segunda-feira, 20 de novembro de 2023

Xi Jinping Desbanca Biden em São Francisco

 

De um lado da mesa, um líder do Sul Global no auge de seu desempenho. Do outro, uma múmia vendendo a ilusão de que é o "líder do mundo livre"


O presidente da China, Xi Jinping, e o presidente dos EUA, Joe Biden, caminham lado a lado, nos arredores casa Filoli, à margem da cúpula da Cooperação Econômica Ásia-Pacífico (APEC), em Woodside, Califórnia, EUA, 15 de novembro de 2023

O presidente da China, Xi Jinping, e o presidente dos EUA, Joe Biden, caminham lado a lado, nos arredores casa Filoli, à margem da cúpula da Cooperação Econômica Ásia-Pacífico (APEC), em Woodside, Califórnia, EUA, 15 de novembro de 2023 (Foto: KEVIN LAMARQUE | REUTERS)

Texto de Pepe Escobar, jornalista investigativo internaiconal especializado em geopolítica

O suspense era fatal – antes, durante ou depois da crucial reunião envolvendo as duas maiores potências do mundo. Já nos comentários introdutórios, o Secretário de Estado Tony Blinken, sentado à direita da múmia, estava tão aterrorizado quanto James Stewart tinha medo de altura no filme de Hitchcock, Vertigo – sentindo que a desgraça se abateria a qualquer momento.

E se abateu mesmo – na entrevista coletiva final. Joe Biden, o ator desempenhando o papel da Múmia, após o proverbial  sorrisinho maroto, disse que o Presidente da China Xi Jinping é um "ditador". Porque é o dirigente de um país comunista. 

Todos aqueles elaborados planos se desmancharam no ato. Um cenário tentativamente róseo transformou-se em um filme noir.  A resposta da chancelaria chinesa foi tão cortante quanto uma das frases curtas de Dashiell Hammett – e contextualizada: isso foi não apenas "extremamente errado", mas também "uma manipulação política irresponsável".

Tudo isso, é claro, assumindo-se que a Múmia sabia onde estava  e do que estava falando, de improviso, e não ditado por seu onipresente fone de ouvido.

A Casa Branca entrega o jogo 

O drama Xi-Biden, com pouco mais de duas horas de duração, não foi exatamente uma refilmagem de "Vertigo". Washington e Pequim pareciam bastante confortáveis ao prometerem conjuntamente a proverbial promoção e fortalecimento do "diálogo e da cooperação em diversas áreas"; um diálogo intergovernamental sobre a IA; cooperação no controle das drogas; a volta  das conversas de alto nível entre militares; um "mecanismo de consulta sobre segurança marítima"; um aumento significativo dos voos até inícios de  2024; e a "expansão do intercâmbio" em educação, estudantes internacionais, cultura, esportes e círculos empresariais. O  Hegêmona estava longe de ter um precioso Falcão Maltês ("a matéria da qual são feitos os sonhos") para oferecer a Pequim. A posição da China como a maior economia comercial  de todo o mundo em termos de Paridade de Poder de Compra já está solidificada. Mesmo sob as nefastas sanções americanas, a China já avança em velocidade alucinante na corrida tecnológica. O soft power chinês por todo o Sul Global/Maioria Global só faz aumentar a cada dia. A China vem co-organizando com a Rússia o impulso  conjunto rumo à multipolaridade. A  apresentação da Casa Branca, por mais insípida que pareça, na verdade entregou a parte principal do jogo.Biden – aliás, seu fone de ouvido – enfatizou o "apoio a um Indo-Pacífico livre e aberto"; a defesa de "nossos aliados do Indo-Pacífico"; o "compromisso com a liberdade de navegação e sobrevoo"; o "respeito ao direito internacional"; a manutenção da paz e da estabilidade" no Mar do Sul da China e no Mar do Leste da China"; apoio à  "Ucrânia em sua defesa contra a agressão russa" e "apoio ao direito de Israel de se defender do terrorismo".

Pequim tem compreensão detalhada do contexto e das implicações geopolíticas de cada um desses compromissos.

O que a apresentação não conta é que os operadores de Biden também tentaram convencer os chineses a parar de comprar petróleo de seu  parceiro estratégico Irã.

Isso não vai acontecer. A China importou uma média de 1,05 milhões de barris diários de petróleo iraniano ao longo dos primeiros dez meses de 2023 – número que só tende a aumentar. 

A Terra dos Think Tanks, sempre se superando em termos de desinformação e informações equivocadas, acreditou em suas próprias projeções pueris de Xi bancando o durão contra os Estados Unidos na Ásia, sabendo que Washington não suportaria um terceiro caso amoroso, desculpe, um terceiro front de guerra além da Ucrânia e de Israel/Palestina.O fato é que Xi sabe tudo sobre os fronts rotativos da Guerra Híbrida imperial, além de outros que podem ser acionados com o simples apertar de um botão. O Hegêmona continua a provocar perturbação não apenas em  Taiwan, mas também nas Filipinas, Japão, Coreia do Sul, Índia e a flertar com possíveis revoluções coloridas na Ásia Central. Ainda não houve um confronto direto entre os Estados Unidos e a China graças à milenar habilidade diplomática chinesa e a sua visão de longo prazo. Pequim tem conhecimento detalhado de como Washington se encontra em pleno Modo Guerra Híbrida em duas frentes simultâneas contra a ICR (Iniciativa Cinturão e Rota) e os BRICS – que logo se converterão nos BRICS 11.

