sexta-feira, 16 de janeiro de 2026

Doutrina Donroe ou Frankenstein neoliberal? Por Claudia Henschel de Lima e Antonio José Alves Junior

 

Exame da nova Doutrina de Segurança Nacional dos EUA. Crítica às elites, ao globalismo e às instituições internacionais “usurpadoras” não esconde o essencial: a aposta na força, ideia de que não há alternativas e crença na primazia dos mercados acima de tudo e de todos.



Título original: A Doutrina Donroe e o desenho de uma nova ordem global neoliberal: America First

Estamos longe de ser especialistas em Venezuela e em relações internacionais. Mas os acontecimentos que atravessaram a América Latina — porque é de América Latina que se trata neste momento em que assistimos ao sequestro do presidente Nicolás Maduro — no quadro da governamentalidade Trump 2.0, nos colocaram, mais uma vez, diante da relação entre neoliberalismo e crise; e de uma pergunta: ainda é neoliberalismo? O ataque militar Trump 2.0 à Venezuela é orientado pelo espectro do neoliberalismo, classicamente entendido como globalismo?

A leitura do documento National Security Strategyof the United States of America — que contém o Trump Corollary to the Monroe Doctrine, ou simplesmente, Doutrina Donroe,e que fora publicado em novembro de 2025 — parece indicar a complexidade dessas perguntas, que não podem ser respondidas por meio de uma alternativa “sim ou não”. É um documento que reestrutura a ordem internacional, desenhada a partir de 1945, no pós-Guerra, para a centralização dos Estados Unidos na geopolítica, como nação forte e respeitada, que garante a paz em todo o mundo — o America First (“America is strong and respected again-and because of that, we are making peace all over the world” — p.2 / “Os Estados Unidos estão fortes e novamente respeitados — e, por causa disso, estamos promovendo a paz em todo o mundo”).

Este ensaio não propõe uma genealogia que responderia de forma definitiva à complexidade dos dias atuais; ele visa apenas oferecer uma primeira incursão no que pode se configurar como uma escalada do neoliberalismo com Trump 2.0. E essa escalada se manifesta pela virulência do niilismo do America First: típico de uma torção discursiva imanente ao neoliberalismo globalista que funde liberdade e autoritarismo, que rejeita os limites institucionais e a autodeterminação dos povos em nome da centralização dos Estados Unidos na geopolítica mundial. Ignora, assim, a relevância da Carta da ONU na garantia da estabilidade e equilíbrio de poder entre os países. Essa torção, que faz com que o neoliberalismo se funde ao autoritarismo, foi o que Wendy Brown denominou como o Frankenstein do Neoliberalismo.

O caso da Venezuela se encaixa nessa virulência niilista. Sabemos que a intervenção dos Estados Unidos na região é conhecida, desde 2002, com a aprovação da tentativa de golpe de Estado contra o então presidente Hugo Chávez.

De lá para cá, a Venezuela vem sendo posicionada como ameaça à segurança nacional e à política externa dos Estados Unidos. Em Trump 2.0, testemunhamos a escalada desse niilismo, com a rejeição do artigo 2 da Carta da ONU e a aplicação do Peace Through Strength desde junho de 2025: a redução de Nicolás Maduro, de presidente da Venezuela a narcoterrorista internacional, chefe do Cartel de Los Soles, ameaçador da segurança americana, foragido e procurado pela justiça americana com recompensa de 25 milhões de dólares pela captura; e a ação da força militar na Venezuela, de sequestro e prisão de Nicolás Maduro. É essa centralização dos Estados Unidos na geopolítica que justifica também a ameaça de anexação da Groenlândia para garantir a defesa nacional e a invasão à Colômbia com uma nova redução no horizonte: a de Gustavo Petro, presidente da Colômbia, a um homem doente, que gosta de produzir cocaína e vendê-la aos Estados Unidos.

Para construir essa primeira incursão no que pode se configurar como uma escalada do neoliberalismo com Trump 2.0., com a virulência do niilismo do America First, propomos destacar os eixos estruturantes da Doutrina Donroe — ela substitui a Doutrina Monroe (“The Monroe Doctrine is a big deal, but we’ve superseded it by a lot, by a real lot. They now call it the Donroe document”/ “A Doutrina Monroe é algo muito importante, mas nós a superamos — e muito, muito mesmo. Agora eles chamam isso de Documento Donroe” — declaração de Donald Trump em 3 de janeiro de 2026): uma visão ampliada, integrada e centralizada de poder, que articula segurança, liderança tecnológica, economia, cultura, moral e identidade nacional. E que entendemos estar organizada em oito eixos estruturantes:

  1. Redefinição do conceito de estratégia nacional.
  2. Centralidade da soberania, do nacionalismo e do America First.
  3. Segurança nacional ampliada: fronteiras, economia e cultura.
  4. Economia no fundamento da segurança nacional.
  5. Peace Through Strength e predisposição ao não-intervencionismo.
  6. Concorrência estratégica com a China, Rússia e Irã.
  7. Organização regional da estratégia global.
  8. Crítica às elites e às ideologias contemporâneas.

I. Os eixos estruturantes da Doutrina Donroe

O primeiro eixo do documento se refere à redefinição do conceito de estratégia nacional à luz da crítica direcionada à política do pós-Guerra Fria — caracterizada como difusa, idealista e divorciada dos interesses nacionais concretos: ou seja, uma lista de desejos, platitudes vagas, que não definem clara e objetivamente o que os Estados Unidos querem (p.5). Essa redefinição está alicerçada em três perguntas: 1. O que os Estados Unidos deveriam querer?; 2. Quais são os meios disponíveis para alcançá-lo?; 3. Como podemos conectar fins e meios em uma estratégia de segurança nacional viável?

Essas perguntas mostram como a concepção de estratégia nacional deve se fundamentar em uma posição clara a respeito do que os Estados Unidos querem para si e de uma articulação precisa entre fins e meios, baseada em prioridades explícitas e na limitação do escopo da ação externa. Tudo em nome do America First e não da autodeterminação dos povos, defendida pela Carta da ONU.

O que nos leva diretamente ao segundo eixo estruturante da Doutrina Donroe: centralidade da soberania, do nacionalismo — pilares do America First.

National Security Strategyof the United States of America reafirma a soberania nacional como princípio organizador da política externa e de segurança, rejeitando o multilateralismo e as agendas globais (ambos considerados ameaças à autonomia dos Estados). Sendo pilares do America First, a defesa da soberania e do nacionalismo criam um muro de proteção contra tudo o que representa uma ameaça existencial aos Estados Unidos, visando: garantir sua continuidade como república soberana e independente; proteger a população, o território, a propriedade intelectual, a economia e o american way of life (por exemplo, a família tradicional americana) de ameaças internacionais/globalistasenfrentar as ameaças militares e não militares (migrações em massa, espionagem, narcotráfico, influência estrangeira, propaganda).

