quinta-feira, 2 de novembro de 2017

Do Jornal do Brasil: Os interesses estrangeiros contra os interesses nacionais


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Jornal do Brasil:

No mês que antecedeu a vitória de Luiz Inácio Lula da Silva na primeira eleição, o mercado financeiro tentou desestabilizar a campanha do primeiro candidato apoiado pelo povo e pelas classes sofridas do país, fazendo uma grande especulação contra o real.
Não adiantou nada.
O Brasil saiu perdendo e os especuladores, ganhando. Mas em seguida o dólar voltou para o seu lugar. 
Os interesses nacionais e a força do povo são maiores que a especulação e os abutres contra os interesses do Brasil.

No mês que antecedeu a vitória de Lula na 1ª eleição, o mercado financeiro tentou desestabilizar a campanha. Não adiantou nada
No mês que antecedeu a vitória de Lula na 1ª eleição, o mercado financeiro tentou desestabilizar a campanha. Não adiantou nada

Hoje, acontece novamente. Só que dessa vez o jogo foi antecipado. Preocupados com o fato de o Brasil poder ser uma das maiores reservas de petróleo do mundo - o que cada dia se constata mais com os interesses do pré-sal - primeiro tentaram destruir a Petrobras. Não conseguiram. Agora eles e seus porta-vozes tentam desestabilizar as eleições, alardeando supostas preocupações, como se o povo tivesse real para comprar dólar, ou tivesse dólar para ir para o exterior. 
O que o povo brasileiro quer é um país onde ele possa viver tranquilo, possa trabalhar, se essas forças reacionárias e entreguistas deixarem. O povo quer é ter saúde para ele e seus filhos, é ter segurança. E só existe segurança quando existe um país que trabalha e que cresça com as forças do trabalhador, não com a força dos especuladores.
Esperem. Eles vão continuar a jogar contra os interesses nacionais. Num primeiro momento, contra a não aprovação daquilo que chamam reformas, e que eles nunca fizeram quando estiveram no poder. Em seguida, até mesmo com a segurança pública incitando e agitando seus "cabos anselmos", e usando sempre sua mídia de preferência, aquela que o povo não aguenta mais. A mídia que semeia a desgraça, a destruição, alardeia a pobreza e proclama, cada vez mais, a insídia na divisão da sociedade brasileira entre pobres e ricos. 

Gleisi: a memória do povo contra a mídia e o Partido da Lava Jato


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Texto de Fernando Brito:


Quando, em 1982, começamos a caminhada para eleger Leonel Brizola governador do Rio de Janeiro. ele sempre nos dizia que procurássemos saber quem tinha um retrato de Getúlio Vargas em sua casa ou na casa do seu pai. Eu, aos 23 anos, claro que não o tinha, mas havia, na minha infância, um na casa de meu avô.
“É a memoria profunda do povo”, dizia Brizola, que não se corta com uma tesoura e que tece o fio da história.
Lula é a versão nova de uma velha memória.
Com mais facilidades, porque Getúlio ainda vivia a dificuldade da linguagem empolada.
A geração que o sucedeu, Jango e Brizola, bem menos o primeiro e quase nada o segundo.
Mas isso é quase irrelevante.
O povo tem a estranha mania de julgar os governantes pela vida que têm ou tiveram.
Porque, já se disse aqui outro dia, a verdade é a realidade.
Quem vê a face da esperança nunca a esquece, dizia Brizola.
Sem o saber, talvez, Gleisi Hoffman disse isso no Senado, anteontem.
Assista o vídeo, vale a pena. Há toneladas de verdades, de verdades que não costumam ser ditas pelos medrosos.

