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sábado, 19 de março de 2022

Exclusivo: Licitação de R$ 450 mi para Comunicação do governo Bolsonaro é suspeita de direcionamento (entenda-se indícios de desonestidade na escolha, corrompendo a Lei de licitação)

 

Agência vencedora da licitação, ainda não finalizada, tem como diretora esposa de subsecretário de Comunicação responsável pelo edital


Reportagem de Patricia Faermann, no Jornal GGN:

Há suspeitas de favorecimento na licitação de R$ 450 milhões para conduzir a publicidade do Ministério da Comunicação do governo de Jair Bolsonaro deste ano. Além de dezenas de indícios de irregularidades no processo licitatório apontados pelas concorrentes, expostos abaixo, a Diretora de Atendimento da agência que saiu vitoriosa é esposa do Subsecretário de Gestão e Normas, Peter Erik Kummer, setor que foi responsável pela produção do edital.

Alessandra Matschinski é casada com Kummer, com quem tem dois filhos, e hoje é diretora de Atendimento na Calia Comunicação, agência de publicidade de São Paulo que obteve a vitória na licitação. Ambos vivem em Brasília, aonde Kummer trabalha.

Nas redes, ambos não informam estarem casados e não divulgam fotos pessoais. Foto de 2015, reproduzida no Facebook da publicitária, é um dos únicos registros

Antes de assumir o cargo na empresa, Matschinski foi também diretora de Atendimento e de Contas na Agência Nova/SB, de outubro de 2019 até novembro do ano passado. Nesse período, a agência Nova/SB também obtinha contratos junto ao Ministério da Saúde e da Comunicação do governo federal. O GGN não constatou irregularidades nestas licitações e a agência detém contratos com pastas do governo federal desde 2012.

A Calia Comunicação também tem histórico de sair vitoriosa em licitações em contas junto ao Ministério da Saúde e outras pastas do governo federal. Entretanto, acusações de fraude apontadas neste processo licitatório por outras concorrentes e a relação familiar levantaram as suspeitas deste caso.

Reprodução do DOU (acesse aqui) com a lista de pontuação e vencedora da licitação

Como diretora de atendimento, Alessandra Matschinski é responsável por fazer o contato entre a agência e o cliente, neste caso o Ministério das Comunicações. No governo, Peter Erik Kummer é o responsável por coordenar todas as propostas orçamentárias e planejamento de ações de comunicação, incluindo aprovar o conteúdo dos editais de licitação.

Reprodução Portaria nº 3.525 de 3 de setembro de 2021

O objetivo da pasta era contratar uma agência de publicidade para levar a cabo os serviços publicitários do Ministério das Comunicações do governo Bolsonaro, em ano estratégico eleitoral. O valor oferecido foi de R$ 450 milhões de reais.

Analisado pelo GGN, o edital (acesse aqui) não torna ilícito, de maneira direta, a participação de uma empresa concorrente que tenha entre seus funcionários pessoa com vínculo a membros da pasta. Para que fosse automaticamente desconsiderada, o vínculo familiar ou de interesse deveria ser com o sócio ou administrador da empresa.

Entretanto, a licitação veda expressamente que sejam divulgadas informações sobre o edital de maneira antecipada, antes da abertura do mesmo, e qualquer tentativa da empresa de influenciar a Comissão Especial ou a Subcomissão Técnica, que são os setores responsáveis por acompanhar o processo e avaliar as propostas.

Sem indicativos de que os ilícitos tenham ocorrido, a simples relação familiar da Diretora de Atendimento da agência de publicidade com o Subsecretário de Gestão e Normas permitiria incorrer em qualquer um dos fatos acima.

O edital também proíbe usar “qualquer elemento, critério ou fato sigiloso, secreto ou reservado que possa, ainda que indiretamente, elidir o princípio da igualdade entre as licitantes”, ou seja, que a empresa detenha alguma informação ou cenário que configure uma vantagem sobre as demais concorrentes, o que se configura neste caso.

Reprodução do Edital

Suspeitas de irregularidades

As outras empresas participantes da licitação recorreram do resultado, ainda que com o objetivo de obter a aprovação de suas propostas, questionando as pontuações obtidas e a condução do processo licitatório.

