segunda-feira, 21 de fevereiro de 2022

Pepe Escobar: A poderosa indústria militar da Guerra S.A. deu uma festa-invasão criando um clima de tensão na Ucrânia e não veio ninguém até o dia 20 de fevereiro

 

O Combo Democrático que controla remotamente o senil Presidente dos Estados Unidos por fone de ouvido/teleprompter nunca foi acusado de ser o aluno mais sabido da turma - de qualquer turma.

Isso explica por que um de seus membros, Nancy Pelosi, na ABC News, entregou todo o jogo da "invasão" russa dois dias - ou três, dependendo da matemática usada - antes do "cancelamento" do não-acontecimento.

www.brasil247.com - Kremlin

Kremlin (Foto: Reuters)

Por Pepe Escobar, para o Strategic Culture

Tradução de Patricia Zimbres para o 247

O Combo Democrático que controla remotamente o senil Presidente dos Estados Unidos por fone de ouvido/teleprompter nunca foi acusado de ser o aluno mais sabido da turma - de qualquer turma.

Isso explica por que um de seus membros, Nancy Pelosi, na ABC News, entregou todo o jogo da "invasão" russa dois dias - ou três, dependendo da matemática usada - antes do "cancelamento" do não-acontecimento.

Primeiro ela disse: "Se não estivéssemos ameaçando com sanções e tudo o mais, Putin certamente iria invadir". E então o trunfo na manga: 

"Se a Rússia não invadir, não quer dizer que ela nunca teve essa intenção. Quer dizer apenas que as sanções funcionaram".

Aqui, totalmente a descoberto, vemos a totalidade da "estratégia" democrata: uma "vitória" de política externa de eficácia duvidosa, que irá se desfazer meses antes da inevitável derrota nas eleições de meio de mandato.

Maria Zakharova, a versão eslava e feminina de Hermes, o Mensageiro dos Deuses da Grécia Antiga, chegou mais perto da verdade ao descrever a operação psicológica: O 15 de fevereiro de 2022 entrará na história como o dia do fracasso da propaganda bélica ocidental. Humilhados e destruídos sem que um único tiro fosse disparado".

Acrescente-se a isso o que o Chanceler Sergey Lavrov, sem papas na língua, disse sobre o "terrorismo da informação": "Temos muito a aprender com os truques usados [por nossos colegas ocidentais]".

Putin, mais uma vez, aplicou Sun Tzu para ganhar sem uma única batalha: "ganhar" aqui querendo dizer alcançar os objetivos colocados para esta rodada. 

Mas vai ficando cada vez mais perigoso. A Duma, por uma maioria de 78%, aprovou pedir ao Presidente que reconhecesse as Repúblicas Populares de Donetsk e Luhansk como estados "separados, soberanos e independentes". 

A decisão final cabe a Putin, que já sugeriu o que virá a acontecer a seguir. Embora qualificando "o que vem acontecendo em Donbass como um "genocídio" - usando como contexto os últimos oito anos - ele apontou que "temos que fazer todo o possível para resolver os problemas de Donbass, embora, acima de tudo, atendo-nos à (...)  implementação dos acordos de Minsk".

O que isso significa é que Putin dará a Kiev uma outra - e última? - chance de implementar Minsk: o acordo - sacramentado como lei pela ONU – que os americanos vêm sabotando de facto desde 2015.

O Conselho de  Segurança da Rússia não se deixará enganar, declarando que "O Ocidente vem conduzindo contra a Rússia uma operação de informação cuidadosamente planejada, com base no conceito de "guerra híbrida". O Conselho de Segurança também reafirma que "os países europeus serão responsáveis por provocações muito prováveis por parte de Kiev contra as Repúblicas Populares de Donetsk e Luhansk". Essas são palavras de Patrushev, e não de Jake Sullivan, o veado-paralisado-pela-luz-dos faróis. 

A parada de neo-nazistas

A visita do Primeiro-Ministro alemão Scholz a Moscou não foi exatamente um Porsche deslizando na pista de Nurburgring. Ninguém cospe banalidades impunemente ao conversar com Putin. Scholz: "Para nossa geração, uma guerra na Europa é inimaginável".  Putin: "A OTAN já provocou uma contra Belgrado".

