Mostrando postagens com marcador futuro. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador futuro. Mostrar todas as postagens

sábado, 27 de agosto de 2016

A Globo, o Poder e o que há de vir após o Golpe



Por trás das cortinas do golpe – O futuro da Globo

Por Bajonas Teixeira de Brito Junior, editor de política do Cafezinho
Pois é. A Globo se tornou grande demais. Já era a segunda maior rede comercial do mundo e o segundo maior complexo televisivo da América Latina, agora passa a ser também a maior força política do país. A emissora, como ninguém ignora, tem sido apontada como agente decisivo dentro do consórcio do golpe.
O problema é que um princípio que rege a história brasileira, e do qual exemplos não faltam,  reza que “quanto maior o homem, maior o tombo”. São tantos os casos, e não só de homens mas também de empresas, de instituições e partidos, que vale analisar o assunto com atenção.
Observando a home da Globo por esses dias, quando o julgamento do impeachment de Dilma Rousseff entra na reta final no Senado, constata-se que seu ardor messiânico não arrefeceu em nada. Como sempre, lá estão as manchetes carregadas, forçadas nas tintas e nas dimensões, sempre negativas para Lula e para a presidenta.  Nem nesse momento,  da etapa final do julgamento no Senado, a empresa achou por bem adotar um tom mais sóbrio e simular alguma neutralidade. Ao contrário. A manchete que ontem ficou seis horas na home do G1, em fonte com dimensões espantosas, era sobre o indiciamento de Lula pela PF. (Pode ser vista aqui)
A imagem que escolhemos para ilustrar esse artigo (imagem da home G1, dia 12 de maio, às 7.34hs), uma dentre inúmeras de um arquivo de cinco mil imagens de homes e matérias que documentam a mídia nos últimos meses, é do início da manhã do dia em que o Senado aceitou o afastamento de Dilma para a continuidade do processo do impeachment. O enorme espaço ocupado pela imagem, cobrindo toda a faixa superior da home do portal naquela dia, e a sensação de cerco e opressão registrados nela, evocam o novo patamar de poder da Globo, deixando claro que o assédio ao Palácio do Planalto, o cerco, foi obra sua.
As intenções da Globo parecem ir muito além de uma mudança de governo, por mais traumática que esta tenha sido para a democracia, e para os 54 milhões de eleitores de Dilma. A empresa de comunicação, pelo que se constata em diversas intervenções nos últimos três meses, ou seja, desde o início da presidência interina de Temer, deixa poucas dúvidas sobre suas pretensões de comandar a política brasileira.
Alguns de seus posicionamentos são de quem pretende formular e conduzir as políticas decisivas para o país, sem se importar se essa condução contrariará os interesses das corporações mais bem situadas no funcionalismo público. Um exemplo importante foi o que veio no editorial da revista Época, que chamava de esquizofrênica a aprovação, em meados de maio, do regime de urgência na Câmara para votar os projetos de lei de aumento do Judiciário e do STF.
A Globo identifica a si mesma como genuína representante dos interesses da nação enquanto, do outro lado, põe as três instâncias do Estado como instituições esquizofrênicas. Estão completamente enlouquecidas pelo delírio salarial:
“A esquizofrenia política brasileira tem uma série de sintomas patológicos. Há uma completa falta de governança entre os Três Poderes – Executivo, Judiciário e Legislativo – no enfrentamento da crise. É um sinal de alheamento da gravidade da situação do país que a cúpula do Judiciário patrocine um projeto de reajuste  de 16,38% dos próprios vencimentos. O STF, que assume cada vez maior protagonismo na cena política, deveria assumir também a vanguarda da austeridade.”
Não só, portanto, a Globo se põe acima da instância executiva máxima do país, ocupada então pelo interino Michel Temer, mas também sobre os dois outros pilares do estado, igualmente tomados pela esquizofrenia.
