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segunda-feira, 17 de fevereiro de 2020

Xadrez das suspeitas do doleiro Messer que encantava procuradores, por Luis Nassif




Mas as informações confirmam as suspeitas que o GGN, e outros sites independentes, divulgaram desde 2015, e que foram solenemente ignoradas pela mídia, sobre os advogados da delação premiada. A blindagem da mídia sobre a Lava Jato era tão formidável que passou aos procuradores a sensação da impunidade perpétua. Ganharam poder absoluto, porque as suspeitas contra eles eram jogadas no caldeirão geral do petismo.






Peça 1 – o histórico de Dario Messer

Desde os anos 90, Dario Messer era conhecido como um dos mais influentes doleiros do país, sucessor da Casa Piano, como doleiro dos doleiros.

Algumas referências a ele, retiradas dos arquivos da Folha:

Junho de 2003, a Folha divulgou o envolvimento de Dario Messer com a máfia dos fiscais do Rio de Janeiro.
Agosto de 2004 – com base em um CD enviado pela Promotoria de Nova York à CPI do Banestado, sobre as contas do MTB Bank, de Nova York, entre janeiro de 1997 e 24 de novembro de 2003, mostrou que doleiros brasileiros giraram US$ 2,4 bilhões em 42 contas. A principal operadora era a Depolo Corporation, que se constatou ser de Dario Messer, alvo de mandado de prisão na Operação Farol da Colina.

Junho de 2005 – Justiça Federal decreta bloqueio de bens de procuradores do jogador Ronaldo. Na agenda dos empresários, aparece várias vezes o nome Dario, que a PF constata ser Dario Messer, titular de conta no CBC Bank, em Nova York.

Setembro de 2005 – denunciado por um adversário, Toninho Barcelona, como sendo operador do PT. A denúncia não foi comprovada. Mas constatou-se sociedade de Bruno Messer, sobrinho de Dario, com o senador Ney Suassuna (PMDB-PB). Segundo reportagem da Folha, a PF já considerava Dario Messer o maior doleiro do país, tendo movimentado maus de US$ 1 bilhão. Em outra denúncia, Messer é apontado como doleiro do banco Oportunity.
Nos anos 90, seu nome foi envolvido em escândalos como a dos Precatórios e da Máfia do INSS.

Peça 2 – o relatório Mentor e Dario Messer

Na CPMI do Banestado, houve conflito entre os parlamentares, o que resultou em dois relatórios. Um deles teve como relator o deputado José Mentor (PT-SP). Nele, o nome de Dario Messer é mencionado 276 vezes e apontado como o cabeça central do esquema de doleiros em torno do Banestado.

O relatório se baseou em informações enviadas por autoridades americanas.

Página 180 – menciona as transferências de Messer para o exterior através da Real Cambio, que operava com “autorização especial”  do Banco Araucária, principal instituição do escândalo das contas CC5;

Página 233 – menções a Messer pela diretora de câmbio do Araucária.

Página 327 – a principal operadora externa do caso Banestado, a conta Bacon Hill, da Bacon Hill Service Corporation, da família Anibal Contreras, foi financiada por Messer. A revelação foi do próprio Anibal Contreras. Além disso, Messer controlava as contas Midler e Rigler e participava da Depolo Corporation, empresa com conta no Banco MTB de Nova York, e que recebeu mais de US$ 400 milhões de transferências de contas de diversas agências do Banestado.


Página 342 – aponta Messer como um dos maiores doleiros do país. E diz que seu nome é sempre lembrado quando se trata de contrabando de diamantes e pedras preciosas.

Página 343 – descreve o depoimento de Contreras a autoridades americanas. Diz que ele e Messer foram sócios do Banco Dimensão (de grande envolvimento no Escândalo dos Precatórios). Admite também ter sido financiado por Messer.

Página 345 – reportagem do Jornal do Brasil, de 20/04/2003, sobre o envolvimento de Messer com o escândalo dos fiscais do Rio de Janeiro. A matéria diz que a PF tinha informações sobre contas de Messer nos EUA. Fala de seu envolvimento com o escândalo dos precatórios.

