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quarta-feira, 2 de outubro de 2019

A hegemonia do patológico, por Alberto Luis Araújo Silva Filho, Cientista Político pela Universidade Federal do Piauí e pesquisador do Grupo de Estudos em Teoria Política Contemporânea (DOXA)




Enquanto a violência e a morte são celebradas, o beijo entre dois personagens de HQs choca, causa horror e desestabiliza as estruturas de normalidade vigentes. Os valores da fraternidade e da solidariedade se dissolvem em meio ao culto da violência, normalizado por decretos e portarias. Vivemos tempos de transformação em que dizer não a ciência está entrelaçado com o dizer não a existência.


Do site de Estudos e de Crítica Jurídica Justificando:



A hegemonia do patológico
Segunda-feira, 30 de setembro de 2019

A hegemonia do patológico


Arte: Gabriel Pedroza / Justificando

Por Alberto Luis Araújo Silva Filho

Enquanto a morte é celebrada, o beijo entre dois personagens de HQs choca, causa horror e desestabiliza as estruturas de normalidade vigentes. Os valores da fraternidade e da solidariedade se dissolvem em meio ao culto da violência, normalizado por decretos e portarias. Vivemos tempos de transformação em que dizer não a ciência está entrelaçado com o dizer não a existência.


Olavo de Carvalho, um dos próceres do movimento revolucionário às avessas que dirige o Brasil, prega abertamente que “nós, os cidadãos de bem” temos dois grandes inimigos: a imprensa e as universidades. Aqueles que professam as teorias da conspiração, o suposto conhecimento sem provas nem fontes, na verdade são os detentores da verdade. Quem fala na iminente dominação comunista do país e no plano secreto para dominar a população mundial por meio da distribuição de vacinas deve ter precedência sobre aqueles que realizam estudos, pesquisas, discussões e debates. Todos estão equivocados, de Harvard a USP, do IPEA a NASA, do Sul ao Norte. O que conta são os arquivos secretos, aquilo que ninguém consegue ver e aos quais poucos iluminados tiveram acesso. É a invisibilidade e, portanto, a fé, da qual às vezes deriva a loucura, que deve pautar a ação política e os negócios da coletividade. Cria-se uma realidade paralela com o único intuito de manter as hierarquias intocáveis.

Aquilo que deveria ser bem vindo, como a preservação do meio ambiente, torna-se ameaçador, aterrorizante. Institucionaliza-se um discurso no qual o cuidado com a natureza esconde intenções perversas. A necessidade de valorizar a vida e a dignidade humanas, independente da raça e/ou da condição social, vira uma manobra das organizações internacionais para implantar uma ditadura do lumpemproletariado. Falar de respeito à liberdade das mulheres e dos LGBTs torna-se magicamente um projeto insano de modificação em massa do sexo das crianças. A justiça social se converte então em caricatura. Os direitos fundamentais em pastiche. O amor ao próximo (fundamentado na tradição cristã) em piada. E como se não fosse possível uma margem de negociação, valores do liberalismo politico viram oficialmente valores comunistas e mencioná-los abre as portas da transição politico econômica de uma economia de mercado diretamente para o modelo cubano de sociedade.
Nesse sentido, a generalidade dos discursos progressistas dá vazão a paranoia e a esquizofrenia de amplos segmentos sociais que creem que o porrete construirá uma sociedade mais estável, coesa e orgânica. Tal catarse é justificada, financiada e promovida, como se fosse um conjunto de opiniões democráticas a respeito das políticas públicas. Nas rádios, nos jornais e nas redes sociais, acumulam-se os apologistas do ódio travestidos de bom mocismo. Suas ideias, bem como seu ideário, são incorporados e somados a outros fatores conquistam espaço e constituem uma subjetividade coletiva que ao afirmar o status quo na verdade se vê como denunciante do estado de coisas. Pois o estado de coisas – que prometia um horizonte de democracia e direitos sociais – foram eles, os esquerdistas, que o fizeram e “nós”, os merecedores do espaço e da história nacionais, desejamos modificar. A ira opera a tal ponto que o que era pra ser plano de governo revela-se plano de vingança.

