sexta-feira, 21 de dezembro de 2018

Ministros, juízes e perus, por Fernando Horta



Do Jornal GGN:



O STF é uma instituição relativamente pequena, com composição fixa (admitindo pequenas mudanças), com regimento interno conhecido, que tem certa transparência e produz documentos escritos que sobrevivem à aceleração dos tempos contemporâneos. O STF é, pois, um excelente exemplo para compreensão do que ocorre no Brasil. Especialmente a partir do momento que a corte deixou de ter seu lado jurídico como balizador de suas ações. Quando as doutrinas, os argumentos lógicos e o respeito às leis deixaram lugar à retórica conveniente, ao conchavo político e ao descaramento abusivo, a corte se tornou um espelho das forças que agem sobre ela. Ao invés de ser um polo de poder contra-hegemônico, plural e garantista, o STF cedeu e se tornou igual ao monstro que deveria conter.
As mudanças do STF, pois, espelham o que ocorre com o Brasil.
Recentemente um amigo me chamou à atenção para o voto de Fux, no caso Cesare Battisti. Quando ainda em 2011, no pleno e com Barroso como advogado, Fux votou a favor da liberdade de Battisti (e anuência com a decisão de Lula) afirmando que era um “ato de soberania nacional”. Apenas sete anos depois, Fux dá uma liminar profundamente política (eis que inapropriada sem respaldo em jurisdição da corte) mandando prender o refugiado político italiano. Não é o único caso de mudanças diametrais no entendimento da corte. Carmem Lúcia mantinha uma postura de independência jurídica nos primeiros anos e terminou seu tempo como presidentA do STF domesticada pelo jogo político. Toffoli foi indicado certamente porque acreditava-se que poderia ser um contrapeso à política rasa que sempre tinha sido feita por Gilmar Mendes. Não aconteceu.
Aliás, estes dois personagens (Toffoli e Mendes) apresentam, talvez, as mudanças mais dramáticas de posicionamentos, e nos ajudam a compreender o Brasil. Toffoli se tornou um subserviente peão político cuja função é apenas legitimar as decisões que são provenientes de poder exercido sobre a corte. Gilmar Mendes, ao contrário, de falastrão político (do tipo coronel da república velha), ele passou a defender posições independentes e até corajosas. Não se diga que era em favor apenas do PSDB, porque é possível que seja, mas não temos certeza. Nosso objetivo nesta análise é minorar as incertezas. Contudo, o silêncio de Mendes, nos últimos tempos, é ensurdecedor.
O que provocou todas estas mudanças em todos os ministros da corte em tão pouco tempo? Teria sido apenas “erro do PT”, como gosta de afirmar uma parte da esquerda que nunca teve de fato o ônus do governo?
Eu acho que não. Há que se ter em mente duas “leis” sobre o poder: (1) nunca há vácuo de poder, se alguém que o deveria deter não usa, outro tomará o espaço e (2) o poder sempre provoca atitudes “anti-naturais”. Ou seja, o comportamento do indivíduo A será diferente após exposição ao poder do que seria sem este. E quem exerce poder não vê sentido em exercer para manter as coisas como estão dado que seria um desgaste sem resultado.
A este ponto da argumentação é possível dizer que as mudanças que vemos no micro-espaço do STF, afeito ao exercício do poder em escalas muito maiores do que no resto da sociedade, reflete o objetivo de quem exerce o poder, bem como demonstra quais são suas práticas, valores e estratégias. Mesmo sem querer, o STF pode ser o grande delator daquilo que está por detrás das mudanças que o país vive desde 2013.
O período de Carmem Lúcia na presidência do STF foi o período do golpe liberal. Carmem Lúcia era bajulada pela mídia, tinha frases de efeito para coroar uma retórica inepta e rudimentar e dizia sempre que “as instituições estão funcionando”. O golpe de Temer e as piruetas dadas nos anos seguintes precisavam da teatralidade do STF, que criou termos jurídicos que ficarão na história para legitimar os abusos. “Mutação constitucional”, “a norma como exegese viva da sociedade”, “o direito que ouve os anseios da sociedade” e o legislador como um modificador ativo do país estão entre as reboladas que foram ouvidas no STF para legitimar o fim da presunção de inocência, da hierarquização do direito (que permitia Moro fazer o que quisesse) e, em última análise, a destruição da constituição de 1988.
Os juristas contemporâneos chamam todo este carnaval retórico que age como fantasia a esconder o uso do poder de “poder desconstituinte”. Marx definia isto a ideologia da classe dominante cuja ação superestrutural visa apenas a manutenção da dominação da burguesia sobre o resto da sociedade com reduzido custo material. Seja como for, ainda havia a necessidade da fantasia jurídica. Havia a necessidade do empolamento teatralizado das cortes e das togas. As leis eram parcialmente respeitadas, e se não eram o corrompedor da lei era um juiz, o que garantia que a encenação continuasse. O TRF4 chegou a dizer em sentença que a Lava a Jato NÃO precisava seguir os ritos jurídicos eis que era de “exceção”. A exceção pedia normalização pela retórica dos tribunais, e isto criava uma teatralidade obscena para quem conhece e entende o que se passa. Contudo, emprestava uma legitimidade pornográfica a todos os que não tiveram a sorte de estudar.
Era, como eu disse, o golpe liberal. Ainda os liberais tinham a pretensão de controlar a mudança. Aécio e Alckmin tinham a pachorra de irem para a Avenida Paulista tentar faturar em cima dos movimentos que financiaram a ajudaram a espalhar. Os liberais pensaram, como os girondinos na Revolução Francesa, que seria mais um golpe branco. Que mudariam a presidenta para não mudar mais nada. Era necessário preservar as aparências. As cortes e os juízes ainda tinham serventia. A mudança tinha que ser tanta que a esquerda caísse, e mais nada, para evitar-se transformações não queridas.
Este jogo de dosimetria das mudanças sociais é, normalmente, o grande erro de quem encabeça golpes e rupturas. Geralmente desconhecem a frase de Luís XVI quando tentava fugir do Palácio de Versalhes em plena Revolução. Surpreendido pelo povo na frente da sua carruagem foi inquirido pelo cocheiro a que velocidade deveriam ir. O ainda rei com sua ainda cabeça no lugar teria dito “Nem tão rápido para que pensem que estamos fugindo, nem tão devagar para que achem que é deboche”. Eis aí o grande problema de quem surfa nas massas. O que se tenta é manter as aparências para se conseguir o que a história do Brasil chama de “mudança pelo alto”. Talvez, um dos exemplos mais bem-sucedidos tenham sido nossa própria independência e nossa República. Mudanças para pouco ou quase nada mudar.
Não é, pois, sem sentido que os “liberais” brasileiros pensassem que poderiam fazer isto de novo. Contudo, cometeram um enorme erro.
Nem assumiu e o fascismo já implementa uma diferença radical no STF. Sai a retórica piruetal exegética jurídica e entra o uso duro e frio da exceção como demonstração de poder. Toffoli, que subservientemente aceitou a colocação de um general para lhe supervisionar seus trabalhos, não teve o mínimo de pudor em cassar de forma monocrática a decisão de Marco Aurélio. Segundo amigos me disseram, o fez de forma única. “Nunca antes na história deste país” um ministro tinha sido calado por decisão individual do presidente da casa. Era sempre o pleno. O “pleno” é a fantasia liberal da deliberação como exercício de uma democracia, ainda que mínima. A decisão de Toffoli, amparada por generais que se reuniram, dizem, que no segundo andar do STF, é o descortinar do fascismo. Veja que Toffoli inaugura a hierarquia entre os ministros, tornando o STF uma cópia do exército. Toda e qualquer decisão ministerial agora, está sujeita ao “cumpra-se” do presidente do STF. E sabe-se que Toffoli decide conforme seu supervisor verde oliva lhe ordena. Marco Aurélio, de forma ousada (pelo quê lhe agradecemos, Ministro), expõe o golpe dentro do golpe. Os liberais perderam a mão, o fascismo transforma tudo à sua volta em espelho de si. A destruição da independência e poder dos ministros do supremo obedece ao novo estágio da monstruosidade que Aécio, Cunha e tantos outros libertaram no país.
A ignorância de procuradores pedindo a intervenção no STF é da mesma lavra da felicidade de alguns ministros e juízes com a queda da decisão de Marco Aurélio. É como o peru comemorando o Natal. Se Marco Aurélio denunciou as “manipulações de pauta” para atacar a esquerda e o PT, é preciso que se diga que elas não são tão distantes da “competência estendida” que Mendes e Moro usaram para cassar atos que não estavam em suas esferas de influência. Este “esgarçar” dos poderes nunca é bem-vindo e nunca é contido, exatamente porque os fins não justificam os meios para uma República.
De qualquer forma, não somos mais uma República, e Marco Aurélio mostrou bem isto. Estamos em transformação acelerada para algo monstruoso que a História chama de fascismo. Com o STF, com tudo.