O que nos leva, diretamente, ao terceiro eixo estruturante da Doutrina Donroe — a segurança nacional ampliada: fronteiras, economia e cultura. É importante destacar a centralidade tecnológica para as forças armadas, tornando-a a mais avançada do mundo, com vistas à dissuasão de conflitos e a vencer guerras de forma rápida e decisiva. Essa centralidade tecnológica se manifesta na superioridade nuclear e no desenvolvimento de sistemas de defesa antimísseis (incluindo o Golden Dome). Mas a defesa da soberania e do nacionalismo compõe uma compreensão ampliada do que vem a ser a segurança nacional, pois integra o enfrentamento às ameaças militares e não militares externas à proteção da economia, do território e do american way of life. Para isso, a segurança nacional ampliada deve cobrir: o encerramento da era das migrações em massa; o controle total das fronteiras e das redes de transporte; a defesa de liberdades fundamentais (especialmente, a liberdade de expressão e de religião) em oposição a agendas, definidas no documento, como elitistas ou tecnocráticas (principalmente, o multiculturalismo, as políticas identitárias e de diversidade e a agenda climática e regulatória).

No escopo da segurança nacional ampliada, chegamos ao quarto eixo estruturante da Doutrina Donroe: a economia no fundamento da segurança nacional.

O documento sustenta que a segurança econômica é a segurança nacional. Para isso, é fundamental que a política econômica seja orientada pela lógica da segurança nacional e se concentre: 1) na garantia de economia forte com uma política comercial baseada na reciprocidade, tarifas e combate a práticas “predatórias”; 2) na proteção das cadeias produtivas e minerais críticos; 3) no fortalecimento da indústria nacional, especialmente a vinculada à defesa; 4) na edificação do setor energético como ativo geopolítico (energy dominance), inseparável da rejeição à agenda climática global; 5) na associação direta entre prosperidade econômica interna, poder global e capacidade militar.

Essa associação direta nos conduz ao quinto eixo: Peace Through Strength e predisposição ao não-intervencionismo.Ele não se reduz a um slogan militar; mas se constitui como um princípio organizador da política externa americana, em que a paz deriva da assimetria de poder claramente reconhecida, e não da confiança em normas e instituições. Neste sentido, o eixo situa a força como fundamento da dissuasão, ou seja, os atores estatais ou não estatais, suficientemente dissuadidos, não ameaçam os interesses americanos. Para isso, a Doutrina Donroe defende o forte investimento militar. Os princípios incluem: a superioridade militar articulada à superioridade econômica, tecnológica, nuclear e de propriedade intelectual; a capacidade de solucionar conflitos com rapidez,evitando sua extensão por tempo indeterminado; realinhamento da diplomacia para a força como condição para a paz; ênfase em burden-sharing, ou seja, os aliados devem assumir maior responsabilidade por sua própria defesa; articulação direta entre força externa e coesão interna por meio de valores como meritocracia e confiança nacional, que garantem a unidade dos Estados Unidos frente a comunidade internacional.

Peace Through Strengthnos conduz ao sexto eixo: concorrência econômica, tecnológica e infraestrutural com China, Rússia e Irã (que fornece armas e drones para países como Venezuela, que ameaçam a segurança do território continental dos EUA). O documento destaca, ainda, a China como principal concorrente no plano econômico, tecnológico e de inovação. O que nos coloca no sétimo eixo: a organização regional da estratégia global.

Esse eixo, na verdade, apresenta a reestruturação da ordem global a partir da centralidade geopolítica dos Estados Unidos — com capilaridade na América Latina. Segundo o documento, após anos de negligência, os Estados Unidos reafirmarão e farão cumprir a Doutrina Monroe para restaurar a preeminência americana no Hemisfério Ocidental, e para proteger os Estados Unidos e seu acesso a geografias-chave em toda a região. Este “Corolário Trump” à Doutrina Monroe é uma restauração do poder e da centralidade das prioridades americanas em termos de segurança ampliada. Essa organização regional da estratégia global exige uma avaliação crítica das elites e ideologias contemporâneas — o oitavo eixo da Doutrina Donroe.

Trata-se de um dos eixos estruturantes da Doutrina Donroe. O documento diagnostica que as elites intelectuais, desde o fim da Guerra Fria, têm ficado aquém do esperado, com listas intermináveis ​​de desejos ou estados finais almejados; não definiram claramente o que os Estados Unidos queriam; em vez disso, proferiram platitudes vagas. Elites econômicas, políticas e intelectuais teriam produzido um desvio estratégico profundo ao calcularem muito mal a disposição dos Estados Unidos em arcar para sempre com fardos globais, em relação aos quais o povo americano não tinha sinergia alguma. O documento afirma que tais elites superestimaram a capacidade econômica e política dos Estados Unidos de manter simultaneamente um Estado administrativo expansivo e um complexo militar-diplomático global, além de terem aceitado passivamente a transferência de encargos de defesa para os EUA por parte de aliados. Associada a essa avaliação crítica, o documento situa ainda a rejeição das ideologias contemporâneas. Em primeiro lugar, a ideologia da diversidade, equidade e inclusão (DEI) — considerada tóxica aos valores dos Estados Unidos — defende a reinstauração de uma cultura do mérito e da competência. Em segundo lugar, a ideologia do transnacionalismo, que desloca o centro decisório para além do Estado-nação e enfraquece a coragem, a força de vontade e o patriotismo. Essa crítica às ideologias contemporâneas converge para uma leitura mais ampla de declínio moral, cultural e político, em que a perda de confiança nas tradições nacionais, na história e na identidade civilizacional teria enfraquecido tanto a política interna quanto a projeção internacional dos Estados Unidos.

A primeira impressão, após a exposição dos oito eixos da Doutrina Donroe, é que configuram uma escalada do neoliberalismo, fundindo liberdade e autoritarismo, rejeitando os limites institucionais e a autodeterminação dos povos, em nome da centralidade dos Estados Unidos na geopolítica mundial. Isso é feito por meio do exercício unilateral de poder, legitimado por uma gramática moral esvaziada de limites normativos — fusão essa denominada por Wendy Brown de Frankenstein do Neoliberalismo. O traço distintivo da Doutrina Donroe reside nessa fusão niilista da liberdade e do autoritarismo, que corrói a própria ideia de ordem internacional, substituindo-a por uma geopolítica na qual a ausência de limites institucionais deixa de ser exceção e se converte em princípio organizador da política global no século XXI.

