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quarta-feira, 9 de janeiro de 2019

Saída do Brasil do Pacto Global de Migração da ONU cria caldo social para a xenofobia, diz especialista



Para Camila Asano, coordenadora de política externa da ONG Conectas, a decisão do governo Bolsonaro de tirar o Brasil do Pacto Global para a Migração da ONU é "extremamente lamentável" e coloca em risco a segurança de brasileiros no exterior





Foto divulgada em perfil de rede social

Por Revista Fórum 
Conforme noticiado pela Fórum nesta segunda-feira (7), diplomatas brasileiros no exterior confirmaram que o Itamaraty oficializou a saída do Brasil no Pacto Global para Migração da Organização das Nações Unidas (ONU), indo na contramão da maioria dos países do mundo e se alinhando a governos populistas e autoritários como o dos Estados Unidos e da Hungria.
Criado em 2017 e assinado por dois terços dos 193 países que compõem a ONU, o Pacto Global para Migração estabelece diretrizes para o acolhimento de imigrantes e prevê, por exemplo, que os países deem uma resposta coordenada ao fluxo migratório e que não associem os direitos humanos à nacionalidade. Estima-se que 258 milhões de pessoas vivam em um país diferente do seu país de nascimento – um aumento de 49% desde 2000 –, de acordo com números divulgados pelas Nações Unidas no mês passado.
Para Camila Asano, coordenadora de política externa da ONG Conectas Direitos Humanos, a decisão do Brasil de sair do pacto “mancha” a imagem do país diante da comunidade internacional e coloca em risco a segurança de brasileiros que vivem ou tentam viver no exterior.
“Quando o Brasil sai do pacto, se passa uma mensagem de que o Brasil não reconhece esse acordo mínimo de uma migração segura, de não ocorrerem abusos. Não só para dentro de suas fronteiras, mas dá a entender que os brasileiros lá fora também não deveriam ter essa proteção”, afirma.
Em entrevista à Fórum, Camila, que também é Secretária Executiva do Comitê Brasileiro de Direitos Humanos e Política Externa, chamou atenção para o fato de que a sociedade brasileira é composta por fluxos migratórios e que, atualmente, há mais brasileiros vivendo no exterior do que imigrantes de outas nacionalidade vivendo no Brasil.
A coordenadora do Conectas ainda foi além e fez um alerta para os impactos internos da decisão do novo governo: a retirada do Brasil do Pacto de Migração pode criar um caldo social em que pessoas se sentem autorizadas a praticar ataques xenófobos contra estrangeiros, como tem acontecido em Roraima com relação aos venezuelanos. “Observamos que, quando há autoridades públicas ou governos que tomam medidas ou discursos discriminatórios ou de negação de direitos mínimos e básicos, você acaba criando um caldo social onde se observa, como em Roraima, ataques violentos contra pessoas com a motivação de xenofobia. É muito preocupante como essa decisão pode gerar uma reação interna, de que se estaria autorizando desconsiderar qualquer consenso mínimo de respeito aos imigrantes”, pontua.
Confira, abaixo, a íntegra da entrevista realizada pela Revista Fórum.
Fórum – Qual a avaliação que faz sobre essa decisão do governo de retirar o Brasil do Pacto para Migração? 
Camila Asano – É uma medida extremamente lamentável, considerando que é uma das primeiras medidas de política externa desse governo. Até porque a agenda de migração é uma das principais questões da agenda internacional hoje, onde o Brasil tinha muito a contribuir e ter uma voz efetiva. O país vivencia a questão da migração nos dois âmbitos: temos uma população formada por migrantes em várias ondas migratórias e há população brasileira vivendo como imigrante em outros países. Inclusive, há mais imigrantes brasileiros vivendo fora do que imigrantes de outras nacionalidades vivendo aqui.
