domingo, 2 de outubro de 2016

Por que a Lava Jato - e suas incongruências e abusos - é obcecada única e exclusivamente com Lula? Artigo de Leonardo Isaac Yarichewsky


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Incongruências da Lava Jato

por Leonardo Isaac Yarochewsky, colunista do Empório do Direito e no Cafezinho
1- A origem: em 2009 a Polícia Federal (PF) instaurou inquérito para investigar empresas do então deputado Federal José Janene (PP) e deparou com indícios de lavagem de dinheiro que culminaram, cinco anos depois, na ação que levou à prisão doleiros, altos executivos e agentes políticos e públicos.
Segundo os responsáveis pela operação a origem de tudo está na apuração do uso da empresa Dunel Indústria e Comércio Ltda para lavagem de capitais por meio da CSA Project Finance, que teria à frente pessoas ligadas ao deputado Federal Janene que morreu em setembro de 2010. Mas os indícios de crimes reunidos até aquele momento levaram a investigação adiante, com interceptação de telefones e e-mails. O alvo: o doleiro Carlos Habib Chater, que tinha como base de atuação o Posto da Torre.
Foi este tradicional ponto de venda de combustíveis em Brasília que inspirou o nome da Operação. “Lava Jato” é uma referência a estabelecimentos usados pelo grupo para lavar valores. O posto, por exemplo, não aceitava pagamentos em cartões. Só dinheiro vivo, o que, de acordo com a PF, facilitava a confusão entre dinheiro sujo e limpo.
Em 17 de março de 2014 a Polícia Federal deflagrou a Operação “Lava Jato” em seis estados e no DF, dezesseis pessoas foram presas, dentre elas o “doleiro” Alberto Youssef. Três dias depois da prisão de Youssef, em 20 de março de 2014, o diretor de abastecimento da Petrobrás de 2004 a 2012, Paulo Roberto Costa, é preso pela Polícia Federal suspeito de destruir documentos. Paulo Roberto Costa era investigado por supostas irregularidades na compra pela Petrobrás da refinaria de Pasadena, no Texas, em 2006. Verificou-se, também, um relacionamento suspeito entre Paulo Roberto e o “doleiro” Alberto Youssef.
Após dois anos de sua deflagração, na 35ª fase a Operação “Lava Jato” contabiliza números impressionantes: cerca de 1000 anos em penas acumuladas, 134 mandados de prisão expedidos e mais de 90 condenações criminais. Foram, ainda, firmados cerca de 50 acordos de delação premiada.
Recentemente, a “Operação Lava Jato” se concentrou em acusar, além de prender, sem qualquer necessidade e fundamento jurídico, políticos do Partido dos Trabalhadores ou aqueles que de algum modo trabalharam nos governos do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e da ex-presidenta Dilma Vana Rousseff. Em demonstração clara de que a “Operação Lava Jato” tem um caráter seletivo e político. Assim se deu as recentes prisões dos ex-ministros Guido Mantega e Antonio Palocci Filho, sem nenhuma necessidade e as vésperas das eleições municipais.
Hoje já é notório, até mesmo para quem dantes defendia a operação, que os métodos utilizados pela famigerada “Lava Jato”, com seu caráter seletivo, os vazamentos direcionados, as interceptações abusivas, o excesso de prisões provisórias (temporária e preventiva) decretadas como moeda de troca para forçar delações, as elevadíssimas penas resultantes das sentenças que desprezam a defesa e o uso da mídia para influenciar a sociedade e justificar os atropelos do devido processo legal, é abusivo, arbitrário e representa uma violação ao Estado de direito.
No que se refere à influência perniciosa da mídia no processo penal, bem como o modo em que o processo penal do espetáculo assumiu o lugar do processo penal democrático na desmedida Operação, com certeza, a história vai desvendar, no futuro próximo, os fatos que se deram nos porões da “Operação Lava Jato”.
Ao longo destes 30 meses da operação, além dos abusos e violações aos direitos fundamentais, foram verificadas várias incongruências no seio da “Lava Jato”.
2- Luiz Inácio Lula da Silva: o Brasil inteiro sabe que um dos principais objetivos da “Operação Lava Jato” é, depois de destruir o Partido dos Trabalhadores, aniquilar o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
Sétimo dos oito filhos de um casal de lavradores analfabetos que vivenciaram a fome e a miséria na zona mais pobre de Pernambuco, Aristides Inácio da Silva e Eurídice Ferreira de Melo, Luiz Inácio da Silva nasceu em 27 de outubro de 1945 em Caetés, que à época era um distrito do município de Garanhuns, interior de Pernambuco.
Após ser derrotado em três eleições presidenciais, em 27 de outubro de 2002, derrotando o candidato da situação José Serra (PSDB), Luiz Inácio Lula da Silva é eleito o 35º presidente da República do Brasil.
Em 29 de outubro de 2006 Luiz Inácio Lula da Silva é reeleito presidente da República derrotando Geraldo Alckimin (PSDB). Lula deixou o governo fazendo sua sucessora a presidenta Dilma Vana Rousseff.
Mas por que a “Lava Jato” quer apanhar o ex-Presidente da República Luiz Inácio Lula da Silva? Por que Lula? Porque ele é filho da miséria; porque ele é nordestino; porque ele não tem curso superior; porque ele foi sindicalista; porque foi torneiro mecânico; porque é fundador do PT; porque bebe cachaça; porque fez um governo preferencialmente para as classes mais baixas e vulneráveis; porque é o pai do “bolsa família”; porque retirou da invisibilidade milhões de brasileiros etc.
Dúvidas não há que a elite, a oligarquia e os poderosos jamais se conformaram com um governo progressista, comprometido com os valores sociais e dirigido principalmente à classe assalariada e aos pobres. Nunca aceitaram que um metalúrgico, de origem humilde, simples e sem curso superior governasse o país. Lula é um sobrevivente, lutou para sair da invisibilidade e tirou milhões de brasileiros desta mesma invisibilidade e que passaram a ser vistos em locais antes exclusivos dos ricos e da classe média/alta.