OAB lança nota contra o “macartismo” do projeto Escola Sem partido, por Esmael Morais

A Ordem dos Advogados do Brasil, seção Paraná, em nota oficial, denunciou o “macartismo” contido no projeto “Escola Sem Partido” em tramitação na Assembleia Legislativa do Paraná.
A expressão “macartismo” tem relação com a campanha do senador norte-americano Joseph Raymond McCarthy, na década de 1950, na perseguição aos comunistas, artistas, intelectuais, professores, alunos, enfim, atitudes precursoras da “Escola Sem Partido” nos Estados Unidos (talvez isso explique a despolitização da sociedade estadunidense).
Do Blog do Esmael:



A Ordem dos Advogados do Brasil, seção Paraná, em nota oficial, denunciou o “macartismo” contido no projeto “Escola Sem Partido” em tramitação na Assembleia Legislativa do Paraná.
A expressão “macartismo” tem relação com a campanha do senador norte-americano Joseph Raymond McCarthy, na década de 1950, na perseguição aos comunistas, artistas, intelectuais, professores, alunos, enfim, atitudes precursoras da “Escola Sem Partido” nos Estados Unidos (talvez isso explique a despolitização da sociedade estadunidense).
Dito isto, a OAB-PR, presidida pelo advogado José Augusto Araújo de Noronha, fez questão de frisar na nota que “a liberdade na escola é direito fundamental” previsto no art. 206, II da Constituição Federal.
A Ordem alerta ainda que a Assembleia Legislativa “não deve se prestar como instrumento para a censura” ao apreciar o PL 606/2016, pois, segundo a entidade, a falta de liberdade de ensino coloca em risco a plena efetividade do Estado Democrático de Direito.
A seguir, leia a íntegra a nota da OAB-PR:
Nota oficial sobre o Projeto de Lei 606/2016
A Ordem dos Advogados do Brasil – Seção Paraná vem a público manifestar preocupação em relação ao PL 606/2016, que dispõe sobre a promoção do respeito à neutralidade política, ideológica e religiosa aos alunos das instituições de ensino, em processo de deliberação na Assembleia Legislativa do Paraná (Alep).
O projeto é manifestamente inconstitucional, primeiro, por vício de iniciativa, vez que a matéria de que trata é de competência exclusiva da União, como já destacado em parecer da Procuradoria Geral da República e em decisão monocrática do relator da ADI-5537, que tramita no Supremo Tribunal Federal. Segundo, ao pretender interferir na liberdade de cátedra, instituindo um rol de restrições sobre o corpo docente, estabelece verdadeiro regime de vigilância sobre o ensino e a aprendizagem.
A liberdade de aprender, ensinar, pesquisar e divulgar o pensamento, a arte e o saber (art. 206, II da CF), bem como o pluralismo de ideias e concepções pedagógicas (art. 206, III da CF), são bases constitucionais da educação nacional e não podem ser flexibilizados por legislação infraconstitucional. Romper essa fronteira é um perigoso passo rumo à violação de direitos fundamentais.
A Ordem dos Advogados do Brasil – Seção Paraná entende que o Projeto de Lei não deve se prestar como instrumento para a censura, colocando em risco a plena efetividade do Estado Democrático de Direito, onde prevalece a liberdade de ensino, conforme preconizado na Constituição Federal.
Curitiba, 31 de outubro de 2017
Diretoria da OAB Paraná

quarta-feira, 1 de novembro de 2017

“Uma Noite no Garden”: um olhar sobre o nazismo nos EUA. Artigo de Jon Schwarz publicado no The Intercept


      “O nazismo não tem nada ver com raça ou nacionalidade. Ele atrai um determinado tipo de mentalidade. (…) O intelectual frustrado e humilhado; o especulador rico e assustado; o filho mimado; o tirano dos empregados; o homem que alcançou o sucesso com oportunismo – todos eles abraçariam o nazismo” - Dorothy Thompson




Documentário sobre comício nazista realizado em Nova York em 1939 tem apenas 6 minutos de duração. Mas é tão assustador quanto um filme de terror.




