quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

Pelos frutos se conhece a qualidade da árvore: O histórico polêmico do publicitário de Temer no ninho tucano, em reportagem de Patrícia Faerman






Jornal GGNA campanha "Gente boa também mata" do Ministério dos Transportes não foi a primeira polêmica de João Roberto Vieira da Costa, conhecido como Bob, responsável pela publicidade do governo. Fiel aliado de políticos do PSDB, ex-secretário de Fernando Henrique Cardoso e ex-marqueteiro de José Serra na candidatura ao Planalto em 2002, Costa tem em seu histórico profissional atuações suspeitas em governos tucanos.
 
Estreitou sua relação com FHC logo em 1997, quando por indicação de Sérgio Motta tornou-se chefe de comunicação social do Ministério da Saúde. Antes disso, conheceu o tucano Sérgio Motta, ainda no governo de Luiz Antônio Fleury Filho (PMDB), em São Paulo, em 1993.
 
De lá, por intermediação do tucano, Bob passou a atuar junto a FHC, permanecendo nas cadeiras ministeriais até 2002, como chefe de Comunicação de Governo da Presidência da República, onde novas polêmicas surgiram.
 
Reportagem de Kennedy Alencar para a Folha, no início de 2002, mostra que Fernando Henrique Cardoso inflou os gastos publicitários no ano anterior. 
 
"Apesar de o Orçamento da União de 2001 ter estipulado uma despesa máxima em publicidade de R$ 124,6 milhões no ano todo, o governo federal gastou pelo menos R$ 303 milhões, segundo números do Tesouro Nacional. A cifra é 143% maior do que a autorizada pelo Congresso", denunciava a publicação.
 
Para pagar os custos de publicidades e campanhas de divulgação do governo, Fernando Henrique Cardoso usou recursos de outros programas, sem o Congresso sequer autorizar ou saber.
 
Os repasses maiores foram para a Saúde, onde o comando estava nas mãos do atual chanceler José Serra, e então pré-candidato do PSDB à Presidência da República para suceder FHC. O levantamento feito por Kennedy Alencar, à época, traz indícios graves: até dois dias depois de Serra anunciar sua intenção ao Planalto, a pasta que comandava tinha gastado R$ 81,3 milhões do Orçamento de 2001, ao invés da autorização do Congresso de R$ 15,8 milhões. 
 
E essas transferências ocorreram sob respaldo e autorização de Bob Vieira da Costa, Secretaria de Comunicação. No ano seguinte, o então chefe da pasta deixou o governo FHC para se tornar coordenador de campanha de Serra à Presidência da República.
 
Na disputa eleitoral de José Serra, também não passou sem deixar polêmicas.
 
Bob Vieira da Costa foi estrategista da campanha. Antes mesmo de deixar o posto do Planalto, já atuava para levantar o nome de Serra à sucessão presidencial. Uma das medidas foi uma pesquisa encomendada em 1999 pela Comunicação, sob a justificativa de analisar os serviços públicos de saúde no país. Mas nos bastidores falava-se de uma pré-campanha. Bob incluiu nas perguntas as possibilidade de Serra chegar à Presidência.
 
Outra denúncia veio dois anos depois, também relacionada ao futuro pleito eleitoral. O empresário Alexandre Paes dos Santos acusou o Ministério da Saúde, comandado pelo tucano e Bob como assessor de comunicação, de um esquema para forçar empresários a colaborarem com o caixa de campanha de José Serra. Por meio de seu advogado, denunciava Serra de crime de extorsão ou peculato no exercício da função pública.
 
Como resposta, o empresário é que passou a ser investigado por extorsão, pelo procurador da República Marcelo Antonio Serro Azul, estreitamente ligado a Serra. A mudança de fonte da denúncia para acusado foi um pedido de Serra ao procurador, logo após o seu assessor, Bob Vieira da Costa, questionar Santos sobre o que ele sabia dessas supostas pressões feitas pelo tucano a empresários.
 
Os resquícios da atuação do publicitário Vieira da Costa permaneceram mesmo após o fim do governo de Fernando Henrique Cardoso. Em 2007, por exemplo, quando já teoricamente tinha aposentado a atuação direta na política e se dedicava à sua agência de propaganda Nova S/B, chegou a ganhar a conta de R$ 45 milhões do Sedex, nos Correios. 
 
Mas a conquista do aliado de Serra não durou muito. Já durante o governo Lula, na segunda fase da licitação de um total de R$ 90 milhões para a ECT (Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos), a Nova S/B foi eliminada da concorrência. A própria imprensa divulgou, à época, que as desclassificadas tinham "entre seus sócios profissionais ligados ao governo Fernando Henrique Cardoso".
 