Assim, anos investigando Luiz Inácio Lula da Silva e nada encontrando, a “Operação Lava Jato”, com todas as contradições, incoerências e aberrações, através de um espetáculo midiático, pirotécnico e verborrágico, acabou denunciado o ex-presidente Lula, a ex-primeira-dama Marisa Letícia e mais seis pessoas.
3- A denúncia: Luiz Inácio Lula da Silva foi denunciado (14/9) pelos crimes de lavagem de dinheiro e corrupção passiva. Quando do recebimento da denúncia o juiz Federal da 13ª Vara Federal de Curitiba, referindo-se ao alegado pelo Ministério Público Federal (MPF) na peça acusatória, afirmou que:
Em nova grande síntese, alega o Ministério Público Federal que o ex-Presidente da República Luiz Inácio Lula da Silva teria participado conscientemente do esquema criminoso, inclusive tendo ciência de que os Diretores da Petrobrás utilizavam seus cargos para recebimento de vantagem indevida em favor de agentes políticos e partidos políticos.
A partir dessa afirmação, alega o MPF que, como parte de acertos de propinas destinadas a sua agremiação política em contratos da Petrobrás, o Grupo OAS teria concedido, em 2009, ao Ex-Presidente vantagem indevida consubstanciada na entrega do apartamento 164-A do Edifício Solaris, de matrícula 104.801 do Registro de Imóveis do Guarujá/SP, bem como, a partir de 2013, em reformas e benfeitorias realizadas no mesmo imóvel, sem o pagamento do preço. Estima os valores da vantagem indevida em cerca de R$ 2.424.991,00, assim discriminada, R$ 1.147.770,00 correspondente entre o valor pago e o preço do apartamento entregue e R$ 1.277.221,00 em benfeitorias e na aquisição de bens para o apartamento.
Na mesma linha, alega que o Grupo OAS teria concedido ao ex-Presidente vantagem indevida consubstanciada no pagamento das despesas, de R$ 1.313.747,00, havidas no armazenamento entre 2011 e 2016 de bens de sua propriedade ou recebidos como presentes durante o mandato presidencial.
Em ambos os casos, teriam sido adotados estratagemas subreptícios para ocultar as transações.
No que diz respeito ao apartamento 164-A do Edifício Solaris, no Guarujá-SP, assim se manifestou o juiz Federal ao receber a denúncia:
Relativamente ao apartamento 164-A no Edifício Solaris, apesar do imóvel persistir registrado em nome da OAS Empreendimentos, há indícios de teria sido concedido, ainda em 2009, ao ex-Presidente, sem que a transferência fosse formalizada.
Oportuno esclarecer que a OAS assumiu formalmente, em 08/10/2009, o empreendimento imobiliário consistente na construção do prédio, em substituição à Bancoop – Cooperativa Habituacional dos Bancários.
Na ocasião, a OAS concedeu aos cooperados da Bancoop com direitos sobre o empreendimento o prazo de 30 dias para optar pelo ressarcimento dos valores até então pagos à Bancoop ou celebrar contrato de compromisso de compra e venda de unidade e prosseguir no pagamento do novo saldo devedor.
Então, já nessa época, o ex-Presidente e sua esposa, que tinham cota do empreendimento, deveriam ter definido a sua opção, como fizeram todos os outros.
Além de não existir registro formal de que teriam efetuado na época essa opção, aponta o MPF que eles, que já haviam pago R$ 209.119,73 para aquisição de unidade no empreendimento, cessaram a realização dos pagamentos mensais em 15/09/2009, ou seja, por volta da mesma época em que a OAS assumiu o empreendimento.
Apesar da descontinuidade dos pagamentos, também não há qualquer registro de que a OAS Empreendimentos tenha cobrado, de qualquer forma, o ex-Presidente e sua esposa pelo saldo devido pelo apartamento.
Também não há qualquer registro ou mesmo alegação de que o ex-Presidente e sua esposa teriam recebido de volta os valores  já pagos, o que seria o usual se tivessem realizado a opção por desistir do empreendimento.
Apresenta ainda o MPF documentos que indicam que o ex-Presidente e sua esposa assinaram com a Bancoop a aquisição do apartamento 141-A, muito embora fosse a eles reservado, desde o início, o apartamento na cobertura 174-A do Edifício Návia, posteriormente, rebatizado de apartamento 164-A na cobertura do Edifício Solaris (fls. 95-99).
Por outro lado, a partir de 31/08/2013, quando a construção foi finalizada, é apontada prova oral, inclusive de testemunhas, de que o ex-Presidente e sua esposa visitaram o apartamento 164-A em mais de uma oportunidade.
Com efeito, afirmaram a vinculação do ex-Presidente e de sua família com o apartamento, pelo menos através de visitas ao local, diversas testemunhas, como, entre outros, o zelador do prédio, a porteira do prédio, o síndico do prédio, engenheiro encarregado do prédio e empregado de empresa contratada para a reforma do apartamento.
Consta ainda prova documental de que a OAS Empreendimentos realizou, a partir de 2013, gastos significativos com a reforma do apartamento 164-A, inclusive a instalação de um elevador privativo, de cozinha e de outras benfeitorias, com a participação de familiares do ex-Presidente, sem que fosse praxe da referida construtora realizar a personalização de apartamentos para clientes ou sem que fosse sua prática a instalação de cozinhas nos apartamentos que comercializava (fl. 120 da denúncia). Aliás, em relação ao Edifício Solaris, o referido apartamento 164-A foi o único que sofreu esse tipo de intervenção (fl. 121 da denúncia).
Verifica-se, ainda, que embora a denúncia afirme categoricamente que Luiz Inácio Lula da Silva "recebeu" o referido triplex, não apontam os doutos e combativos procuradores da República qualquer circunstância relativa a esse suposto recebimento. A única - e insustentável - afirmação é que o ex-presidente Lula teria "recebido" o imóvel em 2009 e passado a “frequentá-lo” em 2013, sem que, novamente e igualmente, seja apontada qualquer circunstância relativa a esse imaginado "uso". Tampouco a denúncia aponta em que consistiria a conduta a fomentar a, tão apregoada, "convicção" da acusação de que Lula é o "proprietário formal" do imóvel.