A Propeg Comunicação entrou com recurso afirmando que a Subcomissão técnica cometeu erros, ao desconsiderar na avaliação das propostas os critérios fixados pelo próprio edital.

Reprodução recurso ingressado pela Propeg Comunicação (íntegra aqui)

Como em todo processo licitatório, a Subcomissão técnica é sorteada, sendo dois membros do Ministério das Comunicações e um terceiro não ligado à pasta. De um total de 10 pessoas inscritas para participar do sorteio, foram escolhidos o servidor Bruno Martins Marra, assessor técnico da pasta, e Ana Letícia Barreto, atual Subsecretária de Imprensa, colega de Peter Kummer na Secretaria Especial de Comunicação.

A empresa DeBrito Propaganda LTDA. falou em “erro material evidente” sobre a pontuação calculada pela Subcomissão. A alegação é que um dos erros ocorreu na própria somatória dos pontos, gerando uma nota média inferior ao que efetivamente recebeu.

Reprodução recurso ingressado pela DeBrito Propaganda LTDA. (integra aqui)

“Nunca na história das licitações algo tão estranho”

Já a Propaganda Desigual LTDA. afirmou expressamente que as agências que foram desqualificadas da licitação tiveram suas propostas “subavaliadas”, enquanto que as aprovadas “tiveram notas deveras superdimensionadas, de modo que qualquer análise técnico-pericial simples demonstraria destoarem dos objetivos dispostos no Ato Convocatório”.

Reprodução recurso ingressado pela Propaganda Desigual LTDA. (íntegra aqui)

No documento enviado no último 4 de março, a agência alegou, ainda, situações caracterizadas de incomuns em uma concorrência pública, como a divulgação das justificativas técnicas das notas ser publicada 21 dias após à publicação do resultado.

Reprodução recurso ingressado pela Propaganda Desigual LTDA. (íntegra aqui)

A agência acusou as campanhas da licitante vencedora, Calia, e de outra, a Nova, de a Estratégia de Comunicação Publicitária obter elogios sem, contudo, atender ao briefing, ou seja, o solicitado pelo edital.

Reprodução recurso ingressado pela Propaganda Desigual LTDA. (íntegra aqui)

A agência Desigual chegou a contratar um estudo de avaliação da correlação estatística das notas, e concluiu que “nunca foi visto na história das licitações de publicidade algo tão estranho como a desproporção entre as notas de uma mesma participante entre critérios vinculantes”. A afirmação foi feita após verificar que, em critérios muito similares ou relacionados, as propostas receberam pontuações muito diferentes.

Por fim, a empresa acusou a Calia, vencedora da licitação, e outras agências participantes de “fortes indícios de identificação”, ou seja, de se identificar antes da etapa correta, ainda no momento da apresentação da proposta.

A identificação é um dos artifícios utilizados para o direcionamento de uma licitação, que segundo a análise da agência, “quem sabe de conluio”, justificaria as notas elevadas e destoantes das demais concorrentes.

Reprodução recurso ingressado pela Propaganda Desigual LTDA. (íntegra aqui)

Nas disposições finais do edital e a própria Lei de Licitações (nº 12.232) estabelecem que uma concorrência “será anulada se ocorrer ilegalidade em seu processamento e poderá ser revogada, em qualquer de suas fases, por razões de interesse público decorrente de fato superveniente devidamente comprovado, pertinente e suficiente para justificar tal conduta.”

Os questionamentos feitos pelas empresas passaram pela etapa de “contrarrazões” na semana passada, quando cada uma respondeu às alegações levantadas nos recursos. O próximo passo será a análise da Subcomissão Técnica e, em seguida, da Comissão Especial de Licitação, que poderão modificar as notas e também o resultado final da licitação.

domingo, 2 de setembro de 2018

A retórica de Barroso para fazer do caso Lula uma exceção. Por Patrícia Faermann



"Ministro ignorou prazos legais, criou sessão extraordinária, restringiu o direito garantido de defesa, adotou tempo recorde de análise das sustentações, mostrou-se vítima de relatoria do processo, rebaixou decisão do Comitê de Direitos Humanos da ONU, mas tentou tapar erros exaltando falso garantismo."

