Mostrando postagens com marcador Marina Silva. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Marina Silva. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 29 de junho de 2016

Moro já agendou outro show midiático? Artigo de Altamiro Borges

show

  Como sempre ironiza o afiado blogueiro Paulo Henrique Amorim, "o relógio do juiz Sérgio Moro é de uma precisão suíça". Na semana passada, quando o descartado Eduardo Cunha ameaçava delatar seus comparsas no "golpe dos corruptos" e a Polícia Federal finalmente prendia os donos do "jatinho-fantasma" de Eduardo Campos e Marina Silva, o "justiceiro" da Lava-Jato voltou a estrelar seu show midiático na prisão do ex-ministro Paulo Bernardo, na ação de busca e apreensão na casa da senadora petista Gleisi Hoffmann e na operação de guerra na sede nacional do PT, no centro de São Paulo. A tática diversionista de Sérgio Moro já está ficando manjada e todos se perguntam quando será o seu próximo lance: na véspera da votação do impeachment de Dilma no Senado, prevista para agosto?

As arbitrariedades do juiz Sérgio Moro foram criticadas até por parlamentares golpistas, que temem pelo seu futuro. O presidente do Senado, o peemedebista Renan Calheiros, anunciou que acionará o STF contra as arbitrariedades. Já Gleisi Hoffmann fez um duro discurso no Senado na segunda-feira (27). Para ela, a prisão do seu marido, Paulo Bernardo, "foi um despropósito do início ao fim. Prisão preventiva? Prevenir o quê? Um processo iniciado em meados de 2015, sem nenhuma diligência e nenhuma oitiva, mesmo por diversas vezes ter ele solicitado para depor. Qual risco oferecia meu companheiro à ordem pública, à instrução processual, à aplicação da lei?", questionou a senadora. 

Para ela, a operação foi um "show midiático" visando humilhar os que se opõem ao impeachment de Dilma. "A prisão foi surreal. Até helicópteros foram usados, força policial armada e muitos carros. Para que isso? Para chamar a atenção? Demonstração de força? Humilhação? Foi um uso de dinheiro público desnecessário. É também foi uma clara tentativa de abalar emocionalmente o trabalho de um grupo crescente de senadores que discordam dos argumentos que vem sendo usados para tirar da presidência uma mulher eleita legitimamente pelo povo brasileiro com mais de 54 milhões de votos".

Operação diversionista contra o PT

Já a direção do PT divulgou nota em que "condena a desnecessária, midiática, busca e apreensão na sede nacional de São Paulo. Em meio à sucessão de fatos e denúncias envolvendo políticos e empresários acusados de corrupção, monta-se uma operação diversionista na tentativa renovada de criminalizar o PT. A respeito das acusações assacadas contra filiados do partido, é preciso que lhes sejam assegurados o amplo direito de defesa e o princípio da presunção de inocência. O PT, que nada tem a esconder, sempre esteve e está à disposição das autoridades para quaisquer esclarecimentos".


No mesmo tom, o deputado gaúcho Paulo Pimenta criticou o show midiático. "Para cumprir mandato de busca e apreensão na sede do PT, se vê policiais federais vestidos como se fossem fuzileiros, com armas de grosso calibre... Não se vê esse espetáculo quando o alvo prioritário é o PMDB, que teve o presidente da Câmara Federal denunciado num esquema de milhões de dólares e contas no exterior”. Já o deputado Wadih Damous, ex-presidente da sessão carioca da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), disse que a ação da Polícia Federal visa "destruir o PT a qualquer custo. Utilizam o aparato policial para enriquecer o espetáculo político e midiático contra o partido".