Jon Schwarz
1 de Novembro de 2017

READ IN ENGLISH  veja o video na íntegra e com melhor imagem, no site do The Intercept, ou mais abaixo, ao final do texto

O OBSCURO “Sinédoque, Nova York”, filme escrito e dirigido por Charlie Kaufman em 2008, surgiu quando a Sony Pictures Classics pediu um filme de terror ao diretor. Kaufman, mais conhecido por roteiros excêntricos como o de “Quero ser John Malkovich”, aceitou. Mas ele não pretendia fazer um daqueles típicos filmes de terror adolescente que parecem se passar em outra dimensão. Em vez disso, afirmaria ele mais tarde, a ideia era fazer um filme para adultos “sobre coisas assustadoras do mundo real, das nossas vidas”.
E foi o que Kaufman conseguiu fazer. Para mim, “Sinédoque, Nova York” foi tão assustador que nunca mais quero vê-lo. Filmes sangrentos como “Sexta-Feira 13″ e suas 11 continuações não deixam de ser prazerosos – quando eles acabam, mesmo que ainda estejamos cheios de adrenalina, sabemos que não estamos sendo perseguidos por Jason Vorhees. Mas, quando “Sinédoque, Nova York” chega ao fim e as luzes se acendem, percebemos que aquilo que perseguia os personagens também nos persegue fora do cinema, na vida real.
Nenhum outro filme tinha me proporcionado uma experiência tão pura de horror até assistir ao novo documentário da Field of Vision, chamado “A Night at the Garden” (“Uma Noite no Garden”, em tradução livre) e dirigido por Marshall Curry. (A Field of Vision pertence ao grupo First Look Media, assim como The Intercept.)
O filme de Curry, que pode ser visto acima, tem apenas seis minutos de duração; é uma minúscula obra-prima, que deveria ser ensinada em cursos de História, Cinema e Psicologia.
À primeira vista, o curta-metragem simplesmente mostra um comício do Bund Germano-Americano, realizado em fevereiro de 1939 no Madison Square Garden, em Manhattan.
O Bund – “federação” em alemão – nunca chegou a crescer de maneira significativa. As estimativas variam, mas, de qualquer forma, o número de filiados nunca passou de 25 mil. No entanto, ele era aliado da Frente Cristã, uma organização inspirada na figura de um famoso demagogo antissemita, o padre Charles Coughlin. Dezenas de milhões de americanos ouviam o programa de rádio semanal do sacerdote; um de seus lemas era “Menos internacionalismo e mais prosperidade nacional”.
A Frente Cristã ajudou a encher a arena, com capacidade para 20 mil pessoas. É um número surpreendente para Nova York, que sempre foi um símbolo de progressismo, o que pressupõe um apoio passivo a essas duas organizações que ia muito além do público presente no comício.
Do lado de fora, o letreiro anuncia um “comício pró-americano” — no dia seguinte, haveria uma partida de hóquei entre Rangers e Detroit Red Wings, e, um dia depois, um jogo de basquete universitário entre Fordham e Piitsburgh. O evento começa com a entrada de dezenas de pessoas portando bandeiras dos Estados Unidos, marchando solenemente até o fundo da sala, diante de uma gigantesca imagem de George Washington.
