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quinta-feira, 25 de julho de 2019

Conspiração e corrupção: uma hipótese provável, por José Luís Fiori e William Nozaki




E como diz Braudel: o capitalismo não é uma organização ética nem religiosa, e não tem nenhum compromisso com qualquer tipo de moral privada ou pública que não seja a da multiplicação dos lucros e a da expansão contínua dos seus mercados.


Do GGN:


Conspiração e corrupção: uma hipótese provável

por José Luís Fiori[1] e William Nozaki[2]

É comum falar de “teoria da conspiração”, toda vez que alguém revela ou denuncia práticas ou articulações políticas “irregulares”, ocultas do grande público, e que só são conhecidas pelos insiders, ou pelas pessoas mais bem informadas. E quase sempre que se usa esta expressão, é com o objetivo de desqualificar a denúncia que foi feita, ou a própria pessoa que tornou público o que era para ficar escondido, na sombra ou no esquecimento da história. Mas de fato, em termos mais rigorosos, não existe nenhuma “teoria da conspiração”. O que existem são “teorias do poder”, e “conspiração” é apenas uma das práticas mais comuns e necessárias de quem participa da luta política diária pelo próprio poder. Esta distinção conceitual é muito importante para quem se proponha analisar a conjuntura política nacional ou internacional, sem receio de ser acusada de “conspiracionista”. E é um ponto de partida fundamental para a pesquisa que estamos nos propondo fazer sobre qual tenha sido o verdadeiro papel do governo norte-americano no Golpe de Estado de 2015/2016, e na eleição do capitão Bolsonaro”, em 2018. Neste caso, não há como não seguir a trilha da chamada “conspiração”, que culminou com a ruptura institucional e a mudança do governo brasileiro. E nossa hipótese preliminar é que a história desta conspiração começou na primeira década do século XXI, durante o “mandarinato” do vice-presidente americano, Dick Cheney, apesar de que ela tenha adquirido uma outra direção e velocidade a partir da posse de Donald Trump, e da formulação da sua nova “estratégia de segurança nacional”, em dezembro de 2017.
No início houve surpresa, mas hoje todos já entenderam que essa nova estratégia abandonou os antigos parâmetros ideológicos e morais da política externa dos Estados Unidos, de defesa da democracia, dos direitos humanos e do desenvolvimento econômico, e assumiu de forma explícita o projeto de construção de um império militar global, com a fragmentação e multiplicação dos conflitos, e a utilização de várias formas de intervenção externa, nos países que se transformam em alvos dos norte-americanos. Seja através da manipulação inconsciente dos eleitores e da vontade política dessas sociedades; seja através de novas formas “constitucionais” de golpes de Estado; seja através sanções econômicas cada vez mais extensas e letais, capazes de paralisar e destruir a economia nacional dos países atingidos; seja, finalmente, através das chamadas “guerras híbridas” que visam destruir a vontade política do adversário, utilizando-se da informação mais do que da força, das sanções mais do que dos bombardeios, e da desmoralização intelectual dos opositores mais do que da tortura.