Do Jornal GGN:


Foto: Fabio Rodrigues Pozzebom/ABr

Para cassar a candidatura do ex-presidente Lula, o ministro Luís Roberto Barroso abusou de uma sequência de estratégias características da retórica sofista, na arte de persuadir o público por sua tese antilógica. Ao escancaradamente saltar diversos direitos de defesa inquestionáveis para se julgar uma candidatura, Barroso teve que se empenhar para que a última impressão não parecesse o que era. 
 
"Não houve, como pretendo demonstrar, nem apelo nem tratamento desigual", foi uma das frases introduzidas pelo ministro, com cautela, na noite de ontem. A fala tentava tapar um buraco deixado pelo relator, após ter saltado todos os prazos legais garantidos à defesa em processo como este.
 
Trata-se de fases importantes para a instrução do processo e que, por mais que exista brecha legal para se omitir ou não as seguir, ao longo deste mês diversos especialistas em direito eleitoral foram consultados apresentando o unânime consenso de que um caso como este, envolvendo um candidato à Presidência, Lula, preso desde o início de abril em um processo recheado de polêmicas, deveria, pelo menos, ter seu rito rigidamente seguido no TSE.
 
Pelo protocolo regimental, este caminho inclui, a partir da apresentação da defesa de Lula, um prazo de 5 dias para o Tribunal ouvir testemunhas indicadas por todas as partes - do candidato e dos acusadores. Paralelamente, os advogados também podem solicitar a coleta de provas, neste prazo de 5 dias. No caso dos 16 questionamentos apresentados por diversos partidos, políticos, advogados e candidatos à Justiça Eleitoral, muitos deles incluiam pedidos de coleta de provas e de testemunhas. Mas em seu voto, Barroso disse entender que não eram necessários.  
 
Justificou que os fatos eram de conhecimento "público e notório" e se valeu do contraditório argumento de que a "insegurança jurídica" ao se demorar para julgar este caso seria um risco maior do que ferir os próprios direitos da defesa: "Esta é uma etapa importante, quando não decisiva do processo eleitoral. Os fatos são notórios, todos os argumentos dos impugnantes e do impugnado são de conhecimento geral, não ha para qualquer razao para o Tribunal Superior Eleitoral contribuir para a indefinição e para a insegurança jurídica no país."
 
Ainda pelo caminho protocolar, em seguida, um prazo adicional de 5 dias é concedido para as alegações finais. Elas não servem para repetir o que já foi defendido na primeira manifestação das partes. Mas para que a partir da exposição da defesa do processado, Lula, ou dos acusadores, os ministros e a Procuradoria Eleitoral pudessem estudar os argumentos e possivelmente modificá-los.
 
A defesa de Lula, que diversas vezes foi acusada de tentar prolongar o resultado da cassação, não pediu testemunhas, nem provas, como o fizeram os partidos acusadores. Solicitou somente este tempo para que os juízes pudessem considerar e avaliar as sustentações da defesa. Mas o prazo legal de 5 dias não só não foi concedido por Barroso, como também essa "análise" foi feita em um tempo recorde. 
 
O relator usou menos de 24 horas para ler a defesa de Lula, desde que foi entregue. E os demais ministros apenas alguns minutos, ao vivo, durante a sessão, e com seus votos já escritos no papel.
 
Para abafar esse encurtamento no direito de defesa, Luis Roberto Barroso usou duas táticas. A primeira delas foi ocupar boa parte da apresentação introdutória do processo, nos primeiros minutos da sessão, para expor um resumo da defesa entregue pelo candidato do PT a ele, 24h atrás. E para que não houvesse dúvidas ao público, chegou a interromper a leitura de pontos da defesa para ressaltar a sua boa vontade em dedicar este tempo maior.
 
A segunda técnica foi apresentar-se a si como vítima do caso: logo nos primeiros minutos, Barroso mencionou que se pudesse escolher, não gostaria de estar nesta situação. Posteriormente, sustentou que o prazo de menos de um dia desde a apresentação da defesa também foi prejudicial a ele, como se não tivesse outra escolha, dizendo com expressões de fadiga que "a noite foi longa para mim e para a minha equipe".
 
Somadas a isso, da tese casuísta de que Barroso fazia o que estava a seu alcance e que também fora prejudicado pelo reduzido tempo, expressões chave durante todo este processo foram evidenciadas e repetidas pelo ministro para convencer de que possíveis erros se valiam por um bem maior.
 