O encontro com o "sinistro" da Justiça

O curioso em toda esta operação, que resultou na prisão de 24 pessoas em seis estados e no Distrito Federal -, é que ela foi deflagrada dois dias após o encontro do ministro interino Justiça, o truculento Alexandre de Moraes, com o "justiceiro" Sérgio Moro. Indagado sobre a estranha coincidência, o sinistro respondeu na maior caradura: "Compareci a Curitiba numa visita institucional de apoio e de oferta de infraestrutura e recursos humanos para que a Lava-Jato continue fazendo seu trabalho. Não há nenhuma relação com esta operação". Ele ainda garantiu que o Michel Temer "apoia totalmente o combate à corrupção e à Lava-Jato". Só mesmo os midiotas devem ter acreditado na bravata proferida por um dos mais ativos participantes do "golpe dos corruptos"! 


Na prática, o show midiático de Sérgio Moro na semana passada serviu para dar fôlego ao governo golpista, que andava meio acuado. Como observa Bernardo Mello Franco, um dos poucos jornalistas com senso crítico da Folha, a ação policial "abala a moral da tropa dilmista. Ela ocorre num momento em que o noticiário policial se voltava contra o PMDB de Michel Temer. Por isso, a desgraça do ex-ministro foi motivo de comemoração discreta no Planalto. No front petista, a reação foi de desânimo e perplexidade. 'Isso vai dar um alívio ao Temer e uma desarticulada na gente', comentou um senador, em conversa reservada". Ou seja, de fato "o relógio do juiz é de uma precisão suíça". Agora é esperar por mais um show midiático de Sérgio Moro para consolidar o "golpe dos corruptos"!

*****

Leia também:

Fonte: Blog do Miro

segunda-feira, 7 de março de 2016

O fundo do poço do atual cenário político, por Florestan Fernandes Jr

"No barraco pelo poder, todo o podre da nossa "Velha Nova República" veio à tona e o mau cheiro se espalhou rapidamente. Amantes que receberam dinheiro de contas em paraíso fiscal, empresários de comunicação que sonegam impostos e constroem mansões em áreas de reserva ambiental, aeroportos construídos em fazenda de governadores, agentes da PF que vendem informações sigilosas, contas secretas do presidente da Câmara dos Deputados, triplex na praia e apartamento em bairro chique de Paris."
O FUNDO DO POÇO
Passei 3 dias em silêncio refletindo sobre os acontecimentos no Brasil. O que vou dizer não vai agradar muitos dos meus amigos, mas é o meu sentimento. Alguns políticos que marcaram minha geração e alimentaram meus melhores sonhos se distanciaram de alguns princípios. De Fernando Henrique a Lula de Covas a Zé Dirceu. É triste constatar hoje as escorregadas, pra dizer o mínimo, que muitos desses ícones da política deram depois que chegaram ao poder.
Não é ilegal receber dinheiro de empreiteiras e bancos para financiar institutos privados como fizeram o sociólogo e o operário. Mas, para mim, é antiético. Como é antiético um juiz aceitar prêmios de órgãos de comunicação em plena operação que mexe com interesses financeiros e políticos dessas empresas. 
Complicado entender os princípios que norteiam uma ex-empregada domestica e defensora dos seringueiros fazendo campanha tendo à tiracolo um grande grupo empresarial e um poderoso banco privado. E como explicar a metamorfose que transformou o Geraldinho, um jovem deputado boa praça, no imperador de um estado que governa com mão de ferro protegido por parte da justiça e da imprensa? Qual o real compromisso de partidos que fazem das obras públicas uma negociata por dinheiro para campanhas milionárias ou para o enriquecimento ilícito?
Nesse ponto, nenhuma das grandes legendas é melhor que a outra. Todas têm um rastro de pólvora ligado aos caixas dois de empreiteiras, bancos e multinacionais. Os casos vão da Petrobras passando pela Cemig em Minas, Metrô de São Paulo e desaguando na merenda escolar roubada de nossas crianças.
No barraco pelo poder, todo o podre da nossa "Velha Nova República" veio à tona e o mau cheiro se espalhou rapidamente. Amantes que receberam dinheiro de contas em paraíso fiscal, empresários de comunicação que sonegam impostos e constroem mansões em áreas de reserva ambiental, aeroportos construídos em fazenda de governadores, agentes da PF que vendem informações sigilosas, contas secretas do presidente da Câmara dos Deputados, triplex na praia e apartamento em bairro chique de Paris.
Para temperar a podridão, os vazamentos seletivos que manipulam a opinião pública e comprometem totalmente a Lava Jato. Uma operação que desde seu início vem sendo usada politicamente e que apresentou na última sexta-feira um espetáculo lamentável. A condução coercitiva, além de ilegal, fez do ex-presidente Lula um "preso por algumas horas”. Deveríamos bater panelas pelo todo da obra.
Nossos representantes chegaram ao fundo do poço e estão levando com eles nossos empregos, nossa autoestima e, se a irresponsabilidade continuar, a nossa democracia.