O orador principal é Fritz Kuhn, um alemão naturalizado americano, presidente do Bund. É óbvio que se trata de um fanfarrão, um escroque. Ele declara que está ali para “exigir que o governo volte para as mãos dos americanos, seus fundadores” – com um sotaque tão forte que parece o próprio Adolf Hitler. Até o embaixador nazista nos Estados Unidos se envergonhava de Kuhn, referindo-se a ele como “estúpido, barulhento e absurdo”.
Entretanto, ninguém no Madison Square Garden parece se dar conta disso. Arrancando risadas da plateia, Kuhn fala sobre as mentiras da “imprensa controlada pelos judeus”, que o descreve como “uma criatura com chifres, cascos e uma longa cauda”.
Então, um homem de 26 anos chamado Isadore Greenbaum invade o palco e é imediatamente agarrado e agredido pelos lacaios uniformizados de Kuhn. Em um determinado momento, enquanto a polícia de Nova York carrega Greenbaum para fora, suas calças são arriadas. Kuhn sorri, debochado, e a plateia vai ao delírio.
O filme termina com uma soprano entoando “Star-Spangled Banner“, o hino americano.
No dia seguinte, o New York Times noticiou que o Bund havia coletado quase US$ 8,5 mil em doações, o equivalente a US$ 150 mil nos dias de hoje. Ainda naquele ano, Kuhn seria preso por se apropriar de um total equivalente a US$ 250 mil atuais de seus fiéis seguidores.
O artigo do New York Times citava manifestantes de esquerda, que afirmavam terem sido “pisoteados pela polícia montada e brutalmente agredidos por policiais uniformizados e à paisana” do lado de fora da arena. Um coronel da reserva reclamava que os membros do Bund “poderiam confundir as pessoas”, pois seus uniformes eram parecidos com o do exército americano.
Além disso, informava o jornal, a repórter Dorothy Thompson, que estava presente no comício, chegara a ser retirada da sala por ter soltado uma risada. Anos antes, Thompson havia sido correspondente do New York Post em Berlim, cobrindo a ascensão do fascismo antes de ser expulsa da Alemanha, em 1934. Na época do comício do Bund, ela estava casada com Sinclair Lewis, autor do livro “Não Vai Acontecer Aqui“.
Muitos anos depois dos acontecimentos de “Uma Noite no Garden“, Thompson escreveu um influente artigo para a Harper’s Magazine intitulado “Who Goes Nazi?” (“Quem vai virar nazista?”, em tradução livre), no qual descreve a “brincadeira macabra” de tentar especular quem, dentre as pessoas que conhecemos, poderia se tornar um nazista. “A essa altura da vida, acho que já sei”, afirma.
“O nazismo não tem nada ver com raça ou nacionalidade. Ele atrai um determinado tipo de mentalidade. (…) O intelectual frustrado e humilhado; o especulador rico e assustado; o filho mimado; o tirano dos empregados; o homem que alcançou o sucesso com oportunismo – todos eles abraçariam o nazismo”, escreve Thompson.

