quinta-feira, 3 de outubro de 2019

Sínodo Pan-Amazônico é resistência pela proteção à Amazônia e povos indígenas, diz bispo de São Gabriel da Cachoeira




Para sua fala durante o Sínodo, Dom Edson Damian elencou dois temas: a inculturação e a Igreja Índia Amazônica, propondo que as cerimônias católicas agreguem não só as línguas indígenas, mas também símbolos e rituais tradicionais desses povos.


Para Dom Edson Taschetto Damian a vida humana e o meio ambiente estão sofrendo uma séria e, talvez, irreversível destruição (Foto: Alberto César Araújo/Amazônia Real)

da Amazônia Real

Sínodo é resistência pela proteção à Amazônia e povos indígenas, diz bispo de São Gabriel da Cachoeira

por Ana Amélia Hamdan, especial para a Amazônia Real
São Gabriel da Cachoeira (AM) – Centro das atenções da imprensa mundial devido às queimadas e às propostas do governo de Jair Bolsonaro (PSL) que envolvem exploração mineral, avanço da fronteira agrícola e suspensão da demarcação de terras indígenas, a Amazônia brasileira ganha ainda mais destaque nas próximas semanas. Dessa vez, por seu papel primordial na questão ambiental, cultural e religiosa: entre os dias 6 e 27 de outubro, a Igreja Católica realiza no Vaticano, em Roma, o Sínodo dos Bispos para a Amazônia com o Papa Francisco.
O bispo da Diocese de São Gabriel da Cachoeira, Dom Edson Taschetto Damian, 71 anos, é um dos 11 bispos da Amazônia convocados pelo Vaticano para o Sínodo. “A Amazônia estará na vitrine do mundo”, diz ele, que iniciou sua vida missionária na região amazônica em 1999 na Diocese de Roraima. O bispo foi também membro da Comissão Pastoral da Terra (CPT).Para sua fala durante o Sínodo, Dom Edson Damian elencou dois temas: a inculturação e a Igreja Índia Amazônica, propondo que as cerimônias católicas agreguem não só as línguas indígenas, mas também símbolos e rituais tradicionais desses povos.
A Diocese de São Gabriel está localizada na região do Alto Rio Negro, no Amazonas, onde há a maior população indígena do Brasil. Dos 45.564 habitantes do município, 95% são indígenas que representam 23 etnias. É também o lugar onde tem quatro línguas oficiais: tukano, baniwa, nheengatu e português.
Papa Francisco com os povos da Amazônia em Puerto Maldonado, no Peru
(Foto: Andres Valle/2018)
No total, mais de 250 bispos, religiosos, pesquisadores e representantes da Organização das Nações Unidas (ONU) participarão do Sínodo dos Bispos para a Amazônia, que discutirá questões sociais e ambientais dos noves países que integram a bacia amazônica: Brasil, Bolívia, Colômbia, Equador, Peru, Guiana, Guiana Francesa, Venezuela e Suriname.
Dom Edson aponta que São Gabriel da Cachoeira, inclusive devido à sua localização fronteiriça, está sujeita a problemas como exploração de crianças e adolescentes e o tráfico de drogas, questões que serão discutidas durante o Sínodo. Ainda assim, considera que as dificuldades de acesso acabam protegendo a região que, segundo o religioso, é uma das menos atingidas por desmatamento.
Presidente do Regional Norte 1 da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) desde maio deste ano, Dom Edson embarca para Roma na próxima semana (em 3 de outubro), levando como presente para o Papa Francisco: um cálice e um cibório, objetos usados na celebração da Eucaristia, feitos em madeira da árvore pau-brasil. E a viagem coincide com os 10 anos de Dom Edson em São Gabriel, que está como bispo da Diocese de São Gabriel desde 2009.
Natural de Jaguari, no Rio Grande do Sul, Dom Edson Damian é membro da Fraternidade Sacerdotal Jesus Cáritas, que segue a espiritualidade de Charles Foucauld. É também o primeiro bispo não salesiano a assumir a Diocese de São Gabriel, fundada em 1941.
Filófoso formado pela Universidade Federal de Santa Maria e teólogo pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, ele foi ordenado padre em 1975 por Dom Ivo Lorscheiter (1927-2007). Em entrevista ao Amazônia Real, o bispo disse que o Sínodo pode ser considerado um movimento de resistência pela proteção à Amazônia e aos povos indígenas. E afirma: “A Igreja não terá medo de dizer a verdade”. Leia abaixo a entrevista com o bispo Dom Edson Damian.
Dom Edson Damian na Diocese de São Gabriel da Cachoeira
(Foto: Alberto César Araújo/Amazônia Real)
Amazônia Real – Como foram elaboradas as questões a serem discutidas durante o Sínodo da Amazônia?
Dom Edson Damian – O Papa Francisco, quando convocou o Sínodo, em 15 de outubro de 2017, disse que é um Sínodo especial para a Pan-Amazônia, com dois objetivos: buscar novos caminhos para a Igreja e novos caminhos para uma ecologia integral. Os principais interlocutores desse Sínodo serão os povos indígenas, os povos originários da Amazônia. Ele disse que, nunca como hoje, os direitos dos povos indígenas estiveram tão ameaçados. Ali, então, o Papa delineou o que ele deseja com esse Sínodo. Além dos indígenas, os ribeirinhos, caboclos, habitantes das periferias das grandes cidades deverão ser os principais interlocutores.