Então, essa decisão concretizada vai deixar uma mancha na política externa brasileira porque vai ser um passo atrás em credenciais que o Brasil tinha para ser uma voz predominante nos debates internacionais. Marginaliza cada vez mais o país no debate internacional. Temos visto a importância internacional do Brasil diminuindo cada vez mais e isso vai contribuir para aguar de vez o protagonismo que tínhamos.
Fórum – Quais seriam os efeitos práticos, para a população, do desgaste dessa imagem internacional do Brasil?  
Camila Asano – Podemos pensar na vida das famílias brasileiras. É muito difícil uma família brasileira que não tenha um integrante que já viveu fora do país ou pessoas que estejam tentando passar um tempo fora do país por qualquer razão. Para essas famílias já está se dando o recado que o governo Bolsonaro estaria se preocupando só com algumas pessoas, e não com todos os brasileiros e brasileiras. Quando o Brasil sai do pacto, ele passa uma mensagem de que o Brasil não reconhece esse acordo mínimo de uma migração segura, de não ocorrerem abusos. Estaria reforçando tanto para dentro de suas fronteiras mas também dizendo que se entende que os brasileiros lá fora não deveriam ter essa proteção.
Fórum – O atual chanceler, ministro Ernesto Araújo, afirmou que o Brasil sairia do pacto pois esse tipo de acordo violaria a soberania nacional. Como avalia tal declaração? 
Camila Asano – Essa declaração mostra uma dissonância do que é o texto do próprio pacto e da possibilidade de aderir com algumas ressalvas. Alguns países aderiram ao pacto com ressalvas pela questão da soberania, sendo que eles entendem que o pacto respeita, sim, a soberania, mas eles tiveram de destacar essa intenção do estado. O pacto não mina a soberania, e aí vem toda a questão básica do direito internacional. Foram criados padrões internacionais. Um governante adere a um tratado como esse fazendo o uso da soberania. Isso está posto por vários países que entenderam que é um consenso tão mínimo que não justificaria não aderir [ao pacto], mesmo com algumas ressalvas.
Já vimos vários recuos [de Bolsonaro] em anúncios que foram feitos. Esperamos uma reavaliação muito efetiva desse governo pensando em brasileiros que vivem no exterior.
Fórum – Acredita que essa decisão pode estimular ainda mais o clima de ódio e intolerância no Brasil, principalmente com relação aos imigrantes? 
Camila Asano – Isso acontece em várias partes do mundo e, inclusive, aconteceu na região Norte do Brasil. Observamos que quando há autoridades públicas ou governos que tomam medidas ou discursos discriminatórios ou de negação de direitos mínimos e básicos, acaba se criando um caldo social onde se observa, como em Roraima, ataques violentos contra pessoas com a motivação de xenofobia. É muito preocupante como essa decisão pode gerar uma reação interna, de que se estaria autorizando desconsiderar qualquer consenso mínimo de respeito aos imigrantes, mas também o risco que se coloca aos brasileiros fora.
Temos que considerar que os brasileiros fora passam por muitos dos percalços que imigrantes passam ao redor do mundo. De terem direitos negados, sofrerem discriminação, passarem por situações constrangedoras e muitas vezes abusivas… Ter um governo que tira o Brasil do pacto, sendo que há muitos brasileiros lá fora, me preocupa muito, pela segurança dessas pessoas. Elas ficam ainda mais vulneráveis com esse respaldo do governo Bolsonaro.
Mídia democrática, plural, em rede, pela diversidade e defesa implacável dos direitos humanos.