Página 351 – o papel do Banco Dimensão no esquema de doleiros. Depois, seu fechamento e substituição pela FPLM Participações Ltda. Mostra o envolvimento da família no escândalo da Máfia o INSS, no início dos anos 90, que desviou mais de Cr$ 64,8 bilhões.

Página 373 – procuradores da Força Tarefa do Banestado, Vladimir Aras e Carlos Fernando Lima, conseguiram depoimento de ex-gerente do Merchants Bank, na qual ela indica que Messer era sócio de Setton.


“Apesar de ‘Nolasco, ter dito apenas Messer e não Dario Messer, isso não modifica a logica que leva a Dario como líder da maior quadrilha de doleiros do Brasil na última década. Além da historia de Dario e de seu pai, Mordko, publícada pelas colunas ,sociais dos jornais, esta Comissão tem dados que, confrontados com o depoimento de Nolasco, não deixam duvidas quanto a quem é e a importância do papel que, Dario exercia – ou ainda exerce – no esquema criminoso”.

Peça 3 – as suspeitas sobre Figueiredo Bastos 

 

Em 2018 apareceram as primeiras suspeitas sobre Figueiredo Bastos – o mais influente advogado de delações premiadas junto à Lava Jato do Paraná – e procuradores da Lava Jato.

Segundo o doleiro Juca Bala,

Juca Bala contou que em meados de 2005 ou 2006, Enrico, um operador financeiro do esquema comandado por Dario Messer, considerado o doleiro dos doleiros, começou a exigir de Juca e de um sócio uma taxa mensal de US$ 50 mil, a fim de possuir proteção da Polícia Federal e do Ministério Público; que Juca pagava US$ 50 mil por mês, convertidos em reais, hoje cerca de R$ 187 mil, que mandavam entregar em endereços indicados por Enrico; que, além de Juca Bala e do sócio, os doleiros Matalon, Richard Waterloo e outros também pagavam a taxa; que os pagamentos eram destinados a dois advogados de outro doleiro, Clark Setton, o Kiko: Juca disse que os advogados seriam Figueiredo Basto e um outro que não se recordou do nome; que os pagamentos foram feitos de 2005 ou 2006 até 2013.

No início, supôs-se que Figueiredo Bastos tivesse recorrido ao golpe da venda de prestígio. Ou seja, alegaria um relacionamento não profissional inexistente com um procurador, e levantaria mensalmente recursos a título de remunerá-lo.


Peça 4 – aparece o nome de Januário Paludo

Novembro de 2019 – Durante a Operação Patron, última fase da Lava Jato do Rio, a Polícia Federal do Rio de Janeiro apreendeu o celular de Messer. E localizou mensagens para a namorada, na qual ele afirmava pagar propinas mensais a Januário Paludo, a título de proteção nas investigações a seu respeito. Os diálogos aconteceram em agosto de 2018.

Segundo a reportagem, a mensagem de Messer dizia que “sendo que esse Paludo é destinatário de pelo menos parte da propina paga pelos meninos todo mês.”:
“Segundo a PF, os “meninos” citados por Messer são Claudio Fernando Barbosa de Souza, o Tony, e Vinicius Claret Vieira Barreto, o Juca. Ambos trabalharam com Messer em operações de lavagem de dinheiro investigadas pela Lava Jato do Rio. Depois que foram presos, viraram delatores. Em depoimentos prestados em 2018 à Lava Jato no MPF-RJ (Ministério Público Federal do Rio de Janeiro), Juca e Tony afirmaram ter pago US$ 50 mil (cerca de R$ 200 mil) por mês ao advogado Antonio Figueiredo Basto em troca de proteção a Messer na PF e no Ministério Público”.
Fevereiro de 2020: reportagem da UOL mostrava que procuradores da Lava Jato viram proteção ao doleiro Clark Setton em 2005, e propunham anulação do acordo de delação.

Peça 5 – o que disse o procurador que testemunhou em defesa de Messer

No dia  3 de fevereiro de 2020, reportagem da UOL coloca a peça que faltava no jogo: a informação de que Paludo atuou como testemunha de defesa de Dario Messer, em Ação Penal do Ministério Público Federal, no dia 3 de fevereiro de 2011 – período supostamente abrangido pela mensalidade paga pelos doleiros.

 O advogado de Messer era Figueiredo Bastos.