A sociedade brasileira não se encontra mais no terreno da política. Política pressupõe, como bem coloca a cientista política belga Chantal Mouffe[1], considerar o oponente como um adversário e não como inimigo. Nesse momento, o estado é de guerra fria. Um lado visivelmente extremado ataca outro, muito moderado e que não consegue se articular. Com base nos discursos oficiais da Presidência da República, é possível fazer um diagnóstico claro: o problema fundamental da nação não são as iniquidades, o legado escravista, nem mesmo a corrupção (como é comum afirmar). O problema da nação são aqueles que gritam as mazelas. Mas nem é preciso gritar. Muitas vezes só é necessário existir. Existir como índio, existir como negro, existir como trans. O simples ato biológico de respirar e ter seu coração pulsando vira uma forma de resistência involuntária. Da negação da ciência e dos fatos inevitavelmente passamos a negação da vida. É o movimento natural dos anti-heróis verde-amarelos. 

O assecla-mor, desejoso de tornar-se um Bonaparte tupiniquim, leva som e fúria ao mundo que se assusta com tamanha brutalidade nas suas palavras e gestos. A agressividade, típica de uma masculinidade que não sabe lidar com as mudanças, permeia a falsa mitologia daquele que legitima o derramamento de sangue e a produção do sofrimento psíquico dos que lidam com um país de incertezas. Do sonho neodesenvolvimentista fomos transportados para uma réplica da distopia de Norfolk, cidadezinha futurista cuja criação é do escritor britânico Richard Littler[2]. Nela os direitos humanos podem ser sorteados ou mesmo comprados. Também nela a morte é celebrada e incentivada pela propaganda oficial. Os maus tratos as crianças e aos animais estão nela liberados. Coexistem classes de cidadãos e classes de pessoas que são não-pessoas. O horror não mais assusta, as evidências não mais comovem, o mal há muito se banalizou. É do caos e da destruição de elementos antes tidos como sadios que se constitui a vida mesma, el nuestro cotidiano. Não estamos muito distantes da negação da utopia. Na verdade vivemos no interior dela, tentando dar a mesma ares de normalidade. Talvez a forma seja diferente. Mas ao que tudo indica, da alimentação à economia, o conservadorismo[3] deixou todas as esferas da vida intoxicadas.


Alberto Luis Araújo Silva Filho é mestrando em Sociologia pela Universidade de Brasília. Cientista Político pela Universidade Federal do Piauí e pesquisador do Grupo de Estudos em Teoria Política Contemporânea (DOXA), vinculado ao Grupo de Pesquisas sobre Instituições e Políticas Públicas (CNPq).
Notas:
[1] Ver MOUFFE, Chantal. Sobre o Político. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2015.
[2] Para conhecer mais sobre a obra ficcional relativa a Scarfolk ver:https://scarfolk.blogspot.com/
[3] Tenho preferido me referir ao atual governo como conservador/neoconservador ao invés de fascista. Com isso me aproximo de perspectivas que veem similaridades no discurso da atual administração federal com o do Partido Republicano dos EUA pós anos 80 que passou a conjugar liberalismo econômico radical, reacionarismo moral assentado em bases sociais evangélicas e um Estado forte na repressão policial e na defesa externa, pacote que se apresenta no Brasil de maneira inédita e em um contexto de democracia fragilizada, assustando os analistas de esquerda que logo o veem como um fenômeno próximo ao hitlerismo. Entretanto, o discurso violento e o clima de censura fazem com que uma possível ruptura institucional seja factível e com isso leve o bolsonarismo a descambar para uma ditadura fascista aberta.

segunda-feira, 19 de novembro de 2018

Luis Nassif explica porque a "grande" imprensa perdeu para as fakenews




A mídia ganhou nos últimos anos um poder de manipulação que consequentemente matou sua capacidade de mediação



Jornal GGNO País tem assistido a uma disputa de narrativas que é uma das coisas mais nonsense de sua história. Veja o episódio da saída dos médicos cubanos.
Bolsonaro queria mudar pagamento ao governo cubano e impôr a revalidação do diploma, um conjunto de exigências que acabaria com o programa Mais Médicos.
 
Hoje, com Cuba anunciando sua retirada da parceria, Bolsonaro diz a seus seguidores que libertou os médicos da escravidão e os devolveu a seus familiares. Mas como deputado, Bolsonaro tentou proibir, por exemplo, a vinda dessas mesmas famílias ao Brasil.
 
É um caso que mostra que estamos lidando com um mentiroso clássico, que foi eleito presidente da República.
 
