Mostrando postagens com marcador palhaçada. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador palhaçada. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 10 de agosto de 2018

A miséria política do Brasil se mostrou no debate da Band. Por Carlos Fernandes

Do DCM:



Você começa a perceber o nível da miséria política de um país quando num debate eleitoral a grande sensação fica a cargo de um sujeito como Cabo Daciolo.
Não há como negar, eleitoralmente o rapaz foi o grande vitorioso da noite.
Completamente desconhecido e sem votos para sequer figurar nas pesquisas, a sua, digamos, performance, lhe garantiu uma visibilidade nas redes sociais que não terá na propaganda eleitoral em todo o decorrer da campanha.
Para além dos surtos psicóticos, o seu fanatismo religioso e o apelo militar não foram jogados para o público ao sabor dos ventos. O candidato mira flagrantemente os eleitores de Marina e Bolsonaro.
Ninguém deve se surpreender se nas próximas pesquisas o cidadão já aparecer com 1% das intenções de votos. Essa é a vantagem de quem não tem nada. Na pior das hipóteses, fica como está.
E aí reside o porquê de sua “vitória”.
Já participei de velórios mais animados do que aquele debate. Ao fim e ao cabo, à exceção do Cabo (com o perdão do trocadilho), todo mundo saiu da mesma forma que entrou.
Seja pela dinâmica das perguntas, seja pela mesmice das respostas, a impressão que ficou é que o debate não serviu para absolutamente mais nada além de reafirmar o que já se sabia sobre os candidatos nas diversas sabatinas efetuadas anteriormente.
E aqui, justiça seja feita, no quesito mais do mesmo é preciso reconhecer que Bolsonaro se saiu melhor do que os demais.
Não que o fascista tenha tido algum lampejo de racionalidade, essa é uma seara que ele desconhece profundamente. Mas para quem esperava uma surra descomunal, essa foi de longe a sua melhor, ou menos ruim, participação frente a um debate de ideias.
Está claro que para Bolsonaro é infinitamente mais vantajoso ir a debates, onde todos são interpelados, do que a sabatinas, onde ele é o único alvo. Num período maior de exposição ele consegue, por ficar calado na maioria do tempo, falar menos besteiras.
E justamente em função dessa pulverização, somada a estratégia de uns a isolarem os outros, que Ciro e Boulos foram de uma certa forma prejudicados.
Menos visados nas perguntas, tiveram participação inferior (no sentido de que foram menos acionados) do que o candidato da grande mídia, Geraldo Alckmin.
Aliás, talvez esse tenha sido o grande triunfo da Band, além de banir do debate o líder absoluto das pesquisas, ainda conseguiu uma forma de promover o seu candidato.
No mais e a reboque dessa última constatação, é preciso louvar um dos pontos mais importantes do evento e a expressão maior de solidariedade, respeito e justiça praticados pelo candidato Guilherme Boulos.
De todos os presentes, foi o único a ter a coragem de denunciar o medo, a injustiça e a censura da não participação do ex-presidente Lula no debate.
É preciso que jamais nos esqueçamos que Lula livre e Lula candidato são requisitos essenciais para o exercício da plena democracia e do pleno respeito à vontade soberana da grande maioria do povo brasileiro.

terça-feira, 3 de abril de 2018

Do jejum à danação eterna: retratos do processo penal à brasileira. Artigo do defensor público Bruno Baghin para o site Justificando


"Em primeiro lugar, escancaram a visão que determinados agentes possuem acerca de sua função pública: a de que estariam em uma cruzada, uma guerra santa, uma verdadeira jornada messiânica na luta do bem contra o mal, reproduzindo uma lógica binária de que o mundo – e o Brasil –  é povoado unicamente por mocinhos e bandidos (estando eles ao lado dos mocinhos, claro), e ignorando as complexidades de uma sociedade marcada não só pela corrupção, mas também pela desigualdade, pela pobreza, pela concentração de renda, pelo racismo, pela intolerância, pela existência de castas privilegiadas etc. Sem dúvida, uma lógica simplória e maniqueísta." Bruno Baghim, Defensor Público do Estado de São Paulo


Do jejum à danação eterna: retratos do processo penal à brasileira


Do site Justificando:

Terça-feira, 3 de Abril de 2018

Do jejum à danação eterna: retratos do processo penal à brasileira


Agência Brasil
Tweeta o Procurador da República: “4ª feira é o dia D da luta contra a corrupção na #lavajato. Uma derrota significará que a maior parte dos corruptos de diferentes partidos, por todo o país, jamais serão responsabilizados, na Lava Jato e além. O cenário não é bom. Estarei em jejum, oração e torcendo pelo país”.
A seguir, retweeta o Juiz Federal: “Caro irmão em Cristo, como cidadão brasileiro e temente a Deus, acompanhá-lo-ei em oração, em favor do nosso País e do nosso Povo”. Ambos são agentes públicos atuantes na famosa operação que há alguns anos domina o noticiário nacional.
Falam do julgamento do Habeas Corpus do ex-presidente Lula pelo Supremo Tribunal Federal, no dia 04/04, em que a Corte novamente enfrentará a questão da prisão após a condenação em Segunda Instância, analisando o alcance da garantia – e cláusula pétrea – prevista no art. 5º, LVII, da Constituição Federal.
O presente texto não se presta a discutir o mérito do que será julgado e que vem há um bom tempo sendo discutido nos meios jurídicos.
Sigo firme e seguro ao lado dos que enxergam a Constituição Federal acima de todos, e que entendem que direitos e garantias fundamentais não podem ser suprimidos, especialmente os ligados à defesa da liberdade individual. É isso que nos deixa a salvo das vaidades e abusos dos membros de Poder, garantindo segurança jurídica e possibilidade de defesa.
Não se pode esquecer que qualquer um pode ser alvo de uma persecução penal injusta, e que quando isso ocorre, é aos direitos e garantias individuais que se agarram ferrenhamente até os mais moralistas críticos das liberdades fundamentais.
Retomando, aqui se busca refletir acerca das exortações das duas conhecidas pessoas que, transitoriamente, ocupam cargos públicos de relevância em nosso Sistema de Justiça, e que irão jejuar e fazer oração em prol de nosso País.
Indiscutível que possuem o direito constitucional de se manifestarem, bem como de professarem sua fé. Isso é óbvio e precisa ser respeitado. Mas como agentes públicos que são, também se sujeitam ao controle de seus atos e manifestações, além de deverem respeito, acima de tudo, à Constituição.
E o que deixam transparecer os tweets dos respeitáveis e transitórios ocupantes de dois cargos públicos, para além da devoção cristã que tentam proclamar?
Em primeiro lugar, escancaram a visão que determinados agentes possuem acerca de sua função pública: a de que estariam em uma cruzada, uma guerra santa, uma verdadeira jornada messiânica na luta do bem contra o mal, reproduzindo uma lógica binária de que o mundo – e o Brasil –  é povoado unicamente por mocinhos e bandidos (estando eles ao lado dos mocinhos, claro), e ignorando as complexidades de uma sociedade marcada não só pela corrupção, mas também pela desigualdade, pela pobreza, pela concentração de renda, pelo racismo, pela intolerância, pela existência de castas privilegiadas etc. Sem dúvida, uma lógica simplória e maniqueísta.
Em segundo lugar, se assenhoram da “bondade” (aliás, quem nos salvará desta “bondade dos bons”?), como se os opositores de suas ideias fossem, a um só tempo:
(i) favoráveis à corrupção e
(ii) contrários a “deus” (sim, com letra minúscula, pois não sabemos mais de qual deus se está a falar: se do que representa amor, tolerância, e perdão ou se do “deus” justiceiro, vingativo, combatente).
Inaceitável.
Respeitando profundamente os que,com argumentos jurídicos, defendem a prisão após a condenação em Segundo Grau, a modificação do entendimento do STF vem sendo criticada com veemência por doutrinadores e operadores do Direito desde fevereiro de 2016, quando do julgamento do Habeas Corpus nº 126292, e não em razão da possibilidade de prisão de algumas dezenas de políticos e empresários corruptos, mas sim pela ofensa à Constituição Federal e pelo reflexo que a decisão traria e está trazendo para milhares de miseráveis – os de sempre, que já lotam nossas prisões.
Não é, e nunca foi sobre Lula ou outros acusados de corrupção. Não é, e nunca foi, uma defesa da corrupção.
Aliás, o que seria corrupção? Restringe-se a casos de obtenção de vantagens ilícitas por servidores públicos e a negociatas escusas? Ou também podemos falar dosatos que corrompem a Constituição? Como combater corrupção com mais corrupção?Como combater corrupção e a violação das leis quando rasgamos a nossa Lei Maior?
O certo é que, ao menos entre operadores do Direito, o debate deveria se restringir ao campo jurídico. Especialmente se tais operadores são ocupantes de cargos públicos, servidores de um Estado laico. Não há espaço para heroísmo, julgamentos morais, e pregações religiosas.
Não somos um Estado teocrático, e não se concebe como aceitável a invocação de divindades como argumento de autoridade e como instrumento de pressão contra uma Corte Suprema. O que quer que o STF decida na quarta-feira, 04/04/2018, deve ser pautado no Direito (talvez aqui resida o problema, não?), e não em palavras de Fé.
Do contrário, o que restaria aos hereges defensores da constituição? A estes bruxos e bruxas que se apegam à defesa de direitos e garantias individuais, atravancando o caminho dos que, em sua santa empreitada, desejam, a qualquer preço, livrar o Brasil dos ímpios? O que merecem, além da danação eterna?
Parece piada, mas não é. E diante da escalada autoritária que temos presenciado, patrocinada por inúmeros agentes públicos, em breve os acusados preferirão ser submetidos às ordáliasao invés de sofrerem o “processo penal à brasileira”. Já que o julgamento é divino, que ao menos fiquemos com o original.
Bruno Bortolucci Baghim é Defensor Público do Estado em São Paulo