 No seu depoimento, Paludo alegou que não foi identificado nenhum envolvimento do doleiro Messer com as contas da Banestado. Paludo informa que não encontrou nenhum indício de ligação entre Messer e o doleiro Clark Setton, “a não ser pelo depoimento de um dos doleiros, que de forma rápida citou até a família Messer”.

 No depoimento, desqualifica o relatório da CPMI, pelo fato de não ter sido aprovado de maneira unânime pela comissão.








Confrontado com a reportagem, a assessoria de imprensa do MPF do Paraná respondeu assim:

Testemunhas não estão vinculadas às partes. Quando são apontadas por elas, têm obrigação de depor em juízo e esclarecer a verdade, o que o procurador fez junto com outro procurador e delegado que também foram arrolados e testemunharam. Na ocasião do depoimento prestado, em 2011, o procurador regional da República Januário Paludo limitou-se a relatar os fatos que haviam ocorrido em 2005, da exata forma em que ocorreram. Assim, os fatos referidos no depoimento, ocorridos há 15 anos, já foram devidamente esclarecidos há mais de 9 anos pelo Procurador Regional da República Januário Paludo.

No final do capítulo destinado a Messer, o relatório 2 da CPMI listava 9 indícios de envolvimento dele com o esquema Bacon Hill, nenhum considerado na denúncia final da Força Tarefa:


1) Nome de Dario Messer em agendas de funcionários de Alexandre Martins e Reinaldo Pitta;

2) Nome de Dario Messer na agenda da Beacon Hill, com seu celular e telefone fixo confirmados pela quebra de sigilo telefônico;

3) O relacionamento estreito da Stream Tour – ou subconta MIDLER – com Dario Messer, via contatos telefônicos diários;

4) A relação entre o ex-Banco Dimensão e o MTB Bank, banco no qual se achavam as contas DEPOLO, KUNDO e SOLID;


5) O volume de transações entre o Dimensão e o MTB, e ao mesmo tempo, a movimentação elevadíssima da offshore Worldtrust com o Banco Dimensão, e da Worldtrust com a DEPOLO, no MTB Bank;

6) O depoimento de ex-funcionário dos empresários Pitta e Martins confirmando que Dario Messer mantinha muitos contatos com os empresários e que fazia a compra e venda de dólares via DEPOLO;
7) O cheque nominal a Dario Messer endossado e creditado na DEPOLO;

8) Relatórios da conta DEPOLO informam que Clark Setton e Mordko Messer participavam de reuniões com gerentes do MTB Bank, sendo que Mordko encontrava-se já com saúde debilitada.

9) Pelo exame dos sigilos bancário e telefônico de Dario Messer e dos empresários Alexandre Martins e Reinaldo Pitta, verifica-se que Dario, Martins e Pitta operam em conjunto. pois ‘Pitta e Martins realizavam pagamentos em reais por meio de seus funcionários (laranjas) a clientes de Dário Messer.


Peça 6 – as investigações sobre Paludo

As informações colocam sob suspeita toda a Lava Jato, já que grande parte dos procuradores atuou no caso Banestado, e suscitam dúvidas consistentes: Paludo agiu sozinho ou contou com a cumplicidade de alguns colegas?

Nota-se que era o mais experiente dos procuradores, com boa ascendência sobre colegas mais jovens, a ponto do grupo do Telegram ser batizado como “filhos de Januário ”. Portanto, pode ter sido uma cooptação individual.

Mas as informações confirmam as suspeitas que o GGN, e outros sites independentes, divulgaram desde 2015, e que foram solenemente ignoradas pela mídia, sobre os  advogados da delação premiada. A blindagem da mídia sobre a Lava Jato era tão formidável que passou aos procuradores a sensação da impunidade perpétua. Ganharam poder absoluto, porque as suspeitas contra eles eram jogadas no caldeirão geral do petismo.

Não há modelo que resista a essa exposição ao poder absoluto.