Reinaldo Azevedo: A hipocrisia dos bolsonaristas sobre o “superflat” do “Mito” na Papuda (que o aguardou)

 

Da BandNews FM:




Do Canadá Diário: A IMPRENSA ESCONDE: Caos nas Ruas dos EUA! ICE ATACA INOCENTES e espalha pânico nos EUA! 😱 🇺🇸

 

Do Canal Canadá Diário:

    No vídeo de hoje vamos reagir e analisar um caso chocante que viralizou recentemente: agentes da Patrulha de Fronteira dos EUA quebrando a janela de um carro e arrastando um homem em Minnesota, em plena luz do dia, durante uma operação federal de fiscalização de imigração. Este episódio revela de forma clara a militarização das ruas americanas, o uso excessivo de força por agentes federais e como políticas autoritárias têm impactado diretamente a vida de cidadãos inocentes.


    Mostramos imagens inéditas e comentamos o contexto político que levou a esses episódios, incluindo operações recentes do ICE em Minneapolis e St. Paul, protestos de moradores e denúncias de violações de direitos civis. O vídeo também explica como o clima de medo e tensão nas cidades americanas é resultado de políticas de extrema direita, com uso de força desproporcional, intimidação e repressão contra pessoas comuns.

    Além de reagir ao vídeo viral, apresentamos notícias recentes relacionadas, como relatos de motoristas abordados de forma agressiva, operações de fiscalização em larga escala e ações judiciais locais contra abusos de autoridades federais. Analisamos como essas práticas afetam a população, a confiança nas instituições e a democracia nos Estados Unidos.

    Se você quer entender o que realmente está acontecendo nas ruas americanas, como a política autoritária se manifesta no dia a dia e qual é o impacto disso na vida de cidadãos comuns, este vídeo é essencial. Assista até o final para uma análise detalhada, com informações verificadas, fatos recentes e comentários críticos sobre a política e a sociedade americana.
    


BOZO ENFIM NA PAPUDA: BUSCOU SEU SONHO, PROFETIZOU E CONSEGUIU, UM EXEMPLO DE DETERMINAÇÃO!

 

Do Canal Desmascarando:




quinta-feira, 15 de janeiro de 2026

Do pretenso Destino Manifesto ao explícito imperialismo da Doutrina Donroe, por André Luiz V. Neves

 

Análise Histórica da expansão Territorial, projeção de Poder e a reconfiguração Contemporânea da Doutrina Monroe

Do Jornal GGN:

Do Destino Manifesto à Doutrina Donroe, por André Luiz V. Neves

    Reprodução: Casa Branca

Nota de Apresentação

A análise que se segue não é apenas uma recuperação histórica, mas um diagnóstico de urgência sobre a integridade soberana da América do Sul. Ao identificar a transição da Doutrina Monroe para o que o autor denomina “Doutrina Donroe”, André Luiz Varella Neves oferece o crivo necessário para compreendermos o sequestro de Nicolás Maduro não como um fato isolado, mas como o esgotamento de uma diplomacia de fachada em favor de um pragmatismo extrativista. Minha intermediação aqui cumpre o papel de curadoria crítica, atestando a relevância deste pensamento para o debate público brasileiro, especialmente no que tange aos riscos de interferências em nossos próprios processos eleitorais.
Thiago Gama é Doutorando em História Comparada pela UFRJ  Curador e Intelectual Mediador do texto abaixo.

Por André Luiz Varella Neves

Do Destino Manifesto à Doutrina Donroe: Dois Séculos de Hegemonia Americana na América Latina

Análise Histórica da expansão Territorial, projeção de Poder e a reconfiguração Contemporânea da Doutrina Monroe

Introdução.

Na madrugada de 3 de fevereiro de 2026, uma operação militar sem precedentes na América do Sul redefiniu as regras do jogo geopolítico hemisférico. O ataque norte-americano a Caracas, resultando no sequestro do presidente venezuelano Nicolás Maduro e de sua esposa Cília Flores para julgamento em solo americano, não foi um evento isolado nem uma anomalia histórica. Ao contrário, representou a manifestação mais explícita e brutal de uma lógica geopolítica que atravessa dois séculos de relações interamericanas.

Esta intervenção violou frontalmente o princípio fundamental do direito internacional consagrado na Carta das Nações Unidas — a proibição do uso da força contra a integridade territorial ou independência política de qualquer Estado. No entanto, para compreender seu verdadeiro significado, é necessário situá-la dentro de uma trajetória histórica que começa com a formação dos Estados Unidos como nação e evolui através de doutrinas, guerras e reinterpretações estratégicas que sempre enxergaram a América Latina como área de influência exclusiva.

O questionamento que emerge deste evento dramático é: afinal, neste primeiro quarto do Século XXI estaremos diante de  um Neo-Monroísmo pragmático? Para respondermos esta pergunta, exige que percorramos o caminho que vai da expansão continental do século XIX à construção do Canal do Panamá, da proclamação da Doutrina Monroe ao Corolário Roosevelt, e finalmente à emergência do que analistas contemporâneos denominam “Doutrina Donroe”.

Este texto traça essa trajetória, demonstrando como a intervenção de 2026 é menos uma ruptura do que uma atualização particularmente explícita de princípios que sempre orientaram a política externa norte-americana para a região.

  1. A Construção de uma Nação Continental (1800-1850).

1.1 O Contexto Pós-Independência e a Busca por Consolidação Territorial

Após a consolidação da União e a estabilização do regime político, os Estados Unidos voltaram-se para um projeto ambicioso: a expansão territorial que transformaria uma jovem república atlântica em uma potência continental. O período entre 1800 e 1850 testemunhou uma das expansões territoriais mais rápidas e abrangentes da história moderna.

O processo começou em 1803 com a compra da Louisiana — uma negociação com a França napoleônica que dobrou o território nacional por 15 milhões de dólares. Em 1819, a aquisição da Flórida da Espanha consolidou o controle sobre a península estratégica. Mas foi na década de 1840 que a expansão atingiu seu ritmo mais agressivo. Em 1846, o Tratado do Oregon estabeleceu o paralelo 49° como fronteira com os territórios britânicos, garantindo o acesso ao Pacífico.

O evento mais transformador, porém, foi a Guerra Mexicano-Americana (1846-1848). Desencadeada por disputas fronteiriças após a anexação do Texas em 1845, o conflito terminou com a esmagadora vitória norte-americana. O Tratado de Guadalupe-Hidalgo forçou o México a ceder aproximadamente 55% de seu território — os atuais Estados da Califórnia, Novo México, Arizona, Nevada, Utah, e partes do Colorado e Wyoming. Em 1867, a compra do Alasca da Rússia por 7,2 milhões de dólares completaria a expansão continental.

    Fonte : U.S. Geological Survey

1.2 A Dimensão Demográfica e Econômica da Expansão.

Em apenas cinquenta anos, os Estados Unidos adquiriram 2,3 milhões de milhas quadradas, aumentando seu território em dez vezes. Essa expansão não foi apenas geográfica, mas também demográfica e econômica. A população cresceu de 5,3 milhões em 1800 para 23 milhões em 1850, enquanto a economia se transformava rapidamente de agrária para industrial.