NEW YORK, NY - OCTOBER 10:  Marshall Curry discusses his film 'A Night at the Garden' at NYFF Live - Field of Vision Presents during the 55th New York Film Festival at Elinor Bunin Munroe Film Center on October 10, 2017 in New York City.  (Photo by Dia Dipasupil/Getty Images)
Marshall Curry fala sobre o seu filme “Uma Noite no Garden“ em uma apresentação da Field of Vision durante o 55º Festival de Cinema de Nova York, no Elinor Bunin Munroe Film Center, no dia 10 de outubro de 2017, em Nova York.

Foto: Dia Dipasupil/Getty Images
Curry ficou sabendo do comício do Bund há seis meses, por meio de um amigo que estava escrevendo o roteiro de um filme que se passa em 1939. A princípio, o diretor não acreditou. “Se realmente tivesse acontecido um enorme comício nazista no coração de Nova York, eu já teria ouvido falar”, explica.
Mas a verdade é que aconteceu; o evento simplesmente havia sido esquecido pela História. Curry encontrou outros documentários que usavam imagens daquela noite e contratou o pesquisador Rich Remsberg para procurar mais material.
Remsberg descobriu imagens do comício em todo o país, inclusive no Arquivo Nacional e na Universidade da Califórnia em Los Angeles (UCLA). O material tinha duas características notáveis: em primeiro lugar, o comício havia sido filmado em 35mm – e não em 16mm ou 8mm, o padrão da época –, então a qualidade do filme era surpreendentemente boa. Além disso, as imagens de dentro do Madison Square Garden haviam sido todas filmadas pelo próprio Bund – e de forma tão hábil que seus autores certamente devem ter estudado a cinematografia nazista.
Curry usou essas imagens de arquivo para criar um filme extremamente engenhoso. Não há nenhuma narração ou depoimento de historiador nos dizendo o que sentir. Em vez disso, o espectador tem espaço para decidir por si mesmo como apreender a experiência.
O que é ainda mais interessante é a ausência de qualquer menção aos Estados Unidos atuais. “Quando o americano médio não politizado assistir ao filme, ficará um pouquinho mais consciente de como os demagogos usam o sarcasmo, o humor e a violência para atrair pessoas que até então eram cidadãos respeitáveis”, afirma Curry.
Para ilustrar a questão, o diretor menciona as cenas de júbilo da plateia ao ver Greenbaum sendo atacado e humilhado. “São milhares de pessoas de terno, vestido e chapéu; pessoas que provavelmente tratavam muito bem os vizinhos”, diz.
TALVEZ O GRANDE MOMENTO de “Uma Noite no Garden” seja o plano de um jovem uniformizado no palco. Ele parece ter cerca de oito anos, é membro da juventude do Bund e é menor do que os outros. Enquanto a turba ultraja Greenbaum, carregando-o para fora do palco, o menino olha em volta, para se certificar de que não está sozinho, e dá pulinhos de prazer, esfregando as mãos e dançando.
Esse deleite selvagem e animalesco só pode se manifestar em uma pessoa com a idade emocional de uma criança. Mas existem muitos adultos “cronológicos” esperando para que alguém lhes dê autorização para se livrar do fardo da consciência moral adulta; alguém que lhes diga: “Encontramos os culpados de toda a sua frustração e dor. Eles se parecem conosco, como humanos, mas não o são. Estão apenas disfarçados. Dissolva-se conosco nessa uivante massa protoplasmática, e você não será responsável por nada.”
Isso já aconteceu, em maior ou menor escala, diversas vezes na história humana. É algo muito mais enraizado em nós do que qualquer coisa que chamemos de “política”. O nazismo e o fascismo são apenas os nomes que demos à manifestação moderna desses valores.
Contudo, para que esse potencial vire realidade, são necessárias determinadas pessoas tomando determinadas decisões em determinados momentos históricos. Neste caso, o filme nos informa que o evento ocorreu no dia 20 de fevereiro de 1939.
Quando vi a data, fiquei com uma pulga atrás da orelha. Outra coisa havia acontecido naquele dia. Mas o quê?
Consultei o livro “Ascensão e Queda do Terceiro Reich” e linhas do tempo da Segunda Guerra Mundial na internet, mas não encontrei o que procurava; fui dar um longo passeio, mas não consegui refrescar a memória. Durante dois dias, fiquei com aquela sensação desagradável que todo mundo conhece: a de ter esquecido algo importante que só será lembrado quando for tarde demais.
Mas o que era?