sexta-feira, 26 de setembro de 2014

Boaventura de Sousa Santos fala sobre o perigo Marina Silva






  Boaventura de Sousa Santos é um dos mais reconhecidos e importantes cientistas sociais da atualidade. Titular de Sociologia, Economia e Ciências Políticas nas universidades de Coimbra e da Yale University, aqui ele fala do perigo e da representação reacionária de um governo Marina Silva

 O artigo a seguir foi extraído do site da revista Carta Maior:


 O que está em jogo no Brasil

O que há de verdadeiramente "novo" na candidatura de Marina Silva significa um retrocesso não só político como civilizacional.


 Escrevo esta crônica de Cuiabá, capital do Estado do Mato Grosso e que é também a capital do que no Brasil se designa por agronegócio (agricultura industrial de monocultura: soja, algodão, milho cana do açúcar), a capital do consumo de agrotóxicos que envenenam a cadeia alimentar e da violência contra líderes camponeses e indígenas que defendem as suas terras da invasão e do desmatamento ilegais. Reúno-me com líderes de movimentos sociais, um deles (indígena Xavante) chegado à reunião clandestinamente por estar sob ameaça de morte. Deste lugar e desta reunião torna-se particularmente claro o que está em jogo nas próximas eleições no Brasil.


  As classes populares – o vasto grupo social de pobres, excluídos e discriminados que viu o seu nível de vida melhorado nos últimos doze anos com as políticas de redistribuição social iniciadas pelo Presidente Lula e continuadas pela Presidente Dilma – estão perplexas mas têm os pés bem assentes no chão e não me parece que sejam facilmente iludidas. Sabem que as forças conservadoras que se opõem à Presidente Dilma estão apostadas em recuperar o poder político que perderam há doze anos. Conscientes de que a época Lula transformou ideologicamente o país, não o poderão fazer pelos meios e com os protagonistas habituais. Para pôr fim a essa época é necessário recorrer a alguém que a evoque, Marina Silva, o desvio contra-natura para chegar ao poder. A pouco e pouco as classes populares vão conhecendo o programa de Marina Silva e identificando, tanto o que nele é transparente, quanto o que nele é mistificatório.


 É transparente o regresso ao neoliberalismo que permita os lucros extraordinários decorrentes das grandes privatizações (da Petrobras ao pré-sal) e da eliminação da regulação macroeconómica e social do Estado. Para isso se propõe a total independência do Banco Central e a eliminação das diplomacias paralelas (leia-se, total alinhamento com as políticas neoliberais dos EUA e da UE). É mistificatório o recurso a conceitos como o de “democracia de alta intensidade” e de “democratizar a democracia” – conceitos muito identificados com o meu trabalho mas de que é feito um uso totalmente oportunístico – como se fosse uma novidade política quando, de fato, do que se trata é, no seu melhor, a continuação do que tem vindo a ser feito em alguns estados de que é exemplo mais notável o do Rio Grande do Sul.