Bolsonaro e as redes: a mentira e a manipulação sem intermediários, por Lalo Leal




Projetos políticos deixam de ser debatidos e refinados com a sociedade para serem impostos na voz solitária do líder

Apesar de oratória débil e cultura rasa, o pretenso "mito" conta com tecnologia que dispensa mídia comercial e ideias elaboradas para atingir grandes plateias, já "adestradas" para essa comunicação

Nos anos 1930, um cabo austríaco falava às massas sem intermediários. Usava o rádio e a praça pública. Hoje um capitão reformado brasileiro faz o mesmo usando as redes sociais. Mudam os meios, mas os fins são semelhantes.

O afastamento das chamadas associações intermediárias do jogo democrático, como partidos e sindicatos, é típica de governos autoritários. Projetos e propostas políticas deixam de ser debatidos e refinados através da sociedade organizada para serem impostos à vontade popular através da voz solitária do líder, tendo como sustentação apelos emocionais e demagógicos.

Incapacitado por sua débil oratória e rasa cultura, o pretenso líder brasileiro viu cair aos seus pés uma tecnologia que dispensa ideias mais elaboradas. Uma ou duas frases, muitas vezes capengas, são suficientes para atingir grandes plateias virtuais, já adestradas para esse tipo de comunicação. Infelizmente o entendimento de textos mais elaborados está fora do alcance da maioria dos brasileiros.

A eficiência das redes ficou provada durante o processo eleitoral. Alguns dias antes do pleito, robôs despejaram milhões de mensagens contra candidatos progressistas. Além da disputa presidencial, foram deturpadas diversas campanhas para os legislativos. Exemplos significativos foram as derrotas de Eduardo Suplicy, em São Paulo, e Dilma Rousseff, em Minas, candidatos ao Senado que apareciam até às vésperas das eleições como franco favoritos. O mesmo aconteceu, em sentido inverso, com desconhecido candidato eleito para o governo do Rio.

Foi a fase aguda da comunicação eleitoral. A dúvida agora é saber se de aguda passará a crônica, juntando-se aos meios tradicionais. Desde sempre, esses meios oferecem ao público doses diárias de informações cujo efeito cumulativo é semelhante ao dos remédios de uso contínuo. Permanecem indefinidamente no organismo.

É assim com a criminalização diária da política, a exacerbação da violência através dos programas policialescos e a imposição de regras morais conservadoras pelos canais e programas religiosos onipresentes no rádio e na televisão. São vidas inteiras contaminadas por esses produtos sem nenhuma fiscalização.

Há momentos em que alguns veículos aumentam a dosagem de suas drogas. Um dos casos mais evidentes é o do surgimento e consolidação dos movimentos de extrema direita. O Movimento Brasil Livre (MBL) e seus lideres tornaram-se protagonistas da cena política graças à mídia tradicional que buscava, de qualquer forma, algum movimento de rua capaz de servir de contraponto às tradicionais ações desse tipo, conduzidas pela esquerda.