Após semanas da incessante mistura americana de histeria e febre belicista, talvez seja tentador imaginar que Macron e Scholz pensem da mesma forma que Putin, exigindo que Kiev se sente à mesa com Donetsk e Luhansk para elaborar as emendas constitucionais necessárias para garantir a autonomia das duas regiões. Esse seria o único caminho para uma possível solução. Mas não há garantias de que esse caminho venha a ser tomado, tendo em vista o inamovível veto americano. 

Valentina Matvienko, a presidenta do Conselho da Federação Russa, mais uma vez enfatizou a única possibilidade de a Rússia chegar ao ponto de "intervir": "no caso de uma invasão das duas Repúblicas Populares de Donetsk e Luhansk pelas Forças Armadas da Ucrânia, a resposta russa será proporcional à escala da agressão".

Até mesmo Scholz, meio que timidamente, mais ou menos concordou que, da mesma forma que a OTAN na Iugoslávia, a Rússia, neste caso, teria o direito de invocar o Responsabilidade de Proteger (R2P) com o objetivo salvar milhões de detentores de passaportes russos das tropas de choque  da oligarquia do Banderastão/neonazista que Andrei Martyanov memoravelmente descreveu como o país 404.

Entre elas, o Batalhão Azov – que recruta neonazistas por toda a Europa - exibindo no braço insígnias Wolfsangel vindas diretamente da SS, e que agora se incorporou à Guarda Nacional da Ucrânia. As vastas e "revitalizadas"  redes stay-behind operadas pela CIA/MI6. E, é claro, o esquema de dez bilhões de dólares de Eric Prince (Blackwater/Academi) para montar um exército mercenário privado por meio de uma parceria entre a empresa Lancaster 6 e o serviço de inteligência ucraniano controlado pela  CIA.

Os dois desdobramentos cruciais 

A ofensiva-em-série americana de fake news/operação psicológica/nevoeiro de guerra conseguiu obscurecer os dois desdobramentos verdadeiramente cruciais dos últimos e estonteantes dias.

  1. A invasão de fato das águas territoriais russas por um submarino nuclear dos Estados Unidos, descrita como "completamente  irracional"  pelo Ministro da Defesa russo Sergei Shoigu.
  2. O recente voo do Sr. Kinzhal’s a Kaliningrado a bordo de um MIG-31K "Foxhound com capacidade Mach-3". Caso os palhaços do OTANistão continuem tendo ideias esquisitas, eles poderiam fazer uma ligação ao Sr. Khinzal. Ele responderá a chamada em velocidade hipersônica. Literalmente. 

 

Antes de a "invasão" não-invasão russa ser cancelada, Martyanov, deliciosamente, resumiu a situação:  "a ambivalência estratégica da Rússia agora aterroriza os americanos, porque os Estados Unidos não sabem o que virá depois da falsa bandeira, caso essa falsa bandeira consiga enganar os poodles europeus e reduzi-los à mais total submissão".

Sim, mas não termina até o transgênero gordo cantar. Uma falsa bandeira (ou bandeiras) continua no  radar  - considerando as toneladas de armas despejadas no 404; as tropas de mais de 150 mil homens aglomeradas bem na frente da linha de contato, equipadas com foguetes  120mm Grad absolutamente letais, com ogivas que, ao serem explodidas, soltam milhares de fragmentos metálicos afiados; e os milhares de mercenários treinados por instrutores poloneses, britânicos e da Blackwater/Academi.

O que realmente aconteceu nas ilhas Kuril, entre Hokaido e Kamchatka, diplomaticamente descrito por Shoigu, acabou por chegar à mídia russa. A primeira explicação foi que uma embarcação russa teria lançado torpedos de advertência contra o submarino americano. 

O que aconteceu foi que o submarino nuclear foi detectado pela SSK ou pela SSN russa, houve uma varredura e então, a fragata Marechal Shaposhnikov usou um sonar para intimar os visitantes intrusos  a se retirarem. Isso foi um gesto muito cortês. Em qualquer outra circunstância, o submarino teria sido afundado.

Isso, é claro, deve ser interpretado de forma realista: como mais uma ilustração patente de que a "nação indispensável" perdeu sua invulnerabilidade marítima. Para a Rússia, certamente. E, não vai demorar muito, também para a China. 