Desse ponto de vista, é interessante acompanhar e evolução dessas propostas nos próprios documentos americanos, nos quais são definidos os objetivos estratégicos do país e as suas principais formas de ação. Assim, por exemplo, no Manual de Treinamento das Forças Especiais Americanas Preparadas para Guerras Não-Convencionais, publicado pelo Pentágono em 2010, já está dito explicitamente que “o objetivo dos EUA nesse tipo de guerra é explorar as vulnerabilidades políticas, militares, econômicas e psicológicas de potências hostis, desenvolvendo e apoiando forças internas de resistência para atingir os objetivos estratégicos dos Estados Unidos”. Com o reconhecimento de que “em um futuro não muito distante, as forças dos EUA se engajarão predominantemente em operações de guerra irregulares”[3]. Uma orientação que foi explicitada, de maneira ainda mais clara, no documento no qual se define, pela primeira vez, a nova Estratégia de Segurança Nacional dos EUA do governo de Donald Trump, em dezembro de 2017. Ali se pode ler, com todas as letras, que o “combate à corrupção” deve ter lugar central na desestabilização dos governos dos países que sejam “competidores” ou “inimigos” dos Estados Unidos.[4] Uma proposta que foi detalhada no novo documento sobre a Estratégia de Defesa Nacional dos EUA, publicado em 2018, em que se pode ler que “uma nova modalidade de conflito não armado tem tido presença cada vez mais intensa no cenário internacional, com o uso de práticas econômicas predatórias, rebeliões sociais, cyber-ataques, fake news, métodos anticorrupção”.[5]
É importante destacar que nenhum desses documentos deixa a menor dúvida de que todas estas novas formas de “guerra não convencional” devem ser utilizadas – prioritariamente – contra os Estados e as empresas que desafiem ou ameacem os objetivos estratégicos dos EUA.
Agora bem, neste ponto da nossa pesquisa, cabe formular a pergunta fundamental: quando foi – na história recente – que o Brasil entrou no radar dessas novas normas de segurança e defesa dos EUA? E aqui não há dúvida de que cabem muitos fatos e decisões que foram tomadas pelo Brasil, sobretudo depois de 2003, como foi o caso da sua política externa soberana, da sua liderança autônoma do processo de integração sul-americano, ou mesmo, da participação no bloco econômico do BRICS, liderado pela China. Mas não há a menor dúvida de que a descoberta das reservas de petróleo do pré-sal, em 2006, foi o momento decisivo em que o Brasil mudou de posição na agenda geopolítica dos Estados Unidos. Basta ler o Blueprint for a Secure Energy Future, publicado em 2011, pelo governo de Barack Obama, para ver que naquele momento o Brasil já ocupava posição de destaque em 3 das 7 prioridades estratégicas da política energética norte-americana: (i) como uma fonte de experiência para a produção de biocombustíveis; (ii) como um parceiro fundamental para a exploração e produção de petróleo em águas profundas; (iii) como um território estratégico para a prospecção de Atlântico Sul[6].
A partir daí, não é difícil de rastrear e conectar alguns acontecimentos, sobretudo a partir do momento em que o governo brasileiro promulgou – em 2003 – sua nova política de proteção dos produtores nacionais de equipamentos, com relação aos antigos fornecedores estrangeiros da Petrobras, como era o caso, por exemplo, da empresa norte-americana Halliburton, a maior empresa mundial em serviços em campos de petróleo , e uma das principais fornecedores internacionais das sondas e plataformas marítimas, e que havia sido dirigida, até o anos 2000, pelo mesmo Dick Cheney que viria a ser o vice-presidente mais poderoso da história dos Estados Unidos, entre 2001 e 2009. A Odebrecht, a OAS e outras grandes empresas brasileiras entram nessa história, a partir de 2003, exatamente no lugar dessas grandes fornecedoras internacionais que perderam seu lugar no mercado brasileiro. Cabendo lembrar aqui o início da complexa negociação entre a Halliburton e a Petrobrás[7], em torno à compra e entrega das plataformas P 43 e P 48, envolvendo 2,5 bilhões de dólares[8], começou na gestão de Dick Cheney e se estendeu até 2003/4, com a participação do Gerente de Serviços da Petrobrás, na época, Pedro José Barusco,  que depois se transformaria depis no primeiro delator conhecido da Operação Lava-Jato.[9]