O Conselho Pré-Sinodal teve diante de si 1.200 páginas de propostas da escuta que foi feita das comunidades cristãs de toda parte. Nas comunidades indígenas e nas cidades. Essa equipe escreveu o instrumento de trabalho, que ficou pronto em 13 de junho. E do conselho faz parte o padre Justino Tuyuka, único padre indígena do grupo.
É um caminho sinodal, que envolve toda a igreja, a partir das comunidades de base. Dos 390 povos indígenas da Pan-Amazônia, 179 participaram. Aqui em São Gabriel, representantes de todas as 23 etnias participaram.
Amazônia Real – Quais as principais questões levantadas?
Dom Edson – As comunidades que habitam a região amazônica identificaram os seguintes problemas como questões de importância crucial para o Sínodo, por meio de amplo processo de consulta e escuta: a criminalização e assassinato de líderes e ativistas, que defendem territórios e povos indígenas; as práticas predatórias de caça e pesca; as concessões de abate ilegal de árvores; os megaprojetos infraestruturais; concessões de hidrelétricas, monoculturas, projetos mineiros e petrolíferos. A poluição provocada por todas as indústrias, que causa problemas e doenças, em particular a crianças e jovens; o narcotráfico.
Os problemas sociais, como alcoolismo, violência contra a mulher, a exploração sexual; o tráfico de seres humanos; a perda da cultura e identidade. Depois a falta de demarcação de territórios indígenas, a falta de reconhecimento de seu direito a terra. A rápida perda da biodiversidade e as consequências para o planeta, uma vez que a floresta amazônica representa um pulmão vital para a atmosfera. A vida humana e o ambiente estão sofrendo uma séria e, talvez, irreversível destruição.
São Gabriel da Cachoeira tem 23 etnias indígenas
(Foto: Alberto César Araújo/Amazônia Real)
Amazônia Real –  Dessas questões, quais atingem mais a região de São Gabriel da Cachoeira?

Dom Edson – Em São Gabriel, a violência contra mulheres, contra crianças, abusos sexuais contra menores, o problema do alcoolismo, das drogas. Estamos aqui muito perto da fronteira. E sabemos que muitos indígenas, para sobreviver, colaboram para transportar drogas dos países vizinhos para cá. E, claro, que daqui da nossa região surgiu também esse grito: queremos mais padres e diáconos para atender a nossa comunidade.
Amazônia Real – O senhor está aberto à proposta de que homens casados possam celebrar missas?
Dom Edson – A gente vai propor nesse Sínodo, sem abolir o celibato, a possibilidade de ordenar homens casados. Homens casados que vivam de seu trabalho, com famílias bem constituídas. E, claro, que tenham uma preparação adequada para que possam celebrar a eucaristia nos finais de semana. Estou aberto a essa proposta e vou defendê-la.
As mulheres pedem que tenham espaço maior de participação, que estejam mais presentes não só para executar tarefas, mas nos momentos de decisão. Que elas possam ter ministérios próprios. A gente vai pedir que as mulheres possam receber a ordenação diaconal.
E tudo isso tem um princípio que apareceu nessa consulta para o Sínodo, que é preciso passar de uma Igreja que visita para uma Igreja que permanece. Aqui na nossa região, devido às longas distâncias, os custos de transporte e combustível, os padres visitam quatro vezes por ano as comunidades. Então é uma pastoral de visita. Passar para uma pastoral de presença com as comunidades podendo ter seus ministros ordenados, as mulheres diáconas, os homens presbíteros, celebrando a eucaristia.
Amazônia Real – Essa é uma forma de fazer frente ao avanço da Igreja Evangélica?

Dom Edson – Em algumas regiões, sim. Aqui nem tanto. Temos paróquias aqui, como Taracuá, Pari-Cachoeira e Yauaretê, que são 100% católicas. São acompanhados pela Igreja Católica há mais de 100 anos.
Presentes para o Papa Francisco: cálice e cibório, objetos da Eucaristia, feitos em pau-brasil (Foto: Ana Amélia Hamdan/Amazônia Real)
Amazônia Real – Qual a relação do Papa Francisco com a Amazônia?
Dom Edson – O Papa Francisco (ainda como cardeal arcebispo de Buenos Aires) conheceu sobre a Amazônia em 2007, quando houve a V Conferência dos Bispos da América Latina e do Caribe. Ficaram três semanas em Aparecida (SP) para analisar a situação da Igreja aqui. E ele ficou impressionado diante dos bispos da Amazônia que descreveram uma realidade dramática, pedindo que a Igreja abrisse novos caminhos, que mandasse novos missionários.
E é por isso que o primeiro documento que ele escreveu foi Evangelii Galdium (Alegria do Evangelho) e tem toda a proposta de uma conversão pastoral. A Igreja em saída, que deve ir às periferias geográficas e existenciais. Definiu a igreja como um hospital de campanha, que vai juntar os feridos. É um novo modelo. Isso foi no fim de 2013.
E esse Sínodo vai para a Amazônia, a periferia do Brasil, considerada a despensa, o lugar onde tem reservas intermináveis, onde cada um se julga no direito de vir aqui derrubar quanto quer e com essa economia predatória.
Em 2015 o Papa escreveu o Laudato si‘, o documento ecológico mais completo da Igreja. Esse documento deu um peso muito grande. É o cuidado da Casa Comum. Então esse Sínodo é um novo caminho para a Igreja e para uma ecologia integral.
Amazônia Real – Em seu discurso na ONU, há poucos dias, o presidente Jair Bolsonaro disse que as atuais queimadas na Amazônia são um incidente favorecido pelo clima seco e por práticas da cultura local. Voltou a afirmar que a população indígena pede desenvolvimento. Reforçou que não vai demarcar mais terras. A fala foi duramente criticada por lideranças dos povos indígenas. O que o senhor considera sobre essas posições?
Dom Edson – Isso é lamentável. A figura que o presidente fez na ONU é algo que nos envergonha a todos. Disse coisas, mas aqui é o contrário que está acontecendo. A Igreja não terá medo de dizer a verdade. Nessas três semanas que vai acontecer o Sínodo, em Roma, a Amazônia estará na vitrine do mundo, com jornalistas do mundo inteiro. E são 58 bispos. Iremos para lá, a gente conhece a realidade. Nós moramos aqui. Não somos visitantes e nem viemos aqui para explorar. Viemos para defender. Defender a verdade do evangelho, que deve chegar ao coração de todos, e os direitos humanos, principalmente daqueles mais fragilizados e que são oprimidos e maltratados.
Área degradada pelo fogo em Porto Velho, Rondônia, em 24 de agosto de 2019
(Foto: Victor Moriyama / Greenpeace)