O caso Paludo poderá ser o doloroso, porém necessário, encontro de contas do MPF com a sua história.


sábado, 30 de novembro de 2019

Do GGN: O histórico de polêmicas do procurador da Lava Jato, Januário Paludo, suspeito de receber propina




A acusação de supostamente ter recebido propina em troca de proteção a réus da Lava Jato pode ser o mais grave, mas está longe de ser o primeiro imbróglio envolvendo Januário Paludo
Jornal GGN – Januário Paludo acordou nos Trending Topics do Twitter no Brasil na manhã deste sábado (30). Membro da força-tarefa da Lava Jato em Curitiba, o procurador da República agora é suspeito de supostamente ter recebido propina em troca de proteção a investigados.
O furo de reportagem é do UOL, que teve acesso a mensagens trocadas, em agosto de 2018, entre o “doleiro dos doleiros” Dario Messer e sua namorada. O material foi apreendido pelo braço da própria Lava Jato no Rio de Janeiro.
Segundo o UOL, Messer escreveu à namorada quando tomou conhecimento de que Paludo teria uma reunião com uma testemunha de acusação. A mulher respondeu que o procurador está entre autoridades que receberam propina de doleiros em troca de proteção.
A Lava Jato em Curitiba saiu em defesa de Paludo, afirmando que ele não trabalhou em processo envolvendo Messer. Pessoalmente, o procurador não quis comentar as acusações divulgadas pelo UOL.
Nas redes, os críticos se dividiram. Uns preferiram exaltar a gravidade do assunto, e outros ressaltaram que Paludo tem direito a algo que ele próprio não defende na Lava Jato: a presunção de inocência.
Certo é que este pode ser o mais grave, mas está longe de ser o primeiro episódio polêmico envolvendo Paludo.
O procurador – que tem forte ascensão sobre os colegas em Curitiba, como prova o grupo de Telegram batizado de “filhos de Januário” – tem um histórico de atuação que transborda acusações de abuso e suspeição em relação aos investigados.
EPISÓDIO 1 – A ESCUTA CLANDESTINA EM YOUSSEF
O jornalista Joaquim de Carvalho escreveu no Diário do Centro do Mundo, neste sábado (30), justamente sobre dois episódios controversos envolvendo Paludo.
O primeiro trata da escuta ilegal na cela do doleiro Alberto Youssef. Paludo foi o procurador responsável por arquivar um inquérito do caso, “apesar das evidências e de testemunhos de que a escuta havia sido colocada lá pelos delegados mais próximos de Sergio Moro, entre eles Igor Romário de Paula, hoje na cúpula da PF [Polícia Federal] em Brasília.”
EPISÓDIO 2 – A COERCITIVA DE UMA CRIANÇA DE 8 ANOS
O segundo episódio lembrado ocorreu no âmbito de processo contra Lula. Paludo liderou a operação que madrugou na casa de Dona Rosilene, cunhada de um caseiro do sítio de Atibaia. Não satisfeito com o interrogatório no local, Paludo retornou para conduzir a mulher e o filho de 8 anos de idade para depor. O trauma da criança é visível na gravação em vídeo da audiência, frisou o jornalista.
EPISÓDIO 3 – OS BENS DE LULA
Paludo foi ainda o procurador de confiança que Sergio Moro usou para manter os bens de Lula bloqueados, mesmo quando a defesa havia recorrido da decisão ao TRF-4, como mostrou o GGN aqui.
Moro e Paludo, aliás, têm uma relação de décadas. O procurador passou pelo caso Banestado, assim como Carlos Fernando dos Santos Lima (que se aposentou do Ministério Público para se dedicar ao compliance) e Orlando Martelo.
EPISÓDIO 4 – OS GRAMPOS NO ESCRITÓRIO DE ADVOCACIA
O procurador acusado de receber propina de doleiros também foi quem enviou a Moro um parecer favorável ao uso dos grampos ilegais feitos pela Lava Jato no escritório de advocacia que defende Lula. A atitude foi repudiada pelo advogado Cristiano Zanin, como mostramos aqui.
EPISÓDIO 5 – A DELAÇÃO SELETIVA DE DELCÍDIO
GGN também registrou que Januário Paludo foi um dos procuradores que tomaram o depoimento de Delcídio do Amaral na Lava Jato.
Nos vídeos das audiências, Paludo aparece bastante desinteressado nos relatos de corrupção do senador cassado, sempre que o contexto envolvia o período em que Fernando Henrique Cardoso (PSDB) era o presidente da República.
A delação de Delcídio seguiu um script de ataques a Lula e aos governos petistas, e acabou desprezada pelo próprio Ministério Público Federal, só que em Brasília.
EPISÓDIO 6 – FORÇANDO A BARRA
Ainda no caso do sítio de Atibaia, Paludo protagonizou outra polêmica: ele foi gravado tentando induzir o depoimento de uma testemunha do caso. O Conjur revelou o episódio em 2016. Anos depois, Moro pediu explicações aos procuradores, mas o caso foi abafado pelo grande mídia.
EPISÓDIO 7 – “O SAFADO SÓ QUERIA PASSEAR”
Paludo deu mais um motivo para a defesa de Lula reclamar de suspeição da força-tarefa em Curitiba quando apareceu nas mensagens de Telegram divulgadas pelo Intercept chamando Lula de “safado” que “só queria passear” (sair da prisão temporariamente).
O contexto era o de um pedido do ex-presidente para comparecer ao velório do irmão Vavá.