Nesse ponto, aliás, seria sempre muito bom lembrar a famosa tese de Fernand Braudel, o maior historiador econômico do século XX, de que “o capitalismo é o antimercado”, ou seja, um sistema econômico que acumula riqueza através da conquista e preservação de monopólios, utilizando-se de todo e qualquer meio que esteja ao seu alcance. Ou ainda, traduzindo em miúdos o argumento de Braudel: o capitalismo não é uma organização ética nem religiosa, e não tem nenhum compromisso com qualquer tipo de moral privada ou pública que não seja a da multiplicação dos lucros e a da expansão contínua dos seus mercados. E isto é que se pode observar, mais do que em qualquer outro lugar, no mundo selvagem da indústria mundial do petróleo, desde o início de sua exploração comercial do petróleo, desde a descoberta do seu primeiro poço pelo “coronel” E. L. Drake, na Pensilvânia, em 1859.
Agora bem, voltando ao eixo central da nossa pesquisa e do nosso argumento, é bom lembrar que este mesmo Dick Cheney que vinha do mundo do petróleo, e teve papel decisivo como vice-presidente de George W. Bush, foi quem concebeu e iniciou a chamada “guerra ao terrorismo”, conseguindo o consentimento do Congresso Americano para iniciar novas guerras, mesmo sem aprovação prévia do parlamento; e o que é mais importante, para nossos efeitos, conseguiu aprovar o direito de acesso a todas as operações financeiras do sistema bancário mundial, praticamente sem restrições, incluindo o velho segredo bancário suíço, e o sistema e pagamento europeus, o SWIFT.
Por isso, aliás, não é absurdo pensar que tenha sido por esse caminho que o Departamento de Justiça norte-americano tenha tido acesso às informações financeiras que depois foram repassadas às autoridades locais dos países que os Estados Unidos se propuseram a desestabilizar com campanhas seletivas “contra a corrupção”. No caso brasileiro, pelo menos, foi depois desses acontecimentos que ocorreu o assalto e o furto de informações geológicas sigilosas e estratégicas da Petrobras, no ano de 2008, exatamente dois anos depois da descoberta das reservas petrolíferas do pré-sal brasileiro, no mesmo ano em que os EUA reativaram sua IV Frota Naval de monitoramento do Atlântico Sul. E foi no ano seguinte, em 2009, que começou o intercâmbio entre o Departamento de Justiça dos EUA e integrantes do Judiciário, do MP e da PF brasileira para tratar de temas ligados à lavagem de dinheiro e “combate à corrupção”, num encontro que resultou na iniciativa de cooperação denominada Bridge Project, da qual participou o então juiz Sérgio Moro.
Mais à frente, em 2010, a Chevron negociou sigilosamente, com um dos candidatos à eleição presidencial brasileira, mudanças no marco regulatório do pré-sal, numa “conspiração” que veio à tona com os vazamentos da Wikileaks, e que acabou se transformando num projeto apresentado e aprovado pelo Senado brasileiro. E três anos depois, em 2013, soube-se que a presidência da República, ministros de Estado e dirigentes da Petrobras vinham sendo alvo, há muito tempo, de grampo e espionagem, como revelaram as denúncias de Edward Snowden. No mesmo ano em que a embaixadora dos EUA que acompanhou o golpe de Estado do Paraguai contra o presidente Fernando Lugo foi deslocada para a embaixada do Brasil. E foi exatamente depois desta mudança diplomática, no ano de 2014, que começou a Operação Lava Jato, que tomou a instigante decisão de investigar as  propinas pagas aos diretores da Petrobrás,  exatamente a partir  de 2003, deixando fora portanto os antigos fornecedores internacionais, no momento exato em que concluíam as negociações da empresa com a Halliburton , em trono da entrega das plataformas P 43 e P48.