Amazônia Real – O governo Bolsonaro também criticou o Sínodo da Amazônia. Os bispos da Pan-Amazônia divulgaram carta lamentando que, em vez de serem apoiadas, as lideranças estão sendo criminalizadas como inimigos da pátria. O senhor vem sentindo essa tensão no dia a dia?
Dom Edson – Não. Aqui temos um bom diálogo, numa localidade onde 90% da população é formada por povos indígenas. As instituições que estão aqui têm sensibilidade pela situação do povo, tão desassistido e abandonado. Como criticar e falar mal?
Amazônia Real – E sobre os posicionamentos do Governo Bolsonaro, que propõe um modelo desenvolvimentista? Há alguma pressão? 
Dom Edson – Aqui a gente está num lugar privilegiado, pois quase 90% das terras do município de São Gabriel da Cachoeira foram demarcadas e homologadas. Foi uma conquista do povo. A gente pode dizer que nessa região menos de 3% da floresta foi derrubada. É a mais preservada de toda a Amazônia. Porque os povos indígenas estão aqui. Não chegaram madeireiros, nem agronegócio, nem mineradoras. Essas últimas estiveram aqui, mas foram mandadas embora por pressão dos povos indígenas, que perceberam que só traziam malefícios e doenças.
Também há dificuldades. As longas distâncias – são 1.200 km de Manaus até aqui -, o transporte difícil e caro. Depois também a terra da região é arenosa, ácida, não produz muita coisa.
Amazônia Real – E sobre as demarcações especificamente?
Dom Edson – Poucos brancos protestam contra a demarcação. Isso vai se acentuar com o governo que está abrindo campo para esse pessoal. Sentem-se apoiados para fazer isso. A Foirn (Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro), presidida por Marivelton Baré, está bem organizada e está acompanhando.
Amazônia Real – O tema da Sínodo é “Amazônia: novos caminhos para a Igreja e por uma ecologia integral”. Quais os caminhos os povos indígenas podem indicar quanto à ecologia integral?
Dom Edson – O indígena tem uma relação profunda com a natureza. Com a floresta, com os rios, com os peixes, os animais, as aves. Ecologia integral é um dar-se conta que somos terra, somos água, tudo está interligado. Tudo está interligado nessa casa comum. Os povos têm ligação com a mãe terra. Os rios são as veias. Como vamos poluir o sangue da mãe terra, que é nossa vida.
Dom Edson Damian é Bispo da Diocese de São Gabriel da Cachoeira
(Foto: Alberto César Araújo/Amazônia Real)
Amazônia Real – Sobre qual tema o senhor falará durante o Sínodo?
Dom Edson – Cada bispo tem direito a duas falas de 4 minutos cada uma. Como estou aqui, na diocese mais indígena do Brasil, eu vou defender dois pontos. A inculturação na liturgia, na catequese, nos ministérios da Igreja; e a Igreja Índia Amazônica. São valores dos povos indígenas, suas músicas suas danças, seus ritos que devem entrar nas nossas celebrações.
E no fim do ano, em 14 de dezembro, eu vou ordenar um padre Tukano, em Taracuá. No dia 15, ele vai celebrar a missa totalmente em tucano. E o Sínodo abre esses caminhos. E temos outro padre do povo Baniwa preparando a missa em [na língua] baniwa.
Os valores dos povos indígenas são evidentes. A integração com o meio ambiente, o cuidado de não destruir mais do que precisa para sobreviver, a vida comunitária, a partilha dos alimentos.
Não existe celebração nessas comunidades ribeirinhas onde depois da missa não se faça a partilha dos alimentos, da quinhanpira [prato indígena do Alto Rio Negro]. Já durante a missa eles fazem o dabucuri: eles trazem os seus presentes e fazem questão que o padre leve a farinha, o beiju, a tapioca, banana, abacaxi, frutas da época. A missa que continua na refeição comum. São valores cristãos que os povos indígenas viveram desde sempre.
Amazônia Real – Além da visibilidade dada à Amazônia pelo Sínodo, quais os ganhos os povos indígenas podem ter após o encontro no Vaticano?
Dom Edson – O Sínodo abre novos caminhos para evangelização. O Papa insiste que devemos apresentar propostas criativas e corajosas. Virão propostas para serem aplicadas imediatamente, outras de médio e longo prazo. E o Sínodo tem caráter consultivo. Apresenta-se uma proposta e depois o Papa escreve, colocando coisas novas. Mas o Papa informou que, se houver unanimidade nas propostas, o Sínodo será deliberativo. Ele assina com as propostas dos bispos. Isso é uma novidade.
E também há a conscientização para o cuidado que devemos ter por esse bioma com benefícios para a humanidade e que não podemos destruir com megaprojetos, economia predatória e incêndios, com projetos que vêm de fora, sem consulta aos habitantes daqui, que acabam prejudicados por devastação.
Cientistas dizem que já foram derrubados 20% da Floresta Amazônica. Em algumas regiões, como Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Rondônia, 90% da floresta já não existem mais. Se destruir mais 5%, será irreversível. E há todos os benefícios que a Amazônia traz para o Brasil inteiro, como os rios voadores. As chuvas vão da Amazônia para o Sudeste. Vai até o Cone Sul.
Logo após os incêndios do mês de agosto, inclusive como 10 de agosto como o Dia do Fogo, com o pessoal das madeireiras, do agronegócio que combinaram botar fogo junto. O que aconteceu? Ao invés da chuva, uma fumaça densa escureceu São Paulo às 15h.
Encontro do Papa Francisco com os povos da Amazônia, no Peru
(Foto: Andres Valle)
Amazônia Real – O Sínodo para a Amazônia pode ser considerado um movimento de resistência pela proteção à região?
Dom Edson Damian – É um movimento de resistência. Basta! O que se destruiu foi demais. Vamos parar por aqui em nome do equilibro ecológico. Tem um movimento de resistência e é crescente. Os povos indígenas são os primeiros a se manifestar, mesmo com a sociedade brasileira bastante apática. São os primeiros que levantam a voz e, quando vão a Brasília, sabem o que dizer.