Esse conjunto, na verdade, é indicativo de que tanto os procuradores da República quando do oferecimento da denúncia quanto o juiz Federal quando do recebimento da desta, sabiam - e sabem - que o imóvel em questão não pertence à Luiz Inácio Lula da Silva ou à sua esposa Marisa Letícia.
Em obra sobre a denúncia no crime de lavagem de dinheiro, Daniela Villani Bonaccorsi assevera que:
Toda acusação deverá sempre ser determinada, circunstanciada, especificando-se, inclusive, o máximo possível, em que consistiu a conduta delituosa e a participação de cada um dos autores do fato. (...)
É incabível, num processo constitucional, que o réu tenha que se defender não se sabe exatamente de que, ou que alguém tenha que enfrentar todos os percalços de um processo criminal sem que tenha sido imputado a ele, de uma maneira mais ou menos certa, um fato delituoso...[1]
O recebimento de uma denúncia vaga e genérica e sem o mínimo de lastro probatório coloca em xeque o sagrado direito constitucional da ampla defesa e constitui uma ameaça ao próprio Estado de Direito.
4- Da ausência de sequestro do imóvel: Como é sabido, os bens adquiridos ilicitamente com o proveito do crime (origem ilícita) estão sujeitos ao sequestro. Segundo o art. 125 do Código de Processo Penal (CPP) “caberá o sequestro de bens imóveis, adquiridos pelo indiciado com os proventos da infração, ainda que já tenham sido transferidos a terceiro”.  Para sua decretação é necessário, de acordo com o art. 126 do CPP, a existência de indícios veementes da proveniência ilícita dos bens. O sequestro poderá de ser ordenado pelo juiz, de ofício, a requerimento do Ministério Público ou do ofendido, ou mediante representação da autoridade policial (art. 127 do CPP).
Somente os bens que tenham sido adquiridos com os proventos decorrentes da prática da infração é que podem ser declarados indisponíveis (necessário um nexo causal) em razão do sequestro. Portanto, os bens dos acusados adquiridos antes do cometimento das infrações ou, ainda que contemporâneo ou posteriormente a eles, desde que não se originem de proventos resultantes das práticas criminosas, serão excluídos da medida assecuratória.
No que se refere à legitimidade passiva, observa-se que a medida assecuratória – sequestro – pode além de abarcar os bens registrados em nome do acusado e sob sua propriedade, atingir também os bens havidos com os proventos da infração, mesmo os que já foram transferidos a terceiros, nos termos do art. 125 do CPP. Em relação ao âmbito de sua incidência, advirta-se que o sequestro atinge não somente o provável autor das infrações penais, sendo certo que ele se dirige ao bem, independentemente de onde estiver, ainda que já tenha sido transferido à terceiro.
No caso em comento, da denúncia contra o ex-presidente Lula, interessante observar que o rigoroso juiz Sérgio Moro que recebeu a denúncia não ordenou o sequestro do apartamento 164-A do Edifício Solaris, em Guarujá-SP (matrícula 104.801).
Ora, se o juiz federal reconheceu ao receber a denúncia - oferecida sem o mínimo de lastro probatório e, portanto, sem justa causa - que em tese o imóvel é produto de crime (originado de pagamento de propina) conforme acima exposto, deveria ter ordenado o sequestro do imóvel, ainda que ele não esteja no nome do ex-presidente, conforme se verificou.
Contudo, se o austero juiz da 13ª Vara Federal de Curitiba, condutor da “Operação Lava Jato”, não determinou o sequestro dos bens nos termos do Código de Processo Penal, com vem sendo feito em quase a totalidade dos casos decorrente da “Operação Lava Jato”, é porque de fato não enxergou o mínimo de indício de que o famigerado apartamento do Guarujá é de propriedade de Luiz Inácio Lula da Silva ou de alguém da sua família. Sendo assim, deveria o juiz Federal Sérgio Fernando Moro da 13ª Vara Criminal de Curitiba ter rejeitado a denúncia por falta de justa causa.
Ao não determinar o sequestro do indigitado imóvel do Guarujá o juiz Federal, ainda que implicitamente, reconheceu que não há sequer indícios da prática dos crimes apontados contra Lula e D. Marisa na denúncia ofertada pelos assanhados procuradores da República. A denúncia oferecida com pompa e circunstâncias é uma peça de ficção que decorre da imaginação fértil dos condutores da Força Tarefa da Lava Jato.
No entanto, não deveria o juiz Federal da 13ª Vara de Curitiba, como já assinalado, ter recebido a denúncia. Receber a denúncia, que tem como objeto central o apartamento 164-A do Edifício Solaris, em Guarujá-SP (matrícula 104.801), em tese e segundo a acusação proveniente de corrupção, e não determinar o sequestro deste imóvel é mais uma de tantas incongruências perpetradas na “Operação Lava Jato”.
Finalmente, é necessário compreender que a Constituição da República não é apenas um objeto a enfeitar as bibliotecas e as estantes dos gabinetes dos procuradores da República e dos juízes Federais. A Constituição da República, nossa lei maior que proclama o Estado Democrático de Direito e que tem como postulado o respeito à dignidade da pessoa humana e que consagra os princípios do contraditório, da ampla defesa, da presunção de inocência, do devido processo legal entre outros, não pode ser atropelada pela fúria punitiva e pelo combate cego a corrupção.  Qualquer que seja a operação e sua finalidade é imprescindível que os limites ao poder punitivo impostos pela lei e pelo próprio Estado Democrático de Direito não sejam ultrapassados. Como já foi dito por Claus Roxin, o sistema de justiça penal é um mal necessário, quando se retira o necessário sobra apenas o mal.
Leonardo Isaac Yarochewsky - Advogado e Professor de Direito Penal da PUC-Minas