Em 2009, outra polêmica. De volta à atuação junto ao ninho tucano paulista, o Tribunal Regional Eleitoral (TRE) do Rio de Janeiro investigou uma suspeita propaganda da Nova S/B para a Sabesp (Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo), mas em âmbito nacional. E a publicidade divulgava para todo o Brasil as ações do governo de José Serra. Foi por denunciar esta campanha que o jornalista Luís Nassif teve seu contrato com a TV Cultura denunciado pelo então presidente da Fundação Padre Anchieta Paulo Markun.
 
A agência de Bob repassou um total de R$ 7,45 milhões à TV Globo para transmitir a campanha pelo Brasil, duas vezes por dia, de dezembro a janeiro. O TRE-RJ suspeitou do uso ilegal da máquina pública pelo então governador tucano paulista. 
 
Mais recentemente, com o importante posto de Serra no ministério de Michel Temer, em setembro do último ano, o atual chanceler começou a emplacar Bob Vieira da Costa a algum cargo estratégico na Comunicação do governo peemedebista. O movimento também foi aderido pelo chefe da Casa Civil, Eliseu Padilha, obtendo o êxito. 
 
Mas antes do logro de José Serra, a agência de publicidade do fiel escudeiro do tucano tentava ganhar novas contas junto ao Ministério da Transparência, para introduzir um sistema de compliance com base na lei anti-corrupção, em maio deste ano. Os ganhos foram somados as já contas do Banco Central, BNDES, Caixa Econômica, governo do Rio de Janeiro, Metrô e Sabesp para Bob Vieira da Costa.

Para enxergar os estudantes secundaristas além do romantismo. Artigo de Jean Tible, professor de Ciência Política da USP