A importância de estudar Marx e o marxismo para que se possa entender o Brasil, por Álvaro Miranda



Marx foi talvez o mais interdisciplinar dos pensadores da modernidade, vinculando economia, política e cultura, dentre outras dimensões da vida social.



A importância de estudar Marx e o marxismo para entender o Brasil

por Álvaro Miranda, no GGN

Tendo voltado a estudar o marxismo, ainda que lentamente e de forma errática, confirmo aqui comigo e reitero como Marx é atualíssimo e necessário para entender o Brasil e o mundo contemporâneo. Claro que Marx não teve tempo de abordar determinados problemas já da sua época, nem de outros que surgiram posteriormente.
Como aprendiz assumo o risco aqui de errar e tornar superficial o que exigiria mais densidade. Se errar, ótimo, que alguém aponte e aprimore a reflexão. Mas, basta dizer que Marx foi um dos primeiros, se não o primeiro, a desmistificar a condição do ser humano como ser social.
Em suma, nada de entidades sobrenaturais, mas sim as relações concretas entre seres humanos no seu metabolismo com a natureza através do trabalho. Não toco nos pensadores gregos nessa ligeira anotação, atendo-me mais ao período convencionalmente chamado da modernidade, a partir do século XV.
Não enveredo também pelos contemporâneos, a exemplo das contribuições em diversas áreas de Foucault, Delleuze, Guattari, Derrida, Sartre, Camus e outros, mesmo que muitos autores vejam incompatibilidades de alguns dos citados com Marx. Eu não vejo. Estes pensadores trouxeram questões outras do indivíduo e de suas relações com a sociedade, mas, a meu ver, nenhuma grande teoria conseguiu refutar até agora o método do materialismo dialético para explicar a sociedade capitalista.
Em relação à passagem do período medieval para a modernidade, lembro de Quentin Skinner e Perry Anderson, o primeiro sobre as fundações do pensamento político moderno e o segundo sobre os diferentes absolutismos que marcam a formação capitalista específica de cada nação europeia.
Pode-se dizer que Maquiavel, considerado o inaugurador do pensamento político moderno, talvez tenha sido também o que saiu das águas idealistas e levantou as premissas necessárias para se navegar, de forma concreta, pelos problemas das relações entre governantes e governados e da geopolítica, dentre outros.
Do seu tempo para cá, Hobbes, Locke, Montesquieu, Rousseau, John Stuart Mill e Kant, em suas diferenças, não tocaram nas questões nevrálgicas do materialismo da vida das relações entre classes. Hegel deu seu conhecido passo importante em relação à problematização do Estado, mas também de forma idealista – não à toa Marx ser considerado um hegeliano no seu movimento teórico inicial.
Entre os economistas, Adam Smith foi o mais impactante para fundar o princípio enganador e contraditório do liberalismo, a tal “mão invisível” do mercado. Uma quimera, pois, na verdade, essa mão invisível nada mais é do que o próprio estado ou as institucionalidades por ele criadas.
Não existe mercado livre por si só. Algum elemento garante ou não essa suposta liberdade. O salve-se quem puder da livre concorrência não tem nada de normal e justo, nem é natural como peculiaridade da espécie humana, a não ser para os oportunistas ou aqueles que se deixam enganar e tapar os olhos para a captura do estado por forças hegemônicas.
O próprio liberalismo, no processo histórico das revoluções burguesas dos séculos XVII e XVIII que destronaram o poder do Rei, trouxe a contradição do binômio igualdade-liberdade como mantra natural do ser humano. Este foi usado pela burguesia para garantir seus direitos e depois, contraditoriamente, para restringir a própria democracia diante da luta, pelo mesmo binômio, empreendida pelos movimentos socialistas do fim do século XIX e início do XX.
A teoria política moderna acabou se transformando para muitos como um conjunto de elementos para uma espécie de “fim da história” da formação do estado capitalista ocidental. Não se costuma ouvir que a democracia é sempre problemática, mas até hoje não se inventou um sistema melhor?
Os positivistas chegam no século XIX não para questionar essa sociedade, mas para tentar explicá-la e apenas legitimá-la. E o fazem meio no delírio “matematizante”, utilizando-se de métodos das ciências físicas e biológicas para a compreensão dos problemas da sociedade.
Sem falar, na maioria de todos os pensadores, da inclusão de entidades sobrenaturais em tudo que se relaciona com as relações de poder e dominação entre os seres humanos. Max Weber, com seu portentoso caminho teórico na área jurídica, fica aquém também da necessária imbricação dos problemas da vida material nas questões conflituosas que configuram disposições políticas e institucionais.