domingo, 1 de abril de 2018

O jejum de Dallagnol pela prisão de Lula vem do antipetismo fanático de sua igreja evangélica em Curitiba.Por Kiko Nogueira


"O gesto fanático de Dallagnol tem que ser entendido no contexto da criação dele numa igreja evangélica de Curitiba. O DCM explicou de onde vem o fervor religioso de Dallagnol numa matéria que reproduzo aqui". - Kiko Nogueira

Do Diário do Centro do Mundo:

O procurador Deltan Dallagnol, da Lava Jato, foi às redes sociais no domingo de Páscoa para contar que ficará sem comer e fará orações pela prisão de Lula.
“O cenário não é bom. Estarei em jejum, oração e torcendo pelo país”, escreveu.
O gesto fanático de Dallagnol tem que ser entendido no contexto da criação dele numa igreja evangélica de Curitiba. O DCM explicou de onde vem o fervor religioso de Dallagnol numa matéria que reproduzo aqui:
O procurador apresenta no púlpito suas medidas contra a corrupção
Dallagnol apresenta em igreja do Rio suas medidas contra a corrupção

Ninguém duvida que o coordenador da força tarefa da Lava Jato, Deltan Martinazzo Dallagnol, é um homem de convicções. Mais do que isso, é um homem de fé.
No ano passado, Dallagnol fez uma peregrinação por igrejas evangélicas em busca de apoio às suas 10 medidas de combate à corrupção.
Num culto, respondeu a uma espectadora que queria saber sobre seus planos, de acordo com o Estadão: “Eu descartaria poucas coisas em relação a meu futuro, cogito talvez até virar pastor. Mas nós focamos no presente”.
Dallagnol é membro da Igreja Batista de Bacacheri, bairro de Curitiba, onde costuma ministrar palestras com seu indefectível powerpoint.
Lança mão de imagens fortes para impactar as plateias. O mesmo sujeito que apontou Lula como “comandante máximo” e “grande general” da “propinocracia” gosta de lembrar que “a corrupção é uma assassina sorrateira, invisível e de massa”, uma “serial killer que se disfarça de buracos de estradas, de falta de medicamentos, de crimes de rua e de pobreza.”
A retórica e as técnicas do show de Dallagnol foram influenciadas pesadamente pelas lideranças religiosas de sua terra. Não só a forma: o moralismo, o maniqueísmo e o antipetismo vieram dali.
“Dentro da minha cosmovisão cristã, eu acredito que existe uma janela de oportunidade que Deus está dando para mudanças”, disse ele no Rio em sua turnê religioso-política.
Repetiu essa sentença numa entrevista ao pastor Paschoal Piragine Júnior, da Primeira Igreja Batista de Curitiba, dono de um programa meia boca de bate papos que ele chama de talk show (assista abaixo).
Piragine é uma referência para esse povo. Ganhou fama em 2010 ao pedir a seus fieis que não votassem em candidatos do PT por causa do posicionamento do partido em relação a temas como aborto, criminalização da homofobia e divórcio.
O mote da pregação era “iniquidade”. Piragine denunciou o Programa Nacional de Direitos Humanos. “Se você olhar, vai ver como a máquina estatal está mobilizada. Se os ministros de Estado que estão ligados a esse governo não trabalharem assim, perdem o seu cargo”, falou. O vídeo da peroração tem, hoje, mais de 3 milhões de visualizações.
Uma das admiradoras mais entusiasmadas de Dallagnol é Marisa Lobo, autodenominada “psicóloga cristã”, campeã de causas como a da cura gay. Marisa faz conferências na mesma igreja do amigo sobre sua nova obsessão, a ideologia de gênero, tema de seu último livro.
A "psicóloga cristã" Marisa Lobo defende o colega
A “psicóloga cristã” Marisa Lobo defende o colega