sec12-1

Num país ameaçado por múltiplos retrocessos, eles voltaram a ser, em 2016, um sinal de possível virada. Como chegaram a tanto? Quais seus limites? Que podem ensinar eles?
Por Jean Tible - extraído do Outras Palavras
A primeira, de novembro de 2015 (1). Um jovem estudante negro interpela um policial do dobro do seu tamanho e que pegou o cadeado que representava o controle da Escola Estadual “Raul Fonseca” por parte dos alunos. Depois de uma breve discussão, ele pergunta ao PM se ele tem um mandado. Não, ele não o possui. O menino lhe diz, então, de forma firme e decidida, para se retirar. O que aconteceu no Brasil para podermos ver essa cena? O estudante do ensino fundamental de uma escola da periferia da maior cidade do país campeão da escravidão não tem mais medo e o fim desse episódio (com a saída do policial) seria inimaginável até há pouco tempo.
A segunda, mais recente, data de outubro de 2016 (2). A secundarista Ana Júlia fala na tribuna da Assembleia Legislativa do Paraná e pergunta a quem pertence a escola para defender a legitimidade e legalidade do movimento de ocupação, essa presença intensa nos colégios e universidades (cujo pico alcançou o número de mil, país afora) que lhe teria mais ensinado sobre cidadania e política que muitos anos de aula. Ana Júlia vai em seguida criticar várias iniciativas do governo golpista nas últimas semanas (a dita reforma do ensino médio e a PEC 241/55) e também da extrema-direita emergente e sua “escola sem partido”. Tal projeto consistiria na promoção de uma escola homofóbica e racista, a criação de um exército não pensante de jovens. A isso ela opõe o movimento de ocupações que  transformou adolescentes em cidadãos ativos. Ela interpela as forças da ordem no sentido amplo: os deputados, primeiro, mas também o país como um todo.
Os “secundas” executaram “um dos gestos coletivos mais ousados na história recente (…), esse movimento destampou a imaginação política”. Desse modo, “já não se tolera o que antes se tolerava, e passa-se a desejar o que antes era impensável. Isso significa que a fronteira entre o intolerável e o desejável se desloca – e sem que se entenda como nem por quê, de pronto parece que tudo mudou: ninguém aceita mais o que antes parecia inevitável (a escola disciplinadora, a hierarquia arbitrária, a degradação das condições de ensino), e todos exigem o que antes parecia inimaginável (a inversão das prioridades entre o público e o privado, a primazia da voz dos estudantes, a possibilidade de imaginar uma outra escola, um outro ensino, uma outra juventude, inclusive uma outra sociedade!)” (3). Esse movimento é uma das chamas de uma espécie de revolução simbólica, na qual novas subjetividades ganham força numa expansão das possibilidades de vida, das perspectivas de luta, dos horizontes existenciais. Nesse sentido, o golpe pode ser lido como uma contrarrevolução. Não por acaso, o governo federal ilegítimo manda rapidamente para o Congresso um projeto de mudança no ensino médio e toma parte, junto com certos governos estaduais (e às vezes com auxílio do Movimento Brasil Livre – MBL), numa repressão infame (4). Os “secundas” assustam.
Desobediência
A escola é uma prisão. No que poderia ser uma piada foucaultiana (5), conta-se que nos anos 1980 o governo do estado de São Paulo pensou em transformar uma escola estadual — a “Dona Pilar Garcia Vidal”, na zona Leste da capital — num presídio. A mobilização da comunidade a salvou desse destino (6). Dizer que a escola é uma prisão é uma verdade (cadeados mil, hierarquias sem sentido, autoritarismos variados, diretores de escolas que agem como carcereiros), mas pode se ater a uma denúncia importante, porém impotente. Além disso, todos os setores políticos e sociais no Brasil seriam a favor da educação; a educação como grande consenso nacional, ainda que um consenso oco. A força pragmática e a ação dos estudantes desestabilizaram isso tudo e abriram brechas para pensarmos e mudarmos essas questões pra valer.
As escolas ocupadas mudam essa chave. Uma apropriação simbólica e concreta (7). Escola viva, com a descoberta dos espaços fechados, sujos, abandonados. O ato de plantar, organizar debates, ver e fazer cinema, teatro, música e dança, tapar buracos, consertar chuveiros, encontrar livros (!), bolas, jogos e materiais diversos escondidos ativa todo um potencial. Uma nova escola, um estado de exceção benjaminiano (8); a escola de luta como pré-figuração de uma escola reinventada ou que nem escola seja mais. Cuidando de si e dos outros (9). Essas experimentações democráticas dialogam com algo presente, em diferentes intensidades, nessas revoltas das praças mundo afora. Ao assumir sua auto-organização, as ocupações traçam linhas de libertação. Os espaços da cozinha, biblioteca, centro de mídia, comissão de segurança e atividades, assembleia para deliberação coletiva constituem protótipos da uma autogestão do comum – nessa nova vida compartilhada, os estudantes criam alternativas e pulam os muros da escola.
Assim como a obediência é contagiosa (a nossa garante a estabilidade e perenidade do sistema), a desobediência também o é. Revoltas e revoluções se espraiam, desde sempre (por exemplo, no medo da elite imperial do Rio de Janeiro da palavra Haiti, que seria um mau exemplo para os escravos no início do século 19). Escolas ocupadas primeiro no Chile, em 2012 no Mato Grosso do Sul e depois de São Paulo para o Brasil num processo que provoca uma mudança permanente. Os “secundas” conseguem, ademais, tratar de uma espinhosa questão para as esquerdas: como articular classe e diferença. Vindos das escolas públicas, são filhas e filhos da classe trabalhadora, mas indicam os novos protagonismos: as meninas tomam a frente, são negras, negros, LGBT e de baixo. Anticapitalistas, alguns socialistas ou comunistas, outros anarquistas; todos libertários querendo destruir hierarquias burras e brutas e buscando caminhos às vezes para além dos ismos – e recorrentemente com alegria e de modo performático (10). Podem-se compreender, nesse plano, as mudanças menos como projetos de crescimento progressivo institucional (com demandas “mais realistas”, isto é, menos imaginativas e mais comportadas) e mais numa ação de romper a camisa de força da política institucional via mobilização “por fora” (11). Uma nova sensibilidade estética-política está em curso (12) e coloca a “necessidade de um cuidado das conexões (…), dos laços que ligam movimentos de tipos diferentes, organizados a partir de interesses e problemas diversos” (13). Fazer das diferenças possibilidades de influências mútuas: manifesta esse outro corpo também um esboço de um novo corpo político coletivo?
Organização
Se estamos vivendo um que se vayan todos (em outras modulações, diferente do “clássico” argentino de 2001), uma erosão em curso, e acentuada, do sistema político, cabe perguntar o que essas novas subjetividades vão conseguir desdobrar e propor. O que traz essa nova geração? Qual será sua relação com as instituições? Como se conectar e se apoiar mutuamente (inclusive para preparar-se para a repressão em curso e por vir; com a combinação da herança maldita deixada por Dilma na forma da lei antiterrorismo e o ímpeto repressivo do governo golpista)? Como golpear em questões decisivas como o fim do etnocídio, o pagamento de impostos pelos ricos, fim do encarceramento em massa, do extermínio da juventude negra e das cercas nas universidades (sobretudo das estaduais paulistas)? Como se relacionar com a “velha geração”? Qual o papel de Lula (cuja força ainda é significativa, chegando a liderar as pesquisas para 2018, embora não se saiba se poderá concorrer) e do PT nisso tudo? E o de um movimento fundamental, como o MTST? Um caldo vem se formando, parte de uma possível constelação, e será decisivo para barrar ímpetos fascistizantes que parecem crescer.
Numa linha transversal estão junho de 2013 e suas continuidades descontínuas, que as direitas conseguiram ler (e atuar a partir de) melhor (e sem divisões maiores) do que as esquerdas (em que a geração anterior parece não conseguir ou querer se contaminar pela potência da nova). Nesse contexto, “a aposta é que depois de junho vivemos um novo ciclo político no Brasil” e “no subterrâneo da política, há um espírito vibrante, ainda sem um corpo social. Como um espectro que nos ronda” (14). Todo um ecossistema autônomo no sentido amplo (Movimento Passe Livre –MPL e muitos outros coletivos e iniciativas como a Marcha da Maconha, ocupações dos aparelhos culturais contra a extinção do Ministério da Cultura, cryptorave, mulheres e LGBT contra a cultura do estupro, torcidas organizadas contra a Globo, Marcha do Orgulho Crespo) e os “secundas” abriram um novo imaginário radical. Num sentido talvez diferente do qual essa palavra é em geral empregada, eles deram uma certa direção para as esquerdas. Ninguém luta mais (ou não deveria) sem levar em conta essas invenções, enfrentamentos e ousadias recentes – as ações diretas, atos, ocupações de praças, aberturas e corpos em luta.
Claro que o significado de “aprender” com os “secundas” não é óbvio e exige uma série de exercícios de criação política, assim como “honrar” os zapatistas, as curdas, junho de 2013 ou o petismo em seu tempo subversivo. Os “secundas” mesmo estão vivendo e sofrendo as agruras de continuar, para além da explosão e exuberância das mobilizações, e tendo que encarar uma pesada repressão (durante as ocupações e depois), as dificuldades de manter o comando das escolas ocupadas e suas articulações e o fato de não conseguirem constituir maiorias que os apoiem nas escolas. A clássica questão da organização nesses novos tempos se coloca para as esquerdas, tanto as partidárias quantos as autônomas, passando pelas híbridas. Como escapar da “lei de ferro das oligarquias partidárias” (15) e da “tirania das organizações sem estrutura” (16)? Como lutar e trabalhar produtivamente as tensões e laços entre “revolta” e “organização”, “espontaneidade” e “dia a dia”, “horizontalidade” e “estrutura”. Não podemos fazer desses pares um conjunto de alternativas infernais. Ao contrário, esse tensionamento permanente pode nos permitir pensar-fazer horizontalidades estruturadas, organizações descentralizadas, política distribuída, (con)federação de lutas, redes de apoio mútuo, plataformas de colaboração, criação coletiva e produção de novas relações. Não domesticar essas oposições, mas experimentar sua coabitação e usá-la para a invenção de outras ecologias políticas17. Não por acaso, Rosa Luxemburgo volta a incendiar e inspirar práticas e imaginários.
Notas