  Acresce a tudo isto que o que há de verdadeiramente novo na candidatura de Marina Silva significa um retrocesso não só político como civilizacional. Trata-se da certificação da maioridade política do evangelismo conservador. O grupo parlamentar evangélico é já hoje poderoso no Congresso e o seu poder está totalmente alinhado, não só com o poder econômico mais predador (a bancada ruralista), a que a teologia da prosperidade confere desígnio divino, como com as ideologias mais reacionárias do criacionismo e da homofobia. Marina, se eleita, levará tais espantalhos ideológicos para o Palácio do Planalto para que de lá façam a pregação do fim da política, da ilusão da diferença entre esquerda e direita, da união entre ricos e pobres. Tirando o verniz religioso, trata-se do regresso democrático à ideologia da ditadura, no ano em que o Brasil celebra o mais longo e mais brilhante período de normalidade democrática da sua história (1985-2015).

  Em face disto, por que estão perplexas as classes populares? Porque a Presidente Dilma nada faz ou diz para lhes mostrar que está menos refém do agronegócio que Marina Silva. Nada faz ou diz para mostrar que é urgente iniciar a transição para um modelo de desenvolvimento menos centrado na exploração voraz dos recursos naturais que destrói o meio ambiente, expulsa camponeses e indígenas das suas terras e assassina os que lhe oferecem resistência. Bastaria um pequeno-grande gesto para que, por exemplo, os povos indígenas e afrodescendentes se sentissem protegidos pela sua Presidente: mandar publicar as portarias de identificação, de declaração e de homologação de terras ancestrais, portarias que estão prontas, livres de qualquer impedimento jurídico e apenas engavetadas por decisão política.

  O que as classes populares e os seus aliados parecem não saber é que não basta querer que a Presidente Dilma ganhe as eleições. É necessário vir para a rua lutar por isso. Ao contrário, os adversários dela sabem isso muito bem.

segunda-feira, 22 de setembro de 2014

A ação dos reacionários e o chumbo grosso que virá faltandos poucos dias para as eleições em artigo de Ricardo Melo para a Folha de São Paulo




Extraído da Folha Uol:

Chumbo Grosso



Ricardo Melo



Se alguma coisa a campanha eleitoral propiciou, foi clarificar os verdadeiros interesses em conflito no país. A ficção de uma terceira via voltou para o ralo. Tanto nas declarações como nas proposições e na base social que as apoiam, as candidaturas de Marina Silva e Aécio Neves têm se aproximado de maneira indiscutível.

O confronto em jogo está evidente. Os dois candidatos oposicionistas afirmam em alto e bom som que o objetivo é tirar o PT do poder. As articulações de bastidores com vistas a um eventual segundo turno acontecem a céu aberto. O ex-presidente FHC resumiu o sentimento num jantar com milionários pró-Aécio: "Apelo mesmo". Um bordão de amplo espectro.

A esta altura, Aécio Neves, de candidato competitivo, viu-se reduzido a moeda de troca. Cardeais tucanos negociam sem constrangimento o voto em Marina para "impedir o mal maior". A ironia é que isso acontece justo no momento em que algumas pesquisas injetaram sobrevida ao ex-governador de Minas.

Já a "entourage" de Marina escancara as opções da ex-ambientalista. Quer porque quer credenciar-se como candidata do grande capital. Corre atrás da alta sociedade seja onde for, como um trator à procura de uma árvore para derrubar. Fala em "atualizar" as leis do trabalho. Para bom entendedor, tais palavras bastam. Seus comícios populares se esvaziam na mesma proporção em que proliferam encontros com madames, empresários graúdos e financistas internacionais.

Claro, faz parte manter uma embalagem social. Para tentar preservar alguma popularidade entre os pobres, Marina recorre à sua origem humilde e sofrida -algo inquestionável. Problema: do outro lado estão um ex-metalúrgico que também passou fome e chegou à Presidência e uma militante torturada por defender a liberdade nos anos da ditadura. Ou seja, na comparação, até aí morreu Neves, com o perdão da coincidência.