Dessa forma, pequenos grupos de 10 ou 20 pessoas segurando a bandeira nacional, pedindo o impeachment da presidenta ou a “intervenção militar democrática” viravam notícia de destaque. Alguns dos seus integrantes tornaram-se populares obtendo expressivas votações no último pleito.

O exemplo mais significativo desse processo de ampliação de poder dos grupos de extrema-direita, realizado pela mídia tradicional, deu-se no sábado que antecedeu o primeiro turno das eleições presidências. Naquele dia aconteceu um movimento de massa nacional comparável apenas com os comícios das Diretas Já, na década de 1980. Foi o “Ele Não”, responsável por colocar nas ruas milhares de pessoas nas principais cidades do pais.

A TV Globo, além de não anunciar esses eventos, como fazia quando era para derrubar a presidenta Dilma, os minimizou com uma cobertura minguada e distorcida. Tentou exibir um equilíbrio que só é lembrado nessas horas, indo atrás de reduzidos grupos de manifestantes favoráveis ao candidato direitista. Comparou o incomparável, abrindo espaços iguais para acontecimentos desiguais.

Ainda assim, o sucesso do “Ele Não” assustou seus adversários. A partir daí, o bombardeio através do WhatsApp ganhou proporções nunca vistas por aqui e acabou decidindo as eleições. Tornou-se o grande cabo eleitoral do candidato vencedor que agora aposta nele como forma de sustentação ao seu governo. Resta saber se dará certo.

Uma coisa são as descargas de mensagens fantasiosas concentradas em poucos dias apelando para uma decisão eleitoral. Outra será a necessidade de explicar acusações de corrupção ou de justificar mais reduções de direitos trabalhistas todos os dias.

O WhastApp passará por um duro e inédito teste no Brasil. Estará diante do desafio de se integrar ao conjunto dos meios de comunicação tradicionais, operadores de lentas e constantes ações crônicas de persuasão política ou ficará restrito ao que até agora mostrou, um remédio eficaz apenas para situações agudas.

Muito do nosso futuro depende dessa resposta.

Lalo Leal
No RBA

Folósofo Paulo Ghiraldelli: Como a censura de Toffoli sob pressão dos militares mostra que sim, Lula é Preso Político e o mundo o sabe



Do canal do Filósofo real, ao contrário do Olavo "Ex-astrólogo" de Carvalho, Paulo Ghiraldelli no Youtube:


Da Alemã Deutsche Welle: Com a Bancada Evangélica, os militares, Bolsonaro e a Elite do Atraso golpeando a Democracia temos o Brasil, um país do passado




No Brasil, está na moda um anti-intelectualismo que lembra a Inquisição. Seus representantes preferem Silas Malafaia a Immanuel Kant. Os ataques miram o próprio esclarecimento, escreve o colunista Philipp Lichterbeck.

Da DW:

Partidários de Bolsonaro comemoram vitória eleitoral no fim de outubro, Rio de Janeiro
Partidários de Bolsonaro comemoram vitória eleitoral no fim de outubro, Rio de Janeiro
É sabido que viajar educa o indivíduo, fazendo com que alguém contemple algo de perspectivas diferentes. Quem deixa o Brasil nos dias de hoje deve se preocupar. O país está caminhando rumo ao passado.
No Brasil, pode ser que isso seja algo menos perceptível, porque as pessoas estão expostas ao moinho cotidiano de informações. Mas, de fora, estas formam um mosaico assustador. Atualmente, estou em viagem pelo Caribe – e o Brasil que se vê a partir daqui é de dar medo.
Na história, já houve momentos frequentes de regresso. Jared Diamond os descreve bem em seu livro Colapso: Como as sociedades escolhem o fracasso ou o sucesso. Motivos que contribuem para o fracasso são, entre outros, destruição do meio ambiente, negação de fatos, fanatismo religioso. Assim como nos tempos da Inquisição, quando o conhecimento em si já era suficiente para tornar alguém suspeito de blasfêmia.
No Brasil atual, não se grita "herege!", mas "comunismo!". É a acusação com a qual se demoniza a ciência e o progresso social. A emancipação de minorias e grupos menos favorecidos: comunismo! A liberdade artística: comunismo! Direitos humanos: comunismo! Justiça social: comunismo! Educação sexual: comunismo! O pensamento crítico em si: comunismo!
Tudo isso são conquistas que não são questionadas em sociedades progressistas. O Brasil de hoje não as quer mais. 
Porém, a própria acusação de comunismo é um anacronismo. Como se hoje houvesse um forte movimento comunista no Brasil. Mas não se trata disso. O novo brasileiro não deve mais questionar, ele precisa obedecer: "Brasil acima de tudo, Deus acima de todos". 
Está na moda um anti-intelectualismo horrendo, "alimentado pela falsa noção de que a democracia significa que a minha ignorância é tão boa quanto o seu conhecimento", segundo dizia o escritor Isaac Asimov. Ouvi uma anedota de um pai brasileiro que tirou o filho da escola porque não queria que ele aprendesse sobre o cubismo. O pai alegou que o filho não precisa saber nada sobre Cuba, que isso era doutrinação marxista. Não sei se a historia é verdade. O pior é que bem que poderia ser.
A essência da ciência é o discernimento. Mas os novos inquisidores amam vídeos com títulos como "Feliciano destrói argumentos e bancada LGBT". Destruir, acabar, detonar, desmoralizar – são seus conceitos fundamentais. E, para que ninguém se engane, o ataque vale para o próprio esclarecimento.
Os inquisidores não querem mais Immanuel Kant, querem Silas Malafaia. Não querem mais Paulo Freire, querem Alexandre Frota. Não querem mais Jean-Jacques Rousseau, querem Olavo de Carvalho. Não querem Chico Mendes, querem a "musa do veneno" (imagino que seja para ingerir ainda mais agrotóxicos). 
Dá para imaginar para onde vai uma sociedade que tem esse tipo de fanático como exemplo: para o nada. Os sinais de alerta estão acesos em toda parte.
O desmatamento da Floresta Amazônica teve neste ano o seu maior aumento em uma década: 8 mil quilômetros quadrados foram destruídos entre 2017 e 2018. Mas consórcios de mineradoras e o agronegócio pressionam por uma maior abertura da floresta.
Jair Bolsonaro quer realizar seus desejos. O próximo presidente não acredita que a seca crescente no Sudeste do Brasil poderia ter algo a ver com a ausência de formação de nuvens sobre as áreas desmatadas. E ele não acredita nas mudanças climáticas. Para ele, ambientalistas são subversivos.
Existe um consenso entre os cientistas conhecedores do assunto no mundo inteiro: dizem que a Terra está se aquecendo drasticamente por causa das emissões de dióxido de carbono do ser humano e que isso terá consequências catastróficas. Mas Bolsonaro, igual a Trump, prefere não ouvi-los. Prefere ignorar o problema.
Para o próximo ministro brasileiro do Exterior, Ernesto Araújo, o aquecimento global é até um complô marxista internacional. Ele age como se tivesse alguma noção de pesquisas sobre o clima. É exatamente esse o problema: a ignorância no Brasil de hoje conta mais do que o conhecimento. O Brasil prefere acreditar num diplomata de terceira categoria do que no Instituto Potsdam de Pesquisa sobre o Impacto Climático, que estuda seriamente o tema há trinta anos.
Araújo, aliás, também diz que o sexo entre heterossexuais ou comer carne vermelha são comportamentos que estão sendo "criminalizados". Ele fala sério. Ao mesmo tempo, o Tinder bomba no Brasil. E, segundo o IBGE, há 220 milhões de cabeças de gado nos pastos do país. Mas não importa. O extremista Araújo não se interessa por fatos, mas pela disseminação de crenças. Para Jared Diamond, isso é um comportamento caraterístico de sociedades que fracassam. 
Obviamente, está claríssimo que a restrição do pensamento começa na escola. Por isso, os novos inquisidores se concentram especialmente nela. A "Escola Sem Partido" tenta fazer exatamente isso. Leandro Karnal, uma das cabeças mais inteligentes do Brasil, com razão descreve a ideia como "asneira sem tamanho".
A Escola Sem Partido foi idealizada por pessoas sem noção de pedagogia, formação e educação. Eles querem reprimir o conhecimento e a discussão. 
Karl Marx é ensinado em qualquer faculdade de economia séria do mundo, porque ele foi um dos primeiros a descrever o funcionamento do capitalismo. E o fez de uma forma genial. Mas os novos inquisidores do Brasil não querem Marx. Acham que o contato com a obra dele transformaria qualquer estudante em marxista convicto. Acreditam que o próprio saber é nocivo – igual aos inquisidores. E, como bons inquisidores, exortam à denúncia de mestres e professores. A obra 1984, de George Orwell, está se tornando realidade no Brasil em 2018.
É possível estender longamente a lista com exemplos do regresso do país: a influência cada vez maior das igrejas evangélicas, que fazem negócios com a credulidade e a esperança de pessoas pobres. A demonização das artes (exposições nunca abrem por medo dos extremistas, e artistas como Wagner Schwartz são ameaçados de morte por uma performance que foi um sucesso na Europa). Há uma negação paranoica de modelos alternativos de família. Existe a tentativa de reescrever a história e transformar torturadores em heróis. Há a tentativa de introduzir o criacionismo. Tomás de Torquemada em vez de Charles Darwin.
E, como se fosse uma sátira, no Brasil de 2018 há a homenagem a um pseudocientista na Assembleia Legislativa de Mato Grosso do Sul, que defende a teoria de que a Terra seria plana, ou "convexa", e não redonda. A moção de congratulação concedida ao pesquisador foi proposta pelo presidente da AL e aprovada por unanimidade pelos parlamentares.
Brasil, um país do passado. 
Philipp Lichterbeck queria abrir um novo capítulo em sua vida quando se mudou de Berlim para o Rio, em 2012. Desde então, ele colabora com reportagens sobre o Brasil e demais países da América Latina para os jornais Tagesspiegel (Berlim), Wochenzeitung (Zurique) e Wiener Zeitung. Siga-o no Twitter em @Lichterbeck_Rio.
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A relação entre o neoliberalismo e o ataque destrutivo à educação no Brasil, por Lucas de Melo Prado,mestre em Ciência Jurídica


O Programa Escola Sem Partido é uma das táticas de desdemocratização, que integram a violenta estratégia neoliberal.” Nas próximas linhas, pretende-se analisar essa proposição de trás para frente.

Do site Justificando:

A relação entre o neoliberalismo e o ataque à educação no Brasil


A relação entre o neoliberalismo e o ataque à educação no Brasil


Há algumas semanas, o PL7180/2014, apelidado de “Escola sem Partido” (sic), foi arquivado na Comissão Especial. Isso significa que sua votação ficará para a próxima legislatura. A oposição comemora como uma vitória importante. Contudo, tendo em vista a nova composição do Congresso a partir de 2019, esse arquivamento parece apenas o adiamento do inevitável. Por isso, é importante ter consciência do real papel desse programa nas tramas fiadas pelo novo governo, eleito a partir de uma aliança entre neoliberalismo e neoconservadorismo. Nesse contexto, apresenta-se a seguinte proposição: “O Programa Escola Sem Partido é uma das táticas de desdemocratização, que integram a violenta estratégia neoliberal.” Nas próximas linhas, pretende-se analisar essa proposição de trás para frente.
Primeiramente, quando se fala em neoliberalismo, refere-se à doutrina que defende liberdade absoluta do mercado e restrições à intervenção estatal. No âmbito econômico, essa doutrina é sustentada pela escola de Chicago, a qual tem como um de seus principais expoentes Milton Friedman; filosoficamente, ela apoia-se nos preceitos libertarianos impulsionados por Robert Nozick; e politicamente, ela concretiza-se nas demandas tecnicistas por austeridade, que ganham notoriedade mundial após a década de 70 e têm como principais ícones Margareth Thatcher, no Reino Unido, e Ronald Reagan, nos EUA. Afinando-se com os objetivos do capital de maximização de lucros e de acúmulo e concentração indefinidos de riquezas, o neoliberalismo aposta na diminuição do Estado ao mínimo estritamente necessário para salvaguardar a propriedade privada, assegurar os contratos e garantir a ordem pública. Para tanto, ele prescreve um receituário de desregulamentações (leia-se: usurpação de direitos), privatizações (entenda-se: sucateamento seguido de entrega dos ativos estatais a preços aviltantes)e corte de gastos governamentais (que, na prática, significa transferência de gastos sociais e investimentos públicos para o setor financeiro).
Com a implementação do receituário neoliberal e a retração do Estado, cria-se a ilusão de um vazio político. Mas vazios políticos não existem. Os espaços que deixam de ser regidos por instituições democráticas, formais ou informais, passam a ser ocupados por agentes privados. O mercado assume funções que antes eram desempenhadas pelo Estado (educação, saúde, previdência etc.), desbravando o que Naomi Klein chama de “as novas fronteiras do capital”.Os direitos (especialmente os direitos fundamentais ditos de segunda geração), que, por definição, devem ser universais e garantidos a todos, tornam-se mercadorias, acessíveis apenas àqueles com condições materiais de por eles pagar. As desigualdades socioeconômicas e a concentração de renda e riqueza são exacerbadas a níveis extremos[2].
O Estado perde sua capacidade de investimento (problema que, no Brasil, é agravado pela emenda do teto de gastos) e torna-se refém dos interesses do capital, que trata a política como mero efeito colateral de seu objetivo primeiro de acumulação[3]. Como resultado, o Estado funciona para a consecução dos interesses do capital, muitas vezes em detrimento dos interesses da população. Institucionaliza-se um capitalismo de compadrio, no qual os lucros são privados, mas os riscos e prejuízos são socializados.Essa realidade ficou muito explícita com a crise de 2008, quando os bancos que quase provocaram o colapso total da economia mundial receberam resgates trilionários do Estado, financiado pela população, e aqueles que deveriam ser responsabilizados pelo desastre embolsam lucros recordes.
Segundo Naomi Klein, em nenhum lugar do mundo, as estratégias que levam a esse estado de coisas gozam do apoio democrático. A implantação do receituário neoliberal está sempre associada a alguma imposição autoritária ou a choques políticos e sociais relevantes, que perturbam a normalidade democrática e desnorteiam a população. Tal situação é aproveitada para aplicar um novo choque de austeridade, antes que a população tenha qualquer chance de reagir.[4] Lembre-se, nesse sentido, dos retrocessos propostos pelo governo Temer, que se multiplicavam a cada semana, após o choque provocado pelo golpe parlamentar de 2016.
E aqui se revela o segundo ponto desta análise: a estratégia neoliberal é violenta.
Max Weber definia poder como “toda probabilidade de impor a própria vontade numa relação social, mesmo contra resistências, seja qual for o fundamento dessa probabilidade”[5].É a imposição da própria vontade contra vontades opostas. Inspirado em Hannah Arendt, Habermas sustenta que isso não é poder, mas sim violência. Há violência sempre que uma vontade estranha é instrumentalizada em proveito próprio.[6]Nesse sentido, as estratégias neoliberais são física, simbólica e politicamente violentas.
A violência física consuma-se no aprisionamento ou na destruição dos corpos daqueles que não interessam e atrapalham a reprodução da dinâmica do capital.Multiplicam-se e até naturalizam-se os espancamentos e as mortes de corpos negros, miseráveis, femininos, transexuais e homossexuais, naquilo que Rubens Casara chama de “gestão dos indesejáveis”[7].
Política e simbolicamente, a violência se realiza no aprisionamento ou na instrumentalização das vontades, ludibriando-as, enganando-as e negando-lhes qualquer âmbito de efetiva participação nos processos de tomada de decisão. Isso aconteceu, por exemplo, no estelionato eleitoral perpetrado por Dilma Rousseff em sua reeleição e na fábrica de fakenews fomentada pela campanha de Jair Bolsonaro. Ambos instrumentalizaram e violentaram as vontades da população, para implementar as políticas neoliberais exigidas pela elite rentista do país — Rousseff, com a indicação de Joaquim Levy, em uma tentativa frustrada de acalmar o mercado e salvar seu mandato; Bolsonaro, com a criação de uma espessa cortina de fumaça moral, que lhe permitiu fugir de qualquer debate acerca da política econômica de Paulo Guedes que, como já se disse, nunca sobreviveu a nenhum debate democrático.
Passadas as eleições, a violência política e simbólica deve continuar, para garantir que os anseios do povo não obstem a implantação das sempre impopulares políticas neoliberais de austeridade. Isso se concretiza com a constituição de modelos de gestão tecnocráticos e o desmantelamento ou inviabilização de eventuais caminhos institucionais de participação. Um corpo de economistas e de juristas passa a tomar as decisões políticas e econômicas mais relevantes, atropelando normas democráticas e preceitos fundamentais, sob o pretexto, patentemente falso, de estarem tomando decisões ideologicamente neutras.
Um retrato cru dessa estratégia é relatado pelo ex-ministro das finanças grego Yanis Varoufakis. Em sua primeira reunião no Conselho de Ministros da União Europeia, Varoufakis propôs uma renegociação dos termos dos empréstimos feitos à Grécia, argumentando que o novo governo grego havia recebido um mandato popular e democrático sustentado em uma plataforma de repúdio às políticas de austeridade que eram impostas ao país pela Troika. A resposta imediata do ministro das finanças alemão, Wolfgang Schäuble, deixou muito claro o peso da democracia na tecnocracia neoliberal: “Não podemos permitir que eleições mudem políticas econômicas”.
Portanto, é da própria essência da manutenção da estratégia neoliberal que as características que, substancialmente, caracterizam uma democracia sejam paulatinamente corroídas. É o terceiro ponto desta análise: o neoliberalismo conduz um processo gradual de desdemocratização.