Temer, o que nesse caso não surpreendeu ninguém, tomou a direção contrária aos ditames da Globo, e aprovou o aumento, até ampliando sua abrangência para outras categorias do serviço público. Esse alargamento se impôs para camuflar a intenção óbvia, de não parecer ingrato e de se precaver contra a fúria insana do STF, que já havia se abatido sobre Dilma. Não podendo dar um aumento exclusivo para o Judiciário e o STF, o que pegaria muito mal, teve que mascarar isso com uma ampliação dos beneficiados.
Matéria no UOL no dia da aprovação dos projetos (02 de junho) estimava o impacto dos aumentos sobre as contas públicas em 58 bilhões.
A Globo reagiu posteriormente com uma chocante cobertura da première da primeira-dama Marcela nas cerimonias públicas, ilustrada por uma imagem para além de qualquer dúvida. De certo, o recado foi bem entendido no Jaburu.  E a humilhação não será facilmente esquecida.
A Globo, por sua vez, apesar de todo seu poder, ou melhor, justamente por todo poder que acumulou como a força mais decisiva para o desenlace do golpe, não ignora que corre grande risco. Sim, por paradoxal que seja, no Brasil, um país meio taoista, todo extremo anuncia a chegada de uma brusca virada. Exemplos?
Os exemplos são inúmeros, dos mais óbvios aos mais modestos. Dos modestos, lembremos de apenas um, Demóstenes Torres, que se ergueu ao posto de senador modelo, diversas vezes premiado, e depois ruiu lamentavelmente como um ídolo de pés de barro. E ainda deste caso trágico, mas de todo previsível, que se pode contemplar na imagem do todo poderoso José Dirceu, que era apontado como o Maquiavel brasileiro, e que também foi tragado por sua insigne grandeza. Em escala ainda maior, observe-se o próprio Lula que chegou a uma altura enorme, e dessa altura colocou Dilma na cadeira presidencial.
A perseguição a Lula, e a vontade de reduzir a nada sua imagem, faz parte dos arcanos mais íntimos da alma brasileira, o que talvez ajude a explicar por que alguns milhões de adeptos, até ontem, permaneceram em casa assistindo passivos à cena da caçada ao líder. O prazer de ver o circo pegar fogo é o que aqui entretém os palhaços.
A lógica que orquestra a loucura brasileira é a do antigo ditado português – “Quanto maior o homem, maior o tombo”. Esse provavelmente será em breve o caso de Gilmar Mendes, e quem sabe até o de Sérgio Moro, como já foi o de tantos outros.
Agora que acumulou tanta musculatura, ao ponto de tornar-se, de fato, a força mais temível, e isso não apenas por um, mas por todos, a Globo ingressou com as próprias pernas em uma zona de grande risco. Agora, seja no velho espírito de horda primordial, daquele tipo freudiano que assassina o pai para apaziguar um temor coletivo, ou, mais próximo do que temos visto, no estilo máfia, que liquida o chefão, porque prefere conviver com várias famílias, do que ter que se subordinar a uma só, não será surpresa se a Globo for a vítima da vez.
Uma vítima imolada em sacrifício, para que os demais possam, em torno do seu cadáver, festejar a renovação da identidade grupal. Sem falar na partilha da herança. Como repetimos desde o dia 06 de março, dentro de um golpe há sempre muitos outros golpes ansiando por ver a luz do dia.
Temer deve ter medo da Globo. Muito medo. E não é o único. O temor aumenta na medida exata da gratidão que todos sentem pelos serviços prestados. Mas, como Stalin ensinou já faz um bom tempo, a gratidão é uma virtude canina. E, se pode acrescentar, os caninos são sempre cínicos.
Não sabemos o fim dessa história. Mas uma coisa é certa: a Globo se tornou grande demais.
Bajonas Teixeira de Brito Júnior – doutor em filosofia, UFRJ, autor dos livros Lógica do disparate, Método e delírio e Lógica dos fantasmas, e professor do departamento de comunicação social da UFES.