O maior risco para o PT é calçar o salto alto e passar a viver de louros passados. Verdade seja dita: com ou sem barbeiragens do IBGE, os indicadores sociais, inclusive os anunciados pela ONU, mostram que o país mudou para melhor. Isto é fato. Mas o modelo de agradar gregos e troianos exibe sinais de esgotamento.

A campanha pela Constituinte exclusiva para uma reforma política até agora foi relegada a nota de rodapé em alguns discursos petistas. Medidas como a taxação das grandes fortunas dormitam nos escaninhos da legenda. A submissão às tergiversações do comandante do Exército em relação às torturas é indigna da tradição de um partido que se pretende popular.

Nestas duas semanas que precedem o primeiro turno, é possível prever chumbo grosso pela frente. Dossiês anônimos, vazamentos seletivos, fotos de maços de dinheiro, notas de agências de risco, especulação financeira, ataques pessoais -tudo será amplificado numa eleição tão disputada. Para separar o joio do trigo, não há outro caminho: mostrar o que se fez mas também dizer o que se fará.

URNA E TAPETÃO

As investidas do comitê de Marina Silva contra sites na internet, bem como a tentativa de Cid Gomes de tirar de circulação a revista "IstoÉ", pegam muito mal. O Brasil tem uma montanha de leis para reparar eventuais danos por acusações inverídicas. Tentar impedir por antecipação que reportagens e o debate político venham a público só serve para desqualificar os autores dessas ações. 


Ricardo Melo, 58, é jornalista. Na Folha, foi editor de 'Opinião', editor da 'Primeira Página', editor-adjunto de 'Mundo', secretário-assistente de Redação e produtor-executivo do 'TV Folha', entre outras funções. Também foi chefe de Redação do SBT (Sistema Brasileiro de Televisão), editor-chefe do 'Diário de S. Paulo', do 'Jornal da Band' e do 'Jornal da Globo'.

segunda-feira, 15 de setembro de 2014

Sobre o ódio implícito no discurso de Marina Silva



O texto a seguir é de Fábio de Oliveira Ribeiro

Meditações meditabundas: sobre o ódio implícido no discurso de Marina Silva


Fonte: Luis Nassif Online


Esta semana Marina Silva acusou seus adversários de estarem fazendo uma “campanha de ódio” contra ela. Vários comentaristas políticas sustentaram que ela tem razão, outros disseram que a candidata do PSB está apelando querendo aproveitar a imagem de vítima. Notei algo bem mais perigoso no discurso da ex-petista.

Há duas maneiras de incitar o ódio. A primeira e mais evidente é aquela que se faz de maneira direta. Neste caso o autor do discurso nomeia e desqualifica a vítima, não reconhecendo nela qualidades humanas, titularidade de direitos ou atributos de cidadania que lhe permitam reivindicar algo do Estado. Os exemplos mais claros deste tipo de discurso na atualidade são a homofobia do pastor Malafaia e a criminalização da indigência social promovida pela jornalista Rachel Sherezade. Um instiga a violência contra homosexuais, a outra acarretou uma onda de linchamentos de suspeitos negros miseráveis.

A segunda forma de incitar o ódio é um pouco mais sofisticada. O autor deste tipo de discurso se coloca na posição de vítima para levar seus apoiadores a acreditarem que cometem atos de justiça ao vingar com violência as calúnias, difamações e injúrias cometidas contra seu líder pelos adversários. O cálculo feito pelo autor deste tipo de discurso é o seguinte: se alguém cometer uma violência em minha defesa, o ato praticado em meu favor intimidará meus adversários impedindo-os de me culpar pelo resultado uma vez que não pedi para que eles fossem agredidos.