sexta-feira, 19 de julho de 2019

Xadrez sobre o fascismo, a Lava Jato e a cobertura colaboracionista da mídia, por Luis Nassif




Até hoje, mesmo estando explicitadas as relações entre a Lava Jato e a ascensão de Jair Bolsonaro, insistem que a bandeira acima de todas as demais, inclusive da Lei, é o pretexto do combate à corrupção (dos considerados inimigos, deixando intocada a elite corruptura e seus patrocinadores).


Do GGN:



Dois textos me chamam a atenção nesta manhã.
No Justificando, um excelente apanhado do fascismo e a Lava Jato pelo procurador da República Wilson Rocha, “Há fascismo na Lava Jato?” (aqui). Aliás, uma das melhores análises sobre as consequências da Lava Jato na implantação do fascismo à brasileira e a comprovação de que ainda existem procuradores no MPF.
No Observatório da Imprensa, um artigo corajoso do jornalista Carlos Wagner, “O efeito The Intercept nas redações dos jornais do Brasil” (aqui), mostrando a maneira como a imprensa se curvou à Lava Jato.
Vamos por partes

Peça 1 – o fascismo na Lava Jato

No seu artigo, Wilson Rocha não chega a apontar a Lava Jato como fascista. Mas mostra como, a partir do atropelo das leis e com a bandeira da punição a qualquer preço, abriu espaço para o fascismo.
Por partes:

A crise mundial

A crise capitalista iniciada em 2008 fez crescer a insatisfação social e estimulou novas formas de ação política (…). Novas formas de mediação social desafiaram os mecanismos tradicionais de intermediação política. Entra aqui o fenômeno radicalmente novo das redes sociais.

O Ministério Público

Para o Ministério Público, moldado constitucionalmente para a defesa da ordem democrática, tornou-se sedutor atravessar o caminho das representações tradicionais – partidos políticos e parlamento, sobretudo – para construir diretamente com o corpo social novos consensos democráticos. (…)
O capital institucional acumulado em décadas de atuação comprometida com a promoção de direitos não dispensou a instituição de fazer promessas revolucionárias para mobilizar as massas, a principal delas, o fim da corrupção.

As Dez Medidas

A Lava Jato, embora ensaiasse, não havia ainda lançado um esforço sistemático de mobilização popular. A virada ocorre com o projeto das “Dez medidas contra a corrupção”. Tratava-se de um projeto de lei redigido nos gabinetes do Ministério Público Federal, mas apresentado à sociedade como um projeto de lei de iniciativa popular.
Lançada pela Lava Jato, a iniciativa é encampada pela cúpula da instituição e corre o Brasil financiada com recursos do Ministério Público Federal. Servidores públicos receberam incentivos funcionais para colher assinaturas em diversos espaços sociais. Procuradores da República viajaram pelo país divulgando o projeto de lei.

Os paralelos com o fascismo

O avanço da operação policial-judicial proporcionou méritos concretos no combate à criminalidade, comparáveis aos de Mussolini. Ensina Hobsbawm que o fascismo foi “o único regime italiano a conseguir suprimir a Máfia italiana e a Camorra napolitana” (p. 131). A promessa da Lava Jato, para além das vicissitudes democráticas e contratempos históricos, estava lançada: doravante, não haverá crime sem pena.
Sob o nazismo, o sistema de justiça adaptou-se à nova realidade política, substituindo o brocardo “nullum crimen sine lege” pela assustadora fórmula “nullum crimen sine poena”, sinalizando uma expansão do punitivismo estatal, em prejuízo dos princípios liberais clássicos.

