Análise Histórica da expansão Territorial, projeção de Poder e a reconfiguração Contemporânea da Doutrina Monroe
Do Jornal GGN:
Do Destino Manifesto à Doutrina Donroe, por André Luiz V. Neves
Reprodução: Casa Branca
Nota de Apresentação
A análise que se segue não é apenas uma recuperação histórica, mas um diagnóstico de urgência sobre a integridade soberana da América do Sul. Ao identificar a transição da Doutrina Monroe para o que o autor denomina “Doutrina Donroe”, André Luiz Varella Neves oferece o crivo necessário para compreendermos o sequestro de Nicolás Maduro não como um fato isolado, mas como o esgotamento de uma diplomacia de fachada em favor de um pragmatismo extrativista. Minha intermediação aqui cumpre o papel de curadoria crítica, atestando a relevância deste pensamento para o debate público brasileiro, especialmente no que tange aos riscos de interferências em nossos próprios processos eleitorais.
Thiago Gama é Doutorando em História Comparada pela UFRJ Curador e Intelectual Mediador do texto abaixo.
Por André Luiz Varella Neves
Do Destino Manifesto à Doutrina Donroe: Dois Séculos de Hegemonia Americana na América Latina
Análise Histórica da expansão Territorial, projeção de Poder e a reconfiguração Contemporânea da Doutrina Monroe
Introdução.
Na madrugada de 3 de fevereiro de 2026, uma operação militar sem precedentes na América do Sul redefiniu as regras do jogo geopolítico hemisférico. O ataque norte-americano a Caracas, resultando no sequestro do presidente venezuelano Nicolás Maduro e de sua esposa Cília Flores para julgamento em solo americano, não foi um evento isolado nem uma anomalia histórica. Ao contrário, representou a manifestação mais explícita e brutal de uma lógica geopolítica que atravessa dois séculos de relações interamericanas.
Esta intervenção violou frontalmente o princípio fundamental do direito internacional consagrado na Carta das Nações Unidas — a proibição do uso da força contra a integridade territorial ou independência política de qualquer Estado. No entanto, para compreender seu verdadeiro significado, é necessário situá-la dentro de uma trajetória histórica que começa com a formação dos Estados Unidos como nação e evolui através de doutrinas, guerras e reinterpretações estratégicas que sempre enxergaram a América Latina como área de influência exclusiva.
O questionamento que emerge deste evento dramático é: afinal, neste primeiro quarto do Século XXI estaremos diante de um Neo-Monroísmo pragmático? Para respondermos esta pergunta, exige que percorramos o caminho que vai da expansão continental do século XIX à construção do Canal do Panamá, da proclamação da Doutrina Monroe ao Corolário Roosevelt, e finalmente à emergência do que analistas contemporâneos denominam “Doutrina Donroe”.
Este texto traça essa trajetória, demonstrando como a intervenção de 2026 é menos uma ruptura do que uma atualização particularmente explícita de princípios que sempre orientaram a política externa norte-americana para a região.
- A Construção de uma Nação Continental (1800-1850).
1.1 O Contexto Pós-Independência e a Busca por Consolidação Territorial
Após a consolidação da União e a estabilização do regime político, os Estados Unidos voltaram-se para um projeto ambicioso: a expansão territorial que transformaria uma jovem república atlântica em uma potência continental. O período entre 1800 e 1850 testemunhou uma das expansões territoriais mais rápidas e abrangentes da história moderna.
O processo começou em 1803 com a compra da Louisiana — uma negociação com a França napoleônica que dobrou o território nacional por 15 milhões de dólares. Em 1819, a aquisição da Flórida da Espanha consolidou o controle sobre a península estratégica. Mas foi na década de 1840 que a expansão atingiu seu ritmo mais agressivo. Em 1846, o Tratado do Oregon estabeleceu o paralelo 49° como fronteira com os territórios britânicos, garantindo o acesso ao Pacífico.
O evento mais transformador, porém, foi a Guerra Mexicano-Americana (1846-1848). Desencadeada por disputas fronteiriças após a anexação do Texas em 1845, o conflito terminou com a esmagadora vitória norte-americana. O Tratado de Guadalupe-Hidalgo forçou o México a ceder aproximadamente 55% de seu território — os atuais Estados da Califórnia, Novo México, Arizona, Nevada, Utah, e partes do Colorado e Wyoming. Em 1867, a compra do Alasca da Rússia por 7,2 milhões de dólares completaria a expansão continental.