E isso é uma consequência direta do estado lamentável do setor de defesa americano, a principal área de estudo de Martyanov, e exemplificado pelo mais recente relatório da Associação Industrial de Defesa Nacional (NDIA).

A íntegra do relatório pode ser encontrada aqui. Deem uma olhada, por exemplo, nessa tabela mapeando a ênfase  na pesquisa e nas tecnologias emergentes.

Tecnologias

Emergentes

Ano Fiscal 2018

Ano Fiscal 2019

Ano Fiscal 2020

Alteração

relativa de interesse

Audiências

% Total

Audiências

% Total

Audiências

Inteligência Artificial

40

10,30%

39

8,99%

Espaço

38

9,79%

38

8,76%

Hipersônicas

24

6,19%

30

6,91%

Cíber

30

7,73%

39

8,99%

Ciência Quântica

21

5,41%

29

6,68%

C3 em rede

12

3,09%

10

2,30%

5G e próxima G

3

0,77%

21

4,84%

Biotecnologia

8

2,06%

5

1,15%

Microeletrônica

7

1,80%

6

1,38%

Autonomia

13

3,35%

11

2,53%

Energia Direcionada

11

2,84%

8

1,84%

Total de audiências

388

434

233

* de 2019 a 2020

Tabela 9.1, Fonte: Congressional Interest in Emerging Technologies (AF 2018-2020). Consideraram-se as audiências nas quais alguma forma relacionada à tecnologia emergente tenha sido mencionada pelo menos cinco vezes.

__________________________________________________________________________

91      Office of the Under-Secretary of Defense for Research and Engineering, "Modernization Priorities - DOD Research and Engineering", acessado em 10 de janeiro de 2022.

 

Áreas-chave, tais como espaço, tecnologia hipersônica e cibernética apresentaram uma queda. Paralelamente, há um "aumento" em três áreas interconectadas: Inteligência Artificial, C-3 (comando, controle, comunicações) totalmente integrado em rede e microeletrônica. O que sugeriria a tão conhecida  obsessão americana, desde Rumsfeld, com o emprego de um "campo de batalha inteligente". 

O ponto principal talvez seja o aumento na área de biotecnologia. Porque isso apontaria para um Império desesperado - já superado pela Rússia e em breve a ser neutralizado pela China – recorrendo à guerra biológica. Não é de admirar que a crucial declaração conjunta Rússia-China de 4 de fevereiro se refira enfaticamente ao perigo dos laboratórios de armas biológicas dos Estados Unidos. 

Para a lata de lixo, Batman!

Moscou não se desviou sequer por um momento do enfoque Sun Tzu – ao mesmo tempo em que, repetidamente, detalhava todas as suas exigências e linhas vermelhas. Washington e Bruxelas foram advertidos, em termos nada vagos, de que caso eles convençam seus capangas/mercenários a atacar Donbass, o 404 será reduzido a frangalhos. E, de todo o pacote, isso é o de menos: todos os sistemas de segurança do OTANistão serão também destruídos. 

A Rússia está esperando - como um exército de monges taoístas. Depois da "invasão" cancelada, ela pode até se dar ao luxo de desfrutar de um certo alívio cômico. As respostas "tecno-militares" estão prontas e, mais uma vez, é sua ambiguidade estratégica que vem enlouquecendo os americanos. Eles estão começando a se dar conta de que têm que negociar  a indivisibilidade da segurança e dos mísseis no Leste Europeu, porque ninguém, no Império Ucranizado, sabe qual será o próximo passo de Putin, Shoigu e Gerasimov.

E há também as galinhas sem cabeça. Após a "invasão" não ter acontecido da forma programada, os chanceleres do G-7 terão uma reunião de "emergência" ao final desta semana, na Alemanha, para coçar suas cabeças coletivas e tentar imaginar por que razão a invasão não ocorreu tal como esperado.

Da forma como as coisas andam, na calmaria que antecede a próxima tempestade, vamos nos acomodar, relaxar e lembrar-nos de 16 de fevereiro de 2022: o dia em que a mais recente fake news/operação psicológica de espectro total, planejada de comum acordo, acabou por lançar a "credibilidade" do OTANistão em uma viagem sem volta à lata de lixo da história.

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