Vida material, no sentido de reunir não só o econômico, mas todos os aspectos circunstanciais das relações em sociedade. Todos os aspectos, enfim, do metabolismo do ser humano com a natureza e nas relações entre indivíduos, grupos e nações através da divisão do trabalho. Talvez o maior legado de Weber tenha sido o de apontar importantes problemas do processo de burocratização das relações sociais, mas, mesmo assim, sem entrar no cerne explicativo desse processo.
O próprio Durkheim já vinha alinhavando esses problemas em seu pensamento sobre a divisão social do trabalho e outros, como, por exemplo, sobre o suicídio, mostrando que esse gesto dos seres humanos não era um problema de pessoas supostamente desequilibradas individualmente, mas fruto de questões sociais, a chamada anomia.
Em resumo, Marx nunca esteve ultrapassado desde então e se torna cada vez mais atualíssimo, confirmado pelos problemas contemporâneos. A queda do Muro de Berlim, no fim da década de 1980 do século passado, soterrou a inteligência de alguns e abriu o horizonte da manipulação teórica. Certo multiculturalismo e diversas bandeiras e causas legítimas de grupos acabaram sendo capturadas pela própria sociedade de mercado a fim de incentivar a ideia do fim das grandes narrativas e dizer que não há luta de classes, mas sim pluralidade de visões de mundo.
Ora, marxistas nunca negaram a pluralidade. Além disso, a visão marxista não se resume a um suposto economicismo, como se costuma dizer. Marx foi talvez o mais interdisciplinar dos pensadores da modernidade, vinculando economia, política e cultura, dentre outras dimensões da vida social.
A própria globalização foi prevista por Marx ao analisar o caráter expansivo do capital. Marx é controverso, sim, e até entre marxistas vigorou polêmica, durante várias décadas, na União Soviética, sobre quem tinha autoridade para interpretá-lo de forma mais próxima do que ele quis dizer em seus trabalhos. Sem falar de Engels, que continuou sua grande obra após sua morte.
Bobagem da indigência intelectual a ironia de questionar, por exemplo, os esforços socialistas da China por ela manter nos dias de hoje um sistema de relações de mercado. Ora, países não vivem isolados como ilhas no mundo da lua ou das beatitudes celestiais. Estão interagindo com outras nações e regiões. O caráter expansivo do capitalismo não significa evolução no sentido de aprimoramento, mas sim de contradições envolvendo interação entre estados mediante guerras, imperialismo, colonialismo e saques, dentre outras situações.
A chamada modernidade deve ser vista do ponto de vista da divisão internacional do trabalho. Subdesenvolvimento de uns países não é uma fase do desenvolvimento a ser alcançado nos patamares de outros países já considerados desenvolvidos. Subdesenvolvimento e desenvolvimento são duas faces do mesmo fenômeno da expansão capitalista em seus diferentes momentos históricos – mercantil, comercial e industrial – depois o fordismo contrastado pelo toyotismo no século XX e outras situações que foram surgindo com as mudanças tecnológicas e das formas geopolíticas. Isso, em meio a contradições, guerras e crises culminando nessa estágio tresloucado da financeirização da economia. Tudo refletindo crises de diversos tipos e lutas de classes.
Para terminar de forma bem esquemática e superficial: ao usar a expressão lutas de classes no plural, no Manifesto Comunista, Marx não estava se referindo à luta especificamente econômica entre donos de meios de produção e proletários, como se ocorresse de maneira igual nas diferentes sociedades. Mas a diferentes formas, dependendo das configurações específicas de cada formação social. Há luta de classes dentro de um país e entre países. Lutas que se configuram, como causa ou efeito, nos problemas jurídicos e políticos e nos conflitos entre instituições políticas, ao lado (e/ou  imbricados) de (nas) relações econômicas intercapitalistas e entre donos de empresas e trabalhadores.
Daí que esta ligeira nota é um convite à reflexão sobre o caráter de classe da crise que estamos vivendo hoje no Brasil em relação aos conflitos diversos estampados nos jornais. Não adianta quererem acabar com a luta de classes por decreto ou dizendo que todo mundo é comunista quando contesta o governo.
Luta de classes é uma realidade, não um desejo de comunistas. O escândalo da Lava Jato, o golpe contra Dilma e a prisão absurda de Lula, tudo isso reflete lutas de classes. Nosso problema não é moral ou gerencial, mas sim estrutural que tem a ver com o modelo de sociedade. O alguém acredita na incorruptibilidade do sistema capitalista como caminho de aprimoramento para a beatitude celestial de todos?