Do The Intercept: As trapalhadas de Alexande de Moraes no governo das aparências Temer



Artigo de João Filho para o The Intercept:

NOS ANOS FHC, a Polícia Federal era mais conhecida pelo afinco em queimar plantações de maconha do que pelas operações contra a corrupção. Quando vi o ministro da Justiça de Temer destruindo plantas de maconha no Paraguai com um portentoso facão, como se fosse McGyver, tive a certeza que a Ponte (de volta) para o Futuro terminava mesmo nos anos 90.
Esta foi apenas uma das trapalhadas que Alexandre Moraes vem colecionando ao longo de sua carreira política. A última delas, quandoantecipou uma ação da Lava Jato durante comício de um colega tucano, derrubaria qualquer ministro no mundo, mas não no governo não-eleito de Michel Temer. Agora, as informações sigilosas da PF não são vazadas apenas para jornalistas da Globo, mas para amigos em comícios do PSDB e emsaunas de São Paulo. O fato, que merecia ser encarado como um escândalo de enormes proporções, foi tratado por grande parte da imprensa como uma mera “gafe”, uma “falha”, um deslize de um ministro trapalhão.
Apesar de ser um advogado bastante renomado e reunir as condições técnicas exigidas pelo cargo, o ministro tem se destacado muito mais pela atuação cinematográfica, pirotécnica e repleta de presepadas. O estardalhaço feito na prisão dos terroristas de mentirinha foi um exemplo, mas essa é só a ponta de um longo novelo.
Geraldo Alckmin foi o responsável por trazer a figura para o mundo da política. Em 2002, Moraes saiu do Ministério Público para ser Secretário da Justiça do Estado de São Paulo, onde ficou até 2005. Durante parte desse período, acumulou o cargo de presidente da Febem (hoje Fundação Casa). Foi lá que o atual ministro começou a mostrar do que seria capaz. Com a mesma voracidade que demonstrou ao cortar plantas de maconha, Moraes passou o facão na Febem e, de uma só vez, cortou 1.600 funcionários concursados — a maior demissão em massa da história da instituição.
Mas nem o mais fanático neoliberal aplaudiu, já que o suposto enxugamento da máquina pública foi considerado arbitrário e ilegal pela Justiça. A briga judicial foi longa, chegou até o STF e, ao final, todos os funcionários tiveram que ser readmitidos, ocasionando um rombo de R$ 32 milhões aos cofres públicos paulistas — um verdadeiro eletrochoque de gestão. A Câmara dos Deputados parece não ter visto grandes problemas na presepada da Febem, já que, em 2005, indicou o nome de Moraes para o Conselho Nacional de Justiça.
Entre 2007 e 2010, ficou conhecido como o supersecretário do então prefeito Kassab em São Paulo, quando comandou simultaneamente a Secretaria dos Transportes, a Companhia de Engenharia de Tráfego (CET), a SPTrans e o Serviço Funerário. Mesmo com todo esse prestígio, as polêmicas colecionadas por Moraes levaram o prefeito a demitir o seu braço-direito, que resolveu abrir um escritório de advocacia. Mas ele não se distanciou da política, muito pelo contrário. Em seu escritório, passou a defender políticos acusados de corrupção como Eduardo Cunha (PMDB-RJ), Rodrigo Garcia (DEM-SP) e Gabriel Chalita (PDT-SP).
Cunha, que posteriormente indicaria Moraes para Temer, foi defendido numa acusação de uso de documento falso para suspender um processo contra ele no Tribunal de Contas do Rio de Janeiro. Garcia recebeu assistência do tucano numa acusação de recebimento propina no escândalo do Trensalão, após ser delatado por um ex-diretor da Siemens. Chalita foi defendido num caso em que foi acusado de receber propinas entre 2002 e 2006, quando era secretário de Educação de Alckmin e filiado ao PSDB. O promotor que investigava o caso disse estar sendo pressionado a encerrar as investigações e afirmou ter sido procurado pelo atual ministro da Justiça, que lhe avisou que tentaria arquivar os inquéritos com recursos ao Conselho Superior do Ministério Público.
Pausa para uma curiosidade: logo que assumiu o Ministério da Justiça, Moraes se sentiu à vontade para declarar que “a única diferença em relação ao governo federal (PT) é que o governo de SP (PSDB) é honesto. E um governo honesto é menos investigado porque não tem escândalos“.
Além desses serviços jurídicos de excelência prestados ao ninho tucano, a cooperativa Transcooper, suspeita de lavar dinheiro do PCC, também foi defendida por Moraes em 123 ações.
Foi com esse belo histórico que ele foi escolhido pelo governador Alckmin para ser Secretário de Segurança de São Paulo. Em 2015, mesmo ano em que Moraes se filiou ao PSDB, a PM foi responsável por 1 entre 4 pessoas assassinadas na capital paulista — um recorde histórico. Durante sua gestão, as mortes registradas em confronto com PM cresceram 61%.
Quando uma funcionária foi estuprada dentro de uma cabine de recarga do Bilhete Único no metrô, Alexandre Moraes nos presenteou com essamalufada:
Não se consumou o roubo do cofre. É importante que isso seja colocado para mostrar que há segurança onde se guarda os valores no Metrô”.
Diante do crime hediondo, ele considerou importante ressaltar que o patrimônio permaneceu intacto. Uma mulher foi estuprada, mas o dinheiro permaneceu protegido. Certamente a população paulista foi dormir mais tranquila naquele dia.
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Foto: Evaristo Sa/Getty Images
Mesmo sabendo desse vasto currículo no ramo da vacilação, Michel Temer alçou o amigão de mais de 20 anos à nobre condição de ministro da Justiça. E, pelo que lemos no noticiário, Moraes continua firme e forte no cargo. Não por sua competência, mas pela sua aparência, e isso não é uma piada.Segundo Kleber Sales do Estadão, Michel Temer considera importante a imagem que Moraes empresta ao governo:
“Além da dificuldade em encontrar um nome para substituí-lo, o ministro da Justiça, Alexandre de Moraes, será mantido no cargo por questões estéticas. O Palácio do Planalto avalia que a aparência dele confere à pasta maior credibilidade. Ele é comparado ao policial Kojac, personagem de série de TV.”
Difícil acrescentar alguma coisa à nota. Numa época em que ministros do STF participam abertamente do jogo político-partidário, juízes defendem que os fins justificam os meios e desembargadores consideram roubo de salame um crime pior que o assassinato de 111 pessoas desarmadas, parece-me bastante adequado que a aparência de Sargento Pincel mantenha esse Trapalhão no cargo de Ministro da Justiça. É natural que um governo de fachada, quederrubou o anterior através de uma pantomima, tenha essa essa preocupação estética.