Num Estado de Direito, o discurso de ódio implícito é mais perigoso do que o discurso de ódio direto, pois:

“Os discursos políticos em geral qualificados como ‘extremistas’ são também os que aparecem, do ponto de vista psicológico, como os mais regressivos. De fato, eles buscam, na matriz do imaginário infantil, os meios para ‘ler’ e interpretar as realidades da crise. Alimentam-se do caos da sociedade, esteja ela ou não em guerra, para dizer: ‘Vejam como temos razão!’ Quanto a isso, as relações entre o imaginário e o real são contraditórias apenas em aparência. Claro, é mesmo nas representações imaginárias do carrasco que, primeiro, se constrói a figura da vítima, da ‘sua’ vítima.” (PURIFICAR E DESTRUIR, Jacques Sémelin, Difel, 2009, p. 44/45)

Marina Silva representa um grupo político e religioso minoritário. Mas a sede dela e de seus apoiadores de chegar ao poder é evidente. Enquanto a candidatura dela crescia nas pesquisas ela não fez absolutamente nada para criminalizar a oposição. Foi somente quando Dilma Rousseff começou a recuperar as intenções de voto no primeiro e no segundo turno que a candidata do PSB disse que está sendo vítima de um discurso de ódio. Num contexto de disputa incerta, este tipo de discurso pode funcionar como uma senha para seus apoiadores desencadearem violências contra o grupo oponente? Sim e não.

A ambiguidade da resposta à pergunta é preocupante, pois sabemos que:

“Indubitavelmente, os indivíduos são tragados pela dinâmica de morte em massa, mas, mesmo assim, eles sem dúvida sabem como tirar proveito. Não lhes faltam oportunismo e cálculo para instrumentalizar seus efeitos em benefício próprio. Por isso, na escala individual, as razões da passagem ao ato são múltiplas. O que é verdadeiro para determinado indivíduo, em preciso momento, não é para outro. E é exatamente essa variabilidade de motivos privados que ajuda a dar ao assassínio a sua dimensão de massa. Os indivíduos entram na dinâmica assassina não como autômatos balbuciando um mesmo discurso ideológico estereotipado, mas sim com histórias diferentes e, daí, com expectativas e motivações pessoais. A implicação comum para causar mortes resulta das posturas variadas e equívocas.” (PURIFICAR E DESTRUIR, Jacques Sémelin, Difel, 2009, p. 390/391)

Apesar dos acertos dos governos Lula e Dilma, o anti-petismo virulento e irracional faz parte da realidade política brasileira. O fenômeno nasceu da retórica agressiva dos tucanos (frustrados com suas seguidas derrotas em disputas presidenciais) e tem sido diariamente alimentado por vários articulistas da grande imprensa (Reinaldo Azevedo, Diogo Mainardi, Demétrio Magnoli, Olavo Carvalho etc...). O anti-petismo já resultou em atos violentos, como aqueles que foram vistos na Av. Paulista ano passado quando filiados do PT foram agredidos por manifestantes de direita que infiltraram o MPL. No Facebook há comunidades de extrema-direita que pregam abertamente um golpe de estado e a prisão e perseguição política dos petistas.  

O que aconteceria à disputa eleitoral brasileira este ano se fanáticos religiosos que apóiam a candidata do PSB agredirem candidatos do PT? É desconhecido o número de pessoas suscetíveis aos discursos de ódio direitos de Malafaia e da Rachel Sherezade e aos discursos de ódio indiretos da candidata do PSB e dos retóricos anti-petistas influentes na imprensa que estão no campo de Marina Silva. A julgar pelo aumento de linchamentos e agressões a homosexuais, podemos supor que eles não são poucos. Formularei a pergunta de outra maneira. O que ocorreria se a própria Marina Silva fosse agredida por alguém acusado de estar a serviço dos petistas?

A violência política sempre começa com um ato simbólico, com uma bolinha de papel atingindo a cabeça do candidato adversário por exemplo. Nas últimas eleições a temperatura foi elevada ao extremo por José Serra. Nos quatro anos que se seguiram a eleição de Dilma Rousseff a imprensa atacou o PT e a presidenta de maneira sistemática, sempre com o intuito de assegurar uma vitória eleitoral na próxima eleição.