Fonte : U.S. Geological Survey
1.2 A Dimensão Demográfica e Econômica da Expansão.
Em apenas cinquenta anos, os Estados Unidos adquiriram 2,3 milhões de milhas quadradas, aumentando seu território em dez vezes. Essa expansão não foi apenas geográfica, mas também demográfica e econômica. A população cresceu de 5,3 milhões em 1800 para 23 milhões em 1850, enquanto a economia se transformava rapidamente de agrária para industrial.
O movimento para oeste teve primeiro os exploradores e caçadores, depois os missionários e comerciantes, seguidos pelos agricultores e finalmente pelos interesses comerciais e industriais. A construção de ferrovias, particularmente a Primeira Ferrovia Transcontinental concluída em 1869, acelerou a integração econômica dos novos territórios.
Esta expansão teve custos humanos devastadores para as populações nativas. A política de remoção forçada, culminando no infame “Trail of Tears” que deslocou milhares de cherokee de suas terras ancestrais, foi justificada pela necessidade econômica. A ideia de “terra vazia” (terra nullius) ignorava deliberadamente a presença de centenas de nações indígenas com suas próprias culturas, sistemas políticos e reivindicações territoriais.
1.3 O Destino Manifesto: A Ideologia da Expansão.
A expansão territorial necessitava de uma justificativa ideológica poderosa, e essa foi fornecida pela doutrina do Destino Manifesto. Cunhado pela primeira vez pelo jornalista John L. O’Sullivan em 1845, o termo encapsulava a crença de que os Estados Unidos tinham uma missão divina para expandir-se por todo o continente, levando consigo os valores da democracia, liberdade individual e civilização cristã.
O Destino Manifesto operava em múltiplos níveis. Religiosamente, apresentava a expansão como cumprimento de um plano providencial. Racialmente, baseava-se em teorias de superioridade anglo-saxônica que justificavam a dominação sobre mexicanos e povos indígenas. Politicamente, associou a expansão territorial à difusão dos valores republicanos.
Esta doutrina foi respaldada pela “Tese da Fronteira” do historiador Frederick Jackson Turner, apresentada em 1893. Turner argumentava que a existência de uma fronteira em constante movimento para oeste havia sido o fator fundamental na formação do caráter nacional americano — individualista, democrático, inovador e intrinsecamente expansionista. Quando o censo de 1890 declarou oficialmente o fechamento da fronteira continental, uma questão crucial emergiu: para onde direcionar essa energia expansionista que havia se tornado parte integral da identidade nacional?
2 – A Doutrina Monroe.
2.1 O Contexto Hemisférico de 1823.
A proclamação da Doutrina Monroe em 2 de dezembro de 1823 ocorreu em um momento de transformação geopolítica. As antigas colônias ibéricas na América Latina travavam suas guerras de independência (1808-1826), inspiradas pelas revoluções Americana e Francesa. Enquanto isso, as potências europeias da Santa Aliança — Rússia, Prússia, Áustria e França — consideravam intervir para restaurar o domínio espanhol ou estabelecer novas colônias.
A posição dos Estados Unidos era ambivalente. Por um lado, simpatizavam com os movimentos independentistas que espelhavam sua própria experiência revolucionária. Por outro, temiam que a instabilidade regional pudesse atrair intervenção europeia que ameaçasse sua segurança. A solução encontrada por Monroe foi estabelecer dois princípios fundamentais que moldariam a política externa dos Estados Unidos por dois séculos.
- O princípio da não-colonização que declarava que os continentes americanos… não estão mais abertos à colonização europeia.
- O princípio da não-intervenção que alertava que qualquer tentativa da Europa de estender seu sistema político às Américas seria considerada uma ameaça a paz e a segurança dos Estados Unidos.
Na sua essência original, a doutrina era defensiva e isolacionista. Os Estados Unidos, ainda uma nação jovem com recursos militares limitados, não tinham capacidade — nem inicialmente intenção — de impor sua vontade sobre o resto do hemisfério. Curiosamente, a viabilidade da doutrina dependia do apoio tácito da Royal Navy, que também tinha interesse em manter a América Latina livre de monopólios coloniais para garantir mercados abertos ao seu comércio.