Reverteu o conceito de "insegurança jurídica" que vislumbrava a própria defesa de Lula, ao ver o Tribunal fazer do caso Lula uma exceção, para sustentar que a insegurança nas instituições seria que um candidato pudesse ser impugnado após ter iniciado o horário de propaganda eleitoral. "Busco assegurar os direitos do impugnado e da sociedade brasileira, com os candidatos definidos, e não gerar ao meio do caminho, talvez, se precisasse fazer, uma substituição", disse. 
 
Por isso, mesmo com o raciocínio lógico da defesa de Lula, que no palanque do Tribunal solicitava o prazo de considerações finais, foram estes pontos que fizeram que os demais ministros encerrassem na madrugada deste sábado a decisão. Apesar de Fachin ter votado contra a cassação, mostrou-se convencido pelos argumentos da pressa. A própria presidente da Corte, Rosa Weber, admitiu que preferia a rigidez dos ritos processuais do que a pressa defendida por Barroso, mas que estava com a maioria.
 
Assim, todos os ministros foram convencidos de saltar os prazos legais a que Lula tinha direito. 
 
E se para o julgamento ser concluído na noite passada, Barroso abusou da retórica reversa, também assim o fez no argumento principal de contrariar a decisão do Comitê de Direitos Humanos da ONU, que obrigou o Brasil a possibilitar que Lula participe das eleições. Dizendo que a Lei da Ficha limpa "não foi um golpe", ironizou, fazendo referência a um dos principais argumentos de defensores de Lula para a sua prisão e perseguição política.
 
Na mesma linha sustentada, em contradição, pela Procuradora-Geral da República Raquel Dodge minutos antes, Barroso tentou levar à conclusão de que o pedido da ONU confrontava a Lei da Ficha Limpa e que a defesa dos direitos humanos estava sendo adotada pelo Judiciário brasileiro, ao fazer prevalecer a lei, reconhecida por sua característica democrática de ter saído das ruas.
 
"A Lei da Ficha limpa não foi um golpe. E não foi uma decisão de gabinete. Foi fruto de uma grande mobilização popular, em torno do aumento da moralidade e da probidade na política. Estamos falando de ampla liberdade democrática", disse ministro, levando à reversão do raciocínio de defesa e direitos humanos, e ignorando que a decisão da ONU não representava uma afronta à legislação brasileira.  
 
 


terça-feira, 15 de março de 2016

Da Primavera Árabe ao Brasil, como os EUA atuam na geopolítica


"Mas não foi pelo meio bélico que os Estados Unidos defendeu seus interesses nos países orientais em 2011. A essa outra forma de "ataque", o estrategista militar norte-americano Thomas Barnett denominou antecipadamente "sistemas administradores", na apresentação da Technology, Entertainment, Design (TED) 2005, intitulada "The Pentagon’s New Map for War & Peace". O "ataque" é efetivado em países alvos de desestabilização econômica ou social, e ocorre por meios de comunicação, jornais, ONGs, redes sociais, ativistas, empresários, organizações."
Entrevista: Luis Nassif e Patricia Faermann
 
 
Jornal GGN - Mais de cinco anos se passaram desde o início dos protestos no Oriente Médio, que ficaram conhecidos como Primavera Árabe. As revoltas foram desencadeadas contra presidentes que estavam entre 20 e 40 anos no poder. Mas as condições para os conflitos tinham motivações sociais: alto desemprego e economias estagnadas. Terreno ideal para o incentivo norte-americano, estrategista no investimento de milhões de dólares na disseminação de sua ideologia. 
 
Zine al-Abidine Ben Ali estava há mais de 20 anos no poder da Tunísia, Hosni Mubarak há 30 no Egito, Muammar Khadafi governou a Líbia por 42 anos, e Bashar al-Assad sucede o governo de 30 anos de seu pai na Síria, país que até hoje é palco de guerra civil, obrigando ao deslocamento de boa parte de sua população, agora na condição de refugiados pelo mundo. 
 