O eficientísmo no setor público

Contextualizando, no limiar do século XXI, o neoliberalismo reformulou a administração pública impondo-lhe métricas de eficiência com pouca permeabilidade democrática. O ativismo do poder judiciário foi fomentado e, depois, aperfeiçoado em complexos processos de planejamento estratégico. A autonomização do judiciário foi tolerada na medida em que percebida como um instrumento de eficientização do próprio estado.

A fundação de R$ 2,5 bi

Atento às entrelinhas do Acordo, vê-se que Lava Jato não apenas exclui os partidos políticos, agremiações centrais da vida democrática brasileira, mas pretende exatamente criar legitimidade em razão desta exclusão. O equívoco é tremendo. (…) Pretender a realização do princípio democrático por meio de referências pouco claras a “organizações da sociedade civil” não é suficiente, sobretudo quando evidenciada a atuação destas organizações subordinada aos poderes da corporação, no caso, do Ministério Público.

A falta da autocontenção

A autocontenção é a maior virtude de quem exerce parcela do poder soberano. (…) Impelidos pelo clamor popular, pessoas e instituições podem contribuir com o avanço do fascismo das mais variadas formas. O indiferentismo técnico é um dos instrumentos mais trágicos de ação do fascismo, porque cega o indivíduo acerca das consequências mediatas ou imediatas de suas ações, dispensando-o de sua responsabilidade ética perante os seus semelhantes.

Peça 2 – os pecados da mídia

O artigo do jornalista Carlos Wagner é igualmente corajoso, mas tem algumas diferenças que abordarei na Peça 3.
Seu alerta tem a virtude do precedente. Segundo o artigo, o jornalista formulou essas mesmas críticas em 2017, ao ser homenageado no congresso da Abraji (Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo). Compara a cobertura da Lava Jato ao caso da Escola Base. E atribui as falhas jornalísticas à pauperização das redações.
Diz ele:
A informação que vinha para nós era de um grupo de pessoas que interrogava, investigava e julgava os suspeitos. O mínimo que se poderia esperar era que cada um cumprisse a sua função determinada pela lei. O que as publicações do Intercept estão mostrando é que isso não acontecia(…)  Descobrimos agora que os dois transgrediram a lei; falando um português simples e direto: mentiram para nós, repórteres.
A comparação com a Escola Base é relevante, e levanta a bola para as análises que fiz na época sobre o tema.
O excelente livro de Alex Ribeiro, “Os Abusos da Imprensa”, escrito quando ainda estudava, se não me engano como trabalho de conclusão de curso (TCC), historia bem o caso. Só se rompeu a unanimidade no linchamento quando denunciei os crimes de imprensa no Jornal da Noite, da TV Bandeirantes, no Jornal da Manhã, da rádio Bandeirantes, e pela Folha.
Só aí o desembargador que autorizara a prisão dos donos da escola ganhou coragem para revogar a medida. E, aí, entramos na Peça 3