2.2 Protetorado sem Consentimento.
A contradição no cerne da Doutrina Monroe residia em seu caráter unilateral. Monroe declarou-se protetor das nações latino-americanas sem consultá-las, sem pedir sua permissão e sem estabelecer mecanismos de decisão conjunta. Esta conduta estabeleceu um padrão que marcaria as relações interamericanas pelos séculos seguintes: a ideia de que os Estados Unidos sabiam o que era melhor para seus “vizinhos” do sul.
Esta atitude refletia não apenas diferenças de poder, mas também profundas assimetrias culturais e raciais. A visão predominante em Washington via as repúblicas latino-americanas como politicamente instáveis, economicamente atrasadas e racialmente inferiores — portanto, necessitadas de orientação e proteção.
Por décadas após sua proclamação, a Doutrina Monroe permaneceu mais como princípio retórico do que como política ativa. Isso mudaria radicalmente com a virada do século XX, quando os Estados Unidos emergiram como potência industrial e militar capaz de fazer cumprir, pela força se necessário, os princípios que Monroe havia apenas declarado.
3: A Virada Imperial: Guerra Hispano-Americana e a Emergência como Potência Global (1898).
3.1 O Contexto do Final do Século XIX
O final do século XIX encontrou os Estados Unidos em uma posição paradoxal. Economicamente, haviam superado o Reino Unido como a maior economia industrial do mundo. Sua produção de aço, carvão e manufaturas superava a de qualquer país europeu. Militarmente, porém, permaneciam uma potência essencialmente continental, com capacidade limitada de projeção de poder além de suas costas.
Esta discrepância entre poder econômico e capacidade militar gerou um debate intenso sobre o papel dos Estados Unidos no mundo. De um lado, estavam os isolacionistas que argumentavam que o país deveria focar no desenvolvimento interno. Do outro, expansionistas como o almirante Alfred Thayer Mahan, cuja obra “A Influência do Poder Naval na História” (1890) defendia que o futuro pertencia às potências que controlassem os mares e estabelecessem bases estratégicas globais.
3.2 A Guerra Hispano-Americana: Causas e Consequências
O ponto de virada foi a Guerra Hispano-Americana de 1898. O conflito teve origem na luta cubana pela independência da Espanha, mas foi precipitado pelo misterioso naufrágio do navio de guerra USS Maine no porto de Havana em 15 de fevereiro de 1898. A imprensa sensacionalista americana (na prática conhecida como “yellow journalism”) imediatamente atribuiu o desastre a sabotagem espanhola, criando um clamor público por guerra.
A guerra propriamente dita foi breve — durou apenas dez semanas — e unilateral. A esquadra americana destruiu a frota espanhola nas Filipinas (Batalha da Baía de Manila) e em Cuba (Batalha de Santiago de Cuba). O Tratado de Paris, assinado em 10 de dezembro de 1898, estabeleceu os termos da rendição espanhola:
- Cuba: Tornou-se protetorado dos Estados Unidos status formalizado pela Emenda Platt de 1901, que dava aos EUA o direito de intervir nos assuntos cubanos.
- Porto Rico, Guam e Filipinas: Foram cedidos aos Estados Unidos como territórios
- Havaí: Anexado durante o conflito (Resolução Newlands de 1898)
3.3 Significado Geopolítico da Guerra
A Guerra Hispano-Americana representou múltiplas transformações simultâneas, como segue: Primeiro, marcou a transição dos Estados Unidos de potência continental para potência imperial global. Pela primeira vez, adquiriam territórios ultramarinos habitados por populações não anglo-saxãs que não seriam integradas como estados da União. Segundo, estabeleceu os Estados Unidos como potência naval com capacidade de projeção global. A vitória demonstrou a eficácia das teorias de Mahan sobre poder naval. Terceiro, criou uma infraestrutura imperial no Pacífico e Caribe que exigiria proteção e manutenção, levando logicamente a intervenções futuras. Quarto, estabeleceu um padrão de justificativa ideológica: a guerra foi vendida ao público americano não como conquista imperial, mas como missão humanitária para “libertar” cubanos e filipinos do jugo espanhol.