EMBORA EU não seja judeu, o pai do meu pai era. A família dele emigrou da Alemanha para os EUA no fim do século XIX e se instalou em Chicago, onde meu avô nasceu. Depois que ele se casou com a minha avó, a família se mudou para a capital, Washington. Mas ele ainda tinha parentes na Europa.
Há quase 80 anos, minha família guarda uma carta que meu avô recebeu de sua prima Lilly Schwarz, de Düsseldorf. Minha tia, irmã do meu pai, é a atual guardiã do documento. Mesmo em 2017, aquela caligrafia meticulosa ainda exalava terror:
“Querido Charles!
Finalmente consegui o seu endereço e escrevo imediatamente. Das piores coisas, acho que você vai ser informado pela sua mãe. (…) Agora temos que esperar o nosso número ser chamado pelo consulado americano em Stuttgart, o que pode demorar de um ano a um ano e meio. Enquanto isso, tento emigrar para a Inglaterra, porque a situação aqui está intolerável. Você ou algum amigo seu tem contatos na Inglaterra? Se tiver, por favor me mande o endereço deles. A única forma de emigrar é encontrar um serviço de empregada doméstica. Só assim o Home Office permite que você entre no país e trabalhe. (…)
Quero saber da sua vida. Nossa querida tia Helen me escreveu dizendo que você tem um bom emprego no Departamento do Tesouro. Você deve andar muito ocupado, e o trabalho deve ser muito gratificante. E a sua mulher e o seu bebê? Espero que todos estejam bem de saúde. (…)
Você tem alguma ideia ou conselho para apressar a nossa emigração? Aliás, será que você tem algum contato no governo? Como Washington é a capital, aí deve ser o melhor lugar para experimentar o que há de mais novo. Estamos aguardando a publicação das novas condições para a emigração judaica. Você não imagina como os judeus estão desesperados.
Meu inglês é muito engraçado? Consigo ler livros e jornais em inglês e sei que as palavras nunca mudam, não importa a declinação. Aproveito cada momento para estudar o idioma; aprendi no último inverno a taquigrafia inglesa e também sei datilografar.
Por favor, mande uma resposta rápida.
Com muitos cumprimentos e muito amor para todos vocês,
Continuo sendo
a sua prima
Lilly”
A pulga atrás da minha orelha me dizia para encontrar essa carta, então fiz uma busca na minha caixa de e-mails e acabei encontrando uma transcrição. E bati o olho na primeira linha:
Lilly tinha 33 anos quando escreveu ao meu avô. Ela estava sendo perseguida por um monstro e acreditava que estaria a salvo se conseguisse chegar nos EUA.
Mas ela nunca chegou. O monstro devorou-a. Dois anos depois, em outubro de 1941, ela foi deportada para o gueto de Minsk, na Bielorússia, onde acabou morrendo.
Quando vi a data da carta de Lilly, experimentei uma reação física que jamais havia sentido. Aquilo reverberou pelo meu corpo, da cabeça aos dedos do pé e de volta à cabeça. Naquele dia, ela era mais de 10 anos mais nova do que eu hoje. Ela não sabia que o monstro que a perseguia também esperava por ela nos Estados Unidos, só que dormitando – e que, no exato momento em que escrevia seu apelo desesperado, dezenas de milhares de americanos comuns, banais, ordinários, tentavam despertá-lo.
É por isso que “Uma Noite no Garden” é um verdadeiro filme de terror. Ele acaba em seis minutos, mas o medo do espectador perdura. Percebemos que o monstro está por toda parte – porque o levamos dentro de nós.
Na maioria dos lugares, na maioria das épocas, o monstro está hibernando. Muitos americanos brancos acreditam que esse sempre foi o caso nos EUA, mas quem não é branco sabe que ele sempre andou por aí, cambaleante de sono, ao longo da história do país. Porém ele nunca chegou a acordar totalmente, e só em ocasiões extraordinárias uma sociedade consegue despertar a sua fúria. Por enquanto, ainda estamos longe disso, e a probabilidade do monstro acordar nos EUA ainda é pequena. Mas o último ano me fez perceber que ela é maior do que eu imaginava. Há dias em que posso ver um estremecimento nas pálpebras da besta.
Graças àquela carta, tenho a impressão de que conheço Lilly, e às vezes me imagino encontrando-a em outra dimensão. Gostaria de poder dizer à minha prima que seu sofrimento não foi em vão, que aprendemos com ele e fizemos de tudo para manter o monstro sedado. Mas eu estaria mentindo. Os americanos são tão ignorantes, egoístas e cegos quanto todos os seres humanos que já passaram por este planeta, e quem assistir a “Uma Noite no Garden“ – assistir de verdade – entenderá que absolutamente tudo é possível.
Acesse a carta de Lilly Schwarz em alta resolução aqui.
Tradução: Bernardo Tonasse