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João Filhojoao.filho@​theintercept.com@jornalismowando

Luiz Nassif sobre o Xadrez da delação da Folha contra jornalistas



Passo 1 - a matéria sem gancho da Folha


Na quinta-feira, a Folha de S Paulo publicou uma não-matéria.
A não-notícia é que o governo Temer resolveu proibir toda publicidade de empresas públicas nos blogs críticos a ele. Ora, esse fato ocorreu no primeiro dia em que Temer assumiu o cargo. Qual a novidade para justificar a matéria? Nenhuma.
O gancho da matéria é o não-fato de que, desde que Temer anunciou a proibição de publicidade de empresas públicas nos blogs, nenhum órgão público anunciou mais nos blogs. Cadê a notícia?
A reportagem usou a não-notícia como álibi para falar dos valores aplicados nos blogs no ano passado, recusando-se a comparar com os valores investidos na velha mídia, tanto antes como depois dos vetos políticos aos blogs.
Tem lógica? Do ponto de vista jornalístico, não. Do ponto de vista político, sim.
Entende-se a reportagem juntando outras peças do jogo:
1. A PGR (Procuradoria Geral da República) insiste na tese da organização criminosa nacional, infiltrada em todos os poros da República, submetida a um comando central. A Lava Jato reitera essa versão.
2. O TRF4 (Tribunal Regional Eleitoral da 4a Região) autoriza o Estado de Exceção e consequentemente a aplicação do direito penal do inimigo.
Com base nesses dois pontos, qualquer crítica à Lava Jato pode ser enquadrada como articulação da organização criminosa.
Todos os sinais são  de que se arma  uma ofensiva contra todos os pontos críticos à Lava Jato e ao golpe. O próximo passo será investir contra os blogs, que a Folha trata como se fosse uma organização vinculada ao comando central.
Até agora, esse estímulo à barbárie se dava de forma diluída, com colunistas endossando as arbitrariedades, colocando lenha na fogueira, mas sem nominar os "inimigos" a serem alvejados.
Com Otávio Frias Filho, a Folha abre mão dos pruridos e torna-se o primeiro veículo a partir para a delação explícita, sendo secundada por blogueiros especializados em deduragem.
O que está por trás disso?

Passo 2 - a incompatibilidade do golpe com a liberdade de expressão

Como alertei em vários capítulos da série Xadrez, os passos iniciais do golpe permitiam o exercício da hipocrisia. Para Fulano A apoiar o golpe, sem afetar sua imagem, as pessoas têm que acreditar que ele acredita que o golpe foi feito para combater a corrupção. Para Fulano B apoiar, as pessoas precisam crer que ele acredita que a Lava Jato é politicamente isenta. Para apoiar o governo Temer, o Fulano C tem que esquecer as denúncias que já saíram contra Eliseu Padilha, Geddel Vieira Lima e o próprio Michel Temer e fingir que acredita que eles sào verdadeiros varões de Plutarco.
Por mais que seja difícil acreditar, a sociedade brasileira ainda está submetida a algumas formas de restrição de consciência, mesmo com a velha mídia tratando-a como fraqueza moral em sua linha editorial. Grandes atos de canalhice, falta de isonomia, delação, posições arbitrárias, injustiças ainda têm o condão de despertar sentimentos de indignação.
Ainda há algumas linhas morais que não podem ser ultrapassadas, sob risco de manchar indelevelmente a reputação de quem o fizer.
Com a liberdade de expressão da Internet e das redes sociais, esse jogo da hipocrisia, de fingir que não se sabe, torna-se inviável.
Dia desses, um post sobre a delação de Eike Baptista -mostrando como os procuradores da Lava Jato fugiam de qualquer menção ao PSDB - rendeu mais de 420 mil visualizações apenas no GGN, sem contar a reprodução em vários outros sites independentes e blogs. A série do Xadrez tem conseguido de 60 a 100 mil visualizações únicas no GGN, também sem contar a republicação por outros sítios. O mesmo acontece com artigos de outros blogs.
Com o avanço do Estado de Exceção, esse jogo de delações praticado pela Folha cria a possibilidade concreta de mandar blogueiros para a cadeia, submetê-los a processos, ou intimidá-los ante o risco de serem alvo de arbitrariedades. Vivem-se tempos de exceção.
Mesmo sabendo disso, a Folha não vacilou. Aparentemente, Otávio decidiu atravessar a tal linha moral.
Hoje em dia, os blogs independentes são a última cidadela contra a escalada do arbítrio. É nesses blogs que as consciências individuais, nas diversas áreas profissionais, vêm buscar ânimo para romper com a cultura do medo que se instalou no seu meio e no país
Se conseguirem nos calar - como pretende Otavinho - os próximos alvos serão os próprios jornais, assim que ousarem se colocar minimamente no caminho do arbítrio. Não existe arbitrariedade que se esgote em si. Cada ato desses cria jurisprudência, abrindo espaço para sua reiteração.