Depois da apresentação da denúncia contra Lula num hotel curitibano de luxo, postou uma mensagem de solidariedade ao “irmão”: “Dallagnol congrega na mesma igreja que eu e é nosso orgulho. Deus está usando a Lava Jato para limpar o Brasil”.
A Igreja Batista do Bacacheri foi fundada em 1959. O site da empresa informa que L. Roberto Silvado, que serve ali desde 1988, é o atual coordenador geral do colegiado de pastores.
Silvado tem uma atuação mais discreta que fanáticos desmiolados como Marisa, mas deixa claras suas preferências e intenções no Facebook. Milita intensamente pelas célebres medidas de Dallagnol.
“Nossa Igreja participou ativamente na coleta de assinaturas. Ao todo foram mais de 2 milhões em todo Brasil. (…) Nós fazemos parte disso, vamos continuar manifestando apoio até que sejam aprovadas. Artistas e líderes de todo país precisam se manifestar, como o fez a atriz Maria Fernanda Cândido no vídeo abaixo”, diz numa de suas postagens.
Dallagnol, registre-se, não está sozinho. O procurador Roberson Pozzobon palestrou num templo em 2015 durante o Fórum Batista de Ação Social. Foi anunciado como “nosso irmão em Cristo, Procurador da República e colaborador do Juiz Sergio Moro que coordena a Operação Lava Jato”.
Pozzobon é o autor da seguinte frase: “Não teremos aqui provas cabais de que Lula é o efetivo proprietário, no papel, do apartamento, pois justamente o fato de ele não figurar como proprietário é uma forma de ocultação.”
Há seis anos, André Egg, professor da UNESPAR e da UFPR, escreveu um artigo na revista Amálgama sobre Piragine e os evangélicos do Paraná que ainda soa atual. “Em que lugar neste caminho o protestantismo brasileiro se perdeu?”, perguntava.
“Suspeito que em algum momento durante os anos 1950-60, quando missionários fundamentalistas norte-americanos implantaram diversas instituições para-eclesiásticas no Brasil, organizando acampamentos, fundando editoras, livrarias, conjuntos musicais, trazendo uma fé irracional, trabalhando com crianças e jovens (APEC, Palavra da Vida, MPC, JOCUM, Cruzada Estudantil e Profissional para Cristo) para formar gerações de abestalhados/alienados que perderam o compromisso com o país, com a fé, com o exame das Escrituras, com a liturgia, com a tradição não-conformista do protestantismo.
Os luteranos e anglicanos parece que restaram como únicos oásis diante do domínio absoluto do fundamentalismo, que tragou todos os grupos oriundos do calvinismo (batistas, presbiterianos, congregacionais) e suas dissidências pentecostais. (…)
O pastor incita os fiéis a não votarem no PT, por ele ser contra a “fé bíblica”. Curiosamente, isso é feito sem apoio em nenhum versículo bíblico (…)
Assembléias batistas viraram instâncias de homologação de pastores show-men que trazem as decisões prontas para o pessoal levantar a mão. Batistas de igrejas como a Primeira Igreja Batista de Curitiba e a Igreja Batista do Bacacheri não se dão nem ao trabalho de conferir a autenticidade dos diplomas de doutorado que seus pastores apresentam como credencial. Preferem ser enganados (…).
É desse caldo que estão saindo os vingadores que vão salvar o Brasil. Deus nos proteja.