O movimento para oeste teve primeiro os exploradores e caçadores, depois os missionários e comerciantes, seguidos pelos agricultores e finalmente pelos interesses comerciais e industriais. A construção de ferrovias, particularmente a Primeira Ferrovia Transcontinental concluída em 1869, acelerou a integração econômica dos novos territórios.

Esta expansão teve custos humanos devastadores para as populações nativas. A política de remoção forçada, culminando no infame “Trail of Tears” que deslocou milhares de cherokee de suas terras ancestrais, foi justificada pela necessidade econômica. A ideia de “terra vazia” (terra nullius) ignorava deliberadamente a presença de centenas de nações indígenas com suas próprias culturas, sistemas políticos e reivindicações territoriais.

1.3 O Destino Manifesto: A Ideologia da Expansão.

A expansão territorial necessitava de uma justificativa ideológica poderosa, e essa foi fornecida pela doutrina do Destino Manifesto. Cunhado pela primeira vez pelo jornalista John L. O’Sullivan em 1845, o termo encapsulava a crença de que os Estados Unidos tinham uma missão divina para expandir-se por todo o continente, levando consigo os valores da democracia, liberdade individual e civilização cristã.

Destino Manifesto operava em múltiplos níveis. Religiosamente, apresentava a expansão como cumprimento de um plano providencial. Racialmente, baseava-se em teorias de superioridade anglo-saxônica que justificavam a dominação sobre mexicanos e povos indígenas. Politicamente, associou a expansão territorial à difusão dos valores republicanos.

Esta doutrina foi respaldada pela “Tese da Fronteira” do historiador Frederick Jackson Turner, apresentada em 1893. Turner argumentava que a existência de uma fronteira em constante movimento para oeste havia sido o fator fundamental na formação do caráter nacional americano — individualista, democrático, inovador e intrinsecamente expansionista. Quando o censo de 1890 declarou oficialmente o fechamento da fronteira continental, uma questão crucial emergiu: para onde direcionar essa energia expansionista que havia se tornado parte integral da identidade nacional?

 2 –  A Doutrina Monroe.

2.1 O Contexto Hemisférico de 1823.

A proclamação da Doutrina Monroe em 2 de dezembro de 1823 ocorreu em um momento de transformação geopolítica. As antigas colônias ibéricas na América Latina travavam suas guerras de independência (1808-1826), inspiradas pelas revoluções Americana e Francesa. Enquanto isso, as potências europeias da Santa Aliança — Rússia, Prússia, Áustria e França — consideravam intervir para restaurar o domínio espanhol ou estabelecer novas colônias.

A posição dos Estados Unidos era ambivalente. Por um lado, simpatizavam com os movimentos independentistas que espelhavam sua própria experiência revolucionária. Por outro, temiam que a instabilidade regional pudesse atrair intervenção europeia que ameaçasse sua segurança. A solução encontrada por Monroe foi estabelecer dois princípios fundamentais que moldariam a política externa dos Estados Unidos por dois séculos.

  1. O princípio da não-colonização que declarava que os continentes americanos… não estão mais abertos à colonização europeia.
  2. O princípio da não-intervenção que alertava que qualquer tentativa da Europa de estender seu sistema político às Américas seria considerada uma ameaça a paz e a segurança dos Estados Unidos.

Na sua essência original, a doutrina era defensiva e isolacionista. Os Estados Unidos, ainda uma nação jovem com recursos militares limitados, não tinham capacidade — nem inicialmente intenção — de impor sua vontade sobre o resto do hemisfério. Curiosamente, a viabilidade da doutrina dependia do apoio tácito da Royal Navy, que também tinha interesse em manter a América Latina livre de monopólios coloniais para garantir mercados abertos ao seu comércio.

2.2 Protetorado sem Consentimento.

A contradição no cerne da Doutrina Monroe residia em seu caráter unilateral. Monroe declarou-se protetor das nações latino-americanas sem consultá-las, sem pedir sua permissão e sem estabelecer mecanismos de decisão conjunta. Esta conduta estabeleceu um padrão que marcaria as relações interamericanas pelos séculos seguintes: a ideia de que os Estados Unidos sabiam o que era melhor para seus “vizinhos” do sul.

Esta atitude refletia não apenas diferenças de poder, mas também profundas assimetrias culturais e raciais. A visão predominante em Washington via as repúblicas latino-americanas como politicamente instáveis, economicamente atrasadas e racialmente inferiores — portanto, necessitadas de orientação e proteção.

Por décadas após sua proclamação, a Doutrina Monroe permaneceu mais como princípio retórico do que como política ativa. Isso mudaria radicalmente com a virada do século XX, quando os Estados Unidos emergiram como potência industrial e militar capaz de fazer cumprir, pela força se necessário, os princípios que Monroe havia apenas declarado.

 3: A Virada Imperial: Guerra Hispano-Americana e a Emergência como Potência Global (1898).

3.1 O Contexto do Final do Século XIX

O final do século XIX encontrou os Estados Unidos em uma posição paradoxal. Economicamente, haviam superado o Reino Unido como a maior economia industrial do mundo. Sua produção de aço, carvão e manufaturas superava a de qualquer país europeu. Militarmente, porém, permaneciam uma potência essencialmente continental, com capacidade limitada de projeção de poder além de suas costas.

Esta discrepância entre poder econômico e capacidade militar gerou um debate intenso sobre o papel dos Estados Unidos no mundo. De um lado, estavam os isolacionistas que argumentavam que o país deveria focar no desenvolvimento interno. Do outro, expansionistas como o almirante Alfred Thayer Mahan, cuja obra “A Influência do Poder Naval na História” (1890) defendia que o futuro pertencia às potências que controlassem os mares e estabelecessem bases estratégicas globais.

3.2 A Guerra Hispano-Americana: Causas e Consequências

O ponto de virada foi a Guerra Hispano-Americana de 1898. O conflito teve origem na luta cubana pela independência da Espanha, mas foi precipitado pelo misterioso naufrágio do navio de guerra USS Maine no porto de Havana em 15 de fevereiro de 1898. A imprensa sensacionalista americana (na prática conhecida como “yellow journalism”) imediatamente atribuiu o desastre a sabotagem espanhola, criando um clamor público por guerra.