Em síntese, os Estados Unidos não apenas defendiam o hemisfério de potências externas mas antes, assumiam o papel de potência colonial na região, estabelecendo um protetorado sobre Cuba que duraria até 1934.
4- O Corolário Roosevelt e a Política do “Big Stick” (1901-1914)
4.1 Theodore Roosevelt e a Reinterpretação da Doutrina Monroe
Sob a presidência de Theodore Roosevelt (1901-1909), a Doutrina Monroe foi reinterpretada de forma agressiva e expansionista. Roosevelt personificava a nova confiança americana: jovem, enérgico, profundamente convencido do destino imperial de seu país e discípulo das teorias navais de Mahan.
A oportunidade para reformular a doutrina surgiu em 1904, durante uma crise financeira na República Dominicana. O país havia acumulado dívidas significativas com credores europeus, que ameaçavam intervenção armada para cobrá-las. Roosevelt viu nisso uma violação potencial da Doutrina Monroe e agiu decisivamente.
Em sua mensagem anual ao Congresso em 6 de dezembro de 1904, Roosevelt anunciou o que ficaria conhecido como o “Corolário Roosevelt” à Doutrina Monroe. Seu raciocínio era simples, mas suas implicações eram revolucionárias: se os Estados Unidos proibiam a Europa de intervir na América Latina para cobrar dívidas ou restaurar a ordem, então tinham a responsabilidade de intervir eles mesmos para garantir que as dívidas fossem pagas e a estabilidade mantida.
4.2 A Política do “Big Stick”
A política ficou conhecida como a do “Big Stick”, baseada no provérbio africano que Roosevelt apreciava: “Fale suavemente e carregue um grande porrete; você irá longe“. O “porrete” era a Marinha de guerra dos EUA, que Roosevelt modernizou e expandiu agressivamente, criando a Great White Fleet (Grande Frota Branca) que circum-navegou o globo entre 1907 e 1909 para demonstrar o poder naval americano.
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Roosevelt aplicou sua política de forma consistente em toda a região como apresenta o mapa.
- 1903: Apoiou a separação do Panamá da Colômbia para garantir os direitos de construção do Canal do Panamá
- 1906-1909: Intervenção em Cuba para “restaurar a ordem” durante a Revolução Cubana
- 1912-1933: Ocupação da Nicarágua
- 1915-1934: Ocupação do Haiti
- 1916-1924: Ocupação da República Dominicana

Fonte: International Enciclopedia the First World War.
4.3 O Canal do Panamá: Símbolo da Nova Hegemonia
O Corolário Roosevelt encontrou sua expressão mais concreta no projeto do Canal do Panamá. Roosevelt reconhecia que um canal interoceânico seria vital tanto para o poder naval quanto para o comércio global dos EUA. Quando o Senado colombiano rejeitou o tratado que daria aos Estados Unidos direitos perpétuos sobre uma zona do canal, Roosevelt apoiou um movimento separatista no Panamá.
O novo país, reconhecido imediatamente pelos Estados Unidos, assinou o Tratado Hay-Bunau-Varilla (1903), que concedia aos norte-americanos o controle virtualmente permanente sobre uma Zona do Canal de 10 milhas de largura. O Canal, concluído em 1914 após uma década de construção que custou milhares de vidas, não apenas facilitou o comércio global, mas transformou o Caribe em no “Mare Nostrum Americano“
Para proteger essa rota vital, os Estados Unidos estabeleceram uma rede de bases navais e justificaram intervenções frequentes na região sob o argumento de proteger seus interesses estratégicos. A lógica era circular, mas eficaz: o Canal exigia proteção, que por sua vez exigia intervenção, que reforçava o controle sobre a região, que garantia a segurança do Canal.
5: Do “Big Stick” ao “Bom Vizinho”: Evoluções e Continuidades (1914-1945)
5.1 A Primeira Guerra Mundial e o Intervencionismo
O período entre as duas guerras mundiais testemunhou uma expansão, paradoxalmente, tanto do intervencionismo quanto das críticas a ele. A Primeira Guerra Mundial reforçou a posição dos Estados Unidos como potência global, enquanto a Revolução Russa de 1917 introduziu uma nova dimensão ideológica às relações interamericanas: o temor do comunismo.
