgaram que eles próprios poderiam cavalgar a onda e ocupar o posto de liderança da nova intelectualidade que a mídia pretendia forjar a golpes de machado. Eles construíam o novo Olimpo e se candidatavam ao posto de profetas, assumindo outro Olimpo – o do mundo intelectual – que estava a léguas de distância de sua capacidade.

Montaram um acordo com a editora Record e, de repente, todos se tornaram pensadores e escritores. Cada lançamento recebia cobertura intensiva de todos os veículos do cartel, páginas na Veja e na Época, resenhas na Folha, Globo e Estadão, entrevistas na Globonews e no programa do Jô.

Durante algum tempo, o mundo intelectual tupiniquim testemunhou um dos capítulos mais vexaminosos de auto-louvação, uma troca de elogios e de favores indecente, sem limite, que empurrou a grande mídia brasileira para o provincianismo mais rotundo.

Diretor da Veja, Mário Sabino lançou um romance que mereceu uma crítica louvaminhas na própria Veja, escrita por um seu subordinado e campanhas de outdoor em ônibus bancada pela própria Record – que disseminava a lenda de que o livro estaria sendo recebido de forma consagradora em vários países. O livro de Kamel foi saudado pela revista Época, do mesmo grupo Globo, como um dos dez mais importantes da década.

Coube à blogosfera desmascarar aquele ridículo atroz, denunciando a manipulação da lista dos livros mais vendidos de Veja, por Sabino, para que sua obra prima pudesse entrar. E revelando total ausência das supostas edições estrangeiras de Sabino na mais afamada e global livraria virtual, a Amazon.

Na ação que me moveu, um dos pontos realçados por Kamel foi o fato de ter colocado em meu blog um vídeo com a música “O cordão dos puxa sacos”, para mostrar o que pensava da lista dos livros mais relevantes da década da revista Época.

***

Graças à democratização trazida pelas redes sociais, os neo-intelectuais não resistiram à exposição de suas fraquezas. Voltaram para o limbo da subcultura midiática.

Kamel conformou-se com seu papel de todo-poderoso da Globo, mas com atuação restrita aos bastidores, onde seus subordinados são obrigados a aceitar seu brilho e acatar suas orientações; Sabino desistiu da carreira de candidato ao Nobel de literatura.

Derrotados no campo jornalístico, no mano-a-mano das disputas intelectuais, recorreram ao poder das suas empresas para tentar vencer no tapetão das ações judiciais, tanto Kamel quanto Sabino, Mainardi, Eurípides.

Ao esconder-se nas barras da saia das suas corporações, passaram a ideia clara sobre a dimensão dos homens públicos que eram, quando despidos das armaduras corporativas.

Leia mais em O CASO VEJA.

Essa publicação também faz parte da investigação do projeto Xadrez da ultradireita mundial à ameaça eleitoral, para o documentário sobre o avanço da ultradireita mundial e a ameaça às eleições. Apoie aqui!

terça-feira, 29 de outubro de 2019

O Bar Bodega da Mídia Privada ou de quando a imprensa nas mãos de políticos e empresários gerou o ovo da serpente do bolsonarismo. Texto de Luiz Nassif



  Aqui, uma coletânea de artigos que publiquei no período, alertando para os riscos de um jornalismo comprometido apenas com o sensacionalismo. E a defesa enfática do garantismo como única maneira de não se soçobrar na selvageria.

Por
 Luis Nassif

Hoje, na Folha, o repórter Rogério Pagan traz informações importantes sobre um dos mais graves crimes de imprensa dos anos 90, o caso do Bar Bodega. Mostra o trabalho solitário do segurança do bar, quando percebeu a armação da polícia imputando o crime aos cinco rapazes, negros é claro, de uma favela próxima.
Faltou o dado mais relevante, o papel da mídia no episódio. O sensacionalismo barato, os assassinatos de reputação, o desrespeito aos direitos fundamentais, já eram parte integrante do jornalismo dos anos 90. Estava sendo gestado lá o ovo da serpente do bolsonarismo.
Mas havia ainda um pluralismo, do qual me vali para denunciar as mazelas, cobrar responsabilidades. Esses crimes estão narrados no livro “O jornalismo dos anos 90”, que padece de um grande erro: a conclusão final de que a competição com a Internet poderia moderar a irresponsabilidade da cobertura da imprensa.
Aqui, uma coletânea de artigos que publiquei no período, alertando para os riscos de um jornalismo comprometido apenas com o sensacionalismo. E a defesa enfática do garantismo como única maneira de não se soçobrar na selvageria.