Passo 3 - a bolsa mídia e o pacto com Temer

A segunda razão dessa armação contra os blogs tem a ver com a bolsa-mídia, em preparação no governo Temer. Seu preparo já foi suficiente para segurar as denúncias contra o Ministro-Chefe da Casa Civil Eliseu Padilha. De uma das grandes capivaras do meio político, Padilha tornou-se um douto senhor, pontificando sobre temas complexos e sendo tratado com respeito reverencial.
Como expliquei em outros lances do Xadrez, provavelmente a bolsa-mídia consistirá nas seguintes etapas:
1. Financiamento do BNDES.
2. Publicidade oficial maciça, com campanhas e cadernos especiais bancados pelos Ministérios.
3. Operação fisco. Na crise, a primeira conta a não ser paga é com o fisco. Em outros tempos, grupos de mídia conseguiram se safar de multas bilionárias através de diversos expedientes, como advogados da União perdendo prazo, redução retroativa de alíquotas de impostos, desaparecimento de processos na Receita.
Com liberdade de expressão, esses caminhos tornam-se complexos. Por isso mesmo, a agressão contra os blogs não irá parar na reportagem de hoje.
Lembro que foi uma firme posição moral que, nos idos dos 80 e 90 transformou a Folha no maior jornal do país.
Nos tempos em que havia um comercial lembrando:
“É possível contar um monte de mentiras, dizendo só a verdade. Cuidado com a informação do jornal que você recebe. Folha de São Paulo: o jornal que mais se compra. E que nunca se vende”.
Agora, uma frouxidão moral inesculpável poderá ser o seu epitáfio.
PS – Meus respeitos ao repórter desconhecido, que se recusou a assinar a matéria na Folha, sabendo que seria utilizada como instrumento de delação de colegas.

Moro, o tendencioso, põe sigilo em inquérito que pode revelar propina nos governos do PSDB


Charge: Jarbas, para Diário de Pernambuco
Jornal GGNO juiz federal Sergio Moro decidiu colocar sob segredo de Justiça um inquérito baseado na planilha da Odebrecht, que pode identificar os receptores de propinas pagas pela empreiteira por obras executadas em São Paulo, estado governo pelo PSDB de Geraldo Alckmin há mais de 20 anos. 
O arquivo foi apreendido pela Polícia Federal no começo do ano e ganhou destaque em março, quando vazou na imprensa com nomes de políticos que receberam doações e apelidos de agentes que teriam recebido vantagens em cima de contratos assinados com a empreiteira. 
Essa semana, o Estadão publicou que se a Polícia Federal tivesse identificado alguns apelidos, pessoas ligadas ao pagamento de propina por obras do Metrô em São Paulo teriam sido indiciadas. 
Leia mais:
Do Consultor Jurídico
Com receio de que as investigações relacionadas ao setor de operações estruturadas da Odebrecht sejam prejudicadas, o juiz da 13ª Vara Federal de Curitiba, Sergio Moro, decretou sigilo do inquérito da Polícia Federal que apura crimes relacionados a esse departamento.
De acordo com procuradores e policiais da operação “lava jato”, tal seção da Odebrecht coordenava o pagamento de propinas a agentes públicos em troca de obras de grande porte, como a linha-4 do metrô de São Paulo, o aeroporto Santos Dumont, no Rio de Janeiro, e o Porto de Laguna, em Santa Catarina.
Uma planilha do setor de operações estruturadas apreendida pela PF aponta que entre 2008 e o final de 2013, foram pagos mais de R$ 128 milhões ao PT e seus agentes, incluindo o ex-ministro Antonio Palocci. Os investigadores afirmam ainda que sobrou, em outubro de 2013, um saldo de propina de R$ 70 milhões, valores estes que seriam  destinados também ao ex-ministro para que ele os gerisse no interesse do partido.
Com base nessas informações, Moro autorizou a prisão temporária de Palocci, do ex-secretário da Casa Civil Juscelino Antônio Dourado e de Branislav Kontic, que atuou como assessor na campanha de Palocci a deputado federal em 2006. As detenções foram feitas na última segunda-feira (26/9).
No dia seguinte, a PF abriu um inquérito para investigar as obras citadas na planilha do setor de operações estruturadas da Odebrecht. Porém, na quinta (28/9), Sergio Moro tornou as apurações sigilosas, conforme informou o site Paraná Portal. A medida justifica-se, de acordo com o juiz, pelo fato de as investigações terem “desdobramentos imprevisíveis, o que poderá levar à necessidade de novas diligências, inclusive novas quebras e buscas”.
Dessa maneira, Sergio Moro restringiu às apurações até aos investigados. Estes só poderão saber o que está sendo examinado mediante requerimento, que será analisado caso a caso. Somente a PF e o Ministério Público Federal terão acesso automático aos dados. Como Palocci seria ouvido nessa quinta, o juiz da “lava jato” permitiu que sua defesa tenha conhecimento dos fatos examinados pela força-tarefa da operação.
Precedente polêmico
Em março, Sergio Moro decretou o sigilo de uma planilha da Odebrecht que cita dezenas de políticos e partidos como supostos destinatários de valores da construtora. A medida foi tomada para preservar as investigações.
Mas a decisão do juiz federal gerou polêmica, pois pouco antes, ele havia divulgado conversas telefônicas do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, inclusive uma que envolvia a então presidente Dilma Rousseff. Na ocasião, Moro justificou seu ato sob o fundamento de que os diálogos do petistas eram de interesse geral da sociedade.
Falta de provas
Antonio Palocci é acusado de receber propina para trabalhar pela Odebrecht dentro do governo e no Congresso Nacional. Mas como não foram encontradas provas do recebimento dessas quantias, Palocci deve ficar preso, “enquanto não houver tal identificação”.
Essa é a motivação usada pelo juiz Sergio Fernando Moro, titular da 13ª Vara Federal Criminal de Curitiba, onde corre a maioria dos processos da “lava jato”, para mandar prender o ex-ministro.
Para Moro, há indícios de que Palocci usa de um “modus operandi” já visto em outras ocasiões, de usar “contas secretas no exterior ainda não identificadas ou bloqueadas”. E, enquanto essas contas não forem encontradas, “há um risco de dissipação do produto do crime”.
O juiz da "lava jato" também determinou o bloqueio de quase R$ 31 milhões de reais do ex-ministro, medida que foi cumprida pelo Banco Central nessa quarta (28/9).
Inquérito 5054008-14.2015.404.7000