Álvaro García Linera: a globalização em agonia quer matar o mundo inteiro


   "A renúncia da Grã-Bretanha em fazer parte da União Europeia  — o projeto mais importante de unificação dos últimos cem anos — e a vitória eleitoral de Trump — que levantou as bandeiras de uma volta ao protecionismo econômico, anunciou a renúncia a tratados de livre comércio e prometeu a construção de mesopotâmicas muralhas fronteiriças — aniquilaram a maior e mais bem sucedida ilusão liberal de nossos tempos. E que tudo isso venha dos dois países que há 35 anos, cobertos em suas couraças de guerra, anunciaram a chegada do livre comércio e a globalização como a inevitável redenção da humanidade, fala de um mundo que se inverteu ou, pior ainda, que esgotou as ilusões que o mantiveram acordado durante um século."

  Segue um artigo muito lúcido do sociólogo e vice-presidente da Bolívia, Álvaro Garcia Linera, onde é feita uma ótima análise da globalização do mercado financeiro, suas marcas destrutivas, seu esgotamento junto com a de outros sistemas, mas que, em sua crise terminal, que tenta a todo custo privatizar tudo e acabar com o bem-estar da maioria, cada vez reconhecida em sua maldade, abre espaços a novos rumos... Artigo publicado no Opera Mundi:



Álvaro García Linera: a globalização morreu


Hoje, quando ainda retumbam os últimos fogos da longa festa “do fim da história”, a triunfante globalização neoliberal faleceu deixando o mundo sem final, nem horizonte vitorioso

A falta de freios para um iminente mundo sem fronteiras, o falatório pela constante diminuição dos estados nacionais em nome da liberdade da empresa e a quase religiosa certeza de que a sociedade mundial acabaria por se unir como um único espaço econômico, financeiro e cultural integrado, acabam de vir abaixo diante do emudecido estupor das elites ‘globalófilas’ do planeta.