Introdução ao jornalismo dos anos 90

Em geral, há dois grupos ideologicamente diferentes beneficiários da catarse popular. Um, mais à esquerda, explorando qualquer evento que envolva a chamada “classe dominante” –incluídos nessa generalização qualquer membro de classe média remediada para cima. Outro, mais à direita, explorando qualquer episódio de violência urbana da marginalidade, e mais restrito às emissoras de rádio.
O caso “bar Bodega” fez a festa do segundo grupo. No dia 10 de agosto de 1996 bandidos entraram em um bar frequentado por jovens de classe média, atiraram e mataram o dentista José Renato Tahan e a estudante Adriana Ciola. O episódio provocou comoção popular e abriu espaço para explorações de toda natureza. Uma rádio paulistana deu início a uma campanha contra a violência, exortando empresas e famílias a colocarem faixas brancas nas fachadas. Até a Federação das Indústrias de São Paulo aderiu ao movimento.
Através de seu repórter policial, Valmir Salaro, a TV Globo mais uma vez foi a que mais repercutiu o episódio, graças à sua notável audiência. Pressionado pela campanha, em quinze dias o delegado responsável pelo inquérito prendeu nove suspeitos do crime, rapazes e meninos moradores de uma favela das imediações. Os rapazes permaneceram detidos por 60 dias. Três deles “confessaram o crime”.
Dois meses depois, o promotor Eduardo Araújo da Silva divulgou a suspeita de que os meninos haviam sido torturados, confessado sob tortura, e pediu sua libertação. Imediatamente foi alvo de campanha maciça de protestos, especialmente por parte das rádios e televisões.
Meu primeiro artigo foi escrito aí, em pleno tiroteio, defendendo a posição do promotor.
Em novembro, a Divisão de Homicídios prendeu seis acusados, e a Justiça condenou cinco, como os verdadeiros culpados pelo crime do Bar Bodega.
Mais: descobriu-se que os meninos haviam sido torturados na delegacia. Pior: com o conhecimento dos repórteres que cobriam o caso. A campanha conseguira isso, não apenas o de cegar a opinião pública em relação aos argumentos da defesa, como tornar jornalistas cúmplices de tortura.
Anos depois, um homem de aspecto jovem, acompanhado de esposa e filho, me aborda no Pátio Higienópolis, e se apresenta. Era o promotor Eduardo Araújo da Silva. Lá, me relatou as pressões que sofreu. Quanto às de fora, não se importava. A pressão maior foi da própria corporação, preocupada com a própria imagem em função da campanha encetada pelos meios de comunicação.
O primeiro artigo saiu em 26 de outubro de 1996. O segundo no início de novembro, quando o erro geral da mídia estava suficientemente comprovado e –pior que isso— estavam confirmadas as acusações de tortura, testemunhadas e não denunciadas pelos jornalistas que cobriram o episódio.
Aparentemente, a coluna conseguiu sensibilizar consciências jornalísticas. No dia seguinte o “Jornal Nacional” publicou uma reportagem candente sobre os erros da imprensa, curiosamente preparada por seu repórter policial Valmir Salaro, jornalista que cobriu os escândalos mais clamorosamente errados da mídia.

27/10/1996 Caso Bar Bodega

A atitude do promotor Eduardo Araújo da Silva –de pedir a revogação, por falta de provas, da prisão preventiva dos sete acusados pelas mortes no bar Bodega, em São Paulo—, engrandece o Ministério Público paulista. Ao obter acusações sob tortura, e eventualmente incriminar inocentes, a polícia fere direitos humanos dos acusados e os direitos de quem necessita de segurança –já que se livra da pressão pública, sem ter cumprido seu dever, deixando soltos os verdadeiros culpados.
O promotor e o juiz não correriam risco perante a opinião pública, se cedessem ao “clamor das ruas” e mantivessem presos os acusados, mesmo sem o amparo de provas. Mas correm risco efetivo de incompreensão, se no futuro surgirem evidências da culpa dos acusados.
Conhece-se um grande homem justamente por essa capacidade de correr riscos, em nome de suas convicções. Principalmente quando estão em jogo os direitos de humildes cidadãos anônimos.