Uma derrota de Marina Silva é possível. Impossível dizer se aqueles que a apóiam estão dispostos a correr o risco. A Casa Grande tem dado indicações claras de que quer voltar ao poder de qualquer maneira. Neste contexto, a violência política real ou simulada, intencional ou difusa, pode acarretar um verdadeiro massacre.

“Distingamos, enfim, a terceira utilização possível do massacre, principalmente por atores não estatais (ou, pelo menos, assim supostos). Nesse caso, a finalidade é a de agredir em um ponto preciso o grupo visado, para provocar em seu interior um choque traumático intenso, que seja capaz de dobrar a política de seus dirigentes. Como os organizadores do massacre sabem que constituem minoria na sociedade em que agem, o recurso a tal procedimento espetacular lhes permite, já de início, se afirmar na cena pública, chamando a atenção para a sua causa. Quer reivindiquem a responsabilidade ou se mantenham anônimos, eles acham que os efeitos políticos da ação de destruição podem pesar sobre quem decide a política: por exemplo, criando uma crise das instituições ou bloqueando uma evolução política que eles desaprovam.” (PURIFICAR E DESTRUIR, Jacques Sémelin, Difel, 2009, p. 489/490)

Até o presente momento a grande imprensa não atacou Marina Silva com a mesma intensidade, virulência que tem atacado Dilma Rousseff. Os ataques que a candidata do PSB sofreu de alguns blogueiros são irrelevantes do ponto de vista político, pois o público alvo destes é reduzido e composto majoritariamente por eleitores da adversária de Marina Silva. Apesar de estar sendo constantemente atacada diante de um público bem maior, Dilma Rousseff não se fez de vítima. A candidata do PT tem sido bem mais responsável, ela sentiu na carne quais são as consequencias dramáticas provocadas por um discurso de ódio.

Os fatos contrariam as opiniões de Marina Silva. E ela deveria recusar a postura agressiva que adota ao se dizer vítima, pois:

“Fatos e opiniões, embora possam ser mantidos separados, não são antagônicos um ao outro; eles pertencem ao mesmo domínio. Fatos informam opiniões e as opiniões, inspiradas por diferentes interesses e paixões, podem diferir amplamente e ainda serem legítimas no que respeita à sua verdade factual. A liberdade de opinião é uma farsa, a não ser que a informação fatual seja garantida e que os próprios fatos não sejam questionados. Em outras palavras, a verdade fatual informa o pensamento político, exatamente como a verdade racional informa a especulação filosófica.” (ENTRE O PASSADO E O FUTURO, Hannah Arendt, Perspectiva, 2009, p.295/296)

Apesar de apoiar Marina Silva e de saber que são irrelevantes e minoritários os eventuais ataques feitos contra ela, a grande imprensa faltou com a verdade factual. Por razões que não são ignoradas, os jornais, telejornais e revistas admitiram como verdadeira a opinião divulgada por Marina Silva de que ela é vítima de uma campanha de ódio. Isto tende a reforçar a verdadeira campanha de ódio que tem sido feita diariamente pelos apologistas do anti-petismo (Malafaia, Rachel Sherezade, Reinaldo Azevedo, Diogo Mainardi, Demétrio Magnoli, Olavo Carvalho etc...).

Marina Silva precisa começar a ter cuidado com o que deseja. É muito fácil montar num tigre, difícil mesmo é descer dele. Ao se apoiar em grupos que difundem discursos de ódio diretos e indiretos contra o PT, ao usar sua extrema visibilidade como candidata preferida por grupos poderosos de mídia para veicular um discurso que legitima e instiga de maneira sutil a violência contra seus adversários, a candidata do PSB pode provocar uma verdadeira tragédia nacional. Presumo que, pessoalmente, ela não deseje um massacre. Mas como sabemos, nem sempre um líder político consegue prever exatamente o que está começando.

quarta-feira, 3 de setembro de 2014

Marina Silva, messianismo, fundamentalismo religioso e o poder ao mercado fianceiro



Segue texto da Professora Flávia Biroli, do Instituto de Ciência Política da UnB.