Jean Wyllys denuncia anulação do julgamento do Carandiru e avanço do fascismo via mídia e fundamentalismo religioso no Brasil

Parlamentar do Psol afirma, em fórum internacional: "Fascismo cresce no corpo social, um fascismo eivado de fundamentalismo religioso promovido por igrejas cristãs neopentecostais"
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Denúncia foi feita em fórum que discutiu e traçou estratégias em apoio à Corte Penal Internacional
da Rede Brasil Atual
por Redação RBA
São Paulo – O deputado federal Jean Wyllys (Psol-RJ) divulgou em sua página no Facebook uma denúncia que fez, em âmbito internacional, da anulação do julgamento do massacre no Carandiru, durante reunião do Parliamentarians for Global Action, em Montevidéu.
O parlamentar disse que o julgamento em que o desembargador Ivan Sartori, do Tribunal de Justiça de São Paulo (TJ-SP), anulou o julgamento dos policiais responsáveis pelas mortes de 111 presos na atual realidade brasileira, se insere num contexto em que o “fascismo cresce no corpo social e tem expressão nas ruas e nas redes sociais”. “Um fascismo eivado de fundamentalismo religioso promovido por igrejas cristãs neopentecostais que elegem parlamentares que, depois de eleitos conspiram contra a laicidade do Estado e direitos das minorias”, disse o deputado em vídeo.
Jean Wyllys lembrou aos participantes do evento que, embora o laudo técnico tenha apontado que os mortos foram executados sumariamente, o desembargador entendeu que foi legítima defesa. Segundo ele, Ivan Sartori é “aquele que manda prender quem rouba salame, mas trata execuções sumárias praticadas por policiais como legítima defesa”.
O parlamentar do Psol recorda que o Brasil é signatário do Estatuto de Roma e de quase todos os tratados internacionais sobre direitos humanos e que a Constituição do país é uma das mais modernas, progressistas e humanitárias, tendo sido promulgada promulgada após duas décadas de ditadura civil-militar. “Mas a comunidade de parlamentares, em sua maioria, sempre ofereceu resistência a incorporar os termos dos tratados internacionais de direitos humanos na legislação infraconstitucional e  nas políticas públicas”, explicou, no fórum.
“As instituições do Estado funcionam para garantir os privilégios. Há no Brasil uma relação promíscua entre o crime organizado e as forças repressivas do Estado. A tortura ainda é uma prática nas cadeias e prisões brasileiras. As vítimas são os negros pobres, em particular, os moradores das periferias urbanas, os povos indígenas e membros da comunidade LGBT.”
Wyllys conclui dizendo que hoje é difícil falar na incorporação do Estatuto de Roma, “quando em nosso país o terreno está  infértil à promoção dos direitos humanos”.
Após palestra proferida dia 30 de setembro, em evento em São Paulo, o ministro da Justiça, Alexandre de Moraes, questionado sobre a anulação do julgamento pelo TJ-SP, não quis comentar o assunto. “Sou da área jurídica e temos uma máxima na área jurídica. Decisão não se discute, se cumpre. Eu não conheço o processo, então, não posso opinar sobre a decisão do TJ”, disse.

sábado, 1 de outubro de 2016

The Intercept Brasil: O Golpe Temer e a Censura no Brasil em 2016

"Ainda – ainda – é mais corporativa que estatal. O sujeito ideologicamente dissonante perde espaço e oportunidades em qualquer empresa. Nos conglomerados de mídia brasileiros, que costumam usar colunistas como pedra de toque de uma falsa isenção editorial, discordar da chefia sem estar defendido num espaço de cota é abreviar o caminho para a rua no próximo passaralho. Empregos, contratos, freelas, espaço ou cobertura na imprensa: tudo está em jogo."