16/11/1997 Mais um erro da imprensa

No meio da semana, nós, da imprensa, abrimos chamadas burocráticas em rádios, televisões e jornais: “Mais um erro da polícia”. Referíamo-nos ao caso Bodega: dois rapazes de classe media assassinados em um assalto; sete suspeitos presos, quase todos pretos, todos pobres.
Algumas semanas atrás, um promotor corajoso opinou por sua libertação, denunciando que tinham sido vitimas de tortura. E foi alvo de criticas candentes.
Soltos os suspeitos, o caso muda de delegacia e chegam-se a novos suspeitos. E as chamadas burocráticas na imprensa repetem mais uma cerimonia de lava-mãos: mais um erro da policia.
Só́ isso? E as reportagens que condenaram a todos antecipadamente? Como ficamos nós, com fica nossa responsabilidade social?
Os sete jovens confessaram o crime sob tortura. Durante dias, jornalistas se tornaram íntimos do delegado. Receberam as informações que ele quis passar, frequentaram a delegacia, tiveram acesso aos suspeitos. E não saiu uma linha sequer informando a opinião publica de que tinham sido torturados!
O que está acontecendo com a gente? Anos de resistência contra a ditadura, luta contra a censura, pelos direitos humanos, tudo reduzido a uma busca sôfrega de sensacionalismo, a um vale-tudo onde tudo é permitido, desde que se tenha a matéria de impacto. Processos reiterados de linchamentos, com jornalistas comportando-se como policiais ou como linchadores vulgares.
Criamos essa oitava maravilha da impunidade que é o jornalismo sem riscos
Mas será́ que é isso que queremos? É cômoda essa posição de, em vez de respeito, infundir temor? É agradável estar numa roda e sentir que todos se calam quando descobrem que há um jornalista no meio?
Ou se recuperam rapidamente os valores éticos fundamentais da profissão, ou corremos o risco de até continuarmos poderosos. Mas sem nenhuma condição de permanecermos respeitados.

Coluna de 16/12/2000 – O mérito do Judiciário

A busca da justiça tem que se dar com um Judiciário forte. As críticas contra seus vícios têm que ser daqueles que, antes de mais nada, acreditam que só haverá respeito aos direitos individuais com um Judiciário forte. E que a melhor ferramenta para o respeito aos direitos individuais é o processo judicial aprimorado, dando todo direito às partes de serem ouvidas -seja ela um honesto dono de escola da Aclimação ou um bandido com crimes comprovados.
O maior desafio que um juiz pode enfrentar é sobrepor sua consciência individual às pressões de toda espécie -da qual a mais insidiosa é a busca da notoriedade.
Por isso, ao receber a Medalha do Mérito Judiciário Ministro Nelson Hungria -outorgada ontem pelo Tribunal Regional Federal da 1ª Região- , dedico aos valentes, que investiram contra os linchadores e colocaram seus princípios acima do seu medo -o juiz que deu a sentença do caso Herzog; o promotor Eduardo Araújo da Silva, que pediu a libertação dos meninos acusados pelo crime do bar Bodega; a juíza Sandra de Santis de Mello, que não mandou a júri os rapazes que queimaram os pataxós; o juiz Hélder Girão, que se voltou contra os abusos de seus pares; e a jovem juíza Raecler Baldesca, que impediu que, sem base legal, se consumasse a prisão do empresário Luiz Estevão, mas que, tenho certeza, lhe aplicará a pena mais severa, quando as acusações contra ele forem comprovadas.

Coluna de 10/11/2001 que pensam os justiceiros

O sacrifício ritual dos rapazes permite malhar figurativamente o “governo”. “Governo”, na maioria dos casos, é visto como uma entidade abstrata, que sintetiza todas as mazelas do mundo, toda injustiça, toda opressão. Afinal, nenhum dos rapazes -nem seus pais- pertence ao “governo” nem à chamada “elite de Brasília”. Ao governo, pertence o presidente FHC, que -para vergonha do intelectual FHC- sancionou o linchamento.

Os defensores do direito absoluto das maiorias são, por definição, propensos ao autoritarismo. Alguns disfarçam, outros são bastante explícitos, como é o caso do leitor em questão: “É revoltante que um jornal como a Folha abra seu espaço, por três dias seguidos, para um senhor chamado Luís Nassif fazer a apologia de quatro assassinos! (…) De minha parte espero uma posição da Folha a respeito desse episódio, uma vez que penso seriamente em suspender minha assinatura”.
Esse tipo de público não se prende muito a análises críticas de fatos. Busca a catarse, e alguns perdem o prumo quando acontece algo que atrapalhe essa celebração ritual. Em alguns casos, mais raros, os leitores não extravasam frustrações nem buscam outros inimigos na “malhação dos Judas”, mas advogam simplesmente a lei de talião -o famoso “olho por olho”, ultrapassado pelos processos judiciais modernos. É o caso do leitor G: “Li seu artigo hoje e gostaria de lhe dizer que, segundo a Bíblia, aqui colhemos o que semeamos. Podemos (e devemos) perdoar nossos inimigos, como nos diz Jesus Cristo, mas Deus não vai deixar de puni-los”.