Os militares, do Iluminismo ao terraplanismo e ao anti-intelectualismo, por Luis Nassif




Como Mourão está fazendo o mesmo curso intensivo de história do Eduardo Bolsonaro, confundiu as bolas e transformou as capitanias hereditárias em exemplo de empreendedorismo.
Reparem no raciocínio do vice-presidente Hamilton Mourão.
1. A Escola de Sagres, criada por Dom Henrique, Infante, foi um movimento de alta tecnologia, que projetou Portugal pelos séculos seguintes. Permitiu dominar a técnica da navegação, a construção de navios, a contabilidade das viagens. Empreendedorismo nato.
2. As capitanias hereditárias estão na raiz do patrimonialismo brasileiro. Enquanto os Estados Unidos abriam a possibilidade de propriedade da terra para os pioneiros, e a Argentina conquistava os pampas com os terratenientes, as capitanias estratificaram a propriedade da terra, foram responsáveis pelos latifúndios improdutivos, impediram o desenvolvimento de várias regiões do país, especialmente o Nordeste. Ou seja, antiempreendorismo nato.
Como Mourão está fazendo o mesmo curso intensivo de história do Eduardo Bolsonaro, confundiu as bolas e transformou as capitanias hereditárias em exemplo de empreendedorismo.
Some-se a visão rasa do general Alberto Heleno para se imaginar as Forças Armadas como um conciliábulo de terraplanistas. Não é bem assim. Os institutos militares têm formado engenheiros e tecnológos de alto nível.
E historicamente, não foi assim.

Os iluministas da República

O livro “Forças Armadas e Política no Brasil”, de José Murilo de Carvalho, tem um capitulo sobre a formação intelectual dos militares no período da Abolição e da Proclamação. Havia uma formação ampla, humanista, uma fé inabalável na ciência, estudo das escolas de pensamento, criando verdadeiros bacharéis fardados, com uma diferença. Os bacharéis civis provinham de famílias abastadas e iam buscar colocação no serviço público. Os militares vinham de famílias de militares e de baixa renda, portanto com uma visão de país diferente do patrimonialismo histórico.
Abaixo, alguns trechos do livro:
Separada da Escola Central, que, sob o nome de Politécnica, se encarregou do ensino da engenharia civil, a Escola Militar continuou a dar ênfase ao ensino das ciências e da engenharia. A quem completasse os cinco anos do curso, como foi o caso de Euclides, era concedido o diploma de bacharel em matemática e ciências físicas e naturais, um título nada militar. Sua importância na formação de Euclides foi muito grande. Buscarei resumi-la distinguindo quatro dimensões, a cultural, a intelectual, a política e a social.
Pelo lado cultural, paralelamente às matérias do curso, fortemente centradas nas matemáticas, engenharias e ciências da natureza, os alunos desenvolviam intensa atividade extracurricular em sociedades, clubes e revistas literárias. As revistas eram porta-vozes dos clubes. Destacaram-se, por ordem cronológica, a Phenix Literária (1878), a Club Acadêmico (1879), e a Revista da Família Acadêmica (1886).
A Revista do Club Acadêmico não destoava e publicava trabalhos sobre “A morte do amor”. A Revista da Família Acadêmica, de cuja direção fazia parte Cândido Mariano da Silva (Rondon), falava sobre “Evolução cósmica”, “H. Spencer e o evolucionismo”, “Concepção de Leibniz”.
Um dos mais destacados atores militares foi o futuro marechal Setembrino de Carvalho, ministro da Guerra de Artur Bernardes. Era tal o entusiasmo dos alunos pelo teatro e pelas atrizes que certa vez tomaram o lugar dos cavalos que puxavam a carruagem de Sarah Bernhardt.
Depoimentos de ex-alunos da época de Euclides garantem mesmo que o maxixe teria sido inventado lá dentro nos caroços, que vinham a ser bailes em que dançavam cadetes vestidos de homem com cadetes vestidos de mulher.[ 5] Fico imaginando uma parada militar ao ritmo de um maxixe.
As correntes mais populares eram o positivismo e o evolucionismo, com seus respectivos gurus, o francês Auguste Comte, os britânicos Charles Darwin e Herbert Spencer, e o alemão Ernest Haeckel. A juventude estudantil militar era dominada por crença fanática no poder da ciência. Esse cientificismo, partindo das ciências exatas e da biologia, estendia-se à sociedade, como doutrinavam Comte e Spencer.
A sociedade, ou, no caso de Comte, a Humanidade com H maiúsculo, eram governadas por leis tão rígidas quanto as da biologia ou da astronomia.
A faceta política da Escola é mais conhecida porque é um componente da conjuntura que vivia o país na segunda metade da década de 1880. A Escola Militar, as outras escolas superiores, a imprensa, o mundo político, todos discutiam a abolição e, sobretudo depois de 1888, a República. Os militares envolveram-se ainda no que ficou conhecido como a Questão Militar.
O abolicionismo lá chegou já em 1880, quando foi criada uma Sociedade Emancipadora que fazia propaganda e coletava fundos para a libertação de escravos. Em 1883, ela se uniu a outras sociedades dedicadas à mesma causa para fundar a Confederação Abolicionista. Em 1887, os alunos publicaram por conta própria um discurso de Rui Barbosa pronunciado na Confederação Abolicionista, aplaudindo a adesão do Exército à causa da libertação dos escravos.
Mais contundente foi o apelo que o Clube Militar dirigiu ao governo, em 1887, assinado por seu presidente, o então general Deodoro, solicitando que o Exército não fosse empregado na captura de escravos fugidos.
Os alunos da Escola foram ainda mais longe. Segundo alguns depoimentos, eles teriam desenvolvido ação semelhante à dos caifazes de Antônio Bento em São Paulo: furtavam escravos, escondiam-nos em suas repúblicas e os enviavam para o Norte.[ 7]
Os alunos da Escola foram ainda mais longe. Segundo alguns depoimentos, eles teriam desenvolvido ação semelhante à dos caifazes de Antônio Bento em São Paulo: furtavam escravos, escondiam-nos em suas repúblicas e os enviavam para o Norte.[ 7]
Entre os principais incentivadores do conflito estava  a mocidade da Escola Militar e agora também da Escola Superior de Guerra, criada em 1889 para abrigar os alunos dos dois últimos anos do curso da Praia Vermelha.
Veio de outro ex-aluno, contemporâneo e amigo de Euclides, Alberto Rangel, a definição da Escola como “uma academia em um quartel”. Os alunos referiam-se em geral a ela como Tabernáculo da Ciência, título que lembra o de Sorbonne usado para designar a moderna Escola Superior de Guerra. Suspeito que meu saudoso professor Francisco Iglésias se referiria às duas designações com um adjetivo que só dele ouvi: desfrutáveis.