Robert Dahl aponta seis requisitos mínimos que caracterizam uma democracia: 1) participação efetiva; 2) igualdade de voto; 3) entendimento esclarecido; 4) controle final da agenda; 5) inclusão de todos os adultos; e 6) um sistema de direitos fundamentais.A realização total desses requisitos é utópica e se dá gradualmente, de tal forma que cada país pode se aproximar ou se distanciar desse ideal democrático.[8]Segundo Dahl, o capitalismo é fator que favorece e, ao mesmo tempo, prejudica a concretização da democracia. O curioso é que os aspectos do capitalismo que determinam o afastamento dos sistemas políticos dos requisitos de configuração democrática são exatamente aqueles sustentados e potencializados pelo neoliberalismo.[9]
As violentas políticas neoliberais de austeridade atacam cada um dos requisitos democráticos apontados por Dahl. Elas corroem progressivamente a própria dinâmica democrática, deixando apenas uma casca institucional formal. A manutenção dessa casca democrática, sem conteúdo democrático, ou seja, desse simulacro de democracia, desempenha uma função discursiva apaziguadora, enquanto os agentes do capital rapinam os recursos da nação. Esse contexto é chamado por Colin Crouch de pós-democracia e sua caracterização no cenário brasileiro é muito bem trabalhada por Rubens Casara[10].
Perceba-se que o alvo da ação neoliberal não é a política em si, mas sim a democracia. Por isso, não há que se falar em despolitização, mas sim em desdemocratização. É a democracia que soçobra. A política continua viva e atuante, porém usurpada do povo e exercida por tecnocratas, como efeito colateral da persecução de interesses econômicos[11].Por isso, não interessa ao neoliberalismo o arranjo político que abraça sua causa. Os fins justificam os meios. Em nome da liberdade econômica dos agentes do capital (sub-reptícia porém umbilicalmente vinculada às limitações contratuais e espaciais das classes não-proprietárias), o neoliberalismo alia-se desde às ditaduras sanguinários,como a chilena de Augusto Pinochet nas décadas de 70 e 80,até aos fundamentalismos religiosos, como o da Arábia Saudita, um dos principais aliados do neoliberalismo estadunidense no Oriente Médio.
No caso do Brasil, o neoliberalismo agregou-se a um neoconservadorismo paranoico, que sustenta o delírio de uma suposta teoria da conspiração de um pretenso marxismo cultural esquerdista-comunista-abortista-feminista-gayzista, que teria por finalidade destruir a civilização ocidental. Não se trata de uma aliança necessária. É um caso fortuito. Como diria Vladimir Safatle, calhou de ser assim no Brasil. O resultado dessa aliança, em termos políticos, é o bolsonarismo, que traz consigo a agenda do Programa Escola sem Partido (PESP).
E eis que se retoma a proposição inicial: o PESP é uma das táticas de desdemocratização, que integram a violenta estratégia neoliberal.
Enquanto tática de desdemocratização, o PESP visa a desgastar, especificamente, dois dos pressupostos de um sistema democrático: o entendimento esclarecido e o controle da agenda.
Um dos principais pontos do programa visa a interditar as manifestações políticas dos professores. Tal pretensão, além de ignorar que toda escolha pedagógica é inevitavelmente eivada de um viés político e ideológico, terminará por sonegar aos alunos a oportunidade de conhecer diferentes alternativas políticas e suas possíveis consequências, o que inclui a defesa e a crítica de posicionamentos políticos diversos. Ocorre que a oportunidade de conhecer diferentes alternativas políticas e suas possíveis consequência é, segundo Dahl, o que constitui o próprio núcleo da exigência de entendimento esclarecido.
Além disso, um exame da exposição de motivos do PL7180/2014 e seus apensos (especialmente do PL867/2015), da manifestação pública do idealizador do projeto, Miguel Nagib,na Comissão Especial e do site criado para propagar o programa demonstra claramente quais são as manifestações políticas que serão alvo de interdição e censura:basicamente,críticas ao neoliberalismo; defesas da democracia e dos direitos fundamentais;abordagens sobre sexualidade; e ações que visem ao respeito e à integração de minorias, especialmente em casos que envolvam desigualdades de gênero, identidade de gênero e orientação sexual. Ao se considerar a aliança nacional entre neoliberalismo e conservadorismo paranoico, é fácil compreender o porquê dessas interdições. Os dois primeiros conjuntos de manifestações a serem censuradas são obstáculos à agenda neoliberal; os dois últimos são acintes ao conservadorismo.
O PESP até tenta disfarçar seus comprometimentos ideológicos, impondo um dever injustificável (pois fere as liberdades de cátedra, pensamento e expressão), impraticável (intelectual e temporalmente)e contraditório (ao se levar em consideração a proibição de manifestação política, exigida pelo próprio projeto) de os professores apresentarem, com a mesma profundidade, todas as correntes relacionadas com cada tópico trabalhado em sala.Trata-se de um constrangimento quimérico de o professor, individualmente, concretizar um ideal que se realiza apenas institucionalmente, quer a partir de uma equipe plural de professores dentro de um certo departamento ou entidade de ensino, quer a partir de uma pluralidade de entidades educacionais, cada qual com seu viés político-ideológico hegemônico.A promoção desse ideal institucional, contudo, requer exatamente aquilo que o PESP pretende embargar, isto é, que cada professor seja livre para, dentro do conteúdo programático de sua disciplina, trabalhar com o viés político-ideológico que lhe pareça mais adequado.
Nesse contexto, apesar de alegar um inexistente “princípio da neutralidade do Estado”(sic) — inexistente porque o Estado possui objetivos políticos constitucionalmente determinados e ache por meio dos governos, que são ideologicamente comprometidos, de forma que a democracia constitucional é absolutamente incompatível com a neutralidade político-ideológica —, o PESP, na verdade, propugna um modelo educacional tecnicista e acrítico, ideologicamente enredado com o neoliberalismo e o conservadorismo. Ele será,com efeito, um instrumento de controle e determinação ideológica nas escolas, nas universidades, nos livros didáticos, nos vestibulares e nas provas de concurso. Sob o pretexto de combater uma pretensa doutrinação esquerdista (parte do delírio conspiratório comunista-abortista-feminista-gayzista), o programa fixará, formal e informalmente, os limites da agenda de discussões em espaços educacionais, que são eminentemente políticos e, em uma democracia, deveriam ser plurais.
Além desse controle óbvio da agenda de discussão nas escolas, universidades, livros e provas, o PESP é ainda, em si mesmo, uma cortina de fumaça, que serve para controlar a agenda democrática mais geral. A fábrica de fakenews é tão abjeta, a censura educacional é tão bizarra e a ameaça de retrocessos é tão iminente, que não há como deixar de se discutir, criticar e desmontar os argumentos toscos do PESP. Todavia, centrar a discussão no PESP e nas demais pautas culturais, impostas pelo conservadorismo paranoico,obsta a discussão da questão de maior relevância para o neoliberalismo, sua raison d’être, que são as impopulares políticas econômicas de austeridade. É como um truque de mágica. Para consumar o truque, o ilusionista precisa desviar a atenção do público para longe de onde a mágica realmente está ocorrendo. Dessa mesma forma, a instituição do receituário neoliberal pela elite tecnocrata exige que o foco das discussões populares seja desviado, a fim de se afastar as “inconveniências” da democracia.
É nessa conjuntura que o Escola sem Partido integra violentamente a estratégia neoliberal e contribui para a desdemocratização de nosso sistema político e para a configuração de nossa pós-democracia.E isso é, provavelmente, apenas uma amostra do que nos espera a partir de 2019.
Lucas de Melo Prado é mestre em Ciência Jurídica pela Universidade do Vale do Itajaí (UNIVALI). Bacharel em Direito pela Universidade Federal do Piauí (UFPI). Professor de Filosofia Geral e Filosofia Jurídica no Curso de Direito da Faculdade Avantis (Balneário Camboriú – SC).