A renúncia da Grã-Bretanha em fazer parte da União Europeia  — o projeto mais importante de unificação dos últimos cem anos — e a vitória eleitoral de Trump — que levantou as bandeiras de uma volta ao protecionismo econômico, anunciou a renúncia a tratados de livre comércio e prometeu a construção de mesopotâmicas muralhas fronteiriças — aniquilaram a maior e mais bem sucedida ilusão liberal de nossos tempos. E que tudo isso venha dos dois países que há 35 anos, cobertos em suas couraças de guerra, anunciaram a chegada do livre comércio e a globalização como a inevitável redenção da humanidade, fala de um mundo que se inverteu ou, pior ainda, que esgotou as ilusões que o mantiveram acordado durante um século.
Agência Efe

Garcíal Linera é sociólogo e vice-presidente do Estado Plurinacional da Bolívia
Acontece que a globalização como meta-relato, isto é, como horizonte político ideológico capaz de conduzir as esperanças coletivas para um único destino que permitisse realizar todas as expectativas possíveis de bem-estar, foi estatelada em mil pedaços. E hoje não existe em seu lugar nada mundial que articule essas expectativas comuns; o que se tem é um recolhimento atemorizado ao interior das fronteiras e o retorno a uma espécie de tribalismo político, alimentado pela ira xenofóbica, diante de um mundo que já não é o mundo de ninguém.
A medida geopolítica do capitalismo
Quem iniciou o estudo da dimensão geográfica do capitalismo foi Marx. Seu debate com o economista Friedrich List sobre o “capitalismo nacional” em 1847 e suas reflexões sobre o impacto do descobrimento das minas de ouro da Califórnia no comércio transpacífico com a Ásia, o posicionam como o primeiro e o mais solícito pesquisador dos processos de globalização do sistema capitalista. De fato, sua participação não consiste na compreensão do caráter globalizado do comércio que começa com a invasão europeia na América, mas na natureza planetariamente expansiva da própria produção capitalista.
As categorias de inclusão formal e inclusão real do processo de trabalho ao capital com as que Marx mostra o auto movimento infinito do modo de produção capitalista supõem a crescente inclusão da força de trabalho, do intelecto social e da terra à lógica da acumulação empresarial, ou seja, a subordinação das condições de existência de todo o planeta à valorização do capital. Decorre disso que, nos primeiros 350 anos de sua existência, a medida geopolítica do capitalismo tenha avançado das cidades-Estado à dimensão continental e tenha passado, nos últimos 150 anos, à medida geopolítica planetária.
A globalização econômica (material) é inerente ao capitalismo. Seu início pode datar de 500 anos atrás, a partir do qual será necessário preencher ainda mais de forma fragmentada e contraditória.
Se acompanhamos os esquemas de Giovanni Arrighi na sua proposta de ciclos sistêmicos de acumulação capitalista à frente de um Estado hegemônico: Gênova (séculos XV-XVI), Holanda (século XVIII), Inglaterra (século XIX) e Estados Unidos (século XX), cada um desses hegemônicos veio acompanhado de um novo adensamento da globalização (primeiro comercial, em seguida produtiva, tecnológica, cognitiva e, finalmente, do meio ambiente) e de uma expansão territorial das relações capitalistas. No entanto, o que sim constitui um acontecimento recente no anterior desta globalização econômica é sua construção como projeto político-ideológico, esperança ou sentido comum, ou seja, como horizonte de época capaz de unificar as crenças políticas e expectativas morais de homens e mulheres pertencentes a todas as nações do mundo.
O “fim da história”
A globalização como relato ou ideologia de época tem mais de 35 anos. Foi iniciada pelos presidentes Ronald Reagan e Margaret Thatcher, liquidando o Estado de bem-estar, privatizando as empresas estatais, anulando a força sindical trabalhadora e substituindo o protecionismo do mercado interno pelo livre mercado, elementos que tinham caracterizado as relações econômicas desde a crise de 1929.
Certamente foi um retorno amplificado às regras do liberalismo econômico do século XIX, incluída a conexão no tempo real dos mercados, o crescimento do comércio em relação ao PIB (Produto Interno Bruto) mundial e a importância dos mercados financeiros, que já estavam presentes nesse momento. No entanto, o que sim diferenciou esta fase do ciclo sistêmico da que prevaleceu no século XIX foi a ilusão coletiva da globalização, sua função ideológica legitimadora e sua exaltação como suposto destino natural e final da humanidade.
E aqueles que se filiaram emotivamente a essa crença de livre mercado como salvação final não foram simplesmente os governantes e partidos políticos conservadores, mas também os meios de comunicação, os centros universitários, comentaristas e líderes sociais. O fim da União Soviética e o processo do que Gramsci chamou transformismo ideológico de ex-socialistas transformados em furibundos neoliberais fechou o círculo da vitória definitiva do neoliberalismo globalizante.
Claro! Se diante dos olhos do mundo a URSS, que era considerada até então como referência alternativa ao capitalismo de livre empresa, abdica da contenda e se rende ante a fúria do livre mercado — e além disso os combatentes por um mundo diferente, publicamente e de joelhos, abjuram de suas anteriores convicções para proclamar a superioridade da globalização frente ao socialismo de Estado—, nos encontramos diante da constituição de uma narrativa perfeita do destino “natural” e irreversível do mundo: o triunfo planetário da livre empresa.
O enunciado do “fim da história” hegeliano, com o que Fukuyama caracterizou o “espírito” do mundo, tinha todos os ingredientes de uma ideologia de época, de uma profecia bíblica: sua formulação como projeto universal, seu enfrentamento contra outro projeto universal demonizado (o comunismo), a vitória heroica (final da Guerra Fria) e a reconversão dos infiéis.