A guerra propriamente dita foi breve — durou apenas dez semanas — e unilateral. A esquadra americana destruiu a frota espanhola nas Filipinas (Batalha da Baía de Manila) e em Cuba (Batalha de Santiago de Cuba). O Tratado de Paris, assinado em 10 de dezembro de 1898, estabeleceu os termos da rendição espanhola:

  • Cuba: Tornou-se protetorado dos Estados Unidos status formalizado pela Emenda Platt de 1901, que dava aos EUA o direito de intervir nos assuntos cubanos.
  • Porto Rico, Guam e Filipinas: Foram cedidos aos Estados Unidos como territórios
  • Havaí: Anexado durante o conflito (Resolução Newlands de 1898)

3.3 Significado Geopolítico da Guerra

A Guerra Hispano-Americana representou múltiplas transformações simultâneas, como segue: Primeiro, marcou a transição dos Estados Unidos de potência continental para potência imperial global. Pela primeira vez, adquiriam territórios ultramarinos habitados por populações não anglo-saxãs que não seriam integradas como estados da União. Segundo, estabeleceu os Estados Unidos como potência naval com capacidade de projeção global. A vitória demonstrou a eficácia das teorias de Mahan sobre poder naval. Terceiro, criou uma infraestrutura imperial no Pacífico e Caribe que exigiria proteção e manutenção, levando logicamente a intervenções futuras. Quarto, estabeleceu um padrão de justificativa ideológica: a guerra foi vendida ao público americano não como conquista imperial, mas como missão humanitária para “libertar” cubanos e filipinos do jugo espanhol.

Em síntese, os Estados Unidos não apenas defendiam o hemisfério de potências externas mas antes, assumiam o papel de potência colonial na região, estabelecendo um protetorado sobre Cuba que duraria até 1934.

 4- O Corolário Roosevelt e a Política do “Big Stick” (1901-1914)

4.1 Theodore Roosevelt e a Reinterpretação da Doutrina Monroe

Sob a presidência de Theodore Roosevelt (1901-1909), a Doutrina Monroe foi reinterpretada de forma agressiva e expansionista. Roosevelt personificava a nova confiança americana: jovem, enérgico, profundamente convencido do destino imperial de seu país e discípulo das teorias navais de Mahan.

A oportunidade para reformular a doutrina surgiu em 1904, durante uma crise financeira na República Dominicana. O país havia acumulado dívidas significativas com credores europeus, que ameaçavam intervenção armada para cobrá-las. Roosevelt viu nisso uma violação potencial da Doutrina Monroe e agiu decisivamente.

Em sua mensagem anual ao Congresso em 6 de dezembro de 1904, Roosevelt anunciou o que ficaria conhecido como o “Corolário Roosevelt” à Doutrina Monroe. Seu raciocínio era simples, mas suas implicações eram revolucionárias: se os Estados Unidos proibiam a Europa de intervir na América Latina para cobrar dívidas ou restaurar a ordem, então tinham a responsabilidade de intervir eles mesmos para garantir que as dívidas fossem pagas e a estabilidade mantida.

4.2 A Política do “Big Stick”

A política ficou conhecida como a do “Big Stick”, baseada no provérbio africano que Roosevelt apreciava: Fale suavemente e carregue um grande porrete; você irá longe. O “porrete” era a Marinha de guerra dos EUA, que Roosevelt modernizou e expandiu agressivamente, criando a Great White Fleet (Grande Frota Branca) que circum-navegou o globo entre 1907 e 1909 para demonstrar o poder naval americano.

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Roosevelt aplicou sua política de forma consistente em toda a região como apresenta o mapa.

  1. 1903: Apoiou a separação do Panamá da Colômbia para garantir os direitos de construção do Canal do Panamá
  2. 1906-1909: Intervenção em Cuba para “restaurar a ordem” durante a Revolução Cubana
  3. 1912-1933: Ocupação da Nicarágua
  4. 1915-1934: Ocupação do Haiti
  5. 1916-1924: Ocupação da República Dominicana

Fonte: International Enciclopedia the First World War.

4.3 O Canal do Panamá: Símbolo da Nova Hegemonia

O Corolário Roosevelt encontrou sua expressão mais concreta no projeto do Canal do Panamá. Roosevelt reconhecia que um canal interoceânico seria vital tanto para o poder naval quanto para o comércio global dos EUA. Quando o Senado colombiano rejeitou o tratado que daria aos Estados Unidos direitos perpétuos sobre uma zona do canal, Roosevelt apoiou um movimento separatista no Panamá.

O novo país, reconhecido imediatamente pelos Estados Unidos, assinou o Tratado Hay-Bunau-Varilla (1903), que concedia aos norte-americanos o controle virtualmente permanente sobre uma Zona do Canal de 10 milhas de largura. O Canal, concluído em 1914 após uma década de construção que custou milhares de vidas, não apenas facilitou o comércio global, mas transformou o Caribe em no “Mare Nostrum Americano

Para proteger essa rota vital, os Estados Unidos estabeleceram uma rede de bases navais e justificaram intervenções frequentes na região sob o argumento de proteger seus interesses estratégicos. A lógica era circular, mas eficaz: o Canal exigia proteção, que por sua vez exigia intervenção, que reforçava o controle sobre a região, que garantia a segurança do Canal.

5: Do “Big Stick” ao “Bom Vizinho”: Evoluções e Continuidades (1914-1945)

5.1 A Primeira Guerra Mundial e o Intervencionismo

O período entre as duas guerras mundiais testemunhou uma expansão, paradoxalmente, tanto do intervencionismo quanto das críticas a ele. A Primeira Guerra Mundial reforçou a posição dos Estados Unidos como potência global, enquanto a Revolução Russa de 1917 introduziu uma nova dimensão ideológica às relações interamericanas: o temor do comunismo.

Na década de 1920, as intervenções americanas continuaram, mas começaram a enfrentar resistência crescente tanto internamente quanto na América Latina. O massacre de haitianos por fuzileiros navais americanos em 1929, por exemplo, gerou críticas ferozes no Congresso e na imprensa.

5.2 A Política do “Bom Vizinho”

A Grande Depressão e a eleição de Franklin D. Roosevelt em 1932 trouxeram mudanças significativas. Em 1933, Roosevelt anunciou a Política do “Bom Vizinho”, prometendo respeito à soberania latino-americana e não-intervenção. Na prática, isso significou o fim das ocupações militares na República Dominicana em 1924, na Nicarágua em 1933 e no Haiti em 1934. Além da revogação da Emenda Platt em 1934 que tinha tornado efetivamente Cuba um protetorado dos Estados Unidos.

No entanto, o “Bom Vizinho” foi mais retórica do que realidade. O poder econômico americano continuou a dominar a região, e quando interesses estratégicos foram considerados ameaçados — como no caso do governo reformista de Jacobo Árbenz na Guatemala em 1954 — a intervenção retornou sob novas formas.

5.3 A Segunda Guerra Mundial e a Consolidação da Hegemonia

A Segunda Guerra Mundial consolidou definitivamente a hegemonia americana no hemisfério. Com a Europa devastada pelo conflito, os Estados Unidos emergiram como a única potência econômica e militar intacta, posição que utilizaram para moldar a ordem internacional pós-guerra através das instituições de Bretton Woods (FMI, Banco Mundial) e do sistema das Nações Unidas.