Do El País: Como lidar com um Trump brasileiro



Tratar candidatos radicais como escândalo durante a campanha só os fortalecerá

Cabe, portanto, criticar afirmações absurdas, mas sem dar destaque a provocações nas manchetes dos jornais. Elas, tampouco, precisam dominar as timelines das redes sociais. Compartilhar um post crítico de um candidato extremista pode, ao contrário do que se espera, beneficiá-lo. Ademais, com isso, pode-se estar reduzindo o espaço para as ideias de outros candidatos.

Do El País:


Jair Bolsonaro
O deputado federal Jair Bolsonaro, pré-candidato à presidência em 2018.



Quatorze países latino-americanos terão eleições presidenciais em 2018 e 2019. Na maioria deles, há uma ampla rejeição à elite política. No México, por exemplo, apenas 2% dos eleitores confiam em partidos políticos e só 4% acreditam que o país está no rumo certo. Em quase toda a América Latina ocorre algo similar. Devido ao baixo crescimento econômico e à desconfiança na classe política — e na própria democracia —, o próximo ciclo eleitoral na região deverá trazer profundas mudanças. Embora isso não seja negativo per se — de fato, as elites políticas precisam ser renovadas urgentemente —, há um risco enorme de que o atual descontentamento generalizado levo ao surgimento de salvadores da pátria no continente, os quais têm maior tendências autoritárias e menor apreço aos chamados freios e contrapesos, pilares de qualquer sistema democrático.
No Brasil, a confiança dos eleitores na classe política também é baixíssima. Não surpreende, portanto, que recentes pesquisas sobre intenção de voto para a disputa presidencial de 2018 mostrem o deputado Jair Bolsonaro em segundo lugar. O capitão da reserva do Exército apresenta propostas de extrema direita semelhantes às do presidente filipino Rodrigo Duterte, líder de um governo globalmente criticado pela sistemática violação dos direitos humanos. Muitos ainda esperam que o deputado carioca se autodestrua nos próximos meses em virtude de suas polêmicas afirmações. Considerando o resultado da eleição presidencial dos EUA de 2016 e em vários países europeus ao longo dos últimos anos, essa expectativa parece perigosamente ingênua.
Candidatos como Trump adotam a estratégia de escandalizar, de maneira sistemática, para crescer nas pesquisas de opinião e definir a pauta do debate público. Muitas de suas declarações têm como objetivo gerar rejeição e estigmatização pelo establishment político. Como afirma um memorando interno do partido da extrema direita “Alternativa para a Alemanha” (AfD) — que teve seu melhor resultado histórico nas eleições parlamentares no mês passado, "quanto mais eles tentam estigmatizar o AfD por causa de palavras provocativas ou ações, melhor para o perfil do AfD. Ninguém dá ao AfD mais credibilidade do que nossos adversários políticos." Trump e o AfD foram politicamente incorretos de propósito e, tanto nos EUA quanto na Alemanha, a imprensa e a elite política erraram ao fazer da ameaça extremista o tema central da campanha. Como Thorsten Benner, um dos principais analistas alemães, afirma em recente artigo na Foreign Affairs, “esse foco [no AfD] impediu que partidos tradicionais envolvessem os eleitores no debate sobre as demais questões com as quais eles [eleitores] se preocupam profundamente, desde previdência e educação públicas até a crise nos asilos alemães, e apresentassem uma visão para a transformação da Alemanha na era digital.”
Cabe, portanto, criticar afirmações absurdas, mas sem dar destaque a provocações nas manchetes dos jornais. Elas, tampouco, precisam dominar as timelines das redes sociais. Compartilhar um post crítico de um candidato extremista pode, ao contrário do que se espera, beneficiá-lo. Ademais, com isso, pode-se estar reduzindo o espaço para as ideias de outros candidatos.
Nos debates durante a campanha — na TV, em universidades, em comícios etc. —, a presença de candidatos espalhafatosos requer perguntas objetivas sobre propostas concretas, como políticas públicas para economia, educação, saúde e segurança — temas para os quais eles normalmente não têm respostas convincentes. Em vez de rotulá-los e isolá-los, assim dando a esses radicais tratamento especial que desejam, é preciso haver diálogo para demonstrar as fragilidades de suas candidaturas.
Fazer abaixo-assinados de intelectuais contra Bolsonaro, como ocorreu recentemente para tentar impedir a palestra do presidenciável na Universidade George Washington, tem o mesmo efeito que sanções econômicas dos Estados Unidos contra o regime de Maduro na Venezuela: ajudam sua causa e mobilizam sua base. Argumenta Benner, no mesmo artigo, sobre a entrada do partido extremista no parlamento alemão: “Nos próximos meses, partidos políticos, os meios de comunicação e as organizações não governamentais não devem procurar apresentar uma frente unida contra o AfD. Fazê-lo só fortalece o argumento do AfD de que [ele] seja a única alternativa a um establishmentmonolítico.”
Muitos votaram em Trump, no AfD e em outros partidos extremos não porque acreditam em suas teses, mas porque rejeitaram todas as alternativas. No Brasil, muitos apoiam Bolsonaro porque perderam a esperança no sistema político. No caso da Alemanha, 85% dos eleitores da AfD disseram que o voto no partido era uma expressão de desapontamento com as elites políticas e o único veículo com o qual poderiam expressar seu protesto, de acordo com pesquisa do Infratest Dimap. Em vez de apenas atacar os extremistas por suas bravatas durante toda a campanha — como aconteceu na Alemanha e nos EUA —, é preciso enfrentá-los onde eles mostram suas maiores fraquezas: no campo das ideias e propostas concretas.