A candidata do PSB, Marina Silva, se apresenta como a representante da “nova política”.

A política não seria feita de acordos e disputas entre partidos políticos e grupos na sociedade, mas de uma reunião das pessoas “de bem”. Quem define quem faz parte da “nova política” é a própria candidata, com uma sabedoria que, ao que parece, viria da pureza de quem está fora da política e imbuída de uma missão.

Acreditava que no Brasil de hoje não havia o risco de um novo salvador. Afinal, o momento em que Collor apareceu como candidato da “nova política”, contra a política dos marajás, parece não apenas distante, mas de algum modo aquém do patamar em que as disputas se colocaram desde então.

Estava enganada. Temos hoje novamente uma candidata que se apresenta como a representante da “nova política”.  A recusa da dinâmica política aparece como a solução, os partidos e as instituições são vistos como entraves, mas sua candidatura só foi possível porque seguiu a rota mais convencional do casuísmo, tomando carona em um partido que nada tem a ver com a agenda que parecia ser a sua. E tudo para garantir que não ficaria de fora da disputa eleitoral, mesmo não acreditando nos caminhos desta política.


Marina Silva também se apóia em concepções da economia que nada têm de novas, que são defendidas há décadas pelos banqueiros e pelos economistas que estão com ela – eles tiveram, aliás, lugares bem pagos e de prestígio em consultorias, bancos e em governos anteriores.

Maior controle do mercado sobre o Banco Central (a independência do BC), ajustes na economia para restabelecer a “confiança” dos investidores, é assim o “novo” de Marina Silva. Ela é “nova” financiada pelo Itaú, fazendo acordos com o agronegócio e com uma agenda econômica produzida por André Lara Resende (quem não se lembra dele, pode lançar no google confisco da poupança no governo Collor, grampo do BNDES, banco Matrix, privatização da Telebrás etc.) e Eduardo Gianetti (que repete a fórmula dos “ajustes duros” e da autonomia do Banco Central, além de elogios à política econômica de Fernando Henrique Cardoso).

O fundamentalismo religioso a coloca numa posição em que a crença supera os direitos individuais. Já falou a favor do criacionismo, recusando o conhecimento científico. É contrária aos direitos dos homossexuais e prefere diluir os problemas em noções vagas de diferença a enfrentar o fato de que sua posição colabora para a recusa da cidadania e para a violência contra tantas pessoas. É mulher na política, mas retirou a palavra “sexismo” do seu programa de governo. Afinal, conflitos são coisa do passado.

O que ela teria de distinto, sua identidade de ambientalista, vai rapidamente pelo ralo. Afinal, é preciso garantir a “confiança”. E como não há conflitos na sociedade dos discursos de Marina Silva, as dúvidas sobre os transgênicos se resolvem definindo áreas de plantio para transgênicos e não-transgênicos: um caminho para a paz entre o agronegócio e os ambientalistas, afinal! E o etanol se transforma em aliado do ambientalismo, garantindo um lugar para os usineiros no pacote da “nova política”.

O messianismo garante que Marina Silva seja “líder nata” sem propostas e com a entrada mais tradicional no jogo político. Ela está acima das disputas e dos conflitos. E os acordos… bem, os acordos são feitos à velha moda, nos bastidores, enquanto ela repete “nova política”, “nova política”, “nova política”.

Sabemos, no entanto, que os conflitos sociais não desaparecem e os apoios de banqueiros, investidores e empresários são cobrados depois. Sabemos também que por mais complicado que seja governar com instituições democráticas, sem elas nós todos nos tornamos reféns do que nos reservam as boas intenções ou a vontade de uma “iluminada”.

(*) Professora do Instituto de Ciência Política da Universidade de Brasília
Fonte: Carta Maior