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sábado, 26 de novembro de 2016

Fidel Castro, presente! Artigo de Urariano Mota



GGN. - Hoje acordei de madrugada, depois de uma noite insone. Pior dizendo, me levantei da cama depois de acordas e adormeces sucessivos. As pessoas do povo de Água Fria, meu amado bairro do Recife, diriam que essa instabilidade era um  aviso, e com isso queriam dizer, mensagens que nos chegam sem que a consciência tome tento. Então me levantei, abri o computador e recebi o que eu não queria: “Fidel morre aos 90 anos”.  O que é isso? Sabemos, claro, que mais cedo ou mais tarde ia acontecer, até porque é da nossa natureza a mortalidade, até porque Fidel atingira uma idade que não comportava a surpresa da morte, até porque... besteira. Olho, torno a ler, volto para a tela  e só consigo falar: porra!
Mas porra! só se escreve como uma interjeição. O que dizer do golpe desta manhã?   Pensei, penso e percebo que o melhor será a retomada de trechos do que escrevi sobre o comandante quando ele completou 89 anos. Me calo e copio.
As notícias não falam que Fidel Castro é  uma pessoa mítica, um homem que se tornou  lenda e símbolo.  Sobre ele escreveu o gênio universal das Américas, de nome Gabriel García Márquez:
“Raras vezes Fidel cita frases alheias, nem em conversas nem na tribuna, a não ser as frases de José Martí, que é seu autor de cabeceira. Conhece a fundo os vinte e oito volumes da sua obra..
Seu auxiliar supremo é a memória, e a usa até o abuso para apoiar discursos ou palestras íntimas com raciocínios invisíveis e operações aritméticas de uma rapidez incrível. Sua tarefa de acumulação informativa começa desde que acorda.  Toma o café da manhã com não menos de duzentas páginas de noticias do mundo inteiro. .
Um homem de costumes austeros e ilusões insaciáveis, com uma educação formal às antigas, de palavras cuidadosas e modos sutis, incapaz de conceber nenhuma ideia que não seja descomunal. Sonha que seus cientistas encontrem o remédio definitivo contra o câncer, e criou uma política exterior de potência mundial em uma ilha sem água doce, oitenta e quatro vezes menor que o seu inimigo principal. É tal o pudor com que protege sua intimidade que sua vida privada terminou por ser o enigma mais hermético da sua lenda….
Eu tenho escutado Fidel em suas escassas horas de saudades quando ele recorda as manhãs do campo de sua infância rural, a namorada da juventude que se foi, as coisas que poderia ter feito de outra maneira para ganhar mais tempo para a vida”.
Em belo artigo publicado no Granma http://www.granma.cu/reflexiones-fidel/2015-08-13/la-realidad-y-los-suenos , para os seus 89 anos, ele próprio, Fidel Castro, nos falou:
“Escrever é uma forma de ser útil, se consideramos que nossa sofrida humanidade deve ser mais e melhor educada ante a incrível ignorância que nos envolve a todos, com exceção dos pesquisadores que buscam nas ciências uma resposta satisfatória….
Os Estados Unidos devem a Cuba indenizações  equivalentes a danos, que ascendem a muitos e valiosos milhões de dólares como denunciou nosso país com argumentos e dados irrebatíveis ao longo de suas intervenções nas Nacões Unidas.
Como foi expresso com toda clareza pelo Partido e o Governo de Cuba, em prova de boa vontade e da paz entre todos os países deste hemisfério e do conjunto de povos que integram a família humana, e assim contribuir para garantir a sobrevivência de nossa espécie no modesto espaço que nos corresponde no universo, não deixaremos nunca de lutar pela paz e o bem-estar de todos os seres humanos, independentemente da cor da pele e do país de origem de cada habitante do planeta, assim como pelo direito pleno de todos a possuir ou não una crença religiosa.
A igualdade de todos os cidadãos à saúde, educação, trabalho,   alimentação, segurança,  cultura, ciência, e bem-estar,  quero dizer, os mesmos direitos que proclamamos quando iniciamos nossa luta,  mais os que venham de nossos sonhos de justiça e igualdade para os habitantes de nosso mundo, é o que desejo a todos. Aos que comungam em tudo ou em parte com as mesmas ideias, ou muito superiores, mas na mesma direção, lhes dou meus agradecimentos, queridos compatriotas”.
Eu penso que Fidel Castro é imortal. Mas o que é mesmo essa tal de imortalidade? Tentei esclarecer o fenômeno em página que escrevi ara o romance “A mais longa juventude”, ainda inédito:
A vida é o que resiste. Que contradição mais estranha, eu descubro e me digo: a vida, tão breve, é tudo que resiste. Mas que paradoxo: se ela está no tempo que se dirige para o fim, se ela é naquilo que deixará de ser, como sobreviverá à Irresistível, que é mais conhecida pelo nome de morte? A resposta é que existe uma resistência na duração do instante, que ocorre na intensidade, luz, flor ou cintilação. É como o brilho da luz de uma estrela distante, que recebemos agora, “agora”, se fosse possível um agora simultâneo, mas que num paradoxo já não existe. O que vemos agora já não mais existe, tamanha foi a distância que a luz percorreu no espaço escuro até ferir a nossa percepção. Mas isso é no terreno físico, mecânico, do reino da velocidade da luz de 300.000 quilômetros por segundo. O que desejo dizer é mais fino. A resistência, que é vida, se processa na brevidade pelas ações e trabalhos dos que partiram e partem. Mas nós, os que ficamos, não estamos na estação à espera do nosso trem. Nós somos os agentes dessa duração, esse trem não chegará com um aviso no alto-falante, “atenção, senhor passageiro, chegou a sua hora, entre”. Até porque talvez chegue sem aviso, e não é bem um transporte. O trem é sempre de quem fica. E porque somos agentes da duração, a nossa vida é a resistência do fugaz. Nós só vivemos enquanto resistimos. Nós alcançamos a imortalidade, isto é, o que transcende a sobrevivência ao breve, porque a imortalidade não é a permanência de matusaléns decrépitos, nós só alcançamos a imortalidade pelo que foi mortal, mortal, mortal, e sempre mortal não morreu. Aquilo que num poema Goethe gravou em pedra:

“Deve-se mover, obrar criando
Tomar sua forma, ir-se alterando
Momento imóvel é aparência.
Na eternidade em disparada
Que tudo arruína e leva ao nada
Somente o ser tem permanência”             
Penso que é nessa forma, a da permanência do ser, a da vida que é resistência, que podemos ver a imortalidade de Fidel Castro. Ele se tornou imortal não só agora.  Ele se tornou antes, desde a derrubada de Fulgencio Batista e da revolução na ilha que virou um continente. Fidel passa por este presente e resistirá com sua vida no tempo.  
Assim foi o que escrevi nos seus 89 anos. Mas hoje, no Face, apenas consegui dizer: começa um novo tempo para nós. Nós não queríamos que chegasse tão cedo.

segunda-feira, 15 de junho de 2015

Leonardo Boff, Papa Francisco, Teologia da Libertação e o conservadorismo da Igreja


“A Igreja sempre fez política, porém, uma política de direita”


Leonardo Boff, teólogo e escritor, fala sobre o perdão do papa Francisco aos que, como ele, seguem a Teologia da Libertação

Coluna de Beatriz Borges, jornal El Pais



O teólogo Leonardo Boff, em fevereiro. / LUCAS LACAZ RUIZ  (FOLHAPRESS)

O movimento católico da Teologia da Libertação, que defende uma Igreja para os pobres e ideais de justiça social, nunca foi bem visto pela Santa Sede. Vários sacerdotes foram inabilitados por seguir essa doutrina de dimensão sociopolítica, principalmente na América Latina durante os anos 70. O papa Francisco, para tentar desfazer este mal-estar histórico, deu o primeiro passo. Nesta semana, retirou a punição e solicitou a reintegração do sacerdote nicaraguense Miguel d’Escoto, de 81 anos, suspenso em 1985 por seu envolvimento com a Frente Sandinista, movimento político de seu país, de viés socialista.
No Brasil, o teólogo Leonardo Boff, de 75 anos, foi outra vítima do conservadorismo da Igreja nos anos 70. Tudo porque ele apoiava a ideia de que a instituição precisava resgatar a origem e a vida de Jesus, que nasceu pobre e morreu por pregar seus ideais libertários.
Boff foi renegado pela Santa Sé de suas funções sacerdotais em 1984. Na época, a decisão foi do então cardeal Joseph Ratzinger, responsável pela Congregação da Doutrina da Fé, um órgão criado para fiscalizar e punir os padres que não seguiam os preceitos mais tradicionais da Igreja. Ratzinger – que ironicamente veio a ser o papa da abertura da Igreja – chegou a condenar mais de 100 teólogos, principalmente latino-americanos, continente onde a Teologia ganhou força, contestando as ditaduras dos anos 70 na região e as injustiças sociais. A doutrina, que existe há pouco mais de 40 anos, é considerada por muitos uma contaminação do evangelho pelo marxismo. Boff explica com uma frase porque esta corrente não conseguiu se firmar na Europa, mas sim na América Latina, onde há mais desigualdades: “A pessoa pensa a partir de onde os pés pisam. Assim vale também para as Igrejas”. Boff é otimista e acredita que a reabilitação de seguidores da Teologia da Libertação está apenas no começo. Ele mesmo diz que voltaria a exercer seu papel eclesiástico, caso fosse reabilitado. “Mas estou casado. E a Igreja não aceita padres casados.”
Pergunta. Esta semana o papa Francisco aceitou o pedido do sacerdote nicaraguense Miguel D’Escoto, suspenso pelo papa João Paulo II em 1985. O senhor acredita que haverá mais reabilitações dos seguidores da Teologia da Libertação?

