quinta-feira, 29 de janeiro de 2026

A importância de Karl Marx hoje, por Wesley Sousa

 

A filosofia (e profundidade) de Marx é maior que o estandarte comum de “comunismo”, “luta de classes” e tantos outros jargões que o senso comum propagara


Do Jornal GGN:

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A importância de Marx hoje, por Wesley Sousa

Não é demais afirmar que Marx foi, antes de tudo, um filósofo. Um filósofo que, certamente, é mais comentado do que lido ao longo dos tempos – sobretudo pelos seus “adversários” políticos e teóricos. Com a segmentação das ciências, todavia, cada ramo quer um Marx para chamar de “seu”: o Marx sociólogo, o Marx historiador, o Marx da ciência política e o Marx da economia.

A filosofia de Marx é maior que o estandarte comum de “comunismo”, “luta de classes” e tantos outros jargões que o senso comum propagara ao longo dos tempos. No que é mais central ao pensamento de Marx: a crítica da forma do capital em seu núcleo[2]. A mercadoria é o ponto de partida, a célula do funcionamento do capitalismo; mas, é o capitalismo, a sociedade cujo pressuposto se efetiva através da produção de valor (e o consequente mais-valia), engendrando alienações e estranhamentos específicos de sua base, o conjunto crítico mais profundo –, o que não coloca tais conceitos e temas outros como menores[3].

Em seu pensamento, há um nível profundo de compreensão da natureza da realidade e do Homem (sentido de humanidade). Uma das coisas que mais chama a atenção é como ele trata a autoconstituição humana. A modo como Marx fala da “atividade sensível”, entre subjetividade e objetividade, o entrelaçamento entre a matéria e o espírito; a discussão entre torno do materialismo do século XVIII (Diderot, Voltaire, ou mesmo Bentham[4]). Tudo isso fez de um jovem leitor de filosofia e literatura se interessar por aquilo de modo profundo. Era ali uma elevação filosófica que, vale lembrar, fundamentou uma tradição relevante até nossos dias – mais do que uma formação juvenil.

Marx escreve em “A Ideologia Alemã” algo como “As representações que seus indivíduos elaboram são representações a respeito de sua relação com a natureza, ou sobre suas mútuas relações […]. Os homens são produtores de suas representações, de suas ideias, etc. mas a consciência jamais pode ser outra coisa que o ser consciente, e o ser dos homens é o seu processo de vida real”.

A dinâmica capitalista explodiu a sua própria forma social e se coloca agora em processo ainda mais acelerado e incontrolável. A cultura de massas e as novas mídias parecem “aplainar” a “diferenciação” sistêmica: o que a crítica há mais de meio século denunciava, hoje é festejado como uma reintegração da arte à vida. A midiatização já vale nela mesma como certa emancipação das coerções da realidade capitalista.

Marx em O Capital escreve que “o modo de produção da vida material é que condiciona o processo da vida social, política e espiritual”. Marx não fundamenta a teoria da mais-valia para provar que o proletariado é explorado; ele a descobre no processo de produção da sociedade burguesa, a forma específica de exploração dessa classe particular, o proletariado. Ou seja, ele não rebaixa a ciência à política. O ponto é que o capitalismo, no decorrer de sua história (as categorias que engendram a maneira de expressar um conteúdo social), e como ele veio a ser, se colocou como diferente da maneira em que se expressa pela sua lógica, pelo seu funcionamento interno.

Assim, há quem interprete que sua lógica (do capital) refletiria como se desenvolveu na história, em identidade com seus desdobramentos lógicos, no qual um aspecto começa a ser pressuposto do desenvolvimento do outro, e que historicamente então só poderia ter se dado dessa forma. Caso contrário, a própria lógica do capital pareceria ficar “sem sentido”. Pois, como poderia o capitalismo e sua lógica ter vindo ao mundo e se autonomizado? Essa pergunta era desconcertante. Como o capitalismo funciona de tal forma como “funciona”?

Para Marx, o capital posto em marcha, em seu automovimento, exibe um funcionamento que não explica sua gênese. Suas categorias como resultados históricos viraram pressupostos (pela dependência de uma categoria se desdobrar na outra), então tudo se confunde[5].

“[…] Seria impraticável e falso, portanto, deixar as categorias econômicas sucederem-se umas às outras na sequência em que foram determinantes historicamente. A sua ordem é determinada, ao contrário, pela relação que têm entre si na moderna sociedade burguesa, e que é exatamente o inverso do que aparece como sua ordem natural ou da ordem que corresponde ao desenvolvimento histórico. Não se trata da relação que as relações econômicas assumem historicamente na sucessão de diferentes formas de sociedade. Muito menos de sua ordem “na ideia” ([como em] Proudhon) (uma representação obscura do movimento histórico). Trata-se, ao contrário, de sua estruturação no interior da moderna sociedade burguesa. […]” (Marx, Grundrisse, p. 87)[6]

Como escreveu Marx no terceiro livro do Capital, sobre o reino da necessidade (necessidade eterna de intercâmbio orgânico entre homem e natureza) se emerge o reino da liberdade (campo de escolha entre alternativas postas). O gérmen da sociedade futura brota das contradições insolúveis desta forma atual de sociabilidade. A superação – ou rompimento – não se trata de nenhum modelo a priori e idealizado, mas dos fundamentos da falsa universalidade burguesa.

A crítica de Marx é salutar porque “dá um nó” na forma convencional como pensamos as categorias filosóficas. Há realmente uma dificuldade muito genuína em romper com algumas interpretações possíveis e conseguir apreender a teoria, o abstrato sempre aparece no imediato (como a noção de “trabalho”). Acredito que, no caso, foi um acidente por vias tortas: por exemplo, um tipo “materialismo aleatório” (expressão de Louis Althusser), ou seja, uma apreensão do imediato que foi se complexificando, que eu tinha há muito tempo em mente, advindo daquele ateísmo crítico da religião de outrora (algo que falta hoje, para a crítica de mundo). Isso obviamente facilita perceber o caráter de uma sociedade regida amplamente por abstrações, tal qual seria dos deuses ou Deus; assim, descendo da crítica dos céus à terra, a crítica sem piedade de um mundo sem coração se faz valer, sem dúvidas, a importância de Marx. Em resumo, naquela crítica da religião anterior foi possível desdobrar a compreensão de mundo.

Fazendo uma paráfrase de Hegel: fazer valer as abstrações no mundo real significa destruir a realidade. Portanto, a importância de Marx hoje se justifica, pois o que chamamos de realidade ainda é a configuração destrutiva das categorias do capitalismo.


[1] Doutorando em Filosofia pela UFMG.

[2] Eu especularia que, o sentido de “crítica” (Kritik) em Marx, pode fazer alusão ao conceito de crítica de Kant: a delimitação e a circunscrição de uma ciência racional.

[3] Agradeço pela dica e interpelação do amigo Rodrigo Cruz (USP).

[4] O professor Rogério Picoli (UFSJ) havia, em certa ocasião, mencionado um certo Marx leitor de Bentham.

[5] Devo essa interpretação, entre outras sugestões, ao amigo e estudioso Gabriel Ahmad, pelo diálogo em tornar sucinta a exposição.

[6] Edição da Boitempo (São Paulo, 2011).

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