De um lado teríamos o pessoal do Bolsonaro dizendo que os cubanos foram libertados e, de outro, aqueles que dizem que a saída dos cubanos, com todos os reflexos sobre 600 municípios que ficarão sem médico, é culpa das declarações do presidente eleito.
 
Quem que faz a mediação da opinião pública? Deveria ser a mídia, os chamados jornais da grande mídia, aqueles que definem a opinião. Mas você não tem mais essa imprensa aqui.
 
Desde o impeachment Collor há um jornalismo de guerra que consiste em sempre dar as versões que interessavam, que dão manchete mesmo em cima de avaliações erradas e sensacionalistas. O importante é ter volume de leitura.
 
De 2005 para cá, quando Roberto Civita montou a cartelização da mídia e implementou defitivamente o jornalismo de guerra, qualquer história de mediação veio por água abaixo.
 
No jornalismo de guerra, o que importa é ganhar a narrativa considerando alguns interesses, como o do mercado.
 
Há inúmeros exemplos de narrativas erradas que ganham a opinião pública nos últimos anos. A história que Bolsonaro repete, de que há um número gigante de estatais e por isso tudo deve ser privatizado, é uma delas. Que a Petrobras foi quebrada pela corrupção, é outra narrativa manipulada. 
 
O que levou a uma redução de valor da Petrobras foi a queda do preço do barril de petróleo no ambiente internacional. Os ajustes contábeis decorrentes desse fato foram todos tratados pela imprensa meramente como valor da corrupção.
 
Há décadas, diariamente, a mídia viciou o organismo da opinião pública em toda sorte de manipulação. E soma-se a isso a arrogância que acompanhou a imprensa desde o impeachment do Collor, como se ela fosse o poder maior. Tudo isso matou a capacidade de mediação da mídia. 
 
Então, agora, quando chega um novo governo com um chanceler que fala os absurdos que fala, com os filhos do presidente e outros membros do núcleo duro moldando discursos com base numa visão religiosa fundamentalista, sem conhecimento técnico e científico sobre vários assuntos, prevalecem as mentiras deslavadas, como essa do Mais Médicos, porque a mídia já não consegue fazer a mediação.
 
A mídia ganhou nos últimos anos um poder de manipulação que consequentemente matou sua capacidade de mediação.
 
A queda na qualidade jornalística comprometeu a  informação, que é fundamental dentro de um ambiente democrático e de mercado. Através da informação é que se forma a opinião, e através da opinião você forma os pactos jurídicos, políticos, constitucionais, e dali derivam as leis.
 
O que aconteceu foi que o desmonte da credibilidade da informação se deu ainda no período de predomínio da mídia, e agora as redes sociais bagunçam mais ainda a guerra de narrativas. Não adianta mais a imprensa dizer que a culpa dos Mais Médicos é do Bolsonaro porque o pessoal vai acreditar no que ele diz nas redes.
 
O grande problema, acima de tudo, são os filtros, a falta de canais de controle. Trump tem seus canais de controle dentro do próprio governo. É o que está impedindo que as maluquices dele tenham consequencias maiores. Lá, por trás de tudo, você tem uma mídia de opinião que faz a cabeça dos técnicos que seguram os abusos. Fazem a cabeça gerando debate na imprensa a partir de várias opiniões técnicas. Isso não tem no Brasil. O que a mídia criou dentro das corporações públicas, nesse período, foi uma militância antipetista que se sobrepôs ao debate técnico e aos mecanismos de controle.
 
Não importa mais se a consequência é que vamos deixar milhões sem médicos. O que importa é que vamos tirar esses comunistas daqui. Vence o discurso que não se submeteu à mediação.
 
O padrão de mediação da mídia, em relação a qualquer governo, deveria ser o de elogiar o que tem de ser elogiado, e criticar o que tem de ser criticado, para que o leitor entenda o peso. Mas esse padrão não foi estabelecido.
 
Hoje temos um País em que todas as barbaridades, no plano das discussões das ideias, ganham força. Tudo vira guerra de narrativas.
 
Infelizmente a imprensa tenta agora de algum modo recuperar a credibilidade perdida, mas foram muitos anos de demonstração de poder, de usar a influência midiática para promover badernas e derrubar presidentes, e hoje o mercado de opinião está a mercê de qualquer cultivador de teorias de disco voador.
 
Assista o vídeo comentário de Luis Nassif, na íntegra, abaixo.