O Papa Francisco hoje diz coisas muito mais pesadas do que aquelas que eu escrevi no livro condenado Igreja: carisma e poder
Resposta. O Papa está reabilitando os teólogos perseguidos. Assim que recebeu em audiência particular o fundador da Teologia da Libertação, o peruano Gustavo Gutiérrez. Eu mesmo tenho um convite de um eventual encontro. D'Escoto foi sempre fiel à Igreja e defendia as posições sociais da Igreja quando Presidente da ONU. Mereceu ser reabilitado.
P. O senhor acredita que esta e outras condenações similares aconteceram pelo medo da Igreja de ter padres-políticos?
R. A acusação de marxismo na Teologia da Libertação vinha da direita e dos militares. Lamentavelmente, Roma, especialmente o Papa João Paulo II, deu ouvidos a estes, pois era obcecado contra o marxismo que conheceu na Polônia. Isso escandalizou os pobres, pois se sentiam incompreendidos: o Papa estava do lado de seus opressores.
P. Por que readmitir esses sacerdotes agora, o que mudou para que essa rejeição à Teologia da Libertação fosse superada?
R. O Papa Francisco vem da Teologia da Libertação de vertente argentina, que tem o nome de "teologia do povo" ou "teologia da cultura oprimida". Seu mestre, o Pe. Juan Carlos Scanonne, testemunhou o entusiasmo do Pe. Bergoglio por esta teologia. Daí fez voto de pobreza e de privilegiar o mundo das favelas. Seu discurso e seus gestos vem do caldo eclesial criado na Igreja na América Latina, diferente daquele da velha cristandade europeia em agonia.

Vergonhoso foi o fato de o Cardeal Joseph Ratzinger ter enviado uma carta obrigando os bispos a não denunciarem os padres pedófilos aos tribunais civis”
P. Temos sacerdotes para reabilitar no Brasil? O senhor mesmo voltaria?
R. Eu fui condenado, bem como a Irmã Ivone Gebara, o Monge Marcelo Barros e outros. E todos tivemos apoio da maioria de nossos bispos de forma que temos podido continuar nosso trabalho teológico. Eu preguei retiro até para bispos, sem falar de encontros com freiras e padres. Continuei teólogo, embora Roma preferisse que fosse sub-diretor da Coca-Cola no Rio. Eu voltaria a exercer, caso fosse reabilitado. Mas estou casado. E a Igreja não aceita padres casados.
P. No Brasil temos mais pastores que padres concorrendo a cargos públicos. Além de contar com uma bancada evangélica mais representativa que o próprio catolicismo, religião que a maioria dos brasileiros segue. Como interpretamos esta incongruência?
R. A Igreja sempre fez política, pois está na sociedade. Mas fez política de direita. Quando começou a apoiar os pobres, o Movimento dos Sem Terra, dos índios, dos afrodescendentes e dos sem-teto e outros, acusaram-na de fazer política. Mas essa é a boa política pois defende os mais vulneráveis, objeto do amor privilegiado de Jesus e dos Apóstolos. Não devemos esquecer que somos herdeiros de alguém, Jesus de Nazaré, que foi preso, torturado e pregado na cruz por causa de seu compromisso com os últimos nos quais via a presença do Reino de Deus. Boa parte do grupo evangélico no Congresso não está defendendo os interesses gerais do povo, mas seus privilégios. Fazem do evangelho da prosperidade uma forma de ganhar dinheiro. É uma violência contra a democracia e uma ofensa à tradição de Jesus. Não é sem razão que quase não usam o Novo Testamento, mas o Antigo, mais ligado às coisas do mundo, embora tenha uma grandeza religiosa como os salmos e a mensagem dos profetas que conservam permanente atualidade.