Mas não foi pelo meio bélico que os Estados Unidos defendeu seus interesses nos países orientais em 2011. A essa outra forma de "ataque", o estrategista militar norte-americano Thomas Barnett denominou antecipadamente "sistemas administradores", na apresentação da Technology, Entertainment, Design (TED) 2005, intitulada "The Pentagon’s New Map for War & Peace". O "ataque" é efetivado em países alvos de desestabilização econômica ou social, e ocorre por meios de comunicação, jornais, ONGs, redes sociais, ativistas, empresários, organizações.
 
Se condições similares são encontradas, atualmente, no Brasil, há quem defenda que não são coincidências. 
 
Para entender como a geopolítica dos Estados Unidos atua, o GGN conversou com o cientista político Luiz Alberto Moniz Bandeira, autor de mais de 20 obras, entre elas "A Segunda Guerra Fria - Geopolítica e dimensão estratégica dos Estados Unidos" (2013, Civilização Brasileira). Aos 80 anos, lança mais um livro em maio deste ano, "A Desordem Internacional".
 
"A crise hoje no Brasil é dimensionada de forma tão absurda como está ocorrendo porque os Estados Unidos não admitem a emergência de outra potência na América do Sul", afirmou. O pesquisador trouxe detalhes de como instituições norte-americana trabalham: "não é somente a CIA. (...) As ONGs, financiadas pelo dinheiro oficial e semi-oficial, como a USAID e a National Endowment for Democracy, atuam comprando jornalistas, treinando ativistas. O programa da Primavera Árabe foi elaborado, ainda, no tempo de George Bush", contou. E acredita que o mesmo está sendo feito no Brasil.
 
Acompanhe a seguir e nos vídeos alguns trechos da entrevista:
 
 
GGN - Sobre essa nova geopolítica americana nas guerras nos países árabes, de que maneira que se dava a estratégia de insuflação, o uso de redes sociais?
 
Moniz Bandeira - Os Estados Unidos têm como objetivo os neoconservadores. São eles que hoje compõem o principal segmento do partido republicano, infiltrado no partido democrata também, porque o [presidente Barack] Obama manteve esses neoconservadores em um Departamento de Estado. O objetivo é o domínio completo, espaço, área de todo o universo. O domínio total. 
 
E é preciso compreender que a crise hoje no Brasil é dimensionada de forma tão absurda como está ocorrendo porque os Estados Unidos não admitem a emergência de outra potência na América do Sul. A questão básica hoje está na moeda. A Rússia, assim como a China, estão empenhados em acabar com a predominância do petrodólar. Criar outro sistema financeiro internacional. Estão a fazer isso. Estou expondo isso com detalhe no meu novo livro, que vai sair em maio, "A Desordem Internacional".
 
Os Estados Unidos, quando não podem dominar, criam um caos. Agora, é preciso compreender que isso não é somente a CIA. A CIA gasta cerca de 80% do seu orçamento - que aliás, ninguém sabe, porque além do que há da ação oficial, ela tem empresas, até de agências de viagens, então tem um dinheiro muito diluído -, mas 80% que gasta do dinheiro oficial é em operações secretas. Isso já há muito tempo. Ao invés de coletar inteligência.
 
Porém, hoje, os Estados Unidos usam outras instituições. As ONGs, financiadas não só pelo dinheiro oficial e semi-oficial, como a USAID [United States Agency for International Development] e a National Endowment for Democracy, comprando jornalistas, treinando ativistas, pesquisadores. Há programa sobre isso. Esse da Primavera Árabe foi elaborado, ainda, no tempo de Bush.
 
Na Ucrânia, os cursos foram dados dentro da Embaixada dos Estados Unidos. Isso está tudo documentado. 
 
GGN - Que tipo de conteúdo eles davam nesses cursos?
 
Moniz Bandeira - O tema é defesa da democracia, combater a corrupção. São temas que sensibilizam a classe média, mobilizam. Essas instituições não atuam no vazio. Sempre, claro, as condições existem. No Oriente Médio, há um desemprego muito grande, as economias estagnadas, desemprego, sobretudo, para os jovens, que se formam, se educam, mas não encontram emprego. 
 
GGN - Nessa intervenção por meio de ONGs e ativismo político, todas as pessoas que eram ensinadas ou Organizações tinham conhecimento ou era uma forma de manipulação não explícita?
 