Os terraplanistas do século 21

Extraído do artigo “Xadrez da ultradireita e o pensamento militar” sobre os intelectuais que fazem a cabeça de Alberto Heleno e Hamilton Mourão.
É por esses mares que singra o barco do general Coutinho.
De acordo com Costa Pinto, para o Gal. Coutinho os socialistas e comunistas (internacionais e nacionais) estariam infiltrados no discurso do politicamente correto:
1) nos partidos como FHC (vinculado ao fabianismo que teria como importantes representantes Soros, David Rockefeller, Bill Clinton, entre outros) e como o Lula (articulado com Fidel Castro organizados do Foro de São Paulo);
2) nas ONG´s;
3) nas escolas e Universidades;
4) nos meios de comunicação;
5) nas manifestações artísticas;
6) nos movimentos sociais (ambientalistas, movimento negro, LGBT, MST, etc..).
Nas palavras de Coutinho “os movimentos alternativos e de minorias são estimulados ou mesmo criados pelas organizações de esquerda revolucionária como componente auxiliar da luta de classes (aprofundamento das contradições internas) e como elemento ativo da ‘desconstrução’ da família tradicional e dos valores da civilização ocidental cristã”. ”
No plano internacional, além do apoio das ONGs, se valeriam da própria Organização das Nações Unidas (ONU) para favorecer regimes nacionais de esquerda e movimentos revolucionários em países do Terceiro Mundo.
É em cima dessa barafunda teórica, que o movimento alt-right, e seus sucedâneos tupiniquins, conseguem transmudar movimentos pacíficos, de defesa dos direitos humanos, em ameaças revolucionárias que precisam ser combatidas no plano cultural e com repressão política.

quarta-feira, 2 de outubro de 2019

Bob Fernandes, em vídeo-análise: Lava Jato quer soltar Lula, que decide ficar preso. Janot queria matar Gilmar, que libera Flávio 01



Do Canal do Analista Político Bob Fernandes:



Alfredo Saad, professor da Universidade Soas de Londres, discute, em vídeo, sobre o Brexit, populismo de direita e crescimento do neoliberalismo neofascista pelo mundo com a ajuda de Fake News



Do Canal da TV 247:


A hegemonia do patológico, por Alberto Luis Araújo Silva Filho, Cientista Político pela Universidade Federal do Piauí e pesquisador do Grupo de Estudos em Teoria Política Contemporânea (DOXA)




Enquanto a violência e a morte são celebradas, o beijo entre dois personagens de HQs choca, causa horror e desestabiliza as estruturas de normalidade vigentes. Os valores da fraternidade e da solidariedade se dissolvem em meio ao culto da violência, normalizado por decretos e portarias. Vivemos tempos de transformação em que dizer não a ciência está entrelaçado com o dizer não a existência.


Do site de Estudos e de Crítica Jurídica Justificando:



A hegemonia do patológico
Segunda-feira, 30 de setembro de 2019

A hegemonia do patológico


Arte: Gabriel Pedroza / Justificando

Por Alberto Luis Araújo Silva Filho

Enquanto a morte é celebrada, o beijo entre dois personagens de HQs choca, causa horror e desestabiliza as estruturas de normalidade vigentes. Os valores da fraternidade e da solidariedade se dissolvem em meio ao culto da violência, normalizado por decretos e portarias. Vivemos tempos de transformação em que dizer não a ciência está entrelaçado com o dizer não a existência.


Olavo de Carvalho, um dos próceres do movimento revolucionário às avessas que dirige o Brasil, prega abertamente que “nós, os cidadãos de bem” temos dois grandes inimigos: a imprensa e as universidades. Aqueles que professam as teorias da conspiração, o suposto conhecimento sem provas nem fontes, na verdade são os detentores da verdade. Quem fala na iminente dominação comunista do país e no plano secreto para dominar a população mundial por meio da distribuição de vacinas deve ter precedência sobre aqueles que realizam estudos, pesquisas, discussões e debates. Todos estão equivocados, de Harvard a USP, do IPEA a NASA, do Sul ao Norte. O que conta são os arquivos secretos, aquilo que ninguém consegue ver e aos quais poucos iluminados tiveram acesso. É a invisibilidade e, portanto, a fé, da qual às vezes deriva a loucura, que deve pautar a ação política e os negócios da coletividade. Cria-se uma realidade paralela com o único intuito de manter as hierarquias intocáveis.