Muitas instituições europeias voltadas ao Terceiro Mundo salvam as Igrejas do cinismo de verem a miséria generalizada e não denunciarem o sistema econômico-financeiro de exploração que a produz”
P. É possível uma bancada católica?
R. Sou contra uma bancada católica. Somos um Estado laico e pluralista. Uma bancada católica defenderia as ideias católicas e não os interesses gerais do povo. Ser católico em política é perseguir o ideal de Jesus, dando visibilidade aos invisíveis, conferindo centralidade aos pobres, fazendo boas políticas públicas. Cristo não veio para criar cristãos, mas para que haja pessoas solidárias, compassivas, comprometidas com a ética e os valores humano-espirituais que dignificam uma sociedade. Por aí passa a vontade de Deus e os bens do Reino que Jesus quis e anunciou.
P. Em alguns países europeus, como a Espanha e a Itália, o clero colaborou com os regimes ditatoriais, enquanto na América Latina a Teologia da Libertação mobilizou muitos padres a ajudarem os perseguidos políticos. Como interpretar essa disparidade de comportamento da mesma Igreja?
R. A pessoa pensa a partir de onde os pés pisam. Assim vale também para as Igrejas. Igrejas que estão, como as europeias, pisando no solo burguês, do bem-estar social, construído não só pelo trabalho do povo, mas pela exploração das multinacionais alemãs, norte-americanas, italianas e outras, acabam defendendo os ideais burgueses. Mas devemos reconhecer que há muitas instituições europeias voltadas aos desamparados do Terceiro Mundo e ajudam poderosamente projetos de libertação social e dos direitos humanos aqui na periferia do mundo. Estes são nossos companheiros e companheiras de caminhada e salvam as Igrejas do cinismo de verem a miséria generalizada do mundo e não denunciarem o sistema econômico-financeiro de exploração que a produz.
P. A ala mais conservadora do Vaticano está, aparentemente, perdendo força desde que Bergoglio assumiu o posto na Santa Sede:crianças de pais casados no civil e de casais gays foram batizadas ecasos de pedofilia revelados e punidos. O que o senhor acha que a Igreja quer dizer com essas mensagens de aceitação e perdão?