sábado, 16 de julho de 2016

Nassif vê o cenário brasileiro pós-golpe

160711-Grilo2
Novos yuppies, “Seus valores são a meritocracia, o estado mínimo e a internacionalização. Prezam o sucesso pessoal, a casa com piscina, os vinhos finos. E seu sonho de consumo é o imóvel em Miami.”
Para ele, Dilma parece conformada. Lula pensa em 2018. Temer tem cada vez menos autonomia. A jovem elite dá as costas para o país, mas falta um novo projeto de esquerda
Por Luis Nassif, no GGN | Imagem: Rubem Grilo | Fonte: Outras Palavras
Peça 1 – A concretização do golpe
Afim de que não sejam alimentadas esperanças vãs, há quase consenso de que o golpe se tornou irreversível. O desafio consiste em reverter os votos de seis senadores. Para tanto, Dilma Rousseff teria que se empenhar pessoalmente em algo que abomina: a negociação de favores. E ela não parece disposta a tal.
Os sinais de desistência são nítidos:
  1. A cada dia que passa mais claro fica que a grande meta de Dilma é salvar sua biografia. Fora do poder, as possibilidades são melhores.
  2. Seus assessores principais evitam provocar o STF (Supremo Tribunal Federal) sobre o golpe. A proposta da volta de Dilma com plebiscito para antecipação de eleições visa apenas manter alguma tocha acesa junto à militância.
  3. No Supremo, prevalece a tendência de lavar as mãos. As acrobacias retóricas do Ministro Luís Roberto Barroso se tornaram um clássico do modelo Poncio Pilatos, acatado por toda a corte.
  4. O próprio Lula já jogou a toalha. Mantém a resistência apenas para consumo externo.
Peça 2 – Os protagonistas do pós golpe
Está-se obviamente em um período de transição entre a era democrática pós-Constituinte e os novos tempos, que ainda não se sabe como serão. O golpe machuca fundo, é uma mancha na jovem democracia brasileira. E a maior comprovação da ausência de grandes nomes no Congresso, no Judiciário, nos partidos políticos e na mídia.
Está-se em um processo intenso de recomposição política, com o aparecimento de novos personagens, uma juventude politizada, uma classe média que saiu do armário, todos se alinhando – ainda de forma um tanto caótica – com vistas aos próximos capítulos políticos, as eleições municipais de 2016 mas, principalmente, o pós-eleição..
Nessa transição, entrarão em cena os seguintes personagens políticos.
Grupo Temer
Com o fim de Eduardo Cunha, cria-se um vácuo político que dificilmente será preenchido pelos sobreviventes, Eliseu Padilha, Romero Jucá, Geddel Vieira de Lima, Henrique Alves e Moreira Franco. Cercados pela Lava Jato, sem a simpatia da mídia, a tendência será serem jogados ao mar, um a um. Por absoluta falta de alternativas do sistema de poder, ficará Temer devidamente enquadrado no script imposto pelo mercado.
Grupo Lula
Lula tenta se colocar como protagonista, investindo sobre deputados descontentes com Temer, como Rodrigo Maia. Baixada a temperatura, tentará se colocar como porta-voz de um grupo eclético, que inclui os partidos da esquerda, os descontentes com Temer e os movimentos sociais. Será peça chave para Temer aspirar a um mínimo de interlocução com a oposição que lhe garanta a governabilidade pelos próximos dois anos. O grande desafio de Lula será garantir as eleições de 2018. Continuará sendo o grande líder popular, mas com atuação restrita no Congresso.
PSDB
Conforme previsto aqui no GGN, ao resumir todo o programa do partido a um antipetismo tosco, FHC e Serra quebraram sua espinha dorsal. Com o PT fora do poder, o PSDB perdeu sua única bandeira unificadora.
Desde 2002, lançou três candidatos à presidência da República: José Serra, Geraldo Alckmin e Aécio Neves.
Aécio está politicamente condenado pelas delações da Lava Jato. Rompida a blindagem inicial, seu destino ficou indelevelmente amarrado ao de Lula. Tornou-se bola da vez. O que quiserem aprontar com Lula terão que aprontar com Aécio, como prova mínima de isenção.
Alckmin está a caminho do PSB (Partido Socialista Brasileiro). Politicamente, o Brasil é um país tão maluco que o PSB pretende, com Alckmin – provavelmente o mais conservador político da atualidade – conquistar a hegemonia das esquerdas. Há que se indagar aos amigos de Eduardo Campos que tipo de cigarro andam fumando.
Finalmente, na luz, o terceiro presidenciável, José Serra, desmancha-se no ar. Foi assim no governo de São Paulo e está sendo no Ministério das Relações Exteriores. Sem conhecimento da matéria – e, parece, de qualquer tema contemporâneo um pouco mais complexo -, entrou no MRE pretendendo “causar”, com slogans tirados diretamente dos sites da ultradireita, sem a menor noção das sutilezas e sofisticações do jogo diplomático. Desmoralizou-se nas primeiras declarações e, sob pressão, desaparece, preso a uma proverbial insegurança, tão grande que precisou levar FHC a tiracolo na última assembleia do Mercosul por se sentir impotente para defender suas teses de confronto. Sem espaço no PSDB, sonha ainda em ser candidato do PMDB. Mas sua única base de apoio é Michel Temer. As delações da OAS e Odebrecht devem liquidar definitivamente com suas pretensões.
A Lava Jato e a PGR
A esta altura do campeonato, há que se separar as intenções da Lava Jato e da Procuradoria Geral da República.