Na década de 1920, as intervenções americanas continuaram, mas começaram a enfrentar resistência crescente tanto internamente quanto na América Latina. O massacre de haitianos por fuzileiros navais americanos em 1929, por exemplo, gerou críticas ferozes no Congresso e na imprensa.
5.2 A Política do “Bom Vizinho”
A Grande Depressão e a eleição de Franklin D. Roosevelt em 1932 trouxeram mudanças significativas. Em 1933, Roosevelt anunciou a Política do “Bom Vizinho”, prometendo respeito à soberania latino-americana e não-intervenção. Na prática, isso significou o fim das ocupações militares na República Dominicana em 1924, na Nicarágua em 1933 e no Haiti em 1934. Além da revogação da Emenda Platt em 1934 que tinha tornado efetivamente Cuba um protetorado dos Estados Unidos.
No entanto, o “Bom Vizinho” foi mais retórica do que realidade. O poder econômico americano continuou a dominar a região, e quando interesses estratégicos foram considerados ameaçados — como no caso do governo reformista de Jacobo Árbenz na Guatemala em 1954 — a intervenção retornou sob novas formas.
5.3 A Segunda Guerra Mundial e a Consolidação da Hegemonia
A Segunda Guerra Mundial consolidou definitivamente a hegemonia americana no hemisfério. Com a Europa devastada pelo conflito, os Estados Unidos emergiram como a única potência econômica e militar intacta, posição que utilizaram para moldar a ordem internacional pós-guerra através das instituições de Bretton Woods (FMI, Banco Mundial) e do sistema das Nações Unidas.
Na América Latina, isso se traduziu em uma mistura de cooperação e coerção. Por um lado, os Estados Unidos promoveram a aliança militar através do Tratado Interamericano de Assistência Recíproca (TIAR) de 1947. Por outro, começaram a ver qualquer movimento reformista ou nacionalista como potencialmente comunista, preparando o terreno para a intervenção da Guerra Fria.
6: A Guerra Fria: Monroe Vestindo a Roupa Anticomunista (1947-1991)
6.1 A Reconfiguração da Doutrina Monroe
O início da Guerra Fria trouxe uma nova e poderosa justificativa para a intervenção americana na América Latina: o combate ao comunismo. A Doutrina Monroe foi atualizada e enquadrada dentro da Doutrina de Contenção formulada por George F. Kennan, que defendia a necessidade de conter a expansão soviética em todo o mundo.
Qualquer governo reformista, nacionalista ou de esquerda passou a ser visto como uma potencial cabeça-de-ponte de Moscou no Hemisfério Ocidental. Esta lógica justificou algumas das intervenções mais controversas da história americana:
6.2 Casos Emblemáticos da Guerra Fria
Guatemala, 1954: A CIA orquestrou o golpe que derrubou o presidente democraticamente eleito Jacobo Árbenz, cujas reformas agrárias ameaçavam os interesses da United Fruit Company. O operativo PBSUCCESS estabeleceu um padrão: uso de propaganda, apoio a forças opositoras e negação plausível.
Cuba, 1961-1991: Após a Revolução Cubana, os Estados Unidos iniciaram uma campanha multifacetada que incluía a invasão fracassada da Baía dos Porcos (1961), o embargo econômico (iniciado em 1960 e intensificado em 1962), tentativas de assassinato de Fidel Castro e isolamento diplomático.
República Dominicana, 1965: Intervenção militar de 20.000 fuzileiros navais para impedir a volta ao poder do ex-presidente reformista Juan Bosch, sob a alegação de prevenir “outra Cuba”.
Chile, 1973: Apoio financeiro e político da CIA à oposição que desestabilizou o governo de Salvador Allende, culminando no golpe militar de Augusto Pinochet.
América Central, anos 80: Envolvimento profundo nas guerras civis de El Salvador (apoio ao governo) e Nicarágua (apoio aos “Contras”), com o argumento de barrar a expansão sandinista.
6.3 A Sofisticação dos Métodos
Durante a Guerra Fria, a intervenção se sofisticou: menos ocupações militares prolongadas, mais golpes de Estado patrocinados, guerra econômica, operações secretas e apoio a regimes autoritários aliados. A Escola das Américas, estabelecida no Panamá em 1946, treinou milhares de militares latino-americanos em técnicas de contrainsurgência, muitos dos quais depois participaram de governos ditatoriais.