Boa parte do grupo evangélico no Congresso fazem do evangelho da prosperidade uma forma de ganhar dinheiro. É uma violência contra a democracia”
R. O que a Igreja faz é uma obra de justiça para com as vítimas. Ela deveria publicamente dizer que está envergonhada pois prega uma coisa e faz outra; que a pedofilia não é apenas um pecado mas um crime a ser levado aos tribunais. Toda a pretensão que a Igreja Católica tinha de exclusividade e de ser a referência moral da humanidade e "experta em humanidade" foi por água abaixo. Ela é feita de homens e de mulheres, com os defeitos e as virtudes que carregam. Finalmente, ela se deu conta da desmoralização que causou e lhe custa muito trabalho recuperar respeito e confiabilidade pública. Pelo menos o famoso farisaísmo oficial da Cúria Romana foi desmascarado por seus crimes financeiros e pelos lobbies de homoafetivos que infestavam a Cúria.
P. Os casos de pedofilia no clero sempre existiram, mas aparentemente estão sofrendo mais retaliações que antes. Quais medidas este crime, que ainda mancha as batinas no mundo todo, exige?
R. A Igreja Católica perdeu seu point d'honneur, que era a moralidade, a pretensão de ser a portadora da verdade. Com os casos de pedofilia em muitos países, envolvendo não apenas padres, mas também bispos e dois cardeais, tudo isso entrou em crise. Trata-se de uma completa desmoralização. Vergonhoso foi o fato de o Cardeal Joseph Ratzinger ter enviado uma carta, sob sigilo pontifício, obrigando os bispos a não denunciarem os padres pedófilos aos tribunais civis. Isso para salvaguardar o bom nome da Igreja. Atribuía as acusações aos secularistas, à imprensa laica e aos inimigos da Igreja. Quando se verificou que a pedofilia clerical era verdade, teve que voltar atrás e reconhecer o erro. Duas dioceses norte-americanas foram quase à falência pelas multas recebidas pelos processos contra os pedófilos. Mas creio que a Igreja não fez o suficiente. Ela não aceita que há um laço intrínseco entre um celibato mal vivido e integrado e a pedofilia. Não quer tocar no celibato, quando todas as Igrejas já abriram mão da lei do celibato, deixando-o à liberdade dos sacerdotes.
P. Tivemos este ano a notícia de mulheres que pediram ao Papa autorização para se relacionar com sacerdotes. O senhor acredita que essas pressões e atitudes pontuais dos fiéis resultarão em algo concreto?
R. Eu creio que haverá mudanças no sentido de se tornar facultativo o celibato e de se admitir padres casados ou pessoas já aposentadas com boa situação familiar tornarem-se sacerdotes e atenderem um conjunto de prédios onde moram, por exemplo. Mas não creio que o Vaticano vá permitir que padres continuem tendo relações afetivas com religiosas. Seria um contrassenso. Que peçam licença e se casem e não querer ter vantagens das duas situações.

Ser católico em política é perseguir o ideal de Jesus, dando visibilidade aos invisíveis”
P. Qual será a pauta do seu seu encontro com o papa Francisco?
R. O Papa está preparando uma encíclica [carta papal sobre uma doutrina católica] sobre a ecologia e a defesa da vida. Pediu-me materiais que eu enviei, pois é um tema sobre o qual trabalho há muitos anos. Especialmente pediu o documento que ajudei a elaborar no sentido de uma reforma da ONU, a parte mais central e teórica sobre uma Declaração do Bem Comum da Mãe Terra e da Humanidade. Enviei também a Carta da Terra, um texto oficial da UNESCO com excelentes sugestões para salvar a vida no planeta no qual também participei em sua redação junto com Gorbachev e outros.
P. Sua condenação foi mais política do que teológica. O que significa esta afirmação?
R. Minha condenação constitui um caso raro na história das condenações dentro da Igreja. Não se condena nenhuma doutrina minha, apenas se diz que minhas opções poderiam por em risco a fé dos fiéis. Quais eram as opções? A opção pelos pobres, a opção por uma Igreja despojada e ecumênica, a crítica à não observância dos direitos humanos dentro da Igreja, especialmente para com as mulheres e os divorciados. Estava em boa companhia, pois estas eram as opções de Jesus. O Papa Francisco hoje diz coisas muito mais pesadas do que aquelas que eu escrevi no livro condenadoIgreja: carisma e poder. A condenação era mais política do que teológica. Roma queria atingir a CNBB [Conferência Nacional dos Bispos do Brasil], considerada demasiadamente progressista. E eu era um dos seus principais assessores. Como dizem os alemães num dito popular: você bate no saco mas pensa no burro que carrega o saco. Quer dizer: Roma batia em mim (o saco) mas pensava na Igreja do Brasil (o burro). Eu logo entendi isso, bem como a CNBB. Daí que aceitei as punições impostas. Estava mais interessado em salvaguardar o caminho da Igreja do que fazer um caminho pessoal de rebeldia.

segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

Leonardo Boff: "Hoje, a Revolução significa puxar os freios de emergência"

Hoje a revolução significa puxar os freios de emergência


Leonardo Boff




Atribui-se a Karl Marx esta frase pertinente: “só se fazem as revoluções que se fazem”. Quer dizer, a revolução não configura um ato subjetivo e voluntarista. Quando assim ocorre, é logo vencida por imatura e falta de consistênica.   A revolução acontece quando as condições da realidade estão objetivamente maduras e  simultaneamente existe nos grupos humanos a vontade subjetiva de querê-la. Então ela irrompe com chance, nem sempre garantida, de vencer e se consolidar.
Atualmente teríamos todas as condições objetivas para uma revolução. Revolução é aqui tomada no seu sentido clássico como a mudança dos fins gerais de uma sociedade que cria os meios adequados para alcançá-los, o que implica a mudança nas estruturas sociais, jurídicas, econômicas e espirituais desta sociedade.