segunda-feira, 28 de maio de 2018

Renúncia já e diretas já. Artigo de Gustavo Castañon



"Não podemos ficar contra a população no momento em que ela se levanta contra o governo mais ilegítimo, corrupto e entreguista de nossa história. Não pedimos isso há quatro meses das eleições, mas a realidade está aí. Não temos opção moral senão pedir, como o velho Brizola ensinou, não um "fora Temer" que pode vir contra a normalidade democrática, mas um RENÚNCIA JÁ junto de um DIRETAS JÁ, em outubro. Vamos pedir RENÚNCIA e DIRETAS para neutralizar o pedido de Intervenção Militar que circula pelos fascistas de sempre e entrou no movimento."




Estamos diante de uma das situações mais difíceis que o país já viu. Evidentemente continuamos sendo desestabilizados. Como avaliar e agir?
Bem, minha opinião vai aqui.
1) Caminhoneiro é trabalhador explorado, o lugar da esquerda é do lado de qualquer trabalhador explorado. Temos que apoiar essa categoria que sofre no lombo com as estradas privatizadas e a Petrobrás servindo aos acionistas (eu sou acionista). Se tem imbecil achando que o combustível está alto por causa do "roubo dos políticos" a culpa é nossa que continuamos menosprezando as redes perdendo a narrativa.
2) A greve começou como locaute, então todos os patrões que promoveram isso no início devem ser presos provisoriamente, investigados e processados, pois locaute é crime e esse tipo de atentado a estabilidade econômica por categorias de empresários deve ser coibida.
3) O Exército não quer servir a Temer nem confrontar trabalhador. O risco de em breve assistirmos uma insubordinação é muito grande.
4) A extrema-direita que está organizada em células pequenas e virtuais joga no caos social já entrou no movimento e tenta dar a cara dele. Não acho que a esquerda deva fazer o mesmo porque é oportunismo e a categoria não é de idiotas, não pega bem. Mas devemos apoiá-los.
5) A situação de fato se encaminha para o colapso. E caos é a matéria prima da extrema-direita.
6) Ao vilanizar os caminhoneiros e pedir exército a Globo pode estar jogando no aprofundamento do golpe. Não é minha primeira hipótese, mas não se pode descartar que essa alta frenética de preços nos últimos meses e a inflexibilidade de Parente sejam propositais para criar o ambiente de golpe.
7) A agenda reformista-liberal liderada pelos maiores corruptos e salafrários do Brasil parece enterrada eleitoralmente pela greve e colapso da política de Parente, que não tem mais como ficar na Petrobrás. Se isso não foi parte de uma agenda para se livrar das eleições, isso coloca essa possibilidade na mesa diante do desespero da direita entreguista e globalista, os maiores motores do golpe.
8) Os petroleiros vão entrar em greve, mas não deveriam esperar condescendência da população. São uma categoria organizada, portanto, vão sofrer as mesmas difamações da mídia e classe média de sempre. Vão ter alguém de esquerda para vilanizar, mas mesmo com o risco acho que devemos disputar a narrativa do momento. 
9) É claro que a democracia está em risco. Desde junho de 2013. Só piora a cada ano, mês, dia. Se a greve não for furada em dois ou três dias ninguém sabe o que pode acontecer. Se o comandante militar não fosse o Villas-Boas já estaríamos com botas pisando o congresso e o palácio do planalto.
10) Se a NSA e a CIA manipularam os eventos de 2013 na rede, evidentemente tem muito mais poder para fazê-lo numa categoria limitada em tamanho. O objetivo dos EUA tem sido desde 2013, e em vários países do mundo, a dissolução nacional de países não alinhados. É claro que eles podem ter provocado isso ou se aproveitado para entrar nas redes dos caminhoneiros direcionando seu tráfego e narrativa, vídeos, monitoramento, etc. Quem ri dessa possibilidade não conhece o mundo em que vive e não é de hoje não, mas há vinte anos.
11) A renúncia de Temer é muito provável como desfecho desse debacle. E no momento, desejável. Ele não tem qualquer legitimidade capaz de dar estabilidade ao país.
12) A esquerda deveria se centrar logo na defesa do que restou de nossas liberdades democráticas no Brasil e denunciar isso para o mundo. 
13) Não podemos ficar contra a população no momento em que ela se levanta contra o governo mais ilegítimo, corrupto e entreguista de nossa história. Não pedimos isso há quatro meses das eleições, mas a realidade está aí. Não temos opção moral senão pedir, como o velho Brizola ensinou, não um "fora Temer" que pode vir contra a normalidade democrática, mas um RENÚNCIA JÁ junto de um DIRETAS JÁ, em outubro. Vamos pedir RENÚNCIA e DIRETAS para neutralizar o pedido de Intervenção Militar que circula pelos fascistas de sempre e entrou no movimento.
14) Não adianta ter medo. O que às vezes adianta é lutar. A vida quer é coragem, e a gente tem visto desde 2015 a tragédia que se abate sobre nós quando ela falta.