A justificativa ideológica era poderosa, mas frequentemente servia para encobrir interesses econômicos. Como observado por analistas, mesmo durante a Guerra Fria os EUA frequentemente “abandonaram qualquer pretensão de que isso tenha sido feito pelo bem da democracia”, apoiando regimes autoritários desde que fossem anticomunistas.
Para ilustrar, segue o mapa com todas as intervenções dos Estados Unidos apoiando os golpes militares na América Latina.

Fonte : G Zero.
7: O Pós-Guerra Fria e as Novas Justificativas (1991-2016)
7.1 O “Momento Unipolar” e a Busca por Novas Missões
O colapso da União Soviética em 1991 eliminou a principal justificativa ideológica para a intervenção americana. Nos anos 1990, os Estados Unidos falaram em uma “Parceria para as Américas“ e promoveram iniciativas como a Área de Livre Comércio das Américas (ALCA).
No entanto, a lógica subjacente da Doutrina Monroe não desapareceu; ela se adaptou a novas “ameaças” que justificassem a presença e influência americanas:
7.2 As Novas “Ameaças”
As ‘novas ameaças’ foram identificadas como : narcotráfico, terrorismo e imigração.
A “Guerra às Drogas”, declarada por Richard Nixon em 1971, ganhou novo impulso nos anos 1990 como justificativa para intervenção. O Plano Colômbia, iniciado em 2000, canalizou mais de 10 bilhões de dólares em ajuda militar e policial, transformando um conflito interno em uma frente da guerra global contra as drogas.
Os ataques de 11 de setembro de 2001 forneceram uma justificativa ainda mais ampla. A “Guerra ao Terror” global se estendeu à América Latina através de iniciativas como a Iniciativa Mérida no México.
O controle dos fluxos migratórios tornou-se uma prioridade de segurança nacional, influenciando políticas para a América Central e justificando intervenções indiretas.
Como podemos notar, não há nada de novo nas narrativas atuais, pois todas ainda declaram os mesmos problemas.
8: A “Doutrina Donroe”: A Intervenção na Venezuela (2026)
8.1 O Contexto Imediato
A intervenção militar direta na Venezuela em fevereiro de 2026 representa, nas algo sem precedentes, pois pela primeira vez os Estados Unidos intervém diretamente na América do Sul. A operação que resultou no sequestro do presidente Nicolás Maduro e sua esposa, seguido por seu transporte para julgamento em Nova York, marca uma escalada qualitativa na longa história da intervenção americana na região.
Geograficamente, rompe com um padrão histórico: enquanto no século XX as intervenções diretas se concentraram no Caribe e na América Central, na América do Sul os EUA preferiram métodos indiretos. A ação na Venezuela estabelece um precedente perigoso para a sub-região.
8.2 Características da “Doutrina Donroe“
A análise da intervenção revela características distintivas que o próprio governo denomina de “Doutrina Donroe” — uma fusão dos nomes Donald Trump e James Monroe que sintetiza esta nova fase.
Enquanto intervenções passadas eram justificadas por valores como democracia ou direitos humanos, a ação na Venezuela não houve nenhuma menção a estas questões. A justificativa apresentada — inicialmente narcoterrorismo, depois clientelismo via narcotráfico — mostrou-se insustentável. Como vimos na declaração do Presidente Trump em Mar-a-Lago, a preocupação foi essencialmente na questão do petróleo. Este interesse reside no fato de que a Venezuela detém as maiores reservas comprovadas de petróleo do mundo, e o governo americano deixou claro que busca acesso para empresas norte-americanas. O próprio discurso oficial referiu-se ao “nosso petróleo”, em clara demonstração de apropriação de recursos localizados em outro país soberano.
Se a Doutrina Monroe original visava potências europeias, e durante a Guerra Fria focava no comunismo soviético, a “Doutrina Donroe” mira claramente a República Popular da China. O motivo é que ela tornou-se nas últimas décadas o principal parceiro comercial de vários países latino-americanos, investindo massivamente em infraestrutura através da Iniciativa do Cinturão e Rota.