quinta-feira, 20 de dezembro de 2018

O Horror... o Horror.... sobre a interferência dos militares, fundamentalistas e da mídia tendenciosa na ilegal censura de Toffoli a Marco Auréio Mello, por Marcelo Zero e Wilmar Lacerda





Após a sua decisão liminar, que apenas reafirmava o que diz explicitamente a Constituição, o Ministro Marco Aurélio declarou que “se o Supremo ainda for o Supremo, minha decisão tem que ser obedecida”.

Não foi. Contrariando as normas do próprio STF, que determinavam que a decisão só poderia ser revista pelo Plenário, Toffoli anulou-a. Contribuiu para esse desfecho ilegal e inconstitucional a inoportuna e impertinente mobilização militar e a “grita” da mídia e de procuradores de convicção religiosa, que mentiram à população, afirmando que a liminar em defesa da Constituição libertaria da prisão cerca de 169 mil pessoas, inclusive perigosos homicidas. Mentira grosseira, pois era óbvio que a liminar não beneficiaria presos perigosos submetidos à prisão preventiva, condenados por júri popular, aqueles que tem mais de uma condenação, etc....

Na Lava Jato, por exemplo, a liminar beneficiaria potencialmente apenas meia dúzia de bagrinhos. Destaque-se que a hipótese de prisão em segunda instância só foi estabelecida em 2016. Por acaso alguém acredita que, até aquela data, ninguém podia ser preso no Brasil? Nosso país tem a terceira taxa de encarceramento do mundo há bastante tempo. Prendemos muito e prendemos mal. Não somos o país da impunidade, somos o país da punição cruel. Somos o país da tortura e somos o país das execuções extrajudiciais. E somos uma nação de gente cínica, hipócrita e cruel.

E, agora, somos um país no qual o Supremo não é mais Supremo.

O papel do Supremo é a defesa da Constituição, sobretudo das suas cláusulas pétreas, nas quais estão incluídos o devido processo legal e o amplo direito à defesa.

Desse modo, a defesa da Constituição é muito mais que a defesa de um texto legal. Ela é, na realidade, a defesa da democracia e, num sentido ainda maior, a defesa da civilização contra a barbárie. Contra a barbárie institucional.

Na relação invariavelmente assimétrica entre sujeitos individuais e coletivos e o Estado, são os primeiros que necessitam de proteção, a proteção dos direitos e das garantias individuais, a proteção da Justiça, face ao monopólio legal da força que o último possui.

No Brasil, após a cassação da liminar de Marco Aurélio, não há mais dúvida (para aqueles que ainda a tinham) de que essa proteção se esfumou, tal qual motorista de deputado do baixo clero.

Ficou claro, escancarado, após o episódio, que o sistema jurídico agora está a serviço de um projeto político que se apossou do aparelho de Estado e criou um Estado de exceção seletivo, que produz presos políticos e decisões oportunistas e teleológicas.

A decisão de permitir a prisão em segunda instância, contrariando o texto claro e explícito da Constituição, foi construída para prender Lula e afastá-lo da disputa eleitoral, ganha pelo neofascismo, que premiou Moro com o cargo de superministro da “Justiça”.

Tal decisão inconstitucional e antidemocrática já sobreviveu, incólume, a pronunciamentos contrários da ONU, de desembargadores e, agora, de ministro do Supremo.

Entretanto, esse Estado de exceção seletivo não foi erigido para prender a pessoa física de Lula. Pois Lula, como diz Mujica, outro grande ex-presidente, não é uma pessoa; é uma causa. Assim, o que o neofascismo brasileiro quer, com essa prisão política e esse Estado de exceção, é impedir a reação popular a um projeto antipopular e antinacional.