Peça 3 – os mecanismos de autocontenção na mídia

Wilson Rocha aborda um dos pontos centrais dessa loucura: a responsabilidade da cúpula do Ministério Público Federal, de não fazer funcionar os mecanismos de autocontenção. Marques passa ao largo da responsabilidade das direções de redação, dos jornalistas seniores e dos repórteres, e mesmo dos órgãos de representação, dentre os quais a Abraji, e joga tudo nas costas da redução das redações.
Na Lava Jato a contenção deveria ser exercida pelos órgãos de controle, corregedoria, câmaras temáticas e pela própria Procuradoria Geral da República (PGR).  Mas o próprio PGR Rodrigo Janot entrou até o pescoço na lambança, contaminando toda a estrutura do MPF.
Na Escola Base calhou de um colunista, ainda que de Economia, insurgir-se contra o linchamento, assim como em muitos outros episódios vergonhosos dos anos 90. E a razão era simples. A cobertura era feita por jovens repórteres. Toda manhã, cada jornal fazia a comparação das coberturas. E, nessa comparação, o noticiário ia sendo homogeneizado. Se, por acaso, um repórter ousasse apresentar uma um contraponto, não era considerado. Afinal, não tinha, por ser jovem, currículo para se contrapor ao que todos os veículos escreviam. Nem espaço para veicular sua opinião.
Daí o papel dos jornalistas mais experientes: o de orientar, apontar os descaminhos, e atuar como elemento de contenção.
Acontece que o corporativismo dos jornalistas é tão ou mais forte que o do MPF. Não existe o exercício da meta crítica no jornalismo. A única experiência válida foi a de ombudsman da Folha – da qual Marcelo Beraba, da Abraji, foi um dos destaques.
No livro “Jornalismo dos anos 90” descrevo mais vinte casos de campanha de linchamento da mídia, mostrando que os jovens jornalistas dos anos 90 em nada se diferenciavam dos jovens procuradores da Lava Jato, em sua gana pelo grande feito capaz de consolidar sua carreira. Especialmente depois do Watergate, que empoderou o jornalista com a mesma prepotência que hoje assola os jovens procuradores.
Na Escola Base, a maioria dos colunistas evitou colocar a mão na cumbuca. Na Lava Jato, colunistas referenciais não apenas não atuaram como agentes de contenção, como decidiram surfar na onda, em um exemplo deletério para os jovens jornalistas.
O mesmo ocorreu com a Abraji. Lembro-me de um seminário em Tiradentes, organizado por Audálio Dantas, presentes algumas das lideranças da Abraji. Participei de uma mesa para discutir a cobertura da mídia. Uma experiente repórter investigativa, das melhores que tivemos e já aposentada, me desafiou.
– O que você faria se estivesse no comando?
Como assim? A maneira de fazer a cobertura correta era óbvia. Ouvir os advogados dos acusados, entrevistar juristas independentes, entender o que diz a lei e a constituição e o significado das infrações cometidas, questionar as delações, questionar muitos dos  anúncios de valores recuperadas, jogadas de marketing sem base factual, questionar a entrega de provas ao Departamento de Justiça dos Estados Unidos, transformando a Petrobrás de vítima em ré.
Uma das maiores infâmias cometidas pelo jornalismo dos anos 90 foi o episódio em que setoristas acompanharam por um mês as investigações sobre o Bar Bodega, testemunharam meninos presos injustamente e torturados, e se calaram. Na Lava Jato, a tortura imposta aos presos para que delatassem apenas o que os procuradores queriam ouvir, foi acompanhada diuturnamente pelos repórteres. E eles se calaram, cúmplices.
Fiquei pasmo, nas reportagens publicadas após a morte de Otávio Frias Filho, lendo que ele se sentia incomodado com a cobertura da Lava Jato. Porque não mudou? O motivo não poderia ser escassez de jornalistas. Apenas um jornalista poderia fazer o contraponto a toda a cobertura da Lava Jato, assim como colunistas de direito que existem em todos os jornais.
Eram fascistas? Não, assim como os procuradores da Lava Jato. Mas apenas pessoas que aproveitavam a onda ou meramente sem coragem para ir contra a maré, para não perder o supremo gozo de fazer a manchete do dia, atropelando princípios jornalísticos, abdicando de seu papel de fornecedores de informação confiável e, mais que isso, de guardiões dos avanços civilizatórios contra processos que poderiam deflagrar a selvageria das massas. Em nenhum momento a Abraji se pronunciou sobre os abusos
Empresas modernas criaram a figura do mentor. O jovem entra na empresa e escolhe um mentor, um orientador – que não é seu chefe imediato -, para se pautar nas questões mais complexas. Cabe ao mentor mencionar os princípios que regem a empresa, os valores, as formas de conduta.
No jornalismo, esse papel deveria ser exercido pelos jornalistas sêniores. Muitos deles, porém, foram omissos e até surfaram nas águas da popularidade fácil de pegar carona na Lava Jato. Escreveram livros, foram convidados para eventos literários, para palestras, posaram em fotos ao lado dos campeões Sérgio Moro e Deltan Dallagnol.
E até hoje, mesmo estando explicitadas as relações entre a Lava Jato e a ascensão de Jair Bolsonaro, insistem que a bandeira acima de todas as demais é o combate à corrupção, da forma como foi feita pela Lava Jato, ao arrepio da lei.
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