Esse sentimento -de que o processo judicial, o contraditório (ou seja, contrapor os fatos), é uma maneira de evitar a punição- está presente em boa parte dos e-mails, demonstrando o descrédito na Justiça. Diz o leitor C.: “O “coitadismo” não pode prevalecer sobre a idéia de Justiça. E será que o que você chama de linchamento não é simplesmente uma reação legítima diante da verdade incontroversa dos fatos apurados?”. Mesmo sem ter consultado os autos, o leitor considera a verdade “incontroversa”, inclusive acerca da motivação e dos antecedentes dos jovens, mostrando o excepcional poder de convencimento da mídia.

É evidente -e não poderia ser diferente- que no meio dos e-mails apareceriam os membros das torcidas organizadas de futebol. Como o leitor A.C.S., que mandou o e-mail todo em maiúsculas: “LUIS NASSIF, CADA VEZ MAIS V. TORNA-SE UM JORNALISTA CHAPA-BRANCA. DEFENDEU A CPMF, ESTÁ DEFENDENDO ASSASSINOS FILHINHOS DE JUÍZES. AFINAL, QUEM LHE PAGA? A FOLHA DE SP, PARA UM JORNALISMO ISENTO, COERENTE, JUSTO, OU ALGUM PISTOLÃO DO GOVERNO FEDERAL?”.

Fazer parte dessas maiorias autoritárias expõe seus membros a companhias desse naipe. No fundo, é apenas uma diferença de verniz.

Coluna de 21/08/1997 O pluralismo da mídia

Se os acusados são pretos e pobres, levantam-se os porta-vozes da direita exigindo seu linchamento (caso Bodega). Se são brancos e de classe média, levantam-se os porta-vozes da esquerda querendo levá-los à fogueira (caso Galdino). Invariavelmente, não analisam o episódio nem respeitam os direitos individuais dos acusados. Não lhes importam os fatos, mas a simbologia, o álibi para obter projeção. Não existe nada mais semelhante do que os justiceiros de direita e de esquerda.
(…) Essa incapacidade de perseguir objetivamente os fatos reflete-se em todo o noticiário -não apenas no policial. É um vício de cobertura, que apequena o papel da imprensa e impede que realidades complexas sejam transmitidas com isenção aos leitores.
A diferença de padrão entre as reportagens de publicações internacionais e as nossas é patética. Naquelas, a capacidade de descrever conflitos, mostrando ângulos diferentes dos casos e permitindo ao leitor fazer seu julgamento.
Aqui, o monolitismo absoluto, primário. Qualquer explicação que possa reduzir o impacto das matérias é deixada de lado, para não “esfriar” a denúncia. Leitores que já dispõem de uma exigência maior de qualidade são obrigados a engolir fatos de um ângulo só, como um pianista que só sabe tocar com um dedo.
Vai mudar, não se tenha dúvida. A cada dia que passa, mais leitores, mais jornalistas e mais jornais se chocam com esse primarismo. Nos veículos mais responsáveis, já se nota claramente a preocupação com a ética e a qualidade jornalística. Há um movimento nos sindicatos e nas faculdades para discutir essas questões.
É questão de tempo para que esse primarismo seja varrido do mapa, institua-se o verdadeiro pluralismo que caracteriza as sociedades democráticas e a mídia avance degraus no sentido da qualidade e da defesa dos direitos individuais.
Mas quantos mortos a mais serão deixados pelo caminho?

Coluna de 19/08/1997 O Editor que virou juiz

A propósito do bar Bodega, recebo carta de Fernando Moreira Gonçalves, promotor de Justiça de Jundiaí, narrando o que ocorreu no âmbito interno do próprio Ministério Público em função desse tal “clamor das ruas”.
Diz ele: “Lendo sua coluna deste domingo, não pude deixar de me lembrar do caso Bodega, no qual sua manifestação de apoio ao promotor de Justiça Eduardo Araújo da Silva, num momento em que ele era questionado dentro do próprio Ministério Público, foi fundamental para a preservação da atuação independente daquele promotor”. E, se alguém não tivesse remado contra a maré, o que seria dos rapazes que haviam virado alvo preferencial da turba?
O mesmo ocorreu no caso Escola Base. Segundo livro publicado sobre o assunto, o desembargador Bruno de Andrés só ganhou coragem para investir contra o malfadado “clamor das ruas” e libertar inocentes após minha manifestação, pela TV Bandeirantes e pela Folha. E se não tivesse sido rompido o pacto de unanimidade?
Continua o promotor:
“Em fatos de grande repercussão social, como os acima citados, existe uma grande tensão entre a segurança pública, que todos desejamos, e os direitos e garantias individuais das pessoas investigadas. Tenha a certeza de que sua atuação tem sido importantíssima para a construção de um Estado democrático de Direito em nosso país”.
O que está em jogo não são os rapazes de Brasília ou o proprietário da Escola Base, mas princípios de direitos individuais que têm de ser seguidos, seja qual for o episódio, seja qual for o criminoso, se aspiramos, de fato, a nos tornar uma nação civilizada.
Outro engano é supor que a busca do sensacionalismo barato é inerente ao exercício do moderno jornalismo.
Recentemente, Boni -o homem da TV Globo- proibiu cenas escabrosas nos seus programas populares.
Moralismo? Nada disso. Confiança no próprio taco, crença de que é possível manter a atenção do espectador sem baixar a qualidade.
O jornalista que decide pelo enfoque sensacionalista da matéria o faz pela incapacidade de buscar um enfoque original e de qualidade. É o casamento da intolerância com a incapacidade.
Ao sonegar dados que possam “humanizar” os acusados, sabe ele aquilatar as consequências de seus atos? Dá-se conta de que está revolvendo os sentimentos mais baixos da opinião pública, o lado mais tétrico dos leitores, esse impulso animalesco rumo ao linchamento que em nada diferencia linchadores de assassinos, leitores sôfregos por vingança (não por justiça) de integrantes de torcidas organizadas de clubes de futebol?
Pergunto: é essa a sociedade que buscamos? Decididamente, não é.