A história havia chegado à sua meta: a globalização neoliberal. E, a partir desse momento, sem adversários antagônicos para enfrentar, a questão já não era lutar por um mundo novo, mas simplesmente ajustar, administrar e aperfeiçoar o mundo atual, pois não havia alternativa frente a ele. Por isso, nenhuma luta valia a pena estrategicamente, pois tudo que se havia tentado fazer para mudar o mundo terminaria finalmente rendido diante do destino imutável da humanidade que era a globalização. Surgiu então um conformismo passivo que se apoderou de todas as sociedades, não apenas das elites políticas e empresariais, mas também de amplos setores sociais que aderiram moralmente à narrativa dominante.
A história sem fim nem destino
Hoje, quando ainda retumbam os últimos petardos da longa festa “do fim da história”, acontece que quem saiu vencedor, a globalização neoliberal, faleceu deixando o mundo sem final, nem horizonte vitorioso, ou seja, sem nenhum horizonte. Trump não é o verdugo da ideologia triunfalista da livre empresa, mas o legista que tem o papel de dar a nota oficial de uma morte clandestina.
Os primeiros tropeços da ideologia da globalização são sentidos no começo do século XXI na América Latina, quando trabalhadores, plebeus urbanos e rebeldes indígenas não dão ouvidos ao mandato do fim da luta de classes e fazem coalizões para tomar o poder do Estado. Combinando maiorias parlamentares com ação de massas, os governos progressistas e revolucionários implementam uma variedade de opções pós neoliberais, mostrando que o livre mercado é uma perversão econômica suscetível de ser substituída por modos de gestão econômica muito mais eficientes para reduzir a pobreza, gerar igualdade e impulsionar crescimento econômico.
Com isso, o “fim da história” começa a se mostrar como uma singular estafa planetária e novamente a roda da história — com suas inesgotáveis contradições e opções abertas — coloca-se em marcha. Posteriormente, em 2009, nos Estados Unidos, o até então vilipendiado Estado, que tinha sido objeto de escárnio por ser considerado uma trava para a livre empresa, é puxado pela manga por Obama para estatizar parcialmente o sistema financeiro e tirar da falência os banqueiros privados. A eficiência empresarial, coluna vertebral do desmantelamento estatal neoliberal, fica assim reduzida a pó frente à sua incompetência para administrar a poupança dos cidadãos.
Logo vem a desaceleração da economia mundial, mas em particular do comércio de exportações. Durante os últimos 20 anos, este cresce duas vezes mais em relação ao PIB (Produto Interno Bruto) anual mundial, porém a partir de 2012 apenas consegue igualar o crescimento deste último, e já em 2015 é inclusive menor, com o que a liberalização dos mercados e já não se constitui mais no motor da economia planetária nem na “prova” da irresistível utopia neoliberal.
Por último, os eleitores ingleses e norte-americanos inclinam a balança eleitoral a favor de uma retomada a estados protecionistas —se for possível com muros —, além de dar visibilidade a um mal-estar já planetário contra a devastação das economias dos trabalhadores e da classe média, gerado pelo livre mercado planetário.
Hoje, a globalização já não representa mais o paraíso desejado no qual se depositam as esperanças populares nem a realização do bem-estar familiar desejado. Os mesmos países e bases sociais que a levantaram décadas atrás se converteram em seus maiores detratores. Nos encontramos diante da morte de uma das maiores estafas ideológicas dos últimos séculos.
No entanto nenhuma frustração social fica impune. Existe um custo moral que, neste momento, não revela alternativas imediatas, mas que — é o caminho tortuoso das coisas — as fecha, ao menos temporariamente. Acontece que a morte da globalização como ilusão coletiva não se contrapõe à emergência de uma opção capaz de cativar e conduzir a vontade e a esperança mobilizadora dos povos golpeados. A globalização, como ideologia política, triunfou sobre a derrota da alternativa do socialismo de Estado, isto é, da estatização dos meios de produção, do partido único e da economia planejada de cima. A queda do muro de Berlim em 1989 encena esta capitulação. Então, no imaginário planetário ficou apenas uma rota, um destino mundial. E o que agora está acontecendo é que esse único destino triunfante também falece, morre. Ou seja, a humanidade fica sem destino, sem rumo, sem certeza. Porém não é o “fim da história” –   como preconizavam os neoliberais –, mas sim o fim do “fim da história”; é o nada da história.
O que hoje resta nos países capitalistas é uma inércia sem convicção que não seduz, um punhado decrépito de ilusões murchas e, na caneta dos escrivães fossilizados, a nostalgia de uma globalização falida que não ilumina mais os destinos. Então, com o socialismo de Estado derrotado e o neoliberalismo morto por suicídio, o mundo fica sem horizonte, sem futuro, sem esperança mobilizadora. É um tempo de incerteza absoluta no qual, como bem intuía Shakespeare, “tudo que é sólido se desmancha no ar”. Porém, também por isso é um tempo mais fértil, porque não há certezas herdadas nas quais se agarrar para ordenar o mundo. Essas certezas têm de ser construídas com as partículas caóticas desta nuvem cósmica que deixa para trás a morte das narrativas passadas.
Qual será o novo mobilizador das paixões sociais? Impossível sabê-lo. Todos os futuros são possíveis a partir do “nada” herdado. O comum, o comunitário, o comunista é uma dessas possibilidades que está aninhada na ação concreta dos seres humanos e na sua imprescindível relação metabólica com a natureza. Em qualquer caso, não existe sociedade humana capaz de se desprender da esperança. Não existe ser humano que possa prescindir de um horizonte e hoje estamos compelidos a construir um. Isso é o comum dos humanos, e esse comum é o que pode nos levar a desenhar um novo destino diferente a este emergente capitalismo errático que acaba de perder a fé em si mesmo.
Tradução: Mari-Jô Zilveti
Publicado originalmente em Rebelión