Se todos estes dados estiverem corretamente conectados, e nossa hipótese for verossímel, não é de estranhar que depois de cinco anos do início desta “Operação Lava-Jato”, os vazamentos divulgados pelo site The Intercept Brasil, dando notícias da parcialidade dos procuradores, e do principal juiz envolvido nessa operação, tenham provocado uma reação repentina e extemporânea dois principais acusados desta história que se homiziaram, praticamente, nos Estados Unidos. Provavelmente, em busca das instruções e informações que lhe permitissem sair das cordas, e voltar a fazer com seus novos acusadores o que sempre fizeram no passado, utilizando-se de informações repassadas para destruir seus adversários políticos. Entretanto, o pânico do ex-juiz e seu despreparo para enfrentar a nova situação fizeram-no comportar-se de forma atabalhoada, pedindo licença ministerial e viajando uma segunda vez para os Estados Unidos, e com isto tornou público o seu lugar na cadeia de comando de uma operação que tudo indica que possa ter sido a única operação de intervenção internacional bem-sucedida – até agora – da dupla John Bolton e Mike Pompeu, os dois “homens-bomba” que comandam a política externa do governo de Donald Trump.  Uma operação tutelada pelo norte-americanos e avalizada pelos militares brasileiros.
Por isso, se nossa hipótese estiver correta, não há a menor possibilidade de que as pessoas envolvidas neste escândalo sejam denunciadas e julgadas com imparcialidade, porque todos os envolvidos sempre tiveram pleno conhecimento e sempre aprovaram as práticas ilegais do ex-juiz e de seu “procurador-assistente”, práticas que foram decisivas para a instalação do capitão Bolsonaro na Presidência da República. O único que lhes incomoda neste momento é o fato de que sua “conspiração” tenha se tornado pública, e que todos tenham entendido quem é o verdadeiro poder que está por trás dos chamados “Beatos de Curitiba”.
24 de julho de 2019
[1] Professor titular do Programa de Pós-graduação em Economia Política Internacional (IE/UFRJ); pesquisador do Instituto de Estudos Estratégicos do Petróleo, Gás e Biocombustíveis (INEEP).
[2] Professor da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP) e diretor técnico do Instituto de Estudos Estratégicos do Petróleo, Gás e Biocombustíveis (INEEP).
[3] U.S. Department of the Army. U.S.Army Special Forces Unconventional Warfare Training Manual. Headquarters, Washington D.C., 2010. Disponível em: <https://publicintelligence.net/u-s-army-special-forces-unconventional-warfare-training-manual-november-2010/> Acessado em 22/07/2019.
[4] U.S. Department of Defense. National Security Strategy, Washington D.C., 2017. Disponível em: <https://www.whitehouse.gov/wp-content/uploads/2017/12/NSS-Final-12-18-2017-0905.pdf> Acessado em 22/07/2019.
[5] U.S. Department of Defense. National Defense Strategy, Washington D.C., 2018. Disponível em: <https://dod.defense.gov/Portals/1/Documents/pubs/2018-National-Defense-Strategy-Summary.pdf> Acessado em 22/07/2019.
[6] U.S. Department of Energy. Blueprint for a Secure Energy Future, Washington D.C., 2011. Disponível em: < htt”Os laços Petrobras Halliburton, 25/02/04ps://obamawhitehouse.archives.gov/issues/blueprint-secure-energy-future> Acessado em 22/07/019.
[7]    “Petrobrás fecha negócio bilionário com Halliburton,   www.dci.com.br, 20/04/04
[8]  “Os laços Petrobrás Halliburton, 25/02/2004, www.istoédinheiro.com.br
[9] “Veja na íntegra a delação premiada de Pedro Barusco”, https://poliitca.estadao.com.br, 05/02/2015