sexta-feira, 12 de julho de 2019

Da Veja: Novos diálogos, indícios de conversas impróprias entre Deltan e Gebran



Há um mês o site The Intercept Brasil começou a divulgar conversas comprometedoras e com claras transgressões à lei entre o Ministério Público Federal, a Polícia Federal e o ex-juiz Sergio Moro, o atual ministro da Justiça. Tais diálogos eram travados fora dos autos e dentro de um sistema de comunicação privada, o Telegram. Em parceria com o site, Veja publicou em sua última edição uma reportagem de capa que mostra que a colaboração era ainda maior do que se imaginava. Na prática, Moro atuava como o chefe da força-tarefa, desequilibrando a balança da Justiça em favor da acusação. Um novo pacote de conversas obtidas pelo Intercept e analisadas em parceria com Veja traz fortes indícios de que os diálogos impróprios dos procuradores nos chats do Telegram também ocorreram com um dos membros do Tribunal Regional Federal da 4ª Região (TRF4), órgão encarregado de julgar em segunda instância os processos da Lava-Jato em Curitiba. O desembargador em questão é João Pedro Gebran Neto, que atua como relator dos casos da operação. Parte dos diálogos nos quais Gebran é citado se refere a Adir Assad, um dos operadores de propinas da Petrobras e de governos estaduais, preso pela primeira vez em março de 2015. Em setembro, ele acabou condenado pelo então juiz Sergio Moro a nove anos e dez meses de prisão pelos crimes de corrupção, lavagem de dinheiro e formação de quadrilha.




Cinco meses antes do julgamento do caso em segunda instância no TRF4, o procurador Deltan Dallagnol, chefe da força-tarefa em Curitiba, comenta em um chat com outros colegas do MPF: “O Gebran tá fazendo o voto e acha provas de autoria fracas em relação ao Assad”. O assunto é tema de outra conversa, de 5 de junho de 2017, entre Dallagnol e o procurador Carlos Augusto da Silva Cazarré, da força-tarefa da Procuradoria Regional da República da 4ª Região, que atua junto ao TRF4. No diálogo, ocorrido às vésperas do julgamento da apelação de Assad, Dallagnol mostra-se novamente preocupado com a possibilidade de Gebran absolver o condenado. Naquele momento, em paralelo, a força-tarefa negociava com o condenado um acordo de delação (esse acordo seria fechado em 21 de agosto de 2017). Daí a preocupação do MPF com a possibilidade de Assad ser absolvido e voltar atrás nas conversas sobre delação. No chat, Dallagnol aciona Cazarré, que fica em Porto Alegre, sede do TRF4. “Cazarré, tem como sondar se absolverão assad? (…) se for esse o caso, talvez fosse melhor pedir pra adiar agilizar o acordo ao máximo para garantir a manutenção da condenação…”, escreve Dallagnol. “Olha Quando falei com ele, há uns 2 meses, não achei q fisse (sic) absolver… Acho difícil adiar”, responde Cazarré. Na sequência, Dallagnol volta a citar Gebran: “Falei com ele umas duas vezes, em encontros fortuitos, e ele mostrou preocupação em relação à prova de autoria sobre Assad…”. Dallagnol termina pedindo ao colega que não comente com Gebran o episódio do encontro fortuito “para evitar ruído”.