Na América Latina, isso se traduziu em uma mistura de cooperação e coerção. Por um lado, os Estados Unidos promoveram a aliança militar através do Tratado Interamericano de Assistência Recíproca (TIAR) de 1947. Por outro, começaram a ver qualquer movimento reformista ou nacionalista como potencialmente comunista, preparando o terreno para a intervenção da Guerra Fria.

6: A Guerra Fria: Monroe Vestindo a Roupa Anticomunista (1947-1991)

6.1 A Reconfiguração da Doutrina Monroe

O início da Guerra Fria trouxe uma nova e poderosa justificativa para a intervenção americana na América Latina: o combate ao comunismo. A Doutrina Monroe foi atualizada e enquadrada dentro da Doutrina de Contenção formulada por George F. Kennan, que defendia a necessidade de conter a expansão soviética em todo o mundo.

Qualquer governo reformista, nacionalista ou de esquerda passou a ser visto como uma potencial cabeça-de-ponte de Moscou no Hemisfério Ocidental. Esta lógica justificou algumas das intervenções mais controversas da história americana:

6.2 Casos Emblemáticos da Guerra Fria

Guatemala, 1954: A CIA orquestrou o golpe que derrubou o presidente democraticamente eleito Jacobo Árbenz, cujas reformas agrárias ameaçavam os interesses da United Fruit Company. O operativo PBSUCCESS estabeleceu um padrão: uso de propaganda, apoio a forças opositoras e negação plausível.

Cuba, 1961-1991: Após a Revolução Cubana, os Estados Unidos iniciaram uma campanha multifacetada que incluía a invasão fracassada da Baía dos Porcos (1961), o embargo econômico (iniciado em 1960 e intensificado em 1962), tentativas de assassinato de Fidel Castro e isolamento diplomático.

República Dominicana, 1965: Intervenção militar de 20.000 fuzileiros navais para impedir a volta ao poder do ex-presidente reformista Juan Bosch, sob a alegação de prevenir “outra Cuba”.

Chile, 1973: Apoio financeiro e político da CIA à oposição que desestabilizou o governo de Salvador Allende, culminando no golpe militar de Augusto Pinochet.

América Central, anos 80: Envolvimento profundo nas guerras civis de El Salvador (apoio ao governo) e Nicarágua (apoio aos “Contras”), com o argumento de barrar a expansão sandinista.

6.3 A Sofisticação dos Métodos

Durante a Guerra Fria, a intervenção se sofisticou: menos ocupações militares prolongadas, mais golpes de Estado patrocinados, guerra econômica, operações secretas e apoio a regimes autoritários aliados. A Escola das Américas, estabelecida no Panamá em 1946, treinou milhares de militares latino-americanos em técnicas de contrainsurgência, muitos dos quais depois participaram de governos ditatoriais.

A justificativa ideológica era poderosa, mas frequentemente servia para encobrir interesses econômicos. Como observado por analistas, mesmo durante a Guerra Fria os EUA frequentemente “abandonaram qualquer pretensão de que isso tenha sido feito pelo bem da democracia”, apoiando regimes autoritários desde que fossem anticomunistas.

Para ilustrar, segue o mapa com todas as intervenções dos Estados Unidos apoiando os golpes militares na América Latina.

   Fonte : G Zero.

7: O Pós-Guerra Fria e as Novas Justificativas (1991-2016)

7.1 O “Momento Unipolar” e a Busca por Novas Missões

O colapso da União Soviética em 1991 eliminou a principal justificativa ideológica para a intervenção americana. Nos anos 1990, os Estados Unidos falaram em uma Parceria para as Américas e promoveram iniciativas como a Área de Livre Comércio das Américas (ALCA).

No entanto, a lógica subjacente da Doutrina Monroe não desapareceu; ela se adaptou a novas “ameaças” que justificassem a presença e influência americanas:

7.2 As Novas “Ameaças”

As ‘novas ameaças’ foram identificadas como : narcotráfico, terrorismo e imigração.

 A “Guerra às Drogas”, declarada por Richard Nixon em 1971, ganhou novo impulso nos anos 1990 como justificativa para intervenção. O Plano Colômbia, iniciado em 2000, canalizou mais de 10 bilhões de dólares em ajuda militar e policial, transformando um conflito interno em uma frente da guerra global contra as drogas.

Os ataques de 11 de setembro de 2001 forneceram uma justificativa ainda mais ampla. A “Guerra ao Terror” global se estendeu à América Latina através de iniciativas como a Iniciativa Mérida no México.

O controle dos fluxos migratórios tornou-se uma prioridade de segurança nacional, influenciando políticas para a América Central e justificando intervenções indiretas.

Como podemos notar, não há nada de novo nas narrativas atuais, pois todas ainda declaram os mesmos problemas.

 8: A “Doutrina Donroe”: A Intervenção na Venezuela (2026)

8.1 O Contexto Imediato

A intervenção militar direta na Venezuela em fevereiro de 2026 representa, nas algo sem precedentes, pois pela primeira vez os Estados Unidos intervém diretamente na América do Sul.  A operação que resultou no sequestro do presidente Nicolás Maduro e sua esposa, seguido por seu transporte para julgamento em Nova York, marca uma escalada qualitativa na longa história da intervenção americana na região.

Geograficamente, rompe com um padrão histórico: enquanto no século XX as intervenções diretas se concentraram no Caribe e na América Central, na América do Sul os EUA preferiram métodos indiretos. A ação na Venezuela estabelece um precedente perigoso para a sub-região.

8.2 Características da “Doutrina Donroe

A análise da intervenção revela características distintivas que o próprio governo denomina de  “Doutrina Donroe” — uma fusão dos nomes Donald Trump e James Monroe que sintetiza esta nova fase.

Enquanto intervenções passadas eram justificadas por valores como democracia ou direitos humanos, a ação na Venezuela não houve nenhuma menção a estas questões. A justificativa apresentada — inicialmente narcoterrorismo, depois clientelismo via narcotráfico — mostrou-se insustentável. Como vimos na declaração do Presidente Trump em Mar-a-Lago, a preocupação foi essencialmente na questão do petróleo. Este interesse reside no fato de que a Venezuela detém as maiores reservas comprovadas de petróleo do mundo, e o governo americano deixou claro que busca acesso para empresas norte-americanas. O próprio discurso oficial referiu-se ao “nosso petróleo”, em clara demonstração de apropriação de recursos localizados em outro país soberano.

Se a Doutrina Monroe original visava potências europeias, e durante a Guerra Fria focava no comunismo soviético, a “Doutrina Donroe” mira claramente a República Popular da China. O motivo é que ela tornou-se nas últimas décadas o principal parceiro comercial de vários países latino-americanos, investindo massivamente em infraestrutura através da Iniciativa do Cinturão e Rota.