Atualmente a degradação geral em quase todos os âmbitos, especialmente na infra-estrutura natural que sustenta a vida é tão profunda que, em si, se necessitaria de uma radical revolução. Do contrário, podemos chegar tarde demais e assistir a catástrofes ecológico-sociais de magnitude nunca antes vividas pela história humana.



Mas não existe ainda, nos “donos do poder” a consciência subjetiva desta urgência. Nem a querem. Preferem manter seu poderio mesmo com o risco de eles mesmos sucumbirem num eventual Armagedon. O Titanic está afundando mas sua obsessão por ganhos é tão grande que continuam comprando e vendendo joias como se nada estivesse acontecendo.

Geralmente as “revoluções” são feitas pelos poderosos que se antecipam aos oprimidos, dizendo, como com frequência se pratica no Brasil:”façamos nós a “revolução” antes que o povo a faça”. 

Naturalmente não se trata de uma revolução, mas de um golpe de classe, usando, como no caso da “revolução de 1964”as forças armadas para esse fim. Esses vitoriosos tem seus acólitos que lhes cantam a loas, levantam-lhe monumentos, dão nomes às ruas, pontes e praças aos golpistas, como ainda persiste no Brasil.
A história dos vencidos raramente é feita. Sua memória é apagada. Mas às vezes esta memória vem à tona como uma força denunciatória perigosa. Foi mérito, por exemplo, do historiador mexicano Miguel León-Portilla de narrar o “Reverso da Conquista” da América Latina pelos ibéricos. Ai recolhe os testemunhos dramáticos e lancinantes das vítimas astecas, mais e incas. Em português foi traduzido por “A conquista da América Latina vista pelos Indios”(Vozes 1987). Vejamos apenas um testemunho indígena por ocasião da tomada de Tlatelolco (próxima da capital Tenochtlitlan, atual cidade do México). É simplesmente de chorar:

“Nos caminhos jazem dardos quebrados; os cabelos estão espalhados; destelhadas as casas; incandecentes seus muros; vermes abundam  por ruas e praças e as paredes estão manchadas de miolos arrebentados; vermelhas estão as águas, como se alguém as tivesse tingido; temos mastigado grama salitrosa, pedaços de adobe, lagartixas, ratos e terra em pó e mais os vermes”(León-Portilla, p. 41).


Tais tragédias nos colocam a questão nunca respondida satisfatoriamente: tem sentido a história? Sentido para quem? Há todo tipo de interpretações,  das mais pessimistas que veem a história como a sequência de guerras, assassiantos e matanças, até as mais otimistas, como aquela dos iluministas que pensavam a história como  um crescimento na direção do progresso sem fim e de sociedades cada vez mais civilizadas.

As duas grandes guerras mundias, a de 1914 e a de 1939, e as que se seguiram após, vitimando cerca de 200 milhões pessoas, pulverizaram esse otimismo. Hoje ninguém nos pode dizer em que direção caminhamos: nem os sábios e santos Dalai Lama e o Papa Francisco. Mas os eventos se sucedem com toda a sua ambiguidade, alguns esperançadores, outros amedrontadores.

Filio-me à tradição judaico-cristã que afirma: a história só pode ser pensada partir de dois princípios: o da negação do negativo e o do cumprimento das  promessas. A negação do negativo quer dizer: o criminoso não vai triunfar sobre a vítima. O peso do negativo da história  não detém o sentido definitivo. Pelo contrário, o Criador “enxugará toda lágrima dos olhos, a morte não existirá mais nem haverá luto nem pranto, nem fadiga, porque tudo isso já passou”(Apocalipse 21,4).

O princípio do cumprimento das promessas sustenta:”eis que renovo todas as coisas; haverá um novo céu e uma nova terra; Deus morará entre nós e todos os povos serão povos de Deus”(Apocalipse 21, 5; 1 e 3). É a esperança imorredoura da tradição bíblica que não desaparecia nem quando judeus eram levados às câmaras  nazistas de extermínio.