Fora dos autos


Nos chats, há sempre a possibilidade de os participantes exagerarem situações ou se portarem de forma fanfarrona, fingindo intimidade com pessoas importantes. Considerando-se, no entanto, o histórico dos diálogos, nos quais fica evidente um grau indesejável de promiscuidade entre autoridades que deveriam manter independência, é mais provável que as conversas entre Dallagnol e Gebran tenham realmente acontecido. Se confirmada essa hipótese, a falha é gravíssima. “Um juiz, independente do grau em que atue, jamais pode abrir seu voto antes de finalizá-lo, e a decisão só pode ser comunicada nos autos”, afirma o criminalista Renato Stanziola Vieira, autor do livro Paridade de Armas no Processo Penal. “Se eu sei que o desembargador está achando fraca uma parte da minha tese, claro que vou tentar fortalecê-la. Ou seja, saber antes do momento adequado o que o juiz está pensando sobre o caso concreto coloca uma das partes em vantagem.”


As provas de autoria que Gebran, a princípio, teria considerado “fracas” são depósitos feitos por ex-empresas de Assad em contas do próprio Assad. O operador de propinas apresentava como álibi o fato de já ter vendido as empresas à época em que foram usadas para escoar dinheiro desviado da Petrobras. Ocorre que, apesar de não ser mais o dono oficial, Assad continuava recebendo depósitos delas. Em sua sentença, Moro concluiu que ele permanecia no comando e, portanto, deveria ser responsabilizado. Em 27 de junho de 2017, Gebran confirmou a condenação de Assad, e seu voto foi seguido pelos outros dois desembargadores da Oitava Turma do TRF4. Às provas utilizadas na condenação de primeira instância, Gebran acrescentou em sua decisão depoimentos da delação premiada do empreiteiro Ricardo Pessoa — que ainda estava em sigilo quando Moro assinou a sua sentença.


Parece mais uma vez a Lava-Jato desdobrando-se, a todo custo, para manter um criminoso na prisão (Assad cumpre hoje pena em regime aberto). Uma parte dos brasileiros delicia-se com a frase acima. O problema é que isso ocorre com indícios de atropelos da legalidade. “Caso confirmadas as conversas, fica evidente que Gebran atuou de forma absolutamente parcial. O aconselhamento de partes é proibido pelo Código de Processo Penal e pode dar margem à suspeição e anulação de processos”, afirma Breno Melaragno Costa, professor de direito da PUC-Rio. Procurado por Veja, Dallagnol não quis se manifestar sobre o caso. Gebran respondeu por e-mail às questões enviadas pela revista. “Em relação ao réu Adir Assad (ou qualquer outro réu), trata-se de questão processual e que somente autoriza manifestação nos autos, pelo que nunca externei opinião ou antecipei minha convicção sobre qualquer processo em julgamento.” Gebran e Dallagnol ainda fizeram questão de registrar que não atestam a autenticidade dos diálogos.


O caso das conversas entre membros do MPF e o desembargador do TRF4 reforça que, a despeito do incontestável sucesso obtido pela Lava-Jato na condenação de políticos e empresários poderosos, ocorreram irregularidades que não podem ser varridas para debaixo do tapete. A luta contra a corrupção precisa continuar, mas sempre respeitando as normas constitucionais. Citado em um dos diálogos por Deltan Dallagnol, que escreve para colegas do MPF “Aha uhu o Fachin é nosso” após um encontro entre os dois, Edson Fachin, durante um evento no Paraná realizado no dia 8, disse à plateia: “Ninguém está acima da lei, nem mesmo o legislador, nem o julgador, muito menos o acusador”. O discurso parece sob medida para a dupla Moro e Dallagnol — e pode servir também para Gebran.

No Veja


Fonte: Contexto Livre

sábado, 6 de julho de 2019

DCM: Se Fachin era deles (do grupo da Lava Jato), tinham motivo para comemorar a morte de Teori, substituído por um aliado. Por Moisés Mendes



  "Os vazamentos publicados por Veja reafirmam o que existe de mais desabonador (para não usar outra palavra) para o Ministério Público Federal. Os procuradores eram serviçais de Sergio Moro."



PUBLICADO NO BLOG DO MOISÉS MENDES, REPUBLICADO PELO DCM:
Edson Fachin (Foto: Fotos Públicas)
POR MOISÉS MENDES

Os vazamentos publicados por Veja reafirmam o que existe de mais desabonador (para não usar outra palavra) para o Ministério Público Federal. Os procuradores eram serviçais de Sergio Moro.
Eram mobilizados pelo juiz, sempre com um claro receio de errar e desapontar o chefe.
A força tarefa era formada por procuradores que temiam o juiz, no mais antigo e retrógrado modelo de comando e submissão.
Sergio Moro continua agindo assim no Ministério da Justiça?
E desta vez os vazamentos criam outro constrangimento. Além de Fux, Edson Fachin era considerado aliado.
Está lá na frase de Dallagnol, depois de um encontro com Edson Fachin em 2015:
“Aha uhu o Fachin é nosso”.
Mais tarde, Fachin iria substituir Teori Zavascki na relatoria da Lava-Jato.
Enquanto pelo menos metade do Brasil lamentava a morte de Teori, em 2017, o procurador chefiado por Sergio Moro tinha motivos para comemorar a conquista de um aliado.