A intervenção na Venezuela pode ser traduzida na seguinte mensagem: os Estados Unidos não permitirão que a China expanda sua influência no que consideram sua esfera exclusiva. A postagem do Departamento de Estado no X — Este é o NOSSO hemisfério — sintetiza essa mentalidade renovada de posse.

Outra característica que se identifica claramente na Doutrina de Trump está localizada em duas correntes distintas. A primeira é ideológica e é representada pela figura do Secretário de Estado Marco Rubio. Esta corrente tem como objetivo as mudanças de regime na Venezuela, em Cuba e na Nicarágua.

A segunda corrente é transacional representada pelo Presidente Trump cujo interesse está focado em acordos econômicos vantajosos do que apoiar ou promover valores democráticos.

9: Implicações Regionais e Respostas Latino-Americanas

9.1 O Dilema Latino-Americano

A resposta dos países da região à intervenção tem sido limitada, consistindo principalmente em condenações verbais e pedidos de reunião do Conselho de Segurança da ONU. A fragmentação ideológica dificulta uma resposta coordenada: enquanto governos de esquerda condenam veementemente a ação, governos de direita tendem a apoiá-la ou manter silêncio cúmplice.

Esta divisão é habilmente explorada pela estratégia americana, que isola países e os pressiona individualmente. A política de acordos comerciais bilaterais preferenciais com governos alinhados, combinada com sanções contra governos opositores, aprofunda as divisões regionais.

9.2 Brasil e as Interferências Eleitorais e Futuro imediato da Venezuela.

A intervenção na Venezuela expõe um grande risco de termos interferências em processos eleitorais regionais no Brasil. Poderá ocorrer por parte do Governo Trump apoio a candidatos da extrema direita em nosso país, além da pressão econômica e sanções seletivas criando um novo modelo de intervenção indireta, mas eficaz.

Em relação ao cenário venezuelano permanece difuso. Os militares mantêm, até o momento, apoio ao governo chavista, agora liderado interinamente pela vice-presidente Delcy Rodríguez. A Constituição exige eleições em prazos curtos (30 dias se a ausência for permanente, 180 se for temporária), mas o temor de líderes políticos e militares de serem processados e extraditados, como ocorreu com Maduro, atua como fator de coesão.

O governo interino enfrenta o dilema de resistir nacionalmente ou negociar condições que garantam sua sobrevivência política. A retórica inicial de resistência — “não seremos uma colônia” — deu lugar a sinais de disposição para negociar “pelo desenvolvimento”, sugerindo uma acomodação pragmática aos novos fatos no terreno.

Conclusão:

A intervenção na Venezuela de 2026, analisada através da lente histórica da expansão americana e da evolução da Doutrina Monroe, revela-se não como um evento isolado, mas como o capítulo mais recente em uma história de dois séculos. A “Doutrina Donroe” representa tanto continuidade quanto ruptura.

Continuidade na afirmação de hegemonia americana sobre o hemisfério ocidental. Desde a expansão territorial do século XIX até a intervenção de 2026, uma linha conecta a crença no Destino Manifesto, a proclamação unilateral da Doutrina Monroe, o Corolário Roosevelt, as intervenções da Guerra Fria e a ação contemporânea na Venezuela: a convicção de que os Estados Unidos têm direito a determinar os rumos de seu “quintal” estratégico.

Ruptura na declaração da hegemonia estadunidense no Hemisfério Ocidental. O que mudou não é a intenção, mas os métodos e a franqueza com que os interesses são declarados. Enquanto no século XIX falava-se em “Destino Manifesto”, no início do XX em “missão civilizatória”, durante a Guerra Fria em “defesa da democracia”, no século XXI fala-se simplesmente em nosso hemisfério” e “nosso petróleo.

Para a América Latina, o que nos cabe é responder a seguinte questão: como construir soberania coletiva frente a uma potência que nunca abandonou a visão intervencionista?

Este é o nosso desafio histórico, pois a sombra da Doutrina Monroe de 1823 ainda se projeta na nossa região.

André Luiz Varella Neves – Doutor em Ciência Política pela USP e Subchefe do Departamento de Estudos Estratégicos e Relações Internacionais do INEST/UFF. Especialista em Geopolítica e Estratégia dos Estados Unidos, coordena o Laboratório de Estudo da Grande Estratégia dos Estados Unidos (Lab-GEST).

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para dicasdepautaggn@gmail.com. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.

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Reação à plutocracia de extrema direita americana e ao seu tirano autoritário nos Estados Unidos: Revolta toma os EUA e país afunda no Caos! Manifestações contra polícia fascista de Trump explodem💣

 

 

Do Canal Mídia Ninja:




Protestos populares contra Donald Trump e sua plutocracia autoritária explodem nos Estados Unidos

  "Estados Unidos à beira de uma guerra civil? Milhares tomam as ruas dos EUA contra Trump enquanto a violência eclode em solo americano e repercute globalmente. Protestos crescentes por injustiça social se cruzam com ameaças de intervenção internacional. O que realmente está acontecendo e por que a Casa Branca parece incapaz de controlar o caos?"

Do Canal Canadá Diário:

Protestos EXPLODEM e Trump perde o controle 😱 🇺🇸



Estados Unidos à beira de uma guerra civil? Milhares tomam as ruas dos EUA contra Trump enquanto a violência eclode em solo americano e repercute globalmente. Protestos crescentes por injustiça social se cruzam com ameaças de intervenção internacional. O que realmente está acontecendo e por que a Casa Branca parece incapaz de controlar o caos?

Os Estados Unidos vivem um dos momentos mais perigosos de sua história recente. Protestos gigantes tomam as ruas após mais um episódio de violência estatal, enquanto Donald Trump responde com repressão, forças federais e retórica incendiária.

Neste vídeo, analisamos com dados, números e informações verificadas em múltiplas fontes internacionais o que está por trás da explosão de protestos nos EUA em janeiro de 2026. Milhares de manifestações, dezenas de milhares de pessoas nas ruas, uso crescente de forças federais contra civis e um país cada vez mais dividido.

Trump enfrenta uma crise interna sem precedentes em seu segundo mandato. Ao mesmo tempo, ameaça o Irã em meio a protestos sangrentos no Oriente Médio, levantando suspeitas de que uma escalada externa possa servir como cortina de fumaça para o caos doméstico.

Os EUA estão à beira de uma guerra civil? Ou já entraram em um processo de colapso democrático lento e perigoso?

Aqui você encontra uma análise crítica, profunda e baseada em reportagens da imprensa internacional de confiança como Reuters, The Guardian, Associated Press e Al Jazeera. Sem propaganda, sem torcida, apenas fatos, contexto e leitura política realista.