Com referência à situação atual reporto-me a uma frase de Walter Benjamin, citada por um seu estudioso franco-brasileiro, Michael Löwy:”Marx havia dito que as revoluções são a locomotiva da história mundial. Mas talvez as coisas se  apresentem de maneira completamente diferente. É possível que as revoluções sejam o ato, pela humanidade que viaja nesse trem, de puxar os freios de emergência”(Waler Benjamin:aviso de incêncio,  Boitempo 2005, p. 93-94). Nosso tempo é de puxar os freios antes que o trem se  arrebente no fim da linha.


Leonardo Boff escreveu Cuidar da Terra – proteger a vida: como escapar do fim do mundo,Record, Rio 2010

sexta-feira, 26 de abril de 2013

Mauro Santayana: "A crucificação de Cristo, o Suicídio e a rebelião em Atenas"




A CRUCIFICAÇÃO DE CRISTO, O SUICÍDIO E A REBELIÃO EM ATENAS


por Mauro Santayana, Jornal do Brasil


O homem que prenderam, interrogaram, torturaram, humilharam, escarneceram e crucificaram, na Palestina de há quase dois mil anos, foi, conforme os Evangelhos, um ativista revolucionário. Ele contestava a ordem dominante, ao anunciar a sua substituição pelo reino de Deus. O reino de Deus, em sua pregação, era o reino do amor, da solidariedade, da igualdade. Mas não hesitou em chicotear os mercadores do templo, que antecipavam, com seus lucros à sombra de Deus, o que iriam fazer, bem mais tarde, papas como Rodrigo Bórgia, Giullio della Rovere, Giovanni Médici,  e cardeais como os dirigentes do Banco Ambrosiano, em tempos bem recentes. O papa reinante hoje, tão indulgente com os gravíssimos pecados de muitos de sua grei, decidiu, ex-catedra, que as mulheres não podem exercer o sacerdócio.


Ao longo da História, duas têm sido as imagens daquele rapaz de Nazaré. Uma é a do filho único de Deus, havido na  concepção de uma jovem virgem, escolhida pelo Criador. Outra, a do homem comum, nascido como todos os outros seres humanos, em circunstâncias de tempo e lugar que o fizeram um pregador, continuador da missão de seu primo, João Batista, decapitado porque ameaçava o poder de Herodes Antipas. Tanto João, quanto Jesus, foram, como seriam, em qualquer tempo e lugar, inimigos da ordem que privilegiava os poderosos. Por isso – e não por outra razão – foram assassinados, decapitado um, crucificado o outro.


Um e outro tiveram dúvidas, segundo os evangelistas. João Batista enviou emissário a Jesus, perguntando-lhe se era mesmo o messias que esperava, e Cristo, na agonia, indagou a Deus por que o abandonava. Os dois momentos revelam a fragilidade dos homens que foram, e é exatamente nessa debilidade que encontramos a presença de Deus: os homens sentem a presença do Absoluto quando as circunstâncias o negam. João Batista sentia-se movido pela fé, ao anunciar a vinda do Salvador.


Era um ativista, pregando a revolução que viria, chefiada por outro, pelo novo e mais poderoso dos profetas. Ao saber que Cristo pregava e realizava milagres, supôs que ele poderia ser aquele que esperava, mas duvidou. Nesse momento, moveu-se pela esperança de que o jovem nazareno fosse o Enviado – o que confirmaria a sua fé. Cristo, na hora da morte, talvez levasse a sua dúvida mais adiante, e se perguntasse se a sua morte, que previra e esperara, serviria realmente à libertação dos homens – desde que salvar é libertar. O Reino de Deus, sendo o reino da justiça, é a libertação. Daí a associação entre essa felicidade e a vida eterna, presente em quase todas as religiões. Na pregação de Cristo, a libertação começa na Terra, na confraternização entre todos os homens. Daí o conselho aos que o quisessem seguir, e ainda válido – repartissem com os pobres os seus bens, como fizeram, em seguida, os seus apóstolos, ao criar a Igreja do Caminho. Se acreditamos na vida eterna, temos que admitir que a vida na Terra é uma parcela da Eternidade, que deve ser habitada com a consciência do Todo. Assim, a vida eterna começa na precariedade da carne.