sexta-feira, 5 de julho de 2019

Francisco das Chagas Leite Filho: Apesar da resistência desesperada da Globo, a Mídia trinca de vez e Moro fica em maus lençóis



Do Canal do analista político Francisco das Chagas Leite Filho:




Texto original do canal do vídeo:

Foram poucas as vezes que o colossal bloco monolítico midiático trincou. Só me lembro do escândalo da Globo-Procconsult, que tentou garfar a eleição do Leonel Brizola no Rio, em 1982, e da campanha das diretas-já. A Globo, como sempre, nesses casos, fica sozinha, enquanto outros órgãos, como o venerável Jornal do Brasil, decidiu a parada, fazendo valer a eleição e posse do Brizola, como governador. No segundo caso, a Folha decidiu publicar os comícios das Diretas-já, deixando a Globo censurando, mas depois resolver embarcar naquela onda, porque senão poderia ser devorada pelos acontecimentos. Agora, é a revista Veja e a Folha contra a Globo, no caso da Lava Jato, Sérgio Moro e Deltan Dallagnol.

VIDEO: Xadrez da guerra Veja x Moro, por Luis Nassif


Do GGN:


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“Aha uhu o Fachin é nosso”, escreveu Dallagnol em grupo de procuradores da Lava Jato A Revista Veja relata que as comunicações são verdadeiras. Reportagem do GGN.