Teto de J.P. CUenva, Ex-Folha e agora no The Intercept Brasil

HÁ DUAS SEMANAS, participei de um debate em Berlim, na livraria da Torstrasse que é ponto de encontro da comunidade brasileira na cidade. Quando falamos sobre política, alguém perguntou se haveria o risco de termos novamente censura no Brasil depois do Golpe Temer.
Não creio que algum dia deixamos de ter. Sobre o tema, logo nos ocorrem a Ditadura Militar ou o Estado Novo, mas a censura tem a idade do Brasil — o Império demorou mais de três séculos para permitir a existência de qualquer jornal na colônia. A monarquia reprimia ideias de cunho laico ou anti-monárquico, e os oligarcas da república velha igualmente usavam o aparelho repressor do estado contra seus oposicionistas.
Nos raros períodos aparentemente estáveis da nossa jovem e frágil democracia, a censura ganha contornos menos oficialescos — ainda que bastante eficientes. Essa censura dissimulada, que atravessa toda nossa história recente, dá sinais de recrudescimento nos últimos tempos.
Ainda – ainda – é mais corporativa que estatal. O sujeito ideologicamente dissonante perde espaço e oportunidades em qualquer empresa. Nos conglomerados de mídia brasileiros, que costumam usar colunistas como pedra de toque de uma falsa isenção editorial, discordar da chefia sem estar defendido num espaço de cota é abreviar o caminho para a rua no próximo passaralho. Empregos, contratos, freelas, espaço ou cobertura na imprensa: tudo está em jogo.
Brigando para manter-se num mercado cada vez menor, onde o achatamento dos salários iniciais costuma apenas permitir que jovens bem nascidos tornem-se profissionais de comunicação, os jornalistas brasileiros sacrificam autonomia e liberdade de pauta apenas para manter seu salário de sobrevivência e algum frágil status. São como os oito músicos vestindo salva-vidas que continuaram tocando ragtimes e valsas sob a regência do maestro Wallace Hartley até que o deck se inclinasse como um tobogã e a estrutura do RMS Titanic finalmente rompesse. No caso, tocando sem improvisar.
O sujeito ideologicamente dissonante perde espaço e oportunidades em qualquer empresa.
EM MUITOS CASOS, censura interna e demissão antes do naufrágio podem ser o melhor desfecho. Na cobertura de protestos, jornalistas costumam ser agredidos pela Polícia Militar e, em menor proporção, pelos próprios manifestantes, que os identificam com os meios para os quais trabalham. Isso, claro, quando estes também não estão sendo vandalizados por uma PM que continua recebendo carta branca para tal, através de editoriais irresponsáveis e desonestos e de uma cobertura completamente enviesada da cena das manifestações.
A contínua inversão causal dos fatos, onde as manchetes seguem ignorando o fato da polícia ser a responsável pela deflagração dos conflitos, acaba por cozinhar a liberdade de livre manifestação e de imprensa no mesmo caldo. Relatório recente da ABRAJI (Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo) aponta para quase 300 episódios de violação de direitos contra jornalistas durante a cobertura dos protestos desde 2013.
A Associação Nacional dos Jornais (ANJ), em seu relatório sobre liberdade de imprensa, demonstra preocupação pelo crescente número de crimes ainda mais graves. No ano passado, sete jornalistas foram assassinados no Brasil, um número que só é menor que o do México e de Honduras nas Américas. Estamos também perdendo posições em rankings de liberdade de imprensa: em 2010 ocupávamos o 58º lugar e hoje, segundo a ONG Repórteres Sem Fronteiras, estamos em 104º.
Entre a violência nas ruas e a coação nas redações, fruto de evidentes contradições entre o interesse de grandes grupos de mídia e a prática do bom jornalismo, o Poder Judiciário é outra ameaça. Segundo outro relatório da Abraji, citado por Ronaldo Lemos, o número de pedidos de censura prévia no Judiciário por políticos totalizam hoje 28 ações em demandas contra cidadãos, empresas de mídia, sites e jornalistas ordenando-os “a calar a boca”. Na última década há casos já históricos como o de Elmar Bones e oJornal Já, no Rio Grande do Sul, e mesmo o da censura prévia contra o Estadão. Exemplos não faltam.
Em e-mails abertos, editores orientando repórteres a manipular coberturas através de omissões e ênfases, já sem qualquer pudor: é a era do “podemos tirar se achar melhor”.
CENAS E PERSONAGENS TÍPICOS dos vertiginosos últimos três anos, quando este golpe é articulado: repórter recebendo telefonema do diretor de canal de TV ou editor do jornal pedindo para apagar post de facebook. Funcionários de RH checando as opiniões do candidato na internet antes de contratá-lo. Artistas e produtores engajados calando-se na véspera de grandes eventos, como Copa do Mundo ou Jogos Olímpicos, para não perder contratos. Pais pedindo a filhos, ou vice-versa, que evitem se posicionar politicamente em público para evitar constrangimentos familiares ou laborais. Atores recebendo recados diretos de patrões e contratantes de publicidade: neutralidade é lucro. Em e-mails abertos, editores orientando repórteres a manipular coberturas através de omissões e ênfases, já sem qualquer pudor: é a era do “podemos tirar se achar melhor.
O patrão, o patrocinador, o editor-chefe: não é de bom tom pensar sem a permissão deles. E, se o fizermos, que seja em silêncio, afinal. Pois o silêncio não atrapalha na hora de fechar um edital, um contrato, uma renovação.
Num sistema social orwelliano e autoprotetor, a saída para a maioria é fazer o isentão, figura tão simbólica da autocensura necessária para seguir empregado hoje em dia. Independentemente de qualquer julgamento moral — é o isentão um covarde, um canalha ou um sobrevivente? —, a necessidade concreta de pesar nossos posicionamentos para evitar represálias é a medida de como o ar anda tóxico no Brasil de 2016.
A naturalização desse policiamento pode nos levar a pensar que nossas opiniões nunca pareceram tão importantes ou mesmo perigosas. Em tempos de retrocesso democrático, talvez sejam.

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J.P. Cuencajpcuenca@​gmail.com@jpcuenca