Quarta-feira passada – quando em São João del Rei, em Minas, a Igreja celebrou o Ofício das Trevas no rito antigo – um grego, Dimitris Christoulas, chegou pela manhã à Praça Syntagma, diante do Parlamento Grego, buscou a sombra de um cipreste secular, levou o revólver à têmpora, e disparou. Em seu bilhete de suicida estava a razão: aos 77 anos, farmacêutico aposentado, teve a sua pensão reduzida em mais de 30%, ao mesmo tempo em que se elevou brutalmente o custo de vida. As medidas econômicas, ditadas pelo empregado do Goldman Sachs e servidor do Banco Central Europeu, nomeado pelos banqueiros primeiro ministro da Grécia, Lucas Papademos,  não só reduziram o seu cheque de aposentado, como o privaram dos subsídios aos medicamentos. “ Quero morrer mantendo a minha dignidade, antes que me veja obrigado a  buscar comida nos restos das latas de lixo” – escreveu em seu bilhete de despedida, lido e relido pelos que tentaram socorrê-lo, e que se reuniam na praça.


“Tenho já uma idade idade que não me permite recorrer à força –  mas se um jovem agora empunhasse um kalashinov, eu seria o segundo a fazê-lo e o seguiria”.


No mesmo texto, Christoulas incita claramente os jovens gregos sem futuro à luta armada, a pendurar os traidores, na mesma praça Syntagma, “como os italianos fizeram com Mussolini em Milão, em 1945”. O tronco do cipreste se tornou  painel dos protestos escritos. Em um deles, o suicídio de Christoulas é definido como um “crime financeiro”.


A morte de Christoulas, em nome da justiça, pode trazer nova esperança ao mundo, como a de Cristo trouxe. Não importa muito se ainda não foi possível construir o reino de Deus na Terra, e tampouco importa que o nome de Cristo tenha sido invocado para justificar tantos e tão repugnantes crimes. No coração dos homens de boa vontade, qualquer que seja o seu calvário – porque todos os homens justos o escalam, onde quer que nasçam e morram – a felicidade os visita quando comungam do sentimento de amor de Cristo pela Humanidade. Nesses momentos, ainda que sejam apenas segundos fugazes, habitamos o Reino de Deus.


Nunca, em toda a História, tivemos tanto desdém pela vida dos homens, como nestes tempos de ditadura financeira universal. Estamos vivendo vésperas densas de medo, mas dentro do medo, há centelhas de esperança. A morte do aposentado, quarta-feira de trevas, em Atenas, é, com toda a carga trágica de seu gesto,  partícula de uma dessas centelhas.


Estamos cansados de sangue, mas o que está ocorrendo hoje – teorizem como quiserem economistas e sociólogos – é a etapa seguinte do grande projeto dos neoliberais, que vem sendo executado sistematicamente pelos que realmente mandam no mundo e que assumiram sua governança (para usar o termo de seu agrado), mediante a Trilateral e o Clube de Bielderbeg, controlados, como se sabe, por meia dúzia de poderosas famílias do mundo. Esse projeto é o de dizimar, por todos os meios possíveis, a população, e transformar a Terra no paraíso dos 500.000 mais poderosos, ricos e eleitos, em oposição à utopia cristã. Mas é improvável que os pobres, que são a maioria, não identifiquem seu real inimigo, e se sacrifiquem, sem resistência, ao Baal contemporâneo – esse sistema financeiro que acabou com a antiga sacralidade da moeda, ao emitir papéis sem nenhuma relação com os bens reais do mundo, nem com a dignidade do trabalho. A força da mensagem do nazareno deve ser retomada: os oprimidos – negros, brancos, mestiços, muçulmanos, cristãos, budistas e ateus – devem compreender que os habita o homem, e não animais distintos, destinados à violência em proveito dos promotores da barbárie.


Ao expirar, depois de torturado, ultrajado seu corpo, humilhado, escarnecido, Cristo se tornou a maior referência de justiça.  Aos 77 anos, o aposentado grego, ao matar-se, transformou-se em bandeira que ameaça iniciar, na Grécia, novo movimento em favor da igualdade – a mesma idéia que levou Péricles a fundar o primeiro estado de bem-estar social, ao reconstruir Atenas, empregar todos os pobres, e dotar os marinheiros do Pireu do pioneiro conjunto de casas populares da História.


Vinte séculos podem ter sido apenas rápido intervalo – um pequeno descanso da razão.