Novas revelações mostram que Moro atuou como chefe da Lava Jato; ‘Palavra por palavra, às comunicações examinadas pela equipe são verdadeiras’, escreve reportagem da Veja
Ex-juiz Sérgio Moro e procurador que coordena Lava Jato, Deltan Dallagnol atuavam juntos, mostram mensagens reveladas pelo The Intercept Brasil. Foto: José Cruz/Agência Brasil
Jornal GGN – O atual ministro da Justiça, Sergio Moro, pediu para que a acusação, representada pelo Ministério Público Federal em Curitiba, incluísse provas nos processos da operação Lava Jato, antes de chegarem em suas mãos, quando juiz responsável por julgar os processos. A revelação é matéria de capa da revista Veja, em parceria com The Intercept Brasil.
O site de notícias recebeu de uma fonte anônima quase 1 milhão de mensagens, totalizando 30.000 páginas. A Veja diz que, para a reportagem, analisou 649.551 mensagens. “Palavra por palavra, às comunicações examinadas pela equipe são verdadeiras e a apuração mostra que o caso é ainda mais grave”, escrevem os jornalistas que assinam a matéria.
“Moro cometeu, sim, irregularidades. Fora dos autos (e dentro do Telegram), o atual ministro pediu à acusação que incluísse provas nos processos que chegariam depois às suas mãos, mandou acelerar ou retardar operações e fez pressão para que determinadas delações não andassem”, completam.
A reportagem também conseguiu comprovar a veracidade de um dos trechos dos diálogos que menciona o apresentador da TV Globo, Fausto Silva. Em uma conversar entre Moro e o coordenador da força-tarefa da Lava Jato, Deltan Dallagnol, no dia 7 de maio de 2016, o então juiz comenta com o procurador que havia sido procurado pelo apresentador:
“Ele disse que vcs nas entrevistas ou nas coletivas precisam usar uma linguagem mais simples. para todo mundo entender. Para o povão. Disse que transmitiu o recado. conselho de quem está a (sic) 28/anos na TV. Pensem Nisso”, escreveu Moro pelo Telegram.
A Veja diz que procurou Fausto Silva e o apresentador confirmou o encontro e o teor da conversa entre ele e Moro.
A matéria aponta, principalmente, que Moro se comportou como chefe do Ministério Público Federal, ferindo o princípio de neutralidade exigido de um magistrado, postura que pode anular sentenças.
A reportagem destaca trechos de conversas onde Moro atuou com o papel duplo de juiz e assistente de acusação nos casos do pecuarista e amigo de Lula, José Carlos Bumlai, do ex-deputado Eduardo Cunha, do almirante Othon Luiz Pinheiro da Silva (ex-diretor da Eletronuclear), do ex-governador do Rio, Sérgio Cabral, e do próprio ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
Em 17 de dezembro de 2015, em uma conversa onde Moro informava que era preciso uma manifestação do MPF no pedido de revogação de prisão preventiva de Bumlai, “até amanhã meio dia”, Dallagnol respondeu que a ação seria feita, acrescentando: “Seguem algumas decisões boas para mencionar quando precisar prender alguém…”. Em outras palavras, o procurador deu dicas de argumentos para garantir a prisão.
O pecuarista foi preso em 24 de novembro e denunciado em 14 de dezembro. Essa última data estava a uma semana do recesso da Justiça Federal do Paraná. A reportagem da Veja/Intercept mostra que Moro atuou também interferindo na agenda dos procuradores da força-tarefa.
Em uma conversa em 13 de outubro de 2015, o procurador Paulo Galvão alertou o colega Roberson Pozzobon sobre a atuação do juiz: “Estava lembrando aqui que uma operação tem que sair no máximo até por volta de 13/11, em razão do recesso e do pedido do russo (Moro) para que a denúncia não saia na última semana. Após isso, vai ficar muito apertado para denunciar.”
A resposta de Galvão foi: “uma grande operação por volta desta data seria o ideal. Ainda é próximo da proclamação da república. rsrs”.
Meses antes, em 7 de junho de 2015, um procurador da força-tarefa, identificado pela reportagem como sendo Carlos Fernando dos Santos Lima, escreveu: “Igor. O Russo (Moro) sugeriu a operação do professor para a semana do dia 20.”
Igor Romário de Paula é o delegado da Polícia Federal, também membro da força-tarefa da Lava Jato. Ele respondeu: “Opa… beleza… Vou começar a me organizar”
Na apuração da revista, o “professor” é o almirante Othon Luiz Pinheiro da Silva, da Eletronuclear. O militar foi preso no dia 28 daquele mês. Ele foi acusado e condenado por receber pagamento de propinas da Andrade Gutierrez, durante a construção da usina Angra 3. O caso resultou no desdobramento de outra operação, chamada de Radioatividade e que levou à prisão Flávio David Barra, ex-presidente da AG Energia, do grupo Andrade Gutierrez.
A reportagem Veja/Intercept mostra que, em uma das ações de Moro para manter os casos da Lava Jato em seu poder em Curitiba, o magistrado omitiu para o ministro Teori Zavascki, do Supremo Tribunal Federal (STF), que havia indícios do envolvimento de parlamentares para evitar que o caso fosse retirado de Curitiba e remetido para a Corte.
Mensagens trocadas entre os membros da força-tarefa, mostram que Moro sabia que o MPF tinha recebido uma planilha da defesa de Barra descrevendo o pagamento a diversos políticos, semanas antes de o juiz ter sido perguntado pelo ministro Zavascki se não sabia do possível envolvimento de parlamentares com foro privilegiado no caso, o que obrigaria o envio do processo para a análise do STF.
Zavascki soube do envolvimento de parlamentares pela própria defesa de Barra, que pediu ao ministro a suspensão do processo tocado pela 13ª Vara de Curitiba, alegando que Moro não tinha competência para julgar o caso.
“Diante da reclamação, Zavascki cobra explicações de Moro, que diz não saber nada sobre o envolvimento de parlamentares”. Entretanto, 18 dias antes, uma conversa com o procurador Athayde Ribeiro Costa, a delegada Erika Marena, da Polícia Federal, contou que foi orientada por “russo” (Moro) para protocolar a planilha da defesa de Barra sobre o pagamento a políticos sem pressa.
Já no dia 14 de dezembro de 2016, Dallagnol manda uma mensagem para Moro dizendo que em breve iria protocolar uma denúncia contra Lula e que a de Sérgio Cabral seria registrada no dia seguinte. “O que de fato ocorreu”, pontua a reportagem.
Sobre Eduardo Cunha, no dia 12 de junho de 2017, o procurador da Lava-Jato, Ronaldo Queiroz criou um grupo no Telegram com Dallagnol. A proposta era para avisar que foi procurado pelo advogado do ex-deputado, para uma negociação de delação premiada.
No dia 5 de julho, os procuradores finalmente concordaram em marcar uma reunião com o advogado do parlamentar, Délio Lins e Silva Júnior, para o dia 11 de julho. Nesse mesmo dia, 5 de julho, Moro mandou uma mensagem para Dallagnol, sobre os rumores de uma delação de Cunha. “Espero que não procedam”, disse.
Após algumas explicações de Dallagnol dizendo que o encontro estava programada só para os procuradores tomarem conhecimento dos anexos da defesa de Cunha, Moro completou, sem antes saber do conteúdo: “Agradeço se me manter (sic) informado. Sou contra, como sabe.”
Outra revelação feita por Veja/Intercept é o indício de parceria com o ministro do STF, Edson Fachin. Em de julho de 2015, a reportagem diz que Dallagnol mandou uma mensagem aos colegas da Lava jato “exultante” após um encontro com o magistrado: “Caros, conversei 45 m com o Fachin. Aha uhu o Fachin é nosso.”