quarta-feira, 16 de novembro de 2016

Sobre o filme SNOWDEN, de Oliver Stone, por Carlos Antonio Fragoso Guimarães



Carlos Antonio Fragoso Guimarães

  Oliver Stone, cineasta americano, com seu novo filme, SNOWDEN - que no Brasil, devido ao poder mesmérico de uma "grande mídia" comprometida com a Direita mais infame e sua americanofilia, tem o subtítulo de "Herói ou Traidor?", querendo agradar não aos esclarecidos que conhecem a história da espionagem americana, mas aos zumbis paneleiros vestidos com a camisa da CBF - retoma de uma só vez sua veia crítica e seu talento de contar uma história real de forma envolvente e reflexiva, como já o fizera em seus filmes Platoon, Nascido em 4 de julho, Wall Street e em seus documentários Comandante e Ao Sul da Fronteira.

  Ao lado do igualmente genial cineasta político franco-helênico Costa Gravas e do documentarista americano Michael Moore, Oliver Stone tem sido um dos mais brilhantes divulgadores de um pensamento crítico sobre a política e formas de modelação de mentalidades por parte do governo americano e sua elite econômica (vide Platoon e Wall Street). Agora, ele traz às telas em um momento conturbado da história mundial os acontecimentos envolvendo a vida de Edward Snowden e a sua luta para esclarecer o mundo dos meios usados pelos Estados Unidos para espionar e sabotar a tudo e a todos. Para nós brasileiros - ao menos os ainda capazes de refletir e pensar os fatos sem a lavagem cerebral da Globo, Veja, Folha e similares -, a cena em que a voracidade de espionar e interferir no mundo é apresentada usando-se imagens da Petrobrás e de Dilma Rousseff é, ao mesmo tempo, reveladora e consoladora: mostra a um só tempo o jogo político e geopolpitico dos EUA sobre governos e empresas por eles considerados impróprios aos seus interesses. Mas o filme vai ainda além mostrando que todos, sem exceção, podem ser - e são - objetos de espionagem e fichamento. Ninguém escapa. A revelação de Snwden dos grampos americanos repercutiu no mundo inteiro, ainda que os EUA tenham feito todo o possível para minimizar a importância do fato.

  Lembremos que um dos principais responsáveis pela divulgação dos grampos americanos a partir da coragem de Snowden, o jornalista e prêmio Pulitzer Glenn Greenwald - retratado no filme pelo ator Zachary Quinto - mora no Brasil e tem sido uma das vozes mais claras a repercutir no mundo o Golpe da Direita Casa Grande, capitaneado pela Fiesp, Globo e forças internacionais, tendo possibilitado a versão em português do jornal The Intercept com váriios argtigos sobre o golpe e as maldades de Temer e Cia. Greenwald possibilitou que o mundo inteiro soubesse das táticas e métodos de espionagem da NSA e fez de Snowden um nome reconhecido internacionalmente.

  O filme em si é um trabalho primoroso, com roteiro muito bem escrito e ritmo preciso, envolvente. Começa com o primeiro encontro entre Snowden (Joseph Gordon-Levitt) , Greenwald e Laura Poitras (interpretado por Melissa Leo) em Hong Kong e vai, por meio de Flhasbacks, reconstruindo a historia do joven Snowden, seu acesso á CIA e ao NSA, seu despertar ante às arrogâncias e hipocrisia do imperialismo americano, seu relacionamento com a namorada e ativista Lindsay Mills (interpretado por Shailene Woodley), relacionamento, aliás, que possibilitou a decisão de Snowden de se arriscar ao divulgar o que sabia, com documentos que conseguiu salvar (numa cena de tirar o fôlego. Veja o trailer abaixo).

  Ao contrário dos filmes "padrão" de Hollywood, SNOWDEN - que praticamente se fez com a ajuda de produtras menos conhecidas, mas de uma qualidade muito superior a dos estúdios famosos - é um filme não apenas crítico e que faz pensar, mas uma obra de arte com profundidade, riqueza e que contribui para, ao menos por umas poucas horas, pensar no nosso papel e na História... Seremos nós a faze-la ou nos deixaremos ser vítimas dela, a partir do poder de alguns poucos?


segunda-feira, 14 de novembro de 2016

Lula concede entrevista exclusiva ao cineasta Oliver Stone, diretor do filme SNOWDEN, Wall Street, Platoon e outros