Palavras do Dalai Lama sobre a lavagem cerebral pró-violência feita sobre a sociedade


Foto com animação



"A maioria de nós foi condicionada a considerar o combate militar como excitante e glamouroso – uma oportunidade para os homens provarem sua competência e coragem. Desde que exércitos são legais, nós sentimos que a guerra é aceitável; em geral,ninguém sente que a guerra é criminosa ou que a aceitação é atitude criminosa. Na verdade, temos sofrido uma lavagem cerebral. Guerra não é nem glamourosa nem atraente. É monstruosa. Sua própria natureza, são tragédias e sofrimentos." - Dalai Lama




Claro, a guerra e os grandes estabelecimentos militares são as maiores fontes de violência no mundo. Se o seu objetivo é defensivo ou ofensivo, estas vastas organizações poderosas existem apenas para matar seres humanos. Devemos pensar cuidadosamente sobre a realidade da guerra.

A maioria de nós foi condicionada a considerar o combate militar como excitante e glamouroso – uma oportunidade para os homens provarem sua competência e coragem. Desde que exércitos são legais, nós sentimos que a guerra é aceitável; em geral,ninguém sente que a guerra é criminosa ou que a aceitação é atitude criminosa. Na verdade, temos sofrido uma lavagem cerebral. Guerra não é nem glamourosa nem atraente. É monstruosa. Sua própria natureza, são tragédias e sofrimentos.