Apenas duas opções para a China e os Estados Unidos 

Uma repórter sino-americana, após alguns comentários introdutórios, perguntou a Xi, em mandarim, se ele confiava em Biden. O Presidente chinês entendeu perfeitamente a pergunta, olhou para ela e não respondeu.  

Essa é uma reviravolta importante no enredo. Afinal, Xi sempre soube que estava falando com os operadores no controle de um par de fones de ouvido. Além do mais, ele tinha plena consciência de que Biden, na verdade seus operadores, qualificou Pequim como uma ameaça à "ordem internacional baseada em regras",  para não falar das incessantes acusações de "genocídio em Xinjiang", além do tsunami  de contenções.

Não foi por acidente que, em março último, em um discurso a autoridades do Partido Comunista, Xi declarou explicitamente que os Estados Unidos estão engajados em "um amplo processo de contenção, cerco e supressão contra nós".  

O acadêmico baseado em Xangai  Chen Dongxiao sugere que a China e os Estados Unidos se engajem  em um "pragmatismo ambicioso". Esse, exatamente, foi o tom adotado por Xi em sua principal mensagem em São Francisco:"Há duas opções para a China e os Estados Unidos na era de transformações globais jamais vistas em um único século: uma delas é aumentar a solidariedade e a cooperação e dar as mãos para enfrentar os desafios globais e promover a segurança e a prosperidade em todo o mundo; a outra é aferrar-se à mentalidade soma-zero, provocar a rivalidade e o confronto  e levar o mundo ao tumulto e à divisão. As duas escolhas apontam para duas direções diferentes que irão decidir o futuro da humanidade e do Planeta Terra".  Impossível ser mais sério do que isso. Xi acrescentou o contexto. A China não está engajada em saques coloniais, não está interessada em confrontos ideológicos, não exporta ideologias e não tem planos de superar ou substituir os Estados Unidos. Os Estados Unidos, portanto, não devem  tentar suprimir ou conter a China.Os operadores de Biden talvez tenham dito a  Xi que Washington ainda segue a política de Uma Única China – embora continue a usar Taiwan como arma sob a lógica perversa de que Pequim poderia "invadir". Xi, mais uma vez, apresentou o argumento concludente: "a China, em algum tempo futuro, inevitavelmente será reunificada" a Taiwan.

$40,000 por um jantar com Xi

Em meio à mal disfarçada tensão, o alívio, em São Francisco, veio na forma de negócios. Todos e ainda mais alguns empresários  – Microsoft, Citigroup, ExxonMobil, Apple – estavam ansiosos por encontros com os líderes de diversos países da Cooperação Econômica Ásia-Pacífico (APEC). Especialmente com os da China. 

A APEC, afinal, responde por quase 40% da população global e por quase 50% do comércio internacional. Trata-se da Ásia-Pacífico, e não do "Indo-Pacífico", uma tramoia vazia urdida pela "ordem mundial baseada em regras" sobre a qual nada se sabe e se usa ainda menos em qualquer lugar da Ásia. A Ásia-Pacífico responderá por pelo menos dois-terços do crescimento global em 2023 -  participação que só irá aumentar. 

Daí o brilhante êxito de um jantar de negócios que teve lugar no  Hyatt Regency, com entradas custando entre dois mil e quarenta mil dólares, patrocinado pela Comissão Nacional de Relações Estados Unidos-China e pelo Conselho Empresarial Estados Unidos-China. Xi, como seria inevitável, foi a estrela do espetáculo. 

Os mandachuvas empresariais há muito sabiam que os Estados Unidos haviam se decidido por não ingressar no Acordo Amplo e Progressivo para a Parceria Transpacífico (CPTPP); e que a nova jogada comercial, a tal Estrutura Econômica Indo-Pacífico (IPEF), já nasceu praticamente morta. A IPEF pode tratar de questões de cadeias de fornecimento, mas não chega ao cerne da questão: tarifas mais baixas e acesso amplo aos mercados. 

Xi, portanto, estava presente para "vender" aos investidores não apenas a China, mas também boa parte da Ásia-Pacífico. 

Um dia depois de São Francisco, o centro das atividades se deslocou para Xangai e para uma Conferência de Alto Nível Rússia-China; é em reuniões desse tipo que a parceria estratégica formula os caminhos futuros da Longa Marcha para a Multilateralidade.

Em São Francisco, Xi fez questão de ressaltar que a China respeita "a posição histórica, cultural e geográfica" dos Estados Unidos e espera que os Estados Unidos respeitem "o caminho do socialismo com características chinesas". 

E é aqui que o enredo do filme noir  se aproxima do tiroteio final. O que Xi espera que jamais aconteça sob os dementes straussianos-neocons que comandam a política externa dos Estados Unidos. O que foi duramente confirmado pela Múmia também conhecida pelo nome de Joe "Ditador" Biden.Termina por aqui a relevância do praticante de realpolitik Joseph "Soft Power" Nye, um dos poucos realistas que acreditam que a China e os Estados Unidos, como James Stewart e Kim Novak em Vertigo, precisam um do outro e não devem ser separados. Bem, desafortunadamente, em Vertigo, a heroína mergulha no vazio e morre.

Tradução de Patricia Zimbres

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