O projeto político que se apossou do aparelho de Estado e das instituições exige o sacrifício da Constituição, tanto na dimensão dos direitos políticos quanto dos sociais. Exige, portanto, o sacrifício dissimulado da democracia.

E exige também o sacrifício de princípios civilizatórios, para instituir a barbárie de um ultraneoliberalismo que fará do Brasil laboratório político para um tipo de capitalismo que não se mostra mais compatível com a democracia, bem como para implantar a selvageria de um neofascismo baseado num fundamentalismo medieval.

Nesse quadro, o Supremo não é mais Supremo; é carimbador de decisões de primeira instância. A Carta Magna não é mais Magna; é texto nanico, portaria a ser interpretada pelos interesses de ocasião. A democracia não é mais democracia, é biombo, simulacro, para um Estado de exceção. E a civilização, criada pelo pacto social, não é mais civilização; é barbárie destinada a implodir a convivência social pacífica e regrada e impor a violência como instrumento de contenção dos conflitos.

O Brasil enfrenta um apocalipse demente. Como o personagem Kurtz, da novela de Joseph Conrad, Coração das Trevas, e do filme de Coppola, Apocalyse Now, as forças obscurantistas romperam com todas as regras e estão enlouquecidas pelo poder, a adulação de seguidores fanáticos e a sede da riqueza fácil.

Aos democratas que sobrevivem, resta a lucidez última do moribundo Kurtz, que exclamava às trevas do seu mundo cruel e enlouquecido, sem Supremo, sem direitos, sem democracia: o Horror...o Horror....

Marcelo Zero e Wilmar Lacerda

Fonte: Contexto Livre

"Suprema Corte desse país virou uma república de bananas", afirma o juiz Tadeu Lemos



Entrevistado antes da decisão de Toffoli, jurista disse que derrubar a decisão de Marco Aurélio Mello, que garantia o que diz a Constituição, seria uma afronta à democracia


Dias Toffoli (esq.) é cumprimentado pelo presidente eleito Jair Bolsonaro (dir.) - Créditos: Agência Brasil

Na tarde desta quarta (19), o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Marco Aurélio Mello, publicou decisão informando a soltura de todos os presos detidos por condenações em segunda instância, ou seja, que ainda têm recursos a serem analisados em tribunais superiores.
Segundo estimativa do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), a liminar poderia se aplicar a cerca de 169 mil pessoas, entre elas, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
Entrevistado durante o Giro de Notícias da Rádio Brasil de Fato, o jurista alagoano Marcelo Tadeu Lemos foi perguntado sobre a possibilidade de Dias Toffoli derrubar a determinação de Mello – hipótese que se concretizou, horas depois.
Ouça a entrevista completa no site Brasil de Fato
Edição: Brasil de Fato

O desabafo do jurista Afrânio Silva Jardim após o vexame de Tofolli no atual Estado de Exceção: “Não mais acredito no Direito”



“Estou me retirando deste mundo falso e hipócrita”: o desabafo do jurista Afrânio Silva Jardim depois da decisão de Toffoli


Afrânio Silva Jardim

PUBLICADO ORIGINALMENTE NO FACEBOOK DO AUTOR  E REPUBLICADO NO DCM.
A MINHA DECEPÇÃO E DESGOSTO É MUITO GRANDE. COMO LECIONAR DIREITO COM UM SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL COMO ESTE ? ESTOU ME RETIRANDO DESTE “MUNDO” FALSO E HIPÓCRITA.
APÓS QUASE 39 ANOS LECIONANDO DIREITO PROCESSUAL PENAL E 31 ANOS ATUANDO NO MINISTÉRIO PÚBLICO DO E.R.J., DIANTE DA NOTÓRIA PERSEGUIÇÃO DO NOSSO SISTEMA DE JUSTIÇA CONTRA O EX-PRESIDENTE LULA, CONFESSO E DECIDO:
1) Não mais acredito no Direito como forma de regulação justa das relações sociais.
2) Não mais acredito em nosso Poder Judiciário e em nosso Ministério Público, instituições corporativas e dominadas por membros conservadores e reacionários.
3) Não vejo mais sentido em continuar ensinando Direito, quando os nossos tribunais fazem o que querem, decidem como gostariam que a regra jurídica dissesse e não como ela efetivamente diz.
4) Não consigo conviver em um ambiente tão falso e hipócrita. Odeio o ambiente que reina no fórum e nos tribunais. Muitos são homens excessivamente vaidosos e que não se interessam pelo sofrimento alheio. O “carreirismo” talvez seja a regra. Não é difícil encontrar, neste meio judicial, muito individualismo e mediocridades.
5) Desta forma, devo me retirar do “mundo jurídico”, motivo pelo qual tomei a decisão de requerer a minha aposentadoria como professor associado da Uerj. Tal aposentadoria deve se consumar em meados do ano que se avizinha, pois temos de ultrapassar a necessária burocracia.
6) Vou procurar outra “trincheira” para uma luta mais eficaz em prol de um outro modelo de sociedade. A luta por vida digna para todos é perene, pelo menos para mim.
7) Confesso que esta minha decisão decorre muito do que se tornou o Supremo Tribunal Federal e o “meu” Ministério Público, todos contaminados pelo equivocado e ingênuo punitivismo, incentivado por uma mídia empresarial, despreparada e vingativa.
Com tristeza, tenho de reconhecer que nada mais me encanta nesta área.
8) Acho que está faltando honradez, altivez, cultura, coragem e honestidade intelectual em nosso sistema de justiça criminal.
9) Casa vez menos acredito no ser humano e não desejo conviver com certas “molecagens” que estão ocorrendo em nosso cenário político e jurídico.
10) Pretendo passar o resto de meus dias, curtir a minha velhice em um local mais sadio…
Afranio Silva Jardim, professor associado de Direito Processual Penal da Uerj. Mestre e Livre-Docente em Direito Processual Penal pela Uerj. Procurador de Justiça (aposentado) do Ministério Público do E.R.J.
00:00/00:40Diário do Centro do Mundo
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