A Lava Jato pretende-se um poder autônomo. Sob a liderança do procurador Carlos Fernando dos Santos tem afrontado o STF (Supremo Tribunal Federal) no episódio de participação nos resultados da operação, vetado pelo Ministro Teori Zavascki.
Santos tem reiterado essa posição em todo acordo de delação firmado. Assumiu praticamente a liderança de uma rebelião de procuradores, investindo contra tribunais superiores que ousam colocar freios à sua atuação; criticando decisões do Supremo. Não apenas afrontou a decisão de Teori como investiu pela mídia contra votos de Dias Toffoli.
No Rio de Janeiro, procuradores conseguiram atropelar uma decisão do desembargador federal Antônio Ivan Athié, mandando libertar o bicheiro Carlinhos Cachoeira e o dono da Delta, Fernando Cavendish.  A alegação foi de que Athié e Cavendish tinham sido defendidos – em processos distintos – pelo mesmo advogado, o reputado Técio Lins e Silva. É possível que houvesse desconfianças maiores em relação ao desembargador. O argumento invocado foi ridículo, mas bastou.
Enfim, são agentes públicos, dotados de poder de Estado e armados de mídia, entrando sem nenhum pudor no jogo político e jurídico.
Responsável por esse estado de coisas, o PGR Rodrigo Janot deixou-se conduzir por esse clima feérico no pedido de prisão dos três senadores, negado por Teori. Antes disso, por uma perseguição implacável a Dilma Rousseff e a Lula e uma blindagem a Aécio Neves.
Nos últimos tempos abdicou dessas manifestações midiáticas. Ao contrário da república de Curitiba, é mais suscetível às manifestações de bom senso do STF e dos próprios colegas de Brasília. E colecionará uma bela vitória no dia em que Eduardo Cunha for cassado e preso.
De qualquer modo, ambos – a Lava Jato e a PGR – são agentes de ações que trazem total imprevisibilidade ao jogo político. Mesmo o profundo alinhamento da Lava Jato com o PSDB parece em xeque.
Mídia e mercado
Gradativamente, mídia e mercado vão deserdando o PSDB. O medo da volta da instabilidade política reforçará Michel Temer, enquanto mantiver a hegemonia do mercado na política econômica. O fator Henrique Meirelles será cada vez mais a sua âncora, na medida em que as futuras delações da Lava Jato comprometerem irreversivelmente Serra e Aécio.
E a Lava Jato continuará sendo o grande aríete contra qualquer forma de definição de política desenvolvimentista.
3 – As novas movimentações
O novo tempo político consagrou um conjunto de novos campeões nacionais ao abrigo do voto popular. Sua força determina os movimentos erráticos do governo Temer, com concessões de toda espécie. São eles:
· As corporações públicas, do Judiciário ao Ministério Público, Tribunal de Contas da União.
· Os parlamentares contemplados com recurso farto para suas emendas individuais.
· O mercado, com a manutenção da Selic em níveis elevados e a apreciação cambial.
Está-se ainda no momento zero do novo jogo político, que deverá ser dominado pelas seguintes tendências:
Internacionalização e a era dos yuppies
Menciona-se muito o fenômeno da ascensão das novas classes C. O fenômeno determinante da crise atual é outro: é o da internacionalização das classes A e B, com seus mestrados e doutorados em outros países.
O jovem procurador arrotando seu mestrado nos Estados Unidos ou Portugal é da mesma extração ideológica do jovem publicitário, jornalista de grandes veículos ou operador do mercado financeiro, do jovem técnico do Banco Central, do Tribunal de Contas ou da Advocacia Geral da União. É uma mudança geracional que está mudando a cara dos principais setores expostos a essa internacionalização.
Seus valores são a meritocracia, as virtudes individuais, o estado mínimo e a internacionalização. Prezam o sucesso pessoal, a casa com piscina, os vinhos finos. Em muitas casas, o idioma corrente passou a ser o inglês. E seu sonho de consumo é o imóvel em Miami.
Não se trata de uma caricatura, mas de valores consolidados, muito mais enraizados que a intolerância tosca de alguns brucutus da classe média que enveredam pelos temas morais.
Como são contra a política, tornam-se massa de manobra fácil para discursos simplistas da mídia ou de políticos.
A nova esquerda
Falta à esquerda consenso mínimo sobre temas econômicos.  O desenvolvimentismo, que deveria ser a bandeira das esquerdas, esgarçou-se sob o peso da globalização e de quase três décadas de financeirização da economia brasileira.
Na indústria, escasseiam novas lideranças. As últimas grandes lideranças estão desaparecendo sem deixar sucessores. Instituições como o IEDI (Instituto de Estudos de Desenvolvimento Industrial) perderam dimensão.
Por outro lado, há um Brasil submerso explodindo em energia. A renovação das universidades tem promovido um arejamento de ideias, há uma sede nacional de diagnósticos sobre o novo país. E uma nova geração jovem entrando de cabeça na política em torno de valores e sem obedecer à hierarquia dos velhos partidos.
Os temas morais – da tolerância, contra o preconceito, a favor da solidariedade, da democracia – são preponderantes neste momento. E a campanha contra o golpe certamente marcará as próximas gerações. Com o tempo, ganharão musculatura até desaguarem em novos partidos.
Por enquanto vive-se esse terremoto, no qual o velho morreu e o novo ainda não se fez.