Jornal GGNEm visita ao Brasil para o lançamento do seu novo filme "Snowden", o cineasta norte-americano Oliver Stone foi convidado pelo portal Nocaute para entrevistar o ex-presidente Lula.
O ganhador de três Oscar iniciou a entrevista desejando ver novamente Lula como presidente. Em seguida, o petista iniciou analisando o momento político brasileiro como "um processo de violência contra a democracia". Para o ex-presidente há grandes chances de não haver eleições em 2018. "Não teria sentido eles darem o golpe parlamentar que deram e dois anos depois me devolverem a Presidência!", ponderou. Em, seguida, reconhecendo que o atentado contra a democracia no país tem como proposta evitar sua participação nas eleições de 2018. 
"E eu não sei como é que vai terminar, porque eu tenho desafiado eles a provar que algum empresário tenha me dado dinheiro. Eu vou até pedir ajuda pra CIA, para ver se conseguem descobrir uma conta minha no exterior. (risos)", seguiu Lula sem nunca perder seu tom irônico. Veja a seguir a entrevista completa.
Em visita ao Brasil para o lançamento de seu filme “Snowden”, o cineasta norte-americano Oliver Stone, ganhador de três Oscar, visitou o ex-presidente Lula, com quem almoçou e a quem entrevistou com exclusividade para o Nocaute. Participaram da entrevista o venezuelano Maximilien Arvelaiz e a intérprete Gala Dahlet. Assista ao bloco 1 da entrevista.
Por Fernando Morais
Oliver Stone entrevista Lula para o Nocaute. Bloco 1:
“Temos uma guerra aqui no Brasil. Aconteceu um processo de violência contra a democracia.”
Lula: Quando nós dois nos encontramos em Caracas, não, em Maracaibo, era um momento de muito otimismo na América Latina. Nós acreditávamos que estávamos construindo uma estrutura política mais prolongada. Mas aí veio a morte do Chávez, a morte do Kirchner, a minha saída da Presidência. E aí o trio que tentava organizar a América do Sul não existia mais. Foi uma pena. Uma pena. E eu sei que você tinha muita esperança, muita expectativa, mas precisamos começar tudo outra vez. Eu queria lhe dar os parabéns pelo novo filme, espero que tenha muito sucesso, como os outros. Bem vindo ao Brasil. 
Oliver: Muito obrigado. 
Lula: É uma pena que você veio muito mal acompanhado. (risos) O Max não é uma boa companhia. 
Oliver: Ele me levou a restaurante muito barulhento ontem à noite. (risos) Eu gostaria muito de ver o senhor ser presidente novamente. 
Lula: Olha, temos uma guerra aqui no Brasil. No Brasil aconteceu um processo de violência contra a democracia. Há todo um trabalho de construção de uma teoria mentirosa para justificar o afastamento da Dilma e a criminalização do PT. Eu fico pensando: não teria sentido eles darem o golpe parlamentar que deram e dois anos depois me devolverem a Presidência!
Eu acho que neste momento eles trabalham com a ideia de tentar evitar que eu tenha qualquer possibilidade de participar das eleições de 2018. E como eles não podem evitar a decisão do povo, eles estão tentando via Poder Judiciário. Há uma quantidade enorme de mentiras, as coisas mais absurdas, quem nem uma criança de parque infantil admitiria. E há uma combinação perfeita da imprensa, da Policia Federal e do Ministério Público que constroem, cada um a seu tempo, as mentiras. Só para você ter ideia, de março a agosto o principal canal de televisão aqui do Brasil, no seu principal jornal, teve 14 horas de matéria negativa contra mim. Em cinco meses. 
Maximilien: Ele se refere à TV Globo. 
Lula: E eu não sei como é que vai terminar, porque eu tenho desafiado eles a provar que algum empresário tenha me dado dinheiro. Eu vou até pedir ajuda pra CIA, para ver se conseguem descobrir uma conta minha no exterior. (risos) Agora, por falta de prova, eles dizem o seguinte: não peçam provas, porque o Lula criou um partido, esse partido é uma organização criminosa, o Lula indicou os ministros para roubar, portanto Lula é o chefe. Eu não tenho provas, eles dizem. Nós não temos provas, mas temos convicção. Então o que deixa eles preocupados é que quando eles fazem pesquisa de opinião pública eu apareço em primeiro lugar para 2018. Então eu não sei como é que vai ficar. Por enquanto, paciência. 
Oliver: o senhor tem grandes parceiros com quem pode contar, que lhe deem apoio? 
Lula: Nós entramos com um processo nas Nações Unidas, em Genebra, temos um movimento sindical internacional fazendo campanhas de denúncias, e vamos trabalhar agora os processos juridicamente.
Oliver Stone entrevista Lula para o Nocaute. Bloco 2:
“Se quiserem me derrotar vão ter que ir pra rua disputar comigo.”
Oliver Stone entrevista Lula para o Nocaute. Bloco 3:
“Nós aprovamos uma lei em que o petróleo era do povo brasileiro. E isso deixou muita gente irritada.”
Oliver Stone entrevista Lula para o Nocaute. Bloco 4:
“A questão do Irã foi a única coisa que me deixou decepcionado com o Obama.”
Oliver Stone entrevista Lula para o Nocaute. Bloco 5:
“Hillary Clinton não gosta da América Latina.”