Aquilo que deveria ser bem vindo, como a preservação do meio ambiente, torna-se ameaçador, aterrorizante. Institucionaliza-se um discurso no qual o cuidado com a natureza esconde intenções perversas. A necessidade de valorizar a vida e a dignidade humanas, independente da raça e/ou da condição social, vira uma manobra das organizações internacionais para implantar uma ditadura do lumpemproletariado. Falar de respeito à liberdade das mulheres e dos LGBTs torna-se magicamente um projeto insano de modificação em massa do sexo das crianças. A justiça social se converte então em caricatura. Os direitos fundamentais em pastiche. O amor ao próximo (fundamentado na tradição cristã) em piada. E como se não fosse possível uma margem de negociação, valores do liberalismo politico viram oficialmente valores comunistas e mencioná-los abre as portas da transição politico econômica de uma economia de mercado diretamente para o modelo cubano de sociedade.
Nesse sentido, a generalidade dos discursos progressistas dá vazão a paranoia e a esquizofrenia de amplos segmentos sociais que creem que o porrete construirá uma sociedade mais estável, coesa e orgânica. Tal catarse é justificada, financiada e promovida, como se fosse um conjunto de opiniões democráticas a respeito das políticas públicas. Nas rádios, nos jornais e nas redes sociais, acumulam-se os apologistas do ódio travestidos de bom mocismo. Suas ideias, bem como seu ideário, são incorporados e somados a outros fatores conquistam espaço e constituem uma subjetividade coletiva que ao afirmar o status quo na verdade se vê como denunciante do estado de coisas. Pois o estado de coisas – que prometia um horizonte de democracia e direitos sociais – foram eles, os esquerdistas, que o fizeram e “nós”, os merecedores do espaço e da história nacionais, desejamos modificar. A ira opera a tal ponto que o que era pra ser plano de governo revela-se plano de vingança.

A sociedade brasileira não se encontra mais no terreno da política. Política pressupõe, como bem coloca a cientista política belga Chantal Mouffe[1], considerar o oponente como um adversário e não como inimigo. Nesse momento, o estado é de guerra fria. Um lado visivelmente extremado ataca outro, muito moderado e que não consegue se articular. Com base nos discursos oficiais da Presidência da República, é possível fazer um diagnóstico claro: o problema fundamental da nação não são as iniquidades, o legado escravista, nem mesmo a corrupção (como é comum afirmar). O problema da nação são aqueles que gritam as mazelas. Mas nem é preciso gritar. Muitas vezes só é necessário existir. Existir como índio, existir como negro, existir como trans. O simples ato biológico de respirar e ter seu coração pulsando vira uma forma de resistência involuntária. Da negação da ciência e dos fatos inevitavelmente passamos a negação da vida. É o movimento natural dos anti-heróis verde-amarelos. 

O assecla-mor, desejoso de tornar-se um Bonaparte tupiniquim, leva som e fúria ao mundo que se assusta com tamanha brutalidade nas suas palavras e gestos. A agressividade, típica de uma masculinidade que não sabe lidar com as mudanças, permeia a falsa mitologia daquele que legitima o derramamento de sangue e a produção do sofrimento psíquico dos que lidam com um país de incertezas. Do sonho neodesenvolvimentista fomos transportados para uma réplica da distopia de Norfolk, cidadezinha futurista cuja criação é do escritor britânico Richard Littler[2]. Nela os direitos humanos podem ser sorteados ou mesmo comprados. Também nela a morte é celebrada e incentivada pela propaganda oficial. Os maus tratos as crianças e aos animais estão nela liberados. Coexistem classes de cidadãos e classes de pessoas que são não-pessoas. O horror não mais assusta, as evidências não mais comovem, o mal há muito se banalizou. É do caos e da destruição de elementos antes tidos como sadios que se constitui a vida mesma, el nuestro cotidiano. Não estamos muito distantes da negação da utopia. Na verdade vivemos no interior dela, tentando dar a mesma ares de normalidade. Talvez a forma seja diferente. Mas ao que tudo indica, da alimentação à economia, o conservadorismo[3] deixou todas as esferas da vida intoxicadas.


Alberto Luis Araújo Silva Filho é mestrando em Sociologia pela Universidade de Brasília. Cientista Político pela Universidade Federal do Piauí e pesquisador do Grupo de Estudos em Teoria Política Contemporânea (DOXA), vinculado ao Grupo de Pesquisas sobre Instituições e Políticas Públicas (CNPq).
Notas:
[1] Ver MOUFFE, Chantal. Sobre o Político. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2015.
[2] Para conhecer mais sobre a obra ficcional relativa a Scarfolk ver:https://scarfolk.blogspot.com/
[3] Tenho preferido me referir ao atual governo como conservador/neoconservador ao invés de fascista. Com isso me aproximo de perspectivas que veem similaridades no discurso da atual administração federal com o do Partido Republicano dos EUA pós anos 80 que passou a conjugar liberalismo econômico radical, reacionarismo moral assentado em bases sociais evangélicas e um Estado forte na repressão policial e na defesa externa, pacote que se apresenta no Brasil de maneira inédita e em um contexto de democracia fragilizada, assustando os analistas de esquerda que logo o veem como um fenômeno próximo ao hitlerismo. Entretanto, o discurso violento e o clima de censura fazem com que uma possível ruptura institucional seja factível e com isso leve o bolsonarismo a descambar para uma ditadura fascista aberta.