A guerra é como um fogo na comunidade humana, cujo combustível são seres vivos. Acho essa analogia especialmente adequada e útil. A guerra moderna travada principalmente com diferentes formas de fogo, mas estamos tão condicionados a vê-la como emocionante que falamos sobre esta ou aquela arma maravilhosa como uma parte notável da tecnologia sem nos lembrar de que, se ela realmente é usada, ele vai exterminar pessoas vivas. Guerra também se parece muito com um incêndio na forma como ele se espalha. Se uma área fica fraca, o oficial comandante envia reforços. Isto está jogando as pessoas a viverem em um incêndio. Mas porque temos sofrido uma lavagem cerebral para pensar desta maneira, nós não consideramos o sofrimento dos soldados individuais. Nenhum soldado quer ser ferido ou morrer. Nenhum de seus entes queridos quer que sofra alguma dano. Se um soldado é morto, ou mutilado, pelo menos mais cinco ou dez pessoas – seus parentes e amigos – sofrem também. Todos nós devemos estar horrorizados com a extensão dessa tragédia, mas estamos muito confusos.

Francamente quando criança, eu também fui atraído para o militar. Seu uniforme parecia tão inteligente e bonito. Mas isso é exatamente como a sedução começa. Crianças começam a jogar jogos que um dia vão levá-los a apuros. Há uma abundância de jogos emocionantes para jogar e figurinos para vestir além desses baseados na matança de seres humanos. Mais uma vez, se nós, como adultos não estivéssemos tão fascinados pela guerra, devemos ver claramente que permitir que nossos filhos se tornem habituados a jogos de guerra é extremamente lamentável. Alguns ex-soldados disseram que quando atiraram na primeira pessoa se sentiram desconfortáveis, mas como eles continuaram a matar, eles começaram a se sentir bastante normal. Com o tempo, nós podemos nos acostumar com qualquer coisa.

Não é apenas em tempos de guerra que os estabelecimentos militares são destrutivos. Pela sua própria concepção, eles foram os maiores violadores dos direitos humanos individuais, e são os próprios soldados que sofrem mais consistente seu abuso. Depois que o oficial encarregado der belas explicações sobre a importância do exército, a sua disciplina e a necessidade de conquistar o inimigo, os direitos da grande massa de soldados são inteiramente retirados. Em seguida, são obrigados a perder a sua vontade individual, e, no final, a sacrificar suas vidas. Além disso, uma vez que um exército se tornar uma força poderosa, há todos os riscos que ele vai destruir a felicidade de seu próprio país.

Há pessoas com intenções destrutivas em cada sociedade, e a tentação de ganhar o comando de uma organização capaz de cumprir os seus desejos pode tornar-se irresistível. Mas não importa o quão maléfico ou mal são os muitos ditadores assassinos que atualmente oprimem suas nações e causam problemas internacionais, é óbvio que eles não podem prejudicar os outros ou destruir inúmeras vidas humanas, se eles não tivessem uma organização militar aceita e tolerada pela sociedade. Enquanto há exércitos poderosos sempre haverá perigo de ditadura. Se nós realmente acreditamos que a ditadura é uma forma desprezível e destrutiva de governo, então temos de reconhecer que a existência de um poderoso arsenal militar é uma das suas principais causas.

Militarismo é também muito caro. A força militar coloca um fardo tremendo de desperdício na sociedade. Os governos gastam enormes somas em armas cada vez mais sofisticadas quando, na verdade, ninguém quer realmente usá-las. Não só dinheiro, mas também energia valiosa e inteligência humana são desperdiçados, enquanto tudo o que aumenta é o medo.

Quero deixar claro, porém, que embora seja profundamente contra à guerra, eu não estou defendendo o apaziguamento. Muitas vezes é necessário tomar uma posição forte para combater uma injusta agressão. Por exemplo, é evidente para todos nós que a Segunda Guerra Mundial foi justificada. Isso “salvou a civilização” da tirania da Alemanha nazista, como Winston Churchill tão bem colocou.
Em minha opinião, a Guerra da Coréia também foi justa, uma vez que deu a Coreia do Sul a chance de desenvolver gradualmente a democracia. Mas só podemos julgar se um conflito foi justificado por razões morais com retrospectiva. Por exemplo, podemos ver agora que durante a Guerra Fria, o princípio da dissuasão nuclear teve um certo valor. No entanto, é muito difícil de avaliar tais matérias com qualquer grau de precisão. A guerra é violência e violência é imprevisível. Portanto, é melhor evitá-la, se possível, e nunca presumir que sabemos de antemão se o resultado de uma guerra particular será benéfico ou não.

Na melhor das hipóteses, a construção de armas para manter a paz serve apenas como uma medida temporária. Enquanto os adversários não confiam uns nos outros, qualquer número de fatores pode afetar o equilíbrio de poder. A paz duradoura pode ser garantida apenas com base na confiança genuína.