A intervenção na Venezuela pode ser traduzida na seguinte mensagem: os Estados Unidos não permitirão que a China expanda sua influência no que consideram sua esfera exclusiva. A postagem do Departamento de Estado no X — “Este é o NOSSO hemisfério“ — sintetiza essa mentalidade renovada de posse.
Outra característica que se identifica claramente na Doutrina de Trump está localizada em duas correntes distintas. A primeira é ideológica e é representada pela figura do Secretário de Estado Marco Rubio. Esta corrente tem como objetivo as mudanças de regime na Venezuela, em Cuba e na Nicarágua.
A segunda corrente é transacional representada pelo Presidente Trump cujo interesse está focado em acordos econômicos vantajosos do que apoiar ou promover valores democráticos.
9: Implicações Regionais e Respostas Latino-Americanas
9.1 O Dilema Latino-Americano
A resposta dos países da região à intervenção tem sido limitada, consistindo principalmente em condenações verbais e pedidos de reunião do Conselho de Segurança da ONU. A fragmentação ideológica dificulta uma resposta coordenada: enquanto governos de esquerda condenam veementemente a ação, governos de direita tendem a apoiá-la ou manter silêncio cúmplice.
Esta divisão é habilmente explorada pela estratégia americana, que isola países e os pressiona individualmente. A política de acordos comerciais bilaterais preferenciais com governos alinhados, combinada com sanções contra governos opositores, aprofunda as divisões regionais.
9.2 Brasil e as Interferências Eleitorais e Futuro imediato da Venezuela.
A intervenção na Venezuela expõe um grande risco de termos interferências em processos eleitorais regionais no Brasil. Poderá ocorrer por parte do Governo Trump apoio a candidatos da extrema direita em nosso país, além da pressão econômica e sanções seletivas criando um novo modelo de intervenção indireta, mas eficaz.
Em relação ao cenário venezuelano permanece difuso. Os militares mantêm, até o momento, apoio ao governo chavista, agora liderado interinamente pela vice-presidente Delcy Rodríguez. A Constituição exige eleições em prazos curtos (30 dias se a ausência for permanente, 180 se for temporária), mas o temor de líderes políticos e militares de serem processados e extraditados, como ocorreu com Maduro, atua como fator de coesão.
O governo interino enfrenta o dilema de resistir nacionalmente ou negociar condições que garantam sua sobrevivência política. A retórica inicial de resistência — “não seremos uma colônia” — deu lugar a sinais de disposição para negociar “pelo desenvolvimento”, sugerindo uma acomodação pragmática aos novos fatos no terreno.
Conclusão:
A intervenção na Venezuela de 2026, analisada através da lente histórica da expansão americana e da evolução da Doutrina Monroe, revela-se não como um evento isolado, mas como o capítulo mais recente em uma história de dois séculos. A “Doutrina Donroe” representa tanto continuidade quanto ruptura.
Continuidade na afirmação de hegemonia americana sobre o hemisfério ocidental. Desde a expansão territorial do século XIX até a intervenção de 2026, uma linha conecta a crença no Destino Manifesto, a proclamação unilateral da Doutrina Monroe, o Corolário Roosevelt, as intervenções da Guerra Fria e a ação contemporânea na Venezuela: a convicção de que os Estados Unidos têm direito a determinar os rumos de seu “quintal” estratégico.
Ruptura na declaração da hegemonia estadunidense no Hemisfério Ocidental. O que mudou não é a intenção, mas os métodos e a franqueza com que os interesses são declarados. Enquanto no século XIX falava-se em “Destino Manifesto”, no início do XX em “missão civilizatória”, durante a Guerra Fria em “defesa da democracia”, no século XXI fala-se simplesmente em “nosso hemisfério” e “nosso petróleo“.
Para a América Latina, o que nos cabe é responder a seguinte questão: como construir soberania coletiva frente a uma potência que nunca abandonou a visão intervencionista?
Este é o nosso desafio histórico, pois a sombra da Doutrina Monroe de 1823 ainda se projeta na nossa região.
André Luiz Varella Neves – Doutor em Ciência Política pela USP e Subchefe do Departamento de Estudos Estratégicos e Relações Internacionais do INEST/UFF. Especialista em Geopolítica e Estratégia dos Estados Unidos, coordena o Laboratório de Estudo da Grande Estratégia dos Estados Unidos (Lab-GEST).
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