Assista até o final para entender por que o trumpismo se tornou um fator de instabilidade global e por que os próximos meses podem definir o futuro da democracia americana.

segunda-feira, 12 de janeiro de 2026

O Cinema do Brasil no Topo: Com denúncia contra a Ditadura e a direita canalha brasileira, o filme "O Agente Secreto", de Kléber Mendonça com Wagner Moura, vence o Globo de Ouro nos EUA

 

O cinema brasileiro viveu uma de suas noites mais marcantes no Globo de Ouro neste domingo (11), em Los Angeles, com “O Agente Secreto”, de Kleber Mendonça Filho, conquistando o prêmio de melhor filme em língua não inglesa e Wagner Moura sendo consagrado melhor ator em filme de drama...

Do AFP e ICL Notícias:

BRASIL NO TOPO

Melhor filme estrangeiro e melhor ator


Por AFP

O cinema brasileiro viveu uma de suas noites mais marcantes no Globo de Ouro neste domingo (11), em Los Angeles, com “O Agente Secreto”, de Kleber Mendonça Filho, conquistando o prêmio de melhor filme em língua não inglesa e Wagner Moura sendo consagrado melhor ator em filme de drama, dobradinha que colocou o Brasil no centro da principal premiação pré-Oscar.

O reconhecimento veio por um mesmo trabalho: em “O Agente Secreto”, Moura interpreta um personagem imerso em uma trama ambientada durante a ditadura militar, marcada por tensão psicológica, ambiguidade moral e crítica às estruturas de poder, elementos que dialogam com a tradição autoral do diretor e ajudaram a projetar o filme como um dos títulos mais celebrados da temporada internacional de prêmios.

“É um filme sobre memória, a falta dela e um trauma geracional. Eu acho que se um trauma pode ser passado por gerações, os valores também podem. Esse prêmio vai para quem está seguindo seus valores em momentos difíceis”, disse o ator baiano em seu discurso ao receber o prêmio.

Apesar do reconhecimento individual e do prêmio internacional, “O Agente Secreto” acabou derrotado na categoria principal de melhor filme de drama, que ficou com “Hamnet”, da diretora chinesa Chloé Zhao. Ainda assim, o longo brasileiro se consolidou como um dos títulos mais comentados da temporada, ampliando sua projeção internacional e reforçando a presença do Brasil na corrida pelos grandes prêmios do cinema.

A vitória de Moura dá continuidade a um momento excepcional para artistas brasileiros em Hollywood. No ano passado, o país já havia deixado sua marca no Globo de Ouro com Fernanda Torres, vencedora do prêmio de melhor atriz em filme de drama por “Ainda Estou Aqui”, de Walter Salles, produção que meses depois conquistou o Oscar de melhor filme internacional.

Kleber Mendonca Filho e a produtora francesa Emilie Lesclaux. Foto: Agência Efe/Folhapress

“Uma Batalha Após a Outra” leva quatro prêmios

Entre os demais destaques da noite, “Uma Batalha Após a Outra” figurou entre os grandes vencedores, embora seu protagonista, Leonardo DiCaprio, não tenha conseguido superar Timothée Chalamet em um dos duelos mais aguardados da cerimônia.

O filme de Paul Thomas Anderson, que narra a história de um revolucionário envelhecido (DiCaprio) e de sua filha adolescente (Chase Infiniti), chegou à premiação com nove restrições e, até a metade da cerimônia, já havia conquistado os prêmios de melhor direção, melhor roteiro e melhor atriz coadjuvante, para Teyana Taylor, antes de também somar um Globo de Ouro de melhor filme de comédia ou musical.

DiCaprio, porém, foi derrotado por Chalamet, premiado por sua interpretação de um competitivo jogador de pingue-pongue da década de 1950 em Marty Supreme.

“Muito obrigado do fundo do meu coração. Estou em uma categoria com muitos grandes; esta categoria está repleta de talento. Eu admiro todos vocês”, afirmou Chalamet, que também superou nomes como George Clooney (“Jay Kelly”) e Ethan Hawke (“Blue Moon”).

O ator lembrou que suas quatro derrotas anteriores no Globo de Ouro “tornam este momento ainda mais doce”, antes de agradecer à namorada, Kylie Jenner.

O Globo de Ouro é um marco importante da temporada de prêmios de Hollywood, que se encerra em março com a apresentação do Oscar.

“Pecadores” contra “Hamnet”

A divisão do Globo de Ouro entre comédias e dramas impediu que “Uma Batalha Após a Outra” enfrentasse Pecadores, considerado seu principal rival na corrida pelo Oscar de melhor filme.

A obra, que retrata a ferida profunda da população afro-americana no sul segregacionista dos anos 1930, mesclando horror de inspiração vampírica com ritmos de blues, venceu os prêmios de melhor trilha sonora e melhor realização cinematográfica e de bilheteria.

“Pecadores” disputou o prêmio de melhor filme de drama com “Hamnet”, que acabou levando uma estatueta. A longa é estrelada por Paul Mescal no papel de William Shakespeare.

A tragédia, baseada no romance da escritora irlandesa Maggie O’Farrell, aborda a forma ficcional do luto de Agnes e William Shakespeare após a morte do filho.

Jessie Buckley, que interpreta a esposa do dramaturgo inglês, foi apontada como favorita ao prêmio de melhor atriz, o que acabou se confirmando.

Com oito restrições, o filme norueguês Valor Sentimental, no qual Joachim Trier retrata a relação dolorosa de um pai cineasta com suas duas filhas, também aparece possível como surpresa na categoria. Por esse trabalho, o sueco Stellan Skarsgård venceu o prémio de melhor ator coadjuvante.

“Seja bom”

Rose Byrne levou o prêmio de melhor atriz de comédia por If I Had Legs I’d Kick You. Já a animação de sucesso da Netflix, As Guerreiras do K-pop, venceu na categoria de melhor canção.

A apresentadora Nikki Glaser abriu a cerimônia com piadas sobre diversos temas, incluindo a divulgação de arquivos do governo dos Estados Unidos com trechos censurados sobre o crime sexual condenado Jeffrey Epstein.

“O Globo de Ouro de melhor montagem vai para o Departamento de Justiça”, ironizou.

Diversas celebridades, entre elas Mark Ruffalo, Natasha Lyonne e Wanda Sykes, desfilaram pelo tapete vermelho usando broches com a mensagem “Be good” (“Seja bom”).

O acessório integra uma homenagem a Renee Good, americana morta a tiros por um agente da polícia migratória, episódio que reacendeu protestos contra a intervenção do presidente Donald Trump contra os migrantes.

“Vamos fazer a coisa certa”, declarou Jean Smart ao receber o prêmio de melhor atriz de série de comédia por Hacks. Ela também usava o broche.