Acompanhe as publicações do DCM no Facebook. Curta aqui.
00:00/00:50diariodocentrodomundo Video 2018-04-01_00-47

domingo, 28 de agosto de 2016

Luis Fernando Veríssimo sobre a pantomima golpista Elites-PMDB-PSDB-STF: "Estamos sendo feitos de palhaços"


Jornal GGNLuis Fernando Veríssimo escreve em O Globo deste domimdo (28), na véspera da última sessão do julgamento do impeachment de Dilma Rousseff, que não seria nenhuma surpresa se após o afastamento defitinivo da presidente reeleita em 2014 a Câmara decidisse não mais cassar o mandato de Eduardo Cunha, premiando-o com o título de "herói do impeachment".
Isso, para o escritor, faz sentido num cenário em que Michel Temer comete os mesmos "crimes de responsabilidade" que Dilma e nenhum jornal faz grita sobre isso; Sergio Moro, o juiz que vaza grampo presidencial, é "justiceiro" para a maioria da população, e Gilmar Mendes é o único que se levanta contra os abusos da Lava Jato. Que dose! Melhor evitar o espelho para não descobrirmos que somos os palhaços nessa história toda, diz Veríssimo.

De Luis Fernando Veríssimo:

Depois da provável cassação da Dilma pelo Senado, ainda falta um ato para que se possa dizer que la commedia è finita: a absolvição do Eduardo Cunha. Nossa situação é como a ópera “Pagliacci”, uma tragicomédia, burlesca e triste ao mesmo tempo. E acaba mal. Há dias li numa pagina interna de um grande jornal de São Paulo que o Temer está recorrendo às mesmas ginásticas fiscais que podem condenar a Dilma. O fato mereceria um destaque maior, nem que fosse só pela ironia, mas não mereceu nem uma chamada na primeira página do próprio jornal e não foi mais mencionado em lugar algum.
A gente admira o justiceiro Sérgio Moro, mas acha perigoso alguém ter tanto poder assim, ainda mais depois da sua espantosa declaração de que provas ilícitas são admissíveis se colhidas de boa-fé, inaugurando uma novidade na nossa jurisprudência, a boa-fé presumida. Mas é brabo ter que ouvir denúncias contra o risco de prepotência dos investigadores da Lava-Jato da boca do ministro do Supremo Gilmar Mendes, o mesmo que ameaçou chamar o então presidente Lula “às falas” por um grampo no seu escritório que nunca existiu, e ficou quase um ano com um importante processo na sua gaveta sem dar satisfação a ninguém. As óperas também costumam ter figuras sombrias que se esgueiram (grande palavra) em cena.
O Eduardo Cunha pode ganhar mais tempo antes de ser julgado, tempo para o corporativismo aflorar, e os parlamentares se darem conta do que estão fazendo, punindo o homem que, afinal, é o herói do impeachment. Foi dele que partiu o processo que está chegando ao seu fim previsível agora. Pela lógica destes dias, depois da cassação da Dilma, o passo seguinte óbvio seria condecorarem o Eduardo Cunha. Manifestantes: às ruas para pedir justiça para Eduardo Cunha!
Contam que um pai levou um filho para ver uma ópera. O garoto não estava entendendo nada, se chateou e perguntou ao pai quando a ópera acabaria. E ouviu do pai uma lição que lhe serviria por toda a vida:
— Só termina quando a gorda cantar.
Nas óperas sempre há uma cantora gorda que só canta uma ária. Enquanto ela não cantar, a ópera não termina.
Não há nenhuma cantora gorda no nosso futuro, leitor. Enquanto ela não chegar, evite olhar-se no espelho e descobrir que, nesta ópera, o palhaço somos nós.