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    Os que acham que o povo é criança cuidam de por medo nele. Artigo de Fernando Brito



    "Seria fascinante, não fosse trágico. Ou é fascinante. E também é trágico. No Brasil atual, os brasileiros perdem direitos duramente conquistados numa velocidade estonteante. A vida fica pior a cada dia. E na semana em que o presidente mais impopular da história recente se safou pela segunda vez de uma denúncia criminal, desta vez por obstrução da justiça e organização criminosa, e se safou distribuindo dinheiro público para deputados e rifando conquistas civilizatórias como o combate ao trabalho escravo, qual é um dos principais assuntos do país? Suposta pedofilia" - Eliane Brum


    caverne
    Já que estamos nesta bobagem de Haloween, que tal fazer um raciocínio sobre como o medo é um fator de determinação de comportamento que, durante séculos e séculos, usou-se sobre o lado infantil de uma sociedade?
    Muitas centenas de anos atrás, eram os bárbaros, os hunos, os árabes, os conquistadores-devastadores do ponto de vita dos romanos e, depois, dos cristãos.
    No século 20, os comunistas, os judeus, as drogas e, na passagem para o 21, os islâmicos, os terroristas.
    No Brasil recém imerso na selvageria pelo golpe, os “petralhas” corruptos (os corruptos não-petralhas  não merecem indignação)  e, depostos estes, agora os os “pedófilos”, os dissolvedores da família, promotores da ideologia de gênero e – que perigo! – os professores nas escolas, que aceitam receber salários miseráveis e suportar adolescentes agressivos para  doutriná-los no marxismo.
    Francamente, é preciso apostar num grau de infantilidade que não combina com a realidade de homens e mulheres que lutam para viver-  e como têm de lutar! – hoje em dia.
    Eliane Brum, sempre uma escrita gentil, pergunta, em ótimo artigo no El País, com um título que bem resume a história, Como fabricar monstros para garantir o poder em 2018:
    Pense. Preste atenção na sua vida. Olhe bem para seus problemas. Observe a situação do país. Você acredita mesmo que a grande ameaça para o Brasil – e para você – são os pedófilos? Ou os museus? Quantos pedófilos você conhece? Quantos museus você visitou nos últimos anos para saber o que há lá dentro? Não reaja por reflexo. Reflexo até uma ameba, um indivíduo unicelular, tem. Exija um pouco mais de você. Pense, nem que seja escondido no banheiro.
    Seria fascinante, não fosse trágico. Ou é fascinante. E também é trágico. No Brasil atual, os brasileiros perdem direitos duramente conquistados numa velocidade estonteante. A vida fica pior a cada dia. E na semana em que o presidente mais impopular da história recente se safou pela segunda vez de uma denúncia criminal, desta vez por obstrução da justiça e organização criminosa, e se safou distribuindo dinheiro público para deputados e rifando conquistas civilizatórias como o combate ao trabalho escravo, qual é um dos principais assuntos do país?
    A pedofilia.
    Chocante, não? E o pior: ao dizer que tentam distrair a opinião, histéricos gritam que você defende a pedofilia! Distraem nossa atenção, adubam nossos medos, como às crianças acenam com o lobo, o bicho-papão, as bruxas e  os monstros. Todas as noites, todos os dias nos contam, com voz soturnas histórias “terríveis” (que nunca tinham aterrorizado ninguém) e que, contadas, produzem outras.
    Em 2018 e adiante, o desafio é acender as luzes, espantar a treva e a histeria, o ódio e a intolerância e não o faremos como uma reação “igual e  contrária”, como dizem as leis da Física.
    O antídoto a este veneno mental é a realidade, porque a realidade é aquilo para o que não têm respostas; todas as suas supostas razões estão no imaginário que nos tentam impingir.
    A verdade, essa força que rompe os impasses, é a realidade.
    O resto é mito e o mundo não é como a caverna de Sócrates e Glauco.