Moniz Bandeira - Eles financiam a criação dos jornais e blogs na internet, e rádios. Uma rádio foi criada em 2009, na Síria, mas funcionava na Inglaterra, com dinheiro americano. Os Estados Unidos destinaram na Síria, isso tudo documentado, entre 2005 e 2010 cerca de US$ 12 milhões. O orçamento de 2005 para 2006 foi de US$ 5 milhões.
 
 
GGN - A partir de 2002, após o atentado das Torre Gêmeas, teve a chamada Cooperação Internacional, que juntou o Ministério Público e as Polícias Federais de todos esses países para combater o crime organizado. Você chegou a analisar de que maneira os Estados Unidos estão se valendo disso, também, para as suas estratégias geopolíticas?
 
Moniz Bandeira - Eles faziam treinamentos como os militares na Academia do Panamá. Hoje eles não contam mais com os militares. Depois das ditaduras, eles viram que elas não deram certo. Por um lado, desmoralizaram os Estados Unidos, por causa dos direitos humanos. Por outro, os militares, de uma forma ou de outra são patriotas. Eles não estavam muito para o comunismo, mas não queriam ser submissos aos Estados Unidos. No Brasil, principalmente, no Peru, e mesmo na Argentina.
 
Eu tenho uma pesquisa em um dos livros meus sobre o voto do Brasil desde 1968 até o fim da ditadura. O Brasil votou muito mais vezes com os países neutros, e a União Soviética, a favor dos Estados Unidos. Eu tenho isso listado no livro "Brasil - Estados Unidos: a rivalidade emergente", quando eu estudo o regime militar. Inclusive, não obstante à custa dos direitos humanos, a Argentina também votou contra.
 
Eu não tenho dúvida de que no Brasil os jornais estão sendo subvencionados. De uma forma ou de outra, não sei como, mas estão. Não posso provar, mas é possível que por trás disso estejam as fundações de George Soros, que dão dinheiro aos jornalistas. Há jornalistas honestos. Mas há outros que estão na lista de pagamentos. Muitos desses jornalistas que eu sei estão nos Conselhos Fiscais de várias empresas estrangeiras. Ganham dinheiro com isso, escrevem no O Globo e em outros jornais.
 
Outro dia, o diretor geral da Polícia Federal declarou que muitos policiais, comissários e outros recebiam dinheiro da CIA diretamente em suas contas. Este é um conluio que devia acabar.
 
Por detrás disso tudo, não tenha dúvida que estão os recursos da USAID, que é um instrumento da National Endowment for Democracy, e das Fundações, que são várias, dos Soros e outras, por exemplo, que se opõem a certas construções de hidrelétricas no Brasil. Elas estão a serviço de empresas alemãs e usam como pretexto, sempre, a proteção da natureza, meio ambiente. A USAID, onde ela trabalha? Trabalha fora da embaixada. É uma organização "semi-oficial". A National Endowment for Democracy é financiada pelo Congresso, mas é também fora, recebe dinheiro do Congresso americano.
 
GGN - Se a gente pega a estrutura de poder dos Estados Unidos, falando da CIA, etc, não tem diferenças de orientação entre, por exemplo, o FBI, o Departamento de Estado, Departamento de Justiça?
 
Moniz Bandeira - Os Estados Unidos é um país muito complexo e contraditório. Isso está evidente na campanha eleitoral onde Sanders é dado como progressista, enquanto que, por parte dos republicanos, você vê a decadência. O Trump, em primeiro lugar, por que? Porque os outros são de Bush para pior. O Trump é maluco. Porém, a figura é o retrato da situação.
 
Quando recebi o Doutor Honoris Causa da Universidade da Bahia, eu disse que uma potência é muito mais perigosa quando está a perder a hegemonia do que quando constrói o seu império. Quando constrói o império, ela necessita ser aceita. Mas quando está perdendo... Como agora, os Estados Unidos não dominam mais, não têm mais o poder que tinham antes. Eu digo poder, porque, por exemplo, não influi mais sobre Israel. Os assentamentos continuam, não obstante a oposição dos EUA. Porque o lobby judaico dos Estados Unidos não deixa. E o governo de Israel mantem os assentamentos porque, realmente, não admite que haja dois estados. Isso, ideologicamente, já vem de muitos anos. Os Estados Unidos querem que todas as ideias se abalem.